ESCOLA PRÁTICA DE POLÍCIA
Direitos Fundamentais e
Cidadania
8.º Curso de Formação de Agentes
Objectivo n.º 16 Temas a abordar:
Os Direitos Fundamentais na Constituição Portuguesa
O Papel das Forças de Segurança na protecção dos Direitos Fundamentais (Art. 272.º, nº 1 e 2 da CRP – Polícia ).
Princípio da Tipicidade e o princípio da Proibição
do Excesso.
Artigo 272.º (Polícia)
1. A polícia tem por funções defender a legalidade democrática e garantir a segurança interna e os direitos dos cidadãos.
2. As medidas de polícia são as previstas na lei, não devendo ser utilizadas para além do estritamente necessário.
O papel das Forças de Segurança na protecção dos Direitos Fundamentais
A actuação das Forças de Segurança, no cumprimento do
seu dever, deve respeitar, defender e proteger a dignidade humana e os direitos fundamentais de todo o cidadão.
Assim, as Polícias devem estar ao serviço dos cidadãos,
relacionando-se com os mesmos, não pelo livre arbítrio e discricionariedade, mas sim, pelos princípios estabelecidos na lei, pois só assim será legítimo o seu procedimento.
O papel das Forças de Segurança na protecção dos Direitos Fundamentais
Essa atenção, que, cada vez mais, se vem manifestando sobre o desempenho da actividade das Forças de Segurança e que muitas vezes assume o carácter de crítica ou de denúncia, deve ser vista como um sintoma de uma sociedade livre e civilizada.
Nesta, as pessoas esperam mais e melhor da sua polícia, exigem dela um elevado grau de qualidade e profissionalismo, tal como exigem mais qualidade, melhor atendimento e satisfação das suas pretensões, dos restantes poderes e serviços públicos.
O papel das Forças de Segurança na protecção dos Direitos Fundamentais
A função que incumbe às Forças de Segurança (art. 272.º n.º
1) é particularmente difícil, sobretudo, porque frequentemente é prestada em situações de perigo, perturbação e urgência.
Há também, por outro lado, que encontrar permanentemente o equilíbrio entre a eficácia da acção e a salvaguarda de direitos, porque lhes cabe simultaneamente reprimir comportamentos ofensivos dos valores que presidem à vida em sociedade e proteger os Direitos Fundamentais dos cidadãos.
O papel das Forças de Segurança na protecção dos Direitos Fundamentais
Conciliar a acção positiva e eficaz com o respeito pelos Direitos Fundamentais é pois o desafio que se coloca às Forças de Segurança na sociedade contemporânea.
É neste equilíbrio que reside o seu profissionalismo e a sua qualidade, e por isso, se torna exigível um processo rigoroso de selecção e formação permanente dos seus elementos.
O papel das Forças de Segurança na protecção dos Direitos Fundamentais
O poder e a autoridade das polícias são susceptíveis de conduzir a abusos, arbitrariedades e desvios para fins diversos daqueles a que se destinam; nesses casos, a autoridade perde toda a legitimidade.
Para ser legítimo, o seu exercício deve sempre dirigir-se
ao interesse público e submeter-se aos princípios e normas de um Estado de Direito Democrático .
O papel das Forças de Segurança na protecção dos Direitos Fundamentais
A acção das Forças de Segurança desenvolve-se sobretudo em duas grandes áreas:
A área cívica, pela qual compete aos agentes prestar aos membros da comunidade auxílio em situações de necessidade e urgência (policiamento de proximidade);
A área de prevenção e repressão da criminalidade, nomeadamente de comportamento anti-sociais graves, de ordem pública, pela qual compete aos agentes evitar a prática de ilícitos.
O papel das Forças de Segurança na protecção dos Direitos Fundamentais
Em qualquer dessas áreas, e mesmo nos diversos graus que assume a prevenção criminal, a actuação dos elementos das Forças de Segurança deve observar os princípios éticos e deontológicos decorrentes da assimilação dos direitos, valores e liberdades fundamentais, tendo sempre presente que a aplicação da lei não constitui um fim em si, mas deve estar ao serviço do Homem, da sua dignidade, do direito à igualdade e liberdade, da defesa dos direitos inerentes à pessoa humana.
O papel das Forças de Segurança na protecção dos Direitos Fundamentais
Torna-se pois imperioso que os elementos das Forças de Segurança conheçam em profundidade os Direitos Fundamentais reconhecidos na ordem interna e internacional, bem como, os procedimentos e códigos de conduta a que deve obedecer a sua actuação diária.
O papel das Forças de Segurança na protecção dos Direitos Fundamentais
Os princípios consagrados no artigo 272º da Constituição da República Portuguesa são princípios gerais da actuação policial, pelo que abrangem todos os tipos de Polícia e não só a PSP.
O nº 1 do art. 272.º está implícito o princípio da tipicidade como corolário do princípio da legalidade, onde procura marcar e acentuar o âmbito da acção da Polícia, que se concentra em três vectores fulcrais:
Defesa da Legalidade Democrática; garantia da Segurança Interna e a defesa e Garantia dos Direitos dos Cidadãos.
O papel das Forças de Segurança na protecção dos Direitos Fundamentais
Cabe à polícia a defesa da legalidade democrática, ou seja, o respeito e cumprimento das leis em geral no que concerne à vida da colectividade. A polícia tem de se reger por este princípio (Principio da legalidade ou da tipicidade) e deve obediência à lei e à Constituição.
Sempre que uma norma suscitar dúvidas sobre a sua constitucionalidade, não deve ser aplicada pela polícia, até porque, o n.º 1 do art. 18.º da CRP impõe que a polícia (e qualquer entidade pública) esteja vinculada ao respeito pelos DLG’s bem como subordinada à Constituição.
O papel das Forças de Segurança na protecção dos Direitos Fundamentais
Relativamente à função garantia da Segurança Interna, compete ao Estado e mais concretamente às Polícias a tarefa fundamental “garantir a ordem, a segurança e a tranquilidade públicas, proteger pessoas e bens, prevenir e reprimir a criminalidade e contribuir para assegurar o normal funcionamento das instituições democráticas, o regular exercício dos direitos, liberdades e garantias fundamentais dos cidadãos e o respeito pela legalidade democrática”. (art. 1.º, n.º 1 da LSI - Lei 53/2008 de 29 de Agosto)
O papel das Forças de Segurança na protecção dos Direitos Fundamentais
À Polícia cabe também a função da defesa e garantia dos direitos dos cidadãos.
Gomes Canotilho e Vital Moreira (constitucionalistas)
afirmam que a defesa e a garantia dos direitos dos cidadãos impõe-se à Polícia como uma “obrigação de protecção pública dos direitos fundamentais”, que se deve articular com o direito à segurança, consagrado no artigo 27º n.º 1 da CRP.
O papel das Forças de Segurança na protecção dos Direitos Fundamentais
Se analisarmos as Leis Orgânicas das várias Polícias, verificamos que, explicita ou implicitamente, se consagra que as funções se dirigem na essência à defesa da legalidade democrática, à garantida da Segurança Interna e à defesa e garantia dos direitos do cidadão.
O papel das Forças de Segurança na protecção dos Direitos Fundamentais
No nº 2 do art. 272.º da CRP, está implícito o princípio da Proporcionalidade ou da Proibição do Excesso, a polícia desenvolve actos ou promove medidas de polícia administrativas ou processuais penais que devem estar previstas em lei anterior à sua aplicação, que não podem ser utilizadas para além do estritamente necessário e que carecem de validação judicial, sob pena de nulidade.
Qualquer medida ou acto de polícia está sujeito ao princípio da precedência da lei e da tipicidade legal.
O papel das Forças de Segurança na protecção dos Direitos Fundamentais
A actividade da polícia deve limitar-se ao estritamente necessário e mostrar-se apta para o efeito (nº 2 da art. 272º da CRP).
A polícia deve atender aos corolários directos do princípio da proibição do Excesso – Adequação (implica que as medidas restritivas legalmente previstas devem ser adequadas), Exigibilidade ou da Necessidade (implica que as medidas nunca transponham as exigências dos fins de prossecução do interesse a tutelar) e Proporcionalidade ou da Razoabilidade (impede a adopção de medidas legais restritivas desproporcionadas ou excessivas em relação aos fins).
O papel das Forças de Segurança na protecção dos Direitos Fundamentais
As Medidas de Polícia (como refere o art. 272.º n.º 2 da CRP) são classificadas de medidas de segurança administrativas, podendo as mesmas ser entendidas como medidas ou acções que visam evitar que uma dada situação de perigo se venha a transformar num dano efectivo, ou seja, são medidas de carácter administrativo, que visam prevenir danos à sociedade ou às pessoas, tendo as mesma de ser validadas pela autoridade judiciária competente.
Estão previstas no art. 28.º e 29.º da Lei de Segurança Interna.
O papel das Forças de Segurança na protecção dos Direitos Fundamentais
Além das medidas de polícia prevista no art. 28.º e
29.º da LSI, existem também dois outros tipos de medidas:
As Medidas Cautelares e de Polícia previstas no Código de Processo Penal; e
As Medidas de Segurança previstas no Código Penal.
O papel das Forças de Segurança na protecção dos Direitos Fundamentais
As Medidas Cautelares e de Polícia são medidas processuais ou pré-processuais penais previstas no Código de Processo Penal, nomeadamente entre os artigos 248.º a 253.º. Estas medidas têm por objectivo salvaguardar meios de prova que sem elas poderiam perder-se, mediante uma tomada imediata de providências pelos órgãos de polícia criminal, mesmo sem prévia autorização da autoridade judiciaria competente (por iniciativa própria), tendo as mesma que ser validadas por esta autoridade judiciária.
O papel das Forças de Segurança na protecção dos Direitos Fundamentais
As Medidas de Segurança encontram-se tipificadas nos artigos 91.º a 108.º do Código Penal – o internamento de inimputáveis em razão da idade e portadores de anomalia psíquica, cuja a aplicação são da responsabilidade do Juiz.
As medidas de segurança não privativas da liberdade:
interdição de actividades, cassação do título e interdição da concessão do título de condução de veículo com motor e aplicação de regras de conduta.
O papel das Forças de Segurança na protecção dos Direitos Fundamentais
Poderemos concluir que as medidas de segurança se encontrarão mais próximas das medidas de polícia, uma vez que ambas “têm por objecto actuar sobre um perigo, de modo a prevenir ou evitar um dano, pondo os indivíduos perigosos em situação de não produzirem malefícios ou obstando a que se dêem as circunstâncias favoráveis a essa produção”.
O papel das Forças de Segurança na protecção dos Direitos Fundamentais
Os princípios que norteiam a execução das medidas de polícia e as medidas cautelares de polícia são o princípio da tipicidade (as medidas tem de estar tipificadas na lei);
princípio da proporcionalidade ou da proibição do excesso (adequação das medidas à acção em concreto), entre outros.
O papel das Forças de Segurança na protecção dos Direitos Fundamentais
Síntese
Pretende-se que, os elementos das Forças de Segurança sejam capazes de pautar a sua actuação tendo em conta a garantia dos Direitos Fundamentais e agindo em conformidade com a lei e a Constituição.
Assim, deverão aplicar correctamente as medidas de polícia juridicamente permitidas, e só essas, limitando o seu uso apenas ao estritamente necessário aos fins legais, e actuar tendo em mente que os Direitos Fundamentais são limite, muitas vezes, a uma actuação eficaz, não se podendo, para prevenir crimes, violar esses direitos.
O papel das Forças de Segurança na protecção dos Direitos Fundamentais
Síntese
Pretende-se ainda, sensibilizar todos elementos policiais para que, nas diversas situações no exercício das suas funções, ou mesmo fora delas, tenham sempre bem presente o seguinte:
Os destinatários das suas intervenções são pessoas;
O papel das Forças de Segurança na protecção dos Direitos Fundamentais
Síntese
Por serem pessoas, e independentemente do seu comportamento, são titulares de um conjunto de direitos, alguns dos quais constituem um núcleo essencial, no qual não é lícito que alguém interfira, a não ser para proteger outras pessoas de serem agredidas nesses mesmos Direitos Fundamentais e, mesmo assim, apenas nas condições previstas na lei e pela medida estritamente necessária;
O papel das Forças de Segurança na protecção dos Direitos Fundamentais
Síntese
Os Direitos Fundamentais atingem hoje um grau de
protecção tão elevado que o cidadão os pode afirmar perante o próprio Estado e naturalmente perante as suas autoridades.
Uma maior sensibilização para esta matéria ajuda a criar nos
elementos policiais uma atitude mais responsável, com a adopção de procedimentos mais correctos. Assim estes estarão melhor preparados para garantir: “A segurança, a liberdade e o bem-estar do cidadão, fins dum Estado de direito democrático”.
O papel das Forças de Segurança na protecção dos Direitos Fundamentais