PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS
TRIBUTÁRIOS
(Limitações Constitucionais ao Poder de Tributar)
Prof. Dr. Sérgio Assoni FilhoINTRODUÇÃO
* O Estado-Administração precisa de recursos financeiros para atender ao interesse público, conforme a repartição constitucional das competências de cada ente federativo
* Três principais formas de obtenção desses recursos:
- a) DÍVIDA PÚBLICA: recorrendo a empréstimos
- b) RECEITAS ORIGINÁRIAS: exploração do próprio patrimônio público
- c) RECEITAS DERIVADAS: obrigando os cidadãos a contribuírem por meio da tributação
* As receitas derivadas interessam ao Direito Tributário, pois a LEGISLAÇÃO TRIBUTÁRIA é que permite ao Estado invadir a esfera jurídica do cidadão para coletar compulsoriamente uma parcela de seu patrimônio, a fim de atender ao interesse da coletividade
* Contudo, este poder estatal encontra LIMITES na própria legislação tributária, a partir do próprio constitucional, a fim de conferir maior proteção ao cidadão-contribuinte
* A Constituição estabelece as PRINCIPAIS limitações ao exercício da competência tributária > o Art. 150, caput, CF: contém expressão: “sem prejuízo de outras garantias
asseguradas ao contribuinte”
* Tais limitações ao poder de tributar, constantes dos artigos 150 a 152 da CF, formam um ROL NÃO EXAUSTIVO de garantias, contudo, elas também são observáveis em outros dispositivos constitucionais. Exemplo: Art. 5º, XXXIV (o exercício do direito de petição aos Poderes Públicos será assegurado independentemente do pagamento de taxas)
* As limitações constitucionais ao poder de tributar são
garantias individuais: cláusulas pétreas (Art. 60, § 4º, IV)
> Impossibilidade de modificação da Constituição por Emendas venham a diminuir ou suprimir as garantias dos cidadãos-contribuintes (Emenda Constitucional só serve para AMPLIAR as garantias existentes!)
1. PRINCÍPIO DA LEGALIDADE TRIBUTÁRIA:
- a) Genérico: Art. 5º, II, CF: “ninguém será obrigado a fazer ou a deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei” > tributo é prestação pecuniária compulsória instituída
em lei (Art. 3º do CTN)
- b) Específico: Art. 150, I, CF: proíbe os entes federativos de “exigir ou aumentar tributo sem lei que o estabeleça”
* Art. 97, CTN: matérias submetidas ao princípio da legalidade tributária > somente LEI pode estabelecer:
- Inciso I: a instituição e a extinção dos tributos - Inciso II: a majoração e a redução dos tributos - Inciso III: o fato gerador e o sujeito passivo - Inciso IV: a alíquota e a base de cálculo
- Inciso V: as penalidades, em caso de infrações cometidas - Inciso VI: as hipóteses de suspensão, extinção e exclusão do crédito tributário e os casos de dispensa ou redução de
penalidades
* EXCEÇÕES:
A) Atualização do valor monetário da base de cálculo: ressalva expressa do § 2º do Art. 97 do CTN. Exemplo: a base de cálculo do IPTU é o valor venal do imóvel, cuja atualização monetária é anual e se dá por meio de índices
oficiais uniformes (IGPM, INPC, etc.), cuja aplicação pode
B) Fixação de prazo para pagamento: STF entende que pode ser por Decreto, pois a matéria não está relacionada no Art. 97, CTN, de modo que escapa à aplicação do princípio da legalidade tributária
C) Alteração das alíquotas de alguns tributos:
a) IMPOSTOS EXTRAFISCAIS (II, IE, IPI, IOF):
Decreto Presidencial ou Portaria do Ministro da Fazenda
poderá aumentar ou reduzir as suas alíquotas, pois a sua finalidade é meramente interventiva (Art. 153, § 1º da CF)
b) CIDE-COMBUSTÍVEIS: Decreto Presidencial ou
Portaria do Ministro da Fazenda poderá reduzir ou restabelecer as suas alíquotas (Art. 177, § 4º, I, “b” da CF)
c) ICMS-MONOFÁSICO incidente sobre combustíveis que venham a ser definidos em Lei Complementar:
Convênio celebrado entre Estados e Distrito Federal, no
âmbito do Conselho Nacional de Política Fazendária – CONFAZ, poderá reduzir ou restabelecer as suas alíquotas (Art. 155, § 4º, IV, “c” da CF)
* LEGALIDADE e DELEGAÇÃO LEGISLATIVA:
- Lei Delegada: espécie normativa que pode ser utilizada para regulamentar matéria tributária > Art. 68 da CF: Poder Executivo solicita ao Poder Legislativo que este lhe delegue a função de legislar sobre tributos
- Contudo, o § 1º do Art. 68 da CF estabelece algumas limitações materiais à efetivação da “delegação”
- Inutilidade: possibilidade de editar Medidas Provisórias!
* LEGALIDADE e MEDIDA PROVISÓRIA:
- STF: cabível Medida Provisória em matéria tributária:
1) observados os requisitos constitucionais da relevância e urgência (Art. 62, caput, CF)
> OBS: o STF entende que cabe ao Poder Executivo definir o que seja relevante e urgente para fins de editar uma Medida Provisória > requisitos constitucionais vêm sendo sistematicamente desmoralizados!
2) aspectos tributários que devam ser regulamentados por
LEI COMPLEMENTAR, não podem ser regulamentados por Medida Provisória (Art. 62, § 1º, III da CF). Exemplos: definição de fatos geradores, bases de cálculo e contribuintes dos impostos (Art. 146, III, “a” da CF); criação de empréstimos compulsórios (Art. 148, caput da CF); etc.
3) legislador constituinte estabelece distinção, conforme a
espécie tributária tenha sido instituída ou majorada por uma Medida Provisória (Art. 62, § 2º da CF):
a) MP institui ou majora IMPOSTOS (exceto extrafiscais e IEG): cobrança realizada no exercício financeiro seguinte àquele em que a MP tiver sido convertida em lei
b) MP institui ou majora Impostos Extrafiscais (II, IE, IPI e IOF), Imposto Extraordinário de Guerra e outras espécies tributárias (taxas, contribuições de melhoria, etc.): cobrança
imediata, a partir da data de publicação da MP
2. PRINCÍPIO DA ISONOMIA TRIBUTÁRIA:
* Dois fundamentos CONSTITUCIONAIS:
- a) Genérico: Art. 5º, caput, CF: “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”
- b) Específico: Art. 150, II, CF: proíbe os entes federativos de “instituir tratamento desigual entre contribuintes que se encontrem em situação equivalente, proibida qualquer distinção em razão de ocupação profissional ou função por eles exercida, independentemente da denominação jurídica dos rendimentos, títulos ou direitos”
- Aplicação da isonomia em dois sentidos:
a) igualdade horizontal: “situação equivalente” (Exemplo:
alíquota de 15% de IR sobre todos os contribuintes que tenham a mesma disponibilidade econômica) > EXPRESSA
b) igualdade vertical: tratamento desigual aos desiguais
(Exemplo: alíquotas diferentes de IR, conforme a capacidade econômica de cada contribuinte) > IMPLÍCITA * Isonomia e discriminação pela FUNÇÃO e OCUPAÇÃO:
- Ninguém pode ser tributado de forma diferente em razão da função ou ocupação profissional, não importando a denominação jurídica do valor patrimonial obtido. Exemplo: incide IR sobre “ajudas de custo” aos servidores públicos, não importando a natureza das atribuições exercidas
- STF: não incide IR sobre “verbas indenizatórias” (Exemplo: Juiz de Direito Substituto recebe verba indenizatória para transporte e estadia em outra Comarca)
* Isonomia tributária e tratamento EMPRESARIAL:
a) Empresas Lucrativas X Empresas Deficitárias: financiamento da Seguridade Social via COFINS + CSLL:
- Empresas Lucrativas pagam COFINS + CSLL
- Empresas Deficitárias pagam apenas COFINS, justamente por não terem “lucro líquido”
> STF: não há agressão à isonomia: tratamento desigual aos desiguais > interesse público na manutenção de todas as empresas (Exemplo: geração de empregos)
b) Microempresas e Pequeno Porte X Médio e Grande
Porte (LC nº 123/2006):
- Tratamento diferenciado e favorecido às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte
- Tratamento comum às Empresas de Médio e Grande Portes
> STF: não há agressão à isonomia: tratamento desigual aos desiguais > lei procura viabilizar a concorrência das MEs e EPPs com as empresas maiores, a bem do consumidor
* Isonomia tributária e CAPACIDADE CONTRIBUTIVA:
- Principal parâmetro da isonomia em matéria tributária: “capacidade contributiva”
- Art. 145, § 1º da CF: “Sempre que possível, os impostos terão caráter pessoal e serão graduados segundo a capacidade econômica do contribuinte, facultado à administração tributária, especialmente para conferir efetividade a esses objetivos, identificar, respeitados os direitos individuais e nos termos da lei, o patrimônio, os rendimentos e as atividades econômicas do contribuinte”
* Quanto maior a manifestação de riqueza, maior será o ônus tributário > Fundamentos:
a) Justiça Distributiva: solidariedade social compulsória, visando redistribuir as riquezas no meio social > atividades estatais financiadas na medida das capacidades econômicas
b) Teoria do Sacrifício: os mais pobres pagam menos tributos, a fim de não comprometerem sua subsistência (sacrifício maior em prol da coletividade). Os mais abastados pagam mais tributos, pois isso não compromete sua subsistência (sacrifício menor em prol da coletividade)
* A segunda parte do Art. 145, § 1º da CF: “facultado à administração tributária, especialmente para conferir efetividade a esses objetivos, identificar, respeitados os direitos individuais e nos termos da lei, o patrimônio, os rendimentos e as atividades econômicas do contribuinte”
> Ponderação entre valores importantes: finalidade social da tributação X proteção à intimidade do contribuinte
Exemplo: Lei Complementar nº 105/2001, Art. 6º: possibilita ao Fisco requisitar diretamente às instituições financeiras informações protegidas pelo sigilo bancário (sem a necessidade de autorização judicial)
- a) tem que haver processo administrativo
instaurado ou procedimento fiscal em curso
- b) a autoridade administrativa competente deve
considerar indispensável
3. PRINCÍPIO DA SEGURANÇA JURÍDICA (“NÃO SURPRESA”):
* CERTEZA DO DIREITO: concepção de que as situações se consolidam com o passar do tempo e também deverão estar asseguradas juridicamente
* Parâmetro: estabilização das relações jurídicas > a ordem jurídica deve conferir segurança com relação ao passado e previsibilidade quanto ao futuro
* Art. 150, III da CF: Princípio da Segurança Jurídica (“Não Surpresa”): impede que os entes tributantes cobrem tributos de forma inesperada, pois a cobrança de tributos deve observar TRÊS REGRAS:
1) não pode haver cobrança de tributo em relação a fatos geradores ocorridos ANTES DA VIGÊNCIA DA LEI que os houver instituído ou aumentado (Art. 150, III, “a”, CF)
2) não pode haver cobrança de tributo no MESMO EXERCÍCIO FINANCEIRO em que houver sido publicada a lei que os instituiu ou aumentou (Art. 150, III, “b”, CF)
3) não pode haver cobrança de tributo ANTES DE NOVENTA DIAS da data em que houver sido publicada a lei que os instituiu ou aumentou, sem prejuízo de também observar a proibição da cobrança no mesmo exercício financeiro (Art. 150, III, “c”, CF)
> OBS: estas três regras, EM CONJUNTO, compõem o “Princípio da Segurança Jurídica” (“Não Surpresa”)
- Princípio da Irretroatividade Tributária
- Princípio da Anterioridade do Exercício Financeiro - Princípio da Anterioridade Nonagesimal (“Noventena”)
3.1) Princípio da Irretroatividade Tributária
* Vedação: cobrar tributos em relação a fatos geradores ocorridos antes do início da vigência da lei que os houver instituído ou aumentado
* Marco Temporal: DATA DA VIGÊNCIA da lei
* Em suma: fatos anteriores à VIGÊNGIA da lei não são
alcançados pela tributação
- Enquanto não houver lei vigente que descreva determinado fato como aquele que autoriza uma cobrança tributária, tal
fato não pode originar uma obrigação tributária, ou seja,
* A Constituição não prevê NENHUMA EXCEÇÃO à irretroatividade da lei tributária
> Contudo, aplica-se o Art. 106 do CTN, que permite
efeito retroativo da legislação tributária em duas situações:
a) normas “expressamente interpretativas”; b) normas mais benéficas com relação às “infrações tributárias” cometidas
3.2) Princípio da Anterioridade do Exercício
Financeiro (“Anterioridade Tributária”)
* Vedação: cobrar tributos no mesmo exercício financeiro em que publicada a lei que os instituiu ou aumentou
* Marco Temporal: DATA DA PUBLICAÇÃO da lei
* Em suma: fatos geradores ocorridos no MESMO
EXERCÍCIO FINANCEIRO da publicação não são alcançados pela tributação
- Intuito protetivo: necessidade de proteger o contribuinte da imediata aplicação de mudanças na legislação que
possam agravar sua situação (aumento da carga tributária)
> OBS: mudanças na legislação que beneficiam ao contribuinte (redução da carga tributária), NÃO observam a anterioridade e podem ser aplicadas imediatamente!
- STF: norma que muda o prazo de pagamento do tributo, ainda que o antecipe, não agrava a situação do contribuinte, portanto, não se sujeita à regra da anterioridade do exercício financeiro > “não gera surpresa”
* Anterioridade e ATUALIZAÇÃO MONETÁRIA:
- STF: atualização monetária do valor do tributo ou da sua
base de cálculo não caracteriza majoração, pois não agrava
a situação do contribuinte e não se sujeita à regra da anterioridade do exercício financeiro > “não gera surpresa”
* EXCEÇÕES TOTAIS à anterioridade tributária:
- Fundamento: Art. 150, § 1º da CF
1) Impostos Extrafiscais: II, IE, IPI e IOF: instrumentos interventivos (Art. 153, I, II, IV e V, CF). Exemplo: aumento do II, para inibir a compra de produtos estrangeiros e proteger a indústria nacional que fabrica produto similar
2) Empréstimo Compulsório na modalidade calamidade
pública, guerra externa ou sua iminência (Art. 148, I, CF):
caracteriza uma situação de extrema urgência
3) Impostos Extraordinários de Guerra (Art. 154, II, CF): caracteriza uma situação de extrema urgência
4) Contribuições Sociais para o Financiamento da
Seguridade Social (Exemplo: PIS e COFINS)
* EXCEÇÕES PARCIAIS à anterioridade tributária:
1) ICMS-monofásico sobre Combustíveis (Art. 155, § 4º, IV, “c”, CF): alíquotas definidas por Convênio entre Estados e DF no âmbito do CONFAZ (deliberação conjunta) >
aplicação parcial da anterioridade do exercício financeiro:
regra se aplica ao AUMENTO das alíquotas, mas a regra
não se aplica à REDUÇÃO e ao RESTABELECIMENTO
(após a redução, volta à alíquota anterior)
2) CIDE-combustíveis (Art. 177, § 4º, I, “b”, CF): alíquotas fixadas pela União (monopólio da exploração de petróleo) >
aplicação parcial da anterioridade do exercício financeiro:
regra se aplica ao caso de AUMENTO das alíquotas, mas
não se aplica à REDUÇÃO e ao RESTABELECIMENTO
(após a redução, volta à alíquota anterior)
* Anterioridade e REVOGAÇÃO DE ISENÇÕES:
- Quando se concede uma isenção ao contribuinte, ela pode ser aplicada imediatamente porque lhe é benéfica, portanto, sem aplicação do princípio da anterioridade do exercício financeiro > redução da carga tributária incidente
- Pergunta-se: caso a isenção concedida seja posteriormente
> STF: Não! O tributo é imediatamente exigível, pois não há criação ou majoração de tributo, mas apenas o retorno de uma cobrança tributária que já existia e que teve o pagamento dispensado > seu retorno “não gera surpresa”
* Anterioridade e edição de MEDIDAS PROVISÓRIAS:
- Medidas Provisórias podem instituir e majorar tributos
- Requisitos: relevância e urgência (não é razoável imaginar que se deva esperar até o exercício financeiro seguinte)
- Contudo, há a seguinte distinção > Art. 62, § 2º da CF:
a) MP institui ou majora IMPOSTOS (exceto extrafiscais e IEG): cobrança realizada no exercício financeiro seguinte àquele em que a MP tiver sido convertida em lei
b) MP institui ou majora Impostos Extrafiscais (II, IE, IPI e IOF), Imposto Extraordinário de Guerra e outras espécies tributárias (taxas, contribuições de melhoria, etc.): cobrança
imediata, a partir da data de publicação da MP
3.3) Princípio da Anterioridade Nonagesimal
(“Noventena”)
* Vedação: cobrar tributos antes de decorridos, no mínimo, noventa dias da data em que houver sido publicada a lei que os instituiu ou aumentou
* Marco Temporal: DATA DA PUBLICAÇÃO da lei
* Em suma: fatos geradores ocorridos ATÉ NOVENTA
DIAS da publicação não são alcançados pela tributação
- Intuito protetivo: necessidade de proteger o contribuinte da imediata aplicação de mudanças na legislação que
possam agravar sua situação (aumento da carga tributária)
- Insuficiência da anterioridade do exercício financeiro > regra não impede que uma nova norma tributária publicada em 31 de dezembro resulte na cobrança do tributo no dia seguinte (1º de janeiro do exercício financeiro subsequente)
* REGRA: Anterioridade Nonagesimal e Anterioridade do Exercício Financeiro têm aplicação cumulativa, de modo que o tributo instituído ou majorado apenas pode ser cobrado após noventa dias, no mínimo, da publicação da lei instituidora ou majoradora, e desde que já tenha sido atingido o exercício financeiro seguinte
> OBS: mudanças na legislação que beneficiam ao contribuinte (redução da carga tributária), NÃO observam a noventena e podem ser aplicadas imediatamente!
* Anterioridade Nonagesimal e a edição de MEDIDAS PROVISÓRIAS:
- EC nº 32/2001: MPs vigoram por 60 dias prorrogáveis por mais 60, de modo que, no meio da prorrogação, completa-se a “noventena” exigida para a cobrança do tributo instituído ou majorado por Medida Provisória
> Ao final do prazo de prorrogação da vigência da MP, há uma distinção a fazer:
a) MP convertida em lei sem alteração substancial do texto: tributo já havia completado a “noventena” e sua cobrança continua sendo feita
b) MP convertida em lei com alteração substancial do texto: tributo já havia completado a “noventena”, mas a cobrança não continua sendo feita, pois será necessário reabrir nova contagem de noventa dias, a partir da data da publicação da lei de conversão (nova “noventena”)
- Aplicação da distinção > Art. 62, § 2º da CF:
a) MP institui ou majora IMPOSTOS (exceto extrafiscais e IEG): cobrança realizada no exercício financeiro seguinte àquele em que a MP tiver sido convertida em lei, além da observância cumulativa da “noventena”
b) MP institui ou majora Impostos Extrafiscais (II, IE, IPI e IOF), Imposto Extraordinário de Guerra e outras espécies tributárias (taxas, contribuições de melhoria, etc.): cobrança
* EXCEÇÕES à “noventena” (Art. 150, § 1º da CF):
1) Impostos Extrafiscais: II, IE e IOF: instrumentos interventivos (Art. 153, I, II e V, CF). Exemplo: aumento do II, para inibir a compra de produtos estrangeiros e proteger a indústria nacional que fabrica produto similar
2) Empréstimo Compulsório na modalidade calamidade
pública, guerra externa ou sua iminência (Art. 148, I, CF):
caracteriza uma situação de extrema urgência
3) Impostos Extraordinários de Guerra (Art. 154, II, CF): caracteriza uma situação de extrema urgência
4) Imposto de Renda (Art. 153, III): opção do legislador! Não há justificativa lógica, pois este tributo aumenta a carga tributária incidente, podendo causar indesejável “surpresa” na virada de um exercício financeiro para outro
5) Base de Cálculo do IPTU: a Fazenda Municipal deixa para projetar o valor do tributo no final de cada exercício, para levar em conta a variação anual (é usual a escolha de 1º de janeiro como data de ocorrência do fato gerador)
6) Base de Cálculo do IPVA: a Fazenda Estadual deixa para projetar o valor do tributo no final de cada exercício, para levar em conta a variação anual (é usual a escolha de 1º de janeiro como data de ocorrência do fato gerador)
> ATENÇÃO: a exceção à “noventena” se restringe à revisão do valor da base de cálculo do IPTU e do IPVA, mas não destes tributos em si!
- Assim sendo, escapa à “noventena” apenas a revisão do VALOR VENAL tanto do imóvel urbano quanto do veículo
- Contudo, a revisão das alíquotas destes tributos, que causa aumento da carga tributária incidente, está sujeita à regra geral > a majoração das alíquotas observa a “noventena”
4. PRINCÍPIO DA RAZOABILIDADE TRIBUTÁRIA (“NÃO CONFISCO”):
* Vedação: utilizar tributo com efeito de confisco (Art. 150, IV da CF)
* Conhecido também como princípio da razoabilidade ou princípio da proporcionalidade da carga tributária > o poder de tributar deve ser exercido com moderação, pois a tributação NÃO pode ser “excessivamente onerosa”: obstáculo ao atendimento das necessidades vitais básicas do sujeito passivo e nem ao exercício de atividades lícitas
* Conceito de “confisco”: não há conceito expresso em nosso ordenamento, sendo indeterminado > elevado grau de subjetividade (concepção política-filosófica do intérprete) > necessidade de fixação de PARÂMETROS
* Alguns parâmetros Jurisprudenciais:
- a) Isolada ou Total: STF: deve ser considerado o TOTAL da carga tributária incidente sobre o sujeito passivo > a observância do princípio requer uma análise conjunta e nunca isolada de cada tributo aplicável
- b) Taxas e Contribuições de Melhoria: STF: tributos de
caráter contraprestacional > deve haver comparação entre
o custo da atividade estatal e o valor cobrado a título de tributo. Exemplo: efeito confiscatório da contribuição de melhoria superior à valorização efetiva do imóvel
- c) Multas: STF: o princípio do “não confisco” é aplicável aos tributos e às multas tributárias (penalidades pecuniárias), pois tais valores compõem a obrigação tributária principal. Exemplo: efeito confiscatório da multa desproporcional
> Contudo, há muito mais elasticidade na análise do valor das multas: incentivo ao cumprimento das obrigações
- d) Pena de perdimento de bens (Art. 5º, XLVI, "b", CF): a princípio, tem caráter punitivo (penal), portanto, NÃO tem natureza tributária, pois tributo não pode ser sanção por ato ilícito (Art. 3º do CTN)
> STF: a pena de perdimento de bens é aplicável
excepcionalmente em matéria tributária, quando há previsão
legal expressa e comprovação do cometimento de infração tributária. Exemplo: perda de bens importados por falta de pagamento do II (retenção na alfândega)
5. PRINCÍPIO DA LIBERDADE DE TRÁFEGO:
* Vedação: limitar o tráfego de pessoas ou bens por meio de tributos interestaduais ou intermunicipais (Art. 150, V, parte inicial, CF)
* Objetivo: evitar embaraço à locomoção das pessoas e das coisas dentro do território nacional em tempo de paz > Art.
5º, XV, CF: direito e garantia individual (“cláusula pétrea”)
* EXCEÇÕES:
- a) ICMS: previsão expressa (Art. 155, II da CF): possibilita a cobrança deste imposto pelos Estados e pelo Distrito Federal pela prestação dos serviços de transporte
interestadual/intermunicipal e de comunicação
- b) Pedágio: previsão expressa (Art. 150, V, parte final da
CF): possibilita a cobrança desta taxa pela utilização das vias conservadas pelo Poder Público
> OBS: o pedágio será um tributo (TAXA), quando a conservação das vias públicas é feita pelo Poder Público (Administração Direta ou Administração Indireta) >
natureza tributária (“taxa de serviço”): Art. 145, II da CF
Contudo, quando a conservação das vias é feita pelas
empresas delegatárias do Poder Público (concessionárias),
o pedágio é cobrado a título de TARIFA (“preço público”), que tem natureza contratual (“Contrato Administrativo”):
6. PRINCÍPIO DA PROTEÇÃO AO PACTO FEDERATIVO (“EQUILÍBRIO FEDERATIVO”)
* Vedações aplicáveis apenas à UNIÃO, em nome da proteção ao pacto federativo, constantes do Art. 151 da CF
* TRÊS REGRAS voltadas à preservação da Federação:
1) Princípio da Uniformidade Geográfica da Tributação 2) Princípio da Uniformidade da Tributação da Renda 3) Princípio da Vedação às Isenções Heterônomas
A) Princípio da Uniformidade Geográfica da Tributação
* Art. 151, I da CF: vedação à UNIÃO de instituir tributo que não seja uniforme em todo território nacional ou que
implique distinção ou preferência em relação a Estado, DF
ou Município, em detrimento de outro
> Exemplo: União não pode fixar alíquotas diferentes a serem cobradas dos entes federativos (necessidade de tratamento uniforme em todo território nacional)
* EXCEÇÃO: a “parte final” do próprio dispositivo faz uma ressalva: “admitida a concessão de benefícios fiscais destinados a promover o equilíbrio do desenvolvimento
> Portanto, excepcionalmente, a União pode conferir tratamento tributário não uniforme aos entes federativos, quando seu objetivo seja extrafiscal (interventivo): promover o EQUILÍBRIO FEDERATIVO, pois a federação brasileira é muito heterogênea, havendo muita desigualdade socioeconômica entre as suas diversas regiões
> Há violação ao Princípio da Isonomia, quando as regiões do País são tratadas de forma diferente? NÃO!
Em conformidade com os seguintes argumentos:
a) previsão constitucional expressa (autorização para o tratamento diferenciado está na própria Constituição)
b) “objetivo fundamental” da Constituição: redução
das desigualdades sociais e regionais (Art. 3º, III da CF)
c) aplicação vertical da isonomia: tratamento “desigual aos desiguais, na medida em que se desigualam”
d) STF: a União possui discricionariedade (juízo de conveniência e oportunidade) no estabelecimento de políticas fiscais e econômicas que levem em consideração as desigualdades federativas > não cabe ao Poder Judiciário equiparar casos em que o legislador previu a possibilidade de tratamento diverso por parte do gestor
B) Princípio da Uniformidade da Tributação da Renda
* Art. 151, II da CF: vedação à UNIÃO de tributar a RENDA das obrigações da dívida pública dos Estados, DF e Municípios, bem como a remuneração e os proventos de aposentadoria dos respectivos agentes públicos, em níveis superiores aos fixados para suas obrigações e seus agentes
* A União NÃO pode estabelecer imposto de renda com
alíquotas diferentes:
- a) para tributar rendimentos obtidos a partir de operações de emissão de títulos da dívida pública: o rendimento que deve ser tributado uniformemente é aquele obtido pelo
particular que adquiriu o título representativo da dívida
pública (a alíquota do IR será sempre a mesma, não
importando de qual ente federativo o título foi adquirido)
- b) para tributar a remuneração de pessoal ativo e inativo dos respectivos entes federativos: o rendimento que deve ser tributado uniformemente é aquele obtido pelo agente
público que ainda trabalha ou que já se aposentou (a
alíquota do IR será sempre a mesma, não importando para
qual ente federativo o serviço é ou era prestado)
* Fundamento: IMPEDIR que a União utilize o IR como um
instrumento de concorrência desleal, tanto no mercado de
emissão de títulos da dívida pública quanto na seleção de agentes públicos
C) Princípio da Vedação às Isenções Heterônomas
* Art. 151, III da CF: vedação à UNIÃO de instituir
isenções de tributos da competência dos Estados, do DF ou
dos Municípios
* ISENÇÃO é a dispensa legal do pagamento de um tributo
> OBS: por SIMETRIA CONSTITUCIONAL é correto afirmar que também há vedação aos Estados de instituir isenções de tributos da competência dos Municípios
* REGRA: o ente federativo competente para instituir o tributo deve ser o mesmo competente para estabelecer a isenção. Exemplo: a União ou o Estado não podem isentar a cobrança de IPTU, pois a sua competência é municipal
> Em suma: o poder de isentar decorre do poder de
tributar, assim, como regra, as isenções serão autônomas,
porque somente o ente federativo que pode cobrar o tributo também poderá dispensar a sua cobrança
* EXCEÇÕES:
a) ICMS sobre exportações (Art. 155, § 2º, XII, “e” da CF): a União, mediante Lei Complementar, pode conceder
isenção heterônoma do ICMS estadual/distrital incidente
sobre os serviços e as mercadorias destinados ao exterior (“política nacional de desoneração das exportações”)
b) ISS sobre exportações (Art. 156, § 3º, II da CF): a União, mediante Lei Complementar, pode conceder isenção
heterônoma do ISS municipal incidente sobre os serviços
destinados ao exterior (“política nacional de desoneração das exportações”)
c) Tratados Internacionais sobre Tributação (STF): o Presidente da República, na qualidade de “Chefe de Estado”, pode celebrar Tratados Internacionais sobre Tributação que estabeleçam isenções de tributos estaduais, distritais e municipais, pois, neste caso, o Presidente age em nome da
República Federativa do Brasil e não meramente da União
> Portanto, a vedação à concessão de isenção heterônoma só se aplica ao âmbito interno, isto é, nas relações entre os nossos entes federativos
*** ATENÇÃO: custas e emolumentos (consideradas “taxas” cobradas pela prestação da atividade jurisdicional, cuja arrecadação está vinculada ao atendimento desta finalidade - Art. 98, § 2º da CF): sujeitam-se à limitação da vedação à concessão de isenção heterônoma. Exemplo: é
inconstitucional a lei federal que concede isenção de custas
e emolumentos cobrados pela Justiça Estadual: violação ao disposto no Art. 151, III da CF > Súmula nº 178, STJ
7. PRINCÍPIO DA NÃO DISCRIMINAÇÃO PELA PROCEDÊNCIA OU DESTINO
* Art. 152 da CF: vedação aos ESTADOS, ao DF e aos MUNICÍPIOS de estabelecer diferença tributária entre bens e serviços, de qualquer natureza, em razão de sua
procedência ou destino
* Objetivo: proteção ao pacto federativo, mediante a
proibição ao tratamento discriminatório recíproco, isto é,
os entes federativos subnacionais estão impedidos de se discriminarem entre si. Exemplo: São Paulo não pode estabelecer alíquotas diferentes de cobrança de ICMS sobre mercadorias que venham de Minas Gerais e da Bahia
> Só a União pode estabelecer tratamento tributário diferenciado entre entes federativos: finalidade de promover o equilíbrio federativo (fortalecimento do pacto federativo ao minimizar as desigualdades socioeconômicas existentes entre as diversas regiões do País)
*** ATENÇÃO: este princípio tem aplicação tanto no
âmbito interno quanto âmbito externo > aplicável quando
o bem ou serviço é procedente ou destinado ao exterior, pois o Brasil é signatário do GATT (Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio), e este tratado internacional contém a chamada
cláusula do tratamento nacional: proibição aos países
signatários de conferirem diferença no tratamento tributário entre produtos similares sejam eles nacionais ou importados
> Exemplo: o Estado de São Paulo não pode fixar alíquota diferente de IPVA incidente sobre veículos emplacados em seu território, pois deve haver o mesmo tratamento tributário conferido aos veículos nacionais e aos veículos importados que lhe sejam similares
8. PRINCÍPIO DA INDISPONIBILIDADE DO PATRIMÔNIO PÚBLICO
* Art. 150, § 6º da CF: qualquer subsídio, isenção, redução da base de cálculo, concessão de crédito presumido, anistia ou remissão, relativos a impostos, taxas ou contribuições, só poderá ser concedido mediante LEI ESPECÍFICA, federal, estadual ou municipal, que regule exclusivamente as matérias acima enumeradas ou o correspondente tributo
* O crédito a ser recebido pelo Fisco deve ser considerado
parte integrante do patrimônio público > NÃO é possível
aos entes federativos tributantes abrir mão dos valores que as competências tributárias fixadas constitucionalmente lhes atribuem o poder-dever de cobrar
* NÃO há margem discricionária: não há juízo de valor (conveniência e oportunidade) sobre a cobrança tributária, pois o ordenamento autoriza, mas também determina a cobrança dos tributos devidos pelos sujeitos passivos > tributo é uma prestação pecuniária compulsória “instituída
em lei e cobrada mediante atividade administrativa plenamente vinculada” (Art. 3º do CTN)
* Toda concessão de benefício fiscal é EXCEPCIONAL, por isso os entes federativos dependem de lei específica que
os autorize a fazê-lo > como a cobrança tributária decorre
de uma lei, somente uma lei também pode poupar o sujeito passivo do cumprimento da respectiva obrigação tributária
> Exemplo: Art. 176 do CTN: a concessão de isenção dependerá da edição de lei específica, sendo insuficiente a
mera previsão contratual
* A exigência de lei específica serve para coibir uma antiga prática legislativa de “esconder” dispositivos tributários em leis que não tratam da matéria tributária > por essa razão, o Art. 150, § 6º da CF exige a edição de lei específica que “regule exclusivamente” matéria tributária
> STF: relativiza tal exigência: basta que a concessão de benefício fiscal tenha pertinência temática com o objetivo da lei. Exemplo: lei que regulamenta um programa de financiamento agropecuário pode conceder algum benefício fiscal ao produtor rural abrangido pela regulamentação, sem agressão à exigência da especificidade legal
* EXCEÇÃO: Art. 150, § 6º da CF - parte final: ressalva à exigência de lei específica com a expressão: sem prejuízo do
disposto no Art. 155, § 2º, XII, “g” da CF > referente à
cobrança do ICMS estadual/distrital, pois a concessão de benefícios fiscais de ICMS depende da celebração de um
Convênio (deliberação conjunta e unânime dos Estados e do
DF) no âmbito do Conselho Nacional de Política Fazendária (CONFAZ) > Finalidade: coibir a “GUERRA FISCAL”
*** OBS: STF: não é possível que um ente federativo exerça “direito de revanche”, em nome da proteção da economia local, caso outro ente federativo deixe de editar lei específica para conceder benefícios fiscais (não existe
compensação de inconstitucionalidades)
*** OBS: STF: não é possível ao Poder Judiciário estender analogicamente a concessão de benefícios fiscais àqueles que se encontram em situação equivalente, mas que não foram contemplados pela lei específica concessora
> a concessão de benefício fiscal é excepcional: a extensão às pessoas não abrangidas pela lei específica, em vez de acarretar a aplicação do princípio da isonomia em sentido horizontal, violaria a cláusula pétrea constitucional da “separação dos Poderes”, pois converteria o Judiciário em legislador positivo no caso concreto