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A SAÚDE E OS HÁBITOS ALIMENTARES

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Academic year: 2021

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A SAÚDE E OS HÁBITOS ALIMENTARES

Cintia Okamura

Rua Dr. Ubaldo Franco Caiubi, 160 - Vila São Paulo CEP 04651-020 - São Paulo/SP - Brasil

Telefone: 55562.3027 E.Mail [email protected]

Vera Lúcia Sanchez Cezaretto

Rua Severino Vilar Filho, nº 74 - Parque São Domingos CEP 05127-110 - São Paulo-SP - Brasil

E.Mail [email protected]

Obs.: Pesquisa de campo feita pela Cetesb - Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental/Agência Ambiental de Sorocaba em outubro/novembro de 1.996, através das seguintes profissionais: Comunicóloga Ana Cristina A. T. Terra, Socióloga Cintia Okamura, Socióloga Ilka Yukie Rodrigues e Comunicóloga Vera Lúcia Sanchez Cezaretto

PALAVRAS CHAVE Vale do Ribeira, Hábitos Alimentares, Saúde e Alimentação, Riscos do Chumbo.

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INTRODUÇÃO

O Vale do Ribeira constitui-se de 23 municípios e possui grande reserva de Mata Atlântica, sendo que parte considerável de seu território é considerado área de preservação do estado.

Isto limita bastante a utilização de seu espaço geográfico, tornando-se uma região com vocação eminentemente turística.

O solo cultivável do Vale do Ribeira é muito pequeno e concentra-se em área de várzea. As populações, por sua vez, tendem a se concentrar nessas áreas de várzea e encostas devido a qualidade da terra e acabam expostas às enchentes, muito comuns nesta região.

O Rio Ribeira de Iguape corre por vários municípios que compõem o Vale do Ribeira no estado de São Paulo e faz divisa com o estado do Paraná .

A Cetesb, empresa que faz o controle ambiental no estado de São Paulo, têm acompanhado, há vários anos, a qualidade de suas águas, tanto superficiais como subterrâneas. Neste contexto vêm realizando periodicamente análises nas águas do Rio Ribeira de Iguape, dentre elas a determinação do conteúdo de metais. Em alguns resultados obtidos pode-se constatar a presença de chumbo com valores significativos.

Próximo às margens do Rio Ribeira localizavam, até algum tempo atrás, três empresas de mineração e beneficiamento de chumbo, uma delas pertencente ao estado de São Paulo e outras duas pertencentes ao estado do Paraná, visto que o Ribeira é um rio interestadual.

A Cetesb vêm acompanhando a indústria paulista e fazendo exigências técnicas legais há vários anos o que levou a mesma a encerrar suas atividades há mais de 4 anos. As duas empresas paranaenses foram fechadas uma em l.992 e a outra em l.995, portanto um ano atrás.

Apesar do encerramento das atividades a recuperação da local onde estavam localizadas demanda tempo e pesquisas tecnológicas, já que têm que se verificar qual a melhor forma de lidar com os rejeitos alí deixados. Além disso, envolve governo e legislação de outro estado.

Portanto, os rejeitos permanecem no local e podem continuar a influir na qualidade das águas do Rio Ribeira e seus afluentes.

A Cetesb em agosto/96, realizou análises de rotina nas águas, peixe e sedimento, já que elas são feitas periodicamente e constatou a presença de metais com ênfase para o chumbo.

A partir daí optou-se por realizar uma nova campanha de amostragem no local e também, concomitantemente, aplicar uma pesquisa de hábitos alimentares junto às populações ribeirinhas.

OBJETIVO

Saber quais os alimentos consumidos pelos moradores dos municípios que margeiam o Rio Ribeira de Iguape e estabelecer comparação entre os hábitos alimentares e a qualidade das águas, do sedimento e principalmente dos peixes e verificar se há risco à saúde humana.

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METODOLOGIA

Escolha da Amostra

Para a escolha dos municípios a serem amostrados utilizou-se os resultados das análises feitas pela Cetesb, em agosto de 1.996, no Rio Ribeira de Iguape (águas, sedimento e peixes) onde apareciam valores significativos de chumbo. Em função disso foram escolhidos 4 municípios: Eldorado, Iporanga, Ribeira e Itaoca.

Para que a amostra fosse representativa, a definição do número de entrevistas a ser realizada em cada município foi feita a partir do total de habitantes e também dos núcleos populacionais localizados ao longo das margens do rio. Como resultado foram aplicados 351 questionários distribuídos da seguinte forma:

• Eldorado 140;

• Iporanga 73;

• Ribeira 61;

• Itaoca 77.

Instrução de Amostragem

A escolha das pessoas a serem pesquisadas foi feita a partir de moradores próximos às margens do Rio Ribeira de Iguape, consultando-se o máximo de pessoas possível.

A idade limite para poder realizar a pesquisa foi de 18 anos.

Questionário

As questões elaboradas continham perguntas abertas e fechadas sobre dados pessoais do entrevistado, como: idade, tempo de residência, atividade profissional e renda familiar. Depois vinham os alimentos consumidos, tanto de origem animal como vegetal, líquidos, enlatados e as panelas utilizadas no cozimento deles, dando-se especial atenção ao consumo de peixes.

Questionou-se, ainda, sobre a origem da água consumida, tipo de tubulação/encanamento usado na casa e se fumavam ou não.

Todas estas informações eram importantes no caso de ser constatado índices de chumbo nas águas do rio, nos peixes e no sedimento, podendo ser considerados prejudiciais à saude humana, já que poderia haver desdobramento de contaminação, também nos animais criados na região e nos alimentos plantados no local, além de acúmulo de chumbo por outras vias, quais sejam: tubulação, cigarro, panela, etc.

RESULTADO E ANÁLISE DOS DADOS

Pode-se notar que foram 351 pessoas consultadas e que elas representam um número igual de grupos familiares havendo se registrado um total de 690 crianças entre eles.

Verifica-se que 79% das pessoas entrevistadas eram do sexo feminino, até porque a pesquisa era aplicada em dias úteis e durante o dia, onde é mais comum a mulher estar em casa (Fig.

2).

(4)

Fig. 1. Número de crianças das famílias entrevistadas

Adultos= 351

Crianças= 690

n=351

Fig. 2. Entrevistados, segundo o sexo

Feminino 79%

Masculino 21%

n=351

Na faixa etária segundo o sexo, nota-se que houve entre os homens uma distribuição equitativa entre todas as idades, já as mulheres apresentaram maior concentração entre 31 a 45 anos, 15 a 30 anos e 45 a 60 anos, 29% e 22% e 18% respectivamente, Fig. 3.

O tempo de residência no local aparece como acima de 20 anos para 51% das pessoas, as demais aparecem equilibradamente distribuídas em todas as faixas (Fig. 4).

Quando a renda familiar verifica-se que grande parte da amostra recebe de 1 a 3 salários mínimos (1 a 2 salários 30% e 3 salários 22%), vide Fig. 5. São pessoas que trabalham nas plantações de banana, a cultura mais comum na região, não são pessoas que têm registro em carteira, logo o trabalho e o salário não é constante. O que se traduz em elevado índice de população carente que tem vivenciado várias enchentes, perdendo grande parte de seus pertences e plantações.

Constatou-se, ainda, que 77% da amostra são de não fumantes, conforme Fig. 6.

(5)

15 A 30 ANOS

31 A 45 ANOS

46 A 60 ANOS

ACIMA DE 60 ANOS 4%

22%

5%

29%

6%

18%

6%

10%

0%

5%

10%

15%

20%

25%

30%

15 A 30 ANOS

31 A 45 ANOS

46 A 60 ANOS

ACIMA DE 60 ANOS Fig. 3. Entrevistados, segundo faixa etária e sexo

MASCULINO FEMININO

n=351

Fig. 4. Entrevistados, segundo tempo de residência

16 a 20 anos 10%

Acima de 20 anos 51%

11 a 15 anos 9%

6 a 10 anos 14%

0 a 5 anos 16%

n=351

(6)

Fig. 5. Entrevistados, segundo renda familiar

acima de 6 salários 13%

5 salários 9%

6 salários 6%

1 a 2 salários 30%

3 salários menos de 1 salário

5%

4 salários 15%

n=351

Fig. 6. Entrevistados, segundo ser fumante ou não

fumantes 23%

não fumantes 77%

n=351

Com relação aos alimentos consumidos, constatou-se que arroz/feijão, batata/pão, couve, banana/alface e tomate formam a base alimentar dos entrevistados, depois aparece o grupo dos seguintes alimentos: outras frutas, outros legumes, pepino, milho e outras verduras.

Quanto aos alimentos cultivados na região ou feitos pelos moradores nota-se que a couve e a banana foram os mais citados, na sequência apontou-se alface, outros legumes e outras verduras, vide Fig. 7. Na maioria das vezes vindos de pequena horta que eles mesmos plantam do lado de suas residências, já que dinheiro para comprar alimentos é escasso.

(7)

Fig. 7. Entrevistados, segundo espécies de alimentos cultivados/feitos na região

batata 1 %

arroz 3 % tomate

2 %

rapadura vagem1 %

2 % palmito

1 %

outros legumes 8 % pepino

4 % paçoca

3 %

b a n a n a 1 5 %

alface 1 1 % outras verduras

7 % feijão

4 % doce de banana

5 % milho

7 % outras frutas

6 %

pão 5 %

couve 1 5 %

n=351

Observa-se que de maneira geral todos consomem algum tipo de carne, ainda que em pequena quantidade, sendo a de galinha e de boi as mais consumidas, depois a de porco e miúdos de frango. Foi a galinha também a mais citada das carnes de animais criados na região, veja Fig.

8.

Fig. 8. Entrevistados, segundo espécies de carnes consumidas

carne de cabrito 1 % miúdos de boi

7 %

miúdos de porco 5 %

animal selvagem 2 %

miúdos de peixe 1 %

carne de boi 2 5 % carne de porco

1 7 % miúdos de frango

1 7 %

galinha 2 5 %

n=351

O consumo de peixe foi questionado em um item separado já que era ele o alimento mais exposto à contaminação por chumbo e obteve-se que dos 351 entrevistados 282 comem peixe com uma média semanal de 166 gramas no geral. Quando se fez a média segundo o sexo houve diminuição de consumo para as mulheres (156 g) e o homens passaram para 202g.

Apenas 8 pessoas tiveram desvio significativo no consumo de peixes, mais de 2 kg por semana, o que poderia ser preocupante, conforme os resultados das análises realizadas (nos peixes, sedimento e águas).

A Fig. 9 mostra que o cascudo, o lambari e aniã são as espécies mais consumidas, seguidas do bagre e do mandi. O cascudo é uma espécie muito consumida na região, além da forma tradicional de preparo de peixe, eles costumam fazer uma sopa que, segundo boa parte dos entrevistados, é bastante saborosa. É, ainda, um dos peixes que oferecia riscos de contaminação, haja visto que ele vive no fundo do rio, junto ao sedimento, o mesmo ocorrendo com o chumbo que fica alí depositado.

(8)

Fig. 9. Entrevistados, segundo espécies de peixes consumidos

tainha 6 % outros

5 %

tapuara 3 %

barbudo 1 %

lambari 1 3 % cascudo

1 5 %

ani 1 3 % bagre

1 1 % mandi

9 % traïra

7 % robalo

5 % corimbatá

5 % carpa

4 % pituva

3 %

n=282

A água figura como o líquido mais ingerido (4 copos/dia), já o café, suco natural, chá e leite em torno de 2 copos/dia e a cachaça 1 copo/dia, vide Fig. 10. Quanto a origem da água utilizada para consumo doméstico, inclusive para beber, percebe-se que 69% é do sistema público, 13%

é de outros(minas), 9% de poços domiciliares (que segundo os próprios moradores são sujos) e ainda 8% da amostra que recolhe água diretamente do rio (Fig. 11). Nota-se, que com relação ao consumo de enlatados 54% da amostra se utiliza deste tipo de alimento, conforme Fig, 12.

Á G U A C A F É S U C O

N A T U R A L

CHÁ L E I T E CACHAÇA

0 0.5 1 1.5 2 2.5 3 3.5 4

Á G U A C A F É S U C O

N A T U R A L

CHÁ L E I T E CACHAÇA

Fig. 10. Entrevistados, segundo líquido ingerido por dia

n=351

(9)

Fig. 11. Entrevistados, segundo de onde vêm a água para cosumo humano

poço domiciliar 9 %

sistema público 6 9 % comunitário

1 % direto do rio

8 %

outros 1 3 %

n=351

Fig. 12. Entrevistados, segundo consumo de enlatados

não consome 46%

consome 54%

n=351

Quanto aos resultados das análises realizadas nos peixes, no sedimentos e nas águas pode- se verificar que os valores encontrados naquela campanha não tinham ultrapassado os limites estabelecidos internacionalmente, em nenhum do itens propostos.

Comparados os índices de chumbo encontrados nas análises com os dados obtidos acima, sobre hábitos alimentares, pode-se considerar que a situação não oferecia, naquele momento, riscos à saúde das populações ribeirinhas.

CONSIDERAÇÕES E RECOMENDAÇÕES

Em função da análise dos dados obtidos na campanha de amostragem feita no final de 1.996, pode-se constatar que, naquele momento, a população dos quatro municípios amostrados no Vale do Ribeira não estava exposta a riscos devido ao chumbo, visto que os valores encontrados estavam abaixo dos parâmetros estabelecidos a nível internacional.

(10)

No entanto, como os rejeitos ainda se encontram no local foram feitas as seguintes recomendações:

• a Cetesb deve concentrar esforços na busca da melhor solução do problema dos rejeitos, mantendo contato com o IAP - Instituto Ambiental do Paraná para implementação de ações conjuntas;

• manter o Ministério Público a par de todas as medidas adotadas;

• manter acompanhamento rigoroso na realização das análises periodicamente feitas (nas águas, sedimentos e peixes).

• realizar trabalho informativo/educativo junto às comunidades ribeirinhas que se utilizam de água para consumo humano provenientes de poços domiciliares, de minas ou diretamente do Rio Ribeira.

BIBLIOGRAFIA

ASTI VERA, A. Metodologia de Pesquisa Científica, Porto Alegre, Globo, 1983.

CAMPIGLIA, S.S. O Curso Interdisciplinar de Pós-Graduação em Ciência Ambiental da Usp.

In: Revista Uniambiente (nº 1), ano 2, fev./mar. 91.

CETESB Avaliação da qualidade do Rio Ribeira de Iguape - Relatório Complementar (minuta), novembro 1996.

CETESB Informações Técnicas sobre os níveis de metais pesados no Rio Ribeira. São Paulo, 1996.

CETESB/IAP Relatório de viagem. Vale do Ribeira de Iguape. 23 e 24 de setembro 1996.

LAKATOS, E.M. Fundamentos de Metodologia Científica, São Paulo, Atlas, 1985.

OMS Evaluacion de Ciertos Aditivos Alimentarios y Contaminantes de los Alimentos, 41º informe del Comité Mixto FAO/OMS de Expertos en Aditivos Alimentarios. Serie de Informes Técnicos 837, 1993.

FISHER AR., YATES F. Tablas Estadisticas, Madrid, Aguilar, 1954.

VARGA, Milton. Metodologia da Pesquisa Tecnológica, Rio de Janeiro, Globo, 1985.

Referências

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