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A Amazônia no Pensamento de Florestan Fernandes 1

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Academic year: 2021

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A Amazônia no Pensamento de Florestan

Fernandes

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Luiz Fernando de Souza Santos (UFAM)

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No presente trabalho será analisado o “encontro” do pensamento de Florestan Fernandes com a Amazônia. Para tal, o universo documental tomado como objeto de estudo concerne aquele produzido nas suas pesquisas antropológicas, fundamentalmente, aquelas concernentes à sociedade Tupinambá, comunidades caboclas e à nação matizada pela oposição litoral

versus sertão.

Trata-se, aqui, de análise dos momentos iniciais do encontro da Escola Sociológica Paulista com a Amazônia, que cobre o período da década de 1940 à década de 1960. Neste momento, a região amazônica ainda aparece de forma imprecisa, como lugar distante, terras do sem fim. É em tal período que a produção de Florestan Fernandes tem referências à Amazônia. Diferente de outros autores representativos da Escola Sociológica Paulista que produziram investigações sobre a região, Florestan Fernandes não deixou, seja em artigos, livros, etc. nenhum trabalho que tomasse a região por objeto de análise. Todavia, ao se debruçar sobre as sociedades Tupinambás, o folclore, os diversos autores que contribuíram para uma interpretação etnológica do país, a questão racial, a estrutura de classes, a condição periférica e subdesenvolvida do capitalismo brasileiro, sua burguesia consumida pelo pânico das camadas populares, o autor produziu uma obra que nos permite situar a Amazônia nos movimentos mais gerais de formação e produção do capitalismo brasileiro, ao mesmo tempo em que concorre para adentrarmos nos meandros de sua singularidade nessa formação.

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Este trabalho é parte da Tese de Doutorado “Entre o Mágico e o Cruel: Amazônia no pensamento marxista brasileiro”, defendida no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Unicamp, sob a orientação da Professora Elide Rugai Bastos, no ano de 2018.

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O autor é professor de Sociologia no Departamento de Ciências Sociais, Instituto de Filosofia, Ciências Humanas e Sociais, da Universidade Federal do Amazonas. Email:

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1. Nos caminhos dos Tupinambá e nos rios das viagens sanitárias

Um elemento primeiro aspecto a observar sobre a Amazônia que Florestan Fernandes encontra nos estudos sobre os Tupinambá é que, efetivamente, não há ainda a Amazônia. O que há é uma região distante, para a qual, contra a fúria destrutiva do colonizador, os Tupinambá se retiram. Uma região ainda taquigrafada conforme os termos que o pensamento social europeu reservou a ela ao longo do processo de conquista e as notas que tomou das referências produzidas pelos indígenas. É sertão, lugar edênico e, ao mesmo tempo, de pobreza ecológica.

Ao se deslocarem, no século XVI, por conta do conquistador branco e suas estratégias de colonização que afetaram profundamente o equilíbrio que as sociedades indígenas haviam estabelecido com o meio e os recursos naturais, transformando o litoral antes habitados por tais sociedades em uma “terra dos males sem fim” (VAINFAS, 1995), os Tupinambá foram, numa espécie de “movimento messiânico”, em busca do Paraíso Terreal3

, lugar onde encontrariam “imortalidade e descanso perpétuo”4, o “paraíso terrestre dos

caraíbas e profetas”5

.

Ao sistematizar os relatos dos cronistas sobre os Tupinambá, Florestan Fernandes estabelece um quadro da distribuição espacial deles no Brasil dos séculos XVI e XVII: no Rio de Janeiro, na Bahia, no Maranhão e Pará e na Ilha Tupinambarana. Para os objetivos deste trabalho, o referido quadro é sumamente importante, uma vez que os três últimos espaços descritos pelo autor, se constituem efetivamente naquilo que aqui identifico como um “encontro” com a Amazônia. O capítulo primeiro, de Organização Social dos

Tupinambá, no qual encontra-se esta sistematização, é o primeiro momento em

que a Escola Sociológica Paulista faz uma aproximação em torno de aspectos específicos do território correspondente à região amazônica.

A Amazônia que emerge aí é aquela do litoral e das margens dos rios Amazonas, Madeira, Negro e Tocantins. É palco de guerras sangrentas contra

3 Essa ideia de movimento messiânico em busca do Paraíso Terreal, é extraída de citação coligida por Florestan Fernandes, Em Organização Social dos Tupinambá e A Função Social da Guerra na Sociedade Tupinambá, do documento Descrição do Estado do Maranhão, Pará, Corupá e Rio Amazonas, escrito entre março de 1662 e julho de 1667 por Maurício de Heriarte. 4 Citação a Gandavo, em Organização Social dos Tupinambá, p. 104.

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o conquistador português, nas quais diversas sociedades indígenas, entre elas os Tupinambá, são massacradas; também da ação dos jesuítas e as práticas de descimentos para as missões religiosas; das guerras que travaram os Tupinambá contra outros povos indígenas e do seu envolvimento com as tropas de resgate organizadas pelos portugueses; lugar de epidemias como a varíola, que dizimaram aqueles que sobreviveram ao invasor branco; ambiente tomado por mosquitos que tornavam a vida difícil. A região que está para além destas terras distantes registradas pelos cronistas, são apontadas por Florestan Fernandes pelos termos sertão e hinterland, que é a forma alemã do primeiro.

Desses deslocamentos tupinambá até chegarem à Amazônia, Florestan segue uma série de pistas que vão levá-lo a uma imagem ainda hoje recorrente: a de que se está diante de uma região pobre. No artigo Os Tupi e a

Reação à Conquista, originalmente escrito em 1960 para o livro organizado por

Sérgio Buarque de Holanda intitulado História Geral da Civilização Brasileira e, posteriormente relançado no livro Mudanças Sociais no Brasil, de 1960, e em A

Investigação Etnológica no Brasil e Outros Ensaios, em 1975, o autor refuta a

imagem de que a invasão e a colonização europeia e seus efeitos foram aceitos passivamente pelos indígenas, particularmente, os Tupinambá. Ao mesmo tempo em que foram elementos de apoio aos agentes da colonização, foram também a “principal fonte de resistência organizada” (Fernandes, 1975, p. 11). No encontro com os Tupinambás, observa o autor que os objetivos da colonização portuguesa só seriam atingidos por meio da expropriação do território dos primeiros, bem como sua escravização e destribalização. “O anseio de „submeter‟ o indígena passou a ser o elemento central da ideologia dominante” (Idem, p. 25). Cada qual à sua maneira, segundo seus cálculos políticos, econômicos e religiosos, o colono, o administrador que representava a Coroa e o jesuíta, concorreram para a sujeição, exploração e imposição da “civilização cristã” (Idem. p. 27) aos Tupinambás. Nesse processo, o referido grupo indígena reagiu de três modos distintos: por meio do confronto guerreiro contra o invasor, pela “submissão voluntária”6

(que tem por consequência o extermínio num ritmo lento) e pela retirada para regiões distantes onde teriam

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que pagar “elevado preço por tal solução, pois tiveram de adaptar-se, progressivamente, à regiões cada vez mais pobres” (Idem, p. 30). Convém observar que essas “regiões mais pobres” às quais se refere o autor correspondem ao Maranhão, Pará e Amazonas, para onde se deslocaram no século XVI os Tupinambá. Florestan Fernandes se aproxima da Amazônia por uma imagem recorrente desde os primeiros viajantes, entre tantas outras imagens que inventam a região: que se trata de um lugar distante e pobre, ainda que nesse caso, ele não se refira a uma condição econômico-social, mas dos recursos que a natureza pudesse disponibilizar para a reprodução social da sociedade em questão.

No artigo Relações Culturais Entre o Brasil e a Europa, originalmente escrito para ser apresentado no Congresso Internacional de Escritores, realizado em São Paulo, em 1954, e publicado em 1957 em Congresso Internacional de Escritores e Encontros Intelectuais, em 1957, e em Mudanças Sociais no Brasil, em 1960, vamos encontrar uma discussão que aponta para um aspecto importante do encontro do pensamento europeu com as sociedades indígenas do Novo Mundo: assim como o cronista europeu cria imagens sobre o mundo tropical, as sociedades indígenas também inventam imagens sobre a Europa. As primeiras imagens criadas sobre o Europeu ocorreram no contexto do processo de “conquista” e de “colonização” do continente latino-americano, e não foram em nada favoráveis ao estilo de vida e valores do invasor branco. Dos exemplos tomados por Florestan Fernandes, retomo um diálogo de Léry com um velho tupinambá que traz um registro crítico nas perguntas do indígena a respeito da voracidade da economia mercantil pelas madeiras do continente, da disposição desta para um cálculo econômico fundado na lógica de produção de excedente e seu instituto de herança. O velho tupinambá arremata o diálogo demonstrando a insanidade do estilo de vida do homem europeu:

[…] agora vejo que vós outros mairs sois grandes loucos, pois atravessais o mar e sofreis grandes incômodos, como dizeis quando aqui chegais, e trabalhais tanto para amontoar riquezas para vossos filhos ou para aqueles que vos sobrevivem. Não será a terra que vos nutria suficiente para alimentá-los também? Temos pais, mães e filhos a quem amamos; mas estamos certos de

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que, depois da nossa morte, a terra que nos nutriu também os nutrirá, por isso descansamos sem maiores cuidados” (LÉRY Apud. FERNANDES, ([1954] 1960, p. 153-154).

Em que pese as resistências guerreiras e intelectuais que as sociedades indígenas impuseram ao colonizador, prevaleceu em quase todas as terras americanas o estilo de vida do europeu e de seus descendentes intimamente ligados aos ideais de existência forjados na Europa. Com a aceleração do processo de urbanização, a mimetização do estilo de vida europeu se acentua “em quase todos os sentidos, do vestuário aos utensílios domésticos, às ideias políticas, aos sentimentos religiosos, às pretensões literárias (Idem, p. 154). A Europa se prolonga no continente americano por meio de uma ligação emocional e espiritual de seus descendentes com os valores civilizatórios dos países colonizadores. Dois estilos de vida concorrem entre si a partir de então: Um próximo ou voltado para os padrões da Europa e outros mais afeitos ao estilo de vida social indígena. Em lugares em que a miscigenação se impôs de forma mais intensa, o estilo inspirado no mundo europeu é perseguido pelas elites brancas e dominantes.

Essa tensão entre o modo de vida europeu e aquilo que está nas margens será retomado por Florestan Fernandes em Um Retrato do Brasil, trabalho no qual aponta suas lentes de cientista social para analisar o livro

Viagem ao Tocantins, de autoria do médico sanitarista Júlio Paternostro, que

integrou, entre 1934 e 1938, o Serviço de Febre Amarela.

Ao adentrar o sertão do Brasil Central e Amazônico através das lentes de Paternostro, as condições da vida econômica que sobressaem ao longo do rio Tocantins, no tocante à exploração da terra, para Florestan Fernandes ainda se reproduzem sob condições pré-capitalistas e voltadas para a subsistência. O sertanejo dessas regiões se envolve em atividades laborais diversas, geralmente marcadas por baixas remunerações: seringueiro, vaqueiro, remeiro, carregador, apanhador de castanhas, tropeiro. A legislação trabalhista não alcançou esses trabalhadores. Os contratos com os empregadores são verbais.

As condições sanitárias são desalentadoras: a malária é a doença predominante, liderando as taxas de mortalidade; os apanhadores de castanha

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são vitimados por doenças pulmonares; a sífilis se espalha entre os sertanejos. Não é incomum que os moradores da região tenham várias dessas doenças ao mesmo tempo. As taxas de mortalidade infantil são altas. Em relação à lepra (hanseníase), o Pará àquela época apresentava dados com cerca de cinco mil doentes. A assistência sanitária, que poderia viabilizar uma intervenção preventiva, é rudimentar, precária ou quase inexistente. A medicina científica aos olhos dos moradores dessas regiões não se efetivam em medidas satisfatórias, daí a vigência de expressões populares estereotipadas tais como “morreu na Santa Casa”, assinala Florestan Fernandes.

O sistema educacional não foi capaz de articular o ensino escolar às necessidades objetivas, econômicas, naquele meio social, sendo encarado como supérfluo, um “luxo de homens da cidade” (Idem, p. 123). Há um divórcio entre os conteúdos escolares e os conhecimentos necessários às atividades laborais. Os professores são mal remunerados e recebem com meses de atraso e a frequência dos estudantes é pequena. Tais condições do sistema educacional, Florestan Fernandes entende que é a tônica no interior do Brasil e até em determinadas regiões do litoral de São Paulo. Em face de tais condições, o autor lança o desafio para que o Estado brasileiro seja capaz de ir além da produção de slogans de efeito político, de fórmulas consagradas, relativas à educação e passe a cuidar dela como estratégica para a dinamização econômica e política, o que exige que a mesma se adapte a uma ordem democrática.

2. A Amazônia nas Marginálias de Florestan Fernandes

Para reconstruir alguns aspectos do encontro de Florestan Fernandes coma Amazônia fiz uma incursão na biblioteca pessoal do autor que está sob os cuidados do Fundo Florestan Fernandes, na Biblioteca da Universidade Federal de São Carlos, Departamento de Coleção de Obras Raras e Especiais. Defini como unidade empírica de observação nesse acervo as obras que tomaram como objeto de investigação algum aspecto da vida social, econômica e cultural da Amazônia. Por meio desse critério, elegi para análise as seguintes obras: Uma Comunidade Amazônica: Estudo do Homem nos Trópicos, de Charles Wagley; Santos e Visagens: um estudo da vida religiosa de Itá, Baixo

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Amazonas, de Eduardo Galvão; The Tenetehara Indians of Brazil: A Culture in Transition, de Charles Wagley e Eduardo Galvão; A Margem da História, de

Euclides da Cunha; O Seringal e o Seringueiro, de Arthur Cezar Ferreira Reis. Minha incursão por essas obras segue o trabalho de leituras realizado por Florestan Fernandes, conforme registrado nas marginálias, que se expressam por uma série de marcações, grifos e comentários seus. Tais marcações, feitas à mão pelo próprio autor são o registro do encontro do mesmo com a realidade econômica, cultural, religiosa, social da gente que vive no pedaço do Brasil chamado Amazônia. Ressalte-se que não farei uma exposição de todo o inventário de anotações do autor nas obras aqui tomadas por referência. Apontarei apenas aquelas que considero centrais para a formação de uma leitura sobre a região que indiquem os contornos do que o autor apreendeu da mesma7.

Na obra de Charles Wagley Uma Comunidade Amazônica (1955), apenas o Capítulo VIII: Uma comunidade de uma área subdesenvolvida, apresenta as assinalações que revelam um esforço de leitura mais detida. A primeira marcação feita por Florestan Fernandes chama a atenção para o que há de comum entre Itá e grande parte do mundo rural brasileiro: “No entanto, são muitas as tradições que Itá possui em comum com numerosas comunidades rurais em todo o Brasil” (WALGLEY, 1957, p. 354).

Mais adiante, nas páginas 357-358, o autor se detém sobre os aspectos que denunciam os principais problemas econômicos de Itá e seus nexos com os problemas da vida econômica nacional no meio rural: agricultura rudimentar, com a prática da queimada e da coleta de produtos florestais. É Interessante observar que esses aspectos assinalados por Wagley, foram, como vimos acima, apontados por Florestan Fernandes em relação à economia Tupinambá. No caso da agricultura na Amazônia, ela seria colonial, baseada na monocultura e produção de matérias-primas que atendam às demandas do mercado externo. Em conexão com tal condição, a história econômica do meio rural assentado na monocultura é aquela de surtos e colapsos periódicos. O autor sublinhou a seguinte passagem: “E, depois de cada surto, havia sempre

7 Vide Apêndice I a este trabalho, Marginálias de Florestan Fernandes – Amazônia, onde apresento inventário que fiz das marginálias do autor nas obras pertencentes à sua biblioteca pessoal e que tratam, em alguma medida de temas relativos à Amazônia.

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um „colapso‟ decorrente da concorrência e da variação de preços no mercado mundial” (Idem, p. 357). Na sequência (páginas 358-362), o autor assinala as condições de transporte, o sistema educacional, as condições sanitárias e os serviços públicos de Itá que, Wagley sempre reitera, reproduzem os problemas do Brasil rural. Em torno de tais condições estão os traços marcantes de um “antagonismo entre a cidade e o campo” (p. 363).

Na página 368 vamos encontrar uma notação que chama a atenção para a estrutura de classes em Itá, no qual a estrutura tradicional pouco mudou. Membros de classes sociais oriundas do comércio e da indústria, típicas da vida urbana, aliadas à aristocracia rural, inexistem em comunidades como a analisada por Wagley. Aqueles que compõem a elite local em Itá não têm penetração na estrutura que vai se moldando com a urbanização e a industrialização. Estão marcados pela aversão à mudança social e à educação das camadas mais baixas da pirâmide social.

A página seguinte está marcada a chamar a atenção para o fato de que, em Itá e no mundo rural brasileiro em geral, vive-se um mundo da fantasmagoria. O sobrenatural e a ciência popular estão na base das imagens que a população nessas áreas fazem do mundo. Para a resolução das necessidades, dos problemas de saúde, a mediação é feita com culto aos santos, promessas, romarias, plantas medicinais, etc. O que leva Wagley a vaticinar que enquanto a ciência não se sobrepor a estas leituras fantasmagóricas, não será possível uma transformação econômica e social que possibilite a integração dessas regiões à vida brasileira plenamente (p.369).

Parte desta condição, como podemos verificar na assinalação de Florestan Fernandes na página 388, se explica na observação das condições efetivamente criadas ao longo da história da Amazônia, que durante três séculos foi fundamentalmente produtora de matérias-primas para o mercado europeu: madeira, canela, cacau, urucu e borracha. Formou-se assim uma economia de extrativismo que perdurava até o período em que Charles Wagley desenvolveu seus estudos na região. O que resulta disso, no que tange à estrutura social, é que, no lugar do indígena, que ocupava o último degrau na sociedade colonial, no século XX, após o declínio da extração da borracha, o caboclo passa é o objeto de desprezo da aristocracia rural e das camadas urbanas. Essas condições resultam numa condição que está sublinhada por

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Florestan Fernandes: “O Vale Amazônico continua a ser uma das áreas coloniais do mundo” (p. 389-390).

A “conquista” da Amazônia, isto é, a sua integração à vida econômica da nação, mereceu uma marcação na página 392. Aí, é desenvolvida a defesa do uso de técnicas adequadas às condições tropicais. A simples transplantação de tecnologia aplicada nos países de clima temperado para a região se revela limitada. Será necessário que a formação de engenheiros, médicos e agrônomos vá além daquilo que estudam nos livros produzidos nas zonas temperadas. Além disso, a técnica fundamental para essa “conquista” reside na elevação do padrão de vida da população que vive em localidades como Itá (Wagley, 1957, p. 392-393). Mas a resolução dos problemas de ordem técnica não serão suficientes. Há que se considerar os “fatores humanos” presentes na cultura da população local e nas suas relações com os grupos exteriores. O desenvolvimento passa pela transformação da vida social e dos padrões culturais locais, o que não significa a desorganização dos mesmos, caso contrário, pode-se perder mais do que ganhar, como é possível observar nos antigos camponeses que foram reduzidos à condições miseráveis no trabalho agrícola, na indústria e na mineração e despojados, efetivamente de participarem da sociedade que vai se configurando (p. 394).

A marcação que Florestan Fernandes fez na página 396 chama a atenção para o significado da transformação social na Amazônia. Implica em compreender que o ponto de partida da melhoria das condições de vida começa pela melhoria da condição do caboclo amazônico, o que se desdobrará em efeitos nas camadas mais altas das pequenas cidades e, posteriormente, se espraiará por todo o vale. Isso traz o desafio de estar atento para o fato de que as camadas superiores não desejarão transformação alguma, uma vez que estão satisfeitas com o status quo. Os planejadores, responsáveis pela assistência técnica em regiões subdesenvolvidas, assinala Wagley, devem estar atentos para que não acabem reforçando o status quo vigente. Além disso, o processo de transformação social deve cuidar para que não se perca padrões culturais e conhecimentos de valor para as comunidades caboclas (398).

O livro Santos e Visagens já na capa interna chama a atenção por conter uma dedicatória de Eduardo Galvão à Florestan Fernandes. Trata-se de

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mais uma obra que tomou por objeto de estudo os caboclos de Itá. No Prefácio, Eduardo Galvão registra que, o seu estudo é resultado de pesquisa de campo realizada entre junho e setembro de 1948, coordenada por Charles Wagley. Dessa pesquisa resultou os livros Santos e Visagens, do próprio Eduardo Galvão, e Uma Comunidade Amazônica, acima referida. Aponta ainda o autor que, sua notas sobre a vida econômica e social de Itá foram tomadas do material de Wagley. As marginálias de Florestan Fernandes, nessa obra, parecem indicar que ele levou em consideração esta obervação de Eduardo Galvão, pois, as mesmas não são encontradas nos capítulos relativos à economia e à organização social de Itá. Vamos encontrar marcações que registram fundamentalmente a vida religiosa da comunidade.

É assim que, no Capítulo I: Introdução, vê-se que Florestan Fernandes assinalou passagens que indicam que o caboclo de Itá é católico com forte presença de “ideias e crenças” de origem ameríndia; que trata-se de um catolicismo de devoção aos santos, com calendário que segue as datações da Igreja ou um calendário da própria comunidade local (p.3-4). Há um breve inventário dos seres com forma definida que compõem as crenças caboclas: curupiras; anhangás, visagens que tomam forma animal ou de “navio encantado”; os botos que seduzem as mulheres; os encantados que se encontram no fundo dos rios e igarapés e os “bichos visagentos” que estão em rios, igarapés ou na mata (p. 6). Encontram-se as palavras “santos” e “pajé” escritas nas margens das páginas 6 e 7, que chamam a atenção para crenças que se integram de modo diferente do que o observado nos cultos afro-brasileiros: há dimensões da vida na comunidade que recebem a proteção dos santos, porém, existem alguns fenômenos, como a panema, que só são tratados através da pajelança. Essa integração dos elementos religiosos ocorre, entretanto, de forma desigual, com tendência na zona rural amazônica a acentuar uma das suas dimensões de origem conforme passagem sublinhada por Florestan Fernandes: “observa-se a tendência para acentuar-se uma forma estrita e ortodoxa de catolicismo” (p. 10-11).

Após o Capítulo I, vamos encontrar marcações somente a partir do

Capítulo V: Pajelança, que tem por objeto as técnicas para lidar com o mundo

sobrenatural em favor dos homens. As assinalações localizam as “práticas mágicas”, com seus chás, banhos e defumações, a observação dos períodos

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de “resguardo”, nos quais evitam-se certos alimentos, banhos frios e o “sereno”. O posto médico é uma inovação para a comunidade de Itá, o que não impede que seus membros consultem médicos e, ao mesmo tempo, os benzedores. Chama-se a atenção para a relação dos pajés com os “companheiros de fundo”, seres que habitam os rios e que podem colocar alguém sob encantamento que só poderá ser curado pela intervenção dos primeiros. Os pajés têm o dom para “endireitar os companheiros” (p. 124-127). O contato das comunidades rurais com os grandes centros como Belém têm proporcionado a experiência com o espiritismo que, assim, vai se amalgamando com as práticas mágicas do pajé (p. 146).

No Capítulo 6: o processo de formação e mudança da religião do

caboclo, encontram-se marcações que registram uma abordagem comparativa

que apontam diferenças entre a formação cultural do caboclo e a do índio tenetehara (grafado por Eduardo Galvão como teneteara). Na página 162 há o trecho seguinte sublinhado: “Este [o tenetehara] passa gradualmente de sua cultura tribal à cultura brasileira, a sociedade nativa, porém, ainda persiste à parte da sociedade rural brasileira”. Na página 163 há o nome de um santo sublinhado, “São Benedito”, que chama a atenção para as festas de santos no meio rural, com o “levantamento de mastro, as ladainhas e novenas, o baile” que formam uma unidade. Florestan Fernandes, na página 172, fez uma marcação relativa a estruturação de classes por meio das festas de santo, pois, Santo Antônio é o santo da classe branca e São Benedito da classe que envolve a “gente de segunda”. Na margem desta passagem está escrito “branco x negro”, o que indica a assinalação de uma informação que já aponta para as preocupações de estudo de Florestan Fernandes com a questão racial e a estrutura de classes da sociedade brasileira.

O Capítulo VII: Mudança na vida religiosa traz assinalações iniciais, na página 174, que tipificam o caboclo, resultante da mestiçagem entre indígena e o português. Embora tenha traços físicos que revelem uma ancestralidade indígena, este não se reconhece como tal e nem apresenta hábitos que sejam efetivamente indígenas. Os caboclos não têm orgulho ou se envergonham de suas origens indígenas. Não demonstram preocupação com esse fato ou o ignoram. As tribos existente no Alto Rio Negro ainda experimentam a transição para o modo de vida caboclo o que, aponta o texto sublinhado por Florestan

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Fernandes, “contribui para avivar as tradições indígenas na cultura do brasileiro e assim acentuar a fisionomia regional” (p. 175).

No mesmo capítulo há várias marcações que chamam a atenção para os principais aspectos do desenvolvimento histórico na Amazônia e seus desdobramentos na formação do caboclo. Do período Colonial há notas que aponta para a busca pelas “drogas dos sertões”, a presença religiosa e os “descimentos”, as “tropas de resgate”, as “guerras justas”. O período de formação das condições que levaram ao boom de exploração da borracha até o seu declínio também teve a atenção do sociólogo paulista, bem como a volta à exploração desse produto no contexto da Segunda Grande Guerra. Na página 181, há uma assinalação para, no referido contexto, o fato de que a região volta a fazer parte do cálculo administrativo do Governo Federal, que passa a dirigir a ela propostas de desenvolvimento tecnológico e planejamento científico para dirigir as mudanças nos padrões de vida cabocla, que envolve, por exemplo, um plano de Valorização Econômica da Amazônia. Desse balanço, resulta um trecho que está sublinhado assim: “A história do desenvolvimento da moderna religião cabocla, como da cultura a que pertence, não é a de um processo uniforme e gradual da difusão de conceitos de nossa civilização ocidental, que teriam se transmitido dos grandes centros urbanos, daí para as sedes das comunidades regionais e destas para as freguesias e sítios” (p. 185).

O Capítulo 8: Nota Final, no qual Eduardo Galvão faz uma síntese do seu trabalho, é aquele para o qual Florestan Fernandes mais dispensou atenção. Há variados sinais e anotações nas margens que indicam que ele se deteve com mais cuidado sobre o conteúdo ali exposto (ver Figura 1). Fundamentalmente, o capítulo assinala que no sistema religioso dos caboclos os ritos próprios do catolicismo e as crenças típicas da pajelança não são forças em oposição, mas estão integradas como parte de um todo a atender funções específicas. Várias das marginálias sinalizam para o argumento final de Eduardo Galvão: que a formação da religião cabocla e da cultura na qual se insere, é um processo complexo de aculturação dinamizado pelo elemento português e indígena, as condições ecológicas da região, a distribuição populacional e as técnicas empregadas no manejo do ambiente. Na devoção

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aos santos vai-se encontrar a estrutura de classes de sociedades como em Itá e nos grandes centros.

Figura 1. Marginálias de Florestan Fernandes no livro Santos e Visagens, de Eduardo Galvão.

Fonte: Biblioteca particular de Florestan Fernandes, localizada no

Departamento de Coleções de Obras Raras e Especiais, da UFSCAR.

Sobre esse trabalho de Eduardo Galvão, em Tendências Teóricas da

Moderna Investigação Etnológica no Brasil Florestan Fernandes assinala que é

o primeiro estudo que toma por objeto “a investigação dos processos de formação e de integração da religião em uma cultura cabocla” (p. 57). Há, segundo ele, dois ângulos através dos quais esse estudo de ve ser considerado: por um lado, por lidar com uma comunidade localizada numa das “áreas mais importantes para a investigação etnológica no Brasil” (p. 58), e, por outro lado, pelos resultados que apresenta e que lançam nova luz sobre a questão da religião em comunidades caboclas.

Charles Wagley e Eduardo Galvão escreveram juntos a obra The

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inicial, informa que a pesquisa sobre os Tenetehara, localizados no Maranhão, foi realizada no escopo de um programa de cooperação entre o Departament of Anthropology of Columbia University e o Museu Nacional, no Rio de Janeiro. É O passo seguinte de um estudo anterior desenvolvido por Wagley sobre os Tapirapé, do Brasil Central. Com estes, estudou um grupo do tronco linguístico Tupi-Guarani que ainda retinha parte de sua cultura indígena e, em função do contato recente com a cultura brasileira, se encontrava em risco de extinção. Os Tenetehara, por sua vez, eram do mesmo tronco linguístico mas, em razão de três séculos de contato com o mundo europeu, já haviam modificado profundamente as formas culturais indígenas originárias. No processo de reconstrução dos estudos antropológicos de Florestan Fernandes, este trabalho se inscreve no conjunto de pesquisas sobre os Tupinambá e sobre a cultura cabocla/caipira. Não é por acaso que, em Organização Social

Tupinambá, vamos encontrar uma seção intitulada os Tupinambá no Maranhão e Pará. O Maranhão é parte daquelas “terras distantes”, é caminho até a

Amazônia. É parte da história Tupinambá e da formação da cultura cabocla. Daí a razão desta obra de Charles Wagley e Eduardo Galvão ter roubado a atenção do sociólogo.

Na página 10, que faz um breve balanço da resistência dos Tenetehara ao conquistador branco, Florestan Fernandes escreveu na margem o seguinte: “reação à conquista”. Lembro que essa notação estará presente no título do trabalho de 1960, já referido anteriormente, Os Tupi e a Reação Tribal à

Conquista, o que denota todo um programa de pesquisa que vai da década de

1940 até o início de 1960.

A política do Governo Federal para a questão indígena, à época da pesquisa de Wagley e Galvão, é meramente simbólica. Há um trecho na página 11 em que o sociólogo paulista escreve “exato” para concordar com o enunciado “The police power of the Indian Officer is theoretical only; he is merely able to make formal protest to local authorities against such transgression”. Na página seguinte, há diversas marcações que chamam a atenção para a hostilidade dos não-indígenas contra os funcionários que trabalham nos postos de proteção indígena, que são agredidos e acusados de “comunistas”. Na página 13, as linhas primeiras do texto têm na margem uma notação que assinala “representação sobre os índios” e em seguida a

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expressão “isso!”. Trata-se de chamar a atenção para um comentário sobre o fato de que os postos para a questão indígena, no final das contas, reforçam os estereótipos dos brasileiros e autoridades sobre os Tenetehara que, numa escola do Posto Gonçalves Dias, dizem que os índios jamais aprenderão pois são preguiçosos e nada bons (lazy and no good). Na mesma página, na margem, vê-se escrito “o civilizado” ao lado do seguinte texto sublinhado: “Although the civilizado of the region is hardly more civilized than the Indian, in the sense of sharing modern industrial culture, he considers himself socially superior and refers to the Indian as „a savage‟”. Florestan Fernandes parece ressaltar o par civilizado x selvagem numa disposição crítica que será expressa em escritos futuros, nos quais pares como esse serão criticados à luz da análise da estrutura social, econômica e política do país.

No capítulo terceiro, Economic Life, vamos encontrar marcações que chamam a atenção, nas páginas 32-33, para o sistema agrícola baseado na derrubada e queimada de floresta no preparo dos roçados. Wagley e Galvão, ressaltam aspectos desse sistema que já vimos expressos em Florestan Fernandes nos estudos sobre os Tupinambá: o uso por um período curto (até três anos) das áreas de roça. Considerando o entorno habitado por comunidades caboclas, esse sistema, que requer o uso de grandes extensões para o deslocamento indígena em busca de novas áreas para seus roçados torna-se em fonte de conflitos. Nas páginas 61-62 há uma assinalação numa passagem que lembra as dificuldades para que os produtos de roças como essas dos Tenetehara acessarem níveis de produção comercial em larga escala. Com o pequeno excedente que produzem conseguem, todavia, comprar produtos estritamente necessários para a reprodução da existência.

Aspectos da vida econômica Tenetehara e cabocla continuam em evidência no sétimo capítulo, A Culture in Transition. Na página 168 Florestan Fernandes escreveu “comércio local”. O leitor fica sabendo aí que os Tenetehara passaram de uma economia de subsistência para uma que articula a produção para o consumo próprio e para a venda. Todavia, eles não conseguem perceber, ainda, que o preço de seus produtos e daqueles que necessitam comprar dependem das condições do mercado em lugares distantes como São Luiz, Rio de Janeiro, Londres e Nova Iorque. Face a isso, são facilmente enganados por seus interlocutores no mercado.

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Na página 180, por fim, há um escrito de Florestan Fernandes que assinala: “caboclos em face dos valores culturais nativos e rurais”. Nessa página e seguintes encontra-se uma reflexão sobre o caboclo como elemento básico da população rural brasileira. É um tipo que não se reconhece como indígena e nem como mestiço; joga futebol, pratica o jogo-do-bicho, debate a política local e nacional, celebra o Sete de Setembro e festeja o carnaval. Na Amazônia, entretanto, o caboclo ainda guarda diversos elementos da cultura indígena, suas atividades de subsistência e roças ainda são indígenas. É católico mas acredita em numerosos seres sobrenaturais dos nativos.

Uma síntese desse trabalho de Wagley e Galvão é encontrada em

Tendências Teóricas da Moderna Investigação Etnológica no Brasil, na

passagem em que se discute a investigação que toma por objeto os processos de assimilação cultural dos símbolos da civilização ocidental por povos indígenas:

Charles Wagley e Eduardo Galvão, em seu estudo sobre os Tenetehara, conseguem explorar com maestria esse critério, evidenciando o sucesso de uma cultura tribal em se adaptar a condições externas de existência, extensa e profundamente modificadas pelos “civilizados”, sem perder completamente as características aborígenes. Os Tenetehara reagiram às influências modificadoras de forma pronta e flexível, o que lhes assegurou oportunidades para sobreviverem como grupo cultural autônomo e distinto. Contudo, parece que estão condenados a desaparecerem como unidade étnica peculiar, pois as pressões destribalizadoras aumentam tanto interna, quanto externamente. O seu destino consiste em transformarem-se em camponeses, diluindo-se demográfica e culturalmente nas populações caboclas circunvizinhas (FERNANDES, 1958, p. 41).

O trabalho O Seringal e O Seringueiro, de Arthur Cezar Ferreira Reis, de 1953, também foi objeto de leitura de Florestan Fernandes. Esta obra apresenta marginálias nos capítulos IX, X e XIV. Na página 72, uma marcação chama a atenção para o fato de que, mesmo após o declínio do período áureo da exploração da borracha, em função das plantações concorrentes no Oriente, anda se manteve, na Amazônia, por um tempo os processos rotineiros, com seus “métodos primários” de extração do látex, na esperança de que aquela

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crise amenizaria. Todavia, como registra a página 74, assinalada pelo sociólogo, a crise se aprofundou e levou a decadência a toda a região, atingindo duramente os Estados produtores da borracha. Isso provocou um êxodo em massa dos seringais sem que o Governo brasileiro tivesse tomado alguma medida que o evitasse. É o governo norte-americano, interessado em liberar os Estados Unidos do mercado oriental, fornecedor dessa matéria-prima, que promoverá um estudo para a instalação de novas áreas de plantação na região. Mas, nada será alterado até a Segunda Grande Guerra, como registra uma marcação na página 75, quando foram implementados os “acordos de Washington”, que entre outras coisas, previam a exploração do látex amazônico para os diversos fins bélicos. Tem início a “Batalha da Borracha” que, conforme passagem com marginália na página 76, recrutou milhares de pessoas para a tarefa de extração.

Na página 78, há uma marcação para um argumento que explica como o surto de extração do látex trouxe uma mudança no comportamento do sitiante. Antes, este fazia a exploração predatória das árvores gomíferas, pois a terra lhe parecia vasta e para um período temporário de trabalho. Com o boom, a concorrência na produção trouxe a necessidade de ocupação permanente da terra, o que exigiu a regulamentação jurídica da posse. Nas páginas 93, 94 e 95, correspondentes ao último capítulo com marcações de Florestan Fernandes, a condição material do seringueiro é exposta em toda a sua crueza. Chamou a atenção do sociólogo paulista o modo como os seringalistas estavam presos às “casas aviadoras” e os seringueiros aos seringalistas. A passagem que descreve nos seringais, o barracão, com sua técnica de endividamento do seringueiro analfabeto, rude, também mereceu uma marcação. Sem saber ler, a escrita no caderno de registro das dívidas ficava por conta da honestidade ou não de quem tinha o domínio da leitura. Há, então uma marginália para o trecho que faz referência a uma literatura que vai dar conta da escravidão dos seringueiros pelo sistema comandado por seringalistas e aviadores: Euclides da Cunha, Alberto rangel e Ferreira de Castro. O livro da À Margem da História, do primeiro autor, merece uma extensa nota de rodapé, na qual é descrito o processo de endividamento do seringueiro.

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Florestan Fernandes, em relação ao livro O Seringal e O Seringueiro, não deixou nada além das marginálias que indicam a leitura do mesmo. Todavia, podemos inferir que, a considerar o ponto de partida da análise de sua sociologia que, como já apontei, toma o ângulo dos subalternos, as digressões valorativas de Arthur Cezar Ferreira Reis, posicionadas ao lado dos aviadores e seringalistas a acusar os seringueiros de trapaceiros e indolentes, seriam prontamente refutadas. A considerar o argumento de Octávio Ianni, em

A Sociologia de Florestan Fernandes (1996), de que Euclides da Cunha

compunha, ao lado de outros grandes pensadores, a família de influências intelectuais formadoras do pensamento do sociólogo paulista, então À Margem

da História figuraria não como uma obra que deixou de considerar a “barbaria

do meio-natureza e do meio-sociedade em formação” (REIS, 1953, p. 95), como quer fazer crer o pensador amazonense, mas como uma obra que já expõe os elementos fundamentais que explicam as condições de vida e de trabalho dos seringueiros.

À Margem da História, edição de 1967, é também obra que faz parte do

acervo da biblioteca pessoal de Florestan Fernandes. As marginálias nesse livro póstumo de Euclides da Cunha, vão ser encontradas na Parte III, no texto

Da Independência à República (Esboço Político). Nas Página 183-184

encontram-se assinalações relativas à emergência do nativismo brasileiro e sua indisposição com as medidas do liberalismo português, que buscava restabelecer, nas primeiras décadas do século XIX as condições anteriores de colonização. Na página 191, há uma outra marcação que sinaliza para o registro da política de José Bonifácio de conter o movimento libertador que apoiou D. Pedro I no processo de Independência mas queria aprofundar as transformações. No texto de Euclides da Cunha, o sociólogo sublinhou a expressão “esmagando só revolucionários”. Na página 199, que dá conta do ano conturbado de 1831 para a política nacional, Florestan Fernandes sublinhou e fez um círculo no diagnóstico de Euclides da Cunha: “o país era ingovernável”. A leitura que o sociólogo fez de À Margem da História, vale lembrar, ocorre no contexto do advento da Ditadura Militar, da cassação de direitos políticos, da dinâmica que vai desaguar em seu próprio exílio e na escrita de A Revolução Burguesa no Brasil. Essas condições, me parece, explicam porque ele se deteve na terceira parte do livro de Euclides da Cunha.

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Era tempo de lidar com tarefas intelectuais que explicassem os elementos estruturais fundamentais da vida brasileira, marcada pelo medo-pânico de suas elites com as massas de trabalhadores, negros e indígenas, e pelo desafio de refletir sobre a revolução brasileira que desse conta do desenvolvimento numa nação dependente. Penso que a Amazônia com sua natureza revolta, de terras caídas, de um rio de história desordenada e incompleta (CUNHA, p. 20), marcada pelo abandono administrativo dos governantes da nação, pela superexploração da mão de obra dos seringueiros, submetidos a um perverso jogo de endividamento, das vidas miseráveis nos rios de abandono, do homem condenado a vagar nos labirintos de trilhas dos seringais, não foi ignorada por Florestan Fernandes, que como demonstrei nela se deteve nas obras de seus estudos antropológicos.

Em tempos ditatoriais, essa região não aparece explicitamente nos seus escritos, porém, ouso inferir que ela está suprassumida no exercício do pesquisador que sublinhou e desenhou um círculo na passagem em que Euclides da Cunha escreve “o país era ingovernável”. Mais ainda: os estudos desenvolvidos por Florestan Fernandes, aqui analisados, vão se desdobrar num outro esforço dos membros da Cadeira I de Sociologia no sentido de contribuir para a consolidação do ensino de sociologia no país, a saber, o projeto editorial que resultará na publicação de quatro antologias que reuniam textos de autores centrais do pensamento sociológico: Homem e Sociedade:

leituras básicas de sociologia geral, publicação organizada por Fernando

Henrique Cardoso e Octavio Ianni e originalmente publicada em 1961;

Comunidade e Sociedade no Brasil: leituras básicas de introdução ao estudo macro-sociológico do Brasil, organizado por Florestan Fernandes e publicado

em 1972; Teorias da Estratificação Social: leituras de sociologia, organizado por Octavio Ianni e publicado em 1971.

3. Referências bibliográficas

FERNANDES, Florestan. A Etnologia e a Sociologia no Brasil. São Paulo: Anhambi, 1958.

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--- Mudanças Sociais no Brasil. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1960.

--- A Organização Social dos Tupinambá. Brasília: Editora da UnB, 1989.

--- A Função Social da Guerra na Sociedade

Tupinambá. São Paulo: Pioneira/Editora da Universidade de São Paulo, 2ª ed.,

1970.

Obras do Fundo Florestan Fernandes (DCORe/UFSCAR) consultadas

ACUÑA, Cristobal, CARBAJAL, Gaspar de, e ROJAS, ALONSO. Descobrimento do Rio das Amazonas. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1941.

CUNHA, Euclides. À margem da história. São Paulo: Lello Brasileiro, 1967 .

GALVÃO, Eduardo. Santos e Visagens: um estudo da vida religiosa em Itá, Amazonas. São Paulo: Cia Ed. Nacional, 1955.

REIS, Arthur Cezar Ferreira. O seringal e o seringueiro. Rio de Janeiro: Serviço de Informação Agrícola, 1953.

WAGLEY, Charles. Uma Comunidade Amazônica. São Paulo: Brasiliana, 1957. WAGLEY, Charles e GALVÃO, Eduardo. The Tenetehara indians of Brazil: a culture in transition. New York, Columbia University Press, 1949.

Referências

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