UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E NATURAIS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA SOCIAL DAS RELAÇÕES POLÍTICAS

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Texto

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO

CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E NATURAIS

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA SOCIAL DAS

RELAÇÕES POLÍTICAS

Helmo Magno Ballarini

A Ordem de Cristo no contexto de uma economia de mercês. Critérios de provimento de cargos e ofícios nos séculos XVII e XVIII: o caso da capitania do

Espírito Santo

VITÓRIA 2016

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HELMO MAGNO BALLARINI

A Ordem de Cristo no contexto de uma economia de mercês. Critérios de provimento de cargos e ofícios nos séculos XVII e XVIII: o caso da capitania do

Espírito Santo

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em História do Centro de Ciências Humanas e Naturais da Universidade Federal do Espírito Santo, como requisito para a obtenção do grau de Mestre em História, na área de concentração em História Social das Relações Políticas.

Orientador: Prof. Dr. Luiz Cláudio M. Ribeiro

VITÓRIA 2016

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FICHA CATALOGRÁFICA

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HELMO MAGNO BALLARINI

A Ordem de Cristo no contexto de uma economia de mercês.

Critérios de provimento de cargos e ofícios nos séculos XVII e

XVIII: o caso da capitania do Espírito Santo

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em História do Centro de Ciências Humanas e Naturais da Universidade Federal do Espírito Santo, como requisito para a obtenção do grau de Mestre em História, na área de concentração em História Social das Relações Políticas.

Aprovada em de de 2016

COMISSÃO EXAMINADORA

__________________________________________________________ Professor Doutor Luiz Cláudio M. Ribeiro Universidade Federal do Espírito Santo - Orientador

__________________________________________________________ Professor Doutor Leonardo Bis dos Santos Instituto Federal do Espírito Santo – Examinador Externo

__________________________________________________________ Professor Doutor Sérgio Alberto Feldman Universidade Federal do Espírito Santo – Examinador Interno

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Ao meu pai, Theophanes (in memorian) e À minha mãe Laurinda

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Agradecimentos

Agradeço a Deus.

Agradeço ao professor Luiz Cláudio M Ribeiro por acolher a mim e a minha pesquisa no programa de pós-graduação em História da UFES. Pela erudição, pela leitura atenta e crítica, pelas sugestões, indicação e disponibilização de leituras. Agradeço à colega Érica Lopes e ao colega Leonardo Faccini Bringer pelo apoio, palavras de incentivo e por, efetivamente, transcreverem algumas das fontes manuscritas do século XVII e XVIII utilizadas neste trabalho.

À mamãe e aos meus irmãos Thânia, Sandro e Bruno, pelo eterno incentivo.

À Juliana, minha mulher, por ser a mãe cuidadosa e dedicada à nossa pequena Giulia. E efetivamente pelas leituras, correções e contribuições para esta dissertação.

À Giulia pelos sorrisos, pelo abraço aconchegante depois de lutar árdua e tenazmente contra o sono, pelo “papaiiii” .... Enfim, por chegar e estar conosco.

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Resumo

. Neste trabalho, partimos do conceito original de ordem religioso-militar e dissertamos sobre a história da Ordem de Cristo, a qual identificamos e descrevemos as origens medievais como ordem religioso-militar e a sua criação ou fundação por necessidade estratégica da monarquia portuguesa para proteger e manter o patrimônio templário no território português. Seguimos para a descrição de um panorama do Brasil colonial inserido no Império ultramarino português, as suas estruturas e práticas político-administrativas com ênfase no sistema de capitanias hereditárias e do governo-geral criados pela monarquia portuguesa. Apresentamos a discussão da dualidade Metrópole–Colônia e a busca do controle político e administrativo periférico pelo centro do poder português. Em continuação, abordamos a consolidação de uma “economia de mercês”, que atuava na seleção de “servidores” para a burocracia no reino e nas conquistas ultramarinas portuguesas. Assim, na época moderna desenha-se um novo modelo de cavaleiro das ordens militares que se definia como servidor destacado do rei, limpo de sangue e com cabedal que lhe permitisse não “sujar” as mãos com trabalho e então o interesse nas ordens militares, em particular pelo hábito da Ordem de Cristo, generaliza-se por toda a sociedade portuguesa. Concluindo o trabalho, caracterizamos a formação da capitania do Espírito Santo e a partir de fontes manuscritas e impressas que abarcam os séculos XVII e XVIII dissertamos sobre as inflexões de uma economia de mercês que se consolidava e sobre a presença da Ordem de Cristo em um contexto regional de provimento de cargos e ofícios na capitania do Espírito Santo.

Palavras-Chave. Espírito Santo: capitania; Economia de mercês; Ordem de Cristo; ofícios régios.

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Abstract

. In this work, we begin from the original concept of religious-military order. Following, we discuss the history of Order of Christ, by identifying and describing its medieval origins as a religious-military order and its establishment or foundation because of strategic needs of the Portuguese monarchy that aimed to protect and maintain the Templar heritage in Portuguese territory. We continue by describing an overview of colonial Brazil in the context of Portuguese overseas empire, its structures, political and administrative practices, emphasizing the captaincies system and general government created by the Portuguese monarchy. Here takes place the discussion of duality of Metropolis-Cologne's powers and the aiming of center of Portuguese power in controlling peripheral political and administrative power. In continuation, we approach the consolidation of a "economy of favors", which was consisting in hiring "servers" to the bureaucracy in the kingdom and to the overseas territories conquested by Portugal. Thus, in the modern era, the interest in military orders grew up and spread in the Portuguese society, in particular in receive the habit of the Order of Christ, pushed by the appearance of a new model of military order of knights, characterized by a noble server of the king, an Christian server without non Christian ascendants and with enough financial resources to allow him to live without to work. Completing the work, we characterize the formation of the captaincy of the Espírito Santo and from handwritten and printed sources spanning the seventeenth and eighteenth centuries, we talk about the inflections of consolidation of an "economy of favors" and the presence of Order of Christ in a regional context, addressing the criteria of provision of servers in the captaincy of the Espírito Santo.

Key-words: Espírito Santo: Captaincy; Economy of favors; Order of Christ; Regal positions.

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Sumário

Introdução ... 10

Um panorama – o objeto ... 10

As fontes ... 12

Metodologia e pesquisa ... 13

1. Ordens religioso-militares e a Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo – origens, herança templária e a conquista e a expansão ibérica ... 16

1.1 Uma criação inovadora na sociedade medieval ... 16

1.2Ordem do Templo, a Reconquista Ibérica e a Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo ... 21

1.3Uma criação por estratégia da coroa portuguesa ... 30

1.4Na época moderna, uma nova forma de professar ... 35

2. O Brasil no contexto político-administrativo do império ultramarino português ... 39

2.1O Brasil Colonial e o império ultramarino português ... 39

2.2Práticas político-administrativas no império português - a questão da dualidade Metrópole - Colônia ... 46

2.3Busca de controle político e administrativo periférico pela coroa: a relação com as estruturas concelhias (locais) ... 53

3. Economia de mercês e a Ordem de Cristo ... 64

3.1Liberalidade régia – recursos disponíveis ... 64

3.2A busca da coroa por uma melhor capacidade redistributiva – os recursos das ordens militares ... 68

3.3O valor simbólico de um hábito – o uso remuneratório das ordens militares pela coroa portuguesa centro legitimador das classificações sociais. ... 72

3.4A sistematização e consolidação de uma economia de mercês no reino português. ... 77

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4. A capitania do Espírito Santo no contexto de uma economia de mercês: estudo

de caso ... 83

4.1O Espírito Santo no contexto colonial ... 83

4.2Critérios de provimento de cargos e ofícios na capitania do Espírito Santo ... 88

5. Conclusão ... 102

6. Referências ... 106

6.1Fontes ... 106

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Introdução

Um panorama – o objeto

A criação do conceito de ordem religioso-militar foi um acontecimento inédito e incomum para a sociedade medieval que se explicava através de uma fórmula trifuncional. A organização da sociedade Cristã ocidental dividia-se em ordens ou funções conforme a vontade divina e a partir do século IX é formulada a divisão trifuncional, ou seja, a sociedade era dividida entre os que oravam (monges, clérigos), os que combatiam e os que trabalhavam. Quando surgiram as ordens religioso-militares esse esquema trifuncional da sociedade já completara, pelo menos, cem anos. Assim, o surgimento de uma organização – ordem religioso-militar – na qual coexistiam as funções de orar e combater provocou a reação de muitos contemporâneos. Como veremos no desenvolvimento do trabalho, esse avanço ou evolução da sociedade ocidental - nesse movimento inserimos as Cruzadas e a guerra de Reconquista ibérica, foi que permitiu o surgimento de instituições tão singulares.

Um representante emblemático desse tipo de instituição foi a Ordem do Templo que é a concretização do conceito de ordem monástico-militar na Terra Santa. Era o cavaleiro agora integrado a sociedade cristã defendendo-a dos infiéis. Em Jerusalém já existia a ordem dos “Hospitalários” que amparava e acolhia peregrinos Os templários surgiam para atender a demanda de segurança desses peregrinos. Ao apresentarem-se como uma opção à segurança aos cristãos perante seus inimigos os cavaleiros do Templo passaram ser vistos como uma opção de defesa dos espaços cristãos, tanto na Terra Santa como na península ibérica. Essa visão de defensores dos espaços cristãos fez com que a instituição recebesse um grande volume de doações e acumulasse um vasto patrimônio.

Com a extinção da Ordem do Templo a transferência de seu “espólio” para a Ordem do Hospital não agradou a coroa portuguesa e o monarca português D. Dinis

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estrategicamente articulou para manter os bens templários sob o domínio luso. Para tal, D. Dinis criou a Ordem de Cristo para “herdar”, com as bênçãos da Igreja, as propriedades dos templários. O cavaleiro da Ordem de Cristo, já entre os séculos XVI e XVIII, não mais era aquele que se afastava do “mundo” para dedicar-se a defesa da fé cristã de forma guerreira. Nesse período, mais acentuadamente no século XVII, no qual ocorria uma grande rivalidade geopolítica entre os estados europeus tanto no continente como nas conquistas ultramarinas exigia-se uma maior vigilância dos seus territórios. O fortalecimento do poder político e a necessidade da manutenção do império demandava recursos, tanto humanos quanto financeiros para desenvolver-se. Nesse contexto era o cavaleiro agora um súdito dedicado, limpo de sangue e possuidor de patrimônio para servir à coroa. E é esse o tipo de professo que transita pelo vasto império ultramarino português nesse período.

As considerações gerais até aqui postas se fazem necessárias para fundamentar o nosso interesse no tema e o seu desenvolvimento por esse trabalho. O quadro que sucintamente descrevemos agia no reino português e em suas franjas coloniais. É nosso objetivo neste trabalho, identificar a presença da Ordem de Cristo na capitania do Espírito Santo dentro de um quadro geral da sua importância para uma economia das mercês que se consolidou entre os séculos XVII e XVIII. Sistematizaremos a presença da Ordem de Cristo em dois grupos a partir de características próprias. O primeiro grupo será composto por aqueles que aqui, na capitania do Espírito Santo, transitaram e ou habitaram e após prestarem seus serviços à coroa portuguesa fazem o requerimento de hábito de Cristo como remuneração para seus trabalhos. O segundo conjunto conterá os que já professos da Ordem de Cristo, requeriam postos ou ofícios na administração da capitania do Espírito Santo. Era objetivo de cada um dos ocupantes desses grupos construir ou desenvolver uma trajetória de ascendência social.

Subsidiariamente ao objetivo principal deste trabalho, procuramos verificar a condução da administração da capitania do Espírito Santo no que diz respeito suas práticas administrativas, a relação com o governo geral e suas políticas que sobrepunham-se à autoridade do capitão-mor que era o preposto do donatário.

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Este, durante boa parte do período abarcado pelas fontes que utilizamos, ainda era um particular e não a coroa portuguesa.

As fontes

Para a pesquisa foram coligidos documentos do Arquivo Histórico Ultramarino, repatriados pelo Projeto Resgate1 e disponibilizados em CD-ROM pelo Arquivo Público do Espírito Santo e documentos publicados na série Documentos Históricos Biblioteca Nacional. Os documentos do Arquivo Histórico Ultramarino, disponibilizados pelo Arquivo Público do Espírito Santo, são Cartas de e para o Conselho Ultramarino em Lisboa, que abrangem o período temporal de 1585 a 1822, divididos conforme segue: 1 documento do ano de 1585; 98 documentos entre os anos de 1615 e 1699; 437 documentos entre 1704 e 1799 e 13 documentos entre 1800 e 1822. Desses documentos selecionamos o nosso corpus entre aqueles datados nos séculos XVII e XVIII. São correspondências de natureza administrativa, contendo consultas, pedidos, ofícios e envio de ordens da coroa para a colônia e boa parte desses documentos – escritos em língua portuguesa daqueles séculos - foram transcritos por um Grupo de Trabalho coordenado pelo professor

1 O Projeto Resgate de Documentação Histórica Barão do Rio Branco (Projeto Resgate) foi criado

institucionalmente, em 1995, por meio de protocolo assinado entre as autoridades portuguesas e brasileiras no âmbito da Comissão Bilateral Luso-Brasileira de Salvaguarda e Divulgação do Patrimônio Documental (COLUSO). É uma iniciativa bilateral Portugal/Brasil conduzida no contexto das comemorações dos 500 anos dos descobrimento portugueses. O objetivo principal foi disponibilizar documentos históricos relativos à História do Brasil existentes em arquivos de outros países, Portugal em particular, e demais países europeus com os quais o Brasil teve uma história colonial imbricada (Centro de Memória Digital – Universidade de Brasília, http://www.cmd.unb.br/resgate_index.php, acesso em 06/10/2014). Para os documentos relativos ao Espírito Santo, conforme Estilaque Ferreira dos Santos, “[...] foram coligidos sob os auspícios do Arquivo Público Estadual, da Secretaria de Estado da Cultura e Esportes e do Governo do Estado do Espírito Santo, e disponibilizados em 1998 através do Catálogo de Documentos Manuscritos Avulsos da Capitania do Espírito Santo (1585-1822), organizado pelo Professor João Eurípedes Franklin Leal” (SANTOS, Estilaque Ferreira dos. Uma devassa contra os jesuítas do Espírito Santo (1761). Vila Velha: Edição do Autor, 2014, p. 17). Em nossa pesquisa, além dos documentos reunidos para a capitania do Espírito Santo, utilizamos documentos que fazem parte do acervo da capitania da Bahia.

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Luiz Cláudio M Ribeiro na Universidade Federal do Espírito Santo e outros foram transcritos ao longo desta pesquisa entre 2014 a 2016.

Também selecionamos, do período compreendido entre os séculos XVII e XVIII, documentos da série DOCUMENTOS HISTÓRICOS da Biblioteca Nacional do Brasil, contendo Correspondências dos Governadores Gerais do Brasil. Da mesma forma, são correspondências administrativas e foram obtidas através das pesquisas do Professor Luiz Cláudio Ribeiro em sua busca de documentos coloniais do Espírito Santo em arquivos no Brasil e em pesquisa virtual feita pelo autor deste trabalho nos Anais da Biblioteca Nacional.

Documentos impressos, utilizamos documentos coloniais do Espírito Santo coligidos e transcritos pelo professor João Eurípedes Franklin Leal e publicados por iniciativa da Fundação Jones dos Santos Neves em 19782. O exemplar que acessamos faz parte do acervo da Biblioteca Central da UFES em dois volumes. Neste trabalho utilizamos o volume 1. Ainda, subsidiariamente, fizemos uso do documento

Definições e Estatvtos dos Cavalleiros & Freires da Ordfem de N. S. Iefu Chrifto, com a hiftoria da origem, & principio della. Lisboa: Por Pedro Craesbeeck, impreffor del Rey, Anno M.DCXXVIII.

Metodologia e pesquisa

O presente trabalho trata-se do estudo de caso da capitania do Espírito Santo dentro da dinâmica do império ultramarino português. A presença da Ordem de Cristo, de uma economia das mercês, das redes de afinidades caracterizando as práticas administrativas e o provimento de cargos e ofícios na capitania do Espírito Santo. Ocorreria o uso do hábito da Ordem de Cristo na administração da capitania do Espírito Santo no século XVII-XVIII? E o interesse nas Ordens Militares, em particular pelo hábito de Cristo, generalizado por toda a sociedade portuguesa –

2 LEAL, João Eurípedes Franklin. Espírito Santo: Documentos Coloniais – Série Documentos

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tese de Fernanda Olival? Ocorreria o uso de particulares e seus recursos no desenvolvimento da colonização da capitania do Espírito Santo?

O trabalho desenvolve-se a partir das fontes, manuscritas e impressas, cotejadas com uma bibliografia sobre o período colonial e também com os novos rumos de pesquisa desenvolvida para a época moderna. Procuramos identificar as solicitações de mercês dos personagens que vinham ou viviam na capitania do Espírito Santo que após desempenharem atividades na administração e no desbravamento do território colonial, solicitavam mercê do hábito de Cristo. E também daqueles homens que solicitaram mercê de ofícios a desempenhar na capitania do Espírito Santo, e já se declaravam professos a uma das três ordens portuguesa, em particular a Ordem de Cristo.

Partimos da análise, como objeto, da ordem monástico-militar de Nosso Senhor Jesus Cristo, uma criação régia, herdeira dos templários e estreitamente ligada ao processo de expansão ibérico. Mais especificamente, dos usos do hábito da Ordem de Cristo pela coroa portuguesa em um contexto de consolidação da economia de mercês – que passara a reger a seleção de “servidores” para os postos da burocracia no império português, no reino e em suas franjas coloniais – na administração da capitania do Espírito Santo no século XVII e início do século XVIII. Buscamos fazer uma discussão específica sobre a problemática das mercês, conforme estudos de Fernanda Olival3 e cotejar com a bibliografia existente e analisar como isso era aplicado ao Brasil e como funcionava para a capitania do Espírito Santo partindo da teoria geral do modelo português de governo, cuja baliza é o trabalho de António Manuel Hespanha4.

O primeiro capítulo apresenta ao leitor o surgimento do conceito de ordem religioso-militar com seu ineditismo e também introduz a história da Ordem de Cristo; disserta sobre ela, descreve e identifica suas origens medievais como ordem religioso-militar

3 OLIVAL, Fernanda. As Ordens Militares e o Estado Moderno: honra, mercê e venalidade em

Portugal (1641-1789). Lisboa: Estar Editora, 2001

4 HESPANHA, António Manuel. As vésperas do Leviathan: Instituições e poder político. Portugal –

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contrapondo-se às ordens de cavalaria. Aborda também a importância de sua criação por uma necessidade e ação estratégica do rei D. Dinis para proteger e manter o patrimônio templário no território português. Faz referência à herança templária da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, à importância dos cavaleiros do Templo na reconquista ibérica aos mouros e menção a sua imbricação com a Coroa portuguesa e de um de seus maiores expoentes – o Infante D. Henrique - e a expansão ultramarina ibérica.

No capítulo 2, apresentamos ao leitor um panorama do Brasil colonial inserido no império ultramarino português nos séculos XVI a XVIII; suas estruturas e práticas político-administrativas com ênfase no sistema de capitanias hereditárias e do governo-geral criados pela monarquia portuguesa. Apresentamos também a discussão da dualidade Metrópole – Colônia e a busca do controle político e administrativo periférico pelo centro do poder português a partir das atividades da justiça, da fazenda (“economia”) e da milícia.

O capítulo 3 aborda um contexto de consolidação de uma “economia de mercês”, a reger a escolha de “servidores” para os postos da burocracia nas franjas do império português; o desenho de um novo modelo de cavaleiro: agora servidor destacado do rei, limpo de sangue e com cabedal suficiente para não “sujar” as mãos com trabalho. A luz da bibliografia, destaca-se o interesse nas ordens religioso-militares, em particular pelo hábito de Cristo, generalizado por toda a sociedade portuguesa, num período para o qual também foi desenvolvido o conceito de “economia do bem-comum” por João Fragoso.

O quarto capítulo divide-se em duas linhas. Inicialmente contextualiza e caracteriza a formação da capitania do Espírito Santo. O segundo ponto do capítulo, apresenta uma análise do corpus documental referente à capitania do Espírito Santo. A partir de fontes que abarcam os séculos XVII e XVIII dissertamos sobre as inflexões de uma economia de mercês que se consolidava e sobre a presença da Ordem de Cristo em um contexto regional de provimento de ofícios.

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1. Ordens religioso-militares e a Ordem de Nosso Senhor Jesus

Cristo – origens, herança templária e a conquista e a

expansão ibérica

Este capítulo apresenta ao leitor o surgimento do conceito de ordem religioso-militar e também introduz a história da Ordem de Cristo, dissertando sobre ela, descrevendo e identificando suas origens medievais como ordem religioso-militar contrapondo-se às ordens de cavalaria, sua criação ou fundação por necessidade – estratégia - régia para proteger e manter o patrimônio templário no território português fazendo assim uma referência a herança templária da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo e também da importância na reconquista ibérica aos mouros.

1.1 Uma criação inovadora na sociedade medieval

O medievalista francês e historiador das cruzadas e das ordens militares Alain Demurger alerta que é necessário não fazer a confusão entre ordem militar e ordem de cavalaria que não se equivalem. E exemplificando com a ordem dos templários ressalva:

[...] As sociedades ocidentais produziram, em diferentes momentos de sua história, “cavalarias”, ordens de cavalaria, mas se a ordem militar do Templo se dirigia prioritariamente a cavaleiros, incorreríamos em erro inscrevendo-a em uma continuidade histórica, visto que sua experiência é nova e original. Suas raízes encontram-se nas mutações – ou simplesmente na evolução – da sociedade ocidental depois do ano mil; e foi a cruzada que a fez brotar5.

Demurger em sua obra, Os cavaleiros de Cristo: templários, teutônicos, hospitalários

e outras ordens militares na Idade Média (sécs. XI-XVI)6, faz uma síntese do surgimento das ordens monástico-militares desde sua formação identificando o seu ineditismo em uma sociedade medieval desenhada pelos clérigos contemporâneos

5 DEMURGER, Alain. Os cavaleiros de Cristo: templários, teutônicos, hospitalários e outras ordens

militares na Idade Média (sécs. XI-XVI). Rio de Janeiro: Zahar, 2002, p. 9.

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em uma fórmula trifuncional. No Ocidente, a organização da sociedade Cristã era dividida em ordens ou funções segundo a vontade divina.

[...]. Na época carolíngia, distinguiam-se três categorias: os monges, os clérigos e os leigos. Entretanto, a partir do final do século IX, Haymon de Auxerre (ou Érico) formulou de outra maneira essa trifuncionalidade, dividindo a sociedade entre aqueles que oravam (monges e clérigos), aqueles que combatiam (e que comandavam, dirigiam) e aqueles que trabalhavam. Pouco mais de um século depois, a fórmula foi retomada praticamente nos mesmos termos e no mesmo momento (c. 1020-27) por Gerardo, bispo de Cambrai, e Adalberão, bispo de Laon [...]7.

Assim, quando foi reconhecida a legitimidade da Ordem do Templo – em 1129 - o esquema das três funções existia à pelo menos um século. E a instituição ordem monástico-militar reunia as funções de orar e combater em um só lugar e por isso foi considerada por muitos contemporâneos como uma “monstruosidade”8.

Para Demurger, o avanço ou evolução da sociedade ocidental onde se insere as Cruzadas e a guerra de Reconquista foi que permitiu – originou – uma instituição tão singular como as ordens religioso-militares. Segundo o pesquisador, por volta do ano mil o avanço da sociedade ocidental iniciado na época carolíngia se acelerou e intensificou afetando todos os setores da vida humana. Foi um avanço demográfico, agrícola, industrial e comercial e por fim religioso e intelectual “com a lenta mas irresistível influência do cristianismo no nível mais profundo da sociedade”. Era então uma sociedade dinâmica, na qual mercadores e peregrinos atravessavam rotas e caminhos. Peregrinação à Roma, à Compostela e também à Jerusalém, mesmo com as dificuldades impostas pelos mulçumanos, crescia sua popularidade no século XI9.

Este avanço da sociedade ocidental foi conduzido pelos príncipes na Alemanha e na Inglaterra, já na França ele foi feito pelos senhores proprietários de terras – senhores da vassalagem - devido à fraqueza dos príncipes. Neste processo de evolução, Demurger traça o caminho da cavalaria na sociedade medieval. Partindo

7 DEMURGER, Alain. Os cavaleiros de Cristo: templários, teutônicos, hospitalários e outras ordens

militares na Idade Média (sécs. XI-XVI). Rio de Janeiro: Zahar, 2002, p. 15.

8 ibid., p. 16. 9 ibid., p. 16-17.

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de Roma onde a palavra milites tinha um sentido genérico de soldado e acrescentando a experiência dos povos germânicos que irromperam no mundo romano e ao serem cristianizados ocorreu a imbricação entre as culturas com os valores guerreiros dos povos germânicos e os valores cristãos associando miles,

militia ao nome de Cristo que designou o novo “exército” de monges que das

profundezas do mosteiro combatiam o Maligno. Em continuação, pontua a crescente importância da cavalaria no seio do exército a partir da época carolíngia e a sua primazia ao longo de toda a Idade Média trazendo miles e militia para o terreno militar. E ao longo do século XII ocorre a valorização social e ideológica da categoria nomeada pelo termo francês chevalier, tradução de miles, A palavra chevalier passa a designar a elite mais valorosa dos combatentes a cavalo, “cujas façanhas eram gabadas, os mais nobres”. Um efeito inadequado desses grupos de cavaleiros foi a sua beligerância levando-os a causar muitos distúrbios que aos olhos dos representantes da Igreja “introduziram a desordem na casa de Deus”10.

A este efeito indesejado contrapõe-se o movimento, por muitos, denominado “reforma gregoriana”

[...]. Os gregorianos queriam reformar o conjunto da sociedade a fim de que todos, qualquer que fosse seu estado, clérigo ou leigo, agissem e se comportassem em conformidade com os princípios da Igreja, intérprete da vontade divina. Ao impor aos leigos o respeito a certas normas (casamento, etc.), disciplinando-os, a Igreja pretendia conduzi-los à salvação11.

Nesse sentido, também ocorrera no século X a “Paz de Deus” no qual a Igreja colocava sob sua proteção ante a violência promovida por cavaleiros os clérigos, camponeses, comerciantes, mulheres, enfim os denominados pela igreja como “pobres” – que eram todos aqueles incapazes de se defenderem por si mesmos porque não estavam armados. No século XI, o movimento da “trégua de Deus” introduziu elementos significativos a origem das ordens religioso-militares porque

10 DEMURGER, Alain. Os cavaleiros de Cristo: templários, teutônicos, hospitalários e outras ordens

militares na Idade Média (sécs. XI-XVI). Rio de Janeiro: Zahar, 2002, p. 17-18.

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limitava a violência dos cavaleiros em datas importantes do calendário das festas cristãs12, introduzindo assim

[...] dois elementos decisivos. Por um lado, ao impor “a abstinência de guerra” durante um “tempo sagrado”, infligiu aos cavaleiros uma prova destinada a consolidar sua fé. Por outro, introduziu instrumentos destinados a combater os violadores da trégua de Deus: sanções eclesiásticas, claro, mas também a formação de milícias de paz: declarou-se guerra à guerra, guerra à guerra ruim. A violência era efetivamente justificada se posta a serviço do Bem, da paz, da Igreja. Os cavaleiros que combatiam a serviço da Igreja, portanto, não eram maus. Assim, colocava-se para a Igreja o difícil problema da legitimidade da guerra13.

Demurger prossegue a análise histórica da sociedade ocidental, na qual destaca o surgimento do conceito de ordem religiosa militar e reforça o papel da guerra justa e da sacralização da cavalaria na consolidação desse conceito. Em seu início a Igreja cristã era contra a violência não por ser um mandamento das escrituras mas porque os cidadãos romanos cristãos não queriam servir a um exército e jurar a um imperador que se dizia um Deus. Após a conversão do imperador Constantino esta Igreja precisou adaptar-se e os cristãos deveriam defender um império que defendia sua fé contra os inimigos de então – os povos bárbaros. Pensadores cristãos davam o suporte intelectual para esta adequação. Santo Agostinho justificava a guerra justa – aquelas que vingam injustiças de povos ou estados. Isidoro de Sevilha lapidou o conceito – a guerra justa seria feita após advertência. No século XII as definições de Isidoro de Sevilha foram aproveitadas pelo Decreto de Graciano que é o texto base para o direito canônico. Assim, nem os movimentos de paz e tampouco os teóricos da guerra justa condenaram os combatentes de quem a própria Igreja precisava para proteger-se e proteger seu patrimônio – o próprio papado fez uso da cavalaria recrutando – no século XI – cavaleiros que recebiam soldo para defesa do “patrimônio de São Pedro”14.

Por fim, a guerra santa e a cruzada. Sendo o avanço da sociedade ocidental também territorial, o que era vivido no interior da cristandade – a luta contra o

12 DEMURGER, Alain. Os cavaleiros de Cristo: templários, teutônicos, hospitalários e outras ordens

militares na Idade Média (sécs. XI-XVI). Rio de Janeiro: Zahar, 2002, p. 19.

13 ibid., p. 20. 14 ibid., p. 20-21.

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banditismo e a violência desenfreada - passou a ser proposto para o exterior coroando a evolução que favoreceu o surgimento da instituição ordem religioso-militar. A guerra santa era uma obra meritória, obra pia que se aplicava aos inimigos da fé e da Igreja cristã. Os que nela pereciam seriam mártires. A guerra de

Reconquista ibérica tinha esse caráter de guerra santa no século XI. Sobre a

cruzada temos que a peregrinação a Jerusalém tornou-se bastante popular no século XI, mas o que caracteriza a cruzada é o fato de ser uma peregrinação armada com o objetivo de libertar o Santo Sepulcro e outros locais santos das mãos do “Infiel”. O cruzado se identificava como um peregrino, mas era também um miles Christi, um soldado de Deus, que iria libertar “o patrimônio do Senhor e a afronta por Ele sofrida.”. Então a cruzada – peregrinação armada para libertar Jerusalém – “combinava o valor penitencial da peregrinação à ideologia dos movimentos de paz, acentuando o processo de sacralização da guerra e do guerreiro empreendida pelos reformadores gregorianos15.

O conceito de ordem monástico-militar iria se concretizar em Jerusalém com o surgimento dos templários, mas é neste momento do mundo ocidental que

[...] a teoria das três ordens abria espaço para o combatente na ordem do mundo desejada por Deus. O movimento da paz de Deus chamava a seus deveres aqueles que, nessa ordem,comportavam-se mal, os cavaleiros. A trégua de Deus, canalizando e limitando sua violência, impunha uma prova aos cavaleiros. A cruzada consumava essa evolução oferecendo ao cavaleiro um caminho de resgate, um caminho próprio rumo à salvação que ele podia percorrer sem abandonar sua condição. [...]16.

Também Régine Pernoud, destaca o ineditismo ao tratar da constituição da Ordem do Templo como

[...] uma criação absolutamente original, pois faz apelo aos cavaleiros seculares para que dediquem a sua actividade, as suas forças e as suas armas ao serviço daqueles que precisam de ser defendidos. [...] concilia duas actividades que pareciam incompatíveis: a vida militar e a vida religiosa17.

15 DEMURGER, Alain. Os cavaleiros de Cristo: templários, teutônicos, hospitalários e outras ordens

militares na Idade Média (sécs. XI-XVI). Rio de Janeiro: Zahar, 2002, p. 22-23.

16 ibid., p. 23.

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Era o coroamento do processo de sacralização da “nova” cavalaria. Agora, para sua salvação, o cavaleiro não precisava mais se afastar do mundo como o monge. Ele deveria renunciar a cavalaria secular e passar a fazer parte da “cavalaria de Cristo” coroando o processo de sacralização e de integração dos cavaleiros a sociedade cristã, sendo a criação das ordens militares a última etapa do processo, e é a ordem militar o espaço “institucional e espiritual da consolidação da ‘nova cavalaria’ ”18. Conforme Isabel Morgado Silva, as ordens monástico-militares têm sua origem nas Cruzadas e são elementos característicos da Idade Média empreendendo uma luta constante contra o infiel e também dando forma a uma renovação dos ideais cristãos ao conciliar o ideal monástico com o ideal de cavalaria. Os seus membros eram monges e soldados. Serviam sob uma Regra, viviam em conventos, faziam os três votos – pobreza, obediência e castidade. E eram soldados: um exército permanente com características nacionais porque se integrava ao país onde atuava alinhando-se a política régia que fomentava a luta contra o infiel. As ordens religioso-militares nasceram no século XII e desde então se desenvolveram rapidamente onde existiam situações de conflito entre cristãos e mulçumanos. Tal conjuntura levou as ordens monástico-militares a adotar atitudes ofensivas num processo de conquista e reconquista de territórios e também atitudes defensivas de proteção de fronteiras com o seu repovoamento muitas vezes necessário a tal proteção19.

1.2 Ordem do Templo, a Reconquista Ibérica e a Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo

18 DEMURGER, Alain. Os cavaleiros de Cristo: templários, teutônicos, hospitalários e outras ordens

militares na Idade Média (sécs. XI-XVI). Rio de Janeiro: Zahar, 2002, p. 24.

19 SILVA, Isabel Luísa Morgado de Sousa e. A Ordem de Cristo durante o Mestrado de D. Lopo Dias

de Sousa (1373?-1417). In: FONSECA, Luís Adão da (direção). As Ordens Militares do Reinado de D. João I. Revista Militarium Ordinum Analecta, nº 1. Porto: Fundação Eng. António Almeida, 1997, p.21.

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É o fio condutor de nossa pesquisa a Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, ou simplesmente Ordem de Cristo. Uma ordem religioso-militar criada por iniciativa régia no século XIV para receber os bens templários existentes em território português20 que desempenhou um papel importante na expansão colonial portuguesa pelo incentivo e financiamento às grandes navegações - segundo Luís Adão da Fonseca, é esta ligação da milícia de Cristo com a Expansão portuguesa, presente no imaginário coletivo, que favorece o numeroso e variado volume de estudos sobre ela21.

O ponto de partida para a formação da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo é o ano de 1308. Em 12 de agosto de 1308 pela Bula Regnans in coeli o Papa Clemente V informava os príncipes do Ocidente sobre o processo contra os templários com vistas a extinção da ordem e convocava um Concílio a ser realizado em outubro de 1310 em Viena. Em dezembro de 1308 na Bula Callidi Serpentis vigil é ordenada a prisão dos templários da Península e sua entrega as autoridades eclesiásticas. Essas ações tomadas pelo papa Clemente V estão inseridas no contexto de perseguição aos templários pelo rei francês Felipe IV, o Belo. A monarquia portuguesa não atendeu ao papa quanto ao encarceramento dos templários e mobilizou-se para impedir a transferência dos bens templários22.

Conforme Ricardo da Costa, ao discutir a supressão dos templários e a Criação da Ordem de Cristo dentro de um contexto mais amplo da formação de uma identidade

20 SILVA, Isabel Luísa Morgado de Sousa e. A Ordem de Cristo durante o Mestrado de D. Lopo Dias

de Sousa (1373?-1417). In: FONSECA, Luís Adão da (direção). As Ordens Militares do Reinado de D. João I. Revista Militarium Ordinum Analecta, nº 1. Porto: Fundação Eng. António Almeida, 1997, p.21-22.

21 SILVA, Isabel Luísa Morgado de Sousa e. A Ordem de Cristo (1417 - 1521). In: FONSECA, Luís

Adão da (direção). A Ordem de Cristo (1417 - 1521). Revista Militarium Ordinum Analecta, nº 6. Porto: Fundação Eng. António Almeida, 2002, p. 3.

22 COSTA, Ricardo da. D. Dinis e a supressão da Ordem do Templo (1312): o processo de formação

da identidade nacional em Portugal. In: Cultura e Imaginário no Ocidente Medieval. Arrabaldes – Cadernos de História. Série I. Niterói: Universidade Federal Fluminense, 1996. Disponível em http://www.ricardocosta.com/artigo/d-dinis-e-supressao-da-ordem-do-templo-1312-o-processo-de-formacao-da-identidade-nacional-em, acesso em 30/11/2014, p. 2 e SILVA, Isabel Luísa Morgado de Sousa e. A Ordem de Cristo durante o Mestrado de D. Lopo Dias de Sousa (1373?-1417). In: FONSECA, Luís Adão da (direção). As Ordens Militares do Reinado de D. João I. Revista Militarium Ordinum Analecta, nº 1. Porto: Fundação Eng. António Almeida, 1997, p.22-23.

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nacional portuguesa, “[...] em 1306, pressionado por Filipe, o Belo, o papa Clemente V (1305-1314) ordenou que se reunisse um concílio na Espanha, com o objetivo de Investigar o comportamento dos templários na Península [...]” e nada foi encontrado que desabonasse os cavaleiros e a ordem23.

É patente a herança templária da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo e, em continuação, faremos um resgate dos acontecimentos que antecedem a formação da Ordem de Cristo até a sua criação, por iniciativa régia, para suceder a Ordem do Templo e também faremos uma sucinta descrição da formação da Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo – como se identificavam os templários.

Conforme Demurger em sua obra síntese sobre as ordens religioso-militares o surgimento destas instituições é um fato inédito para o pensamento da época – a qual a Ordem dos Pobres Cavaleiros do Templo de Salomão é a pioneira concretização do conceito que subvertia a trifuncionalidade que regia a sociedade até então, para tal surgimento

[…] era preciso uma ocasião. Esta foi a cruzada, ou melhor, as conseqüências de seu sucesso. A conquista latina tornou a peregrinação a Jerusalém e aos Lugares Santos mais fácil, mas não necessariamente mais segura. A partir do concílio de Clermont, a Igreja mostrara preocupação em garantir a segurança da peregrinação, que dependia doravante da segurança dos Estados latinos. Essa dupla necessidade levou à criação das ordens militares24.

Ainda segundo Demurger, “[...] o Templo foi a primeira ordem religioso-militar criada no Ocidente, tendo servido de modelo a todas as outras [...]”25. Em 1099 os cruzados retomaram Jerusalém e os lugares santos da palestina que estavam nas mãos dos mulçumanos desde aproximadamente os últimos quatrocentos anos. A peregrinação à Jerusalém nunca fora interrompida e agora passava a ser mais estimulada mas não menos insegura porque os barões cruzados retornavam a

23 COSTA, Ricardo da. D. Dinis e a supressão da Ordem do Templo (1312): o processo de formação

da identidade nacional em Portugal. In: Cultura e Imaginário no Ocidente Medieval. Arrabaldes – Cadernos de História. Série I. Niterói: Universidade Federal Fluminense, 1996. Disponível em http://www.ricardocosta.com/artigo/d-dinis-e-supressao-da-ordem-do-templo-1312-o-processo-de-formacao-da-identidade-nacional-em, acesso em 30/11/2014, p. 2.

24 DEMURGER, Alain. Os cavaleiros de Cristo: templários, teutônicos, hospitalários e outras ordens

militares na Idade Média (sécs. XI-XVI). Rio de Janeiro: Zahar, 2002, p. 25.

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Europa depois de cumpridos os seus votos. Os guerreiros que ficavam na Terra Santa eram poucos e localizados em algumas cidades fortificadas deixando os peregrinos a mercê de saques e outros tipos de violência ao longo do caminho. Em 1119, cientes desta situação alguns cavaleiros da cruzada resolvem prolongar o seu voto, e passam a dedicar suas vidas à defesa dos peregrinos. São pioneiros e fundadores dessa iniciativa os cavaleiros Hugues de Payns e seu companheiro Geoffroy de Saint-Omer.26.

Naquele momento a criação da Ordem dos “Pobres Cavaleiros de Cristo” – nome que escolheram para identificar ao grupo que formavam – era uma manifestação de um sentido de adaptação, da preocupação em atender as necessidades do momento, uma característica, segundo Régine Pernoud, recorrente nas fundações de ordens religiosas durante o “período feudal”: já existia na Terra Santa outra ordem religiosa (não militar, ainda) destinada a amparar e acolher os peregrinos – os “Hospitalários”27. A Ordem dos Cavaleiros do Templo, que surgiu para atender a necessidade de segurança dos peregrinos busca o reconhecimento papal. Então, em 1127 o seu fundador Hugues, oriundo de Payns na Champanha, retorna ao Ocidente e vai a Roma solicitar ao papa Honório II o reconhecimento oficial e consegue também o apoio de São Bernardo. E em 1128 no concílio de Troyes, Hugues de Payns faz o relato da fundação da Ordem e pede a Bernardo de Clairvaux – que viria a ser canonizado como São Bernardo – que faça a redação de uma Regra para a nova Ordem. A Regra é discutida e aprovada nesta ocasião e a partir de então está oficializada a ordem monástico-militar do Templo28.

Pernoud acredita que se buscarmos apenas o viés militar da Ordem do Templo, teremos um entendimento incompleto do fenômeno e isso embaçaria nosso olhar impedindo-nos de

[...] ver bem o que ela tem de mais quotidiano e de mais eficiente: a defesa e a proteção dos peregrinos, para as quais a Ordem foi fundada. [...]. Essa

26 PERNOUD, Régine. Os Templários. Lisboa: Publicações Europa-América, s/d, p. 13-14. 27 ibid., p. 15.

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obrigação de cada dia fazia deles combatentes sempre em pé de guerra e dispostos a irem até onde a defesa do reino de Jerusalém o exigisse29.

A necessidade de defesa e proteção dos peregrinos na Terra Santa assumida como obrigação pelos cavaleiros do Templo fazia com que fossem considerados, pelos seus contemporâneos, como a solução ou, uma das soluções a esse problema espinhoso, a defesa militar dos lugares santos, tanto na Terra Santa como na Península Ibérica, com a reconquista do território. Em ambos os cenários, os esforços daqueles cavaleiros atraíam “[...] as doações de fiéis, começando pelos países limítrofes [na Península Ibérica] e, em breve, em todo o Ocidente. [...]”30. Com o reconhecimento da importância templária, grande foi o volume de doações para a nova Ordem,

[...] dá-se aos Templários uma terra, um domínio abandonado, algumas pastagens, as rendas de uma dízima, os direitos sobre servos ou camponeses da região, etc. Doações, por vezes, ínfimas [...]; por vezes, mais importantes [...]31.

Assim, iam se formando uma “poeira de feudos” fazendo do comendador da Ordem um senhor feudal. Nesse movimento iria sendo constituída a fortuna do Templo com a multiplicação das comendas32 de sua propriedade, atingindo o número de nove mil comendas à época de sua supressão33.

O patrimônio templário era formado dessas receitas ordinárias e também das chamadas receitas extraordinárias - como os testamentos feitos ao seu favor – que permitiam-lhes manter a milícia em permanente estado de combate, equipá-la, construir castelos e fortalezas e outras ações necessárias ao cumprimento de sua

29 PERNOUD, Régine. Os Templários. Lisboa: Publicações Europa-América, s/d, p. 65. 30 ibid., p. 99.

31 ibid., p. 100.

32 Comenda é um benefício, em geral financeiro, que era concedido a eclesiásticos e cavaleiros de

ordens militares; podia remeter ainda a uma porção de terra doada oficialmente como recompensa por serviços prestados, ficando o beneficiado com a obrigação de defendê-la de inimigos. Atualmente refere-se a uma distinção honorífica dada a personalidades que de algum modo contribuem para o engrandecimento da sociedade, seja por seus trabalhos ou influência social, política ou econômica.

(27)

missão de proteção aos peregrinos e combate ao “Infiel”. Foram essas receitas extraordinárias pontos de tensão e atrito entre a Ordem do Templo e o clero secular, principalmente no século XIII34.

Além dessas receitas ordinárias e extraordinárias, outra atividade desenvolvida pelos templários – que segundo Pernoud poderia estar na raiz da animosidade de Felipe, o Belo com o Templo – é a atividade econômica da Ordem como “banqueiros”. Esta atividade era comum entre as ordens religiosas da Idade Média. Era usual as pessoas confiarem seus bens às igrejas ou abadias doarem seus bens em troca de proteção e segurança ou mesmo entregar-lhes joias, pratas e outros bens de valor em depósito - sem renunciarem a propriedade. Assim, o tesouro das abadias e igrejas funcionavam como hoje seriam os cofres de um banco. Era uma forma de a população deixar à guarda de pessoas honestas daquelas instituições que eram invioláveis aos olhos dos homens daquele tempo35.

Essa qualidade de depositário de bens alheios e sendo a Ordem do Templo uma instituição com ramificações no Ocidente e na Terra Santa, é de grande importância porque

[...] permitia aos cruzados obterem, na Terra Santa, moedas ou gêneros, em troca de uma atestação dos depósitos efectuados nas tesourarias de Paris, de Londres, etc. Isso representava o embrião [...] do que viria, mais tarde, ser a letra de câmbio, ou o cheque recebido sobre um depósito. Quanto à transferência propriamente dita das moedas e espécies, o Templo, ordem militar, que dispunha [...] de navios próprios estava, evidentemente, mais qualificado para a efectuar com toda a segurança do que simples particulares, nem que se tratasse de senhores36.

Para Régine Pernoud, estaria esse desenvolvimento das atividades financeiras do Templo no bojo das rusgas entre a Ordem e o rei da França que contribuíram para a perseguição do rei francês aos templários e esta perseguição culminou com a supressão da Ordem do Templo37.

34 PERNOUD, Régine. Os Templários. Lisboa: Publicações Europa-América, s/d, p. 113-114. 35 ibid., p. 114-115.

36 ibid., p. 115-116. 37 ibid., p. 116.

(28)

No que toca à Ibéria, além da proteção dos peregrinos da Terra Santa, Régine Pernoud acredita que em relação aos feitos militares da ordem templária, devemos procurá-los na Península Ibérica:

No que se refere aos feitos de armas propriamente ditos, o mais antigo de que tenhamos conhecimento, de maneira bastante estranha, não ocorreu na Terra Santa, mas sim em Portugal [...]. A reconquista da Espanha e de Portugal suscitava as mesmas iniciativas que a dos lugares santos [...]38.

E conforme trabalho de Isabel Morgado Silva, destacamos a atuação das ordens religioso-militares na península Ibérica, onde

[...] exerceram uma actuação ímpar no contexto Peninsular, e neste caso concreto, em Portugal, onde sabemos terem desenvolvido a sua actividade as ordens de cavalaria do Templo, posteriormente transformada na Ordem de Cristo, do Hospital, de Avis e de Santiago, que na proporção do seu empenho, foram recebendo inúmeros privilégios, isenções e extensas doações territoriais, dando origem a vastos senhorios, que, inteligentemente administrados, representavam de facto potentados político-económicos-sociais, tanto a nível interno, como também a nível externo, muito concretamente no âmbito da Península Ibérica39.

Rubem Barboza Filho em seu livro “Tradição e Artifício – Iberismo e Barroco na

Formação Americana” e em particular, no capítulo III desta obra, “A constituição histórica da Ibéria medieval”40, faz uma recuperação bastante factual da formação medieval da Ibéria, momento em que a Ibéria, segundo este autor, realiza opção definitiva pelo Ocidente:

Em 1492, Fernando e Isabel completam a saga da Reconquista, ocupando o reino de Granada. [...]. Para os espanhóis do início da Idade Moderna, é com os visigodos que começa a sua história, após a ruína do Império Romano. Ou melhor, é com o reino visigótico da Hispânia, paramentado pela inspiração de Isidoro de Sevilha, que tem início a longa marcha que levou os ibéricos a se transformarem nos mais aguerridos defensores da fé católica nos séculos XVI e XVII41.

38 PERNOUD, Régine. Os Templários. Lisboa: Publicações Europa-América, s/d, p. 65-66.

39 SILVA, Isabel Luísa Morgado de Sousa e. A Ordem de Cristo durante o Mestrado de D. Lopo Dias

de Sousa (1373?-1417). In: FONSECA, Luís Adão da (direção). As Ordens Militares do Reinado de D. João I. Revista Militarium Ordinum Analecta, nº 1. Porto: Fundação Eng. António Almeida, 1997, p. 22.

40 BARBOZA FILHO, Rubem. Tradição e Artifício – Iberismo e Barroco na Formação Americana,

Belo Horizonte: Ed UFMG; Rio de Janeiro: IUPERJ, 2000, p. 105 et seq.

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Para Rubem Barboza Filho, foi a partir do ano de 1075, quando ocorre a reforma Gregoriana e o apelo papal por uma Cruzada contra os infiéis, que o avanço cristão passa a atender ao princípio da Reconquista como Guerra Santa. [...]42.

A guerra contra os muçulmanos era uma obra comum dos reinos de Castela, Aragão, Portugal e Navarra que os unificava sem transformá-los em uma unidade política e foi a guerra de Reconquista “um movimento profundamente dramático, mobilizador e decisivo para os ibéricos e para a configuração da Península nos séculos XII a XV”43.

Barboza Filho descreve a formação desses reinos - Castela, Aragão, Navarra e Portugal - e suas tensões internas entre os interesses da coroa e da nobreza. Sobre o “nascimento” de Portugal Barboza Filho acredita que “[...] só pode ser entendido nas circunstâncias do jogo de poder no interior da nobreza ibérica, não correspondendo, inicialmente, a nenhum sentimento ‘nacional’ específico por parte de uma população [...]”44 e ao recuperar a História da Península Ibérica em sua obra, Barbosa Filho, pretende

[...] fornecer, de forma limitada, uma seqüência de eventos capaz de justificar a afirmação da particularidade da Ibéria no contexto da Europa e da Cristandade. Sua atuação nos séculos XVI e XVII não pode ser desligada de uma autopercepção de “fronteira móvel” da Cristandade e do Ocidente. Mas esta capacidade de expansão demonstrada sobretudo por Castela, Aragão e Portugal é subitamente desafiada por acontecimentos inesperados. A Coroa de Castela e Aragão passa às mãos dos Habsburgos, com suas pretensões de um Império universal, e a Ibéria tropeça em novos mundos ao procurar o caminho para a Índia e a Ásia. Simultaneamente, deflagra-se o cisma protestante, e o tradicional compromisso da Ibéria com uma Cristandade é reaquecido. A Ibéria passa a operar no epicentro de uma crise de enorme magnitude, submetendo suas premissas históricas e civilizacionais a um duro teste45.

Barboza Filho, cita Norbert Elias, para quem

[...] a autoconsciência do Ocidente durante a Idade Média, coincidia com a cosmovisão do catolicismo romano, ou do cristianismo centrado em Roma.

42 BARBOZA FILHO, Rubem. Tradição e Artifício – Iberismo e Barroco na Formação Americana,

Belo Horizonte: Ed UFMG; Rio de Janeiro: IUPERJ, 2000, p.126.

43 ibid., p.127-128. 44 ibid., p.132-133. 45 ibid., p.141.

(30)

Fazer-se Ocidente nesta perspectiva, significava para a Ibéria realizar uma escolha simultaneamente religiosa, política e cultural [...]46.

Assim, a Ibéria, ao assumir o protagonismo dessa Guerra Santa ou de uma cruzada longa e sistemática contra o Islã conduzida em nome da cristandade e santificada pelo papa, torna-se Europa e Ocidente e

[n]este momento, ela deixa de ser a borda esquecida e perdida do cristianismo e passa a ser mais do que a tradição visigótica podia lhe oferecer. A partir dos séculos X e XI, [a Ibéria] transmuta-se na fronteira aguerrida e militante do cristianismo – como quer Braudel – ou, o que é a mesma coisa, na vanguarda guerreira do Ocidente47.

Assumindo essa condição de “fronteira” da Cristandade

[...].a cruzada ibérica deixa de se organizar como sucessão irregular de empreendimentos guerreiros para adotar o estatuto de guerra sistemática contra um inimigo extremamente próximo. A mobilização para a guerra em nome da religião torna-se uma espécie de segunda natureza para os ibéricos, adequada ainda para resolver grande parte de seus conflitos internos. A hidalguia expressa com perfeição esta tendência e este compromisso permanente com uma tarefa política, cultural e sobretudo religiosa48.

Barboza Filho, acredita que

[u]m Ocidente em reorganização acolhe a Ibéria, integrando-a à cristandade e conferindo-lhe uma missão providencial. Uma Ibéria também em reorganização adere ao Ocidente para se consolidar e restaurar a antiga mística visigótica de defensores fidei. [...] a Ibéria [...] [s]eja olhando para a sua origem, seja focalizando a sua refundação ocidental, estará sempre identificada com o cristianismo e seus valores, obrigada durante certo tempo a vivê-los com radicalidade e sempre misturando-os aos seus objetivos político e econômicos. Este intenso modo de viver as premissas do cristianismo medieval fez a Ibéria original. Interpelada pelo Ocidente, ela exerceu escolhas entre as linhas de conflito que marcaram a história da Europa, e sua especificidade só pode ser inteiramente capturada pela determinação das modalidades sucessivas e competitivas de vida cristã, dos conjuntos diferenciados de pressupostos apresentados e desenvolvidos pela Idade Média da Cristandade49.

Em suma, nos quase duzentos anos de existência, a ordem dos templários esteve presente na Terra Santa e espalhada por toda a Europa, acumulando grande patrimônio oriundo do transporte de peregrinos para Terra Santa e, principalmente,

46 BARBOZA FILHO, Rubem. Tradição e Artifício – Iberismo e Barroco na Formação Americana,

Belo Horizonte: Ed UFMG; Rio de Janeiro: IUPERJ, 2000, p.143.

47 ibid., p.144. 48 ibid., p.146. 49 ibid., p.146.

(31)

das doações recebidas. Quando no ano de 1308, pela Bula Regnans in coeli de Clemente V em 12 de agosto que informava aos príncipes do Ocidente sobre o processo com vistas à extinção dos templários e a Bula Callidi Serpentis vigil, de dezembro do mesmo ano, pela qual ordenava a prisão dos templários lusos50, era a Ordem dos Cavaleiros do Templo de Salomão responsável por grandes extensões de terra por toda a Europa e Portugal, em particular.

1.3 Uma criação por estratégia da coroa portuguesa

A imbricação e a importância da Ordem de Cristo com e para a coroa portuguesa pode ser identificada no documento Definições e Estatvtos dos Cavalleiros & Freires

da Ordfem de N. S. Iefu Chrifto, com a hiftoria da origem, & principio della51

impresso em 1628, em Lisboa, sob a responsabilidade, conforme informa em sua capa, do impressor do Rei, Pedro Craesbeeck com licença do Tribunal da Santa Inquisição. A publicação versa sobre a fundação, estatutos e normas da Ordem de Cristo a partir de sua “substituição” aos templários, compilando e normatizando todo o proceder da Ordem bem como narrando a sua gênese.

Com a extinção da Ordem do Templo e a pretensão de transferir os seus bens para a Ordem do Hospital, o Papa Clemente V encontrou a resistência do rei português D. Dinis, que percebeu nesta transferência dos bens templários um grande perigo para a soberania portuguesa porque ocorreria uma concentração de grande parte do território português sob controle dos Hospitalários que, á época, eram subordinados

50 SILVA, Isabel Luísa Morgado de Sousa e. A Ordem de Cristo durante o Mestrado de D. Lopo Dias

de Sousa (1373?-1417). In: FONSECA, Luís Adão da (direção). As Ordens Militares do Reinado de D. João I. Revista Militarium Ordinum Analecta, nº 1. Porto: Fundação Eng. António Almeida, 1997, p.22-23.

51 Definições e Estatvtos dos Cavalleiros & Freires da Ordfem de N. S. Iefu Chrifto, com a hiftoria da

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ao grão-comendador da Hispânia que residia em Castela ou em poder do Papa em Avignon sob influência direta de Filipe, o Belo52.

Em seu esforço para evitar a perda dos bens e senhorios templários, conforme Maria Cristina Ribeiro de Sousa Fernandes, D. Dinis procura manifestar os direitos régios com argumentos que à Ordem do Templo fora doado apenas o uso perpétuo das terras e estas continuariam pertencendo a coroa portuguesa. Somado a essa tentativa dos argumentos, D. Dinis busca apoio em aliados ibéricos

[...] estabelecendo pactos de aliança com Fernando IV, rei de Leão e Castela, no ano de 1310, e com Jaime II, rei de Aragão, em 1311. Estes tratados acabariam por se revelar muito positivos já que permitiram obter da Santa Sé a isenção de entrega dos bens templários existentes na Península Ibérica à Ordem do Hospital, sendo estes canalizados para o combate aos infiéis que constantemente atacavam a costa portuguesa. Esta acção de D. Dinis constitui uma hábil resolução que, diplomaticamente, soube conservar as riquezas de uma Ordem extinta através da criação de uma outra, a Ordem de Cavalaria de Jesus Cristo53.

A partir da discordância de D. Dinis, em 1310 o Papa Clemente V determinou a realização de novo Concílio para investigar os templários ibéricos. Ocorreram duas assembleias, uma em Medina Del Campo e outra em Salamanca – em ambos os Concílios, nada foi encontrado contra os Cavaleiros e a decisão foi delegada ao Papa. Procurando defender-se de medidas desfavoráveis ao seu reino vindas do Papa, D. Dinis aliou-se ao reino de Castela – Fernando IV era seu genro - para defender os bens templários em seus respectivos territórios o que provocou um recuo de Clemente V ao excetuar a transferência dos bens templários para a Ordem do Hospital nos reinos de Castela, Aragão, Portugal e Maiorca54.

52 COSTA, Ricardo da. D. Dinis e a supressão da Ordem do Templo (1312): o processo de formação

da identidade nacional em Portugal. In: Cultura e Imaginário no Ocidente Medieval. Arrabaldes – Cadernos de História. Série I. Niterói: Universidade Federal Fluminense, 1996. Disponível em http://www.ricardocosta.com/artigo/d-dinis-e-supressao-da-ordem-do-templo-1312-o-processo-de-formacao-da-identidade-nacional-em, acesso em 30/11/2014, p. 2-4.

53 FERNANDES, Maria Cristina Ribeiro de Sousa. A Ordem do Templo em Portugal: algumas

considerações em torno de fontes para seu estudo. In: Revista da Faculdade de Letras- História. III série, vol. 8. Porto, Faculdade de letras da Universidade do Porto, Jorge Fernandes Alves (coordenador), 2007, p.412.

54 Definições e Estatvtos dos Cavalleiros & Freires da Ordfem de N. S. Iefu Chrifto, com a hiftoria da

origem, & principio della. Lisboa:Por Pedro Craesbeeck, impreffor del Rey, Anno M.DCXXVIII, p. 53 e COSTA, Ricardo da. D. Dinis e a supressão da Ordem do Templo (1312): o processo de

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No Papado de João XXII são aceitas as argumentações dos procuradores do Reino de Portugal e é criada, em 1319, uma nova ordem religioso-militar – a Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo - que recebe os bens da Ordem do Templo e é comandada pelo seu primeiro Mestre Gil Martins que era Cavaleiro professo e Mestre da Ordem de São Bento de Avis55.

Mesmo com a sua natureza e controle eclesiásticos, era grande a proximidade do mestrado da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo com a coroa portuguesa, proximidade essa que vinha desde a sua criação. Como vimos, a fundação da Ordem de Cristo foi fruto de negociações do rei D. Dinis com a Santa Sé para a manutenção do controle dos bens dos antigos templários em território luso. Era o mestrado da ordem uma “Dignidade” a ser alcançada por um processo de eleição normatizado pelas “Definições” (regimentos) da ordem. Conforme Isabel Morgado de Souza e Silva, já na bula de fundação da milícia exigia-se que o mestre da ordem, antes de assumir a dignidade, apresentasse-se ao rei para prestar-lhe “juramento e menagem”56.

Essa ligação entre a ordem e a coroa portuguesa ficou evidente a partir de 1420 quando o Infante D. Henrique foi nomeado o Mestre da Ordem e “[...] a designação para esta dignidade passou a ser feita expressamente pelo rei a que se seguia a confirmação papal [...]” “[...] e delle pera cá nunca mais se apartou este Mestrado do sangue Real”57. A imbricação coroa portuguesa e Ordem de Cristo avançou com a

formação da identidade nacional em Portugal. In: Cultura e Imaginário no Ocidente Medieval. Arrabaldes – Cadernos de História. Série I. Niterói: Universidade Federal Fluminense, 1996. Disponível em http://www.ricardocosta.com/artigo/d-dinis-e-supressao-da-ordem-do-templo-1312-o-processo-de-formacao-da-identidade-nacional-em, acesso em 30/11/2014, p. 3.

55 ibid., p. 54 e ibid., p. 4.

56 SILVA, Isabel Luísa Morgado de Sousa e. A Ordem de Cristo (1417 - 1521). In: FONSECA, Luís

Adão da (direção). A Ordem de Cristo (1417 - 1521). Revista Militarium Ordinum Analecta, nº 6. Porto: Fundação Eng. António Almeida, 2002, p. 46.

57 SILVA, Isabel Luísa Morgado de Sousa e. A Ordem de Cristo durante o Mestrado de D. Lopo Dias

de Sousa (1373?-1417). In: FONSECA, Luís Adão da (direção). As Ordens Militares do Reinado de D. João I. Revista Militarium Ordinum Analecta, nº 1. Porto: Fundação Eng. António Almeida, 1997. p. 47 e Definições e Estatvtos dos Cavalleiros & Freires da Ordfem de N. S. Iefu Chrifto, com a hiftoria da origem, & principio della. Lisboa:Por Pedro Craesbeeck, impreffor del Rey, Anno M.DCXXVIII, Título III, p. 61-62.

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eleição do seu décimo primeiro mestre o Duque Dom Manoel que, posteriormente a sua nomeação para a dignidade maior da ordem de Cristo, foi coroado rei D. Manuel I. A consolidação da ligação dos monarcas portugueses com o mestrado da Ordem de Cristo ocorreu no reinado de D. João III, que em 1522 foi eleito o décimo segundo mestre da Ordem de Cristo, quando já ocupava o trono português. A partir de D. João III, todos os demais mestres da ordem passaram a ser os soberanos do reino português. E em 1551, o Papa Júlio III uniu formal e definitivamente os mestrados das Ordens de Santiago, de Avis e de Cristo à coroa portuguesa58.

O processo de união dos mestrados das três ordens portuguesas à coroa foi um processo longo e progressivo que acompanhou o que ocorrera com seus vizinhos de Castela. Assim quando em 30 de dezembro de 1551 o Papa Júlio III sanciona a bula

Praeclara charissimi dando a união dos três mestrados à coroa portuguesa criou-se

um marco do desfecho de um processo com longos ensaios e constituído por apropriações paulatinas e progressivas sem se descuidar em observar o que antes tinha ocorrido com seus vizinhos de Castela que em 1523 alcançaram a mesma graça papal para a união de suas Ordens de Santiago, Calatrava e Alcântara, como sintetiza Fernanda Olival

[...] em meados de Quinhentos ter-se-á consumado um primeiro ponto de viragem, no que diz respeito à captação de novos expedientes, entre os quais se incluíam precisamente as Ordens Militares. Nessa altura, a Monarquia Portuguesa conhecia já, de longa data, as vantagens de tutelar directamente este tipo de instituições. Com efeito, desde 1495, quando D. Manuel, Duque de Beja, se tornou rei e manteve na sua mão o Mestrado de Cristo, permitira a Monarquia Portuguesa essa experiência com maior continuidade. Esta última terá sido de tal forma profícua que, cerca de um mês depois da morte de D,Jorge, Mestre das Ordens de Avis e Santiago, falecido a 22 de julho de 1550, D. João III obteve de Roma a administração vitalícia de mais estes dois Mestrados, concentrando os três na sua pessoa. Assim o estabelecia a bula, Regimini Universalis, de 25 de Agosto de 1550. Em Castela, o processo de

58 Definições e Estatvtos dos Cavalleiros & Freires da Ordfem de N. S. Iefu Chrifto, com a hiftoria da

origem, & principio della. Lisboa:Por Pedro Craesbeeck, impreffor del Rey, Anno M.DCXXVIII, Título III, p. 62-63. A nomeação de Dom Manuel I para Mestre da Ordem de Cristo é anterior a sua coroação como rei de Portugal quando era ainda Duque. A formalização da nomeação do rei de Portugal como mestre da ordem de Cristo ocorre com Dom João III. Efetivamente a partir de D. Manuel I todos os reis de Portugal foram mestres da ordem de Cristo, mas de forma homologada pelo papa isso ocorre a partir do rei D. João III.

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Referências

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