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Rev. Bras. Saude Mater. Infant. vol.2 número2

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Academic year: 2018

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Rev. bras. saúde matern. infant., Recife, 2 (2): 89-90, maio - ago., 2002

Um novo enfoque da educação médica

Medical education: a new approach

Assistimos, nestes últimos anos do século XX, o surgimento de saudáveis movimentos pela renovação dos processos educativos. Isto decorreu principalmente do fato de que o mito do progresso se instalou na consciên-cia coletiva, sinalizando a qualificação educacional como condição prevalente do desenvolvimento econômico-social. Igualmente porque se descortinava um cenário internacional de extrema valorização do conhecimento, de acirrada competição crescentemente exigente de competência cognitiva, porém com uma nova perspectiva do conhecimento: daquele que é modulado por uma atualização constante e não está baseado na fragmentação, isto é, os recortes dos conhecimentos não se constituem de retalhos superpostos.

A educação médica não ficou à margem desses projetos renovadores. Diante de um mundo - e particular-mente o Brasil - marcado por instabilidades e tensões, e por exclusões e assimetrias sociais, gera-se a necessi-dade de capacitar um profissional habilitado para pensar criticamente a socienecessi-dade em que está inserido, para utilizar os conhecimentos a partir do seu potencial de apoio à intervenção na realidade, que venha a ser mais participante de soluções do que gerador de problemas, e preparado para prestar cuidados contínuos e resolu-tivos à comunidade.

Esse propósito requer romper com a camisa de força das tradições profissionais e disciplinares, questionar a objetividade da educação e prática médicas frente às exigências sociais, atribuir significado ao nascente co-nhecimento e reinterpretar os objetivos e compromissos para com a sociedade. Portanto, exige um profissional que não seja mero portador de um conhecimento científico, mas que o exercício da crítica social esteja presente em sua ação, capaz de enxergar para além dos modismos e que tenha a preocupação de não se contentar em apenas reproduzir, conduta que representaria a indesejável "cultura da dublagem", e consciente do alertado pelo sociólogo Pierre Bourdieu: "explicar as contradições não é resolvê-las".

Em face de um cenário dinâmico e mutante, de um contexto sócio-sanitário preocupador e do ritmo aluci-nante das mudanças no campo da ciência e da tecnologia, urge incorporar melhores e mais eficientes formas de ministrar o ensino, alicerçando a formação do médico com novos fundamentos, tendo como eixos a história so-cial da doença e o atual conceito da saúde. Outrossim, implica considerar que não existem caminhos previa-mente definidos e prontos para transformações, e que há uma certa inércia da sociedade. Daí o imperativo de buscar alternativas que procurem sintonizar os currículos com essa nova realidade, que não visualizem as disci-plinas como territórios estanques, porém como um espaço estruturante de conhecimentos e práticas que man-tenha, permanentemente, um diálogo fecundo com as ciências sociais, supere resquícios de corporativismo au-to-defensivo e não se oriente pelo intuito de aumentar o número de disciplinas e as quantidades de conteúdo.

Outro aspecto importante a levar em conta é o estabelecimento de relações de coerência entre o ensino médico e as políticas de saúde, para formar um profissional que atenda satisfatoriamente as demandas da popu-lação e do próprio sistema de saúde, propósito que poderá ser alcançado mediante um enfoque generalista na formação, que arrefeça a tendência exagerada à especialização. Basta atentar para o que constatou a Comissão Interinstitucional Nacional de Avaliação do Ensino Médico (CINAEM): os recém-graduados dominam, aproxi-madamente, 50% dos conhecimentos que deveriam ter ao término do curso, e que o ingresso na residência de mais de 2/3 dos médicos que se graduam atesta que os cursos de graduação perderam a terminalidade. Cabe, então, indagar: que modalidade de educação médica deve ser desenhada para o século XXI, considerando a re-orientação do modelo assistencial brasileiro, as necessidades epidemiológicas e sociais e o aperfeiçoamento contínuo do profissional formado?

Desponta como iniciativa promissora o Programa de Incentivo a Mudanças Curriculares nos Cursos de Medi-cina (PROMED), instituído conjuntamente pelas Secretarias de Políticas de Saúde do Ministério da Saúde e de Ensino Superior do Ministério da Educação e a Associação Brasileira de Educação Médica (ABEM), para apoio à construção de um modelo pedagógico inovador, que enfoque as dimensões sociais, econômicas e culturais da po-pulação, instrumentalizando o profissional no atendimento ao binômio saúde/doença na esfera familiar e comu-nitária e não apenas na instância hospitalar. O incentivo proposto pelo PROMED objetiva deslocar o eixo da for-mação, centrado na assistência individual prestada em unidades hospitalares, para um outro processo em que a formação esteja sintonizada com o Sistema Unificado de Saúde (SUS), especialmente com a atenção básica.

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ARRUDA, BKG

90 Rev. bras. saúde matern. infant., Recife, 2 (2): 89-90, maio - ago., 2002

Entendemos de extraordinário alcance esse papel indutor do PROMED, como oportunidade propiciadora de qualificação universitária, assumindo que não se pode depender de uma transformação espontânea das institui-ções acadêmicas na direção assinalada pelo SUS, e que a operacionalização efetiva do Programa de Saúde da Família aponta para a revisão dos fundamentos teórico-conceituais e ético-humanistas da formação. Por outro lado, reconhece como indispensável sensibilizar os quadros docentes, a fim de que o professor tenha no aluno um parceiro, passando de transmissor de informações e explicador de temas disciplinares à condição de facili-tador, orientador e incentivador da aprendizagem; focalize o ensino em problemas sanitários prevalentes e sele-cione cenários educacionais diversificados, onde ocorra, desde o início do processo de formação, a interação ativa do aluno com a população e o sistema de saúde; e que utilize metodologias de ensino que proponham, concretamente, desafios a serem superados pelos estudantes.

Enfim, é preciso formar profissionais dotados de visão huamanística, côncios da jurisprudência da lei mo-saica, de que "o principal da vida não é o conhecimento, mas o uso que dele se faz"; que não fiquem insen-síveis diante de normas elementares de convivência humana e se lembrem sempre da advertência do genial Albert Einstein: "é terrível verificar que nossa tecnologia é maior do que nossa humanidade".

Bertoldo Kruse Grande de Arruda

Instituto Materno Infantil de Pernambuco, IMIP

Referências

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