HIERARQUIA DE VALOR: APLICAÇÃO DE UM MODELO DE AVALIAÇÃO EM UM EMPREENDIMENTO DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL

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HIERARQUIA DE VALOR: APLICAÇÃO

DE UM MODELO DE AVALIAÇÃO EM

UM EMPREENDIMENTO DE

HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL

Julliano Falcao Ribeiro (UFBA) jullianof@gmail.com Amanda Nogueira Santos da Cunha (CESUMAR) amandacunhaufba@gmail.com

A Habitação de Interesse Social entende-se por empreendimentos voltados para atender beneficiários de baixa renda através de programas habitacionais desenvolvidos pelo poder público. Segundo o IBGE, em 2012, no Brasil havia a necessidade de se construir 5,3 milhões de novas moradias de baixo custo em um curto espaço de tempo. Por se tratar de recursos públicos, os benefícios devem ocorrer de forma duradoura, gerando satisfação, ou seja, percepção de valor para o público atendido. Valor pode ter o seu significado interpretado por diversas disciplinas e basicamente é expresso em relação a algo, portanto por meio de comparação, o que permite realizar sua quantificação. A hierarquia de valor é uma técnica no processo de desenvolvimento de produtos que permite identificar os valores percebidos pelos consumidores ou usuários, bem como o potencial que determinados produtos têm de atender a tais valores por meio dos seus atributos. O objetivo desse trabalho foi aplicar um modelo de avaliação de empreendimentos de habitação de interesse social com foco na hierarquia de valor, onde se buscou relacionar a percepção da satisfação dos clientes finais com os atributos de projeto do produto habitação, verificando a geração de valor. O estudo foi realizado em um empreendimento voltado para famílias de baixa renda concebido no âmbito do Programa Minha Casa, Minha Vida do Governo Federal na cidade de Salvador. Com a aplicação do modelo foi possível construir uma hierarquia de valor do EHIS. Os resultados da pesquisa apontaram o atributo localização do empreendimento como ponto crítico do produto, gerando níveis de insatisfação dos clientes finais. A avaliação revelou um grau significante de satisfação dos beneficiários com a maioria dos atributos de projeto referentes à unidade habitacional e espaços de uso comum. Ao final do trabalho concluiu-se que o modelo utilizado adaptou-se de forma satisfatória a proposta inicial e contribuiu com possibilidade de utilização dos resultados no

processo de tomada de decisão e melhoria de futuros

empreendimentos.

Palavras-chave: Empreendimentos habitacionais de interesse social, valor, hierarquia de valor, produto habitacional

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2 1. Introdução

A política habitacional de interesse social enfrenta a necessidade de se construir um grande número de unidades habitacionais, de baixo custo, em um curto espaço de tempo, superando o paradigma de que a incorporação da inovação tecnológica é seguida pela diminuição da qualidade (ABIKO, 1995). Por se tratar de recursos públicos envolvidos nos programas habitacionais, é importante ressaltar a necessidade dos benefícios ocorrerem de forma duradoura, gerando satisfação e percepção de valor para a população atendida. Segundo Pandolfo (2001), o projeto adequado para produção de Empreendimento Habitacional de Interesse Social (EHIS) deve garantir, além da infraestrutura física e urbana, todas as características relacionadas ao bem estar físico e psicológico dos beneficiários, incluindo as condições sociais de coexistência entre seus moradores. Para Koskela (2000), na análise das relações usuário-fornecedor, o valor é gerado pelo fornecedor para o usuário por meio do atendimento dos requisitos desse usuário. O mesmo autor afirma que a geração de valor ainda é um conceito compreendido e disseminado de forma insuficiente pelo setor da construção civil. No caso do produto habitação, considerando as características do objeto, o valor expressa a relação entre as necessidades das pessoas em habitar e a capacidade das iniciativas governamentais em satisfazer essas necessidades.

Na literatura, diversas são as definições de valor para o cliente ou usuário. Para Csillag (1995), valor real de um produto, processo ou sistema se expressa pelo grau de aceitabilidade de um produto pelo cliente, e, portanto, é o índice final do valor econômico. O valor de um produto, serviço ou processo é sempre uma entidade relativa e correspondente à combinação de diversos tipos específicos de valores e que podem variar de acordo com as suas condições locais e/ou temporais. Segundo Selig (2007) as funções da habitação devem ser entendidas como o objetivo de seus atributos: a função não é o atributo em si, mas o resultado a ser alcançado por sua existência. Função é definida como a característica de um item ou serviço que atinge as necessidades e desejos do comprador e/ou usuário (CSILLAG, 1995). Uma função de um produto ou serviço pode ser alcançada de diversas maneiras. Uma metodologia que busca a melhor forma e o menor custo para atingir uma função é a análise do valor (SELIG, 1993).

Análise de valor, tema deste trabalho, é um conjunto de técnicas de abordagem sistêmica que considera a globalidade dos setores técnicos, produtivos, administrativos, financeiros e de

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3 mercado sob o prisma do conceito de “valor”, independentemente do tipo de produto ou serviço (PEREIRA, 1994). Essa metodologia pode ser aplicada também no âmbito dos empreendimentos habitacionais de interesse social (HIS). Dessa forma, as singularidades do produto HIS podem ser expressas por meio das características próprias da construção civil e da complexidade de possibilidades e relações que apresentam com os usuários/beneficiários da HIS e com o espaço sócio geográfico. Diante da natureza complexa do produto Habitação de Interesse Social, em longo prazo, a realização de avaliações nos empreendimentos pode conduzir a melhores definições nas soluções de projeto e, em última análise, a melhores resultados.

O objetivo deste trabalho é aplicar um modelo para a avaliação da hierarquia de valor em um empreendimento de habitação de interesse social na cidade de Salvador/BA a partir da percepção de usuários, buscando vincular a satisfação dos beneficiários finais em relação a atributos do produto habitação, com foco na geração de valor.

2. Hierarquia de Valor 2.1. Valor

O significado de valor pode ser interpretado sob a ótica de várias disciplinas, a filosofia, a economia, etc., além de ferramentas como o marketing. Segundo Csillag (1995), o primeiro conceito de valor foi citado por Aristóteles há mais de 2.000 anos, quando propôs as sete classes de valor: econômico, político, social, estético, ético, religioso e judiciário.

Um dos pontos fundamentais para compreensão da metodologia do valor é o conceito de Função. Pereira Filho (1994) descreve função como toda atividade que o objeto desempenha para atender à necessidade do usuário. Csillag (1995) cita três conceitos de função:

a) A característica a ser obtida do desempenho de um item, se o item realizar sua finalidade, objetivo ou meta. É a finalidade ou motivo da existência de um item ou parte de um item;

b) A característica de um item ou serviço que atinge as necessidades e desejos do comprador e/ou usuário;

c) A característica de desempenho a ser possuída por um item ou serviço para funcionar ou vender.

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4 O valor real de um produto, processo ou sistema é o grau de aceitabilidade de um produto pelo cliente. O valor depende tanto de condições locais quanto temporais. O valor real de um produto ou serviço é sempre uma entidade relativa e correspondente à combinação de tipos específicos de valores. Em geral, aumenta com maiores valores de uso e estima e diminui com o crescimento do valor de custo (CSILLAG, 1995).

Para Csillag (1995), valor pode ser melhorado relacionando a função ao custo, essa relação qualitativa, quando vista pelo fornecedor, pode ser expressa como:

Quando valor é visto pelo cliente, fica:

Em termos de Produto Habitacional, o valor exprime a relação entre as necessidades dos indivíduos em habitar e a capacidade do programa em satisfazer essa necessidade, considerando as características do objeto. É na análise desta relação que se constrói uma hierarquia de valores, segundo o gradiente de necessidades e a capacidade do programa, de forma genérica, e do produto habitacional em oferecer a utilidade, ou benefícios, que propõe (BUZZAR, 2009).

Lawrence D. Miles, um engenheiro de produto, foi pioneiro nos estudos sobre valor, seus primeiros trabalhos nesta área iniciaram ainda na década de 1940, quando recebeu a incumbência de estudar os custos das matérias-primas pela General Eletric, com a finalidade de reduzi-los devido a escassez provocada pela segunda guerra mundial (PEREIRA FILHO, 1994).

A ação dessa nova técnica voltava-se, sobretudo à pesquisa de novos materiais de custo mais baixo e de grande disponibilidade, que pudessem substituir outros mais caros e de custo mais elevado, durante os anos do conflito. Os estudos de Miles levaram a formulação de uma série de técnicas de análises em torno da ideia de focalizar estudos de produtos em termos de funções em lugar de peças ou componentes. Essa abordagem levou a resultados muito promissores, expandindo-se rapidamente para outras empresas e em órgãos governamentais, a princípios nos Estados Unidos e depois para demais regiões do mundo (CSILLAG, 1995).

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5 De acordo com Bonatto (2011), a definição de uma hierarquia de valor permite identificar os valores percebidos pelos consumidores ou usuários, bem como o potencial que determinados produtos têm de atender a tais valores por meio dos seus atributos. Entre os benefícios apontados pelo autor estão a possibilidade de entender o que os clientes querem e de guiar as tomadas de decisão sobre alterações e definições de produto pelas consequências e objetivos esperados por esses clientes. Essa abordagem muda à perspectiva sobre o desenvolvimento do produto, que, ao invés de ser ascendente, ou seja, pensada a partir dos atributos, é guiada de cima para baixo, a partir dos objetivos.

Figura 1 - Ciclo de geração de valor

Fonte: Adaptado de KOSKELA (2000)

Koskela (2000) afirma que o estudo do valor está vinculado à captação e à consideração dos requisitos dos clientes no processo de desenvolvimento produto. Nesse sentido o autor propõe um modelo cíclico de geração de valor na relação usuário-fornecedor (Figura 1), onde os requisitos dos clientes são traduzidos em valor. Nesse modelo, Koskela (2000) apresenta os principais fenômenos ligados ao fornecedor e ao usuário, relacionando-os com cinco princípios:

a) Princípio 1: Captura dos requisitos – assegurar que todos os requisitos do cliente, explícitos e latentes, tenham sido capturados;

b) Princípio 2: Fluxo de requisitos – assegurar que os requisitos relevantes do cliente estejam disponíveis em todas as fases de produção e que não sejam perdidos quando

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6 progressivamente transformados em soluções de projeto, planos de produção e produtos;

c) Princípio 3: Compreensão dos requisitos – assegurar que os requisitos do cliente influenciem todos os resultados (produto) e que seja levado em consideração todos os papéis do cliente (usuário);

d) Princípio 4: Capacidade do sistema de produção – assegurar a capacidade do sistema de produção para produzir produtos como especificado;

e) Princípio 5: Medição de valor – assegurar, através de medições, que o valor é gerado para o cliente/usuário.

Para Koskela (2000), os princípios estão relacionados ao controle em que as necessidades do usuário final estão sendo consideradas no processo de produção e desenvolvimento do produto, em nosso caso, da habitação.

De acordo com Miron (2008), para gerar mais valor para os clientes finais e demais agentes (empreendedores e financiadores) é necessário que os responsáveis pela concepção de empreendimentos da construção aprendam sobre as características destes empreendimentos de forma crítica e coletiva. O gerenciamento das atividades da etapa de concepção de empreendimentos habitacionais necessita de uma estruturação capaz de convergir os diferentes interesses existentes, sejam esses determinados pela legislação, por programas governamentais de incentivo à construção e ao desenvolvimento tecnológico ou pelas metas financeiras das empresas envolvidas. Este gerenciamento torna-se ainda mais complexo quando se trata do desenvolvimento de HIS.

4. Metodologia

O trabalho utilizou uma adaptação do modelo apresentado por Bonatto (2011). O autor propõe uma avaliação de empreendimentos de HIS a partir da percepção dos usuários e adaptável aos diferentes contextos dos programas habitacionais, com foco específico na geração de valor. O modelo tem como base a disciplina de desenvolvimento do produto e vincula os atributos às suas consequências de uso, além do objetivo esperado. Na base do modelo está o escopo do produto EHIS, definido pelo que compõe o empreendimento. Por ser o nível mais concreto, o escopo do produto é o mais fácil de ser identificado entre os níveis da hierarquia. O modelo

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7 para avaliação de empreendimentos de habitação de interesse social (EHIS) adota uma hierarquia de valor para o cliente final, conforme está ilustrado na Figura 2.

Figura 2 - Modelo para avaliação de EHIS baseada na hierarquia de valor

Fonte: Adaptado de Bonatto (2011)

A partir da identificação do escopo do produto são derivadas as consequências específicas do EHIS. Como os objetos das avaliações serem EHIS em uso, a avaliação dos empreendimentos visa obter dados relativos ao nível das consequências percebidas, fruto das experiências dos usuários, conforme sugerido pelo autor do modelo. A ferramenta propõe um conjunto de constructos para avaliações onde se busca identificar, a partir do escopo do produto, as consequências esperadas que possam guiar a avaliação. No âmbito dos programas habitacionais, em geral, os EHIS têm como objetivo máximo a melhoria da qualidade de vida dos usuários através da garantia de direitos básicos.

Para aplicação do modelo de avaliação no empreendimento de HIS selecionado, foi definida a amostra para coleta de dados no conjunto. A técnica de amostragem utilizada foi a aleatória simples com cálculo baseado em proporção, segundo a seguinte equação (CORREA, 2003):

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8 Onde,

a) é o tamanho da amostra;

b) é uma constante que corresponde ao valor crítico da distribuição Normal; c) é o tamanho da população;

d) é o erro máximo de estimação; e) a proporção.

A Tabela 1 apresenta os tamanhos de amostras necessários, de acordo com o erro amostral escolhido. Foi considerado como população no empreendimento apenas as unidades habitacionais ocupadas.

Tabela 1 - Amostras calculadas para coleta de dados nos empreendimentos

Empreendimento Número e tipo População (N) Amostra calculada (n)

Residencial Bosque das Bromélias I 340 apartamentos 159 113

Considerando que não existia estimativa prévia da proporção de nenhuma das variáveis de interesse, utilizou-se a proporção de 50%, que fornece o maior tamanho de amostra possível, garantindo o máximo erro amostral pré-determinado. Ainda, no cálculo do tamanho da amostra, considerou-se um nível de significância de 0,05 e erro de 10%.

Foi utilizado um questionário estruturado como instrumento de coleta de dado (em Anexo). Para analisar o grau de confiabilidade dos resultados obtidos na avaliação quantitativa foi aplicado o coeficiente alfa de Cronbach.

5. Resultados e discussões

O estudo foi realizado entre março e maio de 2014 no Residencial Bosque das Bromélias I, localizado na cidade de Salvador/BA. O empreendimento foi concebido no âmbito do Programa do Governo Federal Minha Casa Minha Vida e beneficiou famílias com renda de 0 a 3 salários mínimos. A avaliação quantitativa de satisfação, cujos resultados percentuais são apresentados na Tabela 2, explorou a percepção do nível de satisfação dos beneficiários quanto às características da unidade habitacional, do condomínio e seu entorno. Em relação ao

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9 teste de confiabilidade do instrumento de coleta, o coeficiente alfa de Cronbach foi de 0,76 para todo questionário, indicando uma consistência considerável.

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10 Uma análise integrada referente à satisfação dos beneficiários e às melhores e piores características do produto EHIS é apresentada na Figura 3. A hierarquia demonstrada através de linhas é resultado das relações diagnosticadas nas observações e citações qualitativas do questionário, além dos constructos avaliados.

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11 Figura 3 - Resultado final da avaliação do EHIS

Umas das relações identificadas, provavelmente uma das mais importantes, é o problema de acessibilidade ao transporte público no entorno do empreendimento. Segundo os resultados da avaliação, 88% dos beneficiários não possui nenhum tipo de veículo próprio, portanto, dependem exclusivamente do serviço público de transporte urbano. No levantamento qualitativo, os itens transporte e localização com 14% e 20%, respectivamente, estão entre os mais lembrados pelos entrevistados quando questionados sobre as piores características do empreendimento. A localização do condomínio divide opiniões dos moradores quanto ao nível de satisfação. Entre os usuários pesquisados, 36% afirmam estar satisfeitos ou muito satisfeitos com localização do empreendimento, 42%, afirmam estar insatisfeitos ou muito insatisfeitos. Em comparação com sua antiga moradia, 71% dos moradores dizem que a localização piorou. No conjunto de beneficiários que afirmaram desejo de mudar da atual moradia no futuro, a maioria, ou 51%, indicaram a má localização como motivo principal. O entorno do condomínio também é avaliado negativamente quando o parâmetro é a proximidade a serviços públicos (creches, escolas, postos de saúde e hospitais), cerca de 80%

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12 dos moradores disseram estar insatisfeitos ou muito insatisfeitos em relação a esse item. Quanto ao aspecto segurança no entorno do empreendimento, apesar de 48% dos entrevistados optarem pela neutralidade na opinião sobre o tema, mais de 1/3 dos moradores afirmaram estar insatisfeitos ou muito insatisfeitos. Para 17% dos moradores, a questão da violência na região da nova moradia está entre as piores características do EHIS. Apesar da maioria dos beneficiários do programa proceder de comunidades carentes ou ocupações irregulares, ao comparar o item segurança no entorno do EHIS com sua antiga moradia, 53% afirmaram que não houve impacto de mudança, 12% acreditam está pior o aspecto segurança. Entre os moradores que revelaram desejo de não permanecer no empreendimento, 22% apontaram a violência como principal motivo pela escolha.

Outro ponto destacável na avaliação se refere aos níveis relevantes de contentamento dos moradores quanto à adequação ao uso, a qualidade da construção e aparência dos espaços de uso comum do empreendimento. Na avaliação da satisfação, 70% disseram estar satisfeitos ou muito satisfeitos com as áreas de convivência, sensação semelhante para os itens quadra esportiva e parque infantil, com 71% e 67%, cada. A percepção de beleza do EHIS prevalece entre os moradores, 91% estavam satisfeitos ou muito satisfeitos com a aparência do condomínio e para 82% dos moradores esse aspecto melhorou em relação à antiga moradia. Resultado que pode ser relacionado com a expressiva parcela dos usuários satisfeitos ou muito satisfeitos quanto o acesso do empreendimento a infraestrutura e serviços urbanos de abastecimento de água, rede de esgoto e pavimentação das ruas, com 69%, 75%, 81%, nessa ordem. Uma exceção é verificada no item relacionado à portaria do condomínio, onde 34% disseram estar insatisfeitos ou muito insatisfeitos.

A gestão do condomínio, apesar de não ter sido abordada nesse estudo, é um dos grandes desafios para os EHIS e a escolha do modelo ainda estava sendo discutida entre os beneficiários no período da pesquisa.

A adequação espacial da UH, em geral, foi bem avaliada pelos usuários. Para os itens sala e dormitórios, mais de 80% disseram estar satisfeitos ou muito satisfeitos. Quanto ao banheiro, 76% dos moradores apontaram como satisfeitos ou muitos satisfeitos com as dimensões do espaço para o uso. Entretanto, para os usuários que pretendem realizar mudanças/melhorias futuras na unidade, 13% desejam alterar a pia, 7% colocar azulejos e 4% pretendem instalar Box no banheiro.

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13 Para 31% dos beneficiários, as dimensões da cozinha não são adequadas para o uso, 49%, declararam que estavam insatisfeitos ou muito insatisfeitos com o tamanho da área para varal e tanque. Esses dados podem ser relacionados ao fato de que 47% das unidades possuem três ou mais moradores. Em relação à qualidade da construção e acabamento da unidade habitacional, 49% dos entrevistados disseram estar insatisfeitos ou muito insatisfeitos com o item piso. Segundo uma liderança comunitária do condomínio, ainda há expectativa que a construtora conclua a colocação dos pisos nos imóveis, mas entre os moradores que pretendem realizar melhorias no futuro, 40%, citaram a colocação do piso como prioridade. Quando comparado com sua casa anterior, 63% afirmaram que as condições de habitabilidade e funcionalidade melhoraram, e para 82% destes, houve um impacto de melhoria na aparência da sua habitação. Por fim, a partir das informações obtidas na avaliação, "ter a casa própria", foi uma citação positiva que prevaleceu como principal motivo entre a parcela de 88% dos moradores que afirmaram o desejo de permanecerem no empreendimento, sentimento que também foi lembrado na avaliação qualitativa das melhores características do empreendimento.

6. Conclusões

O presente trabalho teve como objetivo a aplicação de um modelo para diagnóstico e avaliação da hierarquia de valor em um empreendimento de habitação de interesse social na cidade de Salvador a partir da percepção de beneficiários, buscando relacionar os requisitos captados dos clientes finais aos atributos do produto habitação. Através dos resultados do estudo, apresentou-se um conjunto de subsídios que podem ser utilizados para guiar os projetistas, ainda na fase de desenvolvimento do produto, no processo de tomada de decisão para futuros EHIS pelos níveis de consequências e objetivos esperados, ao invés de parâmetros isolados, o que promove o cíclico de geração de valor na relação usuário-fornecedor proposto por Koskela (2000).

Na construção da hierarquia de valor do EHIS avaliado, foi possível verificar que a localização do empreendimento é um dos atributos críticos do produto, pois, de acordo com os resultados, relaciona-se com a acessibilidade ao transporte público no entorno e a proximidade a serviços públicos básicos e estabelecimentos comerciais, gerando altos níveis

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14 de insatisfação e influenciando diretamente no desejo de mudança de moradia de 12% dos clientes/usuários.

A má localização do empreendimento deve-se a falta de planejamento habitacional durante o processo de abertura de novas fronteiras no espaço urbano, o que deveria ocorrer concomitantemente com a oferta de serviços públicos básicos nestas áreas.

Os aspectos relacionados à qualidade da construção da unidade habitacional e adequação dos espaços de uso comum do empreendimento, além da aparência de ambos, resultaram em significativos níveis de satisfação dos clientes. Itens como conforto ambiental da unidade e adequação espacial da UH, em geral, foi bem avaliada pelos usuários. Apesar do volume de desafios ainda existentes, esses bons níveis de satisfação sob a ótica da qualidade arquitetônica e da qualidade do produto final demonstram que a produção de habitação de interesse social de fato experimenta um período de novas experiências no sentido de superação de paradigmas históricos sobre a habitação no Brasil, como sugeriam Abiko (1995) e Ferreira (2012).

Em geral, foi evidenciado que a avaliação de EHIS não pode ser compreendida como um indicador simples, dada a complexidade de múltiplos fatores envolvidos. Dessa forma, a avaliação estruturada proposta por Bonatto (2011) com base na hierarquia de valor traz benefícios, uma vez que possibilita uma análise integrada das informações coletadas, a fim de entender melhor as relações entre as percepções dos moradores e em que aspectos estão sendo atingido o objetivo. Outro fator interessante é o fato de que a exposição das situações identificada a partir das percepções dos usuários e complementada com informações das lideranças comunitárias, mesmo que oriunda de analises qualitativa provoca discussões e conclusões sobre o que foi esperado e alcançado no empreendimento, segundo as apresentações realizadas.

Um desafio para trabalhos futuros seria a discussão sobre o mecanismo de inserção dos resultados referentes à percepção dos clientes/beneficiários das funções e valores de atributos nas fases iniciais do processo de desenvolvimento do produto EHIS, identificando os pontos críticos para a inserção das informações e quais mudanças no processo são necessárias. Também seria recomendável que a análise de hierarquia de valor em EHIS incorpore a observância dos padrões estabelecidos na norma NBR 15575:2013 que verifica o nível de desempenho mínimo ao longo de uma vida útil para os elementos principais de toda e qualquer edificação habitacional.

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15 REFERÊNCIAS

ABIKO, A. K. Introdução à gestão habitacional. São Paulo, EPUSP, 1995. Texto técnico da Escola Politécnica da USP, Departamento de Engenharia de Construção Civil, TT/PCC/12. ABIKO, A. K.; CARDOSO, L. R. A.; GONÇALVES, O. M.; HAGA, H. C. R.; INOUYE, K. P.; BARBOSA, A. L. S. F. O futuro da indústria da construção civil: produção habitacional. Brasília: MDIC - Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, 2005. v.1. 122 p.10.

AZEVEDO, Sérgio. Desafios da habitação popular no Brasil: políticas recentes e tendências. In: Coleção Habitare – Habitação Social nas Metrópoles Brasileiras – Uma avaliação das Políticas habitacionais no final do século XX, 2007.

BONATTO, S. F. Proposta de um Modelo para Avaliação de Empreendimentos Habitacionais de Interesse Social a Partir da Percepção de Clientes Finais. 2010. 178 f. Dissertação (Mestrado em Engenharia Civil) – Escola de Engenharia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2011.

BONDUKI, Nabil. Origens da habitação social no Brasil. São Paulo: Estação Liberdade, 1998.

BONDUKI, Nabil. Política habitacional e inclusão social no Brasil: revisão histórica e novas perspectivas no governo Lula. Revista eletrônica de Arquitetura e Urbanismo, v. 1, p. 70-104, 2008.

BUZZAR, Miguel Antônio. Valor e Habitação de Interesse Social. Simpósio Brasileiro de Qualidade do Projeto no Ambiente Construído, 2009.

CORREA, S. M. B. B. Probabilidade e estatística. Belo Horizonte: PUC Minas Virtuais, 2003.

CSILLAG, J. M. Análise do Valor: metodologia do valor: engenharia do valor, gerenciamento do valor, redução de custos, racionalização administrativa. 4. ed. São Paulo: Atlas, 1995.

DA HORA, Henrique Rego Monteiro; MONTEIRO, Gina Torres Rego; ARICA, José. Confiabilidade em questionários para qualidade: um estudo com o Coeficiente Alfa de Cronbach. Produto & Produção, v. 11, n. 2, p. 85-103, 2010.

DENALDI, Rosana; FONSECA, M. L.; AKAISHI, A.G.; FERNANDES, C.N.; TAVARES, H.C.; SOUZA, L.G.; LEITÃO, Karina. Planos Locais de Habitação de Interesse Social na Região Metropolitana de São Paulo. In: Rosana Denaldi. (Org.). Planejamento Habitacional. Notas sobre a precariedade e terra nos Planos Locais de Habitação. 1ed. São Paulo: Annablume, 2013.

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16 KOSKELA, L. An Exploration Towards a Production Theory and its Application to Construction. 2000, 296 f. These (Doutorado em Tecnologia) – VTT Technical Research Centre of Finland, Helsinki, 2000.

MIRON, Luciana Inês Gomes. Gerenciamento dos requisitos dos clientes de empreendimentos habitacionais de interesse social: proposta para o Programa Integrado Entrada da Cidade em Porto Alegre/RS. 2008.

PANDOLFO, A. Modelo de avaliação e comparação de projetos de habitação com base no valor. Florianópolis, 2001. 176 p. Tese (Doutorado em Engenharia da Produção) – Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção, UFSC, 2001.

PEREIRA FILHO, R. R. Análise do Valor: processo de melhoria contínua. São Paulo: Nobel, 1994.

ROLNIK, Raquel; CYMBALISTA, Renato; NAKANO, Kazuo. Solo urbano e Habitação de Interesse Social: a questão fundiária na Política Habitacional e Urbana do País. da ADVOCEF, p. 123, 2007.

SELIG, P. M. Gerência e avaliação do valor agregado empresarial. Tese (Doutorado em Engenharia de Produção e Sistemas). Universidade Federal de Santa Catarina, 1993.

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17 ANEXO

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TIPO:

Nº MORAD. RESPONDENTE IDADE PORT. DEF.

1 [ ] [ ] 2 [ ] [ ] 3 [ ] [ ] 4 [ ] [ ] 5 [ ] [ ] 6 [ ] [ ] 7 [ ] [ ] 8 [ ] [ ] ANOS E MESES. [ ] EM OUTRA CIDADE: _______________________________________________

2.7 CONDIÇÃO DE OCUPAÇÃO DA RESIDÊNCIA ANTERIOR?

[ ] ALUGADA [ ] CEDIDA [ ] COM PARENTES [ ] OUTRO: __________________________________

2.6 LOCALIZAÇÃO DA RESIDÊNCIA ANTERIOR? 2.4 A QUANTO TEMPO A FAMÍLIA RESIDE AQUI?

____________________ _____________________

2.5 ÚLTIMA MORADIA FOI?

[ ] CASA [ ] APARTAMENTO [ ] CÔMODO [ ] OUTRO: __________________________________

[ ] NA MESMA CIDADE

2.3 A FAMÍLIA POSSUI ALGUM VEÍCULO?

[ ] VEÍCULO DE PEQUENO PORTE (CARRO, MOTO, ETC.)

[ ] VEÍCULO DE GRANDE PORTE (CAMINHÃO, ETC)

[ ] VEÍCULO DE TRAÇÃO ANIMAL (CARROÇA, ETC)

[ ] VEÍCULO DE TRAÇÃO OU PROPURSÃO HUMANA (CARRINHO DE PAPELEIRO, ETC)

[ ] NÃO

[ ] NÃO TRABALHA

[ ] OUTRA: ______________________________________________ [ ] ASSALARIADO COM CARTEIRA DE TRABALHO

[ ] ASSALARIADO SEM CARTEIRA DE TRABALHO

[ ] AUTÔNOMO COM PREVIDÊNCIA SOCIAL

[ ] AUTÔNOMO SEM PREVIDÊNCIA SOCIAL

2.2 OCUPAÇÃO DO RESPONSÁVEL PELO CASA

[ ] EMPREGADOR [ ] APOSENTADO/PENSIONISTA [ ] TRABALHADOR RURAL [ ] EMPREGADOR RURAL [ ] M [ ] F GRAU DE ESTUDO GÊNERO [ ] M [ ] F [ ] M [ ] F [ ] M [ ] F [ ] M [ ] F [ ] M [ ] F [ ] M [ ] F [ ] M [ ] F

SEÇÃO 2 - PERFIL DO CLIENTE

RELAÇÃO COM RESPONSÁVEL

RESPONSÁVEL

2.1 AGRUPAMENTO FAMILIAR

Nº UNIDADE: [ ] APARTAMENTO [ ] SOBRADO [ ] TÉRREA Nº DORMITÓRIOS: [ ] 1 [ ] 2 [ ] 3

SEÇÃO 1 - IDENTIFICAÇÃO

APLICADOR:

EMPREENDIMENTO:

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19 MI I N S MS MI I N S MS MI I N S MS f) INSTALAÇÕES ELÉTRICAS g) INSTALAÇÕES HIDRAÚLICAS QUALIDADE DA CONSTRUÇÃO E ACABAMENTO DA UNIDADE HABITACIONAL

COMO SE SENTE QUANTO A QUALIDADE DOS(AS):

a) PISO

b) TETO

c) PAREDES

d) PORTAS

e) JANELAS COMO SE SENTE EM RELAÇÃO À:

CONFORTO AMBIENTAL DA UNIDADE HABITACIONAL

a) NÍVEL DE RUÍDOS EXTERNOS

b) NÍVEL DE RUÍDOS INTERNOS

c) TEMP. INTER NO INVERNO E VERÃO

d) VENTIL. NATURAL DOS ESPAÇOS

e) ILUMIN. NATURAL DOS ESPAÇOS

4.1 UNIDADE HABITACIONAL

ADEQUAÇÃO ESPACIAL DA UNIDADE HABITACIONAL

a) SALA

b) COZINHA

c) ÁREA PARA TANQUE E VARAL

d) DORMITÓRIOS

e) BANHEIRO COMO SE SENTE EM RELAÇÃO A ADEQUAÇÃO AO USO:

SEÇÃO 3 - PERCEPÇÃO DA MORADIA ATUAL - QUALITATIVA

3.1 QUAIS AS 5 MELHORES COISAS DO LUGAR QUE VOCÊ MORA?

3.2 QUAIS AS 5 PIORES COISAS DO LUGAR QUE VOCÊ MORA?

(20)

20 MI I N S MS MI I N S MS MI I N S MS MI I N S MS MI I N S MS MI I N S MS MI I N S MS MI I N S MS

COMO SE SENTE EM RELAÇÃO A:

SEGURANÇA a) SEGURANÇA NO CONDOMÍNIO COMO SE SENTE QUANTO À:

ACESSO A INFRAESTRUTURA E SERVIÇOS URBANOS

d) INSTALAÇÕES PARA O ESGOTO

e) CALÇAMENTO DAS RUAS

COMO SE SENTE EM RELAÇÃO A:

LOCALIZAÇÃO a) LOCALIZAÇÃO DO CONDOMÍNIO b) PROXIM. A ÁREAS DE COMÉRCIO

c) PROXIM. A ÁREAS DE LAZER/ESPORT

4.3 ENTORNO

COMO SE SENTE EM RELAÇÃO À:

ACESSIBILIDADE À TRANSPORTE E EQUIPAMENTOS URBANOS

d) PROXIM. A CRECHES E ESCOLAS

e) ACESSO A POSTO DE SAÚDE/HOSP. a) RECOLHIMENTO DE LIXO

b) FORNECIMENTO DE ÁGUA

a) FACILIDADE DE ACESSO COMO SE SENTE EM RELAÇÃO A:

SEGURANÇA a) SEGURANÇA NO CONDOMÍNIO

c) FORNECIMENTO DE LUZ e) JANELAS

f) INSTALAÇÕES ELÉTRICAS

g) INSTALAÇÕES HIDRAÚLICAS

COMO SE SENTE EM RELAÇÃO A:

a) APARÊNCIA DO CONDOMÍNIO f) PORTARIA

g) LAVANDERIA

h) SEDE DA ASSOC. DE MORADORES

ADEQUAÇÃO ESPACIAL DO CONDOMÍNIO

COMO SE SENTE QUANTO A QUALIDADE DOS(AS):

QUALIDADE DA CONSTRUÇÃO E ACABAMENTOS a) PAREDES b) PISOS c) TETOS d) PORTAS APARÊNCIA

COMO SE SENTE EM RELAÇÃO A ADEQUAÇÃO AO USO:

a) ESTACIONAMENTOS

b) ESCADAS E CORREDORES

c) ÁREAS DE CONVIVÊNCIA

d) PRAÇA INFANTIL

e) QUADRA ESPORTIVA

(21)

21 [ ] NÃO [ ] NÃO 1 3 [ ] piorou [ ] melhorou [ ] piorou [ ] melhorou [ ] piorou [ ] melhorou [ ] piorou [ ] melhorou [ ] piorou [ ] melhorou

COMENTÁRIOS E ANOTAÇÕES DO ENTREVISTADOR c) A SEGURANÇA DO LUGAR QUE VOCÊ MORA

d) A LOCALIZAÇÃO DA SUA MORADIA

e) A RELAÇÃO COM SEUS VIZINHOS

6.2 SE VOCÊ TIVESSE QUE ESCOLHER, FICARIA OU IRIA EMBORA DESSA RESIDÊNCIA?

[ ] FICARIA NESTA RESIDÊNCIA

[ ] IRIA EMBORA PARA OUTRO LUGAR, PORQUE?

2

[ ] nem pior, nem melhor

[ ] nem pior, nem melhor

[ ] nem pior, nem melhor

[ ] nem pior, nem melhor

[ ] nem pior, nem melhor a) AS COND. DE CONFORTO, A QUALIDADE E O ESPAÇO DA MORADIA ATUAL

b) A APARÊNCIA DO LUGAR QUE VOCÊ MORA

5.1 JÁ REALIZOU ALGUMA MUDANÇA MELHORIA NA UNIDADE?

5.2 PRETENDE REALIZAR ALGUMA MUDANÇA/MELHORIA NA UNIDADE NO FUTURO?

[ ] SIM, QUAIS?

[ ] SIM, QUAIS?

SEÇÃO 6 - AVALIAÇÃO DE IMPACTO

6.1 COMPARANDO COM A MORADIA ANTERIOR, VOCÊ CONSIDERA QUE: SEÇÃO 5 - MODIFICAÇÕES

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Referências

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