Superior Tribunal de Justiça
RECURSO ESPECIAL Nº 1.076.287 - RN (2008/0161986-4)
RELATOR : MINISTRO ARNALDO ESTEVES LIMA
RECORRENTE : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE
RECORRIDO : ROMEL TORRES MOTA
ADVOGADO : S/ REPRESENTAÇÃO NOS AUTOS
RELATÓRIO
MINISTRO ARNALDO ESTEVES LIMA:
Trata-se de recurso especial interposto pelo MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE, com fundamento no art. 105, III, alíneas "a" e
"c", da Constituição Federal, contra acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Norte assim ementado (fl. 97):
PENAL E PROCESSUAL PENAL. RECURSO EM SENTIDO ESTRITO.
DENÚNCIA LIGAÇÃO CLANDESTINA DE SINAL DE TV A CABO.
REJEIÇÃO. ATIPICIDADE DE CONDUTA. IRRESIGNAÇÃO MINISTERIAL. NÃO-CARACTERIZAÇÃO COMO FURTO DE ENERGIA (ARTIGO 155, § 3º, DO CÓDIGO PENAL) SOB PENA DE ANALOGIA IN MALAM PARTEM. PRESERVAÇÃO DO PRINCÍPIO DA LEGALIDADE.
MERO ILÍCITO CIVIL. PRECEDENTES JURISPRUDENCIAIS. DECISÃO MANTIDA.
- O legislador, na Lei nº 8.977/95, definiu ser ilícito penal a interceptação, a recepção ou receptação não autorizada dos sinais TV a cabo, sem contudo estipular pena, não havendo, por conseguinte, adequação típica à mencionada conduta.
- Segundo o conceito formal de legalidade, um fato somente constituírá uma infração criminal quando assim estiver previsto em uma noma legal, com sanção estipulada, no momento em que foi praticada (artigo 5º, inciso XXXIX, da Constituição Federal e 1º do Código Penal).
- A exclusão da interpretação analógica, criativa ou extensiva, prejudicial ao acusado, determinada pela reserva legal, aplica-se tanto na concretude das normas criminais contidas na parte geral do Código Penal, quanto nas especiais e nas extravagantes. É um imperativo da incidência da lex stricta a respeito da responsabilidade penal, que engloba a descrição típica, a sanção e todas as circunstâncias que influem na dosimetria da pena. Tal preceito implica na repulsa de uma aplicação do direito que ultrapasse o sentido a ser atingido pela exegese de uma norma jurídica-penal. O limite interpretativo fixado aos operadores do direito evita a criação de normas penais além do que permite o seu teor literal, uma vez que não se pode fazer nenhuma adequação típica de preceitos ou sanções por similitudes entre os fatos, por absoluta vedação da analogia in malam partem.
- Apelo ministerial improvido.
Sustenta o recorrente violação do art. 155, § 3º, do Código Penal. Aduz que a captação indevida de sinal de TV a cabo configura crime de furto de energia.
Requer o provimento do presente recurso para que seja determinado o
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recebimento da denúncia.
Não foram apresentadas contrarrazões (fl. 147).
O Ministério Público Federal opinou pelo provimento do recurso especial (fls.
157/163).
É o relatório.
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RECURSO ESPECIAL Nº 1.076.287 - RN (2008/0161986-4)
EMENTA
PENAL. RECURSO ESPECIAL. CAPTAÇÃO DE SINAL DE TV A CABO. CONFIGURAÇÃO DE DELITO DE FURTO. ART. 155, § 3º, DO CP. RECURSO CONHECIDO E PROVIDO.
1. Segundo o entendimento do Superior Tribunal de Justiça a captação irregular de sinal de TV a cabo configura delito previsto no art. 155, § 3º, do CP.
2. Recurso conhecido e provido para determinar o recebimento da denúncia.
VOTO
MINISTRO ARNALDO ESTEVES LIMA(Relator):
Da análise dos autos, verifica-se a rejeição da denúncia oferecida contra o ora recorrido pela prática de delito previsto no art. 155, caput e § 3º, do Código Penal (fls. 68/70).
O Tribunal a quo , no julgamento do recurso em sentido estrito interposto pelo Ministério Público, negou-lhe provimento ao fundamento de que o reconhecimento da ligação clandestina ou irregular para captação de sinal de televisão como ilícito penal configuraria interpretação in malam partem da norma.
A questão posta nos autos se consubstancia na avaliação da decisão do acórdão recorrido quanto à atipicidade da prática de sinal de sinal de TV a cabo.
Sobre o tema, verifica-se a existência de três teses: a primeira, que considera a captação clandestina de sinal de TV a cabo crime de furto previsto no § 3º do art. 155 do CP;
a segunda, que entende tratar-se de delito de estelionato; e a terceira, que não considera crime a prática dessa conduta.
O entendimento do Superior Tribunal de Justiça, porém, considera a prática de captação de sinal de TV a cabo delito de furto, mostrando-se contrário ao consignado no acórdão recorrido.
Nesse sentido, confira-se o seguinte precedente:
CRIMINAL. HC. RECEPTAÇÃO DE SINAL DE TV A CABO. NET.
LIGAÇÃO CLANDESTINA. FURTO DE COISA ALHEIA MÓVEL.
TRANCAMENTO DE AÇÃO PENAL PELA ATIPICIDADE DA CONDUTA. AUTORIA E MATERIALIDADE DEMONSTRADAS, EM TESE. AUSÊNCIA DE JUSTA CAUSA NÃO-EVIDENCIADA DE PLANO.
IMPROPRIEDADE DO WRIT. ORDEM DENEGADA.
I. Inexistência de imprecisão quanto aos fatos atribuídos aos pacientes, devidamente amparados em elementos de prova – tanto que houve sua condenação nas instâncias ordinárias, estando os autos em vias de serem remetidos para apreciação de recurso perante o Tribunal a quo.
II. Denúncia imputando ao paciente a subtração, em tese, de coisa alheia
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móvel, consistente em energia elétrica de sinal de áudio e vídeo da empresa
"NET São Paulo LTDA".
III. Indícios apontando o uso irregular de sinas de TV a Cabo por um período de cerca de 01 ano e 09 meses, sem o pagamento da taxa de assinatura ou as mensalidades pelo uso, apesar da cientificação pela empresa vítima da irregularidade da forma como recebiam o sinal, tendo sido refeita, inclusiva, a ligação clandestina após a primeira desativação pela NET.
IV. A falta de justa causa para a ação penal só pode ser reconhecida quando, de pronto, sem a necessidade de exame valorativo dos elementos dos autos, evidenciar-se a atipicidade do fato, a ausência de indícios a fundamentarem a acusação ou, ainda, a extinção da punibilidade.
V. O habeas corpus constitui-se em meio impróprio para a análise de questões que exijam o exame do conjunto fático-probatório tendo em vista a incabível dilação que se faria necessária. VI. Ordem denegada.
(HC 17867/SP, Rel. Min. GILSON DIPP, Quinta Turma, DJ 17/3/03)
Dessa forma, não deve subsistir o entendimento firmado no acórdão recorrido, por se encontrar em dissonância com a jurisprudência deste Superior Tribunal.
Ante o exposto, conheço do recurso especial e dou-lhe provimento para determinar o recebimento da denúncia.
É o voto.
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