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Comentada. Prof. Alexandre Sabino

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Academic year: 2021

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(1)

Nova NR-3

Comentada

Prof. Alexandre Sabino

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Oi, tudo bem?

Antes de qualquer coisa, deixe-me apresentar. Meu nome é

Alexandre Sabino de

Oliveira

, sou Auditor-Fiscal do Trabalho atuante na área de Segurança e Saúde no

Trabalho

– SST e desde 2011 tenho publicado

videoaulas

gratuitas no Youtube para

democratizar (e porque não “desmistificar”) o conteúdo das

Normas Regulamentadoras

– as famosas NR’s!

E durante todo esse tempo em que pessoas de todas as regiões do país têm entrado

em contato comigo, não foram poucas as que pediram para que eu preparasse um

estudo mais direcionado, mais profundo e que contivesse um conteúdo mais detalhado

do que aquele apresentado nas videoaulas.

Pois bem! Foi justamente para atender a esses pedidos que surgiu a minha antiga série

de e-books em .pdf que eu chamei de

“Começando com o pé direito”. Eu não

pretendia, com eles, esgotar o tema. Longe disso! Meu objetivo era tão somente o de

comentar, com base no meu entendimento das NR’s e na prática do dia-a-dia da

Fiscalização do Trabalho, cada um dos itens contidos nessas aparentemente

complicadas Normas Regulamentadoras.

Entretanto, com o fim do antigo Ministério do Trabalho

– MTb (vide

lei 13.844 de 18 de

junho de 2019

) e com o discurso de

modernização das NR’s

, aqui estou eu novamente:

dessa vez, para compartilhar algumas reflexões pessoais sobre a

Nova NR-3

, que trata

dos embargos e da interdições, isto é, sobre a possibilidade de a Auditoria-Fiscal do

Trabalho utilizar de seu

poder de polícia

para paralisar as atividades laborais

desempenhadas em algum estabelecimento em função da existência de grave e

iminente risco à saúde ou à integridade física dos trabalhadores.

Publicada em 23 de setembro de 2019, a

Portaria SEPRT nº 1.068

(que trouxe a nova

redação da NR-3) também determinou que ela seja interpretada como uma NR de

tipificação Geral, ou seja, como uma norma aplicável a qualquer ramo de atividade e

em qualquer circunstância (desde que obedecidos os requisitos constantes em seu

texto, evidentemente). Essa definição está inserida na

Portaria nº 787, de 27 de

novembro de 2018

, que trata das regras de aplicação, interpretação e de estruturação

das NR’s:

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3 Art. 3º - As NR são classificadas em normas gerais, especiais e setoriais.

§1º Consideram-se gerais as normas que regulamentam aspectos decorrentes da relação jurídica prevista na Lei sem estarem condicionadas a outros requisitos, como atividades, instalações, equipamentos ou setores e atividades econômicos específicos.

§2º Consideram-se especiais as normas que regulamentam a execução do trabalho considerando as atividades, instalações ou equipamentos empregados, sem estarem condicionadas a setores ou atividades econômicas específicos.

§3º Consideram-se setoriais as normas que regulamentam a execução do trabalho em setores ou atividades econômicas específicos.

Caso você queira se debruçar sobre as regras de aplicação e interpretação das

Normas Regulamentadoras, a SIT – Subsecretaria de Inspeção do Trabalho preparou o

Guia de elaboração e revisão de Normas Regulamentadoras em Segurança e Saúde

no Trabalho, um material de excelente qualidade que você pode baixar gratuitamente

clicando

AQUI

.

Agora, vamos ao que interessa!

Este material está organizado da seguinte maneira:

3.1.1 Esta norma estabelece as diretrizes para caracterização do grave e iminente

risco e os requisitos técnicos objetivos de embargo e interdição.

➔ “requisitos técnico objetivos”.

Ao longo da leitura da Nova NR-3, que trata da possibilidade da Auditoria-Fiscal do Trabalho intervir numa atividade empresarial em função da constatação de grave e iminente risco (...).

O texto da NR vem em negrito e formatado de margem à margem.

Levemente recuados, com uma fonte menor e precedidos de uma seta, estão

os meus comentários sobre o item da Norma.

(4)

Art. 3º - As NR são classificadas em normas gerais, especiais e setoriais.

§1º Consideram-se gerais as normas que regulamentam aspectos decorrentes da relação jurídica prevista na Lei sem estarem condicionadas a outros requisitos, (...).

Com relação às transcrições, toda vez que elas estiverem em negrito e/ou sublinhadas

fui eu que quis chamar a atenção para algum detalhe específico, tudo bem?

Importante ressaltar que as observações feitas neste material não são,

necessariamente, a posição definitiva da Subsecretaria de Inspeção do Trabalho ou do

Ministério da Economia sobre os temas abordados. Para obtê-la, é preciso que você

requisite, por escrito, tal posicionamento na

unidade mais próxima da Inspeção do

Trabalho

.

Te desejo um ótimo estudo!!

Att,

Prof. Alexandre Sabino (

@alexandresabinoaft

)

Quando alguma transcrição for necessária (no caso de Lei, Portaria, etc),

ela virá ainda mais recuada, em itálico e numa fonte ainda mais reduzida.

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5

NR 3 – EMBARGO E INTERDIÇÃO

(com base na redação da Portaria SEPRT n.º 1.068, de 23 de setembro de 2019)

Sumário

3.1 Objetivo;

3.2 Definições;

3.3 Caracterização do Grave e Iminente Risco;

3.4 Requisitos de embargo e interdição;

3.5 Disposições Finais.

3.1 Objetivo

3.1.1 Esta norma estabelece as diretrizes para caracterização do grave e iminente

risco e os requisitos técnicos objetivos de embargo e interdição.

➔ “caracterização do grave e iminente risco”. O famoso “GIR”. Toda a NR-3 gira em torno dele e, por isso, precisamos defini-lo.

Risco é a exposição ao perigo. Uma analogia que gosto de fazer é comparar um tubarão livre na natureza com um tubarão sendo estudado por um biólogo a menos de 2 metros de distância.

Tubarão livre na natureza Biólogo analisando os hábitos de um tubarão

X

Imagem da Internet Imagem da Internet

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Agora reflita comigo: você está aí, estudando a Nova NR-3 e, enquanto isso, um enorme tubarão branco nada tranquilamente em algum ponto do Atlântico na costa da África do Sul. Ele deixou de ser perigoso? Claro que não!

Há alguém exposto a ele? Nesse nosso exemplo, não. Consequentemente, não há risco. Mas... Você está aí, estudando a nova redação da NR-3, e aquele seu amigo biólogo bate à sua porta e lhe chama para acompanha-lo até o aquário da cidade. Inocentemente, você aceita o convite. Chegando lá, os responsáveis pelo local lhe convidam para entrar na “gaiola” – equipamento que será submergido para que as pesquisas no tubarão que acabou de chegar sejam iniciadas.

A não ser que você tenha uma simpatia pela adrenalina, você não entraria, correto? E por que não? Por causa do risco, da exposição ao perigo.

Ficou claro? Esse entendimento sobre o que vem a ser “risco” é de fundamental importância para uma boa compreensão da NR-3.

Continuando a definição do GIR, vamos ao ‘grave e iminente’.

Enquanto o grave é relacionado à severidade das consequências um evento danoso, o termo iminente é utilizado para a probabilidade de que esse evento danoso esteja a ponto de acontecer ou prestes a iniciar.

Reescrevendo, então, a expressão que fundamenta a NR-3, podemos entender que “grave e iminente risco” é toda aquela exposição ao perigo que está na iminência de causar ou de dar início a um dano categórico à saúde ou à integridade física do trabalhador.

E por que mencionei o “dar início”?

Algumas doenças ocupacionais, como por exemplo a silicose, só apresentam sintomas com o passar do tempo. Sendo assim, utilizamos o conceito da iminência mesmo quando o ambiente de trabalho favorece o surgimento de moléstias que levam anos para se manifestar.

Outro ponto importante do primeiro item da Nova NR-3 ao qual devemos nos ater é quando ele faz referência aos “requisitos técnico objetivos” de embargo e interdição.

Ao longo da leitura da Norma iremos perceber que um de seus objetivos foi reduzir a importância dos critérios subjetivos para a definição do que é “grave” e do que é “iminente”. Ao estabelecer um parâmetro quantitativo para a constatação do GIR, ela proporciona maior

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confiabilidade e segurança jurídica ao processo – daí a ideia de que a Norma estabelece requisitos técnicos objetivos para o embargo e para a interdição, no caso, a validação matricial que analisaremos adiante.

3.1.1.1 A adoção dos referidos requisitos técnicos visa à formação de decisões

consistentes, proporcionais e transparentes.

➔ Caso a decisão sobre o que viria a ser grave e iminente risco num ambiente de trabalho dependesse única e exclusivamente de critérios subjetivos, o processo de criação desse entendimento poderia ser de difícil compreensão, uma vez que dependeria de conceitos individuais que variam de AFT para AFT. A adoção de requisitos técnicos objetivos vem trazer muito mais transparência e consistência nas decisões.

3.2 Definições

3.2.1 Considera-se grave e iminente risco toda condição ou situação de trabalho

que possa causar acidente ou doença com lesão grave ao trabalhador.

➔ Ao lermos o item 3.2.1, chama a nossa atenção a expressão “possa causar”. É a NR-3 olhando para o futuro – e não para o passado! Argumentos do tipo “Interditada? Mas por quê? Ninguém nunca se feriu nessa máquina!” não cabem aqui...

Diferentemente do Código Penal, que pune uma pessoa por algo que ele fez no passado, a Norma Regulamentadora nº. 3 vem estabelecer critérios técnicos para que nada de grave ocorra no futuro – por isso o argumento de que ela é preventiva, não punitiva.

Analisando esse item da Norma, percebemos que ele esclarece que toda condição ou situação de trabalho na qual o trabalhador possa sofrer danos sérios à sua saúde (doença) ou à sua integridade física (acidente) é uma situação ou condição de risco grave e iminente. Vamos insistir na ideia de que a Norma não se refere a “já sofreu”, “já aconteceu”, “quase aconteceu” ou “certamente vai sofrer”. Lembre-se! A NR-3 trabalha com as consequências e as probabilidades – atributos fundamentais para termos em mente quando estudamos os embargos e as interdições.

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Agora, iremos trazer alguns exemplos para, juntos, refletirmos sobre prováveis situações de grave e iminente risco na prática. Vamos lá?

Situação 1: Manicure e Pedicure

Quantas horas por dia a trabalhadora em destaque na imagem se mantém nessa posição? Quais as consequências para a trabalhadora caso ela se mantenha nessa posição por jornadas de trabalho tão extensas? Trata-se de uma condição de trabalho que pode causar lesões graves à sua coluna vertebral? É provável que essas lesões ocorram? Mas ninguém nunca reclamou formalmente das más condições de trabalho que o salão oferece. E aí?

De onde será que vem a dor nas costas da qual algumas trabalhadoras se queixam? Da má postura ao dormir?

Será que um posto de trabalho no qual a cliente pudesse ficar numa posição mais elevada permitiria que a trabalhadora não fosse obrigada a curvar tanto a coluna? Qual deles será mais oneroso, mais caro ao empresário: um posto de trabalho ergonomicamente correto ou a cadeira que vemos na imagem?

Será a inexistência de um equipamento adequado ou uma decisão administrativa focada na redução de custos que submete a trabalhadora a essa situação?

Nosso objetivo não é o de trazer respostas, mas o de incentivar novas perguntas.

Situação 2: Operador de pá carregadeira em fábrica de fertilizantes

Um operador de pá carregadeira, em função da limitação do alcance do equipamento, retira apenas o material localizado na metade inferior da montanha de compostos químicos à sua frente.

É possível que essa montanha venha a desmoronar caso o processo de escavação continue sendo feito apenas na parte de baixo? Se sim, o que acontecerá com o operador? Caso ele seja encoberto, poderá sofrer algum tipo de lesão grave? Poderá ser arremessado do equipamento? Poderá ter seu corpo

Imagem da Internet

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prensado contra a máquina? Conseguirá respirar com facilidade até que seja retirado de baixo do material desmoronado? Mas nada disso nunca aconteceu! E agora?

Sendo assim, recorramos às perguntas: Quais as consequências para o operador do equipamento caso parte da montanha caia sobre ele? É provável que isso aconteça?

Vamos pensar num processo de produção no qual o operador, de tempos em tempos, precisasse parar para que a montanha a sua frente fosse nivelada. Essa modificação simples reduziria essa probabilidade? Mas essa alteração do modus operandi daria uma sensação de que a produtividade dos trabalhos foi prejudicada. Será?

Situação 3: Açougues

Uma serra-fita (máquina utilizada em açougues para corte de carnes, principalmente com osso) sem qualquer tipo de proteção na área de corte poderá amputar o dedo de seu operador? É provável que isso aconteça quando o açougueiro aproximar muito seus dedos em função do tamanho reduzido do pedaço de carne a ser cortado?

Se acontecer, a qual conclusão chegaremos? Um ato inseguro do trabalhador, que aproximou muito as suas mãos? Ou deveria existir um dispositivo que empurre esse pedaço em direção à serra?

E mais: sendo uma serra, não deveria haver algum tipo de proteção na mesma, já que a área do entorno é considerada uma zona perigosa?

Uma proteção na serra e um dispositivo empurrador do pedaço de carne reduziriam a probabilidade de uma lesão? Mas isso não afetaria a produção? O que fazer? Dar uma luva metálica? O fornecimento do Equipamento de Proteção Individual – EPI inibe / evita / substitui a necessidade de se adequar a máquina, que é a fonte do risco?

Mas ninguém nunca se acidentou com essa serra-fita, oras!!! E aí?

Arquivo pessoal

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Situação 4: Auxiliar de serviços gerais de um time de futebol

Qual tipo de situação de grave e iminente risco que um auxiliar de serviços gerais de um time de futebol está exposto? Nenhum!, pode ser o nosso primeiro pensamento.

Mas olhando as imagens ao lado, referentes à fiação da casa da bomba d’água do estádio (carinhosamente apelidada pelos próprios frequentadores do local, segundo podemos ver na porta da segunda imagem, de “bomba loca”), qual seria a nossa conclusão?

- “Ah!”, você pode pensar, “mas a probabilidade de acontecer alguma coisa é muito remota!”

E se eu te disser que o trabalhador morreu aí dentro? Eletrocutado! Perceba que temos partes vivas expostas, suporte de madeira (que na presença de uma faísca ou curto pode acabar se incendiando), emendas irregulares na fiação... e mais: havia chovido muito na véspera e o piso estava completamente alagado. Na presença da corrente elétrica que escapava desse “sistema” (entre aspas porque nos recusamos a considerar ‘isso’ um sistema elétrico, mas sim uma gambiarra elétrica), o resultado foi fatal!

Como dissemos, nossa primeira forma de pensar pode ser a de acreditarmos que não há risco algum – por isso as perguntas ‘Quais as consequências caso algum evento danoso aconteça?’ e ‘É provável que tal evento ocorra de fato?’ são tão fundamentais.

Outra conclusão importante: não é a atividade em si que diz se a situação ou condição de trabalho apresenta grave e iminente risco, mas fundamentalmente a maneira pela qual a atividade é executada e as condições de trabalho através das quais o serviço é desempenhado. Por favor, lembre-se disso ok? Um vendedor de balas pode estar submetido a uma condição de muito mais risco do que um operador de uma plataforma de petróleo.

Arquivo pessoal

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11 Situação 5: Lavanderia hospitalar

Você já se perguntou como funciona uma lavanderia de hospital? Não?

De um lado, temos a parte contaminada, do outro, a limpa e, entre as duas, uma “bela” máquina de lavar industrial, capaz de limpar e esterilizar todo o material colocado em seu interior. No lado “sujo” é aonde chega toda a bagaceira do hospital: vestuário e roupas de cama e banho sujas de urina, fezes, sangue, vômitos, todo tipo de secreção corporal, restos cirúrgicos, etc. Esse material é lavado nessa máquina de lavar especialmente projetada para esse fim e que contém portas de acesso de ambos os lados para que exista uma barreira anti-contaminação: a parte contaminada, evidentemente, não pode ter nenhum tipo de ligação com a parte limpa – caso contrário, esta também ficaria contaminada.

Quais as consequências para um paciente que acaba de ser internado num hospital caso a proteção de vidro do visor que permite que ambos os lados se vejam estivesse quebrada, como aconteceu no caso registrado pela imagem? Essa barreira anti-contaminação estaria prejudicada, correto? Há algum risco grave para os trabalhadores que desempenham suas atividades na área limpa, que não utilizam nem a metade dos equipamentos de proteção daqueles que atuam na parte “suja”? Quais seriam as consequências para esses trabalhadores da área limpa? É provável que alguma contaminação ocorra?

Não é raro encontrarmos trabalhadores sem nenhuma parte do corpo exposta nesses ambientes contaminados de hospitais. Por sua vez, os trabalhadores da área limpa utilizam, normalmente, touca, luvas e jaleco ou avental. A quais tipos de material biológico esses trabalhadores da área limpa estarão expostos caso as duas partes se comuniquem sem qualquer tipo de barreira?

Detalhe: não estamos, aqui, levando em consideração a saúde dos pacientes que irão utilizar esse material “lavado”. Imagine, por um breve momento, seu pai, gripado, deitando num lençol que anteriormente foi utilizado por um paciente tuberculoso mas que, em função do contato entre a área limpa com a área suja, continua contaminado. Caso o estado de saúde de seu pai piore e ele também contraia tuberculose, quem será o culpado?

Note que, muitas vezes, a Segurança e Saúde do Trabalho extrapola o ambiente de trabalho e recai sobre toda a sociedade – se transformando, como neste exemplo, num caso de saúde pública!

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Existe uma infinidade de casos que poderiam ser trazidos a este estudo, mas para não torna-lo demasiadamente longo e de difícil leitura, vamos nos ater a estes 5 exemplos de aparentes situações de grave e iminente risco na tentativa de esclarecermos que nem sempre o risco está aonde acreditamos que ele esteja, que nenhuma atividade está isenta de condições de trabalho passíveis de causar danos à saúde e à integridade física dos trabalhadores e que, mais uma vez, a reflexão sobre as consequências e a probabilidade da ocorrência de um evento danoso é tão fundamental quando nos propomos a atuar na área de SST.

Agora, de volta aos itens da Nova NR-3.

3.2.2 Embargo e interdição são medidas de urgência adotadas a partir da

constatação de condição ou situação de trabalho que caracterize grave e

iminente risco ao trabalhador.

➔ O item 3.2.2 da Nova NR-3 tem praticamente a mesma redação do 1º item da redação antiga. Foi inserido apenas a “condição” de trabalho, que antes não existia. Ou seja, não mudou quase nada. Antigamente era assim:

3.1 Embargo e interdição são medidas de urgência, adotadas a partir da constatação de situação de trabalho que caracterize risco grave e iminente ao trabalhador.

O importante a destacar aqui é que a comissão tripartite responsável pela elaboração da Norma fez questão de destacar que embargos e interdições são medidas de urgência, não de punição.

Não é raro encontramos profissionais da área de Segurança e Saúde do Trabalho um tanto quanto eufóricos se manifestando a respeito dos embargos e das interdições como se tais medidas representassem uma vingança, uma desforra da Auditoria-Fiscal do Trabalho contra os empregadores que descumprem as NR’s. O objetivo não é esse!

Os bons dicionários definem urgente como “aquilo que se deve fazer com rapidez; o que é imprescindível; que apresenta necessidade imediata”. Logo, por “medidas de urgência” podemos entender aquelas medidas onde não há que se falar em prazos para saneamento de irregularidades: as situações ou condições de GIR são paralisadas imediatamente até que as devidas correções sejam feitas.

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3.2.2.1 O embargo implica a paralisação parcial ou total da obra.

➔ Por favor, se todo o conteúdo deste e-book for esquecido, lembre-se apenas disso: o EMBARGO é para OBRAS. Embargo. Obra. Os dois possuem a letra B. #ficaadica rs... É absurda a frequência com que profissionais da área de segurança e saúde do trabalho se referem, por exemplo, ao “embargo” do guincho, ao “embargo” da serra, ao “embargo” da betoneira.

Pode parecer um deslize pequeno (e, na verdade, é!), mas dá aquela sensação de mal-estar e passa a impressão de que é um profissional que não sabe nada! (eu sei, eu sei... Não era para ser assim. Mas quem disse que a vida é fácil?) Nesses casos, por se tratarem de máquinas, teríamos a interdição do guincho, a interdição da serra, a interdição da betoneira. O item 3.2.2.1 nos diz que o embargo de uma obra não precisa ocorrer em toda a construção. E não pense que seja algo raro de acontecer. Pelo contrário!

Suponhamos um prédio vertical de 30 pavimentos que ainda está em construção. Caso não haja proteção contra queda de trabalhadores apenas da 12ª laje em diante, qual o motivo de embargarmos os 11 primeiros pavimentos? Dessa forma, teríamos um embargo parcial da obra. Ficou claro?

Este nosso exemplo é um caso real. A seguir, mostramos a transcrição parcial do Termo de Embargo e do Relatório Técnico (que serão detalhados ao final deste material), além das imagens da obra tal qual a encontramos:

TERMO DE EMBARGO

Fica determinado o EMBARGO do 12º pavimento em diante do canteiro de obras

endereçado acima nos termos do artigo 161 da CLT em razão da constatação da situação de

grave e iminente risco descrita no Relatório Técnico anexo a este Termo.

RELATÓRIO TÉCNICO

Em 01 / 07 / 20161 foi constatado grave e iminente risco de queda de trabalhadores e de

projeção de materiais na obra em função da ausência de itens obrigatórios relacionados à segurança e saúde do trabalho. Para que o presente EMBARGO seja suspenso, a empresa deverá:

1. Instalar, em todo o perímetro dos pavimentos 13, 16, 19 e 22, plataforma secundária de proteção (itens 18.13.7 e 18.13.7.1 da NR 18); 2. Manter o canteiro de obras organizado, livre e com as vias de circulação desimpedidas (item 18.29.1 da NR 18); 3. Assegurar que as aberturas

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no piso tenham fechamento provisório resistente (tens 18.13.2 e 18.13.2.1 da NR 18); 4. Instalar proteção onde houver risco de queda de trabalhadores (itens 18.13.1, 18.13.4 e 18.13.5 da NR-18); e 5. Proteger as pontas verticais de vergalhões de aço (item 18.8.5 da NR 18).

A seguir, a realidade do canteiro de obras a partir do 12º pavimento: sem plataforma de proteção (“bandeja”) secundária; vias de circulação impedidas; aberturas no piso fechadas de forma precária; e pontas verticais dos vergalhões de aço desprotegidas.

Sem proteção contra queda na periferia Abertura de piso fechada de forma precária

Sem proteção contra queda e sem a bandeja

Vias de circulação impedidas. Sem proteção contra queda e com pontas

verticais de vergalhões de aço desprotegidas.

Arquivo pessoal Arquivo pessoal

Arquivo pessoal

Arquivo pessoal Arquivo pessoal

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15

3.2.2.2 A interdição implica a paralisação parcial ou total da atividade, da

máquina ou equipamento, do setor de serviço ou do estabelecimento.

➔ O destaque aqui vai para a inclusão do termo “atividade”, que não constava na redação anterior da Norma. Antigamente a redação era a seguinte:

3.2 A interdição implica a paralisação total ou parcial do estabelecimento, setor de serviço, máquina ou equipamento.

Assim como acontece no embargo, a interdição também não precisa ser total. Uma vez que ela se destina a situações de grave e iminente risco encontradas em atividades, estabelecimentos, setores de serviço, máquinas ou equipamentos, ela pode abranger apenas uma parte do todo.

Para melhor esclarecermos o item 3.2.2.2, vamos dar um exemplo de cada um dos itens elencados pela Nova NR-3:

Atividade: num frigorífico, por exemplo, existem diversas atividades a serem executadas.

Caso o Auditor-Fiscal do Trabalho encontre grave e iminente risco apenas na desossa, o que ele vai interditar? A faca? A linha de produção? Toda a unidade? Claro que não! Ele interdita tão somente a desossa – daí a importância da inclusão do termo “atividade” no item que trata da interdição.

Máquina ou equipamento: fiscalizando um canteiro de obras, percebemos que os

andaimes estão apoiados sobre lascas de madeira já em estado de putrefação, possuem pisos improvisados com tábuas soltas e não são dotados de escadas de acesso ao posto de trabalho, forçando os trabalhadores a escalarem sua estrutura metálica, aumentando a probabilidade de uma queda. O que iremos fazer? Embargar toda a obra? Embargar o andaime? Opa! Mas embargo é para obra, certo? Logo, interditamos o andaime. O mesmo raciocínio é usado para máquinas, como centrífugas industriais, calandras, betoneiras, amassadeiras e etc.

Setor de serviço: num hospital, percebemos que o lay out da oficina não favorece a

segurança dos trabalhadores que lá desempenham suas atividades e, como se não bastasse, há muito material cortante sem qualquer tipo de proteção espalhado

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aleatoriamente sobre as bancadas e pelo chão, além de fios energizados desencapados por todo o ambiente de trabalho. Nesse caso, interdita-se a oficina, permitindo que todos os demais setores do estabelecimento continuem com seu funcionamento normal.

Estabelecimento: pensemos numa marmoraria onde todos os setores estão praticamente

submersos em pó de sílica. Diferentemente dos demais exemplos dados, aqui a interdição deve ocorrer em toda a unidade.

3.2.2.3 O embargo e a interdição podem estar associados a uma ou mais das

hipóteses referidas nos itens 3.2.2.1 e 3.2.2.2.

➔ É muito comum embargarmos parte de uma obra e interditamos algumas máquinas e equipamentos dessa mesma obra. Não é porque um equipamento foi interditado que um setor de serviço do mesmo local também não possa sê-lo.

Como exemplo, deixo aqui um embargo parcial e uma interdição total que fiz no final do ano de 2019, ambos no mesmo canteiro de obras:

(...) fica determinado o EMBARGO PARCIAL da construção da guarita e da área externa do

pilotis, nos termos da Consolidação das Leis do Trabalho, em razão da constatação da situação

de grave e iminente risco descrita no Relatório Técnico anexo a este Termo.

(...) fica determinada a INTERDIÇÃO TOTAL do misturador localizado no subsolo da obra, nos termos da Consolidação das Leis do Trabalho, em razão da constatação da situação de grave e iminente risco descrita no Relatório Técnico anexo a este Termo.

3.2.2.3.1 O Auditor Fiscal do Trabalho deve adotar o embargo ou a interdição na

menor unidade onde for constatada situação de grave e iminente risco.

➔ É o exemplo da desossa que utilizamos anteriormente. Diante da possibilidade de paralisar apenas a atividade da desossa, por que interditar toda a linha de produção? Cabe ao Auditor-Fiscal do Trabalho utilizar o seu poder de polícia com a menor abrangência

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possível – nas palavras da Nova NR-3, “na menor unidade onde for constatada situação de grave e iminente risco”.

3.3 Caracterização do grave e iminente risco

3.3.1 A caracterização do grave e iminente risco deve considerar:

a) a consequência, como o resultado ou resultado potencial esperado de um

evento, conforme Tabela 3.1; e

b) a probabilidade, como a chance de o resultado ocorrer ou estar ocorrendo,

conforme Tabela 3.2.

➔ Essa talvez seja a maior alteração da NR-3: a partir desta nova redação, a caracterização do GIR se dá através da análise da consequência de um evento danoso e a probabilidade desse evento danoso acontecer.

Em breve nos debruçaremos mais detalhadamente sobre esses aspectos, mas eu gravei uma videoaula no YouTube resumindo a leitura dessas tabelas 3.1 e 3.2. Para assisti-la, basta clicar AQUI.

3.3.2 Para fins de aplicação desta norma, o risco é expresso em termos de uma

combinação das consequências de um evento e a probabilidade de sua

ocorrência.

➔ Como vimos anteriormente, o risco pode ser entendido como a exposição ao perigo. Contudo, para a aplicação da NR-3, ele não será considerado puramente como ‘exposição ao perigo’, uma definição que traz muita subjetividade para o nosso cotidiano. A partir de agora, para que o entendimento da existência de grave e iminente risco seja amparado pela Norma, deverão ocorrer combinações específicas de consequências de um evento danoso e de probabilidades desse evento danoso ocorrer. Tudo isso será melhor explicado quando da análise das Tabelas 3.1, 3,2, 3.3 e 3.4.

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3.3.3 Ao avaliar os riscos o Auditor-Fiscal do Trabalho deve considerar a

consequência e a probabilidade separadamente.

➔ Para que o entendimento da existência de GIR seja embasado pela Nova NR-3, primeiro o AFT deverá considerar as consequências de um evento danoso e só depois ele irá analisar as probabilidades desse evento danoso acontecer. Pela antiga redação, bastava uma constatação pessoal por parte do AFT:

3.1.1 Considera-se grave e iminente risco toda condição ou situação de trabalho que possa causar acidente ou doença relacionada ao trabalho com lesão grave à integridade física do trabalhador.

Não é à toa que o item 3.1.1 da atual redação fala em “requisitos técnicos objetivos”:

3.1.1 Esta norma estabelece as diretrizes para caracterização do grave e iminente risco e os

requisitos técnicos objetivos de embargo e interdição.

3.3.4 A classificação da consequência e da probabilidade será efetuada de forma

fundamentada pelo Auditor-Fiscal do Trabalho.

➔ Não basta ao AFT achar que a consequência de um evento danoso é severa e a probabilidade é possível. Ele terá que fundamentar tais constatações

3.3.5 A classificação das consequências deve ser efetuada de acordo com o

previsto na Tabela 3.1 e a classificação das probabilidades de acordo com o

previsto na Tabela 3.2.

➔ Na tabela 3.1 temos a classificação das consequências e na tabela 3.2 temos a classificação das probabilidades:

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19

São 5 as classificações das consequências presentes na tabela 3.1:

Morte: caso a ocorrência do evento danoso acarrete na morte do trabalhador (imediata

ou posterior), a classificação da consequência deve ser “Morte”. Exemplo: evento danoso que cause a queda de um trabalhador de 30 metros de altura, como trabalhar na periferia de um edifício vertical em construção sem nenhuma proteção contra queda.

Severa: caso a ocorrência do evento danoso acarrete em lesões ou sequelas

permanentes, tanto à integridade física quanto à saúde do trabalhador, a classificação da consequência deve ser “Severa”. Exemplo: perda auditiva de um serralheiro que executa suas atividades de 10 a 12 horas por dia sem nenhum tipo de proteção coletiva ou individual exposto a ruído num nível superior a 85 decibéis.

Significativa: caso a ocorrência do evento danoso acarrete prejuízos à saúde ou à

integridade física do trabalhador de forma a deixá-lo incapacitado por mais de 15 dias, a classificação da consequência deve ser “Significativa”. Exemplo: esmagamento das mãos do operador de uma máquina que esteja funcionando com suas cremalheiras desprotegidas (cremalheiras são aquelas réguas dentadas sobre as quais um disco se desloca, permitindo a movimentação de partes de máquinas e equipamentos).

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Leve: caso a ocorrência do evento danoso acarrete prejuízos à saúde ou à integridade

física do trabalhador de forma a deixá-lo incapacitado por 15 dias ou menos, a classificação da consequência deve ser “Leve”. Exemplo: o acesso ao depósito de uma loja de departamentos é feito na correria pelos trabalhadores através de uma escada que está com vários degraus soltos e sem a fita antiderrapante. A consequência, nesse caso, seria uma queda com torção dos pés ou das mãos.

Nenhuma: quando a situação ou condição de trabalho não cause lesões ou efeitos

danosos à saúde do trabalhador, a classificação da consequência deve ser “nenhuma”. Exemplo: gabinete sanitário sem trinco interno na porta. Por mais que afronte a dignidade humana e contrarie item específico de Norma Regulamentadora, a ausência do trinco da porta de um banheiro não causa consequências diretas à integridade física ou a saúde do trabalhador (abrindo os devidos parêntesis aqui para destacar o desconforto, o constrangimento e o aborrecimento que uma coisa tão simples pode causar, gerando outros fatores de risco, como desatenção quando do trabalho em atura. Entretanto, será o trabalho em altura em condição de risco que deverá ser avaliado para a constatação de GIR – e não a ausência do trinco da porta do gabinete sanitário).

Na tabela 3.2 temos a classificação das probabilidades, que irá levar em conta a existência ou não de medidas efetivas de prevenção, a manutenção dessas medidas a longo prazo e as chances de um evento danoso acontecer:

(21)

21

São 4 as classificações das probabilidades presentes na tabela 3.2:

Provável: caso não exista nenhuma medida preventiva ou as medidas existentes sejam

reconhecidamente inadequadas, a classificação da probabilidade deve ser “Provável”. Exemplo: trabalhador exercendo suas atividades na periferia do 20º andar de um edifício em construção sem qualquer proteção contra queda de altura ou tão somente uma fita zebrada com uma placa escrito “afasta-se”. Uma vez que a fita zebrada não impede a queda de ninguém, é uma medida reconhecidamente inadequada para a prevenção de queda de altura.

Possível: caso as medidas preventivas apresentem desvios ou problemas significativos e

não exista qualquer garantira de que elas sejam mantidas no longo prazo, a classificação da probabilidade deve ser “Possível”. Exemplo: quadro de distribuição de energia elétrica com partes vivas expostas dotado de porta com fecho capaz de ser aberto por qualquer pessoa. Por mais que exista uma barreira com trava, ela não é suficiente para afastar dali o trabalhador não capacitado. Dessa forma, uma vez que a medida de prevenção adotada não é suficiente para permitir a intervenção apenas do trabalhador capacitado, a tampa pode ficar aberta com a fiação interna disposta de forma a possibilitar a ocorrência de choques elétricos, podemos classificar a probabilidade de ocorrência de um evento danoso como “Possível”.

(22)

Remota: caso as medidas preventivas adotadas sejam adequadas mas ainda possuam

alguns poucos desvios ou não ofereçam garantias de que sejam mantidas a longo prazo, a classificação da probabilidade deve ser “Remota”. Utilizaremos essa classificação quando seja quase improvável que ocorra um evento danoso. Exemplo: toda medida de prevenção que seja suscetível de burla.

A variável “componente comportamental”, também chamada de “intervenção humana”, sempre deve ser levada em consideração para a classificação das probabilidades segundo a tabela 3.2, pois é ela que vai manter ou precarizar as medidas preventivas no longo prazo.

Rara: classificação utilizada quando as medidas preventivas adotadas sejam adequadas

com garantia de sua manutenção a longo prazo. A ocorrência de um evento danoso é quase impensável.

Ainda com relação às tabelas 3.1 e 3.2, é importante destacar que, em geral (não é uma regra!), enquanto as medidas de proteção coletiva (popularmente chamadas de ‘barreiras’) reduzem as probabilidades, as medidas de proteção individual reduzem as consequências.

➔ Pra lembrar: barreiras reduzem as probabilidades

3.3.6 Na caracterização de grave e iminente risco ao trabalhador, o Auditor-Fiscal

do Trabalho deverá estabelecer o excesso de risco por meio da comparação

entre o risco atual (situação encontrada) e o risco de referência (situação

objetivo).

➔ “o excesso de risco”.

A partir de agora, o Auditor-Fiscal do Trabalho não embarga ou interdita em função de um risco absoluto, mas em função do excesso de risco, ou seja, em função da diferença de risco existente entre aquilo que é preconizado pelas Normas Regulamentadoras e o que foi encontrado na fiscalização. Em outras palavras, podemos dizer que a constatação do GIR deverá levar em conta o quão distante a situação encontrada está das regras estipuladas pelas NR’s.

Matematicamente falando, temos que

(23)

23

Nada mais é do que a diferença entre o que está sendo visualizado (risco atual) e como a situação deveria estar (risco de referência). Justamente por isso que argumentos do tipo “Mas doutor!! Sempre fiz assim e nunca aconteceu acidente antes” não cabem na constatação do GIR: enquanto a frase “isso nunca aconteceu antes” olha pro passado, a constatação do GIR olha pro presente e pro futuro quando compara a situação encontrada com a situação objetivo.

Reescrevendo o item 3.3.6, teríamos algo mais ou menos assim: Na caracterização de grave e iminente risco ao trabalhador, o Auditor-Fiscal do Trabalho deverá estabelecer o quão distante a situação encontrada está da realidade esperada pelas NR’s.

Dessa forma, ao encontrar uma situação de risco, o AFT deverá se questionar “Quão distante essa situação está das NR’s?” Para responder a essa pergunta, ele irá utilizar as tabelas 3.3 e 3.4, que estudaremos em breve.

Também abordei a redação do item 3.3.6 na minha videoaula sobre as tabelas da Nova NR-3 que disponibilizei gratuitamente no YouTube. Começa aos 18:5NR-3. Basta clicar AQUI.

3.3.7 O excesso de risco representa o quanto o risco atual (situação encontrada)

está distante do risco de referência esperado após a adoção de medidas de

prevenção (situação objetivo).

➔ Exatamente conforme abordamos nos comentários do item anterior.

3.3.8 A Tabela 3.3 deve ser utilizada pelo Auditor-Fiscal do Trabalho em caso de

exposição individual ou de reduzido número de potenciais vítimas expostas ao

risco avaliado.

➔ Iremos comentar simultaneamente os itens 3.3.8 e o 3.3.9.

3.3.9 A Tabela 3.4 deve ser utilizada para a avaliação de situação onde a

exposição ao risco pode resultar em lesão ou adoecimento de diversas vítimas

simultaneamente.

(24)

➔ As tabelas 3.3 e 3.4 serão utilizadas para encontrarmos o excesso de risco da situação atual, que é o fator determinante para justificar o embargo e a interdição.

A tabela 3.4 traz resultados mais rigorosos porque trata do direito coletivo. “Sabino, isso significa que dez vidas valem menos que uma?” Claro que não é isso! Acontece que o direito brasileiro privilegia questões coletivas, no sentido de que uma coletividade, quando sofre algum tipo de ameaça, precisa ser muito mais protegida do que seria necessário caso a referida ameaça ocorresse de forma individual – não é à toa que questões de segurança pública são muito mais discutidas do que as de segurança individual.

Na minha videoaula sobre as tabelas da NR-3 eu abordo o assunto a partir dos 02:45 minutos. Clique AQUI.

Sendo assim, quando a exposição ao risco for individual, utilizaremos a tabela 3.3. Caso a exposição seja coletiva, a tabela utilizada será a 3.4.

Para esclarecer a situação, pensemos num canteiro de obras que tem grandes e profundas escavações e um prédio em construção de 20 andares.

Situação 1: 1 trabalhador executa suas atividades no fundo de uma escavação com 5

metros de profundidade. A escavação conta com uma montanha de material depositada junto à sua borda sem que haja a garantia de estabilidade dos taludes e sem escada próxima ao posto de trabalho do operário. Elevado risco de soterramento.

Por se tratar de 1 trabalhador, temos uma exposição individual.

Consequentemente, utilizaremos a tabela 3.3 para encontrarmos o excesso de risco.

Situação 2: mesmo cenário anterior, porém, são 10 trabalhadores em atividade no fundo

dessa mesma escavação. Como um desmoronamento soterraria os 10 trabalhadores ao mesmo tempo, trata-se de uma exposição coletiva (uma vez que o evento danoso envolveria os 10 de forma simultânea).

Por termos 10 trabalhadores que seriam alcançados por um mesmo evento danoso, temos uma exposição coletiva. Consequentemente, iremos utilizar a tabela 3.4.

Situação 3: 10 trabalhadores executam suas atividades na 19ª laje do edifício em

construção. Não existe proteção contra queda na periferia e nem linha de vida para que eles ancorem seus cintos de segurança. Elevado risco de queda.

(25)

25

Num primeiro momento, poderíamos pensar “Como são 10 trabalhadores, temos que usar a tabela 3.4”. Mas não é bem assim...

Uma vez que a queda não envolveria os 10 trabalhadores simultaneamente, não temos uma exposição coletiva.

Para termos uma exposição coletiva, precisaríamos ter um único evento envolvendo todos esses 10 trabalhadores.

Na situação descrita, são 10 exposições individuais à queda – e não uma exposição coletiva. Ficou claro?

Consequentemente, utilizaremos a tabela 3.3 (exposição individual).

Situação 4: 5 trabalhadores executam suas atividades num andaime suspenso (daqueles

que ficam pendurados do lado de fora dos prédios em construção) a 20 metros de altura.

Exemplo de andaime suspenso. Imagem da internet. Conteúdo meramente ilustrativo.

O andaime não tem projeto, nunca foi vistoriado, nunca passou por qualquer tipo de manutenção em seus mais de 5 anos de uso e foi montado por profissionais não qualificados para tal. A sua estrutura de sustentação na cobertura não possui anotação de responsabilidade técnica e é feita com sacos de areia. Ele foi construído com madeira e os trabalhadores não possuem cintos de segurança. Elevado risco de queda do equipamento. Percebeu que este caso é totalmente diferente do anterior? Aqui, a queda do equipamento resultaria na queda simultânea dos 5 trabalhadores.

(26)

Ficou claro, não ficou?

Pode parecer complicado, mas é relativamente fácil quando analisamos a exposição: se 1 evento danoso alcança 1 vítima, usamos a tabela 3.3. Mas caso a ocorrência de 1 evento danoso envolva uma pluralidade de vítimas, usamos a tabela 3.4.

3.3.10 Os descritores do excesso de risco são: E - extremo, S - substancial, M -

moderado, P - pequeno ou N - nenhum.

➔ Como veremos em breve, as tabelas 3.3 e 3.4 apresentam diversas letras contidas em células coloridas. São elas E, S, M, P e N.

Essas letras (ou “descritores”) se referem ao excesso de risco encontrado:

E para excesso de risco extremo; S para excesso de risco substancial; M para excesso de risco moderado; P para pequeno excesso de risco; e N para nenhum excesso de risco.

3.3.11 Para estabelecer o excesso de risco, o Auditor-Fiscal do Trabalho deve

seguir as seguintes etapas:

➔ O item 3.3.11 traz o passo-a-passo que o AFT deverá seguir para estabelecer o excesso de risco da situação encontrada. São 3 passos ao todo.

Para quem atua na área da Segurança e Saúde do Trabalho ou na seara do compliance trabalhista, seguir os passos do item 3.3.11 é fundamental para uma atuação preventiva dentro das organizações.

a) primeira etapa: avaliar o risco atual (situação encontrada) decorrente das

circunstâncias encontradas, levando em consideração as medidas de controle

existentes, ou seja, o nível total de risco que se observa ou se considera existir

(27)

27

na atividade, utilizando a classificação indicada nas colunas do lado esquerdo

das Tabelas 3.3 ou 3.4;

➔ 1º passo: avaliar a consequência de um evento danoso e a probabilidade deste evento danoso acontecer na situação encontrada, conforme estudamos no item 3.3.5.

Cabeçalho esquerdo superior das tabelas 3.3 e 3.4.

b) segunda etapa: estabelecer o risco de referência (situação objetivo), ou seja, o

nível de risco remanescente quando da implementação das medidas de

prevenção necessárias, utilizando a classificação nas linhas da parte inferior das

Tabelas 3.3 ou 3.4;

➔ 2º passo: avaliar a consequência de um evento danoso e a probabilidade deste evento danoso acontecer na situação objetivo (aquela que seria encontrada caso os dispositivos das NRs fossem cumpridos).

(28)

c) terceira etapa: determinar o excesso de risco por comparação entre o risco

atual e o risco de referência, localizando a interseção entre os dois riscos na

tabela 3.3 ou 3.4.

➔ 3º passo: “cruzar” a linha do passo 1 e a coluna do passo 2 para a determinação do excesso de risco.

A NR-3 só apresenta as tabelas 3.3 e 3.4 após o item 3.4.4. Contudo, para um melhor entendimento, vamos adiantar a apresentação da tabela 3.3 para que possamos exemplificar o passo-a-passo trazido apresentado pelo item 3.3.11:

Tabela 3.3

Para a construção de uma didática minimamente aceitável, vamos partir de uma situação real para sabermos se caberia o embargo ou a interdição segundo as regras do item 3.3.11: Pensemos na construção de um edifício vertical sem qualquer tipo de proteção contra queda na periferia das lajes. Os trabalhadores executam suas atividades sem cinto de segurança e sem calçados de segurança. As vias de circulação estão obstruídas, forçando os trabalhadores a simular uma corrida de obstáculos para se deslocar ao longo dos pavimentos. Os andaimes, montados na arte externa e sem escada de acesso aos postos de trabalho, contam com tábuas soltas e improvisadas como piso de trabalho.

(29)

29

Imagem de arquivo pessoal

(30)

Seguindo os passos apresentados, iremos verificar se a situação demonstrada deverá ser embargada ou não.

1º passo: avaliar a consequência de um evento danoso e a probabilidade deste evento

danoso acontecer na situação encontrada.

Consequência: queda ➔ Na classificação da Tabela 3.1: Morte, já que pode levar a

óbito.

Probabilidade: altíssima ➔ Na classificação da Tabela 3.2: Provável, já que as

medidas de prevenção são inexistentes.

2º passo: avaliar a consequência de um evento danoso e a probabilidade deste evento

danoso acontecer na situação objetivo.

Consequência: queda (lembre-se que as barreiras, em geral, reduzem a probabilidade – conforme comentamos no item 3.3.5) ➔ Na classificação da Tabela 3.1: Morte, já que pode levar a óbito.

Probabilidade: caso as medidas trazidas pelas NRs fossem implementadas, quais seriam as probabilidades de uma queda ocorrer quando do trabalho em altura?

- Proteção contra queda de periferia executada conforme projeto elaborado por profissional legalmente habilitado.

(31)

31

- Trabalhadores utilizando cinto de segurança ancorado em linha de vida executada conforme projeto elaborado por profissional legalmente habilitado.

- Trabalhadores utilizando calçados de segurança. - Vias de circulação desobstruídas.

- Andaimes com escada de acesso aos postos de trabalho.

- Andaimes com proteção contra queda de trabalhadores e com rodapés para evitar a queda de material.

- Piso de trabalho dos andaimes forrado completamente e preso à estrutura metálica do dispositivo.

Nessas condições, qual seria a probabilidade de uma queda acontecer? Voltando ao raciocínio...

Consequência: queda ➔ Na classificação da Tabela 3.1: Morte, já que pode levar a

óbito.

Probabilidade: baixíssima, quase inexistente ➔ Na classificação da Tabela 3.2: Remota, já que uma conduta humana ainda pode interferir no processo, como por

exemplo no caso de trabalhador retirar uma proteção contra queda e não recoloca-la no lugar visando o ganho (ilusório) de produtividade.

3º passo: “cruzar” a linha do passo 1 e a coluna do passo 2 para a determinação do

excesso de risco.

De posse do risco atual e do risco de referência, conseguimos encontroar o excesso de risco “cruzando” as duas informações na tabela 3.3 (caso a exposição seja individual) e na 3.4 (caso a exposição seja coletiva).

(32)

Ao encontrarmos a interseção da linha com a coluna, teremos encontrado o excesso de risco da situação em análise. Para o caso em questão, excesso de risco SUBSTANCIAL. Ficou claro?

Na minha videoaula do YouTube sobre as tabelas da Nova NR-3 eu apresento esse mesmo passo-a-passo. O raciocínio começa aos 21:26. Clique AQUI.

3.3.12 Para ambos os riscos, atual e de referência (definidos na primeira e na

segunda etapas, respectivamente), deve-se determinar a consequência em

primeiro lugar e, em seguida, a probabilidade de a consequência ocorrer.

➔ Praticamente repetindo o que havia sido dito no item 3.3.3, a Nova NR-3 volta a determinar que em primeiro lugar devemos considerar as consequências para só então avaliarmos as probabilidades da ocorrência de um evento danoso para a caracterização do grave e iminente risco.

(33)

33

3.3.12.1 As condições ou situações de trabalho contempladas em normas

regulamentadoras consideram-se como situação objetivo (risco de referência).

➔ Aqui, a NR-3 nos chama a atenção para o fato de que os “riscos de referência” são aqueles existentes nos ambientes de trabalho caso todas as determinações contidas nas diversas Normas Regulamentadoras fossem cumpridas.

3.3.12.2 O Auditor-Fiscal do Trabalho deve sempre considerar a consequência de

maior previsibilidade de ocorrência.

➔ Caso alguma situação de trabalho possa gerar uma pluralidade de consequências, o AFT deverá avaliar a existência de grave e iminente risco considerando sempre o evento danoso com maior probabilidade de acontecer (e não o de maior gravidade).

Por exemplo, suponhamos um trabalho executado na parte suja da lavanderia de um hospital onde a consequência de maior gravidade é a contaminação do trabalhador, mas diante das medidas de controle de risco biológico presentes no local, a consequência de maior probabilidade é o surgimento de lombalgias nos trabalhadores em função do carregamento de peso, uma vez que praticamente não existem medidas relacionadas à ergonomia nesse ambiente de trabalho.

Uma vez que a consequência de maior previsibilidade de acontecer é o surgimento das lombalgias, são elas que deverão ser analisadas pelo Auditor-Fiscal do Trabalho para a caracterização do GIR – e não a contaminação biológica, embora seja a mais grave.

3.4 Requisitos de embargo e interdição

3.4.1 São passíveis de embargo ou interdição, a obra, a atividade, a máquina ou

equipamento, o setor de serviço, o estabelecimento, com a brevidade que a

ocorrência exigir, sempre que o Auditor-Fiscal do Trabalho constatar a existência

de excesso de risco extremo (E).

(34)

Sempre que o resultado da análise do GIR através do passo-a-passo trazido pelo item 3.3.11 resultar em excesso de risco extremo (simbolizado pela letra E nas tabelas 3.3 e 3.4), o AFT deverá embargar a obra ou interditar a atividade, a máquina, equipamento, o setor de serviço ou o estabelecimento.

Sempre!

3.4.2 São passíveis de embargo ou interdição, a obra, a atividade, a máquina ou

equipamento, o setor de serviço, o estabelecimento, com a brevidade que a

ocorrência exigir, consideradas as circunstâncias do caso específico, quando o

Auditor-Fiscal do Trabalho constatar a existência de excesso de risco

substancial (S).

➔ “consideradas as circunstâncias do caso específico”. Para estudarmos essa frase, precisamos do item seguinte.

3.4.3 O Auditor-Fiscal do Trabalho deve considerar se a situação encontrada é

passível de imediata adequação.

➔ Enquanto o item 3.4.1 determina que o AFT deve embargar ou interditar sempre que o resultado da avaliação do GIR chegar a um resultado de excesso de risco extremo (E), os itens 3.4.2 e 3.4.3 estabelecem que, quando a avaliação encontrar um excesso de risco substancial (S), o AFT deve considerar se a situação é passível de adequação imediata. Concluindo pela viabilidade de saneamento imediato das irregularidades geradoras do grave e iminente risco (e aqui já estamos antecipando o conteúdo do item 3.4.3.1), o AFT irá determinar a paralisação das atividades relacionadas à situação de risco e a adoção imediata das medidas de prevenção. Neste caso, o AFT poderá optar por não embargar ou interditar.

Contudo, caso não seja possível implementar medidas imediatas de prevenção (como, por exemplo, quando da necessidade de um Projeto de Execução prévio dos dispositivos coletivos de segurança), o AFT deverá concluir pelo embargo ou pela interdição.

(35)

35

3.4.3.1 Concluindo pela viabilidade de imediata adequação, o Auditor-Fiscal do

Trabalho determinará a necessidade de paralisação das atividades relacionadas à

situação de risco e a adoção imediata de medidas de prevenção e precaução para

o saneamento do risco, que não gerem riscos adicionais.

➔ Lembrando que essa hipótese só recai sobre a avaliação do AFT quando o resultado do excesso de risco for substancial (S). Nos excessos de risco extremos (E), o AFT sempre deverá interditar ou embargar (vide item 3.4.1).

3.4.4 Não são passíveis de embargo ou interdição as situações com avaliação de

excesso de risco moderado (M), pequeno (P) ou nenhum (N).

➔ Os demais excessos de risco tabelados (M, P e N) não são passíveis e embargo ou interdição.

Mas atenção! Isso não significa que eles não possam ser autuados. A verificação do excesso de risco é para avaliar a necessidade da paralização dos serviços em função do grave e iminente risco. Para a lavratura do Auto de Infração basta o descumprimento de um dispositivo normativo ou dispositivo legal – mesmo que tal descumprimento não cause GIR.

TABELA 3.3 - Tabela de excesso de risco: exposição individual ou reduzido

número de potenciais vítimas

(36)

TABELA 3.4 - Tabela de excesso de risco: exposição ao risco pode resultar em

lesão ou adoecimento de diversas vítimas simultaneamente

➔ Como dito anteriormente, a tabela 3.4 é mais rigorosa por se tratar da exposição coletiva ao grave e iminente risco.

3.5 Disposições Finais

3.5.1 A metodologia de avaliação qualitativa prevista nesta norma possui a

finalidade específica de caracterização de situações de grave e iminente risco

pelo Auditor-Fiscal do Trabalho, não se constituindo em metodologia

padronizada para gestão de riscos pelo empregador.

➔ Em outras palavras: “A metodologia de avaliação do excesso de risco é apenas para a verificação da necessidade de embargar ou interditar! Não pode e não deve ser usada pelo empregador como ferramenta de gestão de risco.”

(37)

37

3.5.1.1 Fica dispensado o uso da metodologia prevista nesta norma para

imposição de medida de embargo ou interdição quando constatada condição ou

situação definida como grave e iminente risco nas Normas Regulamentadoras.

➔ Quando uma NR específica já definir o que é grave e iminente risco, essa metodologia de mensuração quantitativa do excesso de risco estabelecida pela Nova NR-3 é dispensável. Como exemplo, podemos citar a NR-13, que trata das caldeiras, vasos de pressão, tubulações e tanques metálicos de armazenamento. Em seu item 13.3.1 a própria NR-13 traz uma série de situações que, se verificados, já caracterizam a existência do grave e iminente risco – independentemente da mensuração do excesso de risco aqui revista:

13.3.1 Constitui condição de Risco Grave e Iminente o não cumprimento de qualquer item previsto nesta NR que possa causar acidente ou doença relacionada ao trabalho, com lesão grave à integridade física do trabalhador, especialmente:

a) operação de equipamentos abrangidos por esta NR sem os dispositivos de segurança previstos conforme alínea “a” do subitem 13.4.1.3, alínea “a” do subitem 13.5.1.3 e subitens 13.6.1.2 e 13.7.1.2;

b) atraso na inspeção de segurança periódica de caldeiras;

c) bloqueio de dispositivos de segurança de caldeiras, vasos de pressão e tubulações, sem a devida justificativa técnica baseada em códigos, normas ou procedimentos formais de operação do equipamento;

d) ausência de dispositivo operacional de controle do nível de água de caldeira;

e) operação de equipamento enquadrado nesta NR com deterioração atestada por meio de recomendação de sua retirada de operação constante de parecer conclusivo em relatório de inspeção de segurança, de acordo com seu respectivo código de projeto ou de adequação ao uso; e

f) operação de caldeira por trabalhador que não atenda aos requisitos estabelecidos no Anexo I desta NR, ou que não esteja sob supervisão, acompanhamento ou assistência específica de operador qualificado.

3.5.2 O embargo e a interdição são medidas de proteção emergencial à

segurança e à saúde do trabalhador, não se caracterizando como medidas

punitivas.

(38)

➔ Voltando a frisar o que dissemos nos comentários acerca do item 3.2.2, embargo e interdição são medidas de cautela – não punitivas! Essas (as punitivas) nós encontramos principalmente no Código Penal e na Lei as Contravenções Penais.

Outro destaque que eu gostaria de fazer é relativo á expressão “proteção emergencial” trazida pelo item 3.5.2.

Não são raras as vezes em que, após informarmos o empregador ou preposto sobre o embargo ou a interdição, nos perguntam sobre o prazo para adequação das irregularidades que motivaram a paralisação das atividades.

É importante destacar que para embargos e interdições não há prazo! A paralisação deve ser imediata!

Uma vez que há pessoas expostas a grave e iminente risco de acidente, qualquer prazo dado chancelaria a manutenção dessa situação de risco por todo o período concedido para as devidas regularizações.

Quando a atividade é interrompida de forma imediata, cessa a exposição. Assim, o empregador ou preposto pode tomar as medidas inicias de proteção para que as correções sejam feitas.

Aqui, vou apresentar um exemplo de roteiro que poderia ser utilizado para a correção das irregularidades que motivaram o embargo ou a interdição e a consequente retomada dos trabalhos (apenas em caráter exemplificativo, visto que cada situação tem as suas peculiaridades – motivo pelo qual fica impossível estabelecer um passo-a-passo padronizado):

1. A obra é embargada ou a atividade, a máquina, o equipamento, o estabelecimento ou o setor de serviço é interditado. Neste momento, o Auditor-Fiscal do Trabalho entrega ao empregador (ou preposto) o Termo de Embargo ou de Interdição com seu respectivo Relatório Técnico, relacionando todos os fatores de risco geradores do GIR e todas as medidas que devem ser adotadas para a continuidade dos trabalhos paralisados.

2. Todos os trabalhadores expostos devem parar suas atividades imediatamente.

3. O empregador, de posse do Relatório Técnico, terá acesso a todas as medidas que deve adotar para a retomada dos serviços. Ele deve garantir que as medidas individuais de proteção sejam obedecidas (como por exemplo a capacitação para trabalho em altura ou o treinamento para a correta utilização dos EPI’s) de forma a possibilitar que os trabalhadores selecionados para a implementação das medidas de proteção coletivas possam desempenhar seus afazeres com segurança.

(39)

39

4. Implementadas as medidas individuais e coletivas, o empregador (ou preposto) providencia toda a documentação exigida pelo AFT no Relatório Técnico, como laudos, projetos, certificados de treinamento, Anotações de Responsabilidade Técnica, entre outras.

5. Assim que todas as medidas de segurança individuais e coletivas exigidas forem adotadas e toda a documentação solicitada for juntada, deve ser elaborado um relatório intitulado Solicitação de Suspensão de Embargo (ou de Interdição, conforme o caso), onde o empregador apontará todas as correções feitas e anexará toda a documentação solicitada.

6. O referido relatório deve ser protocolado na unidade da Inspeção do Trabalho mais próxima para que o AFT analise a situação e retorne ao estabelecimento para as devidas conferências.

7. Após o retorno do AFT ao local, será emitido o Termo de Suspensão do Embargo (ou de Interdição), momento em que as atividades normais podem ser retomadas. Caso o AFT entenda que as irregularidades geradoras do GIR permaneçam, será emitido o Termo de Manutenção do Embargo (ou da Interdição). Nesse caso, a paralisação permanece.

Atenção!! Somente após a emissão do Termo de Suspensão do Embargo ou de Interdição é que as atividades normais podem ser retomadas!

Até a emissão do Termo de Suspensão, as únicas atividades permitidas são aquelas relacionadas à implementação das medidas de segurança.

Continuar a execução normal dos serviços antes da suspensão do embargo ou da interdição é crime! O Código Penal Brasileiro é repleto de artigos relativos à ocorrência de doenças e acidentes de trabalho graves e fatais, além daqueles relativos ao descumprimento de embargos e interdições (como no caso do art. 205, por exemplo). Entre eles, temos:

Homicídio simples

Art. 121. Matar alguém:

Pena - reclusão, de seis a vinte anos.

Homicídio culposo [*sem a intenção de matar]

§ 3º Se o homicídio é culposo: Pena - detenção, de um a três anos.

(40)

Aumento de pena

§ 4o No homicídio culposo, a pena é aumentada de 1/3 (um terço), se o crime resulta de

inobservância de regra técnica de profissão, arte ou ofício (...) [*quando o acidente

ocorre em função do descumprimento de NR, por exemplo]

Lesão corporal

Art. 129. Ofender a integridade corporal ou a saúde de outrem: Pena - detenção, de três meses a um ano.

Lesão corporal de natureza grave § 1º Se resulta:

I - Incapacidade para as ocupações habituais, por mais de trinta dias; II - perigo de vida;

III - debilidade permanente de membro, sentido ou função; IV - aceleração de parto:

Pena - reclusão, de um a cinco anos. § 2° Se resulta:

I - Incapacidade permanente para o trabalho; II - enfermidade incurável;

III - perda ou inutilização do membro, sentido ou função; IV - deformidade permanente;

V - aborto:

Pena - reclusão, de dois a oito anos. Lesão corporal seguida de morte

§ 3° Se resulta morte e as circunstâncias evidenciam que o agente não quis o resultado, nem assumiu o risco de produzi-lo:

Pena - reclusão, de quatro a doze anos.

Perigo para a vida ou saúde de outrem

Art. 132 - Expor a vida ou a saúde de outrem a perigo direto e iminente:

Referências

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