31º ENCONTRO ANUAL DA ANPOCS
22 A 26 DE OUTUBRO DE 2007, CAXAMBU, MG.
ST4 - AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS NA PERSPECTIVA DAS CIÊNCIAS SOCIAIS
ALBERTO TEIXEIRA DA SILVA [email protected]
UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ
BRASIL E DESAFIOS MULTIDIMENSIONAIS DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS
Um espectro ronda a humanidade no século XXI: o aquecimento global. Para além de uma simples ameaça, esse fantasma está se tornando num dos maiores dramas da história contemporânea. Alain Lipietz diz que o ‘o espectro que assola o mundo é o radicalismo ecológico’ (GIDDENS, 1996: 227), hoje uma radical desordem global da biosfera. O fenômeno das mudanças climáticas tornou-se uma questão absolutamente fundamental que interroga as forças da sociedade moderna e desafia estruturas e processos de governança – do local ao global, diante do futuro sombrio, incerto e turbulento que se avizinha.
Discutir as causas, agravamento, mitigações e adaptações indispensáveis para o enfrentamento desse problema são atitudes decisivas no limiar do novo milênio. Não por acaso o assunto freqüenta diariamente sites, revistas, jornais, redes virtuais e mobiliza ações e campanhas no mundo inteiro. De assunto de botequim e passarelas de moda, mudanças climáticas adquiriram um status de mainstream (LEITE, 2007: 6).
A década de 1990 foi a mais quente do milênio e calamidades ambientais nos últimos anos como a seca na Amazônia, o furação Katrina que arrasou Nova Orleans nos Estados Unidos e o primeiro ciclone brasileiro no litoral de Santa Catarina, são sinais visíveis da crise do modelo hegemônico produtivista da sociedade contemporânea.
O aumento das temperaturas médias deixou de ser creditado à visão delirante dos ambientalistas radicais.
Além da ciência e grupos ecologistas, mercados financeiros e consumidores já estão se conscientizando da importância desse tema que atinge interesses comerciais, corporativos e compromete direitos básicos de cidadania relacionados à convivência sadia e equilibrada entre homem e natureza, previstos na legislação ambiental.
Prognóstico científico aponta gravidade e culpa o homem pelo caos climático.
A crise ambiental, um dos sinais mais visíveis da crise de civilização, impregnada e impregnando as dimensões políticas, econômicas, sociais, culturais, religiosas e éticas; assume uma importância crucial no projeto da crítica da modernidade e no horizonte da pós-modernidade, colocando em evidência a insustentabilidade do atual modelo civilizatório. 1
1 “A questão ambiental emerge como uma crise de civilização, caracterizada por três aspectos fundamentais de fratura e renovação: a) os limites do crescimento e a construção de novo paradigma de produção sustentável; b) o fracionamento do conhecimento e a emergência da teoria de sistemas e o pensamento da complexidade; c) o questionamento à concentração do poder do Estado e do Mercado, e as reivindicações da cidadania por democracia, eqüidade, justiça, participação e autonomia” (LEFF, 1999:
112).
A conclusão é notória desde a criação do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC, sigla em inglês), em 1988, pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) e pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), e a assinatura da Convenção-Quadro das Mudanças Climáticas na Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (ECO-92). Sucessivos estudos divulgados no âmbito dos organismos multilaterais e instituições governamentais embasam consenso científico que o padrão energético dependente de combustíveis fósseis (petróleo, carvão, gás natural), juntamente com a devastação das florestas, está interferindo diretamente nos ciclos vitais da biosfera de modo caótico.
Forjam um impasse societário de caráter multicivilizacional, que ignora fronteiras, territorialidades, culturas e raças.
O aquecimento global (global warming) deriva da concentração excessiva de gases do efeito estufa na atmosfera como o dióxido de carbono, ozônio, metano, óxido nitroso, que bloqueiam a irradiação do calor de volta, da Terra, para o espaço. O fenômeno do efeito estufa é natural e benéfico, pois sem ele, o planeta seria em média 30̊ C mais frio, e a vida, inviável. Contudo, mudanças climáticas moldadas por uma cadeia complexa de fenômenos intensificados pela revolução industrial, no final do século XVIII, estão minando a capacidade de suporte dos ecossistemas terrestres, através do aumento dos gases estufa provenientes das economias desenvolvidas, que adotam modelos produtivos altamente intensivos em energia não-renovável e estilos de consumo suntuário. Aumento dos níveis dos mares, ciclones, tufões, furacões, secas, enchentes, queimadas; enfim, um conjunto de situações turbulentas expõe uma crise mundial sistêmica e projeta desequilíbrios perturbadores que já ameaçam a segurança dos povos.
No último mês de fevereiro, véspera da divulgação do 4̊ Relatório do IPCC, uma manifestação inusitada tomou conta da capital francesa. Símbolo maior da cidade das luzes, os refletores da Torre Eiffel apagaram-se durante cinco minutos, testemunhado por ativistas e jornalistas, numa demonstração de alerta e denúncia contra os efeitos do aquecimento global. A cobertura da mídia foi instantânea e impactou na opinião pública internacional com a confirmação sombria do documento preliminar (o primeiro de uma série de quatro publicações agendadas para compor o relatório) que de forma categórica reforçou os relatórios anteriores. Afirmou que o aquecimento do sistema climático é inequívoco. A grande novidade é a redução das incertezas quanto à causa do fenômeno:
segundo os especialistas, existem 90% de chance de que as atividades humanas sejam o
principal fator de aquecimento global desde 1950. O relatório mostra ainda que, num cenário otimista, a temperatura média do planeta, em 2100, deve ser 3º C superior aos níveis pré-industriais, e o mais preocupante é que os resultados disso devem perdurar por séculos. Os cientistas estão convencidos de que haverá um rastro de perdas humanas e materiais, cujas conseqüências são imprevisíveis na configuração da geopolítica mundial (IPCC, 2007)
A multidimensionalidade das mudanças climáticas
O fenômeno das mudanças climáticas não pode ser compreendido na sua amplitude dentro dos cânones da ciência tradicional, positivista e fragmentada. O cientificismo e a conseqüente disciplinarização tem contribuído para a simplificação do conhecimento, impedindo a possibilidade de uma percepção totalizante de integração e religação de saberes.
As últimas décadas do século XX entraram para a história, como período marcado por transformações profundas e radicais na dinâmica do capitalismo mundial, acentuando as contradições de um modelo de desenvolvimento sob a ótica do fordismo- fossilista (ALTVATER, 1995), liberal-produtivismo (LIPIETZ, 1991) que, ao promover a acumulação de riquezas; produz desigualdades sociais alarmantes entre indivíduos e nações, e consome vorazmente a base de recursos naturais existentes no planeta.
O impasse ecológico contemporâneo representa a face dramática do esgotamento desse modelo, fundado na racionalidade instrumental, que gera padrões de produção e consumo insustentáveis e contribui para uma crise de civilização sem precedentes2. Revoluções cumulativas estão fazendo emergir uma civilização de danos globais, desencadeando múltiplas e crescentes mudanças: políticas, sociais, econômicas, ambientais, culturais e tecnológicas.
O sentido de dualidade de forças e projetos antagônicos exprime a tensão da contemporaneidade – de um lado, a manutenção de uma mentalidade utilitarista e predatória, uma lógica de destruição em curso, cuja essência se manifesta no primado da racionalidade técnica-instrumental, numa relação que coloca os recursos naturais como objeto de apropriação a serviço de uma minoria (países e pessoas) – “bens oligárquicos”
(ALTVATER, 1995); em detrimento de um bem estar social coletivo. Em oposição,
2 A denominada ‘crise de civilização’ remete a uma visão mais abrangente e universal dos problemas da humanidade. Ver com mais detalhes em Boff (1993), Leis (1999) e Santos (1997).
busca-se somar esforços em torno da perspectiva sustentabilista, onde a proteção do meio ambiente tem uma importância fundamental diante das políticas de desenvolvimento. Os desdobramentos dessa clivagem no interior do ambientalismo mundial, manifesta um dos impasses do atual modelo civilizatório (CALDWELL, 1990;
VIOLA, 1992; PAEHLKE, 1989).
Apesar do desencantamento do mundo, a célebre metáfora da jaula de ferro que aliena e subjuga o homem moderno anunciados por Max Weber (1864-1920) e a espoliação do trabalhador pela máquina capitalista denunciado por Karl Marx (1818- 1883), os clássicos da sociologia não teceram análises dos efeitos perversos do capitalismo industrial em relação ao meio ambiente. Como observa Michael Löwy, “(...) Se encontra, amiúde, em Marx ou Engels (e ainda mais no marxismo ulterior), uma tendência a fazer do ‘desenvolvimento das forças produtivas’ o principal vetor do progresso (...)” (LÖWY, 1999: p. 93/94). Na verdade, “Preocupações ecológicas nunca tiveram muito espaço nas tradições de pensamento incorporadas na sociologia e não é surpreendente que os sociólogos hoje encontrem dificuldades em desenvolver uma avaliação sistemática delas” (GIDDENS, 1991: 17).
Diante dos desafios da crise ecológica, a teoria social contemporânea esta repensando não só relações da sociedade com a “natureza”, mas os determinantes estruturais da distribuição dos males trazidos pela modernidade reflexiva – a sociedade de risco. Um dos pioneiros dessa abordagem, o sociólogo alemão Ulrich Beck considera que “Com o advento da sociedade de risco, os conflitos da distribuição em relação aos
“bens” (renda, empregos, seguros sociais), que constituíram o conflito básico da sociedade industrial clássica e conduziram às soluções tentadas nas instituições relevantes, são encobertos pelos conflitos de distribuição dos “malefícios”. Estes podem ser decodificados como conflitos de responsabilidade distributiva. Eles irrompem sobre o modo como os riscos que acompanham a produção dos bens (megatecnologia nuclear e química, pesquisa genética, a ameaça ao ambiente, supermilitarização e miséria crescente fora da sociedade industrial) podem ser distribuídos, evitados, controlados e legitimados” (BECK, 1997: p. 17).
O domínio da razão instrumental (ADORNO & HORKHEIMER, 1985), sobretudo nos períodos subseqüentes à dupla revolução (francesa e inglesa), moldou o processo civilizatório, sob a dinâmica da acumulação capitalista, intensificando os movimentos de expansão territorial e subordinação das formas de trabalho, dentro da lógica de ‘valorização’ do capital’. O modelo de desenvolvimento baseado em
combustíveis fósseis, que conforma a voracidade energética intensificada na segunda metade do século XX, com o boom das economias industrializadas (capitalistas e socialistas), apesar da prosperidade econômica trazida para muitos; tem se mostrado insustentável para a sobrevivência do planeta como um todo. Neste sentido, “a crise atual representa nada menos que o esgotamento de um estilo de desenvolvimento que tem se revelado ecologicamente depredador, socialmente perverso e politicamente injusto” (GUIMARÃES, 1992: p. 89).
No século XXI, não é mais possível minimizar os efeitos da crise ecológica, inserida dramaticamente na globalização. A “escassez ecológica” retrata a dramaticidade e extensão da crise da sociedade moderna (OPHULS, 1977;
GUIMARÃES, 1991; PÁDUA, 1992). A finitude dos recursos naturais, algo menosprezado pela economia neoclássica, constitui-se num dado de realidade que não pode ser ignorado.
A base ecossistêmica, que depende de tempo e condições orgânicas favoráveis para sua renovação, manifesta sobrecarga e responde trazendo ameaças para a reprodução das espécies como um todo. Contudo, parece haver certa lacuna nos estudos sobre os determinantes da crise socioambiental, que explicariam a insustentabilidade do estilo atual de desenvolvimento, sem relacionar e analisar de forma suficiente as implicações econômicas, sociais e políticas do processo de globalização, mais precisamente da intensificação recente, que descortina novos espaços para valorização do capital, acentuando as desigualdades e estabelecendo novos conflitos territoriais ou
“distribuição ecológica” de conflitos (MARTINEZ-ALIER, 1997).
A crítica da sociedade industrial vem acompanhada da critica da modernidade no contexto da globalização neoliberal, que potencializa as forças do mercado, não internaliza os custos ambientais e ignora os limites biofísicos. Os efeitos desestruturadores da lógica do capital sobre a natureza, transformada e recriada, na perspectiva da mercantilização e apropriação privada de bens (fruto do progresso material, domínio da técnica e da ciência); traz em seu bojo a pobreza e a destruição ambiental em escala mundial. Como observa Porto-Gonçalves (2006), o maior responsável pelos prejuízos ecológicos globais é um sistema que se globalizou globalizando a exploração da natureza.
Com efeito, a compreensão da complexidade e multidimensionalidade das mudanças climáticas no âmbito das ciências sociais passam por uma discussão sobre globalização. No estágio da alta modernidade e transição pós-moderna, a globalização
apresenta-se como uma das reflexões mais importantes e controversas neste final de século. As profundas clivagens que emergem do quadro das transformações radicais nos diferentes domínios da vida humana, constatam uma crise paradigmática, questionando as bases teórico-metodológicas explicativas herdadas do pensamento clássico. A crítica centra nas insuficiências dessas abordagens para a compreensão dos fenômenos cada vez mais complexos, que insistem em desafiar as bases epistemológicas do conhecimento científico.
As referências históricas que giravam em torno das sociedades nacionais estão sendo substituídas pela emergência de um padrão inovador de sociabilidade humana – a sociedade global. Este é o nível macrossocial emergente. “Existe uma nova natureza da relação microssocial-social-macrossocial. A teoria social moderna (desde o século XVII até, aproximadamente, a década de 70) foi construída considerando-se o macrossocial como a sociedade nacional em contexto internacional, o social como diversos níveis de agregação infranacional e o microssocial associado com o nível local. Por causa da intensificação do processo de globalização, o macrossocial passa a ser a sociedade planetária, o social diversos níveis intermediários, incluído o nacional, e o microssocial continua associado com o nível local” (VIOLA, 1998).
Compreender o fenômeno da globalização e suas conseqüências no mundo moderno é uma tarefa difícil e complexa, tendo-se naturalmente que optar por um recorte analítico mais apropriado, que apreenda os principais vetores da crise atual. Não resta dúvida de que se trata de um processo histórico dinâmico, objetivo, irreversível e multifacetado; ainda que prisioneiro ideológico do pensamento neoliberal, que se utiliza para imobilizar a história, com o falso argumento de relações petrificadas à la Fukuyama, que apontam para o “fim da história”. A globalização não é um novo mito inventado pelo livre mercado como insistem os céticos Hirst & Thompson (1998).
Sem subestimar as mudanças engendradas no período mais recente, que, aliás, apresenta traços específicos, conformando uma continuidade, mas também rupturas com o passado, faz-se necessário refletir sobre os indícios e tendências deste processo, mostrando que a globalização contemporânea faz parte da lógica inerente a dinâmica do capitalismo, da expansão das forças produtivas e das relações de produção, como também dos efeitos contraditórios que produz, conformando uma dialética que se impõe como base interpretativa da história.
Apesar das diferenças, autores como Wallerstein (1979, 1985), Braudel (1989), Ianni (1992, 1996) e Giddens (1991); concordam que os alicerces da globalização estão
intimamente associados ao surgimento da modernidade capitalista, ou seja, “o capitalismo foi uma influência globalizante fundamental precisamente por ser uma ordem econômica e não política; ele foi capaz de penetrar em áreas distantes do mundo onde os estados de origem não poderiam fazer valer totalmente a sua influência política” (GIDDENS, 1991: 74).
A modernidade revigorada pelo capitalismo tem um caráter globalizante, na medida em que este modo de produção se apresenta com capacidade de romper fronteiras, expandir-se continuamente por regiões e países, desintegrando e integrando novos espaços na perspectiva de mundializar-se. De fato, a globalização com o advento da modernidade capitalista constitui-se num processo amplificador de tendências pretéritas, penetrando em diferentes domínios da vida social (economia, política, cultura, ecologia, etc.).
Sem dúvida, uma dinâmica que cria e recria a sociedade, objeto de permanente transfiguração. Condensando essas transformações, pode-se afirmar que “o mundo atual e seus problemas são uma manifestação contemporânea da economia-mundo capitalista.
Esta é uma forma hierárquica e integrada de divisão do trabalho que se desenvolveu há cerca de meio milênio na Europa e se expandiu, abarcando o mundo inteiro, no começo deste século. A dinâmica básica de mudança social assim gerada é a incessante acumulação de capital” (TAYLOR, 1997: 48).
A internacionalização do capital tem sido um dos principais eixos da globalização, condensando uma surpreendente capacidade de expansão das forças produtivas, sob orientação de um mercado cada vez mais competitivo, redefinindo trajetórias e relações pretéritas, visto que, “Os fatores mais dinâmicos do processo de globalização não são representados pela ação dos governos ou das representações parlamentares em países que tentam articular mercados comuns ou integrados. Os agentes mais ativos e poderosos – na etapa atual do desenvolvimento da economia mundial – são as corporações ou conglomerados transnacionais. Eles constituem as forças e configurações mais importantes dos processos de produção, comercialização, desenvolvimento tecnológico e de viabilização das transações financeiras” (RATTNER, 1993: 176).
As estruturas e atribuições desempenhadas pelos Estados passam a sofrer restrições, diminuindo sensivelmente a soberania que detinham sobre seus territórios, suas finanças e as relações de controle sobre a sociedade. No entanto, a atuação do Estado-Nação guarda uma funcionalidade no movimento de transnacionalização do capital, adotando políticas favoráveis a maximização do empreendimento privado,
conforme os princípios do modelo neoliberal: estabilização econômica, programa de privatizações, contenção de gastos sociais; enfim, a adoção do “Estado-mínimo”.
“Quem comanda a economia global é cada vez mais o mercado financeiro: em última análise, são as grandes corporações, e não os governos, que decidem sobre câmbio, taxa de juros, rendimento da poupança, dos investimentos, preço de commodities etc.”
(VIEIRA, 1997: 81).
Esta fase do processo de acumulação capitalista compreende segundo François Chesnais a “mundialização do capital”, com o domínio da esfera financeira, que “foi se constituindo desde o início dos anos 80, em decorrência das políticas de liberalização e de desregulamentação das trocas, do trabalho e das finanças, adotadas pelos governos dos países industriais, encabeçada pelos Estados Unidos e a Grã-Bretanha” (CHESNAIS, 1999:
77). Entende-se assim, o crescente número de transações financeiras, notadamente nas grandes bolsas de valores, que em frações de segundos movimenta bilhões de dólares, integrando mercados e países de todo o mundo, conformando um verdadeiro cassino da economia global.
É absolutamente perceptível que, sobretudo nas últimas décadas, tem havido uma aceleração mundial no tempo e no espaço. 3 Em meados da década de 70, nasce uma ‘uma revolução da tecnologia da informação’, constata Manuel Castells (1999), configurando uma linha divisória na evolução do capitalismo. Trata-se de uma “(...) base material indispensável para essa nova economia. É a conexão histórica entre a base de informação/conhecimentos da economia, seu alcance global e a Revolução da Tecnologia da Informação que cria um novo sistema econômico distinto (...)”
(CASTELLS, 1999: 87).
Com efeito, mesmo reconhecendo que a globalização tem como vetor a economia como traço importante, é necessário abrir as lentes e estender a percepção para outras dimensões. Compartilhando a idéia de que a globalização tem um caráter multidimensional que abrange transformações na relação tempo-espaço (BECK, 1999;
GIDDENS, 2000; VIOLA, 1996; VIEIRA, 1997; THERBORN, 2000), entendemos que esta abordagem permite incorporar dimensões relevantes, propiciando novos recortes analíticos, no sentido de aprofundar e clarificar o complexo cenário de turbulência que
3 “Acelerações são momentos culminantes na História, como se abrigassem forças concentradas, explodindo para criar o novo. (...) Daí, a cada época, malgrado a certeza de que se atingiu um patamar definitivo, as reações de admiração ou de medo diante do inusitado e a dificuldade para entender os novos esquemas e para encontrar um novo sistema de conceitos que expressem a nova ordem em gestação”
(SANTOS, 1998: 191).
caracteriza este final de século. Como observa Ianni (1996), a internacionalização do processo produtivo envolve a internacionalização das relações sociais, contradições e conflitos. Desse modo, “globalizam-se as instituições, os princípios jurídicos-políticos, os padrões sócio-culturais e os ideais que constituem as condições e os produtos civilizatórios do capitalismo” (IANNI, 1996: 48).
Apesar do progresso material trazido para muitos, a sociedade capitalista (e outrora socialista) tem se mostrado insustentável como paradigma planetário. O padrão de consumo norte-americano, o chamado american way of life, é o exemplo da impossibilidade de reprodução do crescimento material para os demais países e culturas.
O crescimento econômico chinês acelerado, alucinante e escravo do carvão é uma bomba prestes a explodir. A recusa da modernidade insustentável sugere a mutação para um novo paradigma, ou seja, “a humanidade precisa fazer a transição para uma economia sustentável – que respeite os limites físicos inerentes ao ecossistema mundial e garanta que este continue funcionando no futuro. Se não fizermos essa transição, podemos ser punidos não apenas com crescimento deseconômico, mas com uma catástrofe ecológica que reduziria sensivelmente nosso padrão de vida” (DALY, 2005: p.
92).
Segundo o Relatório Brundtland, publicado em 1987, sob os auspícios da ONU, desenvolvimento sustentável é “aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem a suas próprias necessidades”. O ideário da sustentabilidade assume um papel central na reflexão em torno das dimensões do desenvolvimento e alternativas de formulação de políticas públicas.
Na agenda global do clima, um avanço tímido, mas inquestionável foi a entrada em vigor do Protocolo de Kyoto na COP3 da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, em fevereiro de 2005, na qual os países industrializados (com a lamentável ausência dos Estados Unidos, responsável por 30%
das emissões globais) concordaram em enfrentar o aquecimento da terra e reduzir suas emissões líquidas anuais de carbono para 5% abaixo dos níveis de 1990, durante o período de 2008 a 2012.
O governo brasileiro apresentou dentro do protocolo, a proposta do MDL (Mecanismo de Desenvolvimento Limpo), que é um incentivo para que empresas de paises industrializados invistam em projetos de redução de emissões nos países em desenvolvimento. No Relatório Stern, encomendado pelo governo britânico, o ex-
economista do Banco Mundial, Nicholas Stern, calcula que o combate ao aquecimento global tem um custo hoje de US$ 7 trilhões em dez anos, e que os gastos para estabilizar a emissão de gases responsáveis pelo efeito estufa seriam equivalentes a 1% do Produto Interno Bruto mundial até 2050. Este e outros diagnósticos exigem decisões e objetivos mais ousados, para além das iniciativas desse regime de governança mundial.
Padrão hegemônico consumista e políticas públicas.
O padrão produtivista da sociedade atual forjado na racionalidade instrumental da economia, que estimula a produção de riquezas e concentração de bens materiais, desencadeia uma série de fenômenos interligados, pressionando de forma intensa e progressiva a base de suporte da biosfera. Com a população mundial em torno de 6.6 bilhões de habitantes, os ecossistemas estão sendo utilizados ao limite devido aos níveis recordes de consumo: Em 2006, o mundo utilizou 3,9 bilhões de toneladas de petróleo.
O uso de combustíveis fósseis produziram 7.6 bilhões de toneladas de emissões de carbono, e a concentração de dióxido de carbono na atmosfera atingiu 380 partes por milhão.
Recursos madeireiros têm sido explorados indiscriminadamente, com perda de biodiversidade e degradação de áreas nobres para manejo produtivo e sustentável. A produção de aço cresceu 10% para um recorde de 1.24 bilhões de toneladas em 2006. O alumínio também atingiu um recorde de 33 milhões de toneladas. A produção de alumínio consome cerca de 3% da energia elétrica mundial. O consumo de carne chegou a 276 milhões de toneladas (43 kg por pessoa) em 2006. O consumo de carne é um dos muitos fatores responsáveis pela demanda da soja e sua fava. A expansão do cultivo de soja levará ao desmatamento de 22 milhões de hectares na América do Sul.
A impulsividade do consumo voraz e perdulário demanda inputs de energia e produz uma brutal alienação das sociedades diante dos inevitáveis impactos do desenvolvimento econômico. Sob o primado do lucro e da rentabilidade das trocas comerciais, o consumismo sem freios se expande numa velocidade frenética, tornando descartáveis e perigosos produtos massificados, que provocam impactos irreversíveis ao meio ambiente. A lógica deste processo impulsiona decisivamente às mudanças climáticas. A globalização do consumo num patamar nunca antes imaginado está colocando em perigo a diversidade social, cultural e biológica. As mudanças climáticas estão alterando as rotas de migração de peixes, elevando o nível do mar, intensificando
a erosão nas áreas costeiras, aumentando a acidez dos oceanos e interferindo nas correntes que movem nutrientes.
Contudo, ao contrário de setores sensacionalistas da mídia, o aquecimento global não é o fim do mundo. A humanidade está pagando por um modelo civilizatório perdulário, injusto e colhendo a herança do desenvolvimento turbinado por fábricas e tecnologias sujas. Apesar do horizonte pessimista delineado por James Lovelock, autor da famosa Teoria Gaia (que compara o planeta terra a um grande organismo vivo), de que as mudanças climáticas já atingiram um ponto irreversível e que nossa civilização dificilmente sobreviverá, apostando na energia nuclear para evitar aquilo que denomina de catástrofe total, uma outra sociedade é possível desde que os humanos enfrentem os efeitos adversos das alterações climáticas, mudando hábitos, comportamentos, revendo valores, práticas educacionais e, sobretudo, assumindo responsabilidades sociais e coletivas. Ancorado numa visão multidimensional da sustentabilidade, urge que se estabeleçam políticas com a participação dos múltiplos atores da esfera pública (governos, sociedade civil, empresários).
Com efeito, o debate público em torno da sociedade, economia, política, ecologia, cultura, tem desencadeado um conjunto de preocupações relativas à sustentação da biosfera e possibilidades de segurança humana no mundo globalizado. O impasse ecológico pode ser colocado como problema transversal, fluindo no âmago da lógica e princípios da sociedade capitalista. Nestes tempos de agravamento das condições climáticas do planeta e perspectivas sombrias projetadas pelos cientistas do IPCC sobre os efeitos devastadores do aquecimento global; a crise do modelo de produção e consumo atual coloca em xeque de forma aberta e radical o projeto de modernidade baseado no progresso técnico e material ilimitado, construído a partir do século XV, com os grandes descobrimentos e expansão ultramarina dos países colonizadores, impulsionada pelo paradigma cartesiano que estabeleceu as bases da ciência moderna.
Na arena pós-eleitoral brasileira desenha-se um dos dilemas vitais da contemporaneidade: afinal, precisamos da retomada do crescimento econômico ou de uma política de desenvolvimento que atenda os pressupostos da sustentabilidade, na perspectiva de conciliar produção econômica, prudência ecológica, democracia, diversidade cultural e justiça social? A agenda da sustentabilidade vem se configurando desde a década de 1970, com a realização da Conferência de Estocolmo, a primeira da ONU sobre Meio Ambiente (United Nations Conference on the Human Environment),
realizada em 1972, como marco da governança ambiental contemporânea em escala planetária. Foi, de fato, o primeiro grande esforço de caráter global, envolvendo os países desenvolvidos e subdesenvolvidos, tendo em vista um diagnóstico bastante preocupante que apontavam para a deterioração crescente dos ecossistemas e degradação das condições da biosfera. Este acontecimento político representou, em grande parte, o resultado das forças do ambientalismo e do caldo de cultura dos tempos rebeldes, que marcaram a década de 1960.
Em 1973, Maurice Strong utilizou pela primeira vez o conceito de ecodesenvolvimento para caracterizar uma concepção alternativa de política de desenvolvimento. Veio depois a idéia-força do desenvolvimento sustentável, através do famoso Relatório Brundtland “Nosso futuro comum”, publicado em 1987, sob a liderança da senhora Gro Harlem Brundtland, que presidiu a Comissão criada pela ONU, em 1983. Este documento ocupa um lugar central no debate contemporâneo sobre meio ambiente. Nas palavras da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento:“Desenvolvimento sustentável é aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem a suas próprias necessidades”.
A compreensão do paradigma da sustentabilidade passa de forma inevitável pela perspectiva complexa e multidimensional. A sustentabilidade planetária, não por acaso, aparece em primeiro lugar: trata-se de uma questão vital para a manutenção da vida terrestre, medidas de caráter global que extrapolam as fronteiras territoriais estatais, notadamente redução na emissão de gases que contribuem para o aquecimento da terra, diminuição dos desmatamentos, aproveitamento da biodiversidade com base na difusão de tecnologias direcionadas para uma nova matriz produtiva e preservação do patrimônio biogenético.
A sustentabilidade cultural se expressa na pluralidade dos grupos sociais e no reconhecimento da diversidade de ações e comportamentos dos diversos segmentos que formam uma determinada sociedade. A sustentabilidade social aponta para uma melhor distribuição de renda, diminuindo desigualdades e elevando a qualidade de vida das pessoas. A universalização dos direitos sociais e o acesso à bens e serviços públicos são condições objetivas para medir o avanço da cidadania num contexto de democratização da ordem pública. Dentre os desafios da sustentabilidade social estão às ações promotoras de inclusão de segmentos marginalizados, alternativas de produção e geração de renda e combate à fome.
A sustentabilidade política passa necessariamente pela construção da cidadania, se resumindo em dois objetivos: a democratização da sociedade e a democratização do Estado. A dimensão institucional da sustentabilidade do desenvolvimento requer, por sua vez, uma engenharia que modele instituições segundo desenho coerente e funcionalmente adequado às exigências modernas de eficiência, capacidade de regulação e instrumentos de planejamento. O caráter abrangente da sustentabilidade propicia diferentes ângulos de percepção da realidade, lapidando situações específicas e propondo mudança de rumos nas políticas de desenvolvimento.
Certamente o Brasil precisa voltar a crescer, o que é necessário e urgente, mas não é condição suficiente para garantir um padrão societário que promova a inclusão dos segmentos mais vulneráveis e em situação de risco, gere empregos saudáveis e de qualidade, distribuindo renda e restaurando o equilíbrio entre homem e natureza. Afinal, não seria este o ideal de um Brasil próspero e desenvolvido?
No entanto, o crescimento econômico não pode ser perseguido como panacéia para os graves problemas nacionais. Como disse Celso Furtado, um dos mais brilhantes economistas brasileiros: “só haverá verdadeiro desenvolvimento – que não se deve confundir com crescimento econômico, no mais das vezes resultado de mera modernização das elites – ali onde existir um projeto social subjacente”. Por vezes, os arautos do neoliberalismo proclamam o crescimento econômico sustentável (sic!) como inexorável caminho rumo ao progresso material e inserção mundial.
A racionalidade econômica dominante tem uma visão mercantil voltada para a acumulação de riqueza, que não garante o bem-estar coletivo, pois é o uso que uma coletividade faz de sua riqueza, e não a riqueza em si, que é o fator decisivo e essencial.
A atribuição do Prêmio Nobel da Paz de 2006 ao bengalês Muhammad Yunos e seu Banco (Grameen Bank), pioneiro na implementação do microcrédito para pessoas em extrema pobreza, mostra como uma arquitetura sócio-financeira pode estar a serviço de uma economia solidária, subvertendo a lógica da apropriação pela lógica da repartição do capital social, onde a riqueza se torna instrumento de promoção de cidadania e motor de dignidade humana.
A sociedade brasileira já conheceu fases de crescimento econômico acelerado no início da década de 1970, onde se pregava que o bolo deveria crescer para depois distribuir a riqueza. Esta aventura deixou um rastro de estagnação produtiva, perversidade social e degradação ambiental sem precedentes na história recente do Brasil. Neste período, a Amazônia foi alvo emblemático da ideologia
desenvolvimentista que pregava o crescimento a qualquer custo, onde as florestas eram tidas como obstáculo ao desenvolvimento regional e nacional. Sabemos do curso desse processo destrutivo, que infelizmente ainda estamos submetidos.
O desafio brasileiro no mundo globalizado consiste no aproveitamento de suas vantagens comparativas (recursos hídricos, biodiversidade, multiculturalismo, energias renováveis, etc.), subordinando o crescimento da economia ao modelo de sociedade igualitária, onde sejam forjados novos padrões de sociabilidade humana pautada na democratização dos espaços públicos e satisfação das necessidades básicas da população. A Amazônia brasileira (que representa 70% da Amazônia sul-americana) detém a maior bacia hidrográfica do mundo e concentra 20% de toda a disponibilidade de água doce do planeta.
As florestas tropicais brasileiras são consideradas imensas fronteiras de megabiodiversidade, patrimônio incalculável de recursos de flora e fauna: insumos para experimentos na área de biotecnologia e banco genético estratégico no campo da pesquisa científica global. A constituição multicultural do povo brasileiro é um forte apelo histórico e simbólico na afirmação da identidade étnica no plano da diplomacia mundial. Recursos oriundos da biomassa e fontes energéticas renováveis colocam o Brasil como uma das lideranças do novo modelo de convivência entre nações e civilizações.
O Brasil como potência ambiental internacional, precisa assumir o compromisso ético com as futuras gerações e fazer a opção pela sustentabilidade. Os movimentos ecologistas são legítimos guardiões do valioso patrimônio ambiental desse país e responsáveis diretos pelos avanços obtidos na formulação de políticas públicas em prol da proteção de nossas riquezas ecossistêmicas. Pelas potencialidades intrínsecas da maior fronteira de recursos naturais do planeta, a Amazônia é certamente um espaço estratégico para repensar uma política nacional de desenvolvimento sustentável, além dos serviços ambientais vitais (seqüestro de carbono, ciclos hidroquímicos, etc.) que proporciona para a governança climática regional, nacional e global.
Tecnologias modernas com células de hidrogênio, carros híbridos japoneses e a alternativa flex fuel da indústria automobilística brasileira são conversões promissoras para um século menos poluente. A neutralização do carbono através do plantio de árvores está mobilizando pessoas e empresas. A Fundação SOS Mata Atlântica está sendo financiada para plantar 1.000 árvores nativas em áreas degradadas do Sul Fluminense para compensar emissões de gases da Fórmula Truck.
De acordo com Eduardo Athayde do WWI-Worldwatch Institute no Brasil, a contabilização dos prejuízos das mudanças climáticas empurra o mundo para a era da descarbonização: “cada trio elétrico precisa plantar cerca de cem árvores para neutralizar o carbono emitido durante o circuito da folia. A bromélia barba-de-velho (Tillandsia usneoides), que retém partículas de poluentes maléficos à saúde humana, está sendo usada pela Secretaria de Meio Ambiente no biomonitoramento do ar de Salvador. Trios elétricos, hotéis, aerolinhas, telefonia móvel e cervejarias fazem inventários para neutralizar as suas emissões”. São Paulo seguiu o mesmo exemplo plantando1200 árvores em áreas de reflorestamento da Mata Atlântica para compensar o gás carbônico emitido nos quatro dias de desfile. Políticas que estimulem o uso de transportes coletivos podem ajudar na diminuição da poluição, sobretudo em áreas urbanas.
Brasil na governança do clima: desafios e perspectivas
Dentro do sistema internacional anárquico e hierarquizado contemporâneo, são complexas e tensas às negociações das agendas multilaterais. O regime de mudança climática é um exemplo emblemático das dificuldades na obtenção de consensos e proposições de políticas transnacionais que enfrentem o agravamento deste problema.
Nas entranhas das relações de poder e da retórica dos países que se dizem defensores da proteção ambiental, ainda reina um déficit de iniciativas de acordos mais conseqüentes para a reversão progressiva deste cenário de caos e turbulência. Apesar da vontade de cooperar, os países ainda norteiam suas ações a partir de posições de maximização do interesse nacional (VIOLA, 2003). O Brasil tem papel emblemático e vital na discussão dos danos provenientes das mudanças climáticas.
A posição brasileira tem frequentemente oscilado entre um discurso comprometido com mudanças substantivas no plano institucional (vale lembrar que o Brasil propôs a criação Mecanismo de desenvolvimento limpo – MDL, dentro do Protocolo de Kyoto) e atitudes que revelam desinteresse e indecisão na tomada de posições mais firmes que envolvam metas de redução de suas emissões. O Brasil tem sido pressionado, sobretudo pelos países mais desenvolvidos, pelo agressivo desflorestamento praticado na Amazônia, que equivale a 75% no conjunto das emissões nacionais, enfraquecendo a posição brasileira nas negociações internacionais.
O Plano de Combate ao Desmatamento, executado pelo Ministério do Meio Ambiente com a participação de 13 ministérios, reduziu em 52% a taxa de desmatamento entre 2004 e 2006, sendo ainda insuficiente para reverter o palco da destruição, mas demonstra que o Brasil está procurando fazer a sua parte e tem aberta a possibilidade de pedir compensações financeiras para continuar reduzindo a devastação, conforme defendeu a ministra Marina Silva na Conferência das Partes da Convenção sobre Mudanças Climáticas (COP12), em Nairóbi, no Quênia, em 2006.
Todavia, a política governamental brasileira é ambígua e contraditória, O governo brasileiro deve orientar uma política que diminua drasticamente as taxas de desmatamento da Amazônia. A próxima rodada de negociações sobre mudanças climáticas, que acontecerá em Bali, em dezembro pode se converter numa ocasião oportuna pra uma antiga reivindicação brasileira: após várias tentativas, busca-se promover a inclusão das florestas na governança climática. A responsabilidade brasileira é absolutamente perceptível no contexto das mudanças climáticas globais.
O Brasil joga um duplo papel no contexto das mudanças climáticas globais.
Embora disponha de base energética relativamente limpa - a matriz elétrica brasileira é composta por 84% de produção hidrelétrica, 4% de biomassa, 4% de gás natural, 4% de diesel e óleo combustível, 3% nuclear e 1% de carvão, o Brasil é o 4̊ maior emissor do planeta, quando são levados em consideração os gases lançados na atmosfera pela ação dos desmatamentos e queimadas. O desflorestamento praticado na Amazônia equivale a 75% no conjunto das emissões nacionais, enfraquecendo a posição brasileira nas negociações internacionais.
O governo brasileiro deve orientar uma política que diminua drasticamente as taxas de desmatamento da Amazônia. O Plano de Combate ao Desmatamento, executado pelo Ministério do Meio Ambiente com a participação de 13 ministérios, reduziu em 52% a taxa de desmatamento entre 2004 e 2006, sendo ainda insuficiente para reverter o palco da destruição, mas demonstra que o Brasil está procurando fazer a sua parte e tem aberta a possibilidade de pedir compensações financeiras para continuar reduzindo a devastação, conforme defendeu a ministra Marina Silva na Conferência das Partes da Convenção sobre Mudanças Climáticas (COP12), em Nairóbi, no Quênia, em 2006. No entanto, é importante destacar que o Brasil e outros “países em desenvolvimento” como a China e Índia, tem buscado nas negociações internacionais jogar para os países industrializados a culpa pela poluição global, dados que estes países são historicamente responsáveis por 75% dos gases hoje acumulados na atmosfera.
Certa vez o pensador indiano M. S. Swaminathan afirmou que uma nova forma de civilização, fundamentada no aproveitamento sustentável dos recursos renováveis, não é apenas possível, mas essencial. O Brasil possui um potencial estratégico em termos de utilização de seus recursos naturais. Apresenta vantagens comparativas privilegiadas para liderar o mercado de energias limpas no futuro próximo. Os biocombustíveis derivados da rica biomassa brasileira constituem hoje possibilidades concretas de inserção da economia brasileira nos mercados mundiais.
O Brasil é o maior produtor mundial de etanol obtido da cana-de-açúcar, produzindo cerca de 440 milhões de toneladas na última safra. Com incentivos do governo, está atividade pode ser alavancada com aumento da produtividade.
Preocupações ambientais estão relacionadas ao desmatamento que seria causado para aumentar a área de plantio de cana-de-açúcar, de forma a atender a demanda internacional. Em relação ao biodiesel, a diversidade de oleaginosas (soja, dendê, mamona, girassol, algodão, canola, pinhão manso, etc.) combinada com vasta extensão de áreas férteis de cultivo e qualidade do solo, propicia condições favoráveis para a incorporação desta atividade na pauta do comércio exterior e consumo interno.
Entretanto, os biocombustíveis não são panacéia para a crise energética mundial.
Os impactos socioambientais são relevantes e devem orientar investimentos no sentido da eficiência e promoção social. João Pedro Stedile (apud VALDOMIR & GLASS:
2007), membro da coordenação nacional do MST, considera que a questão da segurança alimentar é fundamental: “Avançamos no entendimento de que seremos favoráveis à produção de energia a partir de produtos agrícolas, mas apenas no caso em que não substitua a produção de alimentos e não utilize produtos alimentícios, como o milho e a soja. Que sejam fabricados a partir de produtos que não representem uma competição com os alimentos”. Ainda assim, as possibilidades do etanol aliado ao bem sucedido Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB) são estratégias inteligentes de sustentabilidade energética e vetores de exportações no cenário pós-petróleo. Com políticas bem planejadas e prevenção de riscos, a agricultura familiar brasileira pode ser beneficiada pela inclusão de amplos segmentos do campo no setor produtivo.
Entendimentos diplomáticos, acordos de cooperação entre paises e blocos comerciais, gestão empresarial e debates públicos dão o tom das novas estratégias do desenvolvimento mundial. A União Européia já decidiu cortar em 20% suas emissões poluentes até 2020 e os Estados Unidos estão determinados a reduzir sua dependência em relação ao petróleo. No Brasil já estão instituídas a Comissão Interministerial de
Mudança Global do Clima, o Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, além do Programa Nacional do Álcool, Programa de Incentivos às Fontes Alternativas de Energia, dentre outras iniciativas. Na pauta do Congresso Nacional, a Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (CMADS) aprovou a constituição de subcomissão permanente para tratar de mudanças climáticas. Grupos de trabalhos e seminários temáticos estão sendo organizados com envolvimento da comunidade científica para discutir fontes renováveis de energia.
Como anunciado na grande mídia, a intensificação do caos climático deve provocar seca, inundações, vendavais dos mais variados tipos, extremos de temperaturas que afetarão populações em todas as partes do mundo. “O derretimento acelerado do gelo da Groenlândia, que já vem se dando num ritmo acelerado, a três vezes a velocidade registrada antes de 2004, segundo estudo publicado em 2006, fatalmente elevará o nível dos oceanos, pondo em risco ilhas e regiões costeiras. Com a elevação do nível dos mares, a Indonésia, maior país composto por ilhas do mundo, poderá perder até 2.000 ilhotas. Na Índia, o encolhimento das geleiras do Himalaia ameaça o abastecimento de rios como o Ganges, e põe em risco a agricultura do país e a saúde da população. Há uma boa chance de que o aquecimento global esteja causando um aumento na força dos furacões do Atlântico na região do Caribe. Especialistas prevêem que a neve dos Alpes deverá desaparecer entre 2040 e 2050”. 4
No Brasil, pesquisas coordenadas pelo Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CPTEC/INPE) e divulgadas pelo Ministério do Meio Ambiente, através do estudo “Mudanças Climáticas Globais e seus Efeitos sobre a Biodiversidade”, aponta que a Amazônia pode virar cerrado ao longo do século XXI. A Caatinga será substituída por uma vegetação mais árida. Com o aquecimento a evaporação aumenta e a disponibilidade hídrica diminui. O clima mais quente e seco poderia levar a população a migrar para as grandes cidades da região ou para outras regiões, gerando ondas de “refugiados ambientais”. Cidades litorâneas serão afetadas com o avanço do mar, portos poderão ser destruídos e populações teriam que ser remanejadas. Sistemas precários de esgoto entrarão em colapso. Casos de doenças infecciosas transmissíveis como a dengue, poderão se alastrar pelo país. Regiões metropolitanas ainda mais quentes, com mais inundações, enchentes e
4 http://www.estadao.com.br/ext/especial/extraonline/especiais/aquecimento/
desmoronamentos em áreas principalmente nas encostas de morro. Novos furacões poderão atingir a costa brasileira.
Considerações finais
Em tempos acelerados para além da economia e dos mercados financeiros internacionais, sob o signo das rápidas e turbulentas transformações está emergindo uma sociedade global surpreendente, multifacetada e imprevisível, moldada simultaneamente pelas dimensões política, social, cultural, ambiental, tecnológica, comunicacional, militar, religiosa, etc. A interdependência crescente entre as diversas esferas da experiência humana tem sido a marca registrada da sociedade contemporânea, interligando saberes e processos societais. Na década de 1960, o sociólogo canadense Marshall McLuhan cunhou a metáfora aldeia global para designar mudanças e percepções derivadas da revolução dos meios de comunicação, sobretudo a partir da televisão, antevendo aquilo que outro sociólogo, o espanhol Manuel Castells iria definir no final do Século 20, a partir das novas tecnologias - o paradigma informacional.
Ondas ininterruptas de inovações e insigts movem comportamentos, estilos de vida, padrões de produção e consumo, recriam-se identidades e simbolismos para designar uma era de conexões e interatividades globais, potencializada pela internet e redes (networks) tecidas no ciberespaço. Esses acontecimentos trazem uma sensação crescente e estonteante de mudanças e transições fundamentais na aurora do terceiro milênio. Como lembra Milton Santos, geógrafo brasileiro cujo reconhecimento ultrapassa as fronteiras territoriais, intelectuais e lingüísticas, “acelerações são momentos culminantes na História, como se abrigassem forças concentradas, explodindo para criar o novo”.
A anatomia desse admirável mundo novo reside numa sociedade transfigurada, contraditória e desigual, engravidada de riscos cruciais e desafios decisivos. Estamos na encruzilhada de um modelo civilizatório perdulário que nos empurra para o abismo, embora se acredite na luz no fim do túnel. Na década de 1970, Herbert Marcuse, neomarxista e crítico mordaz da sociedade industrial, colocou o impasse da bifurcação no plano da ação política: “hoje temos a capacidade de transformar o mundo em um inferno e estamos em caminho de fazê-lo. Mas também temos a capacidade de fazer exatamente o contrário”.
As bombas jogadas sobre Hiroshima e Nagasaki, em 1945, foram um terrível sinal da capacidade de destruição total que ainda atormenta a Humanidade no Pós- Guerra Fria com a retomada da corrida nuclear pelo Irã e Coréia do Norte.
Prevalece a mentalidade utilitarista e predatória, cuja essência se manifesta no primado da racionalidade técnica-instrumental, numa relação que coloca os recursos naturais como objeto de apropriação a serviço de uma minoria (países e pessoas), em detrimento do bem estar social coletivo. Ainda é hegemônica a crença no progresso material e expansão ilimitada da capacidade produtiva do homem – lógica que proporciona a livre mercantilização de bens e valores produzidos socialmente, constituindo o substrato ideológico do apelo consumista na cultura moderna.
A dinâmica geopolítica mundial reflete uma arquitetura de governança fundada na legitimação das assimetrias de poder entre Nações, dividindo ricos e pobres, incluídos e excluídos, vencedores e perdedores, em nome da integração forçada pela globalização neoliberal. Em conseqüência da concentração da riqueza, aumento da miséria e degradação da natureza, abissais desigualdades se alargam em escala mundial.
Não há como desconhecer a gravidade dos problemas ambientais globais: mudanças climáticas, depleção da camada de ozônio, perda de diversidade biológica, desertificação, escassez de água doce, poluição dos mares, enfim, um conjunto de fenômenos ambientais regionais, nacionais e transnacionais, que estão minando a capacidade de renovação dos ecossistemas e colocando em jogo a sobrevivência do planeta.
Mas como observa Marcuse, também temos a possibilidade de contrariar o cenário da destruição, redefinindo horizontes criativos e modelando sociedades sustentáveis – do local ao global, orientada pela construção política da cidadania e do desenvolvimento, onde o progresso passe a ser medido pela qualidade de vida (saúde, longevidade, maturidade psicológica, educação, ambiente limpo, espírito comunitário e lazer criativo) ao invés de indicadores de consumo material. As iniciativas de governos e da sociedade civil em favor da paz, tolerância religiosa, responsabilidade sócio- ambiental, igualdade de oportunidades que desconheçam diferenças entre gênero, origem social, raça, idade, credo e ideologia, indicam que outro padrão de sociedade mais solidário, democrático e sustentável é possível. Estamos definindo nossas opções, e essas escolhas já estão determinando o nosso futuro.
O impasse científico sobre as causas do aquecimento global acabou.
Preocupações sobre mudanças climáticas estão na ordem do dia da política, sociologia,
economia, geografia, ecologia, comunicação, academia, governos, mercados e instituições sociais. A sociedade fossilista que vitaminou o crescimento industrial é perniciosa e suicida. Mudança do clima não é moda e nem conversa de intelectual, é o retrato do filme de Al Gore, Uma Verdade Inconveniente. O caos climático exige um pacto civilizatório orientado para uma sociedade sustentável, através de esforço transnacional de governos e iniciativas dos múltiplos movimentos da sociedade civil: do local ao global. Como tem enfatizado o jornalista André Trigueiro (2006), “Se não dermos a devida resposta à ameaça que nos espreita, ficaremos marcados na História como a civilização que teve a competência de diagnosticar a maior de todas as tragédias ambientais sem que isso tenha justificado uma ampla mobilização da sociedade”
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