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Educação jurídica básica no ensino médio: prérequisito para uma educação cidadã, para o acesso à justiça e para a própria validade do direito

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Academic year: 2018

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UN

EDUCAÇ PRÉ-REQUISITO PARA

PAR

NIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ FACULDADE DE DIREITO

TIAGO ANDRADE SANTIAGO

ÇÃO JURÍDICA BÁSICA NO ENSINO MÉD A UMA EDUCAÇÃO CIDADÃ, PARA O ACE RA A PRÓPRIA VALIDADE DO DIREITO.

FORTALEZA 2013

ÉDIO:

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TIAGO ANDRADE SANTIAGO

EDUCAÇÃO JURÍDICA BÁSICA NO ENSINO MÉDIO:

PRÉ-REQUISITO PARA UMA EDUCAÇÃO CIDADÃ, PARA O ACESSO À JUSTIÇA E PARA A PRÓPRIA VALIDADE DO DIREITO.

Monografia apresentada ao Curso de Direito da Universidade Federal do Ceará como requisito parcial para obtenção do Título de Bacharel em Direito.

Orientador: Professor Msc. Raul Carneiro Nepomuceno

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TIAGO ANDRADE SANTIAGO

EDUCAÇÃO JURÍDICA BÁSICA NO ENSINO MÉDIO:

PRÉ-REQUISITO PARA UMA EDUCAÇÃO CIDADÃ, PARA O ACESSO À JUSTIÇA E PARA A PRÓPRIA VALIDADE DO DIREITO.

Monografia apresentada ao Curso de Direito da Universidade Federal do Ceará como requisito parcial para obtenção do Título de Bacharel em Direito.

Aprovada em: ____/____/____

BANCA EXAMINADORA

__________________________________________ Prof. Msc. Raul Carneiro Nepomuceno (Orientador)

Universidade Federal do Ceará (UFC)

__________________________________________ Prof. Dr. Francisco Regis Frota Araújo

Universidade Federal do Ceará (UFC)

__________________________________________

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A Deus.

(6)

AGRADECIMENTOS

A Deus.

A minha família, que me apoiou na escolha do tema e na produção desse trabalho. A meu pai, Aldízio Ferreira Santiago, que me inspirou a seguir essa carreira. A minha mãe, Joaninha Costa de Andrade, que me ensinou o significado de esforço.

A meus irmãos, Aldízio Filho e Laura, pela parceria.

A minha amada, Kate Cibele, por sua generosidade em meu favor e por me inspirar a melhorar sempre.

A minha tia Lindalva, exemplo de jurista.

Aos meus amigos, pela compreensão e pelo bom humor.

Aos colegas e funcionários dos estágios no Ministério Público Estadual, no Tribunal de Contas Estadual e na Justiça Federal.

Aos Promotores de Justiça Telma Regina, Sávio Amorim e Francisco Gomes e à Conselheira de Contas, Soraia Victor por todas as lições.

Aos colegas de curso, pela cumplicidade.

À Universidade Federal do Ceará, pela formação crítica ofertada.

Aos professores dessa instituição, de modo geral, pela dedicação e pela perícia. À professora Uinie Caminha, de quem tive a honra de ser monitor.

Ao professor Regis Frota, de quem também tive a honra de ser monitor, e que aceitou compor essa banca de monografia.

Ao professor William Marques, que aceitou compor essa banca de Monografia, e me ajudou quase como um segundo orientador.

(7)

“Quem ensina aprende ao ensinar e quem

(8)

RESUMO

O presente trabalho tem por objetivo analisar a pertinência de se incluir educação jurídica básica no ensino médio. A liberdade humana é sustentáculo para a aplicação das normas, logo os indivíduos podem obedecê-las ou não, incorrendo, em caso negativo, na sanção predeterminada. Em razão dessas possibilidades, a consciência humana que fundamenta essa liberdade deve ser compreendida em um caráter social e jurídico, não bastando a consciência naturalística. A presunção de que todos conhecem a lei, insculpida no art. 3º da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (LINDB), é analisada no âmbito de sua aplicabilidade, sua utilidade e suas exceções. O caráter educativo do Direito é examinado, em uma conotação de controle social realizado por um Estado democrático, não por um Estado tirânico. Nessa exposição, o conhecimento e a interpretação das leis, pelos cidadãos comuns, se mostram indispensáveis à vida em sociedade. A promoção desse conhecimento deságua no Acesso à Justiça e o modo de alcançá-lo é pelo Direito fundamental à Educação. Para expor isso, é realizado um estudo da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) com foco no preparo para o exercício da cidadania, tratado como a defesa de direitos e interesses juridicamente exigíveis e a postura ética dos indivíduos. O exame de dispositivos legais e infralegais que discriminam as matérias a serem vistas na educação básica demonstra a existência de previsão para que seja ensinado conteúdo jurídico básico no ensino médio, sendo desnecessária a instituição legal de disciplina autônoma. Porém, um estudo de campo recente comprova que os mandamentos legais não são observados. Ao final, propõe-se, como instrumento para efetivar as disposições constitucionais, legais e infralegais, a exigência da matéria, que já tem previsão de ser estudada no ensino médio, no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM).

PALAVRAS-CHAVE: Educação Jurídica. Cidadania. Direito Fundamental à Educação. Exame Nacional do Ensino Médio.

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This study aims to analyze the relevance of including basic legal education in high school. Human freedom is mainstay for the application of the rules, then individuals can obey them or not, incurring, if not, in the predetermined sanction. Because of these possibilities, human consciousness that underlies this freedom should be understood in a social and legal character, not being enough the naturalistic consciousness. The presumption that everyone knows the law, inscribed in art. 3 of the Introductory Law to the Brazilian Norms Law (LINDB), is examined in the context of their applicability and usefulness, and its exceptions. The educational nature of law is examined in a connotation of social control performed by a democratic state , not by a tyrannical state. In this explanation, knowledge and interpretation of laws for the ordinary citizens, appear indispensable to life in society. The promotion of this knowledge flows into the Access to Justice and the way to reach it, it´s by the Fundamental right to education. To expound this, it´s realized a study of the Law of Guidelines and Bases of Education (LDB) focused on preparation for the exercise of citizenship, considered as a protection for the rights and interests legally enforceable and ethical behavior of individuals. The analysis of legal norms and other normative acts that discriminate the subjects to be studied in basic education demonstrates the existence of a law that requires the teaching basic legal content in high school, being unnecessary a legal institution of the autonomous discipline. But a recent study shows that legal commands are not obeyed. At the end, it´s proposed, as an instrument to effect the constitutional ordinances, the existence of the subject, which has already determined to be studied in high school, at the National High School Exam (ENEM).

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ... 11

2 LIBERDADE COMO FUNDAMENTO DO DIREITO ... 13

2.1 Liberdade e Consciência ... 14

2.2 Artigo 3º da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro ... 17

2.3 Controle Social ... 21

3 DIREITOS CONSTITUCIONAIS AO ACESSO À JUSTIÇA E À EDUCAÇÃO ... 24

3.1 Acesso à Justiça ... 24

3.2 Direito Constitucional à Educação ... 29

2.2.1 Cidadania ... 33

2.2.2 Disposições da Lei de Diretrizes e Bases da Educação... 34

4 OBSTÁCULOS E PROPOSTAS ... 39

4.1 Inclusão legislativa ... 40

4.2 Educação jurídica básica e a reforma do ensino em vigor ... 42

4.3 Segregação intelectual ... 44

4.4 Educação Jurídica e a Formação Cidadã ... 46

4.5 Exame Nacional do Ensino Médio ... 48

4.5.1 Qual conteúdo jurídico deveria ser lecionado no ensino médio? ... 49

CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 51

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1 INTRODUÇÃO

No início do estudo do Direito brasileiro, depara-se com o art. 3º da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (LINDB), novo nome dado à Lei de Introdução ao Código Civil (LICC), que preceitua: “Art. 3o Ninguém se escusa de cumprir a lei, alegando que não a conhece.”

Essa disposição, encarada de maneira literal, implica que todos devem conhecer as leis do País, ou cumpri-las, mesmo sem conhecê-las.

No entanto, até os 18 anos as pessoas são incapazes civil e penalmente. E a perspectiva média é de que a conclusão do chamado Ensino Básico, que inclui o ensino fundamental e o médio, se dê antes dos 18 anos de idade completos.

É importante considerar ainda que a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), de 1996, estabelece diretrizes que deverão orientar os "conteúdos curriculares da educação básica", que envolvem: valores, direitos e deveres e orientação para o trabalho. Porém convém ressaltar que não há um currículo objetivo aprovado pelo governo que contemple no ensino básico, efetivamente, o estudo, mesmo que superficial, das leis mais importantes do País.

Os alunos sequer são levados a ler a Constituição e o mais próximo de um conhecimento legal que a população possui diz respeito aos dez mandamentos bíblicos (e quantos lembram todos os dez?).

Então, apesar de o Estado nunca ter demonstrado preocupação por, efetivamente, introduzir as pessoas às leis do Brasil, passa, a partir dos 18 anos, a exigir de maneira coercitiva seu cumprimento. E esses jovens, que nunca tiveram uma aula sequer sobre o assunto, passam agora a ser cobrados em uma prova que pode lhes custar mais que uma nota baixa, pode lhes custar a liberdade. Isso mesmo, essas pessoas recém ingressas à maioridade correm, agora, o risco de ser presas, em razão de leis que desconhecem.

Se o objetivo do Ensino Básico é preparar para a vida civil, por que os alunos saem da escola sem saber, por exemplo, que “fofoca” pode configurar um crime, ou qual o prazo para troca de um produto eletrônico defeituoso, ou mesmo quais são as atribuições de um vereador?

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validade do Direito, a fim de formar melhor uma opinião sobre a razoabilidade da regra em estudo e sobre a pertinência de se incluir educação jurídica básica no ensino médio.

No primeiro capítulo, analisar-se-á a liberdade como fundamento do direito e a consciência humana, em especial a consciência jurídica, como fundamento da liberdade, para em fim tecer considerações sobre a presunção de que todos conhecem as leis e o caráter educativo do Direito.

No segundo capítulo, serão estudados os direitos fundamentais do acesso à justiça e da educação, entrelaçando-os e esmiuçando as disposições constitucionais e legais que disciplinam a atividade educacional à luz do conhecimento jurídico e da formação para o exercício da cidadania, a essa altura, a pertinência do estudo jurídico no ensino médio já estará devidamente demonstrada.

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2 LIBERDADE COMO FUNDAMENTO DO DIREITO

Carlos Cossio preceitua que Direito é conduta em interferência intersubjetiva, e conduta é liberdade metafísica que se fenomenaliza1. Para o autor argentino, Direito é conduta humana (em uma acepção social ou intersubjetiva) e conduta é liberdade. “La existencia del Derecho en general es existencia de la libertad porque la libertad es la esencia de la existencia y el Derecho está en la existencia como una forma necesaria de la misma”2.

Tratando da estrutura disjuntiva da norma jurídica, Cossio deixa claro que o homem é livre para observar ou não o preceito primário da norma, no entanto, não o observando, incidirá no preceito secundário e se sujeitará à possibilidade de sofrer a sanção estatal nela prevista3. Essa sanção imposta pelo Estado, não desnatura, no entanto, a liberdade humana, pois o indivíduo se sujeitou a essa possibilidade livremente.

Ou seja, o Direito escolhe condutas socialmente desejáveis, ao taxar algumas como “certas” e outras como “erradas”, pela imposição de penalidades à prática das “erradas”. Essa escolha se manifesta através da norma, que resulta da incidência de um valor (certo, errado, bom ou ruim) sobre um fato.

“Ser livre não é obter o que se quer, mas sim determinar-se por si mesmo a querer, no sentido lato de escolher. O conceito técnico e filosófico de liberdade significa somente autonomia de escolha” 4. Por isso, pode-se dizer que a norma jurídica contempla a liberdade do ser humano, uma vez que a ele é concedida uma escolha: cumprir (observar, obedecer) o preceito primário da norma ou não, incorrendo, em caso negativo, na chance de sofrer uma sanção.

Não obstante a contribuição desses autores para a compreensão da liberdade como pressuposto do Direito, diversos autores partidários desse raciocínio poderiam ser mencionados, como Hayek5, Bobbio6, Capez7, Kant8 etc, para balizar essa ideia.

1 COSSIO, Carlos

. La Teoria Egológica del Derecho y El Concepto Jurídico de Libertad. Losadas, Buenos

Aires. p. 292.

2 “A existência do Direito em geral é existência da liberdade porque a liberdade é a essência da existência e o

Direito está na existência como uma forma necessária da mesma”. (tradução livre) LUIS LEGAZ Y LACAMBRA apud COSSIO, CARLOS. La Teoria Egológica del Derecho y El Concepto Jurídico de Libertad.

p. 295. Losadas, Buenos Aires.

3 Ibidem, p. 300-328.

4 BEZERRA, Paulo Cesar Santos. Acesso à Justiça, Um problema ético-social no plano da realização do direito.

Renovar. 2. ed. 2008. p. 14.

5 HAYEK, Friedrich A. Os Fundamentos da Liberdade. Visão, 1983. Disponível em:

<http://www.libertarianismo.org/livros/fahofdl.pdf> Acessado em: 19/11/2013.

6 BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. Trad. Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.

— 7ª reimpressão.

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“O homem é responsável, porque livre. Sua dimensão é axiológica. Tire-se-lhe a liberdade, e perderá ele toda sua essência, desumanizando-se”9, leciona Arnaldo Vasconcelos, ao tratar do pensamento de Rudolf Stammler.

O direito não é, pois, meramente um conjunto de regras eficazes por via da sanção. É muito mais do que isso. É um conjunto de regras razoáveis da conduta humana que podem ser cumpridas voluntariamente ou descumpridas com submissão às sanções.10

Não restam dúvidas quanto à necessária relação entre Direito, Conduta Humana e Liberdade, visto que um pressupõe o outro. E esse posicionamento já se vê consolidado no meio jurídico. Assumir o contrário implicaria em admitir a possibilidade de legislar sobre a proibição de eventos da natureza ou sobre a tipificação de comportamentos de animais.

2.1 Liberdade e Consciência

Um pouco mais complexa é a relação entre liberdade e consciência. O Direito refere-se às condutas humanas (ou mesmo se confunde com estas). Um conceito bastante preciso de conduta seria o trazido por Fernando Capez, para quem, “conduta é a ação ou omissão humana, consciente e voluntária, dirigida a uma finalidade”11. No entanto, a consciência, nesse conceito, seria apenas a noção naturalística de causa e efeito alcançada pela experiência humana, pouco contemplando a noção das repercussões sociais ou jurídica das ações humanas. Essa concepção, no entanto, ao tratar de “vontade”, refere-se à liberdade e capacidade de que dispõe o homem para determinar suas ações racionalmente, excluindo do conceito de conduta humana as ações involuntárias.

À primeira vista, poderia se dizer que Capez12 trata do tema de maneira condizente com a teoria kantiana, segundo a qual, liberdade é pressuposto da noção de

8 KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes, Tradução de Antônio Pinto de Carvalho,

Companhia Editora Nacional. Disponível em:

<http://www.xr.pro.br/IF/KANT-Fundamentacao_da_Metafisica_dos_Costumes.pdf>. Acesso em: 30 de outubro de 2013.

9 VASCONCELOS, Arnaldo.

Teoria da Norma Jurídica. 5. ed. Malheiros, 2000. p. 96.

10 BEZERRA, Paulo Cesar Santos. Acesso à Justiça, Um problema ético-social no plano da realização do direito. Renovar. 2. ed. 2008. p. 115.

11 CAPEZ, Fernando. Curso de direito penal,volume 1:parte geral. 10. ed. São Paulo: Saraiva, 2006. p. 114. 12 Capez volta a tratar da teoria da conduta na esfera penal e estabelece que essa consciência que deve apresentar

(15)

moralidade e da consciência da causalidade das ações humanas, além de ser traço essencial dos seres dotados de razão e de vontade.

Em fim de contas, reduzimos o conceito determinado da moralidade à idéia da liberdade; contudo, não foi possível demonstrar esta como sendo algo de real em nós e na natureza humana. Limitamo-nos a verificar que devemos supô-la, se queremos conceber um ser como racional e dotado da consciência de sua causalidade relativamente às suas ações, ou seja, como dotado de vontade; e assim encontramos que, precisamente pelo mesmo motivo, devemos atribuir a todo ser dotado de razão e de vontade esta faculdade de determinar-se a agir sob a idéia de sua liberdade.13

Portanto, assumir que o Direito remete à liberdade humana implica em somente admitir sua validade em face da conduta humana, que é ação voluntária e consciente. Todo direito retira sua validade da razão e da vontade, principalmente da primeira, pois a vontade sem razão é puro arbítrio.14

No entanto, o conceito de consciência15 restrito à noção de previsibilidade das consequências naturalísticas das ações humanas não nos parece razoável. O homem é um ser social e o Direito uma ciência social. “Conduta em interferência intersubjetiva”, segundo Cossio. Na mesma esteira, Miguel Reale expõe:

Daí a sempre nova lição de um antigo brocardo: ubi societas, ibi jus (onde está a

sociedade está o Direito). A recíproca também é verdadeira: ubi jus, ibi societas, não

se podendo conceber qualquer atividade social desprovida de forma e garantia jurídicas, nem qualquer regra jurídica que não se refira à sociedade.

O Direito é, por conseguinte, um fato ou fenômeno social; não existe senão na

sociedade e não pode ser concebido fora dela. Uma das características da realidade jurídica é, como se vê, a sua socialidade, a sua qualidade de ser social.16

Se o Direito só pode ser concebido na sociedade e a sociedade só poder concebida com o Direito, como se poderia idealizar liberdade e consciência humana ante o Direito sem compreendê-las socialmente, ou juridicamente? É redução desnaturadora definir essa consciência somente como consciência naturalística. A conduta humana consciente, percebida como fenômeno social, deve contemplar a compreensão de suas consequências naturais, sociais e jurídicas, não sendo suficiente apenas a primeira.

13KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes, Tradução de Antônio Pinto de Carvalho,

Companhia Editora Nacional. p. 41. Disponível em: <http://www.xr.pro.br/IF/KANT-Fundamentacao_da_Metafisica_dos_Costumes.pdf>. Acesso em: 30 de outubro de 2013.

14BEZERRA, Paulo Cesar Santos. Acesso à Justiça, Um problema ético-social no plano da realização do direito. Renovar. 2. ed. 2008. p. 115.

15 Há razoável confusão conceitual entre os termos “consciência” e “razão” na filosofia. Até porque, uma

interfere na outra, sendo difícil separar onde uma começa e a outra termina. Razão - A faculdade de raciocinar, compreender, ponderar, ajuizar, etc.

Consciência Moral - O reconhecimento do caráter moral (bom ou mau) de algumas das nossas ações.(<www.defnarede.com> acessado em: 19/11/2013). Não nos deteremos mais nessa distinção.

(16)

A própria condição de ser social compele o homem a ter uma formação mínima, que contemple a compreensão de valores morais e sociais, bem como de noções básicas de direitos e de deveres, princípios de justiça, regras de convivência e de ética.17

A consciência moral, por si só, não se mostra suficiente para fundamentar a liberdade humana. É necessário desenvolver uma consciência ética nos membros de uma sociedade. Consciência moral diz respeito à compreensão do caráter bom ou mau de uma ação. A consciência ética diz respeito à reflexão critica acerca das regras de conduta (regras morais e jurídicas). As regras morais têm caráter interno e pessoal, as éticas pretendem a universalidade.

Paulo Freire, assenta:

Na medida em que o homem perde a capacidade de optar e vai sendo submetido a prescrições alheias que o minimizam e as suas decisões já não são suas, porque resultadas de comandos estranhos, já não se integra. Acomoda-se. Ajusta-se. O

homem integrado é o homem Sujeito. [...]

Os contatos, por outro lado, modo de ser próprio da esfera animal, implicam, ao contrário das relações, em respostas singulares, reflexas e não reflexivas e culturalmente inconsequentes. Deles resulta a acomodação, não a integração. Portanto, enquanto o animal é essencialmente um ser da acomodação e do ajustamento, o homem o é da integração.18

Sua concepção de homem livre e consciente contempla a consciência cultural e social crítica e a liberdade dela advinda. Assim, escolhas humanas são aquelas que os sujeitos fazem com essa consciência. Se não houver essa consciência, Paulo Freire considera que a escolha não foi feita pelo sujeito, mas por outrem.

Traçando análise similar pelo viés Egológico, percebe-se que se a norma é um juízo disjuntivo, ou seja, se ela estabelece possibilidades ao indivíduo, contemplando assim sua liberdade, só se poderia assumir que uma dada conduta humana tenha se dado de maneira livre se o indivíduo conhecia essas possibilidades, essas opções. Ora, se essas alternativas estão justamente discriminadas nas normas jurídicas, logicamente, o desconhecimento delas malfere a consciência e a liberdade do agente.

Não é possível dizer que um indivíduo escolheu livremente uma dada opção “A”, se ele não sabia da existência da alternativa “B”. Para ele, a opção “A”, na verdade, não era alternativa, pois se lhe apresentava única. Se uma prova de concurso público suprimisse uma das alternativas de uma questão, na cópia de alguns candidatos, essa questão seria anulada

17 CARDOSO, Roberta Teles. O Direito à Educação, a Qualidade do Ensino Jurídico e o Acesso à Justiça.

Dissertação de Mestrado. Fortaleza. UFC. 2007. p. 40.

(17)

para todos. Assim é com a norma disjuntiva, se um número considerável de pessoas for privado do acesso ao seu conteúdo, poderia ser questionada sua validade.

Ao tratar desse assunto, Bezerra explicando o raciocínio de Sartre, expõe:

Se a norma representa uma orientação para uma determinada conduta, e mesmo aqueles que resolvem descumpri-la, entendem que a norma deveria ser observada, a norma representa minha ‘possibilidade na medida que sou sujeito passivo da norma e a norma, qualquer que seja seu conteúdo, em determinado momento me interessa e representa a minha possibilidade de me mostrar como sujeito. Nesse diapasão a liberdade ficará aprisionada e se nadificará, se a força da norma for tal que negue essa minha possibilidade’19

Do exposto, a norma só poderia ter validade, quando efetivamente desse conhecimento ao indivíduo a ela sujeito, de suas possibilidades. Negar esse conhecimento implicaria em coisificar o homem, ou “nadificar” sua liberdade, para usar a terminologia de Sartre. Pois é diante da norma, no momento de escolher por qual caminho seguir, que o indivíduo se mostrará sujeito, independente da escolha que fizer, desde que a faça por si mesmo, conscientemente.

Partindo desse ponto de vista, parece aceitável que as pessoas estejam obrigadas a cumprir regras que eventualmente desconheçam? O art. 3º da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro traz uma resposta para essa pergunta.

2.2 Artigo 3º da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro20

Prescreve o art. 3º da LINDB: “ninguém se escusa de cumprir a lei, alegando que não a conhece”. Essa premissa, pela qual os juristas muitas vezes passam sem se deter, merece aqui ser revisitada, e questionada.

Arnaldo Vasconcelos, tratando sobre a obrigatoriedade da norma jurídica, leciona:

Há, preliminarmente, a obrigação de adotar a norma. Depois, a de satisfazer-lhe as disposições, seguindo-se o modelo de conduta nela previsto. O afastamento da primeira obrigação não poderia, jamais, importar a dispensa da segunda. Por isso, os ordenamentos jurídicos modernos incluem, entre seus termos definitórios, especificações no sentido de que nem a ignorância, nem a errada compreensão da lei escusam seu cumprimento (Lei de Introdução ao Código Civil, artigo 3º, e Código Penal, artigo 16). A disputa se reduz, assim, à obrigatoriedade de satisfazer o preceito normativo. 21

19 SARTRE, Jean-Paul:

Determinação e Liberdade. In: “Moral e Sociedade”. Coletânea de textos de diversos

autores. SP: Ed. Paz e Terra, 1982, p 31-46. apud BEZERRA, Paulo Cesar Santos. Acesso à Justiça, Um problema ético-social no plano da realização do direito. Renovar. 2. ed. 2008. p. 14-15.

20 BRASIL.Decreto-Lei nº 4.657, de 4de setembro de 1942.Anteriormente denominada Lei de Introdução ao

Código Civil.

(18)

Esse argumento é de estranheza evidente. É ilógico afastar a obrigação de adotar uma norma e, ao mesmo tempo, esperar que a obrigação contida nela seja observada, a menos que se considere que essa observação se dê de maneira acidental. Sob uma concepção imperativa de norma, pode-se imaginar essa situação como a exigência do cumprimento de uma norma que se manifestou através de um sussurro quase inaudível do legislador. Aqueles que não puderam escutar serão penalizados porque o legislador não se fez ouvir, ou seja, a falta foi do emissor do comando, mas quem sofre a penalidade é o receptor. Nem é necessário consignar o quanto isso soa injusto.

Parece absurdo então conceber a possibilidade de que todas as normas jurídicas em vigor no País estejam sendo observadas de maneira acidental. No entanto, à luz da disposição legal em exame, a natureza acidental ou intencional desse cumprimento ou descumprimento parece irrelevante.

De fato, os ordenamentos modernos adotam premissas similares, no entanto, a prática nos revela que essa disposição é uma deturpação do que ocorre em países do primeiro mundo. Neles, há ampla divulgação dos direitos e deveres constitucionais e as crianças têm, na escola, os primeiros contatos com a constituição nacional.

No Brasil, por outro lado, a taxa nacional de analfabetismo é de 8,7% e esse índice chega a 17,4%, na região Nordeste, segundo Pnad 2012/ IBGE22.

Roberta Cardoso critica essa deficiência educacional e explica sucintamente a relação entre a educação e a compreensão do cenário social (onde poder-se-ia inserir a compreensão jurídica dos fenômenos sociais)

O homem, como um ser cultural, precisa da educação para compreender melhor as coisas e os fatos sobrevindos do cenário social. O acesso efetivo à educação é condição de cidadania e é condição de vida – vida em sentido amplo.23

No Brasil, o compromisso com o acesso ao conteúdo normativo produzido pelo governo se resume à publicação de suas leis, nos Diários Oficiais. No entanto, é uma ingenuidade comum no universo jurídico acreditar que a mera publicação dessas leis será

Redação anterior do Código Penal: Ignorância ou erro de direito

Art. 16. A ignorância ou a errada compreensão da lei não eximem de pena. Dispositivo correspondente, com redação dada pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984: Erro sobre a ilicitude do fato

Art. 21 - O desconhecimento da lei é inescusável. O erro sobre a ilicitude do fato, se inevitável, isenta de pena; se evitável, poderá diminuí-la de um sexto a um terço.

Parágrafo único - Considera-se evitável o erro se o agente atua ou se omite sem a consciência da ilicitude do fato, quando lhe era possível, nas circunstâncias, ter ou atingir essa consciência.

22 G1, 27/09/2013. Índice de analfabetismo para de cair e fica em 8,7%, diz Pnad. 23 CARDOSO, Roberta Teles.

O Direito à Educação, a Qualidade do Ensino Jurídico e o Acesso à Justiça.

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suficiente para que toda a sociedade as apreenda. Porém, “muitas leis são totalmente ignoradas pelos cidadãos, algumas se contradizem entre si, cuja vigência se ignora, outras perdem eficácia, outras se desconhecem, outras são modificadas, todas elas criando um sistema difícil de interpretar. ”24 A mera publicação das leis não basta para garantir os direitos dos indivíduos, não basta sequer para garantir que serão lidas ou compreendidas.

Paulo Bezerra comenta que o princípio segundo o qual o direito se presume conhecido é uma falácia.25 Dentre as razões que nos levariam a partilhar dessa posição, pode-se mencionar, em consonância com Dinamarco26, o final do artigo 285 do CPC:

Art. 285. [...]; do mandado constará que, não sendo contestada a ação, se presumirão aceitos pelo réu, como verdadeiros, os fatos articulados pelo autor.

Não há qualquer dúvida de que o réu não sofre o efeito da revelia se não tiver sido previamente advertido da consequência da falta de contestação no prazo, no entanto essa consequência está prevista em lei. Se a presunção do artigo 3º da LINDB fosse tão certa assim, como explicar o disposto no fragmento legal acima?

Art. 337. A parte, que alegar direito municipal, estadual, estrangeiro ou consuetudinário, provar-lhe-á o teor e a vigência, se assim o determinar o juiz.

Novamente se esvazia a presunção em estudo, segundo o artigo 337, do CPC, nem o Juiz é obrigado a conhecer o direito estadual ou municipal27.

Do exposto, embora excepcionalmente, são encontrados casos em que a presunção de conhecimento da lei pode ser mitigada. Isso não ocorre só em matéria processual. No âmbito do Direito Penal, admite-se não apenas a redução de pena pelo desconhecimento da lei28 como também a exclusão da culpabilidade, e a consequente isenção de pena, em razão de erro sobre a ilicitude do fato, que se relaciona à má compreensão do caráter injusto (ilícito, anti-social, inadequado, anormal, errado) do fato29.

Dinamarco demanda pela constante possibilidade de ampla certeza, quanto ao Direito. “Jura novit curia30 e para todos (não só para o juiz) a ordem jurídica cria o ônus do

24 BEZERRA, Paulo Cesar Santos. Acesso à Justiça, Um problema ético-social no plano da realização do direito. Renovar. 2. ed. 2008. p. 96.

25 Ibidem, p. 97.

26 DINAMARCO, Cândido Rangel. A Instrumentalidade do Processo. São Paulo. 3. Ed. Malheiros. 1993. p.

239-240.

27 PONTES DE MIRANDA, Francisco:

Comentários ao CPC, RJ: Ed. Forense, 1999, Tomo IV, p. 283. Apud

BEZERRA, Paulo Cesar Santos. Acesso à Justiça, Um problema ético-social no plano da realização do direito.

Renovar. 2. ed. 2008. p. 97.

28 Código Penal: Art. 65 - São circunstâncias que sempre atenuam a pena: II - o desconhecimento da lei; 29 Artigo 21 do Código Penal, retro transcrito. Vide nota 8.

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conhecimento integral da lei”. Porém, além dos fatores mencionados acima que tornam inaplicável a presunção de conhecimento da lei, existem outros que impedem a compreensão segura acerca da norma. “A lei escrita dá parâmetros e limita as possíveis dúvidas, mas nem assim estas ficam definitivamente afastadas.31

Bezerra32 e Dinamarco concordam, então, que a interpretação tem função proeminente, nesse cenário, daí por que não basta conhecer as leis, torna-se necessário compreendê-las criticamente, sendo insuficiente a mera doutrinação dos indivíduos com base no brocardo dura Lex sed lex. Por isso, a educação deve dar ênfase aos aspectos linguísticos e interpretativos, não basta “dar o peixe” (o conteúdo normativo), é preciso ensinar e instigar a “pescar” (a apreender esse conteúdo, destrinchá-lo).

Também merece crítica a pretensão de resolver a questão da validade do Direito com a mera positivação de que ele é válido, seria o equivalente a dizer que o céu é azul por que a lei diz que é, quando, na verdade, alguns fenômenos não decorrem da vontade humana, mas são inerentes à natureza das coisas. Exemplo disso é a presunção do artigo 3º da LINDB, que decorre naturalmente do Direito.

Apesar de todas as críticas tecidas, a regra do artigo 3º da LINDB merece prevalecer, mas o real argumento que justifica a validade dessa disposição não decorre de sua positivação, mas do fato de que o Direito seria inútil se fosse aplicável apenas a quem conhece as leis.

A norma em tela estabelece, na verdade, um princípio segundo o qual as pessoas são obrigadas a conhecer as leis, pois ninguém poderá alegar seu desconhecimento como desculpa para descumpri-las. Esse é um princípio geral do Direito, portanto, seria aplicado mesmo que não estivesse positivado.

Obviamente, esse princípio é pura ficção jurídica. No Brasil, existem cerca de 180 mil leis, dentre as quais, 53 mil estão em vigor, nos níveis Federal, Estadual e Municipal33. É claro que nem o jurista mais dedicado poderia conhecer todas essas leis, ainda mais considerando que, diariamente, novos textos legais são publicados nos três níveis de governo. A presunção insculpida no art. 3º da LINDB existe para garantir um mínimo de estabilidade social. Se fosse aceitável o fato de alguém desrespeitar uma lei porque não a conhecia, o reino do caos se instalaria. Todos iriam alegar o desconhecimento legal para fazer

31DINAMARCO, Cândido Rangel.

A Instrumentalidade do Processo. São Paulo. 3. Ed. Malheiros. 1993. p.

239-240.

32BEZERRA, Paulo Cesar Santos. Acesso à Justiça, Um problema ético-social no plano da realização do direito. Renovar. 2. ed. 2008. p. 96.

33 Diário do Nordeste, Brasil tem 53 mil leis em vigor. 14.07.2008. Disponível em:

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o que quisesse sem que a lei lhe fosse oposta. Afinal, não há como provar que alguém conhece uma lei ou não34.

No caso dessa regra ser afastada, estar-se-ia partindo para o caminho diametralmente oposto do que é defendido nesse trabalho, seria privilegiado quem não tem o menor interesse pelas leis do País e podes-se dizer até que haveria um estimulo à ignorância legal. Afinal, mesmo que fosse possível provar que alguém conhece uma lei, se o sujeito não conhecesse lei nenhuma, não teria que cumpri-las.

Todo cidadão tem a obrigação de tentar conhecer todas as leis do País. Logicamente não será possível, mas algumas, as principais, as que regulam a vida de cada um de maneira mais direta e diária, essas acabarão sendo conhecidas. Quem mantém um contato mais próximo com o universo jurídico, poderá se valer dos princípios e da lógica jurídica para inferir aproximadamente as demais normas. O cidadão comum terá de se valer do bom senso, das informações da mídia e do que eventualmente tenha aprendido na vida e torcer para não fazer nada errado.

Portanto, o dispositivo legal em apreço não pode ser afastado, ou estaria em xeque a própria validade do Direito, e mesmo que fosse afastado, a regra estaria implícita no ordenamento, porquanto seja princípio geral do Direito. Se a regra existe para dar segurança e aplicabilidade ao Direito, a mera transferência da responsabilidade de conhecer as leis para o cidadão a elas sujeito é, para o Estado, a atitude mais fácil ou a mais “preguiçosa”, mas não significa que seja a melhor ou a única.

Deve ser ressaltado, então, o dever estatal de lhe dar efetividade, visto que o Estado é o maior interessado na difusão de sua produção normativa, afinal, ao editar normas, tem o objetivo de que os cidadãos as cumpram.

O poder público dispõe de diversas possibilidades para tornar essa ficção jurídica um pouco menos fictícia e não estaria autorizado, pela Constituição Federal, a se contentar com apenas uma.

2.3 Controle Social

Na seara do “Controle Social” está a concentração de esforço e vigilância constante que a sociedade exerce sobre o comportamento de seus integrantes a fim de

34 LOPES, Alberto. Ninguém se escusa de cumprir a lei, alegando que não a conhece. Disponível em:

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uniformizá-la e adaptá-la aos padrões considerados indispensáveis à manutenção do corpo social.35

Controle Social pode ser definido como o conjunto organizado de instrumentos por meio do qual a sociedade harmoniza as condutas de seus membros aos padrões aceitos.36

Paulo Cesar Bezerra aponta como finalidade do controle social, a ordem social, a proteção social e a eficiência social.37 E enfatiza a função educativa do Direito:

Sem dúvida uma função do direito que, se nem sempre é identificada, mas sempre acompanhará a regulação da sociedade pelo direito, é a sua função educativa. São regras de direito que ajustam os indivíduos.38

Há, portanto, uma estreita relação entre a proeminente função de controle social exercida pelo Direito e sua função educativa. Logo, esse controle será tanto mais eficiente quanto mais amplo seja difundido o conteúdo normativo, uma vez que atingiria um número maior de membros. É do interesse de todo o agregado social promover o acesso a esse conteúdo normativo.

Quanto mais cedo se conhece os direitos e os deveres, melhor se torna a sociedade. Não é necessário aguardar o ensino superior para se tornar um cidadão, formador de idéias e conhecedor de seus direitos e obrigações.39

Por fim, uma sociedade mais harmônica é fruto de um controle social mais eficiente e este seria mais acentuado com uma educação institucionalizada voltada para a vida em sociedade e para as regras de convivência (estudadas de modo crítico).

O controle social defendido aqui, não se trata, porém, da ingerência em padrões de comportamento unilateralmente imposta pelo Estado. Parti-se justamente da ideia moderna e democrática de Estado, segundo a qual, este é composto pela congregação dos indivíduos.

A evolução do Direito conduziu à superação da concepção de Estado como um “Leviatã”, que subjuga todos ao seu império. Atualmente vigora um modelo participativo de governo e gestão pública. Defende-se, cada vez mais, uma administração transparente da máquina pública e os fundamentos do Estado remetem, segundo o texto constitucional brasileiro, à soberania popular e à democracia (poder do povo).

35ARON, Raymond.

As etapas do pensamento sociológico. Ed. Martins Fontes, 1997, p. 5.

36KOENING, Samuel. Elementos de sociologia. Trad. Vera Borda. RJ: Ed. Forense, 1970, p. 83. Apud

BEZERRA, Paulo Cesar Santos. Acesso à Justiça, Um problema ético-social no plano da realização do direito. Renovar. 2. ed. 2008. p. 49.

37BEZERRA, Paulo Cesar Santos.

Acesso à Justiça, Um problema ético-social no plano da realização do direito. Renovar. 2. ed. 2008. p. 50.

38Ibidem, p. 52.

39 RIBEIRO, Welves Konder Almeida. Eficácia dos mandamentos constitucionais para a formação da

cidadania. Disponível em:

(23)

Por tanto, pode-se dizer que o poder de controlar a sociedade, emana dela própria. E o que é a sociedade senão um agregado de indivíduos?

Por esse motivo é que as leis e o controle social não podem ficar sob monopólio dos operadores do Direito, todo cidadão deve estar munido do conhecimento necessário para influir na produção normativa40, visto que será diretamente afetado por ela.

Todo aquele que vive no contexto regulado por uma norma e que vive com este contexto é, indireta ou, até mesmo diretamente, intérprete dessa norma. O destinatário da norma é participante ativo, muito mais ativo do que se pode supor tradicionalmente, do processo hermenêutico. Como não são apenas os intérpretes jurídicos da Constituição que vivem a norma, não detêm eles o monopólio da interpretação da constituição.41

Pode-se dizer que, num sentido filosófico, a teoria hermenêutica de Häberle baseia-se na ideia de que toda e qualquer pessoa que leia livremente a Constituição acaba sendo co-intérprete do texto. Como resultado, no contexto de um Estado de direito, que se pretende democrático e social, como no Brasil, mostra-se indispensável que a leitura da Constituição seja promovida como um hábito cotidiano, de qualquer pessoa, como ditam os princípios republicanos (da coisa pública), não apenas pelos letrados em Direito porque, os direitos e deveres de todos os membros da sociedade se fundamentam direta ou indiretamente, no Texto Magno. Assim, uma vez que todos são afetados pelas leis, então todos podem e devem influir interpretação que elas receberão.

40 A norma não nasce com a positivação do texto legal, mas com sua interpretação.

41HÄBERLE, Peter. Hermenêutica Constitucional – a Sociedade Aberta dos Intérpretes da Constituição: Contribuição para a Interpretação Pluralista e Procedimental da Constituição.Tradução de Gilmar Ferreira

(24)

3 DIREITOS CONSTITUCIONAIS AO ACESSO À JUSTIÇA E À EDUCAÇÃO

O direito ao efetivo Acesso à justiça tem sido progressivamente reconhecido como sendo de importância capital entre os novos direitos individuais e sociais, revelando assim, dimensão elástica, uma vez que a titularidade de direitos é destituída de sentido, na ausência de mecanismos para sua efetiva reivindicação.42

A educação é um direito social positivado como tal no artigo 6º da Constituição Federal de 1988. Nessa condição, pertence à segunda dimensão dos direitos fundamentais.43

O acesso à justiça, mesmo no seu conceito mais limitado, reclama medidas urgentes para sua eficácia, e estes reclamos passam, necessariamente, pela educação e pelo ensino jurídico de qualidade. 44

O raciocínio acima reflete bem o que será buscado nesse capítulo, que é a relação do efetivo acesso à justiça com as disposições constitucionais e legais que o amparam no âmbito educacional. Para tanto não parece adequado se ater à teoria geral ou filosofia do Direito, adentrar-se-á, então, na discussão do aspecto técnico-jurídico que cerca o assunto.

3.1 Acesso à Justiça

O acesso à justiça é direito fundamental que tem embasamento na própria existência do Estado. Não está positivado em um dispositivo próprio, mas permeia todo o sistema jurídico brasileiro. Ele decorre do monopólio que detém o Estado para solucionar conflitos (mesmo a arbitragem e a conciliação extrajudicial só são formas válidas de solução de litígio enquanto chanceladas pelo Estado) e para usar a força física (ressalvadas as exceções conhecidas, as excludentes de ilicitude penal, a manutenção imediata da posse45 etc).

O acesso à justiça, compreendido em uma acepção formal, refere-se ao direito que todo cidadão tem de buscar amparo do Estado para a solução de seus litígios. Diz-se formal quando a todos, indiferentemente, são opostos os mesmos requisitos legais para seu gozo. Já o efetivo acesso à justiça, ou acesso material à justiça, segundo Cappelletti e Garth, “poderia ser expresso como a completa ‘igualdade de armas’ — a garantia de que a condução final

42CAPPELLETTI, Mauro; GARTH, Bryant. Acesso à justiça. Trad. Ellen Gracie Northfleet. Porto Alegre:

Sérgio Antônio Fabris Editor, 2002. (e-book) p. 7-8

43CARDOSO, Roberta Teles.

O Direito à Educação, a Qualidade do Ensino Jurídico e o Acesso à Justiça.

Dissertação de Mestrado. Fortaleza. UFC. 2007. p. 30-31.

44Ibidem, p. 39.

45§ 1º do art. 1.210 do Código Civil de 2002: O possuidor turbado, ou esbulhado, poderá manter-se ou restituir-se

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depende apenas dos méritos jurídicos relativos das partes antagônicas, sem relação com diferenças que sejam estranhas ao Direito e que, no entanto, afetam a afirmação e reivindicação dos direitos.”46

Roberta Cardoso adverte sobre o equivoco metodológico de compreender acesso à Justiça como equivalente ao acesso ao Judiciário nos dias de hoje. Essa noção restringe um gênero conceitual a apenas uma de suas espécies. De fato, acesso à Justiça refere-se à garantia de acesso ao Poder Judiciário, mas não se resume a isso. O ideal de acesso à Justiça representa conceito mais abrangente, que envolve solução de disputas, estatal ou não, e assessoria jurídica expressa por educação jurídica e consultoria.47

Os Estados sociais modernos têm proclamado diversos direitos novos aos seus cidadãos, ampliando assim sua tutela sobre o agregado social. Ao mesmo tempo, fez-se necessário superar a noção liberal de Estado inerte. Não é suficiente para a garantia dos direitos concedidos pelo Estado, que este adote uma postura negativa, consistente em eximir-se de lesionar os direitos proclamados e sancionar quem os lesione.

Tornou-se lugar comum observar que a atuação positiva do Estado é necessária para assegurar o gozo de todos esses direitos sociais básicos. Não é surpreendente, portanto, que o direito ao acesso efetivo à justiça tenha ganho particular atenção na medida em que as reformas do welfarestate têm procurado armar os indivíduos de novos direitos substantivos em sua qualidade de consumidores, locatários, empregados e, mesmo, cidadãos. [...] O acesso à justiça pode, portanto, ser encarado como o requisito fundamental — o mais básico dos direitos humanos — de um sistema jurídico moderno e igualitário que pretenda garantir, e não apenas proclamar os direitos de todos.48

Nessa esteira, não se pode admitir que o governo pretenda garantir o acesso à justiça meramente se comprometendo a não violá-lo. Se fosse o caso, a garantia do acesso à justiça seria meramente formal, consequentemente, a igualdade promovida por esse corolário seria formal também. No entanto, é objetivo do Estado Brasileiro reduzir as desigualdades regionais e sociais. Ademais, a isonomia, referida no I do artigo 5º da Lei Básica, significa

46CAPPELLETTI, Mauro; GARTH, Bryant. Acesso à justiça. Trad. Ellen Gracie Northfleet. Porto Alegre:

Sérgio Antônio Fabris Editor, 2002. (e-book). p. 10.

47CARDOSO, Roberta Teles.

O Direito à Educação, a Qualidade do Ensino Jurídico e o acesso à Justiça.

Dissertação de Mestrado. Fortaleza. UFC. 2007. p. 35.Comentando pensamento de: XAVIER, Beatriz Rêgo. Um novo conceito de acesso à justiça: propostas para uma melhor efetivação de direitos. Pensar. Revista do Curso

de Direito da Universidade de Fortaleza, Fortaleza, v. 7, n. 7, p. 57-66, fev. 2002. p. 58.

48CAPPELLETTI, Mauro; GARTH, Bryant.

Acesso à justiça. Trad. Ellen Gracie Northfleet. Porto Alegre:

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tratar desigualmente os desiguais, na medida de sua desigualdade 49. Portanto, pode-se dizer que a igualdade buscada é a material, não apenas a formal.50

Assim, compreende-se que o anseio é de que o governo garanta o efetivo acesso à justiça, não só o acesso formal. Mas garantir a perfeita “igualdade de armas”, naturalmente, é utopia. É impossível erradicar completamente as diferenças entre as partes:

A questão é saber até onde avançar na direção do objetivo utópico e a que custo. Em outras palavras, quantos dos obstáculos ao acesso efetivo à justiça podem e devem ser atacados? A identificação desses obstáculos, consequentemente, é a primeira tarefa a ser cumprida.51

Cappelletti e Garth mencionam alguns empecilhos para se garantir o efetivo acesso à justiça, dentre os quais há questões financeiras, sociais, psicológicas, políticas e processuais. Para a solução de algumas dessas questões, o autor indica a ampliação do ponto de vista dos processualistas, a fim de albergar métodos de análise da sociologia, da política, da psicologia e da economia, tendo como ponto central, a busca pelo efetivo acesso à justiça. Visto que os problemas apontados são multidisciplinares, as soluções, necessariamente, também serão.52

Muitos problemas de acesso são inter-relacionados, e as mudanças tendentes a melhorar o acesso por um lado podem exacerbar barreiras por outro. Por exemplo, uma tentativa de reduzir custos é simplesmente eliminar a representação por advogado em certos procedimentos. Com certeza, no entanto, uma vez que litigantes de baixo nível econômico e educacional provavelmente não terão a capacidade de apresentar seus próprios casos, de modo eficiente, eles serão mais prejudicados que beneficiados por tal “reforma”. Sem alguns fatores de compensação, tais como um juiz muito ativo ou outras formas de assistência jurídica, os autores indigentes poderiam agora intentar uma demanda, mas lhes faltaria uma espécie de auxilio que lhes pode ser essencial para que sejam bem sucedidos. Um estudo sério do acesso à Justiça não pode negligenciar o interrelacionamento entre as barreiras existentes.53

Algumas reformas tendentes a ampliar o acesso à justiça, para os mais necessitados, consistiram na promoção do princípio da “oralidade”, o qual engloba a “livre apreciação da prova”, a “concentração” do procedimento e o contato direto dos juízes com as

49 PAULO, Vicente; ALEXANDRINO, Marcelo.

Direito Constitucional Descomplicado. 5. ed. p. 115.

50“A justiça, como outros bens; no sistema do

laissez faire só podia ser obtida por aqueles que pudessem arcar

com seus custos; aqueles que não pudessem fazê-lo eram condenados responsáveis por sua sorte o acesso formal, mas não efetivo justiça, correspondia à igualdade, apenas formal, não material.” (CAPPELLETTI, Mauro; GARTH, Bryant. Acesso à justiça. Trad. Ellen Gracie Northfleet. Porto Alegre: Sérgio Antônio Fabris Editor,

2002. (e-book) p. 7.)

51CAPPELLETTI, Mauro; GARTH, Bryant. Acesso à justiça. Trad. Ellen Gracie Northfleet. Porto Alegre:

Sérgio Antônio Fabris Editor, 2002. (e-book). p. 10.

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partes e as provas entre outros. Essas reformas podem contribuir para tornar o processo mais simples, rápido e barato.54

Exemplo desse tipo de reforma é a superação do entendimento clássico de que o Juiz deveria se manter imparcial. Outra noção, atualmente aceita (e adotada no Brasil, em especial, na Justiça do Trabalho, na qual vigora o princípio da proteção do trabalhador) para a promoção de resultados mais justos, é a utilização de um juiz mais ativo. Isso pode se revelar benéfico, num sistema de justiça contraditório, uma vez que ele maximiza as possibilidades de que o resultado seja justo e não reflita apenas as desigualdades entre as partes.55

Não obstante as reflexões proporcionadas por essa abordagem poderem revelar algumas vantagens que podem ser obtidas através de uma ou de outra medida, é importante assinalar que, na busca pelo efetivo acesso à justiça e a promoção de sentenças mais justas, pode ser necessário uma ampla variedade de reformas, “incluindo alterações nas formas de procedimento, mudanças na estrutura dos tribunais ou a criação de novos tribunais, o uso de pessoas leigas ou paraprofissionais, tanto como juízes quanto como defensores, modificações no direito substantivo destinadas a evitar litígios ou facilitar sua solução e a utilização de mecanismos privados ou informais de solução dos litígios.” De fato, não se pode esperar por uma solução mágica que neutralize a influencia da desigualdade das partes no processo. Mas é preciso ser audacioso e não temer inovações radicais que extrapolem a discussão processual.56

Dentre as questões apontadas, por Cappelletti e Garth, que dificultam a perfeita igualdade de armas, merecem destaque as diferentes “capacidades jurídicas” pessoais, que se relacionam às vantagens econômicas e diferenças educacionais das partes.

Por esse prisma, pode-se dizer que diversos obstáculos se apresentam aos indivíduos antes mesmo do processo começar. Logo, para que um direito possa ser efetivamente reivindicado através do aparelho judiciário, inúmeros barreiras precisam ser transpostas.

Muitas (senão a maior parte) das pessoas comuns não podem — ou, ao menos, não conseguem — superar essas barreiras na maioria dos tipos de processos.

Num primeiro nível está a questão de reconhecer a existência de direito juridicamente exigível. Essa barreira fundamental é especialmente séria para os despossuídos, mas não afeta apenas os pobres. Ela diz respeito a toda a população em muitos tipos de conflitos que envolvem direitos.57

54Ibidem, p. 36.

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Inicialmente, como se vê, algumas pessoas sequer têm capacidade de reconhecer um direito, outras não podem custear mesmo uma pequena causa ou pagar um advogado e, por fim, há aquelas que não sabem utilizar o poder judiciário de modo a impor eficientemente um direito ou defendê-lo de ameaças.58

Para desfrutar o direito, é necessário que o estado propicie ao indivíduo condições de exercer a sua cidadania. Esse exercício está inteiramente ligado ao nível de conhecimento e de conscientização que o indivíduo tem dos direitos e deveres e dos organismos para efetivá-los.59

Mesmo a parcela instruída da população, não conhece a totalidade de seus direitos. Poucas pessoas sabem, por exemplo, que há situações que tornam inexigíveis as cláusulas de um contrato e que nem todos seus termos precisam ser cumpridos a qualquer custo.

Falta-lhes o conhecimento jurídico básico não apenas para fazer objeção a esses contratos, mas até mesmo para perceber que sejam passíveis de objeção. Ademais, as pessoas têm limitados conhecimentos a respeito da maneira de ajuizar uma demanda.60

Na obra, “Acesso à justiça”, os autores fazem referência a um estudo empírico inglês que concluiu:

Na medida em que o conhecimento daquilo que está disponível constitui pré-requisito da solução do problema da necessidade jurídica não atendida, é preciso fazer muito mais para aumentar o grau de conhecimento do público a respeito dos meios disponíveis e de como utilizá-los.61

Continuando a tratar do assunto, a obra menciona outro estudo, realizado em Quebeque, que definiu de forma semelhante que “Le besoin d’information est primordial et prioritaire”.62

Como se vê, a falta de acesso à educação compromete a dignidade da pessoa humana. Roberta Cardoso explica que o direito à educação, “mais que qualquer outro, é determinante dentro do conceito de cidadania, pois para gozar dos direitos civis e políticos

58 Ibidem, p. 12.

59 RIBEIRO, Welves Konder Almeida. Eficácia dos mandamentos constitucionais para a formação da cidadania. Disponível em:

<http://www.webartigos.com/artigos/eficacia-dos-mandamentos-constitucionais-para-a-formacao-da-cidadania/104443/> Acesso em: 25 mai. 2013

60 CAPPELLETTI, Mauro; GARTH, Bryant.

Acesso à justiça. Trad. Ellen Gracie Northfleet. Porto Alegre:

Sérgio Antônio Fabris Editor, 2002. (e-book). p. 12.

61Ibidem, p. 12.

62A necessidade de informação é primordial e prioritária (tradução na origem) (CAPPELLETTI, Mauro;

GARTH, Bryant. Acesso à justiça. Trad. Ellen Gracie Northfleet. Porto Alegre: Sérgio Antônio Fabris Editor,

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estabelecidos no mandamento estatal é preciso conhecê-los e o conhecimento passa, necessariamente, por discernimento e consciência.” 63

Na utilização da educação para alcançar o acesso à justiça, não é suficiente estimular a capacidade de apreensão de conhecimento de maneira dogmática, é preciso que a aprendizagem, independente do conteúdo, se dê de forma crítica e aplicada. Não basta conhecer, é preciso compreender, discernir e entender.

O problema de acesso à justiça remete a um problema de acesso às normas, um problema de sua compreensão. O mero conhecimento do conteúdo legal pode se mostrar insuficiente visto que a lei costuma incorporar uma linguagem própria do setor que regula, linguagem técnica, uma tecnolinguagem que só é compreendida por indivíduos versados nesse idioma legislativo. A norma se lança fora da órbita do cidadão, por isso é preciso aparelhá-lo para alcançar a norma e apreendê-la em meio ao texto legal ou então trazer a norma mais próxima do universo do homem comum.64

Na verdade, destituir o Direito de sua tecnicidade é uma manobra que vem progressivamente se mostrando bem sucedida. Peças jurídicas mais acessíveis é um reclame de toda a sociedade e o trato do acesso à justiça não pode se alhear disso. No entanto, certo rigor terminológico ainda é necessário para a manutenção da segurança jurídica e da precisão dos atos e documentos públicos ou de interesse público. Não é do interesse da sociedade que, por excessivo coloquialismo ou pelo uso de expressões genéricas, existam dúvidas e ambiguidades no campo jurídico.

Escolhendo entre os dois extremos, é inegavelmente preferível aprimorar o conhecimento jurídico dos indivíduos que compõe o corpo social (para que a sociedade melhore) a informalizar o Direito a ponto de vulgarizá-lo ou desnaturá-lo.

Parece claro que o conhecimento jurídico básico para o cidadão comum é fundamental para a defesa de sua dignidade. Convém estudar, então, o tratamento legal dispensado à educação, principalmente naquilo que tende a aprimorar o acesso à justiça. Ou seja, em que medida o ordenamento brasileiro prestigia o ensino jurídico para o cidadão poder reger os atos da própria vida civil, defender seus direitos e sua dignidade.

3.2 Direito Constitucional à Educação

63CARDOSO, Roberta Teles. O Direito à Educação, a Qualidade do Ensino Jurídico e o Acesso à Justiça.

Dissertação de Mestrado. Fortaleza. UFC. 2007. p. 36.

64BEZERRA, Paulo Cesar Santos.

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O artigo 6º da Constituição Federal enumera os direitos sociais por ela amparados, que são: a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância e a assistência aos desamparados. Não obstante a extrema importância de cada um dos Direitos Sociais enumerados, será feito um exame concentrado apenas do primeiro, em razão do enfoque desse estudo. Segue então o tratamento dispensado pela Carta de 88 ao Direito Fundamental à Educação.

O inciso V do artigo 23 da Lei Maior estabelece a competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios para proporcionar os meios de acesso à cultura, à educação e à ciência. Competência comum é aquela atribuída a todos os entes da Federação que a exercem igualmente, afastando a exclusão dos demais, como o próprio nome sugere. O exercício da competência comum não pode ser superposto, simultâneo, conflitivo e não pressupõe hierarquia.65 Ou seja, qualquer dos entes pode e todos devem atuar para a consecução daquele objetivo, de modo que a atuação de um não inibe a dos outros. Em conformidade com o exposto, o artigo 211, da Carta Política, institui que a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios organizarão em regime de colaboração seus sistemas de ensino.

Na verdade, o Texto Maior estabelece áreas de atuação específica de cada ente, de modo que a União organizará o sistema federal de ensino, financiará as instituições de ensino públicas federais e exercerá função redistributiva e supletiva, para reduzir as desigualdades educacionais e propiciar padrão mínimo de qualidade do ensino mediante assistência técnica e financeira aos demais entes. Os Municípios atuarão prioritariamente no ensino fundamental e na educação infantil. Os Estados e o Distrito Federal atuarão prioritariamente no ensino fundamental e médio.

Desse modo, todos os entes federais deveriam zelar pelo acesso à educação, no entanto a prática mostra que, nos pontos de contato, nas atividades limítrofes, cada ente joga a responsabilidade para os outros, se furtando de exercer suas funções constitucionalmente fixadas, isso ocorre de maneira recorrente com as atividades para as quais a Constituição estabelece competência comum, exemplo disso é o tratamento que recebe o Meio Ambiente e a Saúde.

65MIGUEL, Luciano Costa; REZENDE, Élcio Nacur. A solidariedade entre os entes públicos na responsabilização civil por danos ao meio ambiente – a juridicidade da isonomia com os particulares diante das nuanças da atividade administrativa. Cadernos de Direito, Piracicaba, v. 13. p. 41. Disponível em:

<https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=5&ved=0CFEQFjAE&url=https%3

A%2F%2Fwww.metodista.br%2Frevistas%2Frevistas-unimep%2Findex.php%2Fdireito%2Farticle%2Fdownload%2F1544%2F1132&ei=LbiSUtCPBK3IsAS19oLQB

(31)

O artigo 205 da Constituição Federal determina que a educação é direito de todos e dever do Estado e da família. Ademais, o mesmo artigo define que os objetivos que devem ser buscados pela atividade pedagógica são o pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.

Os princípios segundo os quais o ensino deve ser ministrado estão previstos no artigo 206 da Constituição de 1988, merecendo destaque o discriminado no inciso II, segundo o qual, o ensino será pautado pela liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber. Essa disposição, no entanto, deve ser entendida em consonância com o artigo 214, do mesmo diploma, que preconiza:

Art. 214. A lei estabelecerá o plano nacional de educação, de duração decenal, com o objetivo de articular o sistema nacional de educação em regime de colaboração e definir diretrizes, objetivos, metas e estratégias de implementação para assegurar a manutenção e desenvolvimento do ensino em seus diversos níveis, etapas e modalidades por meio de ações integradas dos poderes públicos das diferentes esferas federativas que conduzam a:

I - erradicação do analfabetismo;

II - universalização do atendimento escolar; III - melhoria da qualidade do ensino; IV - formação para o trabalho;

V - promoção humanística, científica e tecnológica do País.

VI - estabelecimento de meta de aplicação de recursos públicos em educação como proporção do produto interno bruto.

Pode-se observar que a liberdade que rege o ensino não é absoluta. O poder público estabelecerá, através de lei, as diretrizes, as metas e os objetivos além das estratégias de implementação articulada e integrada daqueles. Será analisado, em tópico próprio, o teor da Lei de Diretrizes e Bases da Educação.

O inciso I, do artigo 208, da Magna Carta, ao tratar do dever do Estado com a educação revela a idade considerada, pelo legislador constituinte, ideal para início e fim da educação básica66, contemplando ainda a obrigatoriedade de oferta da educação para aqueles que não tiveram acesso na idade própria.

Art. 208. O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de:

66 Educação básica - Nível da educação escolar brasileira que compreende a educação infantil, o ensino

fundamental e o ensino médio. Além da educação básica, o outro nível escolar do sistema educacional brasileiro é a educação superior.[...]

De acordo com a LDB, “a educação básica tem por finalidades desenvolver o educando, assegurar-lhe a formação comum indispensável para o exercício da cidadania e fornecer-lhe meios para progredir no trabalho e em estudos posteriores”. Além disso, “a educação básica poderá organizar-se em séries anuais, períodos semestrais, ciclos, alternância regular de períodos de estudos, grupos não-seriados, com base na idade, na competência e em outros critérios, ou por forma diversa de organização, sempre que o interesse do processo de aprendizagem assim o recomendar.” (MENEZES, EbenezerTakuno de; SANTOS, Thais Helena dos."Educação básica" (verbete). Dicionário Interativo da Educação Brasileira - EducaBrasil. São Paulo: Midiamix Editora,

(32)

I - educação básica obrigatória e gratuita dos 4 (quatro) aos 17 (dezessete) anos de idade, assegurada inclusive sua oferta gratuita para todos os que a ela não tiveram acesso na idade própria;

O parágrafo primeiro, do dispositivo supra, determina também que o acesso ao ensino obrigatório e gratuito é direito público subjetivo. Isso significa que o Estado tem a obrigação de prover essa educação gratuita e o indivíduo pode exigi-la judicialmente, cabendo ressaltar que o não oferecimento do ensino obrigatório pelo Poder Público, ou sua oferta irregular, importa responsabilidade da autoridade competente, nos dizeres do parágrafo segundo do artigo em comento.

É interessante notar que a dependência da eficácia por meio de ações estatais relegou a educação, durante certo tempo, à condição de norma programática, sujeita à reserva do possível. As políticas públicas voltadas à educação não se faziam urgentes, pois poderiam ir de encontro às políticas de dominação econômica, implementadas ao longo da história do Brasil.67

Essa situação já não é mais admissível e a previsão de responsabilização da autoridade desidiosa mencionada acima é nítido exemplo do que expõe Marcelo Guerra:

Com o expresso reconhecimento, no texto constitucional, de que as normas asseguradoras de direitos fundamentais são diretamente aplicáveis, pretendeu-se superar, em definitivo, aquela concepção, própria do Estado liberal do século XIX, segundo a qual tais normas “dependiam de lei” para serem eficazes, permitindo a chamada justiciabilidade desses direitos fundamentais. 68

O ensino é livre à iniciativa privada, desde que sejam atendidas as seguintes condições: cumprimento das normas gerais da educação nacional além de autorização e avaliação de qualidade pelo Poder Público. Desse modo, mesmo as instituições privadas de ensino se sujeitam às diretrizes mencionadas no artigo 214, devendo observar as disposições gerais determinadas pelo Estado.

É importante ressaltar, também, que o governo deve fixar os conteúdos mínimos para o ensino fundamental, de maneira a assegurar formação básica comum e respeito aos valores culturais e artísticos, nacionais e regionais. Essa disposição pode ser encontrada no artigo 210 da Lei Fundamental e será de grande relevância quando chegar o momento de tratar da base nacional comum dos currículos escolares, bastando, por hora, saber que há

67CARDOSO, Roberta Teles. O Direito à Educação, a Qualidade do Ensino Jurídico e o Acesso à Justiça.

Dissertação de Mestrado. Fortaleza. UFC. 2007. p. 40. No mesmo sentido: FREIRE, Paulo. Educação como Prática da Liberdade. Paz e Terra. (versão virtual)

68GUERRA, Marcelo Lima.

Direitos fundamentais e a proteção do credor na execução civil. São Paulo: Revista

Referências

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