CINCO
CASOS DE
MAUSTRATOS
A CRIANÇAS POR
DIA
•Pai
de bebé de
4
meses
que
morreu
vítima
de
várias
queimaduras
fica em prisão
preventiva
•Autópsia
confirma
Comissões
de
proteção de
crianças
e
jovens
abriram
1732
processos
em
2013
por
agressões
•
Profissionais
querem
saber
o
que falhou no
caso
da bebé
de
Marvila
CINCO
CASOS
POR
DIA
ABERTOS
POR
MAUS-TRATOS
FÍSICOS
Cina Pereira
No
ano passado, as305
co-missões deproteção deme-nores abriram 1732
proces-sospor maus-tratos físicos,
uma média decinco casos
por
dia. AProteção deMe-nores quer saber oque fa-lhou em
Marvila.
A
maior
parte
doscasos de maus-tra-tosfísicos que mo-tivaram aabertura de processos ocorreram em
contexto deviolência domés-tica (43,4% ) eoescalão onde
se registaram mais casos foi
entre os 11 e os14 anos
(503)
nodos 6aos 10anos (494). Nocaso das crianças até aos 5
anos, foram abertos 398
pro-cessos, sendo que 40,7%
cor-responderam acrianças com menos de dois anos, como foi
o caso da pequena Leonor, a
bebé de4meses que morreu,
sábado, em
Marvila, vítima
de queimaduras de águaa
fer-ver
e quejá
seriasujeita
amaus-tratos há algum tempo
(ver texto aolado).
Os
números
dorelatório
anual de atividade da
Comis-são Nacional de Proteção de Crianças eJovens em Risco
(CNPCJR)
revelam
que osprocessos por
maus-tratos
têm vindo
abaixar
desde2007,passando de 8,9% para 5,5% dototal no anopassado.
Contudo, são ainda a sexta
principal razão dos processos
abertos, que são liderados
pela exposição a
comporta-mentos desviantes epela
ne-gligência (ver infografia).
Teresa Montano, psicóloga
clínica
emembro
daCNPCJR,
admite
que onú-mero de casos sinalizados é
sempre "a ponta do
iceber-gue", mas nota que o
núme-ro de pnúme-rocessos instaurados
tem vindo
aaumentar
(fo-ram 30344
em 2013, mais 1195 do que no ano anterior),o que
indica
que háuma
maior sensibilidade para esta
problemática. A diminuição
do número deprocessos por
maus-tratos físicos "pode ser
um
indicador de que aspes-soas estão mais informadas e
conscientes deque o recurso
àpunição física écrime".
Nocaso de Leonor, que terá sido maltratada pelo próprio
pai, Teresa Montano defende que "é preciso perceber oque
falhou eporquê". "Estes
ca-sos,
infelizmente
trágicos, devem serum
ponto departi-da para que seavalie profun-damente oque éque não fun-cionou eservir para
melho-rar, porque não há sistemas
perfeitos",
diz,admitindo
que neste caso havia "vários fatores de risco"
-
como ofac-to de opai
ter
estado desem-pregado ou de amãe ser ale-gadamentevítima
de violên-cia-
que deveriamter feito
soaroalarme junto docentro de saúde ou das técnicas do
Rendimento Social de
Inser-ção que seguem afamília.
Os próprios vizinhos, que agora dizem que já antes
ti-nham ouvido acriança chorar,
também não alertaram
nin-guém. "Por ignorância emedo derepresálias, hámuito receio de denunciar ", diz atécnica.
Manuel Coutinho,
responsá-vel
pelalinha
SOS Criança(número gratuito 116111),diz
que "o quefalhou foi coragem
àspessoas que conheciam a
si-tuação para adenunciar. Seo
tivessem feito, odesfecho
se-ria outro".
"Na dúvida, é
melhor
de-nunciar, correndo o risco de não ser nada, do que nada
fa-zeredeparar-se com
um
des-fecho trágico", diz.
•
QUANDO
UMA
MORTE
SERVIU
PARA
MUDAR
A
LEI
?A
morte
deVictoria
Clim-bié, de 8 anos, a25de feve-reiro de
2000, em
Londres,vítima
demaus-tratos e abusos sexuais porparte
datia,
com quemvivia,
e docompanheiro, acabou por
dar lugar agrandes
mu-danças nas políticas
deproteção da
in-fância. A
menina,
Ánatural
daCostafIH
do
Marfim, foi vi-
SB
tima
demaus-tra-tos durante
muito
tempo, sem quea
escola, aigreja eas
vá-rias entidades que com ela
secruzaram dessem conta.
Morreu vítima
dehipoter-mia (foi
obrigada adormir
nua numa banheira cheia
de água) edesnutrição, apresentando 128
cicatri-zes e
ferimentos
espalha-dos pelo corpo. No
julga-mento,
que condenou osagressores aprisão
perpé-tua,
ojuiz
classificou de"incompetência cega" a
forma
como todos falha-ram, oque acabou pormotivar um
inqué-rito
que levou àÍ^
criação daLeidaH
Criança, em m2004, ede
váriosI
programas de apoio. Em Portu-*¦ gal, osistema ébem visto, mas reco-nhece-se que é preciso
me-lhorar
aarticulaçãoentre
entidades, mais formação
dos profissionais,
magis-trados especializados ea
deteção precoce da
falta
deREPORTAGEM
Maus-tratqs
agravados
e
violência
doméstica
ditam cadeia. Moradores
espantados
com agressões.
Arguido
não
se
terá apercebido
da
temperatura
da água
para o
banho
da bebé.
Mãe
nunca
tinha
feito queixas nem
à
PSP
nem
à
PJ. poncarios
varela
Pai
"cordeirinho"
fica
preso
suspeito
de
matar
a
filha
QQ I "n
areciaumcordei-I
) rinho
e,afinal,
r""^
sempre matou a_l_
bebé".
Aspala-vras são do
proprietário
deum café daRua do Vale
For-moso, em
Marvila,
Lisboa,perto da casa onde morreu a
menina de quatro meses em
água aferver. O comerciante soube pelo JN damedida de
coação de prisão preventiva, ontem determinada pelo
Tri-bunal, contra
Mário,
de30
anos, indiciado por
maus-tra-tos agravados pela morte da
filha, Leonor, eviolência do-méstica.
O advogado deMário, Antó-nio Catraia, não quis explicar
oporquê da mais gravosa
me-dida de coação.
Depois de ser conhecida aquela decisão do
juiz,
nãofaltava entre os vizinhos de
Mário
quem não estivessesurpreendido com asua
con-duta. Era conhecido como um"fala-barato", com pouco crédito, gastador sempre que
tinha
algum dinheiro. Mas,em relação aos filhos e
mes-mocom amulher, Paula, nin-guém suspeitava deviolência doméstica. Dúvidas apenas
as
tinham
uma vizinha, Car-la Fria, que prestouontem
declarações ao JN, e
outra,
que pediu oanonimato.
Mesmo emrelação a
um
ou-tro filho de Paula, de
um
an-terior casamento ecuja
guar-da acabou porseratribuída ao
pai, agente da PSP que
che-gou a
conviver
comMário,
não havia suspeitas de maus-tratos. "Lembro-me da
meni-na
vir
aqui à mercearia comele. Tratava-o
muito
bem",contou acomerciante, Espe-rança Rebelo. "A menina até
otratava por 'pai Mário'.
Vi-nhaaí com ela àscavalitas".
Mário também era conheci-do por gostar de "bom vinho"
eno próprio dia em ocorreu o
crime comprou num
lecimento da zona "duas
gar-rafas", uma debranco eoutra de
tinto.
"Ele atécomentou edestacou isso", contou, aoJN,
uma testemunha, que pediu
oanonimato.
Horas depois, dava banho à
filha e,segundo contou às
au-toridades, fazia-o habitual-mente, só que aágua estava a
ferver enão terá dado conta. Amorte surgiu como resul-tado do gesto, mas o
Institu-to de Medicina Legal
(IML)
verificou também, durante aautópsia, aexistência de
he-matomas no corpo da bebé,
sinais de maus-tratos
recen-tes, mas outros
também
jácom algum tempo, oque faz
pressupor a
existência
deagressões continuadas.
Jáquanto àeventual
presen-çade álcool na criança, fonte
do
IML
garantiu, aoJN, que, "nesta fase, éimpossível che-gar aqualquer conclusão. Hámuitos testes ainda afazer".
Já Paula, mãe da
criança
morta, nunca fez queixa das
agressões
contra
osfilhos
nem da violência doméstica de que seria
vítima,
segundoconfirmaram fontes daPSPe
daPJ, aoJN,uma atitude que está adeixar muita gente
es-pantada em Marvila.
•
Tragédia surpreende
e
choca
bairro
INCREDULIDADE e
estupe-fação.
"Nem
acredito. Não podeseramesma pessoa. Era educado, falava bem e,porvezes, até parecia um
intelec-tual". A reação de
um
dosco-merciantes vizinhos do
res-taurante "Salsa eCoentros", no Bairro de Alvalade, em Lis-boa, onde Mário trabalhava, ouvido pelo JN, mas que não
sequis identificar, eradetotal
espanto e surpresa pelo
pos-sível envolvimento na
tragé-dia da pessoa com quem se
cruzara emvárias ocasiões.
O pai do bebé de quatro
me-ses, que morreu no domingo,
na sequência de
queimadu-rasprovocadas por água a
fer-ver, foi também
por vezes visto apassear na zona comos filhos e aesposa.
O choque égeral e otema
conversa obrigatória nos
es-paços
comerciais
daquela
área, emfacedasnotícias
pu-blicitadas
ontem
demanhã.Oanonimato
foi
sempre exi-gido, mastambém houve
quem estranhasse o estilo
pausado e demasiado
elo-quente do indivíduo, de 30
anos.
Mário
trabalhava há cerca de dois meses comoempre-gado desala, naquele
restau-rante. Garantira oemprego
através do
Instituto
deEm-prego.
Oestabelecimento,
habi-tualmente
frequentado porpolíticos, empresários, atores
eaté por estrelas da música
-Mick
Jagger, líder do Stones,jantou
ali durante oúltimo
"Rock in
Rio"-
,encontra-se de férias e só reabre nospri-meiros dias de setembro,
al-tura emque o alegado
agres-sor, agora em prisão preven-tiva, jánão deverá voltar. l.a.