A MEDIAÇÃO E A CONCILIAÇÃO COMO INSTRUMENTOS DE FOMENTO A CONCRETIZAÇÃO DO ACESSO A JUSTIÇA, DA DEMOCRACIA E DA
CIDADANIA, NA BUSCA PELA CULTURA DE PAZ1
Everton Machado Pereira2 Joseane Ceolin Mariani de Andrade Pedroso3
1 INTRODUÇÃO
A discussão que se pretende propor no presente artigo insere-se no contexto do Estado contemporâneo, seus pressupostos e suas transformações, na medida em que se aborda o acesso à justiça e a crise do Poder Judiciário, bem como a questão do tratamento dos conflitos, contrapondo ao modelo tradicional da jurisdição estatal aquele da justiça consensual, por meio do uso da mediação e conciliação, buscando relacionar estas formas autocompositivas de resolução de conflitos com a democracia e os direito humanos.
Assim, diante da crise das instituições modernas, justifica-se a importância e o interesse na investigação do presente tema, uma vez que a jurisconstrução surge como veículo de tratamento de conflitos que abandona a fronteira fechada da cidadania e olha em direção a uma nova forma de cosmopolitismo que não é representada pelos mercados, mas pela necessidade universalista de respeito aos direitos humanos que vai se impondo ao egoísmo ou dos poderes informais que à sua sombra governam e decidem.
Para atender a proposta, adota-se o método dedutivo, eis que parte-se da análise da crise da Jurisdição para se pensar em formas autocompositivas, consensuais como possíveis soluções para a ineficiente prestação deste Poder de Estado.
Nesse sentido, para enfrentar o tema proposto, o artigo está estruturado em dois itens: o primeiro abordará o acesso à justiça como um direito humano e sua relação com a crise do Estado e da Jurisdição. Neste ponto, se fará reflexões sobre a necessidade da superação do
1Trabalho elaborado a partir das discussões oriundas do Núcleo de Prática de Mediação, Negociação e
Arbitragem do Curso de Direito da Faculdade Metodista de Santa Maria.
2Advogado. Pós Graduando em Direito Processual Civil, pela Faculdade de Direito Professor Damásio de Jesus.
E-mail: [email protected]
3Advogada. Professora de Direito Civil e Direito Processual Civil do Centro Universitário Franciscano-
UNIFRA, e da Faculdade Metodista de Santa Maria- FAMES. Especialista em Direito Constitucional, Mestre em
Integração Latino Americana, pela Universidade Federal de Santa Maria- RS. Email:
paradigma tradicional, ou seja, a utilização do modelo clássico da Jurisdição para solução de conflitos. No item final apresenta-se a jurisconstrução, a perspectiva da resolução de conflitos com base na cidadania, ou seja, com a participação dos conflitantes na elaboração da solução de seus litígios.
2 OBJETIVOS
2.1 OBJETIVO GERAL
Verificar como a mediação e a conciliação podem ser ferramentas eficazes na efetivação do acesso a justiça, e no fortalecimento da democracia e cidadania, na busca de uma cultura de paz.
2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS
Para isso procurar-se-á:
A) Descrever a crise jurisdicional, frente a sociedade contemporânea, a luz do direito humano de acesso a justiça.
B) Demonstrar a importância da mediação e da conciliação como meios efetivos de acesso a justiça, assim como instrumentos que fortalecem a democracia e a cidadania, através de soluções consensuais dos conflitos e da democratização das decisões.
3 METODOLOGIA
Quanto a metodologia usada para a construção do presente trabalho, utilizou-se o método de abordagem dedutivo, pois parte da generalização, qual seja, a crise jurisdicional, frente ao direito humano de acesso a justiça. O método de procedimento foi o monográfico, a partir da análise e interpretação de livros e artigos científicos relativos ao tema.
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.1 O ACESSO A JUSTIÇA E A CRISE JURISDICIONAL
Primeiramente, para que se possa refletir sobre a mediação como política pública é necessário entender o conceito de acesso a justiça como direito fundamental do cidadão, e
analisar o fenômeno da judicialização do conflito, que sobrecarrega o Poder Judiciário com processos que poderiam se resolver por meios consensuais.
Dessa forma, oportuno compreender o significado de acesso à justiça, segundo a ideia defendida por CAPPELLETTI e GARTH, os quais relacionam o acesso à justiça como um tema diretamente ligado ao binômio possibilidade/viabilidade, visando à igualdade de condições para se acessar o sistema judiciário, e por consequência buscar a tutela específica para o direito ou interesse ameaçado e, além de tudo, possibilitar a produção de resultado justo e efetivo (CAPPELLETTI; GARTH, 1988).
A Constituição Federal traz no inciso XXXV do artigo 5° o direito ao acesso a justiça, assim como preve a razoável duração do processo no inciso LXXVIII, do referido artigo, o que demonstra que o direito fundamental de acesso à justiça, não é simplesmente o ingresso ao judiciário, mas também o direito a uma resposta em tempo razoável. Igualmente, a resolução 125 do CNJ, estabelece que, além do acesso aos órgãos judiciários, o acesso a justiça trata-se de acesso a uma ordem jurídica justa.
Entretanto, o “Poder jurisdicional do Estado, [...] está passando por várias crises em razão da complexidade das relações sociais e seus conflitos” (GHISLENI; SPENGLER 2011, p.10). A solução das lides baseada na função estatal, em que a aplicação das leis positivadas ocorre através do juiz, não compreende uma ação democrática visando à transformação social necessária entre as partes litigantes. Logo, os conflitos remetidos ao judiciário possuem mecanismos complexos e que dependem não só da aplicação das leis, mas sim, de outros fatores que não estão regulamentados (MORAIS; SPENGLER, 2012).
Diante disso, observa-se a tão comentada crise da jurisdição, em que ocorre a “gradativa perda de soberania, sua incapacidade de dar respostas céleres aos litígios atuais, de tomar as rédeas de seu destino, sua fragilidade nas esferas Legislativa, Executiva e Judiciária, enfim, sua quase total perda na exclusividade de dizer e aplicar o direito”. O judiciário encontra-se como uma estrutura hierarquizada, fechada, assim como submisso à lei, dessa forma se faz necessário enfrentar os desafios de alargar os seus limites, modernizar suas estruturas organizacionais e rever padrões já defasados para então, sobreviver um poder independente e autônomo (FARIA, 2001).
Diante dessa situação, se faz imperioso a busca por novas alternativas eficazes, e que evitem o total colapso do sistema judiciário. Dentre as formas, e para os limites deste artigo, destaca-se a utilização da mediação e conciliação.
4.2 A MEDIAÇÃO E A CONCILIAÇÃO COMO MEIOS DE PROMOÇÃO DO ACESSO A JUSTIÇA, A DEMOCRACIA E A CIDADANIA.
O novo Código de Processo Civil, Lei 13.105/2015 inova ao trazer em seu texto legal o vocábulo “mediação” o que mostra o reconhecimento dos meios consensuais, como métodos para resolução de conflitos. Sobretudo, ainda revela a busca da cultura de paz por parte do Estado e da sociedade, procurando mudar o hábito, a cultura da judicialização que existe na sociedade contemporânea.
A questão cultural de judicializar o conflito é o principal aspecto a ser superado, para poder se estabelecer meios democráticos de decisões, necessita-se que as partes enxerguem as vantagens de tomarem suas próprias decisões. Dessa maneira, se faz necessário que as pessoas passem a ver os meios alternativos de conflitos não apenas como uma alternativa a um judiciário abarrotado de processos, moroso e assoberbado de tarefas, mas como uma possibilidade de resolver seus litígios, de participar das decisões de seus interesses.
Através da utilização de meios autocompositivos busca-se a aproximação dos conflitantes, fazendo com que falem da situação e das causas do litígio, sem nenhuma limitação processual. Desta forma se quer chegar a uma decisão elaborada pelo contraponto de interesses e ideias, e não uma decisão baseada em uma norma jurídica.
A partir desse pensamento, constata-se que a defesa de uma sociedade pacífica e justa não é apenas uma função do Estado, e não poderá se concretizar e evoluir se for mantida a cultura da judicialização dos litígios. Enfim, a grande meta está em acreditar mais no ser humano, pois, afinal, luta-se por uma nova ordem social, o qual imagina-se que seja mais solidária, consensual, justa e pacífica.
5 CONCLUSÕES
O presente resumo buscou refletir sobre o uso da mediação e da conciliação como instrumentos de promoção a concretização do direito humano de acesso à justiça, assim como meios que incentivam a democracia e a cidadania por meio da autogestão dos conflitos.
Para tanto, foi necessário tratar sobre as causas da crise do poder judiciário, as quais estão interligadas ao Estado Contemporâneo. Abordou-se o grande número de demandas levadas ao judiciário e os motivos que ocasionam esse problema. Posteriormente, discorreu-se brevemente, sobre os métodos consensuais para resolução de conflitos, tais como a conciliação e mediação.
Posteriormente, enfatizou-se quanto a importância da justiça consensual como estratégia distinta à jurisdição, eis que trata com mais dignidade o conflito aparente, focando a atenção as causas do problema para que esta situação encerra-se de forma pacífica e efetiva, com custo baixo e que, na grande maioria, possa (re)estabelecer a paz individual e social.
Feita esta síntese, resta evidente que as aplicações demonstradas desse dispositivo, tal como já mencionado, não se restringe as dimensões dadas. Entretanto, se o paradigma apontado for bem compreendido e apontado, estar-se-á seguramente mais perto de uma proteção e promoção do princípio da dignidade da pessoa humana, como também, da eficácia da tutela jurisdicional.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF,
Senado Federal, 1988. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm. Acesso em: 15. Out.2015.
BRASIL. Lein°13105, de 16 de março de 2015. Institui o Código de Processo Civil. Brasília: Senado Federal, 2015. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Lei/L13105.htm. Acesso em: 15.Out.2015.
BRASIL. Resolução n° 125 de 29 de novembro de 2010. Institui a Política Judiciária
Nacional de tratamento adequado dos conflitos de interesses no âmbito do Poder Judiciário e dá outras providências. Brasília: Conselho Nacional de Justiça, 2010. Disponível em:
http://www.cnj.jus.br/images/stories/docs_cnj/resolucao/arquivo_integral_republicacao_resol ucao_n_125.pdf. Acesso em: 15.Out.2015.
CAPPELLETTI, Mauro; GARTH, Bryant. Acesso à Justiça. Porto Alegre: Safe, 1988.
GHISLENI, Ana Carolina; Fabiana Marion Spengler. Mediação de conflitos a partir do
Direito Fraterno. Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2011.
MORAIS, José Luiz Bolzan de; SPENGLER, Fabiana Marion Spengler. Mediação e