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Entrevista com Ivonei Sfoggia

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Academic year: 2021

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Natural da cidade de Ouro, em Santa Catarina, o procurador-geral de Justiça do Paraná, Ivonei Sfoggia, mudou-se com sua família, aos 40 dias de vida, para a pequena Bom Sucesso do Sul, município do Sudoeste do estado, considerando-se um autêntico paranaense. Lá cresceu, vindo para Curitiba aos 21 anos cursar Direito na Universidade Federal do Paraná, onde descobriu-se militante na política estudantil tendo, inclusive, presidido o Centro Acadêmico Hugo Simas, em pleno

regime militar. Inspirado pelos ideais do Direito, da Justiça e da democracia, ingressou na carreira do Ministério Público do Paraná em 1990. Nesses 26 anos de atuação institucional, presidiu, também, a Associação Paranaense do Ministério Público, integrou assessoria especial da Conamp, exerceu a presidência da Fempar (por duas gestões) e, nos últimos oito anos, atuou como diretor-secretário da Procuradoria-Geral de Justiça.

Conheça, na entrevista abaixo, um pouco mais sobre Ivonei Sfoggia e sobre os projetos frente a Procuradoria-Geral de Justiça.

Fale-nos um pouco sobre sua trajetória e sobre como percebeu sua vocação para o Ministério Público.

Nasci no seio de uma singela família de agricultores do interior do Estado de Santa Catarina que, no final dos anos 50, fixou residência no Paraná, em uma comunidade que, na época, pertencia ao município de Pato Branco, a

Entrevista com

Ivonei Sfoggia

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atual cidade de Bom Sucesso do Sul. Lá, residi até os 21 anos de idade. Em minha adolescência, ao trabalhar com meu tio no Cartório de Registro Civil, tive a oportunidade de ter contato com alguns promotores de Justiça, como Josafat Porto Lona Cleto e Luís Carlos de Oliveira, que, já naquela época, me incentivaram a ingressar na carreira do Ministério Público. Decidido a cursar a faculdade de Direito, mesmo com muita dificuldade, vim para Curitiba em março de 1979, trazendo comigo apenas algumas roupas em um fusca 1600. No mesmo ano, iniciei um cursinho preparatório para o vestibular e consegui, em janeiro de 1980, ingressar na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Paraná. Militei na política estudantil, tendo chegado à presidência do Centro Acadêmico Hugo Simas, único que se mantinha ativo durante o regime militar. O convívio com professores como José Lamartine Correa de Oliveira Lyra, Luiz Alberto Machado e Alcides Munhoz Neto e a intensa transformação política que o país experimentava me despertaram ainda mais o amor pelo Direito e pela democracia. Já formado, atuei por mais de dez anos como funcionário da Fundação de Ação Social do Paraná e do então Instituto de Assistência ao Menor, instituições que me inspiraram na defesa dos direitos da criança e adolescente. Essas experiências, somadas às anteriores, deixaram evidente que minha vocação era mesmo ser promotor de Justiça, carreira em que teria condições de continuar a lutar pela Justiça. Preparei-me, então, e em 1990 passei no concurso público para o Ministério Público, tendo atuado nas comarcas de São José dos Pinhais, Dois Vizinhos, Morretes, Pato Branco e, finalmente, Curitiba. Desde o início, procurei dedicar-me integralmente à Instituição e, com muita satisfação, exerci a presidência da Associação Paranaense do Ministério Público, a assessoria especial da Conamp, a presidência da Fempar (por duas vezes), tendo sido diretor-secretário da Procuradoria-Geral de Justiça de 2008 a 2016.

O que motivou o senhor a disputar a eleição para o cargo de PGJ e como foi receber o anúncio da sua escolha?

Atuei durante os últimos oito anos como diretor-secretário da Procuradoria-Geral de Justiça, função que me proporcionou uma ampla visão institucional e absoluta consciência sobre a relevância que os atos da chefia podem exercer, não só para as atividades do Ministério Público, mas para toda a sociedade paranaense, que é afetada diretamente pela atuação da Instituição. Nesse período, tive o privilégio de trabalhar ao lado de dois grandes procuradores-gerais

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de Justiça: Olympio de Sá Sotto Maior Neto e Gilberto Giacoia, ambos conhecidos pela liderança, experiência e serenidade com que conduziram a instituição e com os quais muito aprendi. Com base nessa experiência recente, somada às anteriores, compreendi que seria o momento de oferecer o meu nome para escolha dos colegas a fim de que, caso fosse eleito e nomeado, pudesse dar continuidade aos projetos institucionais que se revelaram bem-sucedidos e, de forma equilibrada e responsável, realizar as melhorias e as mudanças necessárias para otimização das atividades ministeriais. Receber o anúncio da votação e, posteriormente, da escolha pelo governador do Estado foi extremamente gratificante para mim, dando-me a convicção de que o trabalho que exerci até então contou com o reconhecimento expressivo da classe. E esse reconhecimento, para mim, desdobra-se em duas perspectivas: legitimidade para gerir a Instituição e necessidade de corresponder aos legítimos anseios dos colegas.

Quais desafios o senhor considera os mais importantes a serem enfrentados pelo Ministério Público contemporâneo?

Entendo que o Ministério Público deve se tornar cada vez mais receptivo aos sentimentos e clamores populares, captando diuturnamente a confiança do povo, identificando as grandes questões sociais, a fim de conferir-lhes tratamento objetivo, prioritário e resolutivo. O momento atual exige o comprometimento de todos os agentes do Ministério Público para que seja possível manter os avanços e as garantias que a muito custo foram obtidos pela Instituição ao longo dos anos, e também buscar o seu aprimoramento e a sua modernização, para fazer frente às exigências atuais de combate intenso à criminalidade organizada, de contenção dos desmandos administrativos e de políticas públicas que sejam adequadas à proteção à dignidade do povo. Ademais, para continuar sendo instrumento que vem se afirmando como eficiente na consecução da Justiça e da paz social, para levar a bom termo seu papel de protagonista na mediação e na resolução dos conflitos, para exercitar, afinal, as missões constitucionais que lhe foram conferidas, o Ministério Público precisa de meios e recursos suficientemente condizentes. Há, ainda, carências de toda sorte que submetem membros do Ministério Público, policiais e demais agentes públicos à verdadeira angústia no dia a dia das comarcas: crianças, adolescentes e jovens que ficam à mercê das drogas, cadeias e Centros de Socioeducação superlotados, cartórios abarrotados

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de inquéritos e de processos de administradores ímprobos subtraindo a dignidade do povo. O enfrentamento de todas essas questões, entre outras, penso, deve estar na ordem do dia do Ministério Público contemporâneo.

Considerando seus 26 anos como membro do MP-PR, como o senhor vislumbra o Ministério Público de hoje, comparando-o com o de tempos passados?

O Ministério Público hoje encontra-se mais sólido do quem em momentos passados. Num tempo não muito remoto, as dificuldades estruturais e de pessoal eram imensas. Não tínhamos material de expediente, computadores, impressoras, equipes de apoio em número adequado, o que causava grande impacto ao exercício funcional, que somente era suprido pela grande dedicação e empenho de todos os agentes do Ministério Público. Hoje, embora existam ainda diversos desafios a serem enfrentados em termos estruturais, avançamos muito e temos condições de dar um salto de qualidade que possibilite à Instituição potencializar sua capacidade de enfrentar os desafios que diariamente nos são apresentados. Tais desafios, destaque-se, tornaram-se maiores a partir da Constituição Federal de 1988, que deu maior visibilidade social ao MP, mas também fez com que se multiplicassem suas atribuições, funções e responsabilidades, notadamente nas áreas de fiscalização da implementação de políticas sociais, combate à improbidade administrativa e à corrupção.

O que os integrantes da instituição podem esperar da Procuradoria-Geral de Justiça em sua gestão?

Durante o curso da campanha eleitoral, encaminhamos uma carta de propostas a todos os colegas com nossa plataforma de atuação, contendo iniciativas voltadas à modernização e à democratização da Instituição, com especial destaque às medidas reputadas necessárias à melhoria da atuação de todos os agentes do Ministério Público. Nesse sentido, desde o início da gestão, estamos buscando dar cumprimento ao que foi proposto, principalmente colocando a Administração Superior como protagonista em temas indispensáveis para adequada proteção dos direitos e interesses sociais, como no âmbito da segurança pública e do patrimônio público; melhorando a estrutura das Promotorias de Justiça; tendo contato próximo

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com os colegas, a fim de ter conhecimento imediato e desburocratizado das suas principais necessidades; alterando a estrutura dos Centros de Apoio; otimizando a comunicação com os membros e com a sociedade etc. A nossa intenção é, de forma planejada, responsável e resolutiva, intensificar essas e outras ações, com o objetivo de possibilitar aos agentes do Ministério Público cada vez mais terem a Administração Superior como sua aliada, que luta diuturnamente ao seu lado para consolidação da instituição como legítima defensora dos direitos e interesses do povo paranaense.

Quais conselhos o senhor daria aos novos Promotores de Justiça?

Penso que a vida de um membro do Ministério Público deva ser guiada, desde o início da sua trajetória institucional, pela combatividade dosada com a serenidade, pela dedicação ao dever e pela solidez moral, sobrepondo-se sempre à turbulência das paixões para quedar-se ao lado da Justiça – que é a grande missão do promotor e do procurador, ambos, de Justiça. A firmeza de caráter, o equilíbrio nas manifestações, a serenidade e a profundidade das intervenções devem constituir paradigma do mais elevado quilate, a indicarem matizes de comportamento a tantos quantos buscam cotidianamente os árduos caminhos da verdade. O exercício, com disposição de um dos mais importantes múnus públicos existentes no nosso país, é algo que a sociedade espera e exige de quem possui por missão constitucional defendê-la. Acredito sinceramente que quem balizar sua trajetória institucional por esses caminhos, certamente deixará sua marca para a construção de uma sociedade mais digna e de um país melhor e mais justo para todos.

Referências

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