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DISTANÁSIA E LESÃO À DIGNIDADE À BEIRA DO LEITO
CABRAL, Hildeliza Lacerda Tinoco Boechat Mestre em Cognição e Linguagem pela UENF Autora das obras Síntese de Direito do Consumidor (2012) e Consentimento Informado no Exercício da Medicina e Tutela dos Direitos Existenciais: uma visão interdisciplinar – Direito e Medicina (2011);
coordenadora da obra Ortotanásia: Bioética, Biodireito, Medicina e direitos de personalidade (Editora Del Rey, 2015);
SOUZA, Carlos Henrique Medeiros de Professor e Coordenador do Programa de Cognição e Linguagem da UENF [email protected]
CARVALHO, Vívian Boechat Cabral Titular do Tabelionato de Registro Civil e Notarial de Reduto, Comarca de Manhuaçu – MG [email protected]
BOECHAT, Ieda Tinoco Estudante de Mestrado do Programa de Cognição e Linguagem da UENF
Professora do Curso de psicologia da UNIFSJ [email protected]
RESUMO
O presente artigo objetivou apresentar a Distanásia como uma prática adotada de forma natural e recorrente nos hospitais brasileiros, causadora de muitos malefícios ao enfermo. Trata-se de medidas terapêuticas excessivas quando o organismo do doente já não possui condições de responder a nenhum tratamento em razão de se encontrar em fase terminal de uma doença. A abordagem da temática se justifica pela necessidade de conscientização da sociedade sobre o fato de que em fase terminal da doença nenhum tratamento produzirá cura, trazendo apenas mais dores e agruras ao doente que já deseja morrer em paz. Concluiu-se que a utilização de procedimentos deve ser suspensa quando é chegada a fase terminal, uma vez que tratamentos fúteis somente submetem o doente a mais dores e aflições, o que põe em risco sua dignidade no momento mais sensível de sua vida, que á a morte. A metodologia utilizada foi qualitativa, baseada em livros e artigos científicos de especialistas no assun to objeto deste artigo.
Palavras-chave: tratamento fútil; dignidade humana; enfermo terminal.
ABSTRACT
This article aimed to introduce Dysthanasia as a practice adopted from natural and recurring basis in Brazilian hospitals, causing a lot of harm to the patient. It is excessive therapeutic measures when the organism of the patient no longer has the means to respond to any treatment due to meet in the terminal phase of an illness. The thematic approach is justified by the need to raise awareness in society about the
72 fact that in terminal phase of the disease no treatment will produce healing, bringing only more pain and hardship to the patient who already want to die in peace. It was concluded that the use of procedures should be suspended when is high terminal phase, as futile treatments only submit the patient to more pain and afflictions, which jeopardizes its dignity in the most sensitive moment of his life, which is the death. The methodology used was qualitative, based on books and scientific articles from the experts to this art object.
Keywords: Futile treatment; Human dignity; Ill terminal.
INTRODUÇÃO
A vida humana é objeto de estudo da Bioética e o são também as fases que a compreendem: o nascimento e a morte. O presente artigo aborda a morte, mas com o seguinte recorte: a Distanásia como prática recorrente nos hospitais, na finitude da vida humana.
Distanásia é uma conduta consistente na obstinação terapêutica, que leva ao extremo a busca pela cura, mantendo artificialmente a vida humana por meio da utilização de tecnologias por longo tempo, submetendo o doente a aflições cada vez mais intensas. O problema a ser analisado consiste em responder por que o excesso terapêutico implica lesão à dignidade da pessoa enferma.
Os avanços tecnológicos e científicos verificados a partir de meados do século passado, uma vez aplicados à saúde, produziram a consequência de se prolongar a vida humana por um tempo cada vez mais elástico, o que concorreu para um crescente processo de medicalização da morte. A Medicina, entendendo a morte como fracasso, lançou-se a implementar tratamentos e procedimentos em pacientes independentemente do êxito de seus resultados, na intenção de prolongar a vida como se a morte pudesse ser vencida. Esse procedimento obstinado e fútil – por sua absoluta desnecessidade, já que não irá promover a cura – é a denominada Distanásia.
Justifica-se o estudo do tema pelo prolongamento excessivo da vida ora praticado nos hospitais em decorrência dos avanços tecnocientíficos capazes de prolongar artificialmente a vida humana por anos a fio. Impende demonstrar que a utilização de procedimentos fúteis compromete a dignidade da pessoa doente, infringindo-lhe dor, mal-estar ou mesmo aflições.
A metodologia empregada é qualitativa, consistindo em análise bibliográfica de autores que tratam dessa temática como Léo Pessini (2007); Cristiano Chaves de Farias e Nelson
73 Rosenvald (2015); Luciano de Freitas Santoro (2013), dentre outros. Divide-se a abordagem em três tópicos: Distanásia: conceito e configuração do tratamento fútil; a dignidade da pessoa humana como valor no âmbito da Medicina e desrespeito à dignidade humana e lesão ao enfermo.
1 DISTANÁSIA: CONCEITO E CONFIGURAÇÃO DO TRATAMENTO FÚTIL
A expressão Distanásia é pouco conhecida e mencionada na área da saúde, embora a conduta seja largamente utilizada no cotidiano dos hospitais brasileiros. Assim, condutas distanásicas como reanimar e/ou intubar após uma parada cardiorrespiratória são práticas ainda concebidas pela Medicina como naturais e ordinárias na busca de "salvar a vida" a qualquer custo, sem refletir na qualidade de vida do enfermo e nem em suas próprias condições de sobrevida. Ou seja, as instituições de saúde possuem profissionais treinados para promoverem a vida e não para admitirem sua finitude e buscarem alternativas capazes de promover a morte serena e digna.
A palavra Distanásia tem origem grega, dis significa "afastamento" e thanatos, "morte".
Os profissionais da Medicina investem incessantemente no prolongamento da vida e consequente adiamento do processo de morte, mesmo quando esta já se mostra iminente. A morte é postergada, iniciando uma fase de sofrimento desnecessário, pois não há perspectiva de cura, nem mesmo de melhora para o doente. Vários são os conceitos e caracterizações apresentados para essa conduta. Para Luciano Santoro, a Distanásia
[...] caracteriza-se por um excesso de medidas terapêuticas que não levam à cura e/ou salvação do paciente, mas que lhe impõe sofrimento e dor. Trata-se, pois, de um tratamento fútil, caracterizado por não conseguir reverter o distúrbio fisiológico que levará o paciente à morte (SANTORO, 2012, p. 130).
Ocorre principalmente em razão da dificuldade que tem o ser humano para o enfrentamento da própria morte. A Medicina, a partir de uma interpretação equivocada do juramento hipocrático, busca superar a morte e alcançar a cura, a qualquer preço, mesmo quando já não é possível obtê-la e a constatação do estado de terminalidade já ocorreu. A obstinação pela cura promove uma cega e incessante insistência em procedimentos, tratamentos
74 e condutas curativas, quando já deveriam estar sendo adotadas somente medidas paliativas que visam o alívio da dor e a promoção de bem-estar do paciente.
A Distanásia corresponde à obstinação terapêutica, à busca pela manutenção da vida a qualquer custo, sem se ponderar o bem-estar do doente. Para Möller, a prática acontece porque
A dificuldade de enfrentar a finitude humana, aliada aos crescentes avanços tecnológicos no âmbito das ciências da saúde, que propiciam tantos e tão variados tipos de intervenções, procedimentos e tratamentos, resulta em nossos dias numa tendência à prática da obstinação terapêutica, de modo a evitar ou adiar a morte – nossa grande inimiga – ao máximo (MÖLLER, 2012, p. 24).
Para os autores Cristiano Chaves de Farias e Nelson Rosenvald, distanásia
[...] é o prolongamento artificial do processo (natural) de morte, ainda que à custa do sofrimento do paciente. É a continuação, por intervenção da Medicina, da agonia, mesmo sabendo que, naquele momento, não há chance conhecida de cura. Enfim, é uma verdadeira obstinação pela pesquisa científica, pela tecnologia e tratamento médico, olvidando o direito do paciente à sua dignidade intangível, mesmo no momento da morte (FARIAS;
ROSENVALD, 2015, p. 314-315).
Leo Pessini dedicou uma obra ao estudo da Distanásia, na qual destaca:
A questão de fundo é definir quando uma determinada intervenção médica não mais beneficia o doente em estado crítico, terminal, em estado vegetativo persistente, ou o neonato concebido com seríssimas deficiências congênitas, e torna-se, portanto, fútil e inútil. A insistência em implementá-la vai resultar numa situação que caracterizamos como distanásica (PESSINI, 2007, p. 163).
Distanásia ocorre quando se impõe a obstinação terapêutica ao doente, que passa por sofrimento extremo, devido ao excesso de medicamentos e procedimentos a que é submetido, pondo-lhe a dignidade em risco, ou mesmo chegando a ter um final indigno, em razão das angústias que suporta. Um caso clássico é o doente terminal chegar à emergência com insuficiência respiratória e ser intubado, numa fase em que já não caberia mais esse procedimento, pois nada mais vai concorrer para cura ou melhoria de seu estado. Isso pode ocorrer por insistência de quem está acompanhando o doente ou mesmo porque o médico teme ser demandado judicialmente por omissão de socorro.
75 Renato Sertã salienta que um conceito mais atual de distanásia poderia ser “„tratamento médico fútil‟, quando ministrado em pacientes portadores de graves moléstias, para as quais não há solução facilmente identificável pela ciência médica” (SERTÃ, 2005, p. 32). Nesse contexto, a futilidade do tratamento se explica por sua absoluta desnecessidade, sendo certo que a medicalização não modificará o quadro do paciente, sendo irrelevante qualquer atuação, procedimento ou medicamento, já que nenhum deles promoverá cura. Leo Pessini explica tratamento fútil:
Os tratamentos têm sido categorizados como fúteis quando não atingem os objetivos de adiar a morte; prolongar a vida; melhorar, manter ou restaurar a qualidade de vida; beneficiar o paciente; beneficiar o paciente como um todo;
melhorar o prognóstico; melhorar o conforto do paciente, bem-estar ou estado geral de saúde; atingir determinados efeitos fisiológicos; restaurar a consciência; terminar a dependência de cuidados médicos intensivos; prevenir ou curar a doença; aliviar o sofrimento; aliviar os sintomas; restaurar determinada função; e assim por diante (PESSINI, 2007, p. 62).
Genival Veloso de França tece importantes considerações quanto ao tratamento fútil:
O conceito de futilidade médica começa a ganhar espaço nas discussões sobre assunto de bioética, principalmente nos casos de prolongamento da vida de pacientes gravemente enfermos e presos a quadros considerados irreversíveis.
Esta é uma situação muito delicada para o médico, por tratar-se uma condição de iminente perigo de vida num paciente com comprometimento da vida de relação, como nos casos de coma, mas que não apresentam ainda os critérios para a caracterização da parada total e irreversível das funções encefálicas (...) hoje se tem como justificativa considerar um tratamento fútil aquele que não tem objetivo imediato, que é inútil ou ineficaz, que não é capaz de oferecer uma qualidade de vida mínima e que não permite uma possibilidade de sobrevida (FRANÇA apud PESSINI, 2007, p. 185).
França observa a questão de se constatar que o tratamento é fútil quando não irá promover cura e nem mesmo melhoria da qualidade de vida do doente. Leo Pessini, seguindo essa perspectiva, faz uma advertência sobre a avaliação moral do tratamento fútil:
O tratamento fútil foi definido como sendo um guia prudente de avaliação moral do bem do paciente e da moral de permitir não utilizar ou descontinuar determinados tratamentos em pacientes seriamente enfermos ou que estejam morrendo. Nesta visão, se um tratamento é julgado fútil após terem sido
76 avaliados seus benefícios, onerosidade e eficácia, não precisa e não deve ser oferecido ou aplicado (PESSINI, 2007, p. 167).
O tratamento fútil então é aquele que não apresenta um balanço positivo para o paciente nem para sua família, que impõe um ônus sem a devida contraprestação: não traz nenhuma utilidade, não acarreta benefício ao doente ou à sua família, não produz qualquer efeito, sendo seu resultado indiferente para o quadro clínico ou para o bem-estar do paciente.
Luis Guillermo Blanco se vale de uma expressão bem mais enfática para designar a Distanásia. Para ele Distanásia deve ser definida como “encarniçamento terapêutico”
(BLANCO, 1997, p. 31), demonstrando que a pessoa já está em processo de morte, apenas mantidas as funções vitais de forma artificial. Isso com o intuito de demonstrar quão inútil é o tratamento a partir do momento em que se constata o estado de terminalidade da doença.
2 DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA COMO VALOR NO ÂMBITO DA MEDICINA
O movimento de valorização da pessoa e sua dignidade foi promovido, sobretudo, pela influência de três fases históricas, segundo Ana Paula de Barcellos. Teve início na Era Cristã, a partir dos ensinamentos de Jesus, que pregava solidariedade e piedade, ensinando ao homem a amar o próximo como a si mesmo, o que se coaduna com o conceito de igualdade substancial, pela qual não se pode fazer acepção de pessoas. Mais tarde, o movimento Iluminista-Humanista marca nova fase de valorização da pessoa, juntamente com as obras de Kant, trazendo novas influências no mesmo sentido. Por derradeiro, o momento histórico pós-guerra, marcado por inúmeras manifestações em reação às atrocidades cometidas pelos alemães, notadamente o fato que ficou conhecido como holocausto, que culminou com o Tribunal de Nuremberg (BARCELLOS, 2008, p. 122-126).
Esse último fato deflagrou a necessidade de uma normativa internacional que protegesse o homem em essência, pela qualidade de pessoa humana e sua dignidade, o que trouxe como consequência a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que traz no seu artigo inaugural a noção de igualdade e dignidade. A dignidade da pessoa humana passa a ser o princípio norteador deste Estado democrático de direito, presente nesta e em outras
77 constituições dos estados pós-modernos como verdadeiro axioma a nortear todas as relações entre os cidadãos.
A dignidade passa a ser respeitada e protegida pela vigente Constituição, pela sociedade e também pela classe médica. Não mais como princípio somente, mas como axioma, valor do ordenamento jurídico, conforme lição de Pietro Perlingieri: “A personalidade é, portanto, não um direito, mas um valor (o valor fundamental do ordenamento) e está na base de uma série aberta de situações existenciais, nas quais se traduz a sua incessante mutável exigência de tutela.” (PERLINGIERI, 2007, p.155, 156).
Inicia-se, então, o movimento pela humanização da Medicina no sentido de se obter melhor interação na relação médico-paciente, de proteger a dignidade do paciente, promovendo-lhe meios de morrer com dignidade, em consequência do direito à vida digna, constitucionalmente consagrado no art. 1º inciso III da vigente Constituição Federal (CF).
Os juristas Cristiano Chaves de Farias e Nelson Rosenvald demonstram a relação entre vida digna e morte digna: “Se a morte é o corolário, a consequência lógica, da vida, nada é mais natural do que asseverar que o direito à vida digna (CF, art. 1º, III) traz consigo a reboque, o direito a uma morte igualmente digna” (FARIAS; ROSENVALD, 2015, p. 310). Trata-se de uma constatação bastante racional: não faz sentido preservar a dignidade da pessoa humana durante a vida, protegendo todos os direitos de personalidade a ela inerentes, para desprezá-la no momento em que se encontra vulnerável e enferma , que é o momento em que caminha para a morte. Reafirmam os referidos autores:
O que se exige é uma cuidadosa reflexão, liberta das influências pessoais (de ordem religiosa, ética...) para estabelecer as latitudes do direito à morte digna.
Mais do que isso, seja qual for o posicionamento a prevalecer, é imperioso se reconhecer que o único ponto indelével (e insubstituível) nessa discussão é o reconhecimento de que a dignidade da pessoa humana também de projeta na morte (FARIAS; ROSENVALD, 2015, p. 310).
Inclusive o vigente Código de Ética Médica respeita a dignidade da pessoa e sua vontade, contemplando essas questões em alguns dos artigos, como, por exemplo, o art. 24 que veda ao médico:
78 Art. 24. Deixar de garantir ao paciente o exercício do direito de decidir livremente sobre sua pessoa ou seu bem-estar, bem como exercer sua autoridade para limitá-lo.
É necessário esclarecer que a distanásia já se faz compreendida pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) como prática que deve ser rejeitada, haja vista o reconhecimento de que a Ortotanásia é a medida que deve ser implementada, conforme normativa do próprio CFM para os casos de doença grave e terminal. Significando “morte na hora certa, a Ortotanásia é a opção para que o paciente possa morrer com dignidade, da forma como escolher, sem antecipar, mas também sem postergar esse momento da finitude por meio de suporte vital ou tratamentos fúteis incapazes de causar melhoria ao paciente. Para dar cumprimento à Ortotanásia, o Conselho Federal de Medicina regulamenta essa prática no âmbito da deontologia médica por meio da Resolução No. 1805/2006, cujo artigo primeiro possui o seguinte teor:
Art. 1º É permitido ao médico limitar ou suspender procedimentos e tratamentos que prolonguem a vida do doente em fase terminal, de enfermidade grave e incurável, respeitada a vontade da pessoa ou de seu representante legal.
A referida Resolução vem antecedida de várias motivações que a originaram, dentre as quais o Conselho Federal de Medicina menciona a dignidade da pessoa humana:
CONSIDERANDO o art. 1º, inciso III, da Constituição Federal, que elegeu o princípio da dignidade da pessoa humana como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil (BRASIL. CFM. Resolução No. 1805/2006).
Evidencia-se, pelo teor dessas normativas, que a Medicina contemporânea tem buscado a sintonia com o cumprimento dos ideais constitucionais de respeito à pessoa e sua dignidade.
3 DESRESPEITO À DIGNIDADE HUMANA E LESÃO AO ENFERMO
Quando a pessoa é submetida a tratamento fútil e desnecessário, é-lhe imposto o ônus de suportá-lo: uma conduta que pode satisfazer à família, com suas dificuldades para enfrentar o óbito da pessoa doente, ou pelo alento de “ter tentado tudo”, uma justificativa que parece trazer
79 paz ao coração dos familiares a despeito do sofrimento e do mal-estar do enfermo. Nesse caso, há preterição da dignidade da pessoa humana em detrimento da luta pela infalibilidade da ciência, submetendo o paciente a um nível extremo de dor e sofrimento, conforme alerta Mônica Silveira Vieira: “atenta contra a dignidade da pessoa humana” (VIEIRA, 2012, p. 233).
Alguns casos concretos emblemáticos de distanásia, exemplificativamente, foram Nancy Cruzan e Terry Schiavo. Ambas tiveram a vida mantida artificialmente por anos a fio, sendo necessária uma medida judicial para que seus familiares pudessem ter deferido o pedido de desligamento do suporte vital que as mantinha em estado vegetativo por vários anos.
Nancy Cruzan, após sofrer um grave acidente automobilístico no ano de 1983, quando contava com 25 anos, foi encontrada sem respiração e batimentos cardíacos detectáveis, razão pela qual entrou e coma vegetativo permanente. Atendida na emergência, seu marido autorizou a ressuscitação. Um neurologista afirmou que pelo tempo que ela havia ficado sem respirar, haveria prejuízo para as funções cerebrais por falta da oxigenação no cérebro. Dez meses após todas as tentativas de reabilitação, já internada em vida vegetativa em um hospital público, seus pais (que além do marido eram representantes legais) solicitaram ao hospital a retirada dos procedimentos de nutrição e hidratação assistidas (sonda). O hospital se negou a atender sem autorização judicial. Foram mais de sete anos para obterem a medida judicial. Seu túmulo continha a seguinte inscrição:
Nascida em 20 de julho de 1957 Partiu em 11 de janeiro de 1983
Em paz em 26 de dezembro de 1990 (GOLDIM, disponível em www.ufrgs.br/bioetica /nancy.htm. Acesso 2015)
O segundo caso, Terry Schiavo, era uma adolescente que iniciou uma dieta muito rigorosa que se prolongou por alguns anos, fazendo-a emagrecer demais, apresentando desregulação do nível de potássio no organismo, o que levou ao estado vegetativo permanente, passando a ser alimentada por meio de um tubo. Seu marido teve que mover um processo no qual enfrentou os pais da esposa, obtendo a autorização após cerca de 15 anos, em 2005, quando veio a óbito (Fonte: www.eutanasia-ap.weebly.com/casos-reais.html Acesso em 2015).
Em ambos os casos, houve ressuscitação e intubação de paciente com probabilidade inviável de vida, situações de inexistência de qualquer esperança de cura ou de melhoria do
80 quadro clínico. Não havia, portanto, causa para reanimação para depois serem mantidas em esotad vegetativo permanente por anos a fio. Estes são dois dos muitos casos de Distanásia ocorridos na atualidade, principalmente por falta de discernimento sobre a possibilidade de uma decisão em favor do paciente, que é a suspensão do esforço terapêutico.
Essas situações configuram danos à pessoa humana, desrespeitam a sua integridade psicofísica, causando lesão aos direitos de personalidade. Nesse sentido, explica Anderson Schereiber o conceito de danos aos direitos existenciais (danos aos direitos de personalidade):
os danos existenciais, entendidos como danos morais decorrentes de ato ilícito de terceiro, capazes de restringir, afetar ou causar lesão aos interesses existenciais ou ao seu exercício, passam a representar uma esfera de direitos que uma vez violados, devem obrigar o agente à reparação civil. Os chamados novos danos compreendem o universo de situações oriundas do desdobramento de lesões a direitos da personalidade, que antes não eram tratadas como tais, dada a sua peculiaridade. A expressão “novos danos” refere-se a um universo de consequências danosas, oriundas da violação a direitos da personalidade, que sequer eram apreciados como danos, sendo negada sua ressarcibilidade, de forma direta ou indireta (SCHREIBER, 2007, p.
85, 86).
É necessário analisar a prática da Distanásia à luz de uma visão crítica sobre a finitude humana, entendendo-a como invencível, de necessária conscientização, conforme propõem Leo Pessini e Christian Barchifontaine:
Podemos ser sim curados de uma doença classificada como mortal, mas não de nossa mortalidade. Quando esquecemos disso, acabamos caindo na tecnolatria e na absolutização da vida biológica pura e simplesmente. É a obstinação terapêutica adiando o inevitável, que acrescenta somente sofrimento e vida quantitativa, sacrificando a dignidade (PESSINI;
BARCHIFONTAINE, 2012, p. 455).
É importante que se esclareça que é possível a suspensão do esforço terapêutico (SET) em benefício do doente, a fim de proteger-lhe a dignidade, promover-lhe a qualidade de vida e a garantia de morte igualmente digna, conforme explica Diaulas Ribeiro Costa:
A SET põe fim à obstinação terapêutica, à distanásia, à insistência tecnológica em se adiar a morte, como se isso fosse bom e possível para sempre. Com a evolução das tecnologias médicas, a cada dia há mais meios para se manter
81 esse encarniçamento terapêutico, como dizem os espanhóis, que não pode ser visto como tratamento porque não cura. Apenas dá suporte a atividades vitais primárias e pode deixar vivo, por anos, e à custa de grande sofrimento e recurso de toda ordem, alguém que está clinicamente terminado. Com a SET, o paciente não morre de uma overdose de cianureto de potássio, de adrenalina ou de heroína; morre da própria doença, da falência da vida que só é eterna na prosa, na poesia e na visão perspectiva de algumas religiões (RIBEIRO IN PEREIRA, 2006, p. 280).
Com a suspensão do esforço terapêutico, permite-se que a pessoa caminhe para a finitude no momento certo, resguardando sua dignidade, promovendo-lhe um restante de vida com qualidade. Nesse caso, terá ela uma morte mais tranquila, serena e digna, sem sofrimentos adicionais que a submetam a dores extremas e desnecessárias, já que nada poderá produzir cura ou alguma melhoria de seu quadro clínico.
CONCLUSÕES
Distanásia possui um conceito etimológico que significa afastamento da morte. Embora já entendida pela Medicina contemporânea como desrespeito à dignidade do doente, continua sendo praticada diuturnamente nos hospitais brasileiros. Esse comportamento deve-se desde o fato do desconhecimento da atual perspectiva dos direitos inerentes à dignidade da pessoa humana até mesmo a preocupação por enfrentar um processo judicial por omissão de socorro por “não ter tentado tudo” aos olhos da família.
Trata-se de uma conduta que precisa ser revista, fruto da ação médica movida por equivocada interpretação do juramento hipocrático (que a vida deve ser mantida a todo custo, mediante qualquer sacrifício, o que não se coaduna com a dignidade da pessoa humana, valor máximo do ordenamento jurídico) e ainda por vontade da família que insiste na manutenção da vida da pessoa enferma, sem se preocupar com as dores profundas que lhe causam o excesso terapêutico, diminuindo-lhe a dignidade e aumentando-lhe o suplício, em um ambiente hospitalar frio e impessoal, que só lhe causa tristeza, angústia e extremo desconforto.
A partir do movimento de valorização da pessoa, que consagrou a dignidade da pessoa humana como princípio e como valor do ordenamento jurídico e também da Medicina, conforme demonstrado nas normativas do CFM, observa-se o objetivo de proteger a pessoa,
82 suas escolhas, seu bem-estar em todos os momentos da vida, e, principalmente, ao final da existência.
Concluiu-se que a utilização de procedimentos deve ser suspensa quando é chegada a fase terminal, uma vez que tratamentos fúteis somente submetem o doente a mais dores e aflições, o que põe em risco sua dignidade no momento mais sensível de sua vida, que á a morte.
REFERÊNCIAS
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______. Conselho Federal de Medicina. Código de Ética Médica – Resolução CFM Nº 1.931/2009 (Código de Ética Médica). Disponível em:
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FARIAS, Cristiano Chaves de; ROSENVALD, Nelson. Curso de Direito Civil – parte geral e LINDB. 13. ed. São Paulo: Atlas, 2015.
GOLDIM, José Roberto. Disponível em http://www.ufrgs.br/bioetica/nancy.htm Acesso em 7 jul.2015.
MÖLLER, Letícia Ludwig. Direito à morte com dignidade e autonomia – o direito à morte de pacientes terminais e os princípios da dignidade e autonomia da vontade. Curitiba: Juruá, 2012.
PERLINGIERI, Pietro. Perfis do Direito Civil – Introdução ao Direito Civil Constitucional.
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