Indaial – 2021
I nstItuIções e R efoRma P sIquIátRIca
Prof. Reynaldo de Azevedo Gosmão
1a Edição
Elaboração:
Prof. Reynaldo de Azevedo Gosmão
Revisão, Diagramação e Produção:
Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI
Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial.
Impresso por:
G676i
Gosmão, Reynaldo de Azevedo
Instituições e reforma psiquiátrica. / Reynaldo de Azevedo Gosmão – Indaial: UNIASSELVI, 2021.
156 p.; il.
ISBN 978-65-5663-916-1 ISBN Digital 978-65-5663-912-3
1. Saúde mental. - Brasil. II. Centro Universitário Leonardo da Vinci.
CDD 150
a PResentação
Olá, acadêmico! Seja bem-vindo ao Livro Didático Instituições e Reforma Psiquiátrica, tema que aborda várias questões, desde o nascimento do hospital psiquiátrico e a psiquiatria como disciplina; os movimentos de reforma da psiquiatria; até a reforma psiquiátrica como processo social complexo: dimensões teórico-conceitual, sociocultural, técnico-assistencial e jurídico-política; reforma psiquiátrica brasileira; atenção psicossocial;
CAPS (Centro de Atenção Psicossocial); rede de atenção psicossocial;
desinstitucionalização; hospital e internação e estigma e conceito da loucura.
Na Unidade 1, abordaremos sobre a institucionalização da loucura, falaremos sobre o processo de reforma psiquiátrica e as suas nuances diante da estigmatização e conceituação da loucura, como os sujeitos inseridos nesse meio eram tratados e, consequentemente, como e por que essas instituições psiquiátricas foram decaindo e abrindo espaço para novas políticas de saúde mental, abrangendo a promoção e a prevenção de saúde.
Em seguida, na Unidade 2, estudaremos sobre a história e o conceito de saúde coletiva, bem como o movimento da reforma psiquiátrica e a luta antimanicomial no Brasil. Abordaremos também, sobre a ditadura e a redemocratização, abrangendo o movimento sanitarista no país. Além disso, falaremos como se dá a criação e legislação do Sistema Único de Saúde (SUS), quais são os seus objetivos e princípios organizativos de saúde mental.
Por fim, na Unidade 3, aprenderemos sobre os desafios da reforma psiquiátrica e programas alternativos, bem como a inserção do psicólogo na saúde mental e no SUS, as instituições atuais e os equipamentos de saúde pública. Falaremos sobre os compromissos éticos e sociais da psicologia, também sobre o Sistema Único de Assistência Social (SUAS) e outros instrumentos com a inserção do psicólogo; clínica ampliada e desafios atuais do psicólogo. Na sequência, discutiremos sobre novas perspectivas da luta antimanicomial e os seus desafios.
Portanto, esperamos que façam bom proveito das leituras, dicas e aprendizados que irão ver a seguir.
Boa leitura e bons estudos!
Prof. Reynaldo de Azevedo Gosmão
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s umáRIo
UNIDADE 1 — A INSTITUCIONALIZAÇÃO DA LOUCURA ... 1
TÓPICO 1 — CONTEXTO DE INSTITUIÇÕES ... 3
1 INTRODUÇÃO ... 3
2 CONTEXTO DE INSTITUIÇÕES ... 3
2.1 INSTITUCIONALIZAÇÃO NO MUNDO ...4
2.2 INSTITUCIONALIZAÇÃO NO BRASIL: HISTÓRIA DOS HOSPITAIS PSIQUIÁTRICOS ...6
2.3 NASCIMENTO DA PSIQUIATRIA X CRIAÇÃO DOS PRIMEIROS HOSPÍCIOS NO BRASIL... 8
RESUMO DO TÓPICO 1... 10
AUTOATIVIDADE ... 11
TÓPICO 2 — CONCEITO DE LOUCURA ... 13
1 INTRODUÇÃO ... 13
2 CONCEITO DE LOUCURA ... 13
2.1 A LOUCURA NA VISÃO DA PSICANÁLISE ...15
2.2 LOUCURA E SAÚDE ...16
2.3 LOUCURA E ESTIGMA ... 18
RESUMO DO TÓPICO 2... 21
AUTOATIVIDADE ... 22
TÓPICO 3 — HISTÓRIA E POLÍTICA DE SAÚDE COLETIVA ... 25
1 INTRODUÇÃO ... 25
2 HISTÓRIA E POLÍTICA DE SAÚDE COLETIVA ... 25
2.1 PROMOÇÃO DA SAÚDE ... 30
2.2 ACOLHIMENTO ... 31
2.3 PREVENÇÃO DE DOENÇA ... 37
LEITURA COMPLEMENTAR ... 41
RESUMO DO TÓPICO 3... 46
AUTOATIVIDADE ... 47
REFERÊNCIAS ... 49
UNIDADE 2 — MOVIMENTO DE REFORMA PSIQUIÁTRICA ... 53
TÓPICO 1 — A HISTÓRIA E O CONCEITO DE SAÚDE COLETIVA ... 55
1 INTRODUÇÃO ... 55
2 A HISTÓRIA E O CONCEITO DE SAÚDE COLETIVA ... 55
2.1 A HISTÓRIA E O CONCEITO DE SAÚDE COLETIVA ...60
2.1.1 Movimento da reforma psiquiátrica ...64
2.1.2 Luta antimanicomial no Brasil ...66
RESUMO DO TÓPICO 1... 71
1 INTRODUÇÃO ... 75
2 DITADURA BRASILEIRA ... 75
2.1 REDEMOCRATIZAÇÃO E LUTA ANTIMANICOMIAL NO BRASIL ... 80
2.2 MOVIMENTO SANITARISTA... 80
RESUMO DO TÓPICO 2... 82
AUTOATIVIDADE ... 83
TÓPICO 3 — SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE: CRIAÇÃO E LEGISLAÇÃO ... 85
1 INTRODUÇÃO ... 85
2 OBJETIVOS DO SUS ... 85
3 PRINCÍPIOS ORGANIZATIVOS E SAÚDE MENTAL ... 87
LEITURA COMPLEMENTAR ... 94
RESUMO DO TÓPICO 3... 99
AUTOATIVIDADE ... 100
REFERÊNCIAS ... 102
UNIDADE 3 — DESAFIOS DA REFORMA PSIQUIÁTRICA E PROGRAMAS ALTERNATIVOS ...103
TÓPICO 1 — NOVAS PERSPECTIVAS DE CUIDADO E INSERÇÃO DO PSICÓLOGO E ACOMPANHANTE TERAPÊUTICO NA SAÚDE MENTAL ... 105
1 INTRODUÇÃO ... 105
2 INSERÇÃO DO PSICÓLOGO NA SAÚDE MENTAL ... 105
2.1 TRABALHO DA PSICOLOGIA E DE OUTROS PROFISSIONAIS DA SAÚDE...107
2.2 INSERÇÃO DO ACOMPANHANTE TERAPÊUTICO NA SAÚDE MENTAL ... 109
2.3 INSTITUIÇÕES ATUAIS DE SAÚDE MENTAL ...111
2.4 EQUIPAMENTOS DE SAÚDE PÚBLICA ... 113
RESUMO DO TÓPICO 1... 116
AUTOATIVIDADE ... 117
TÓPICO 2 — COMPROMISSOS ÉTICOS E SOCIAIS DA PSICOLOGIA E ACOMPANHAMENTO TERAPÊUTICO ... 119
1 INTRODUÇÃO ... 119
2 COMPROMISSOS ÉTICOS E SOCIAIS DA PSICOLOGIA ... 119
2.1 O COMPROMISSO SOCIAL PARA ALÉM DE UMA ATUAÇÃO ...121
2.2 COMPROMISSOS ÉTICOS E SOCIAIS DO ACOMPANHAMENTO TERAPÊUTICO ...122
2.3 SUAS E ATENÇÃO SOCIAL ... 123
2.4 CLÍNICA AMPLIADA ...125
RESUMO DO TÓPICO 2... 129
AUTOATIVIDADE ... 130
TÓPICO 3 — INSERÇÃO DO PSICÓLOGO E ACOMPANHANTE TERAPÊUTICO NO SUS ... 133
1 INTRODUÇÃO ... 133
2 INSERÇÃO DO PSICOLÓGO NO SUS ... 133
2.1 INSERÇÃO DO ACOMPANHANTE TERAPÊUTICO NO SUS ... 135
2.2 DESAFIOS ATUAIS DO SUS... 137
2.3 NOVAS PERSPECTIVAS DA LUTA ANTIMANICOMIAL E SEUS DESAFIOS ... 139
LEITURA COMPLEMENTAR ... 143
AUTOATIVIDADE ... 150 REFERÊNCIAS ... 152
UNIDADE 1 — A INSTITUCIONALIZAÇÃO DA
LOUCURA
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:
• conhecer o contexto das instituições psiquiátricas;
• compreender o movimento de institucionalização no Brasil;
• conhecer a história dos primeiros hospitais brasileiros e os novos substitutos desses serviços;
• entender o conceito de saúde;
• discutir e problematizar o conceito de loucura e sua estigmação.
Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer da unidade, você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado.
TÓPICO 1 – CONTEXTO DE INSTITUIÇÕES TÓPICO 2 – CONCEITO DE LOUCURA
TÓPICO 3 – HISTÓRIA E POLÍTICA DE SAÚDE COLETIVA
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CHAMADA
TÓPICO 1 —
UNIDADE 1
CONTEXTO DE INSTITUIÇÕES
1 INTRODUÇÃO
Abordaremos os cenários das instituições, refazendo o percurso teórico da construção do contexto de instituições, a institucionalização no mundo e ainda, a institucionalização no Brasil, contando a história dos hospitais psiquiátricos e a sua importância para os conceitos de loucura e de doença mental, verificada a loucura como uma categoria socialmente construída, bem como a identificação das forças envolvidas no processo de legitimação do objeto enquanto doença mental.
Conforme aponta Resende (2007, p. 38),
[...] as primeiras instituições psiquiátricas surgiram em meio a um contexto de ameaça à ordem e à paz social, em resposta aos reclamos gerais contra o livre trânsito de doidos pelas ruas das cidades; acrescentem-se os apelos de caráter humanitário, as denúncias contra os maus tratos que sofriam os insanos. A recém-criada Sociedade de Medicina engrossa os protestos, enfatizando a necessidade dar-lhes tratamento adequado, segundo as teorias e técnicas já em prática na Europa.
De acordo com Engel (2001, p. 330), a partir de então, se deu a propagação de instituições que eram destinadas aos alienados, assinalando “a formulação de políticas públicas de tratamento e/ou repressão dos doentes mentais, identificados com base nos limites cada vez mais abrangentes da anormalidade”, distingue-se como um processo desencadeado no Brasil entre os anos 1830 e os anos 1920, marcado por continuidades e descontinuidades.
Portanto, entende-se que em um contexto extremamente propício à desumanização, às estratégias de ganho financeiro e, em meio a disputas na política, as instituições se consolidavam, tirando o direito de ir e vir de muitos, principalmente, dos mais necessitados de cuidado e de proteção.
2 CONTEXTO DE INSTITUIÇÕES
Podemos entender por instituição, se dirigindo ao mundo psiquiátrico, um local de residência ou trabalho, onde existem sujeitos em situação semelhante, que ficam separados, de certa forma, da sociedade ou de qualquer meio social possível. Este lugar no passado, muitas vezes, foi considerado como uma prisão, visto que as pessoas ficavam fechadas, tinham horários para realizar as suas atividades rotineiras e, ainda, dependiam dos funcionários para tais práticas.
Estas instituições ou melhor, estabelecimentos sociais, podem ser apresentados de diversas formas. Uma delas é responsável por cuidar de pessoas, que pensam ser incapazes.
De acordo com Oscar, Costa e Vianna (2005, s. p.), “o modelo de atenção em saúde mental estabelece intermediações entre o técnico e o político e nele devem estar presentes os interesses da sociedade bem como o saber técnico, as diretrizes políticas e os modos de gestão dos serviços públicos”. Isso significa que é por meio da definição de um modelo assistencial que elaboramos as ações de saúde a serem realizadas, delimitando as normas de atendimento, e traçando um perfil compatível com os objetivos almejados.
Segundo Oscar, Costa e Vianna (2002), o modelo se direciona para a organização das práticas nesta área. Fazendo uma breve retrospectiva da história, podemos ver que, na época da criação de instituições asilares, o intuito era transferir e responsabilizar o cuidado aos doentes mentais dos hospitais gerais para essas instituições, como forma de excluir os sujeitos “incapazes” de conviver em sociedade. A partir disso, os asilos tiveram como função primordial o tratamento médico, que traz o louco como sujeito da razão. Dessa forma, o que se pode ver é que o hospício apresentou a desigualdade social de forma extremamente distorcida e fora da realidade.
Assim sendo, concluímos que essas instituições e todo o seu processo dentro do contexto de saúde mental visavam somente tapar lacunas que a própria sociedade impunha, de modo a esconder os verdadeiros problemas advindos do isolamento, de maus tratos, da falta de serviços básicos de saúde e de sobrevivência.
Por um lado, podemos observar como a psiquiatria tratava doentes mentais, utilizando de cientificidade, ao passo em que exclui completamente a singularidade dos sujeitos, tirando, inclusive, a sua liberdade de escolha, sendo colocados em meio à miséria e ao abandono, o que vai de encontro a uma distorção entre a teoria e a prática.
2.1 INSTITUCIONALIZAÇÃO NO MUNDO
A história da instituição psiquiátrica no mundo implica em descrever um mundo no qual as pessoas tinham histórias destituídas ou quase invisíveis, não eram sujeitos individuais de sua própria vida. Desse modo, podemos entender como a tendência dessas instituições era o fechamento, uma vez que, sua configuração e métodos levava a uma aniquilação do sujeito, do EU. Essa reestruturação seria estimulada frente a práticas inerentes, ao sujeito que sofre.
As esferas da sociedade passaram a ser entrelaçadas ao saber científico, que começou a ditar normas e regras de bom comportamento e interveio na vivência dessas pessoas. Como consequência, a população foi perdendo o espaço,
Essas instituições se deram de forma a contemplar um novo tipo de relação com os mais necessitados, sejam eles pobres, moradores de rua, criminosos, doentes, de forma geral, aqueles que apresentavam algum risco para a sociedade. O principal objetivo era a precaução e o controle social, como forma de minimizar custos, energia e criação de estratégias para combate-las.
FIGURA 1 – PINTURA DE HOMEM SOZINHO UM ESPAÇO AZUL
FONTE: <https://bit.ly/3FqmKlO>. Acesso em: 1 jul. 2021.
Assim, foram criadas várias instituições para comportar essas pessoas que apresentavam algum desvio ou algo incompatível com o que achavam pertinente na época. No ano de 1910, foram criadas duas instituições, chamadas de asilos, o chamado Asilo de Órfãs de São Vicente de Paula e o Asilo de Mendicidade Irmão Joaquim, ambos em Florianópolis (SC). Já em 1930, se deu a inauguração da penitenciária no bairro da Pedra Grande, em Florianópolis (SC). É nesse contexto, que se dá a criação do serviço de assistência a psicopatas, intitulado durante o governo de Nereu Ramos em 1940, Instituto Psiquiátrico Colônia Santana, em São José (SC).
Conceito de asilos: "A casa de assistência social onde são recolhidas para sustento ou também para educação, pessoas pobres e desamparadas como mendigos, crianças abandonadas, órfãos, velhos etc.” (GENTIL FILHO, 1999, p. 21).
ATENCAO
Com a criação e inauguração dessas instituições, a modernização da sociedade andou junto com o isolamento dos sujeitos que apresentavam
“comportamentos antissociais”. Isso porque, passou a fazer parte da segurança pública a exclusão dos isolamentos, considerados nocivos e maus exemplos. Essa prática foi adotada tanto na Europa, a partir do final do século XVIII, como no Brasil, em fins do século XIX, com o estabelecimento de novas configurações política e social dadas à loucura. Como mencionado anteriormente, os asilos ou espaço asilar passaram a representar a construção de novas formas de política pública e relações sociais (OLIVEIRA, 2021).
FIGURA 2 – INSTITUIÇÃO TEM FUNÇÃO SOCIAL
FONTE: <https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/physician-doctor-black-269075324>.
Acesso em: 1 jul. 2021.
Conforme menciona Zenoni (2000, p. 66), as funções social e clínica da instituição, antes de ter um objetivo terapêutico, são “uma necessidade social, sendo que uma função não anularia a outra: “Sem o limite da função social, a instituição corre o risco de se transformar em um lugar de alienação, de experimentação e, sem o limite da função terapêutica corre o risco de ser simplesmente suprimida”.
2.2 INSTITUCIONALIZAÇÃO NO BRASIL: HISTÓRIA DOS HOSPITAIS PSIQUIÁTRICOS
No século XIX, com a chegada da Família Real ao Brasil, o Estado decide fazer da “loucura”, objeto de intervenção. Nesse mesmo momento histórico, com a independência da nação, a “loucura” é vista como um desserviço à população, no qual os loucos eram apenas restos e apresentavam riscos à sociedade. Atitudes agressivas e/ou incompatíveis com os chamados bons comportamentos não eram mais toleradas, e essas pessoas não podiam mais ter o direito de ir e vir. Com isso, “seu destino passou a ser os porões das Santas Casas de Misericórdia, onde permaneciam amarrados e vivendo sob péssimas condições de higiene e cuidado”
FIGURA 3 – QUARTO EM ANTIGO HOSPITAL ABANDONADO
FONTE: <https://shutr.bz/3oGgccz>. Acesso em: 12 jul. 2021.
Na legislação de 1934, existiu um substitutivo que parecia mais flexível, mais abrangente e que seria capaz de garantir alguns direitos aos indivíduos que ali se inserissem. No entanto, foram apontados dois problemas:
1) proibição da construção de hospitais públicos e a contratação ou financiamento de novos leitos psiquiátricos pelo SUS, configurando uma espécie de “reserva de mercado” e impedindo a modernização do parque hospitalar;
2) desautorização da existência de asilos não hospitalares, negando o direito de asilo aos portadores de transtornos mentais (GENTIL FILHO, 1999).
Nos anos de 1920 e 1930, o principal modelo de assistência em hospitais era a internação; em âmbito psiquiátrico, essa seria a forma mais correta para evitar outros males. No entanto, na verdade, o intuito principal era tirar de cena, excluir da sociedade, pessoas que pudessem oferecer algum tipo de perigo ou risco. Portanto, seria uma forma de proteção e alienação mental de todos.
FIGURA 4 – INTERNAÇÃO PSQUIÁTRICA EXCLUÍA PESSOA PARA “EVITAR MALES”
FONTE:<https://shutr.bz/3FshZs2>. Acesso em: 1 jul. 2021.
O Instituto Raul Soares tinha como oferta e propaganda espaços de lazer, como biblioteca, música, jogos, exercícios físicos ao ar livre, entre outros, além de oferecer trabalho em tarefas voluntárias pelas quais os pacientes se interessavam e conseguiam realizar. No entanto, em 1927, com a direção de Alexandre C.
Drummond, foi transformada em um depósito de pessoas.
2.3 NASCIMENTO DA PSIQUIATRIA X CRIAÇÃO DOS PRIMEIROS HOSPÍCIOS NO BRASIL
De acordo com Machado et al. (1978, p. 376), “o nascimento da psiquiatria no Brasil só é compreendido a partir da medicina, responsável por colocar a sociedade como um objeto que deveria ter controle social”. Na época, conforme o autor, o hospício era considerado o principal meio de terapia, como dizia a Sociedade de Medicina e Cirurgia: “aos loucos o hospício”. Portanto, viu-se que os critérios e regras estabelecidas vinham da própria medicina social, como forma de conter indivíduos desviantes das condutas corretas.
Com a criação dos primeiros hospícios, novos textos e práticas foram esboçados na medicina e um dos principais objetivos era de colocar a reclusão dos loucos em pauta. Esses primeiros hospitais tinham como característica principal o isolamento. Ainda de acordo com Machado et al. (1978, p. 431), o isolamento foi “característica básica do regime médico e policial do Hospício Pedro II”, esse último inspirado em modelos asilares. Eles acreditavam ser necessário o isolamento da família em apenas um caso específico, para loucos que vagavam nas ruas, pois se vagavam em ruas não tinham condições financeiras para tratamento desses pacientes. Em contrapartida, para famílias ricas que escolhessem e se propusessem manter seus entes nos hospícios, a internação não deveria ser imposta. Podemos ver claramente diferenças no tratamento tanto antes da entrada no hospício como já inserido nesse mundo.
Conforme aponta Resende (2007, p. 38),
[...] as primeiras instituições psiquiátricas surgiram em meio a um contexto de ameaça à ordem e à paz social, em resposta aos reclamos gerais contra o livre trânsito de doidos pelas ruas das cidades; acrescentem-se os apelos de caráter humanitário, as denúncias contra os maus tratos que sofriam os insanos. A recém-criada Sociedade de Medicina engrossa os protestos, enfatizando a necessidade dar-lhes tratamento adequado, segundo as teorias e técnicas já em prática na Europa.
Com a ideia de exclusão das minorias (loucos), foram construídos asilos, casas de correção, hospícios, hospitais psiquiátricos, entre outros. Sendo caracterizado por um período de “redimensionamento das políticas de controle social, cuja rigidez e abrangência eram produzidas pelo reconhecimento e pela legitimidade dos novos parâmetros definidores da ordem, do progresso, da modernidade e da civilização” (ENGEL, 2001, p. 331). Essa exclusão, dada de forma errônea, “tinha como consequência o enclausuramento de homens e mulheres
De acordo com Venâncio (2007, p. 1417), nesta época, “as ações político- assistenciais para a área da psiquiatria eram dadas a partir de um processo de modernização, centralização e nacionalização da assistência mais ampla em saúde.”
Entre 1940 e 1950, os hospitais foram cada vez mais se expandindo, e passou a ser condenado nomes como asilos, retiro ou ‘recolhimento, afirmando então, somente o nome de hospital psiquiátrico. Dessa forma, com a visibilidade dessas instituições e da medicina psiquiátrica, “os instrumentos precisavam seguir o mesmo padrão, foram introduzidos no país, o choque cardiazólico, a psicocirurgia, a insulinoterapia e a eletroconvulsoterapia” (AMARANTE, 1995, s. p.).
Podemos concluir que as terapias somáticas aplicadas aos doentes mentais se caracterizavam quase que exclusivamente, por intervenções de caráter clínico, mas, muitas vezes, aplicado ou realizado de forma errônea e imprecisa. Hoje em dia são práticas proibidas e excluídas pela população.
Choque cardiazólico: criado por Ladislau Von Meduna (1896-1964), era uma terapêutica que provocava convulsões para atingir a cura e abrir um novo campo terapêutico.
Psicocirurgia: responsável por modular a performance do cérebro e, assim, afetar mudanças na cognição, com a intenção de tratar ou aliviar a severidade das doenças mentais.
Insulinoterapia: tem o objetivo de manter a glicemia no sangue controlada. O plano a ser seguido inclui os tipos de insulina que precisam ser administrados, os horários e as doses.
Eletroconvulsoterapia: é a aplicação de um estímulo elétrico, a partir de dois eletrodos colocados na parte frontal da cabeça, capaz de induzir a convulsão, que só é vista no aparelho de encefalograma.
INTERESSANTE
Neste tópico, você aprendeu que:
• Instituição, se dirigindo ao mundo psiquiátrico, é um local de residência ou trabalho, onde existem indivíduos em situação semelhantes, que ficam separados, de certa forma, da sociedade. No passado, foi considerada como uma prisão, visto que as pessoas ficavam fechadas, tinham horários para realizar as suas atividades rotineiras e ainda dependiam dos funcionários para tais práticas.
• As instituições psiquiátricas, no início, foram pensadas e surgiram em meio a ameaças de ordem política e social, com o foco de responder às diversas reclamações da população quanto ao livre arbítrio dos ditos “doidos” pelas ruas; acrescentem-se os apelos de caráter humanitário, as denúncias contra os maus tratos que sofriam os insanos.
• A história das instituições psiquiátricas no mundo implica em descrever um ambiente em que as pessoas tinham histórias destituídas ou quase invisíveis, não eram sujeitos individuais de sua própria história. Desse modo, a sua configuração e métodos levava a uma aniquilação do sujeito, do EU.
• Somente em junção à medicina, a psiquiatria foi compreendida e responsável por fazer da sociedade um objeto com limitações e controle social. Na época, o hospício era considerado o principal meio de terapia, como dizia a Sociedade de Medicina e Cirurgia: “aos loucos o hospício”.
RESUMO DO TÓPICO 1
1 Com base nos principais objetivos das instituições psiquiátricas, vemos que elas exerciam função social e cultural em disciplinar fisicamente e mentalmente os sujeitos que nelas estavam inseridos, assim, seguiam padrões e estratégias semelhantes e nada personalizadas a todos. Sobre estas instituições, assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) Consideradas na época, o principal instrumento terapêutico capaz de enclausurar e disciplinar indivíduos que apresentavam perigo para a sociedade e/ou possuíam algum tipo de desvio comportamental na conduta humana.
b) ( ) São hospitais especializados no tratamento medicamentoso de qualquer indivíduo que apresente comorbidades.
c) ( ) Todas as instituições psiquiátricas oferecem cuidados como: alimentação, medicação, terapia ocupacional, terapias com psiquiatras e psicólogos, gratuitamente.
d) ( ) O seu principal objetivo era prender as pessoas que cometessem algum crime ou passassem por processos judiciais.
2 O Serviço Nacional de Doenças Mentais (SNDM) foi criado em 1941, vinculado ao Ministério da Educação e Saúde. No período, predominavam os hospitais públicos, responsáveis por 80,7% dos hospitais psiquiátricos no Brasil. Sendo na época os asilos, o Juqueri, o Hospital de Alienados e o São Pedro, estes exerciam um papel orientador da assistência psiquiátrica, como o principal instrumento de intervenção sobre a doença mental (PAULIN, TURATO, 2004). Com base nos asilos mencionados, analise as sentenças a seguir:
I- O Hospital Psiquiátrico do Juqueri é uma das mais antigas e maiores colônias psiquiátricas do Brasil, localizada em Franco da Rocha, na região metropolitana de São Paulo.
II- O Hospital de Alienados também foi chamado de O Hospício de Pedro II, criado em 1841.
III- Designado como Hospital São Pedro até 1925, passou a ser chamado Hospício São Pedro até 1961.
Assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) As sentenças I e II estão corretas.
b) ( ) Somente a sentença II está correta.
c) ( ) As sentenças I e III estão corretas.
d) ( ) Somente a sentença III está correta.
AUTOATIVIDADE
novas formas de organização do convívio social. As políticas médico- sanitaristas foram as principais responsáveis por essa nova metodologia, ditando novas regras e normas a serem seguidas. De acordo com essas regras e normas, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas:
( ) A principal norma era ditar os comportamentos da população, como sendo aceitos ou não em sociedade.
( ) Tinham como regra intervir a qualquer momento necessário, mesmo sem a escolha do indivíduo.
( ) Gerar para a população mais espaço e assistência médica e psiquiátrica.
Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:
a) ( ) V – F – F.
b) ( ) V – V – F.
c) ( ) F – V – F.
d) ( ) F – F – V.
4 A institucionalização da loucura, desde o início, assumiu uma amplitude que não lhe permite uma comparação com a prisão tal como esta era praticada na Idade Média. Ela tem valor de invenção, uma vez que designa um evento decisivo. Disserte sobre esse evento decisivo dentro da época.
5 No início do percurso histórico da psiquiatria no Brasil, foram criados os primeiros manicômios. A maioria deles tinha o intuito de substituir a cadeia pública, local destinado ao recolhimento de “alienados” das ruas.
Dessa forma, vemos que os primeiros hospitais eram apenas um depósito de gente, onde não cabia amenizar o sofrimento do outro, mas livrar a sociedade dele. Neste contexto, disserte sobre a forma como os manicômios da época praticavam as suas atividades.
TÓPICO 2 —
UNIDADE 1
CONCEITO DE LOUCURA
1 INTRODUÇÃO
Agora, no Tópico 2, abordaremos o conceito de loucura, relacionando à loucura e a saúde e à loucura e o estigma. Discutiremos sobre os conceitos de loucura das instituições de psiquiatria e saúde mental, e compreenderemos o que é loucura para a saúde mental e, ainda, se existe um diálogo entre a psiquiatria com a mesma, como forma de buscar e aprender o conceito de loucura nas diversas áreas que a abrangem.
Apontaremos uma reflexão teórica acerca da percepção e da conceituação da loucura, experenciada ou não, e, como consequência, as formas de lidar e agir frente a ela. O que vale ressaltar é que a história da loucura sofreu muitas transformações ao longo dos anos, e poderemos ver, nitidamente, como, em cada época, as formas de vê-la e analisa-la mudaram.
No atual momento, ela ainda pode sofrer mudanças, mas, talvez, para avanços na saúde e na psiquiatria, abrangendo diversas outras áreas que possibilitem uma ligação mais humanizada, cuidadosa e que tenha, principalmente, liberdade de escolha. Porém, para isso, é necessário que exista uma reelaboração de concepções, de práticas e de formas para se relacionar com a loucura, para que não seja repetida (SILVEIRA; BRAGA, 2005).
2 CONCEITO DE LOUCURA
Para Foucault (1972), a loucura é vista como uma problemática modificada.
Ou seja, ela é colocada como excluída, da qual não se libertará. “Se o homem para de ser livre ao passo em que pode ser louco, o pensamento, como exercício de soberania de um indivíduo que se atribui o dever de perceber o verdadeiro, não pode ser insensato” (FOUCAULT, 1972, p. 236).
A loucura era vista como algo que devia ser escondido, alienado e posto como algo negativo e condenável, além de julgado pela própria sociedade.
Como poderia eu negar que estas mãos e este corpo são meus, a menos que me compare com alguns insanos, cujo cérebro é tão perturbado e ofuscado pelos negros vapores da bílis, que eles asseguram constantemente serem reis quando na verdade são muito pobres, que estão vestidos de ouro e púrpura quando estão completamente nus, que imaginam serem bilhas ou ter um corpo de vidro? (DESCARTES, 1953, p. 268).
Para Júnior e Medeiros (2007, p. 61), estabeleceram-se três grupos temáticos principais:
1. Conceitos de loucura como doença psiquiátrica - em especial como psicose e esquizofrenia.
2. Conceitos de loucura na interface doença psiquiátrica tradicional/
modificação e crítica dos conceitos psiquiátricos pela saúde mental - incluindo conceitos psicológico-filosóficos de loucura, os quais estabelecem uma área de interpenetração entre a psiquiatria e a saúde mental.
3. Conceitos histórico-sociais de loucura relacionados à institucionalização psiquiátrica. Talvez seja este o campo de teorização que faz mais justiça às intenções de boa parte dos pesquisadores que se dedicam à saúde mental como campo de saber autônomo e independente, em superação ao campo psiquiátrico no que diz respeito à produção de conhecimento e mesmo à sua teorização como integrante da própria institucionalização da loucura.
FIGURA 5 – A LOUCURA JÁ FOI VISTA COMO ALGO A SER ESCONDIDO PELA SOCIEDADE
FONTE: <https://shutr.bz/2Yq93lC>. Acesso em: 12 jul. 2021.
O conceito de loucura dada como doença para a psiquiatria, traz, principalmente, a esquizofrenia, sendo como entidade nosológica autônoma. Já para Lopes (2001, p. 30), a loucura é dada como psicose (“psicose propriamente dita fica sendo a esquizofrenia”), ele acrescenta ainda que “a loucura descrita pelos trágicos gregos, a loucura descrita na Bíblia, é a mesma loucura de hoje, do homem que mora em apartamento em qualquer cidade do mundo. Psicose [é] igual à loucura”. Assim, podemos perceber que a loucura estabelecida historicamente tem uma configuração distorcida da realidade, visto que o trabalho da psiquiatria é elucidar o senso comum (VILLARES; REDKO; MARI, 1999).
A esquizofrenia é vista como uma doença médica de caráter orgânico puro e que a própria psiquiatria estabeleceu através de concepções populares, de achismos. É uma doença tratada como fenômeno de existência real.
2.1 A LOUCURA NA VISÃO DA PSICANÁLISE
De acordo com Santos (1999), sobre a sua análise na psicanálise de Winnicott, responsável por ter contribuído para uma compreensão e uma terapêutica de pacientes psicóticos, afirma que “a psicose é como uma falha entre o ambiente (relações parentais, principalmente) e o sujeito no decurso do desenvolvimento psíquico individual; ou uma falha desenvolvimental que ocorreria em nível mais primitivo ou regressivo que os conflitos emergentes na neurose”. Assim sendo, ele completa com a seguinte afirmativa:
A psicose leva até os estágios mais primitivos do desenvolvimento e da organização da mente, quando ainda não se fixou uma diferença nítida entre o self e o não self [...] A psicose está ligada à privação emocional em um estágio anterior àquele em que o bebê possa perceber esta privação [...] já que ele se encontrava em um estágio evolutivo que ainda não o capacitava a se diferenciar minimamente do ambiente [...], ocasionando uma incapacidade absoluta de se relacionar com objetos”
(SANTOS, 1999, p. 615).
Ainda de acordo com a psicanálise, mas desta vez por análise de Freire (1999, p. 569) sobre a fala de Jacques Lacan:
que não veio um dia no simbólico, ou seja, o foracluído, o não inscrito, reaparece como exterior à realidade psíquica. Lacan precisa que esse foracluído não se refere a qualquer representação da realidade, mas ao que constitui esta realidade como simbólica, a saber, o Nome do Pai [...], o operador que separa, que barra a relação da criança com a mãe, permitindo à criança vir a significá-la.
Desse modo, podemos compreender que, para a psiquiatria que vê a loucura como sendo uma doença, um desvio ou até mesmo um comportamento inadaptável, a cura seria através ou em direção da própria adaptação do sujeito à sociedade, assim como a sociedade se adaptar a essas questões.
Esquizofrenia: termo geral que designa um conjunto de psicoses endógenas, cujos sintomas fundamentais apontam a existência de uma dissociação da ação e do pensamento, expressa em uma sintomatologia variada, como delírios persecutórios, alucinações, esp. auditivas, labilidade afetiva etc.
IMPORTANTE
FIGURA 6 – APOIO É FUNDAMENTAL PARA ENFRENTAR A DOENÇA
FONTE: <https://shutr.bz/2YuRPnu>. Acesso em: 1 jul. 2021.
Como podemos ver, alguns conceitos de loucura apresentam discordância entre os psiquiatria e a saúde mental. Assim, de acordo com Júnior e Medeiros (2007, p. 73), “nos é apontado que do primeiro lado existe a loucura como sendo uma doença médica, de caráter genético e orgânico. Por outro lado, vemos uma rejeição explícita da essência biológica na explicação psiquiátrica da loucura e que não se reduz a esse biologicismo”. Além disso, a loucura também é colocada como sequela e consequência de internações hospitalares/psiquiátricas, pelas quais os sujeitos passam por traumas, medos, frio e fome, resultando no que chamam de doença. Essa doença então é vista como parte da intolerância e estigmatização social (JÚNIOR; MEDEIROS, 2007).
2.2 LOUCURA E SAÚDE
Por muito tempo, pacientes com problemas de saúde mental foram direcionados e mantidos em manicômios, vinculados a uma estrutura extremamente miserável e desumana. Para sair dessa estrutura e mudar as práticas e estratégias utilizadas, muitas dificuldades foram postas e havia sempre a necessidade de reformular e elaborar a concepção de loucura, pois só assim algo seria transformado.
FIGURA 7 – MENINA CONSOLA AMIGA POR TELEFONE
Dessa forma, seria necessário a implantação de uma política de saúde mental que estivesse em consonância e de acordo com diretrizes constituídas no processo da Reforma Psiquiátrica, e além disso, era necessário que houvessem recursos disponíveis para atuar nessa nova perspectiva de atenção e gestão em saúde mental.
Graças à política de saúde mental iniciada nos anos 1980, o Brasil conquistou um lugar no campo da saúde mental global. Isso devido ao país ter sido um dos primeiros a implantar com sucesso uma política nacional de saúde mental.
Com a grande demanda e diante da realidade de muitos países, não só o campo da saúde precisava de assistência, mas também o campo da saúde mental.
Ainda mais por se tratar de desamparo a moradores de rua, mais necessitados e desfavorecidos. Justamente por essas questões, a implantação desses serviços gerava também esperança, perspectiva de ter alimento, atendimento médico, psicológico, odontológico adequados e serviço social (OLIVEIRA; PASSOS, 2007).
FIGURA 8 – ASSISTÊNCIA GERA ESPERANÇA
FONTE: <https://bit.ly/3BliDVx>. Acesso em: 1 jul. 2021.
“O desenvolvimento da política de saúde mental no Brasil esteve estreitamente associado à criação do SUS, à descentralização da administração da saúde no país, à mobilização de profissionais e a mudanças sociais e culturais da sociedade brasileira”
(ALMEIDA, 2019, s.p).
ATENCAO
Para Paiva (2003, p. 22), a política nacional de saúde mental nos últimos anos tem sido orientada na seguinte direção: “Trabalha-se com a defesa da reforma psiquiátrica, por ela ser imbuída dos ideais de uma sociedade igualitária e humana, primando pela reinserção social dos excluídos, baseando-se nos princípios de liberdade, igualdade e fraternidade”, sinalizando uma sociedade livre da opressão, preconceito e ignorância (PAIVA, 2003).
Portanto, não se trata do não reconhecimento da condição de cidadania dos enfermos mentais de um simples desvio de rota operando sobre um fundo reconhecido de positividade dos seus legítimos direitos sociais, mas de uma positividade que nunca existiu de fato e de direito, sendo esta atribuição de positividade uma ilusão constitutiva da psiquiatria como saber no nosso imaginário. Enfim, a exclusão social da figura da doença mental da condição de cidadania estabeleceu-se estruturalmente na tradição cultural e histórica do Ocidente quando, num lance decisivo, o campo da loucura foi transformado no campo da enfermidade mental, na aurora do século XIX (BIRMAN, 1992, p. 73).
Para tanto, é extremamente necessário e importante que haja manifestações afim de mobilizar a luta pelo resgate da cidadania e dos direitos humanos, principalmente no que diz respeito a práticas de reabilitação psicossocial.
Somente assim, parte dos excluídos conseguirão restituir a sua cidadania plena ou, pelo menos, parcial.
2.3 LOUCURA E ESTIGMA
De acordo com Moreira (2008, p. 2), “o estigma é definido como uma diferença indesejada, um atributo pejorativo que implica na intolerância do grupo”. Embora se saiba que as doenças mentais são estigmatizadas em muitas partes do mundo, ainda é pouco compreendido os processos culturais pelos quais essa configuração é produzida, sendo através da própria sociedade e ainda, com outras doenças.
Ao falarmos sobre estigma, é necessário que se discuta sobre a temática de autonomia. Isso porque, ao ser rotulado ou estigmatizado, é retirado do sujeito o seu “eu”, a sua autonomia, a sua liberdade de escolha. Ou seja, o sujeito que sofre com tal rótulo é tratado como se não tivesse vida própria, sempre à mercê do outro.
Cohen (2009, p. 221) destaca a importância da autonomia para o sujeito:
A autonomia é a capacidade de autogoverno, de livre arbítrio quanto à regência de seu próprio destino, no fazer ou não fazer, no ir ou não ir, no aceitar ou no recusar e assim por diante, concedida pouco a pouco, por parâmetros biológicos e de convívio social, que afastam os seres humanos dos animais e criam os contornos de sua personalidade. Este valor, a autonomia, envolve a proteção da privacidade, da confiabilidade e da procura de ações que se baseiem em um consentimento informado, opondo-se a qualquer forma de coerção, mesmo que seja justificada por eventuais benefícios sociais.
Nesse processo de estigmatização, rotulação ou exclusão, o sujeito deixa de se sentir como parte da sociedade, como pessoa humana, e passa a ser tratado e visto como objeto, muitas vezes, sem liberdade de opinar sobre o próprio tratamento.
Consequente a isso, vem a baixa estima, o desestímulo ao paciente de persistir no tratamento, o que ainda pode agravar o quadro e acabar sendo levado a uma internação psiquiátrica. “Esse sujeito, uma vez internado, perde a sua subjetividade ao ser somente mais um. A resposta da sociedade a um quadro de qualquer doença nunca poderá ser mais dolorosa que a própria enfermidade” (BUSSINGUER;
ARANTES, 2016, p. 11).
FIGURA 9 – ESTIGAMA TRAZ PESO NEGATIVO
FONTE: <https://shutr.bz/3ag0e0E>. Acesso em: 12 jul. 2021.
O estigma é dado a algo ou alguém como uma marca socialmente imposta pela sociedade, afim de que rotule aquilo. Isso acontece de diversas formas, seja em ordem racial, religiosa, política, física ou como mencionamos, no caso de alguma doença. Por ser sempre imposto de forma a ofender alguém, traz consigo um peso negativo e acaba por afastar os sujeitos de seu convívio social, como forma de não precisar lidar com aquilo novamente.
Para Goffman (2004, p. 7), “o estigma pode se apresentar sob três tipos, a saber: as deformidades físicas; as culpas de caráter individual e os tribais ou de raças. Quanto ao estigma da loucura, este se enquadra nas culpas de caráter individual”. Ou seja, o estigma é capaz de atravessar um fato social que permeia a sociedade e atinge a dignidade das pessoas que são de certa forma, atingidas).
Ele ainda aponta que:
Construímos uma teoria do estigma; uma ideologia para explicar a sua inferioridade e dar conta do perigo que ela representa, racionalizando algumas vezes a animosidade baseada em outras diferenças, tais como a classe social. Utilizamos termos específicos de estigma como aleijado, bastardo, retardado, em nosso discurso diário como fonte de metáfora e representação, de maneira característica, sem pensar no seu significado original (GOFFMAN, 2004, p. 8).
De acordo com publicação da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 2008, milhões de pessoas sofrem de perturbações mentais no mundo. Em 2005, estimava-se que 154 milhões sofriam de depressão e 25 milhões de esquizofrenia, além de distúrbios relacionados ao abuso de drogas e de álcool. Diante desses dados alarmantes e preocupantes, temos o dever e a obrigação de lutar pela ruptura do estigma da loucura e de qualquer outro que possa existir. Para ajudar pessoas que lutam por uma vida digna e respeitosa, contribuindo ainda, para a inclusão social (OMS, 2008).
FIGURA 10 – MUDANÇA DE PARADIGMA FOCA NA INCLUSÃO
FONTE: <https://shutr.bz/3oDXW3H>. Acesso em: 1 jun. 2021.
Ainda de acordo com a OMS (1946, s. p), o conceito estabelecido para saúde é de que “a saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não consiste apenas na ausência de doença ou de enfermidade”. Dentre esses fatores, é preciso que exista uma vida cotidiana significativa, participação social, lazer e autonomia de escolhas (OMS, 1946).
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você aprendeu que:
• A loucura é vista como uma problemática modificada; a psiquiatria a vê como sendo uma doença, um desvio ou até mesmo um comportamento inadaptável, a cura seria através ou em direção da própria adaptação do sujeito à sociedade, assim como, a sociedade se adaptar a essas questões.
• Existe uma grande discordância entre as considerações da psiquiatria e as considerações da saúde mental. Assim, nos é apontado que, de um lado, existe a loucura como sendo uma doença médica, de caráter genético e orgânico. Do outro lado, vemos uma rejeição explícita da essência biológica na explicação psiquiátrica da loucura e que não se reduz a esse biologicismo.
• Existe a necessidade da implantação de uma política de saúde mental que esteja em consonância com as diretrizes constituídas no processo da reforma psiquiátrica, e que estivem disponíveis recursos para atuar nessa nova perspectiva de atenção e gestão em saúde mental.
• É importante que mobilizações sociais no campo da saúde mental aconteçam e lutem pelo resgate da cidadania e dos direitos humanos, principalmente, no que diz respeito a práticas de reabilitação psicossocial.
• O estigma é capaz de atravessar um fato social que permeia a sociedade e atinge a dignidade das pessoas que são, de certa forma, excluídas ou estigmatizadas.
1 Com base nas concepções da psiquiatria quanto ao conceito de loucura e suas esferas, podemos ver uma realidade totalmente distorcida, pela qual se tem a cura como algo improvável e impossível de realização. Além disso, podemos ver que muitas coisas são retiradas do sujeito que se submete a um hospital psiquiátrico. Com relação aos bens que são retirados do sujeito, assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) Autonomia, liberdade de escolha no tratamento, convívio social, atividades prazerosas cotidianas.
b) ( ) Bens materiais, dinheiro, moradia e comida.
c) ( ) Voz, dinheiro, roupas e moradia.
d) ( ) Sanidade, bens materiais, dinheiro e voz.
2 Considera-se na psiquiatria, a loucura como sendo uma doença médica, de ordem genética e orgânica. Um desvio ou até mesmo um comportamento inadaptável, que tinha como foco a esquizofrenia. Com base nisso, analise as sentenças a seguir:
I- É um distúrbio da mente dividida, é marcada por surtos em que o mundo real acaba substituído por delírios e alucinações.
II- Não provoca alterações no comportamento, indiferença afetiva, pensamentos confusos e dificuldades para se relacionar com pessoas.
III- Designa um conjunto de psicoses endógenas, cujos sintomas fundamentais apontam a existência de uma dissociação da ação e do pensamento.
Assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) As sentenças I e II estão corretas.
b) ( ) Somente a sentença II está correta.
c) ( ) As sentenças I e III estão corretas.
d) ( ) Somente a sentença III está correta.
3 Com a implantação de políticas de saúde mental, o sistema de saúde mental obteve muitas melhorias, visto que se constituiu na reforma psiquiátrica, momento histórico e simbólico para o conceito de instituições e loucura.
De acordo com os princípios e as normativas necessárias para implantação dessas políticas, classifique V para as sentenças verdadeiras e F para as falsas:
( ) A implantação de políticas de saúde mental traria mais construções de hospitais psiquiátricos, asilos e manicômios.
( ) As políticas de saúde mental precisam estar em consonância com as diretrizes constituídas no processo da reforma psiquiátrica, além da necessidade de obter recursos disponíveis para atuar nessa nova perspectiva de atenção e gestão em saúde mental.
( ) Foi responsável pela divisão entre uma época de desumanização e outra
AUTOATIVIDADE
a) ( ) V – F – F.
b) ( ) V – F – V.
c) ( ) F – V – V.
d) ( ) F – F – V.
4 A loucura pode ser compreendida em diversas esferas e de variadas formas, inclusive dentro de disciplinas diferentes e autores que fomentam discussões acerca do assunto. Assim sendo, disserte sobre a loucura em pelo menos três esferas diferentes.
5 Ao mencionar sobre a implantação de políticas de saúde mental, faz- se necessário que as mobilizações sociais continuem acontecendo em consonância com a realidade em questão. Neste contexto, disserte sobre os aspectos que serão objetivos de luta dessas mobilizações.
TÓPICO 3 —
UNIDADE 1
HISTÓRIA E POLÍTICA DE SAÚDE COLETIVA
1 INTRODUÇÃO
Acadêmico, no Tópico 3, abordaremos a história e a política de saúde coletiva, a promoção da saúde e também a prevenção de doença, sob um pensamento crítico. Analisaremos também as suas contribuições teóricas no âmbito da saúde mental, principalmente, como forma de resgatar e apresentar as limitações das políticas dadas nesse mesmo contexto.
Com a criação do SUS no Brasil, podemos ver uma grande diferença no âmbito de poder, visto que, no início, o foco era na magnitude de recursos e no espaço favorável para a construção da cidadania social. Hoje já podemos ver o objetivo principal voltado para o financeiro, cujo interesse maior é acessar recursos altos e que antes eram proibidos. Assim, de acordo com Scheffer (2015, p. 665),
“observa-se um movimento muito mais associado ao fortalecimento da ideia de construção de uma “cidadania consumista” – o acesso à saúde pela via do consumo, sob o domínio do capital –, contrário à forma de acesso por meio do direito à saúde”.
Conforme aponta Teixeira (1989, p. 21), “se, por um lado, a cidadania, enquanto relação individual de direito entre o cidadão e o Estado, é a negação da existência das classes sociais, por outro lado, seu reconhecimento, contraditoriamente, foi imprescindível para a constituição, organização e luta das classes dominadas”. Partindo desse pressuposto, a cidadania ao ser colocada como categoria fundamental para uma suposta reforma sanitária, se coloca como sendo um espaço de fortalecimento das minorias, de luta e esperança (TEIXEIRA, 1989).
2 HISTÓRIA E POLÍTICA DE SAÚDE COLETIVA
Ao falarmos de saúde coletiva, o próprio termo “coletiva” nos remete a questões sociais, que perpassam a saúde do individual para o coletivo, isso por meio de planejamento, de técnicas, de organização e de responsabilidade.
Conceber a saúde através da coletividade e, em seu âmbito público, é o que permite pensar nas contingências sociais que interferem na saúde individual, por exemplo, moradia e acesso à água tratada são políticas de saúde através de transversalidades com políticas sanitárias, urbanística e de moradia.
Segundo Paim e Almeida Filho (2014, p. 314):
A junção da Saúde Coletiva, a Reforma Sanitária Brasileira (RSB) e o Sistema Único de Saúde (SUS), garante um modelo de acolhimento, assistência e integração com objetivo de atender toda a população, em questão de prevenção e promoção de saúde.
O atendimento à população se dá por meio de serviços, que, por direito, devem ser acessíveis a todos, de forma gratuita e igual para todos, sem distinção de classe social, cor, raça, entre outros. Além disso, é importante que haja transparência em informações e no tratamento às pessoas.
FIGURA 11 – MÉDICOS CONTECTADOS PARA ATENDER AOS PACIENTES
FONTE: <https://shutr.bz/3FmDJ8z>. Acesso em: 12 jul. 2021.
O sistema, por meio das suas legislações e políticas de ação para os profissionais da saúde, foi um primeiro grande passo, uma vez que, anteriormente às normativas do SUS, não havia normas e diretrizes que ajudassem na construção e sustentação do SUS propagando um planejamento para que o acesso fosse universal. Em contrapartida, vemos um modo de institucionalização crítico para que haja aperfeiçoamentos dos saberes, práticas, experiências no SUS. O que vem como consequência, uma crise no sistema de saúde para que haja avanços.
O SUS foi criado em 1988 pela Constituição Federal brasileira e determina que é dever do Estado garantir saúde a toda a população brasileira. O SUS atende todos que procuram as suas unidades de saúde ou têm necessidade de atendimento de emergência, sendo um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo; único a garantir assistência IMPORTANTE
Além de todos esses aspectos, o SUS também atua em serviços de baixa, média e alta complexidade, auxilia na vigilância epidemiológica e sanitária, assistência farmacêutica, atenção hospitalar, serviços de urgência e emergência, distribuição gratuita de medicamentos e pesquisas na área da saúde.
FIGURA 12 – EQUIPE MULTIDISCIPLINAR E INTEGRADA EM PROL DA CIDADANIA
FONTE: <https://shutr.bz/2Ys1ScU>. Acesso em: 1 jun. 2021.
Assim, a saúde coletiva não pode levar em conta e nem ser compreendida como um conjunto de ações isoladas. Por isso, se torna necessário um processo comum e a importância das “ciências da conduta”, como mencionado por Paim e Almeida Filho (2014, s.p.). Essas ciências seriam a Sociologia, a Antropologia e a Psicologia, todas aplicadas à saúde. A utilização adequada, a partir de conhecimento sociocultural e psicossocial, facilitaria a relação do prestador de serviço e do usuário, além da possibilidade de uma integração das equipes juntamente com a população (PAIM; ALMEIDA FILHO, 2014).
De acordo com Nunes (1996), as bases do pensamento social em relação à saúde se moldaram na metade do século XIX, através de movimentos europeus de reforma sanitária e de reforma médica. Esses movimentos tiveram a capacidade de trazer ideias liberais e de conscientizar quanto ao papel da esfera social para atingir e, supostamente, solucionar problemas relacionados à saúde, medicina e públicos em geral. “Em um segundo momento, no término da segunda guerra mundial, que foi detectada a incorporação de uma abordagem do social em saúde”.
A partir disso, muitas mudanças e transformações foram implantadas e praticadas em todos os países, afetando diversos níveis que iam desde a educação à saúde (NUNES, 1996, p. 57).
Como aponta Almeida (2019), alguns progressos podiam ser vistos. Entre 2001 e 2014, houve uma redução significativa do número de leitos em hospitais psiquiátricos: de 53.962, em 2001, para 25.988, em 2014. Isso já estava acontecendo desde a década anterior, quando muitos hospitais psiquiátricos foram encerrados, devido à falta de requisitos básicos para a implantação e para a prática. Essas mudanças ocorreram inclusive, em decorrência de denúncias de violações de direitos humanos. Outro ponto importante é que a desinstitucionalização foi um processo organizado e planejado antecipadamente.
FIGURA 13 – CORREDOR VAZIO DO HOSPITAL
FONTE: <https://www.shutterstock.com/pt/image-photo/empty-hospital-hallway-611606933>.
Acesso em: 12 jul. 2021.
Conforme Paiva (2003, p. 22) enfatiza, a política nacional de saúde mental tem sido orientada da seguinte forma:
Trabalha-se com a defesa da reforma psiquiátrica, por ela ser imbuída dos ideais de uma sociedade realmente igualitária e humana, primando pela reinserção social dos excluídos, como são os loucos, baseando-se nos princípios de liberdade, igualdade e fraternidade. Enfim, por uma sociedade livre da opressão, preconceito e ignorância.
Em decorrência das mudanças e de novas perspectivas, alguns serviços sociais foram implementados para substituir os serviços baseados no hospital.
Alguns deles foram:
• CAPS: tinha como responsabilidade resgatar pacientes com transtornos mentais graves e persistentes.
• CAPS-I: tinha como objetivo prestar atendimento a crianças e adolescentes.
• CAPS-AD: atender pacientes com problemas relacionados ao uso de álcool e de abuso de substâncias (ALMEIDA, 2019).
Ambos faziam parte da estrutura de saúde pública e coletiva.
No documentário Eu não sou louco (2014), são abordadas várias questões sobre a vida de usuários e suas experiências dentro dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) no Brasil. Quatro frequentadores da rede e uma ex-frequentadora contam suas histórias e o que tudo aquilo representa para eles. Desde suas buscas por ajuda, seus traumas até o seu dia-a-dia dentro dos CAPS. São relatos pessoais, guiados pelas visões que seus protagonistas têm a respeito da sua própria saúde mental.
DICAS
Além destes serviços mencionados acima, criou-se também o programa “Volta para Casa”. O objetivo era apoiar financeiramente pacientes desinstitucionalizados, e que tivessem sido submetidos a internações ininterruptamente durante pelo menos um ano. Além disso, o programa oferecia acesso a um gerenciamento de casos fornecido pelos CAPS de sua área residencial, que incluía cuidados e apoio na resolução de problemas de documentação de âmbito civil.
Os recursos financeiros que antes eram utilizados pelos hospitais psiquiátricos passaram a ser deslocados para serviços comunitários, possibilitando possíveis financiamentos de serviços substitutivos na comunidade, como os mencionados acima. Porém, algumas questões apareceram, o financiamento era insuficiente para o intuito proposto, além de recursos humanos. Outros fatores também foram apontados, como a qualidade da informação produzida pelos serviços, a integração da saúde mental na atenção primária e a sustentabilidade das associações de usuários. Colocando em pauta vários desafios a serem vencidos, principalmente, quanto à ampliação do acesso e integração da saúde mental com a atenção primária, o desenvolvimento de respostas de internação de agudos no hospital geral e a articulação entre os vários componentes do sistema (ALMEIDA, 2019).
FIGURA 14 – PROGRAMA AJUDA FINANCEIRAMENTE PACIENTES DESINSTITUCIONALIZADOS
FONTE: <https://shutr.bz/3ag2m8E>. Acesso em: 1 jul. 2021.
Com a experiência do Brasil na implementação de uma política de saúde mental, houve também uma transformação no que diz respeito ao sistema nacional de saúde mental, acessibilidade e qualidade nos serviços prestados. Ainda, mesmo com todos os progressos alcançados ou, pelo menos, almejados, alguns desafios estão em pauta e poderão ser enfrentados a qualquer momento. Diante disso, é faz necessário que os esforços sejam para a construção de um consenso alargado, que dê continuidade e flexibilidade aos progressos já existentes.
2.1 PROMOÇÃO DA SAÚDE
A promoção da saúde entra como uma relação de cuidado com o outro, e vemos que, por décadas, o atendimento ao doente mental no Brasil esteve ligado ao modelo centrado no hospital, no qual a única forma de tratamento era a internação, o isolamento e o afastamento da família, bem como do convívio social. Em 1970, como vimos, a modificação do modelo asilar foi implementada por meio de lutas e conquistas da reforma psiquiátrica, a qual ainda vem se consolidando e se tornando realidade.
Com todas essas questões em plano, novas estratégias voltadas a pacientes com histórico de transtorno mental, quanto à reabilitação e a uma nova vida fora dos hospitais psiquiátricos se deu de forma gradativa, com a proposta de valorização do cuidar e com uma nova forma de pensar o processo saúde-doença.
Essas estratégias visam, sobretudo, uma ressignificação do conceito de loucura, das práticas realizadas e também dos novos serviços que serão prestados, norteados somente pelo modelo de atenção à saúde de forma positiva.
De acordo com Jorge et al. (2011), a saúde mental visa atingir um cuidado integral. Para tal, utiliza as relações de cuidado como instrumento de sua prática.
“E essas ferramentas relacionais envolvidas no processo de trabalho se articulam sob as próprias relações, demandas, necessidades e envolvimento no cuidado.
Existe a potência afetiva que um sujeito tem com o outro, cheio de significados e sentimentos” (JORGE et al. 2011, p. 3.054).
FIGURA 15 – CONCEITO DA PALAVRA “SINGULAR” EM CUBOS
FONTE: <https://shutr.bz/3oB9x3D>. Acesso em: 12 jul. 2021.
Esse tipo de afeto, que abrange também o acolhimento, funciona como um dispositivo capaz de (re)estruturar o cuidado em saúde mental, de modo a ressaltar a subjetividade e a singularidade de cada sujeito.
2.2 ACOLHIMENTO
Em qualquer campo de atuação e profissionalismo, as relações interpessoais são de extrema importância. No contexto de saúde, vale lembrar que existem os prestadores de serviço e os consumidores. Por esse motivo, existem algumas implicações no que diz respeito à medida em que nos aproximamos e também nos encontros entre usuários dos serviços oferecidos com quem oferece. De fato, para que um usuário fique satisfeito, é fundamental uma boa relação, que vai desde a recepção até o atendimento final. Isso quer dizer que uma pessoa que procura por algum serviço, seja ele qual for, quer ser acolhida e, de certa forma, compreendida.
Porém, temos visto que esse tipo de relação vem seguindo um padrão, pelo menos no campo da saúde. Padrão esse que se faz pela “recepção”, “triagem”
e “atendimento”. No que tange ao sentido das necessidades dos prestadores de serviços, cabe atuar de maneira eficiente e dar soluções breves e mais adequadas em cada situação. Ao falarmos sobre o acolhimento, comunicamos também a humanização e a solidariedade para com o outro, de forma que o reconheçamos como sujeito. É importante que os profissionais da saúde se voltem para uma atenção individualizada a cada usuário.
Sobre o acolhimento, existem diversas formas que são consideradas e que as pessoas buscam em seus atendimentos. Entre elas estão:
• atenção;
• cortesia/ respeito;
• rapidez e agilidade para tratar assuntos de emergência;
• tentativa de resolução dos problemas apresentados;
• orientações e/ou explicações sobre algo que não esteja claro;
• escuta personalizada (FALK, 2010, p. 4).
FIGURA 16 – EMPATIA É UMA FORMA DE ACOLHER
FONTE: <https://shutr.bz/3FmEKxp>. Acesso em: 12 jul. 2021.
A relação entre os profissionais de saúde bem como com seus usuários deve se pautar na sensibilidade quanto ao sofrimento/angústia do outro. O que torna o assunto tão complexo, pois, na maioria das vezes, somos formados para lidar com a doença, com o físico do paciente até pela agilidade do atendimento.
Porém, vale lembrar que a forma como a Instituição se organizou, na divisão de grupos e ações, influenciará nos comportamentos tanto dos prestadores de serviço como dos usuários. Ou seja, o tratamento dado é mútuo.
Diante disso, fica claro a importância dessa relação entre quem precisa e quem oferece, de forma a minimizar futuros problemas, doenças, internações e gastos desnecessários com coisas que poderiam ser solucionadas preventivamente.
Agora no que diz respeito à assistência ao sujeito com algum tipo de sofrimento mental, o modelo predominante e com alta demanda foi o hospitalar.
Porém, com a reforma psiquiátrica, foi permitida a inclusão de conceitos importantes que por tantos anos estiveram fora do âmbito da conceituação de loucura, como a desospitalização, desinstitucionalização, reabilitação psicossocial, cidadão e sujeito. Dados os serviços substitutivos trazem consigo essas ressignificações, de modo a dar novas formas de cuidado, garantindo o respeito à diferença, como menciona Cavalcanti (2000, s. p.), “fazer das experiências da loucura algo que possa transmitir na cultura, sem exclusão da subjetividade, ou seja, sustentando a possibilidade do sujeito” e ainda, “o problema não está tanto em ‘pirar ou não pirar’, mas em o que se faz com esta ‘piração’ [...] ajudá-lo a fazer desta tragédia existencial algo que vale a pena”.
Referindo- se aos termos desospitalização, desinstitucionalização, seguem seus conceitos. Confira.
Desospitalização: é definida como um processo que busca a humanização de pacientes que se encontram hospitalizados. Tem como principal objetivo oferecer a estes indivíduos uma recuperação mais rápida e bem-sucedida em seu domicílio, buscando racionalizar a utilização dos leitos hospitalares e trazer mais qualidade de vida.
Desinstitucionalização: o movimento da desinstitucionalização surge no cenário mundial como um projeto de transformação da função social da instituição psiquiátrica. “É caracterizada por ser um processo não apenas técnico, administrativo, jurídico, legislativo ou político; é, acima de tudo, um processo ético, de reconhecimento de uma prática que introduz novos sujeitos de direito e novos direitos para os sujeitos” (AMARANTE, 1995, s. p.).
Segundo Saraceno (2001, p. 176), “a desinstitucionalização difere da desospitalização quando considera que simplesmente esta saída do hospital não é suficiente para a participação social. É necessário um processo de superação das condições de dependência institucional”, ou seja, é preciso inserir novamente esse paciente ao social, de forma a contemplar todas os seus direitos novamente. Nesse