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O IMPACTO DOS HÁBITOS DE VIDA SOBRE A DISLIPIDEMIA EM CRIANÇAS E ADOLESCENTES

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O IMPACTO DOS HÁBITOS DE VIDA SOBRE A DISLIPIDEMIA EM CRIANÇAS E ADOLESCENTES

CARVALHO, Flávio Henrique Santana (Curso de Farmácia do Centro Universitário do Triângulo - Unitri, [email protected] ) CARDOSO, Rita Alessandra (Curso de Farmácia do Centro Universitário do Triângulo - Unitri, [email protected])

RESUMO

A hipercolesterolemia representa o principal fator de risco no desenvolvimento de patologias cardiovasculares. O objetivo desta revisão bibliográfica foi descrever o impacto dos hábitos de vida sobre a dislipidemia em crianças e adolescentes. Foi realizado o levantamento de dados por meio de artigos científicos indexados na BVS, Scielo, MedLine e Google Acadêmico. As recentes alterações nos hábitos de vida, no que se refere a uma dieta inadequada e sedentarismo são importantes fatores de risco para a doença arterial coronariana, que constitue a principal causa de morte no Brasil e no mundo. A realização do tratamento não farmacológico, com atividade física e dieta alimentar adequada, diminui os riscos de aterosclerose e leva ao controle do quadro de dislipidemia na maioria dos casos. Assim, um agente não farmacológico utilizado no tratamento dessa doença, o exercício físico pode ser um dos pilares para a prevenção primária da história natural da doença e apresenta efeito protetor acumulado ao longo da vida contra a ocorrência de dislipidemia na idade adulta. Com isso, é necessário que a prevenção da dislipidemia seja iniciada na infância.

Palavras-chaves: hipercolesterolemia, doença arterial cardiovascular, tratamento não farmacológico.

1. INTRODUÇÃO

As dislipidemias são alterações metabólicas lipídicas decorrentes de

distúrbios em qualquer fase do metabolismo lipídico, que ocasionem

repercussão nos níveis séricos das lipoproteínas. O acúmulo de quilomícrons

e/ou de VLDL no compartimento plasmático resulta em hipertrigliceridemia e

decorre da diminuição da hidrólise dos triglicérides destas lipoproteínas pela

lípase lipoprotéica ou do aumento da síntese de VLDL. Variantes genéticas das

enzimas ou apolipoproteínas relacionadas a estas lipoproteínas podem causar

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ambas alterações metabólicas, aumento da síntese ou redução da hidrólise. O acúmulo de lipoproteínas ricas em colesterol como a LDL no compartimento plasmático resulta em hipercolesterolemia. Este acúmulo pode ocorrer por doenças monogênicas, por defeito no gene do receptor de LDL. Mais comumente, a hipercolesterolemia resulta de mutações em múltiplos genes envolvidos no metabolismo lipídico, as hipercolesterolemias poligênicas (IV DIRETRIZ BRASILEIRA SOBRE DISLIPIDEMIAS E PREVENÇAO DA ATEROSCLEROSE, 2007).

O colesterol possui várias funções orgânicas essenciais para o organismo, como a síntese de hormônios, manutenção e construção de membranas celulares, participação na síntese de sais biliares além de ser de grande importância para o metabolismo de vitaminas A, D, E e K. Porém, o excesso de colesterol representa o principal fator de risco no desenvolvimento de patologias cardiovasculares; sendo captado pelos fibroblastos e macrófagos, formando a placa aterosclerótica na camada íntima da artéria. (IV DIRETRIZ BRASILEIRA SOBRE DISLIPIDEMIAS E PREVENÇAO DA ATEROSCLEROSE, 2007).

Dentre as patologias que o excesso de colesterol pode causar, uma delas é a dislipidemia, que é uma anormalidade no organismo onde os níveis de lipídios ficam alterados (FILHO, 2009; KUMAR et al., 1996). As dislipidemias são classificadas de acordo com a fração lipídica que se encontra alterada, sendo chamada de hipercolesterolemia isolada (LDL-C > 160mg/dL), hipertrigliceridemia isolada (triglicérides > 150mg/dL), mista (LDL-C >

160mg/dL e triglicérides > 150mg/dL) e redução do HDL-C (homens < 40 mg/dL e mulheres < 50 mg/dL) isolada ou associada com aumento do colesterol e/ou triglicérides (IV DIRETRIZES BRASILEIRA SOBRE DISLIPIDEMIAS E PREVENÇAO DA ATEROSCLEROSE, 2007).

As dislipidemias podem ser divididas em dois grupos em função de sua etiologia: causas primárias que são causadas por alterações genéticas e causas secundárias que são causadas principalmente por erros alimentares, doenças associadas ou por uso de medicamentos que alteram o perfil lipídico.

As dislipidemias causadas por alteração genética alteram a síntese e

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degradação de lipoproteínas, bem como a relação entre as lipoproteínas e seus receptores (OLIVEIRA; CASTRO, 2013).

As dislipidemias de ordem secundária podem ser causadas por tabagismo, hipertensão, diabetes mellitus, obesidade e alcoolismo (IV DIRETRIZ BRASILEIRA SOBRE DISLIPIDEMIA E PREVENÇAO DA ATEROSCLEROSE, 2007).

Dislipidemias, hipertensão arterial e obesidade, aliados a maus hábitos alimentares e sedentarismo, são as condições ideais para o desenvolvimento de doenças coronarianas. Esses fatores de risco não são exclusivos dos adultos e começam a surgir cada vez mais em crianças e adolescentes (MC NAMARA et al., 1987).

No Brasil, estima-se que as doenças cardiovasculares (DAC) respondam por aproximadamente 20% dos óbitos por causas conhecidas em sujeitos a partir dos vinte anos de idade (GUEDES et al., 2006).

As características dos fatores de risco predisponentes às DAC são tradicionalmente identificadas como de natureza biológica, como é o caso da quantidade de gordura corporal, do perfil lipídico-lipoprotéico plasmático e dos níveis de pressão arterial. Contudo, em se tratando de sujeitos jovens, momento em que são adquiridos e incorporados comportamentos de difícil modificação em idades futuras, torna-se prudente analisar não apenas os fatores de risco biológicos de forma isolada, mas também aqueles de natureza comportamental, como são os casos da prática de atividade física, dos hábitos alimentares e do uso de tabaco (GIDDING, 1999).

A literatura apresenta fortes evidências no sentido de que as DAC,

manifestadas na idade adulta, resultam de complexa interação entre uma

variedade de fatores de risco que podem ter origem na infância e na

adolescência (BERENSON et al., 1998; STRONG et al., 1999). Portanto,

aqueles jovens que eventualmente venham a apresentar fatores de risco, com

o avanço da idade, tendem a apresentar maior predisposição ao aparecimento

de processos ateroscleróticos e consequente desenvolvimento das DAC

(GUEDES et al., 2006).

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A prevenção da doença coronariana deve começar na adolescência ou pelo menos nos adultos jovens, controlando os fatores de risco da doença coronariana no adulto (McGILL, 2002 apud SHERR; MAGALHAES;

MALHEIROS, 2006).

2. OBJETIVO

O objetivo deste trabalho é descrever o impacto dos hábitos de vida sobre a dislipidemia em crianças e adolescentes.

3. METODOLOGIA

Realizou-se um levantamento de dados por meio de artigos científicos indexados na BVS, Scielo, MedLine, Google Acadêmico, buscando palavras- chave como hipercolesterolemia, adolescentes, dislipidemia, doença arterial cardiovascular, tratamento não farmacológico.

4. DISLIPIDEMIAS EM CRIANÇAS E ADOLESCENTES

Está bem estabelecido que a dislipidemia tem um importante papel no desenvolvimento da doença cardiovascular no adulto (O´KEEFE; LAVIE;

MCCALLISTER, 1995) e que a diminuição das concentrações séricas de lipídios leva a uma redução significativa dos eventos cardiovasculares e da mortalidade (ROBINSON; LEON, 1994).

Em geral, o infarto do miocárdio (IM), acidente vascular cerebral (AVC),

doença vascular periférica são manifestações clínicas da DAC. Porém, alguns

estudos indicam que o processo aterosclerótico começa a se desenvolver na

infância. Estrias gordurosas, precursores das placas ateroscleróticas, começam

a aparecer na camada íntima da aorta aos três anos de idade e nas coronárias

durante a adolescência, podendo progredir na terceira e quarta décadas de

vida. O desenvolvimento da DAC sintomática tem sido correlacionado a fatores

de risco para aterosclerose. A DAC secundária à aterosclerose destaca-se,

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além da obesidade, a principal causa de morbidade e mortalidade entre as sociedades (HONORATO; BANDO; UCHIMURA; JUNIOR, 2010; ROMALDIN et al., 2004).

A dislipidemia é um fator de risco modificável, que pode ser alterado com a adoção de hábitos saudáveis como a realização de exercícios físicos e uma dieta alimentar balanceada. Estudos realizados no Brasil indicam que a porcentagem de crianças com hipercolesterolemia varia entre 28 a 35%

(GERBER; ZIELINSKY et al., 1997; MOURA; CASTRO; MELLIN;

FIGUEIREDO, 2000; GIULIANO et al., 2005).

As recentes e profundas alterações nos hábitos de vida, no que se refere a uma alimentação com consumo excessivo de alimentos ricos em gordura saturada, bebidas hipercalóricas e baixos níveis de atividade física, determinaram uma pandemia de sobrepeso e obesidade, e suas consequentes comorbidades, as doenças cardiovasculares isquêmicas e o diabetes melito tipo II (WHO, 2003).

A dieta inadequada e o sedentarismo são os principais fatores de risco para a DAC (doença arterial coronariana). Uma dieta bastante equilibrada e atividade física regular e acompanhada constantemente pode proporcionar a melhora da obesidade e das DAC juvenil e, secundariamente, o controle da dislipidemia (OLIVEIRA; CASTRO, 2013).

O consumo de gordura total, de ácidos graxos saturados e de colesterol assim como os isômeros trans, estão associados aos hábitos alimentares dos adolescentes, desde muitas vezes trazidos da fase infantil. A relação entre consumo alimentar de adolescentes e o desenvolvimento de doenças crônicas na idade adulta, tais como as doenças cardiovasculares, câncer e osteoporose estão sendo documentados (WILLET, 2006 apud TEIXEIRA; VEIGA; SICHIERI, 2006).

Em estudo realizado por Teixeira et al. (2006), os autores fizeram um

questionário alimentar simplificado (QAS) onde foi abordado o consumo de

alimentos associado ao risco de doenças coronarianas, também foi feito uma

avaliação bioquímica. Dentre os resultados obtidos, verificou-se que não houve

uma concordância entre as concentrações de colesterol sérico e o consumo

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alimentar dos jovens estudados, apesar de o QAS ter mostrado boa consistência interna (RABELO et al., 1999). Também não se verificou associação entre alterações lipídicas e consumo de gorduras em adolescentes, apesar da elevada frequência de indivíduos consumirem excesso de gordura total e colesterol (TEIXEIRA; VEIGA; SICHIERI, 2006).

Willett (1998 apud TEIXEIRA; VEIGA; SICHIERI, 2006) ressalta que a correlação esperada entre colesterol ingerido e colesterol sérico em populações deveria ser baixa, mesmo usando um método perfeito de medir consumo alimentar. Isso porque muitos fatores, incluindo os genéticos, influenciam as concentrações de colesterol sérico. Além disso, dentro da mesma população existem grande diferenças interindividuais na habilidade de supressão da síntese de colesterol com o aumento do colesterol dietético (McNAMARA et al., 1987).

A excessiva ingestão calórica, com elevado teor de gordura e colesterol, está associada com valores aumentados de colesterol sérico (SHEKELLE et al., 1981). Teixeira; Veiga; Sichieri. (2006) avaliaram o consumo alimentar de gorduras, mas não o valor calórico total consumido pelos jovens, assim como outros nutrientes que podem reduzir o colesterol sérico, tais como fibras, visto que foi utilizado um questionário de frequência alimentar simplificado. Esses fatores podem ser uma limitação deste estudo, assim como a não aferição da realização de atividade física.

Romaldini et al. (2004) realizaram um estudo com 109 crianças e adolescentes pertencentes a um grupo de risco para aterosclerose por apresentarem ascendentes portadores de DAC prematura.

Os resultados encontrados demonstram que a alimentação de crianças e

adolescentes apresentava uma quantidade de colesterol muito acima do que é

orientado, por terem uma alimentação inadequada e desregulada. Demonstram

também que a educação alimentar dada pelos pais está sendo inapropriada na

fase infantil, refletindo nos hábitos alimentares durante a adolescência. Muitas

vezes esta dieta inadequada está associada com a falta de atividade física,

levando esses adolescentes a apresentarem IMC muito acima dos níveis de

normalidade, deixando-os propensos a futuramente desenvolverem problemas

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cardiovasculares. Diferenças em relação à frequência da hipercolesterolemia em crianças e adolescentes com histórico familiar de DAC prematura, além da influência genética e variações biológicas, podem também depender de fatores ambientais, principalmente hábitos alimentares da família, como da condição socioeconômica das populações (ROMALDINI et al., 2004).

No estudo realizado por Romaldini et al. (2004), 38,4% da amostra apresentaram dislipidemia, e não foi possível avaliar se as alterações lipídicas eram dependentes de fatores genéticos e/ou ambientais. Com relação ao tipo de dislipidemia, houve uma predominância de hipercolesterolemia isolada. Isto se deve provavelmente a hábitos alimentares e ao estilo de vida da família.

Além disso, foram encontradas 13,8% de casos de diminuição de HDL-C, onde esta diminuição resulta em uma aceleração da progressão da aterogênese.

Valores de HDL-C abaixo dos desejáveis frequentemente estão associados com hereditariedade, outras lipoproteínas aterogênicas e obesidade (FLODMARK; SVEGER; EHLE, 1994).

Bao et al. (1997 apud ROMALDINI et al. 2004) observaram que crianças

e adolescentes com excesso de peso apresentaram um risco 2,8 vezes maior

de desenvolver dislipidemias. Um estudo realizado na cidade de Bogalusa

mostrou que descendentes de indivíduos que apresentaram DAC antes dos 50

anos eram mais obesos em comparação com aqueles sem história familiar

para a doença e que a obesidade tinha início na infância. Portanto, torna-se

muito importante o controle de peso durante a infância e adolescência, uma

vez que a obesidade, além de ser um fator de risco independente para a

aterogênese, pode estar associada a uma série de outros fatores de risco para

doença aterosclerótica, como hipertensão arterial, diabetes melito tipo 2 e

dislipidemias (KANNEL, WILSON, 1995 apud ROMALDINI et al., 2004). A

obesidade é considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) um

importante problema mundial de saúde pública, pois está associada a

hipertensão arterial, doença cardíaca, osteoartrite, diabetes tipo II e alguns

tipos de cânceres, tendo impacto mais pronunciado na morbidade do que na

mortalidade (VISCHER, SEIDELL, 2001). Ela tem se tornado frequente mesmo

em nações em desenvolvimento, nas quais persistem regiões e grupos sociais

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submetidos a contextos de fome e desnutrição (HONORATO et al., 2010). A prevalência da obesidade em adolescentes tem aumentado na maior parte dos países e tem-se traduzido em um dos mais significativos problemas nutricionais da atualidade (WANG; MONTEIRO; POPKIN, 2002).

Um dado que chamou bastante a atenção foi o fato de se constatar que menos de 30% das crianças e adolescentes praticavam atividade física regular.

No entanto, não houve associação entre dislipidemias e prática de atividade física (ROMALDINI et al., 2004).

Fletcher et al. (1991 apud ROMALDINI et al. 2004) identificaram 41%

das crianças e adolescentes apresentaram de um a quatro fatores de risco para aterosclerose com manifestações simultânea à história familiar de DAC prematura. Em geral, quanto maior o número ou a gravidade dos fatores de risco, maior a probabilidade de doença. Além disso, quando mais de um fator de risco estão presentes seus efeitos parecem ser de multiplicação, e não apenas de adição.

Um estilo de vida ativo em adultos está associado a uma redução da incidência de várias doenças crônicas degenerativas, bem como a uma redução da mortalidade cardiovascular em geral. Em crianças e adolescentes, um maior nível de atividade física contribui para melhorar o perfil lipídico (LAZZOLI et al., 1998).

Em um estudo realizado em 2006, na cidade de Rio Verde – GO com uma avaliação de 1229 adolescentes de escolas públicas e privadas, fez-se uma avaliação do nível de atividade física dos adolescentes onde foi utilizado o Questionário Internacional de Atividade Física (IPAQ). Após responderem o IPAQ, 48 estudantes foram selecionados para realizar uma coleta de amostra sanguínea e realizar um lipidograma completo. Verificou-se que os adolescentes das redes pública e privada apresentaram níveis normais para os parâmetros analisados, exceto para HDL, cujos valores estavam abaixo de 45mg/dL (SILVA et al., 2011).

Segundo a classificação geral do IPAQ, 2,3% dos adolescentes eram

sedentários (S); 9,6% insuficientemente ativo B (IB) e 10,4% insuficientemente

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ativo A (IA). A maioria dos adolescentes foi classificada como ativos (A) 51,3%

e como muito ativos (MA) 26,4% (SILVA et al., 2011).

O sedentarismo pode facilitar o aparecimento de obesidade, hipertensão arterial, concentrações baixas de HDL-C e aumento de TG, que são fatores que reconhecidamente se associam à doença aterosclerótica. Por outro lado, a inatividade física, quando presente na infância, tende a permanecer na vida adulta (GIDDING, 1999).

Com isso, Silva et al. (2011) sugerem que sejam adotados programas preventivos de saúde, que incluem hábitos alimentares adequados e um estilo de vida saudável com práticas de atividades físicas regulares para que haja uma prevenção da doença aterosclerótica na infância e adolescência.

As doenças cardiovasculares são outro fator importante a ser observado em adolescentes e adultos que possuem anormalidades lipídicas, pois é uma das principais causas de morte no Brasil e no mundo (ROSAMOND et al., 2008).

A prevalência dos fatores de risco cardiovasculares está aumentando na sociedade moderna, tanto em adultos quanto em crianças e adolescentes (FERRANTI; OSGANIAN, 2007). Estudos epidemiológicos têm relatado prevalências que variam consideravelmente na população jovem em diferentes cidades brasileiras (CANDIDO et al., 2009; STRUFALDI; SILVA; PUCCINI, 2008). Por exemplo, a prevalência de hipertensão foi de 3,9% em Ouro Preto (CANDIDO et al., 2009) e de 28% em Campinas (CORONELLI; MOURA, 2003), enquanto que o sedentarismo atingiu 58,2% da população pediátrica de Pelotas (HALLAL; BERTOLDI; GONÇALVES; VICTORA, 2006) e 93,5% da de Maceió (SILVA et al., 2005). Diante dessa diversidade, torna-se importante o estudo da prevalência desses fatores em mais populações brasileiras para um mapeamento mais abrangente (CHEHUEN et al., 2011).

Estudo realizado na cidade de Muzambinho-MG com 205 indivíduos, com faixa etária entre 7 e 18 anos, detectou que 0,5% dos indivíduos tinham doença cardíaca e 7,2% tinham hereditariedade para doenças cardíacas.

Ninguém relatou ter hipertensão arterial, diabetes melito ou dislipidemias, mas

2,5% da amostra eram tabagistas e 2% consumiam bebidas alcoólicas. Nas

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medidas realizadas, 18,8% dos sujeitos apresentavam sobrepeso ou obesidade, 26,8% cintura alterada, 10,7% pressão arterial alterada, 4,5%

glicemia alterada, 14,5% colesterolemia alterada e 7,7% foram considerados insuficientemente ativos. Quanto à prática de atividade física, 78,7% das crianças e adolescentes disseram praticar atividade física de locomoção, sendo a mais comum a caminhada; 9,6% disseram praticar atividade física ocupacionais; 97,0% informaram fazer aulas de educação física; 72,3%

relataram praticar atividade física no recreio e 89,8% disseram praticar atividade física no lazer, sendo a mais comum a brincadeira de rua. Foram considerados ativos 92,3% em relação a todos os tipos de atividade física, enquanto que 69% foram considerados ativos em consideração apenas à atividade física de lazer. Portanto, nesse estudo, Chehuen et al. (2011) detectaram uma prevalência considerável de fatores de risco cardiovascular, a saber: sobrepeso/obesidade, pressão arterial, glicemia e colesterol elevados e tabagismo. As prevalências destes FRC foram iguais entre os gêneros, mas a prevalência de fumantes, do uso de bebidas alcoólicas, da pressão arterial alterada e da insuficiência de atividade física aumentou com a idade, mais nos meninos (CHEHUEN et al., 2011).

A principal discrepância entre o estudo de Chehuen et al. (2011) e os demais foi a baixa prevalência de sedentarismo em Muzambinho (7,7%). Em Ouro Preto (CANDIDO et al., 2009), Pelotas (HALLAL; BERTOLDI;

GONÇALVES; VICTORA, 2006) e Maceió (SILVA et al., 2005), as prevalências foram, respectivamente 79,3, 58,2 e 93,5%. Um fator para essa discrepância é a avaliação empregada, pois no estudo utilizou-se entrevista sobre vários tipos de atividade física, e os estudos anteriores empregaram questionário ou avaliaram apenas alguns tipos de atividade física; além disso, os critérios de sedentarismo diferem entre os estudos (CHEHUEN et al., 2011).

A prática de atividade física pelas crianças, de escolha, como no recreio

e lazer, foi bastante elevada em relação a outros estudos, 62,2% em Goiânia

(MONEGO; JARDIM, 2006) e 40,4% em Florianópolis (ARAUJO; OLIVEIRA,

2009 apud CHEHUEN et al., 2011). A prática de atividade física de locomoção

também foi elevada (78,7%), isto se deve ao aspecto da cidade de

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Muzambinho ser pequena, e não possuir um transporte público, com isso as pessoas vão a pé para os lugares (CHEHUEN et al., 2011).

Campos et al. (2009) realizaram um estudo com 260 meninos e 237 meninas com idade entre 10-18 anos, e verificaram o estado nutricional dos adolescentes do sexo masculino, 16,7% apresentavam sobrepeso e 11,1%

obesidade. Já o sexo feminino, 7,6% apresentavam sobrepeso e 5,3%

obesidade. Em relação a aspectos comportamentais, 17,3% dos meninos e 22,6% das meninas apresentaram gasto energético inferior a 37kcal/kg/dia.

Levando em conta os hábitos alimentares, 54% dos meninos e 48,6% das meninas apresentaram consumo de lipídios excedente aos 30% do total calórico ingerido. Em relação à gordura saturada, 79,1% dos meninos e 83,2%

das meninas consumiam mais de 10% de gordura saturada. Considerando o colesterol, 57,1% e 31,8% apresentaram consumo acima de 300mg/dia para o sexo masculino e feminino (CAMPOS et al., 2009).

Ao analisar os fatores de risco os rapazes sedentários apresentaram 4,1 vezes maior razão de chances de serem hipercolesterolêmicos, e 3 vezes mais chances de possuírem altos índices de LDL-C no organismo comparado a seu pares ativos. Os sujeitos com altos níveis de atividade física tinham um menor número de fatores de risco biológicos para DAC, quando comparados a menos ativos fisicamente (CAMPOS et al., 2009)

Observado tais resultados, são confirmadas as evidências que sugerem um aumento das enzimas que participam do metabolismo lipídico, como a lípase lipoprotéica (LP), lecitina-colesterol acetiltransferase (LCAT) e lipase hepática (LH), paralelamente ao aumento nos níveis de atividade física (CAMPOS et al., 2009).

Sabemos que existem diferentes causas que desenvolvem a

dislipidemia, como aspectos bioquímicos, genéticos, fatores fisiológicos,

ambientais e psicológicos. A manutenção estável do peso e composição

corporal resulta num balanço preciso entre ingestão e gasto energético. Um

desequilíbrio entre essa relação acaba desencadeando o processo de

dislipidemia. Sendo assim, a inatividade física e os distúrbios alimentares são,

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sem dúvida hoje, os principais fatores predisponentes a dislipidemia (MANTOANELLI et al., 1997).

Fisberg (1995) aponta que a dislipidemia na infância tem importância na possibilidade de sua manutenção na fase adulta. Nas idades menores a morbidade não é frequente, mas no adulto a situação é de risco e leva ao aumento da mortalidade, por associação a doença aterosclerótica, hipertensão e alterações metabólicas. No adolescente, somam-se a isso todas as alterações do período de transição para a fase adulta, a baixa autoestima, o sedentarismo, lanches mal balanceados em excesso e a enorme suscetibilidade à propaganda consumista.

A dislipidemia por ser uma doença de difícil tratamento, sua prevenção, evitando seu surgimento na infância e adolescência e seu tratamento, impedindo a evolução dos casos diagnosticados, é de importância fundamental para o prognóstico desses pacientes na fase adulta. Dessa forma, promover o aumento da atividade física e incentivo a hábitos alimentares saudáveis seriam, provavelmente, os principais componentes de uma vida saudável entre adolescentes (SABIA; SANTOS; RIBEIRO, 2004).

Além de se adotar uma dieta com baixo consumo de gorduras, a prática regular de atividade física está também associada à menor predisposição aos fatores de risco para doenças cardiovasculares em adultos. Porém nem todos os resultados podem ser confirmados em populações pediátricas, pois, quando se maneja a alimentação de uma criança, deve-se ter em mente que está a frente de um organismo em crescimento, com necessidades energéticas específicas de vitaminas, sais minerais, proteínas e fibras; deve-se então valorizar as necessidades elaborando uma alimentação equilibrada e individualizada (CAMPOS et al., 2009; SABIA; SANTOS; RIBEIRO, 2004).

Utilizado como uma das estratégias na prevenção da dislipidemia e obesidade na infância e adolescência, a atividade física tem papel adjuvante no tratamento da obesidade, pois o gasto calórico proveniente da atividade física se mostra como grande aliado na perda de massa corporal, sendo também fator contribuinte para aumento dos níveis de aptidão física (SABIA; SANTOS;

RIBEIRO, 2004).

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Com base em tais efeitos benéficos, a IV Diretriz Brasileira de Prevenção e Aterosclerose, indica que a mudança no estilo de vida é o primeiro pilar para o combate à dislipidemia. Assim, um agente não farmacológico utilizado no tratamento dessa doença, o exercício físico pode ser um dos pilares da prevenção primária da história natural da doença, tendo importante papel em sua prevenção e, sobre o feito protetor do exercício físico acumulado ao longo da vida na ocorrência de dislipidemia na idade adulta (FERNANDES, 2011).

Quando o exercício físico é comparado diretamente com a dieta, ou quando o exercício físico é associado com a dieta e comparado com a restrição calórica, a atividade física resulta na prevenção da massa magra e diminuição de gordura, sendo que durante programa de redução da massa corporal somente com dieta sem exercícios o resultado é perda de menos gordura e mais musculatura. Além disso, a mobilização preferencial da gordura no tecido adiposo visceral resulta em melhoria de sua distribuição corporal e do perfil do fator de risco (SABIA; SANTOS; RIBEIRO, 2004).

Sabia; Santos; Ribeiro. (2004) mediante resultados obtidos concluíram que a atividade física aeróbica promoveu redução da massa corporal total acompanhado por melhora na composição corporal, mudança no perfil lipídico e melhora na capacidade física. O exercício físico anaeróbico se comportou semelhante, sendo melhor a resposta da capacidade física com relação à frequência cardíaca. A orientação nutricional foi importante e útil para produzir mudanças no padrão de hábitos alimentares dos adolescentes e suas famílias.

Essa orientação baseava na reeducação alimentar, com propósitos educativos e informativos, procurando incentivo na mudança de hábitos e comportamentos onde tiveram reuniões semanalmente com adolescentes e seus pais e puderam ouvir declarações como:

...“estou conseguindo mudar meus hábitos alimentares, antes não comia fruta, hoje tenho comido sempre”.

...“tenho me sentido mais motivado em mudar os meus hábitos, pois

tenho percebido resultados positivos em minha vida, já não tenho mais

vergonha de praticar esportes diante dos outros”.

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...“antes mal conseguia caminhar e já me sentia cansado, hoje já consigo correr, praticar esportes na minha escola e tenho prazer por isso”.

A prática de atividade física diminui o risco de aterosclerose e suas consequências, como angina, infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral, ajuda no controle de obesidade, hipertensão arterial, diabetes, osteoporose e dislipidemias e diminui o risco de afecções osteomusculares e de alguns tipos de cânceres (colo e mama). Contribui ainda no controle de ansiedade, depressão, doença pulmonar obstrutiva crônica e asma além de proporcionar melhoram na autoestima e de ajudar no bem estar e na socialização do indivíduo (ERLICHAMAN; KERBEY; JAMES, 2002).

Além disso, o exercício físico é um dos principais responsáveis em favorecer o estado desejável do perfil de lipídios, lipoproteínas e patologias por doenças coronarianas (EKELUND et al., 1988). Isso se deve as características fisiológicas do exercício físico, que melhoram a capacidade do tecido muscular em realizar a oxidação dos ácidos graxos; também a atividade física estimula a atividade da enzima lípase no músculo, contribuindo assim para a diminuição das lipoproteínas e lipídios plasmáticos, inclusive em indivíduos jovens (SUNG et al., 2002).

Mediante resultados, afirma-se que a prática de exercícios físicos

anaeróbios e aeróbicos, juntamente com orientação alimentar, promovem

mudanças corporais e lipídicas satisfatórias, já que o exercício físico tende a

diminuir o LDL-C, aumentar o HDL-C e a sensibilidade a insulina, reduz a

pressão arterial, devendo assim ser adotado em programas de atividades

físicas auxiliando no combate a dislipidemia e obesidade, prevenindo futuras

complicações na fase adulta. Assim especialistas da American Heart

Association recomendam a restrição do consumo de gorduras na dieta,

principalmente do tipo saturada, associada à adoção de um estilo de vida ativo,

com objetivo de promoção da saúde e redução do risco cardiovascular na

infância e na adolescência. Além disso, mesmo que não seja consenso sobre

os efeitos benéficos da dieta e atividade física na idade pediátrica, o que

sugere é que mudanças nestas duas variáveis de estilo de vida possam afetar

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a tendência temporal dos fatores de risco (KAVEY et al., 2003; SABIA;

SANTOS; RIBEIRO, 2004).

Com a expansão acelerada das doenças crônicas, como fato incontestável no mundo globalizado, constitui-se num desafio para as autoridades sanitárias e profissionais de saúde no desenvolvimento de políticas públicas capazes de conter essa epidemia que se prenuncia para um futuro muito próximo, devendo responder, mundialmente, por 80% da carga de doenças (WHO, 2002 apud CARNELOSSO et al., 2010).

As mudanças no perfil demográfico e epidemiológico das populações tiveram como consequência maior exposição dos indivíduos aos fatores de risco relacionados às doenças crônicas não transmissíveis, especialmente as cardiovasculares, tornando-as “primeira causa de morte no mundo” (LESSA, 2006), acarretando um peso econômico muito alto para os países, onde doenças como hipertensão, diabetes e obesidade representam custos crescentes e preocupantes para a sociedade, famílias e indivíduos. Esses fatores de risco para doenças cardiovasculares quase sempre estão relacionadas a aspectos comportamentais, do modo com que as pessoas vivem. Mudar isso significa fazer com que as pessoas conheçam a sua real situação de saúde e compreendam a necessidade de modificarem seus hábitos de vida. Para tanto, devem ser utilizados todos os meios e as condições que as mesmas possuem o que demanda tempo e habilidades dos profissionais de saúde, na inserção e utilização dos métodos em educação para a saúde e rotina da assistência prestada a indivíduos e comunidade (CARNELOSSO et al., 2010).

Com os resultados, reforçam-se as necessidades de que intervenções

direcionadas à adoção de um estilo de vida saudável, incluindo prática regular

de atividade física, padrões dietéticos adequados e abstenção ao uso de

tabaco, deverão ser iniciadas em idades jovens (GUEDES et al., 2006). Com

os fatores de risco altamente presentes nos adultos jovens, aumentando a

prevalência conforme a idade justifica-se a necessidade de maior empenho das

autoridades locais e das equipes de saúde integradas e intersetoriais, de

promoção da saúde e prevenção de doenças, de forma individual e coletiva,

(16)

auxiliando as pessoas a mudarem comportamentos de risco, determinantes de doenças cardiovasculares e adotarem hábitos de vida mais saudáveis (CARNELOSSO et al., 2010).

Uma vez que a aterosclerose tem início na infância e progride à medida em que ocorre exposição aos fatores de risco ao longo da vida. As estratégias recomendadas na infância e adolescência, segundo a I Diretriz de Prevenção da Aterosclerose na Infância e Adolescência, são dirigidas às crianças a partir de 2 anos de idade e visam prevenir a instalação dos fatores de risco com medidas de promoção à saúde, incluindo alimentação saudável, exercícios físicos, combate ao tabagismo, sedentarismo e promoção do bem-estar físico e mental (IZAR, 2011).

5 – CONCLUSÃO

A dislipidemia continua a ser uma causa central da doença

cardiovascular. O aumento da obesidade em crianças e adolescentes,

associado a frequentes erros alimentares como dietas ricas em carboidratos e

gordura saturada, e pobre em frutas, vegetais e fibras está se tornando muito

comum o encontro de crianças e adolescentes com dislipidemias. A

prevalência de FRC é expressiva nas crianças e adolescentes. Essa

prevalência não difere entre os gêneros, mas aumenta com a idade devida a

relação com o fumo, alcoolismo e pressão arterial elevada. Com isso é

necessário que a prevenção da dislipidemia seja iniciada na infância, para

poder intervir precocemente os fatores de risco, e que sejam adotados

programas de prevenção a saúde, onde incluem hábitos alimentares

saudáveis, realização de atividades físicas, um estilo de vida saudável. A

atividade física exercida ao longo da vida é associada com menor ocorrência

de dislipidemia, podendo ser uma importante ferramenta de prevenção da

doença na idade adulta.

(17)

6 – REFERÊNCIAS

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Referências

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