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Juventude rural, gênero e educação

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Academic year: 2021

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JUVENTUDE RURAL, GÊNERO E EDUCAÇÃO: REFLEXÕES SOBRE JOVENS CATARINENSES E SEUS PROJETOS DE FUTURO

Tubarão 2015

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JUVENTUDE RURAL, GÊNERO E EDUCAÇÃO: REFLEXÕES SOBRE JOVENS CATARINENSES E SEUS PROJETOS DE FUTURO

Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Sul de Santa Catarina como requisito à obtenção do título de Mestre em Educação.

Orientadora: Profª. Tânia Mara Cruz, Dra.

Tubarão 2015

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Começo formando meu círculo de gratidão a todos que estavam próximos de mim e também aos que estavam distantes, mas presentes em pensamento.

Primeiramente a Deus, por me amparar nos momentos de dificuldade, dando-me força e coragem para prosseguir na caminhada, guiando-me pelos melhores caminhos.

Ao meu esposo Sílvio, pela paciência, compreensão e apoio nos momentos em que precisei me dedicar à dissertação, sempre me incentivado na busca da realização dos meus sonhos.

Aos meus filhos, Ricardo e Sílvia, que ao meu lado estiveram e contribuíram nos debates, nas boas conversas, sempre me apoiando no desenvolvimento do trabalho.

À minha nora Sabrina e ao meu genro Ramon, com quem troquei várias e boas ideias que muito enriqueceram minha pesquisa.

Minha eterna gratidão aos meus pais, Pedro e Emília, que mesmo a 600 km de distância acompanharam minha caminhada, mas, acima de tudo, pelo exemplo, dedicação e incentivo ao estudo sempre.

A todos os meus familiares, irmão, irmãs, sobrinhos, que de alguma forma contribuíram para o meu crescimento, tanto pessoal quanto profissional.

À Professora Doutora Tânia Mara Cruz, minha orientadora, pelo exemplo, humildade e confiança que demonstrou nesta caminhada, sempre me orientando da melhor maneira possível.

A toda equipe do Programa de Pós-Graduação em Educação, especialmente aos professores que compartilharam seus conhecimentos, permitindo que este trabalho fosse concluído.

Aos colegas de classe, em especial Adriana, Nicholas e Carolina, com os quais tive maior convivência, trocando ideias, sugestões, mas especialmente pela amizade nascida e cultivada.

À minha companheira de trabalho, Juliana Koenig Duarte, da EPAGRI de São Ludgero, e também às famílias rurais e todos os jovens que participaram desta pesquisa.

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“[...] não é necessário conhecer tudo para poder entender alguma coisa.” (CLIFFORD GEERTZ)

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A presente pesquisa pretende refletir sobre a juventude rural, as imbricações entre educação e trabalho e, quando possível, articulando-as com as relações de gênero, junto a jovens rurais do município de São Ludgero, no sul do estado de Santa Catarina. Com uma população de 10.993 habitantes, o município caracteriza-se pela presença de indústrias urbanas com um setor industrial vinculado ao campo e uma parcela de 10% que vive no campo sustentando-se por meio da agricultura familiar. Além disso, caracteriza-se por determinado número de jovens que vivem no campo, mas conciliam trabalho na agricultura familiar com trabalho urbano, formando o fenômeno designado como pluriatividade. O problema de pesquisa investigou como estes jovens vivenciam suas experiências no conjunto de suas relações sociais (família, escola, trabalho, amizade e namoro) e como compõem seus projetos de futuro. O objetivo geral foi compreender e analisar o contexto sociocultural do jovem rural na região de São Ludgero, quais as variáveis, principalmente relativas a trabalho, educação e, quando possível, de gênero, que permearam a construção de seus projetos de futuro. Os objetivos específicos pautaram-se em: caracterizar os aspectos que compõem o cotidiano do jovem rural; mapear as ações de educação disponíveis a eles e a forma como usufruem dessas ações; analisar como as relações de trabalho e de gênero aparecem em suas narrativas. Os instrumentos de pesquisa utilizados foram: a entrevista, com roteiro semiestruturado, e a pesquisa bibliográfica. Ao todo foram entrevistados 22 jovens, residentes na área rural, que concluíram o Ensino Médio na Escola de Educação Básica de São Ludgero, entre os anos de 2009 a 2014. Além desses critérios, a seleção da amostra também levou em conta que fossem jovens que estivessem na faixa etária de 18 a 24 anos no momento da pesquisa, residissem na área rural de São Ludgero, trabalhassem, no mínimo, meio período na propriedade rural, e fossem solteiros(as). Tanto no decorrer da pesquisa quanto no processo de análise, buscou-se compreender as contradições e o movimento dialético, sempre levando em conta as articulações entre economia e cultura, tanto no âmbito local quanto em suas relações mais abrangentes na sociedade contemporânea, para isso construindo um diálogo entre o real e os estudos já produzidos sobre a área de pesquisa. Entre os resultados, constatou-se que persiste no campo uma tendência para a divisão sexual do trabalho generificada: os rapazes têm mais chances de permanecer e dar continuidade às atividades da propriedade; as moças não almejam relacionamentos que as condicione a permanecer no campo, pois em seus projetos de futuro pretendem cursar universidade e, de preferência, trabalhar na cidade. A educação demonstrou ser um fator importante para os(as) jovens, tanto para sair quanto para permanecer, mas em ambos os casos está bem aquém das suas necessidades, pela pouca disponibilidade de vagas no ensino público superior gratuito, ou falta de cursos superiores ou técnicos vinculados à realidade agroindustrial do município. Palavras-chave: Juventude rural. Gênero. Educação. Campo.

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This research intends to reflect on the rural youth and their imbrications between education and work, and where possible, articulating them with the relation of gender, along with rural youth in São Ludgero, a city located in the southern state of Santa Catarina. This small city of 10.993 inhabitants is characterized by the presence of urban industries with an industrial sector linked to the field and whose small portion of 10% living in the countryside is sustained through family agriculture. Moreover, it is characterized by a number of young people living in the field combining work in family farming work and urban work, a phenomenon referred to as pluriactivity. The research problem was how to get these young people experience their experiences in the set of social relationships (family, school, work, friendship and dating) and how they made up their future projects. The main objective was to understand and analyze the socio-cultural context of the rural youth in the region of São Ludgero and which variables, mainly related to work, education, e when possible, gender, permeated the construction of its future projects. The specific objectives were based on: characterize the daily life concepts of the rural youth; map out how the education activities are available to them and if they enjoy these actions; and examine how the work and gender relationships appear in their narratives. Research instruments used were semi-structured interview and literature. In total, 22 young people were interviewed, all residents of rural area who have concluded the high school in the São Ludgero Basic Education School between 2009 and 2014. In addition to these criteria, sample selection also took into account that they were between 18 and 24 years old at the time of the survey, resided in São Ludgero rural area; worked at least part-time in a farm and were unmarried. Both during the research and the analysis process sought to understand the contradictions and the dialectical movement, always taking into account the links between economy and culture both locally and in its broader relations in contemporary society, for that building a dialogue between reality and the studies that have already been produced over the search area. Among the results, it was found out that persist in the field a tendency for the gendered division of labor; boys are more likely to stay in the farm and continue the activities of the property; and the girls do not aspire relationships that condition the stay on the field because in their future projects intend to attend university and preferably working in the city. Education proved to be an important factor for the young people, both to leave and remain in the field, but in both cases it falls short of their needs because of the limited availability of free public higher education, or lack of higher or technical courses linked to agro-industrial reality of the city.

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Quadro 1 - Artigos encontrados na base SciELO no período 2007 – 2014 ... 19

Quadro 2 - Artigos selecionados na base SciELO ... 20

Quadro 3 - Produção encontrada na base Banco de Teses CAPES - período 2011 a 2012 ... 21

Quadro 4 - Produção selecionada na base Banco de Teses CAPES ... 21

Quadro 5 - Produção encontrada na base ANPED no período de 2009 a 2014 ... 22

Quadro 6 - Produção selecionada na base ANPED ... 23

Quadro 7 - Produção encontrada na base ANPED Sul no período de 2010 e 2012 ... 24

Quadro 8 - Produção selecionada na base ANPED Sul ... 24

Quadro 9 - Tipos de tarefas citadas pelos jovens como realizadas por eles(as) ... 63

Quadro 10 - Cursos feitos pelos jovens ... 72

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Figura 1 - Localização do município de São Ludgero dentro da AMUREL ... 32 Figura 2 - Mapa dos municípios da 36ª SDR de Braço do Norte ... 33 Figura 3 - Mapa de localização de São Ludgero e municípios limítrofes ... 34

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Gráfico 1 - Pirâmide etária da população de São Ludgero por grupo de idade e sexo em

2010 ... 36 Gráfico 2 - População urbana e rural de São Ludgero de 1980 a 2010 ... 37

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Tabela 1 - Número de jovens concluintes do Ensino Médio no período de 2009 a 2014 ... 26

Tabela 2 - Número de jovens rurais concluintes do Ensino Médio no período de 2009 a 2014 por sexo ... 27

Tabela 3 - População urbana e rural – Total em 2010 ... 33

Tabela 4 - População residente por localização e sexo ... 38

Tabela 5 - Perfil dos jovens quanto à idade e sexo ... 56

Tabela 6 - Perfil dos jovens quanto à formação ... 56

Tabela 7 - Composição familiar ... 57

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ACARESC - Associação de Crédito e Assistência Rural de Santa Catarina ACARPESC - Associação de Crédito e Assistência Pesqueira de Santa Catarina AMUREL - Associação dos Municípios da Região de Laguna

ANPED - Associação Nacional de Pós-Graduação em Pesquisa e Educação CAFIR - Cadastro Fiscal de Imóveis Rurais

CAPES - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior CEDEJOR - Centro de Desenvolvimento do Jovem Rural

CEJA - Centro de Educação de Jovens e Adultos

CEPA - Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola CETUBA - Centro Treinamento da EPAGRI

CFR - Casas Familiares Rurais

CIDASC - Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola CUT - Central Única dos Trabalhadores

ECA - Estatuto da Criança e do Adolescente EFA - Escolas Famílias Agrícolas

EJA - Educação de Jovens e Adultos

EMPASC - Empresa Catarinense de Pesquisa Agropecuária S.A. ENEM - Exame Nacional do Ensino Médio

EPAGRI - Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina

FETRAF - Federação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar GT - Grupo de Trabalho

IASC - Instituto de Apicultura de Santa Catarina IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IDHM - Índice de Desenvolvimento Humano

IPHAN - Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional LDB - Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional

PEA - População Economicamente Ativa

PNUD - Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento PROEMI - Programa de Ensino Médio Inovador

PRONAF - Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar SAR - Secretaria Estado da Agricultura

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SEBRAE - Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequena Empresa SENAR - Serviço Nacional de Aprendizagem Rural

SESI - Serviço Social da Indústria

SINTRAF - Sindicato dos Trabalhadores da Agricultura Familiar SOL - Secretaria de Estado do Turismo

UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina

UNESC - Universidade do Extremo Sul de Santa Catarina

UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e Cultura UNIBAVE - Centro Universitário Barriga Verde

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INTRODUÇÃO ... 14

1 PERCURSOS METODOLÓGICOS ... 19

1.1 PESQUISA BIBLIOGRÁFICA ... 19

1.1.1 Pesquisa na base Scientific Eletronic Libray Online (SciELO) ... 19

1.1.2 Pesquisa na base Banco de Teses e Dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) ... 20

1.1.3 Pesquisa na base de dados da Associação Nacional de Pós-Graduação em Pesquisa e Educação (ANPED) ... 22

1.1.4 Pesquisa na base de dados da Associação Nacional de Pós-Graduação em Pesquisa e Educação da Região Sul (ANPED Sul) ... 24

1.1.5 Procedimentos para definição do sujeito, produção de dados e análise ... 25

2 A CIDADE DE SÃO LUDGERO ... 29

2.1 CONSIDERAÇÕES SOBRE AS FRONTEIRAS ENTRE O RURAL E O URBANO .... 29

2.2 A REGIÃO DA AMUREL E A INSERÇÃO DE SÃO LUDGERO ... 31

2.3 CARACTERIZAÇÃO GEOGRÁFICA E POPULACIONAL DO MUNICÍPIO DE SÃO LUDGERO ... 34

2.4 CARACTERIZAÇÃO DE SÃO LUDGERO ... 38

2.5 A EDUCAÇÃO EM SÃO LUDGERO ... 42

3 ALGUNS CONCEITOS PRÉVIOS: JUVENTUDE RURAL E GÊNERO ... 50

3.1 JUVENTUDE RURAL ... 50

3.2 OS USOS DO CONCEITO DE GÊNERO E SEXO ... 53

4 A PERSPECTIVA DOS JOVENS E SEUS PROJETOS DE FUTURO ... 56

4.1 PERFIL DOS ENTREVISTADOS E SUAS FAMÍLIAS ... 56

4.2 DIVISÃO DE TRABALHO NO CAMPO E GÊNERO ... 58

4.3 RELAÇÕES AMOROSAS E EDUCAÇÃO ... 66

4.4 EDUCAÇÃO E CAMPO ... 68

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 82

REFERÊNCIAS ... 85

APÊNDICE ... 90

APÊNDICE A – Protocolo de pesquisa ... 91

ANEXO ... 93

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INTRODUÇÃO

Esta pesquisa pretende contribuir com reflexões sobre a juventude rural e seus projetos de futuro, buscando analisar as imbricações com educação e trabalho e, quando possível, a presença das relações de gênero em seus projetos de futuro. Foi realizada no município de São Ludgero, no sul de Santa Catarina, com jovens concluintes do Ensino Médio do período de 2009 a 2014 na Escola de Educação Básica São Ludgero.

A disposição em estudar sobre a juventude rural, gênero e educação é resultado de um longo período de vida pessoal e profissional dedicado ao trabalho na Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (EPAGRI), iniciado em 1980 no projeto “Juventude Rural 4-S”, atendendo os municípios de Braço do Norte, São Ludgero, Orleans, Grão Pará e Gravatal. A realização do Curso de Especialização em Educação do Campo e Desenvolvimento Territorial na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e o fato de ministrar disciplinas nesta área no Centro Universitário Barriga Verde (UNIBAVE) motivaram-me a aprofundar as pesquisas nesta temática no curso de Mestrado em Educação da Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL).

Castro (2007, p. 128) aponta que “a juventude rural está na ordem do dia, ainda que não seja um tema tão privilegiado em termos de recursos para pesquisa”, uma vez que, segundo ela, a juventude “nunca foi um tema privilegiado nem mesmo dentro do campo de debate sobre a questão agrária”. Com outra posição, Wanderley (2007, p. 31) afirma que vivemos um período em que são inúmeros os trabalhos sobre jovens do meio rural, pontuando ainda que “todos eles tentam, com abordagens distintas, responder a questões fundamentais, tais como: quem são, onde vivem, como vivem, o que pensam e como projetam o futuro”. Considerando nossa pesquisa bibliográfica, ainda que não tenhamos pretendido produzir um estado da arte, concordamos com Wanderley sobre o grande número de pesquisas nos últimos cinco anos, apenas frisando que a categoria gênero é ainda um tema pouco presente nelas e carecemos de mais pesquisas, o que nos fez também definir nossos caminhos inserindo essa preocupação em que pesem os poucos autores encontrados para o diálogo, aqui apresentados na análise dos resultados.

O mundo rural possui algumas especificidades relacionadas ao modo de vida, ao trabalho, às relações familiares e sociais e é carregado de tradições que se reproduzem de geração em geração. Para compreender a juventude rural faz-se necessário perceber o contexto histórico em que os jovens se encontram e de que modo têm participado desse processo.

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familiar, tema que tem sido preocupação constante entre pesquisadores.

Convém lembrar, antes de adentrarmos nesse debate, o significado do termo agricultura familiar, que é bem abrangente. No Brasil encontramos concepções distintas, mas frisamos que partiremos, neste trabalho, da definição do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Distingue-se agricultura familiar e agricultura não familiar (geralmente associada à agricultura patronal e/ou empresarial, equivalente ao agronegócio) e, para fins de recenseamento e de políticas públicas, agricultor familiar e empreendedor familiar rural é considerado aquele que pratica atividades no meio rural, contemplando, concomitantemente, os seguintes requisitos: a) não detém, a qualquer título, área maior do que quatro módulos fiscais; b) utiliza predominantemente mão de obra da própria família nas atividades econômicas do seu estabelecimento ou empreendimento; c) tem renda familiar predominantemente originada de atividades econômicas vinculadas ao próprio estabelecimento ou empreendimento; d) dirige seu estabelecimento ou empreendimento com sua família (BRUMER, 2014a, p. 217).

Pesquisadores brasileiros vêm discutindo sobre a temática da migração juvenil e a continuidade da agricultura pelas próximas gerações.

A partir da década de 1980, no Brasil, em adição às preocupações com o futuro da agricultura e das sociedades rurais, a questão da reprodução geracional na agricultura familiar entrou na agenda das pesquisas. Tornou-se, assim, um problema sociológico, em grande parte devido aos registros da intensificação da migração rural – urbana das camadas mais jovens e do processo de envelhecimento e masculinização da população rural (ABRAMOVAY et al., 1998; CAMARANO; ABRAMOVAY, 1998). A maior parte dessas pesquisas procurou apontar as causas do desinteresse dos jovens de ambos os sexos em permanecer na atividade agrícola, as formas da transferência patrimonial dos estabelecimentos familiares às novas gerações, assim como os diferentes tratamentos e oportunidades oferecidos a jovens de sexos distintos (BRUMER, 2014, p. 216).

Conforme também argumenta Brumer (2014a, p. 215), essas preocupações, em grande parte, decorrem da ampliação proporcional da migração juvenil (população com idade entre 15 a 24 anos)1, principalmente do sexo feminino. Como resultado dessa migração seletiva por idade e sexo, muitos estabelecimentos agrícolas familiares apresentam tendência a não permanecerem na mesma família após a aposentadoria ou o falecimento dos atuais proprietários. Pesquisas realizadas sobre essa migração apontam, entre outras causas, as formas de transferência patrimonial para as novas gerações e as diferentes oportunidades oferecidas às moças e rapazes na área urbana.

1 Quando caracterizamos um grupo de indivíduos com base na idade, principalmente o que consideramos a

passagem da adolescência para a fase da juventude e desta para a vida adulta, Brumer (2014a) lembra que é preciso levar em conta que se trata de convenções culturais, que apresentam distinções importantes entre países diversos. Discutiremos isso mais apropriadamente nos capítulos seguintes.

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A dificuldade relativa à transferência da responsabilidade sobre a gestão da propriedade e a falta de autonomia dos jovens no planejamento, na realização das atividades e no usufruto dos benefícios financeiros fazem com que os jovens sintam-se impossibilitados de se realizarem no campo e, por isso, expressem o desejo de trabalhar nas cidades, sobretudo nas indústrias. Existem outras problemáticas ligadas à permanência do jovem no campo. Há estudos que indicam: a vontade de continuar os estudos além do Ensino Médio, a necessidade de ter seu próprio dinheiro, a busca de liberdade e de melhores condições de vida. Para muitos jovens isso parece ocorrer com mais facilidade na área urbana.

Complementando esse quadro, as observações realizadas por Brumer (2014a, p. 223) indicam que, com o prolongamento da vida humana, resultado especialmente dos avanços na área da Medicina, abundância alimentar e melhoria nos hábitos de higiene, começou a haver certo descompasso entre o ciclo de vida dos pais (que ainda são relativamente jovens quando seus filhos se tornam adultos) e o ciclo de vida dos filhos que influencia as aspirações da juventude de autonomia imediata. Brumer (2014a, p. 223) acrescenta que a

perspectiva de permanência dos jovens na agricultura depende ainda, entre outros fatores: da viabilidade econômica do empreendimento, através da geração de uma renda considerada adequada pelos futuros agricultores, em comparação com as alternativas que lhes são oferecidas; da qualificação necessária para a integração do novo agricultor num mercado competitivo; das oportunidades e das estratégias de obtenção de rendas complementares às atividades agrícolas, por um ou mais membros da família; das relações que se estabelecem entre pais e filhos, no interior das famílias; das relações de gênero, através das quais existem mais ou menos oportunidades.

Os estudos de Abramo e Branco (2005), Carneiro (2005) e Castro (2005) indicam as dificuldades enfrentadas pelos jovens, principalmente as relacionadas ao acesso à escola e ao trabalho, enquanto Carneiro, em estudos específicos (1998, 2005), apresenta como principal indicador a atração do jovem pelo estilo de vida urbano, ou seja, uma motivação da cultura juvenil urbana.

Mas, ficar ou sair do campo, ou, dito de outro modo, quais as possibilidades que o campo oferece à presença dos jovens, conforme suas necessidades e projetos, é uma das questões centrais a pensar. Ao tentarmos compreender o contexto da juventude rural é necessário também repensarmos, como explica Castro (2005), a ideia de ficar ou sair como movimentos definitivos dos jovens, propondo observá-los a partir das múltiplas formas em que se apresentam, que tanto podem significar estratégias familiares de manutenção à terra como formas de se afastar da ação da autoridade paterna. Se podemos ainda pensar que ser jovem implica justamente repensar seu lugar de origem à luz de seus projetos de futuro, não podemos

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correr o risco de criar uma inovadora fórmula de aprisionamento: os jovens rurais devem permanecer no campo e os jovens urbanos devem permanecer nas cidades. Se a problemática da sucessão na agricultura familiar é um forte componente do ser jovem rural, outros fatores também o são, como a pouca oferta de qualificação técnica, a dificuldade do acesso ao estudo, a falta de autonomia relativa ao acesso à terra em função dos conflitos geracionais e de sexo, e, por fim, a baixa autoestima decorrente de uma supervalorização da cultura urbana (por conseguinte da juventude urbana) que antecede o momento da história recente brasileira. Por fim, não devemos desconsiderar que inclusive as características culturais desses jovens são aproveitadas pelas indústrias urbanas que buscam atrair essa força de trabalho juvenil, de certo modo disciplinada desde a infância devido ao trabalho familiar em que esteve inserida, ainda que não seja exatamente o mesmo que se espera no trabalho fabril urbano, descrito por alguns dos jovens aqui entrevistados sem o manto da ilusão.

Esse conjunto de variáveis nos leva a pensar que estudar a juventude envolve considerá-la no todo de suas relações e, como afirma Wanderley (2007, p. 33), “para uma abordagem que não negligencie as diversidades identitárias, de gênero e das aspirações sociais que perpassam os dilemas juvenis no meio rural”.

O trabalho do jovem é marcado pelos valores presentes nas relações familiares que influenciam na decisão quanto ao futuro de vida, e ele, muitas vezes, se vê em conflito. Se, de um lado, as condições sociais e econômicas do campo são contraditórias e não permitem uma continuidade com segurança financeira, por outro os espaços urbanos também o são, podendo tanto mantê-lo em serviços pouco remunerados e sem mobilidade quanto proporcionar uma autonomia financeira, remuneração melhor, outro nível de escolaridade (através da universidade ou de cursos de capacitação) e, ao mesmo tempo, sintonizá-lo com as culturas juvenis urbanas.

Para enfrentar a problemática que envolve os contextos juvenis rurais buscamos pensar de que modo estão constituídas as experiências juvenis em seu cotidiano em suas diferentes facetas, no intuito de compreender seus dilemas e alternativas adotadas, demarcando, em função de nossos interesses do campo de conhecimento, os aspectos relativos à educação, gênero e trabalho. Enfim, buscamos responder: quais as variáveis vivenciadas pelos jovens na família, na escola, no trabalho, nas relações de amizade e namoro, que interferem na construção de seus projetos de futuro?

A partir dessa problemática nosso objetivo geral tornou-se: compreender e analisar o contexto sociocultural do jovem rural na região de São Ludgero e quais as variáveis que permeiam a construção de seus projetos de futuro. Como objetivos específicos, elencamos: 1)

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caracterizar os diferentes aspectos que compõem o cotidiano do jovem rural; 2) mapear as ações de educação disponíveis para os jovens no campo e se eles participam delas; 3) analisar como o cotidiano das relações de trabalho e de gênero aparece em suas narrativas.

Após as entrevistas, ainda que nosso roteiro de pesquisa tenha sido abrangente no sentido de captar o movimento que estes jovens vêm fazendo no conjunto das relações sociais em que estão inseridos e por terem produzido um material mais rico e abrangente do que supúnhamos encontrar, mantivemos para esta dissertação o recorte que trata da relação entre trabalho e educação e, quando possível, suas articulações com as questões de gênero.

Esta dissertação está estruturada em quatro capítulos, além da introdução. O primeiro trata do percurso metodológico percorrido com as pesquisas realizadas na base de dados Scientific Eletronic Libray Online (SciELO), Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Associação Nacional de Pós-Graduação em Pesquisa e Educação (ANPED) Nacional e Associação Nacional de Pós-Graduação em Pesquisa e Educação (ANPED) Sul, bem como os procedimentos adotados para a produção dos dados.

O segundo capítulo versa sobre a caracterização do município de São Ludgero, onde realizamos nossa pesquisa, situando-o no contexto regional da Associação dos Municípios da Região de Laguna (AMUREL) e da 36ª Secretaria de Desenvolvimento Regional (SDR) de Braço do Norte, em que destacamos os aspectos populacionais, culturais e educacionais.

No capítulo três abordamos os principais conceitos de juventude rural e gênero. O quarto capítulo expõe os resultados e discussões sobre as perspectivas dos jovens e seus projetos de futuro, analisando suas narrativas, destacando os três eixos de análise: divisão de trabalho no campo e gênero, relações amorosas e educação, e, por fim, educação e campo.

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1 PERCURSOS METODOLÓGICOS

Utilizamos, inicialmente, a pesquisa bibliográfica e a buscamos no banco de teses e dissertações da base SciELO, CAPES, ANPED Nacional e ANPED Sul, sendo definido como período os últimos cinco anos, ou seja, do ano de 2009 a 2014. Empregamos como descritores: juventude rural e gênero, juventude rural e educação, educação do campo e juventude rural. Os trabalhos encontrados e selecionados estão descritos nos quadros a seguir.

1.1 PESQUISA BIBLIOGRÁFICA

Realizamos uma pesquisa bibliográfica para localizar a temática dentro das discussões acadêmicas buscando um diálogo com outras pesquisadoras e pesquisadores do tema, tanto sobre conteúdos afins quanto contribuições teóricas para entendimento do campo de pesquisa.

1.1.1 Pesquisa na base Scientific Eletronic Libray Online (SciELO)

Na base SciELO, disponível no endereço www.scielo.org, procuramos por artigos dos anos de 2007 a 2014 por considerar que as pesquisas de gênero são bem recentes neste tema. Optamos por buscar artigos brasileiros, selecionando todos os índices e não distinguindo por autoria. No quadro 1 constam os descritores utilizados e artigos encontrados.

Quadro 1 – Artigos encontrados na base SciELO no período 2007 – 2014

Palavras-chave Número de artigos Número de artigos

selecionados

Juventude rural – gênero 0 0

Juventude rural – educação 0 0

Educação do campo 10 3

Juventude rural 4 3

Total 14 6

Fonte: Elaboração da autora, 2014.

Após breve leitura dos resumos, selecionamos, entre os artigos encontrados, os que tinham relação mais próxima com nossos objetivos de pesquisa. Os trabalhos estão relacionados no quadro 2 a seguir.

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Quadro 2 – Artigos selecionados na base SciELO

Autores Título Local Ano

1 COSTA, Fernando Luis Martins; RALISCH, Ricardo (descritor: juventude rural)

A juventude rural do assentamento Florestan Fernandes no município de Florestópolis (PR) Rev. Econ. Sociol. Rural, set. 2013, v. 51, n. 3, p. 415-432. ISSN 0103-2003 2013

2 MENDONÇA, Kenia et al. (descritor: juventude rural)

Formação, sucessão e migração: trajetórias de duas gerações de agricultores do Alto Jequitinhonha, Minas Gerais

Rev. bras. estud. popul., dez. 2013, v. 30, n. 2, p. 445-463. ISSN 0102-3098 2013 3 CASAGRANDE, Daiana Panciera; SALVARO, Giovana Ilka Jacinto; ESTEVAM, Dimas de

Oliveira (descritor: juventude rural)

Projetos profissionais de jovens universitários/as que residem no meio rural: estudo de caso dos/as jovens do município de Meleiro, SC Interações (Campo Grande), dez. 2012, v. 13, n. 2, p. 261-271. ISSN 1518-7012 2012 4 MARSCHNER, Walter (descritor: educação no campo) Lutando e ressignificando o rural em campo: notas epistemológicas Interações (Campo Grande), jun. 2011, v. 12, n. 1, p. 41-52. ISSN 1518-7012 2011

5 SOUZA, Maria Antônia de (descritor: educação no campo)

Educação do campo, desigualdades sociais e educacionais

Educ. Soc., set.

2012, v. 33, n. 120, p. 745-763. ISSN 0101-7330

2012

6 VENDRAMINI, Célia Regina (descritor: educação no campo)

Educação e

trabalho: reflexões em torno dos movimentos sociais do campo Cad. CEDES, ago. 2007, v. 27, n. 72, p. 121-135. ISSN 0101-3262 2007

Fonte: Elaboração da autora, 2014.

1.1.2 Pesquisa na base Banco de Teses e Dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES)

Na base de dados da CAPES, disponível no endereço http://bancodeteses.capes.gov.br, no dia 11/09/2014, apenas estavam disponíveis os anos de 2011 e 2012. A pesquisa foi realizada pelos descritores contidos no quadro, sem especificação de ano, autor ou área de conhecimento. O resultado desta pesquisa consta no quadro 3.

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Quadro 3 – Produção encontrada na base Banco de Teses CAPES - período 2011 a 2012

Palavras-chave Número de produtos encontrados Número de produtos pré-selecionados Número de produtos selecionados Juventude rural - educação 33 17 5 Juventude rural - gênero 14 5 1 Juventude rural - educação campo 18 8 0 Juventude rural - movimentos sociais 11 7 0 Total 76 37 6

Fonte: Elaboração da autora, 2014.

Igualmente, após uma leitura rápida dos resumos, selecionamos, entre os artigos encontrados, os que tinham relação mais próxima com nossos objetivos de pesquisa, conforme quadro 4.

Quadro 4 – Produção selecionada na base Banco de Teses CAPES (continua)

Autores Título Local Ano

1 JARDIM, Silvia Regina Marques (descritor:

juventude rural – educação)

“Entreaberto botão, entrefechada rosa”: vivências da adolescência feminina em um assentamento de reforma agrária Universidade Estadual Paulista (UNESP) 2011

2 COSTA, Maria Regina Caetano (descritor:

juventude rural – educação)

O futuro entre o rural e o urbano. Um estudo de caso sobre a juventude rural no município de Morro Redondo-RS Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) 2011

3 MENDES, Debora Mate (descritor: juventude rural – educação) Sementes na terra: educação, juventude, agricultura familiar Universidade Regional do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ) 2011 4 PANDOLFO, Graziela Castro (descritor: juventude rural – educação)

Escola e família: a construção social dos jovens agricultores familiares Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) 2012

(23)

(conclusão)

Autores Título Local Ano

(descritor: juventude rural – educação) vida de jovens de um assentamento rural Federal de Minas Gerais (UFMG) 6 AMORIM, Fabricia Rodrigues (descritor: juventude rural e gênero)

Uma vida chamada luta um sonho chamado

terra: juventude rural e processos identitários Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) 2011

Fonte: Elaboração da autora, 2014.

1.1.3 Pesquisa na base de dados da Associação Nacional de Pós-Graduação em Pesquisa e Educação (ANPED)

Pesquisamos também no site da ANPED, disponível no endereço www.anped.com.br em 22/04/2015, especificamente em três grupos de trabalho, a saber: GT 03 “Movimentos Sociais, Sujeitos e Processos Educativos”; GT 06 “Educação Popular”; e GT 23 “Gênero Sexualidade e Educação” no período de 2009 a 2014.

Para isso buscamos os descritores combinados: juventude rural e educação; juventude rural e gênero; juventude rural e movimentos sociais; juventude rural e educação do campo; gênero e juventude rural; juventude rural; educação de jovens rurais; gênero e jovens rurais.

Do mesmo modo, após uma leitura rápida dos resumos, selecionamos, entre os artigos encontrados, os que tinham relação mais próxima com nossos objetivos de pesquisa, como mostra o quadro 5.

Quadro 5 – Produção encontrada na base ANPED no período de 2009 a 2014 (continua)

Grupo de Trabalho Reunião Anual ANPED Número de artigos encontrados Número de artigos selecionados GT 03 GT 06 GT 23 32ª – 2009 7 13 12 0 0 0 GT 03 GT 06 GT 23 33ª – 2010 12 0 0 2 0 0 GT 03 GT 06 GT 23 34ª - 2011 17 10 15 1 0 0

(24)

(conclusão)

Grupo de Trabalho Reunião Anual ANPED Número de artigos encontrados Número de artigos selecionados GT 03 GT 06 GT 23 35ª - 2012 15 13 17 2 0 0 GT 03 GT 06 GT 23 36ª - 2013 8 12 17 0 0 0 Total 168 5

Fonte: Elaboração da autora, 2014.

Efetuamos a leitura dos resumos selecionados, entre os artigos encontrados, sendo que cinco trabalhos se aproximaram mais dos nossos objetivos de pesquisa. Tais trabalhos estão descritos no quadro 6.

Quadro 6 – Produção selecionada na base ANPED

Grupo

de Trabalho

Autores Título Local Ano

1 GT 03 BELTRAME, Sonia Branco et al. (descritor: juventude rural e movimentos sociais)

Educação do campo: políticas e práticas em Santa Catarina

UFSC 2010

2 GT 03 SILVA, Catarina Malheiros da (descritor: juventude rural e movimentos sociais)

Escolarização no meio rural – juventude e marcas de gênero UnB 2010 3 GT 03 CALDAS, Alcione Nawroski; JANATA, Natacha Eugenia (descritor: juventude rural e movimentos sociais) Reflexões acerca da educação de jovens do campo em Santa Catarina UFSC 2010

4 GT 03 NETO, Miguel Farah; PINHEIRO, Diogenes; ESTEVES, Luiz Carlos Gil (descritor: juventude rural e movimentos sociais)

Demandas educacionais dos jovens brasileiros: alguns indicativos da 2ª conferência nacional de juventude

UNIRIO 2012

5 GT 03 LINS, Georgia Oliveira Costa; OLIVEIRA, Ludmila Holanda Cavalcante

(descritor: juventude rural e movimentos sociais)

Juventude em escolas famílias agrícolas do semi-árido: paradoxos entre educação, trabalho e campo

UEFS 2012

(25)

1.1.4 Pesquisa na base de dados da Associação Nacional de Pós-Graduação em Pesquisa e Educação da Região Sul (ANPED Sul)

Realizamos ainda a mesma busca nos trabalhos da ANPED Sul, nos grupos de trabalho: GT “Educação e movimentos sociais”; GT “Educação e gênero”; e GT “Juventude rural e gênero”. Foi possível conseguir artigos dos anos de 2010 e de 2012, sendo que os demais não estavam disponíveis quando realizamos a pesquisa.

Os descritores combinados foram iguais aos anteriores: juventude rural e educação; juventude rural e gênero; juventude rural e movimentos sociais; juventude rural e educação do campo; gênero e juventude rural; juventude rural; educação de jovens rurais; gênero e jovens rurais.

Efetuamos a leitura dos resumos dos artigos encontrados e selecionamos os artigos que tinham relação mais próxima com nossos objetivos de pesquisa, como mostra o quadro 7.

Quadro 7 – Produção encontrada na base ANPED Sul no período de 2010 e 2012

Grupo de Trabalho Reunião Anual ANPED Sul Número de artigos encontrados Número de artigos selecionados GT 03 GT 06 8ª – 2010 28 21 4 0 GT 03 GT 06 GT 23 9ª – 2012 19 15 24 1 0 0 Fonte: Elaboração da autora, 2014.

Na ANPED Sul, no período indicado, selecionamos quatro trabalhos do ano de 2010 do GT 03, e um trabalho do ano de 2012 do GT 03. Estes trabalhos estão expressos no quadro 8.

Quadro 8 – Produção selecionada na base ANPED Sul (continua)

Grupo

de Trabalho

Autores Título Local Ano

1 GT 03 BEATRICI, Rodrigo Ferronato (descritor: educação do campo e movimentos sociais)

Educação do campo: uma discussão com base nos conceitos de cultura e experiência

Universidade de Passo Fundo /RS

(26)

(conclusão)

Grupo

de Trabalho

Autores Título Local Ano

2 GT 03 MENDES Débora Mate; REIS, Marlo dos

(descritor: educação do campo e movimentos sociais) Educação em Movimentos Sociais: uma experiência da Juventude da Agricultura Familiar UNIJUÍ/RS 2010 3 GT 03 MARTINS, Suely Aparecida (descritor: educação do campo e movimentos sociais) Movimentos Sociais e Educação do Campo: a experiência dos jovens do MST no Paraná UNIOESTE - Campus de Francisco Beltrão/PR 2010 4 GT 03 XAVIER, Caldas; NAWROSKI, Alcione; JANATA, Natacha Eugenia; ANHAIA, Edson Marcos de (descritor: educação do campo e movimentos sociais) Um retrato do seminário de pesquisa em educação do campo em Santa Catarina UFSC/SC 2010 5 GT 03 RODRIGUES, Deneusa Luzia; TAMANINI, Elizabete (descritor: juventude rural e movimentos sociais)

Educação não formal e Movimentos Sociais - Práticas Educativas nos Espaços não Escolares

UNIVILLE 2012

Fonte: Elaboração da autora, 2014.

Ao final de toda essa busca, ainda que pareça termos encontrado um grande número de artigos, selecionamos os que mais se aproximam do universo de pesquisa delimitado em nosso roteiro de pesquisa de campo, porém nenhum trata exatamente do recorte apresentado aqui nesta dissertação, ou seja, o enfoque sobre jovens rurais com idade entre 18 e 24 anos, e que trate de seus projetos de futuro articulando as relações entre educação, trabalho e gênero. Todavia, os artigos selecionados foram úteis para a análise e a compreensão dos diferentes aspectos que compõem o contexto sociocultural da juventude rural brasileira e permitiram-nos fazer alguns contrapontos com a juventude rural de São Ludgero.

1.1.5 Procedimentos para definição do sujeito, produção de dados e análise

Utilizamos para esta pesquisa a abordagem qualitativa, que, de acordo com Chizzotti (1998, p. 79), “parte do fundamento de que há uma relação dinâmica entre o mundo

(27)

real e o sujeito, uma interdependência viva entre o sujeito e o objeto, um vínculo indissociável entre o mundo objetivo e a subjetividade do sujeito”. Esta abordagem permite ao pesquisador perceber questões que são expressas por valores, atitudes, desejos, crenças, condição que só é possível quando se faz o contato direto com o campo de estudo e com as pessoas com quem vai desenvolver a pesquisa.

A base epistemológica é o materialismo histórico-dialético, por entendermos que o conhecimento é um processo em movimento, que nunca é definitivo, acabado, e compõe uma totalidade em que “qualquer objeto que o homem possa perceber ou criar é parte de um todo” (KONDER, 1981, p. 37). Assim, necessitamos da visão do conjunto, do todo, para analisarmos todas as partes que o compõem, pois a realidade é sempre mais complexa e rica do que conseguimos observar num primeiro momento.

Para a coleta de dados utilizamos entrevistas semiestruturadas, que foram gravadas e, em seguida, transcritas para serem analisadas a posteriori. Todos os jovens entrevistados assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e, segundo nosso objetivo de estudo, deveriam ter concluído o Ensino Médio entre os anos de 2009 a 2014, na Escola de Educação Básica São Ludgero, localizada no município de São Ludgero, sul de Santa Catarina. Nosso primeiro contato com a escola ocorreu ao final do ano letivo de 2014, quando a direção da escola forneceu-nos as listagens dos jovens. Verificamos que, no período referido, 128 jovens da área rural concluíram o Ensino Médio, conforme a tabela abaixo.

Numa primeira análise percebemos que o número de jovens residentes na área rural é bem inferior ao da urbana. Na tabela 1 apresentamos o número de jovens concluintes do Ensino Médio no período de 2009 a 2014.2

Tabela 1 - Número de jovens concluintes do Ensino Médio no período de 2009 a 2014

Ano Nº concluintes Urbano Rural

2009 87 73 14 2010 89 70 19 2011 104 86 18 2012 108 93 15 2013 152 117 35 2014 117 90 27 Total 657 529 128 100,00% 80,51% 19,49%

Fonte: Elaboração da autora, 2014.

(28)

Podemos observar que 19,49% dos jovens que concluíram o Ensino Médio no período são residentes em áreas rurais contra 80,51% de áreas urbanas. A escola considera do espaço rural aqueles estudantes residentes nas comunidades rurais, e urbanos os jovens residentes nos bairros e no Centro. Em termos percentuais, a população total do município em 2010 é dividida em 89,72% (urbana) e 10,28% (rural) (IBGE, 2010).

Com os 128 jovens listados, realizamos a identificação por sexo e obtivemos os resultados expressos na tabela 2 abaixo.

Tabela 2 - Número de jovens rurais concluintes do Ensino Médio no período de 2009 a 2014 por sexo

Ano de conclusão Mulheres Homens Total

2009 6 8 14 2010 13 6 19 2011 10 8 18 2012 5 10 15 2013 19 16 35 2014 12 15 27 Total 65 63 128

Fonte: Elaboração da autora, 2014.

O passo seguinte na construção do campo de pesquisa foi selecionar os jovens a serem entrevistados, partindo dos seguintes critérios de inclusão: 1) no momento da pesquisa deveriam estar na faixa de 18 a 24 anos; 2) serem residentes na área rural de São Ludgero; 3) trabalhar, no mínimo, meio período na propriedade rural; 4) serem solteiros(as). A partir desses critérios, definimos que deveria haver uma amostragem que representasse todos os anos de conclusão. Para organizarmos um campo de pesquisa factível a ser realizado no tempo previsto, partimos do conhecimento da pesquisadora e por indicação dos próprios jovens, tendo por base também quem se disporia a ser entrevistado(a). O grupo a ser entrevistado ficou composto, ao final, por 22 jovens, sendo 13 rapazes e 9 moças.

Passamos, na sequência, para as entrevistas, que foram realizadas individualmente nas residências dos jovens. Adotamos a entrevista semiestruturada, com um roteiro de questões. Como o roteiro não foi algo fechado, procuramos deixar espaços para outras reflexões que os jovens ainda pudessem fazer sobre a temática. A partir de contatos telefônicos e mídias sociais, agendamos as entrevistas.

(29)

contradições e o movimento, sempre levando em conta as articulações entre educação, trabalho e gênero, tanto no âmbito local quanto em suas relações mais abrangentes na sociedade contemporânea, para isso buscando um diálogo com os autores da área.

A seguir faremos uma contextualização da cidade de São Ludgero para, posteriormente, apresentarmos nossos sujeitos de pesquisa e a análise sobre as entrevistas produzidas.

(30)

2 A CIDADE DE SÃO LUDGERO

2.1 CONSIDERAÇÕES SOBRE AS FRONTEIRAS ENTRE O RURAL E O URBANO

As características de São Ludgero e região, que apresentaremos a seguir, fazem-nos refletir sobre o significado do rural e do urbano, e sobre a dificuldade de delimitação de claras fronteiras entre o que é urbano e o que é rural, já que nas relações existentes entre ambos apresentam-se tão próximas.

No Brasil, oficialmente, as definições do rural e urbano são dadas pelo IBGE e seguem a delimitação administrativa, em que o perímetro urbano é a linha que separa o urbano do rural e é definido por interesses políticos, econômicos e de tributação. Isso não significa que em algumas cidades não existam plantações ou criações dentro do que se denomina de urbano. Nessa perspectiva, as cidades não devem mais ser identificadas somente para designar as atividades industriais e as áreas rurais, a agricultura e atividades afins.

Sobre a organização do IBGE, Silva (1999, p. 57) explica:

Na situação urbana consideram-se as pessoas e os domicílios recenseados nas áreas urbanizadas ou não, correspondentes às cidades (sedes municipais), às vilas (sedes distritais) ou às áreas rurais isoladas. A situação rural abrange a população e os domicílios recenseados em toda a área situada fora desses limites, inclusive os aglomerados rurais de extensão urbana, os povoados e os núcleos.

Entre os autores há diferentes conceituações sobre o rural e o urbano. A delimitação entre o espaço rural e o urbano está presente em Abramovay (2000, p. 4) quando ele aponta três formas dominantes utilizadas para a delimitação do rural: a primeira é a delimitação administrativa, em que os municípios definem administrativamente; a segunda leva em consideração a população agrícola; e a terceira é a do patamar populacional.

Por outro lado, os estudos de Silva (1997, p. 1), em conjunto com outros pesquisadores da área da Economia, Sociologia, Antropologia, indicam uma nova maneira de caracterizar o rural:

[...] está cada vez mais difícil delimitar o que é rural e o que é urbano. Mas, isso que aparentemente poderia ser um tema relevante, não o é: a diferença entre o rural e o urbano é cada vez menos importante. Pode-se dizer que o rural hoje só pode ser entendido como um ‘continuum’ do urbano do ponto de vista espacial; e do ponto de vista da organização da atividade econômica, as cidades não podem ser mais identificadas apenas como a atividade industrial, nem os campos como a agricultura e pecuária.

(31)

Em parte podemos concordar com essa afirmação na medida em que observamos tendencialmente esse movimento em nossa pesquisa empírica, como afirma Silva (1997) sobre o rural como um continuum do urbano. Percebemos que a grande expansão das indústrias que vêm se instalando em áreas rurais do município propicia esse fluxo de pessoas entre o rural e o urbano. Nos últimos 10 anos São Ludgero mudou suas características, visto que o rural já não é ocupado apenas para produção agrícola, mas por uma diversidade de atividades não agrícolas que absorvem mão de obra da família rural.

Os espaços que outrora eram de produção agrícola estão sendo ocupados por atividade industrial dentro (ou ao lado) da própria propriedade rural ou ainda quando observamos, por exemplo, como alguns trabalhadores mesclam seus trabalhos na cidade e no campo, mesmo mantendo sua residência original no campo.

Para Vendramini (2007, p. 153, grifo do autor):

Ainda que mantidas algumas especificidades da vida no mundo rural, observamos que as fronteiras entre o rural e o urbano estão cada vez mais dissipadas, tendo em vista a penetração do capitalismo no campo e a transformação das relações sociais, a submissão direta ou indireta ao capital, a transformação do latifúndio em capital latifundiário, o avanço das agroindústrias e da integração dos pequenos produtores rurais, a produção para o mercado nacional e internacional, a utilização da terra como reserva de valor e, especialmente, a imposição do assalariamento na sua forma mais perversa de exploração: trabalho temporário, ‘diarista’, sem carteira assinada e sem direitos e garantias.

Nesse sentido, percebemos que em São Ludgero as indústrias estão buscando os espaços rurais para se instalar, facilitando o recrutamento de agricultores para trabalhar, mesmo não desenvolvendo atividades vinculadas com a agricultura. Constatamos também o vínculo integrativo de produtores rurais com agroindústrias de fora do município, sendo este produtor da matéria-prima, como, por exemplo, na produção do leite, que é enviado a indústrias de laticínios de outro município, ou de suínos direcionados para as agroindústrias.

Abramovay (2000) complementa essa compreensão ao indicar que há outra corrente de pesquisadores que trabalham na perspectiva de que, “embora em alguns aspectos torna-se difícil distinguir o que é urbano e o que é rural, não se pode dizer que as relações existentes possam destruir as particularidades de cada um, apontando para uma relação que integra os dois extremos – rural/urbano”.

E é nesse aspecto que pensamos ser necessário trabalhar de modo integrado com os elementos culturais e econômicos, buscando em suas especificidades o que os caracterizam como rurais ou urbanos. Parece-nos que permanecem existindo atividades tipicamente rurais, mesmo havendo membros que trabalhem apenas na cidade e voltem diariamente para “sua casa

(32)

na área rural”. Enquanto grupo social, a família ainda permanece vinculada ao campo e mesmo o integrante que trabalha na cidade exerce algumas atividades necessárias ao grupo e, no conjunto, todos se identificam com os valores e costumes ainda derivados da experiência rural. Um exemplo das diferenças culturais entre mundo rural e urbano que persiste em São Ludgero aparece, inclusive, nos critérios citados para seleção de emprego nas indústrias urbanas que visam, prioritariamente, a agricultores e filhos de agricultores. Os empresários argumentam sobre a confiança que têm neles, por possuírem habilidades como executar atividades que exigem maior esforço, assumir responsabilidades e respeitar normas da empresa. Esse mecanismo mobiliza a juventude rural da região e provoca mudanças de trabalho e profissão ao mesmo tempo em que, por pressões familiares e necessidades financeiras, os jovens mantêm a moradia rural, e a produção familiar continua voltada para o autoconsumo familiar.

Outras características ainda acompanham as famílias rurais de São Ludgero que as distinguem da população urbana, como é o caso das festas comunitárias, os encontros de novenas, as rezas e cultos, a forma de praticar os esportes ou mesmo terem a alimentação baseada em produtos por elas produzidos, sob o argumento da qualidade artesanal e/ou da economia que isso representa. Vamos pensar sobre isso a partir de uma apresentação dos dados sobre a região.

2.2 A REGIÃO DA AMUREL E A INSERÇÃO DE SÃO LUDGERO

Considerando a necessidade de situar o município de São Ludgero, apresentamos uma breve caracterização da região dos municípios que compõem a AMUREL.

A Associação de Municípios da Região de Laguna foi fundada em 14 de Agosto de 1970 com a finalidade de ampliar e fortalecer a capacidade administrativa, tecnológica e social dos municípios, e prestar assistência técnica, administrativa, planejamento local e regional. Sua sede está localizada na região sul do Estado de Santa Catarina na cidade de Tubarão e é composta por dezoito municípios (SÃO LUDGERO, 2015, p. 32).

(33)

Figura 1 - Localização do município de São Ludgero dentro da AMUREL

Fonte: AMUREL, 2015.

A AMUREL é composta por 18 municípios da região sul de Santa Catarina: Armazém, Braço do Norte, Capivari de Baixo, Grão Pará, Gravatal, Imaruí, Imbituba, Jaguaruna, Laguna, Pedras Grandes, Pescaria Brava, Rio Fortuna, Sangão, Santa Rosa de Lima, São Ludgero, São Martinho, Treze de Maio e Tubarão.

Entre os municípios que compõem a AMUREL, destacamos aqueles localizados na faixa litorânea com sua economia voltada ao turismo de praias, com cidades históricas como Laguna, além das vilas de pescadores e as belas paisagens, lagoas, observação de baleias francas em Imbituba. No município de Jaguaruna encontram-se 30 sambaquis e 55 sítios arqueológicos cadastrados pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). (SANTA CATARINA, 2015, p. 38).

(34)

pequeno porte, situados nas Encostas da Serra Geral com cidades fundadas por imigrantes italianos e alemães, poloneses e portugueses. São pequenas propriedades de agricultores familiares que trabalham com atividades agrícolas, e de pecuária, agroindústria e agroturismo. Nas indústrias, a economia regional atua no ramo de plásticos descartáveis, metal, mecânica, molduras, cerâmica.

O estado de Santa Catarina, a partir do ano de 2003, implantou a descentralização da gestão pública e instituiu as SDR; nesta divisão o município de São Ludgero é vinculado à 36ª SDR, com sede em Braço do Norte. Os municípios que compõem esta divisão são Armazém, Grão Pará, Rio Fortuna, Santa Rosa de Lima, São Ludgero e São Martinho (LAURINDO et al., 2014, p. 12).

Consideramos importante abordar a divisão administrativa devido à proximidade dos municípios com nosso campo de estudo. Estes municípios possuem características agrícolas, sendo que destacamos como principais atividades agropecuárias: a produção de milho, tabaco, suinocultura, bovinocultura de leite, agroindústrias e produção diversificada, com áreas menos expressivas, de feijão. Evidenciamos, ainda, o município de Santa Rosa de Lima, com produção orgânica e agroecológica, reconhecida como Capital da Agroecologia.

Na tabela 3 situamos São Ludgero em relação aos demais municípios da 36ª SDR de Braço do Norte em termos populacionais.

Tabela 3 - População urbana e rural – Total em 2010

Município População urbana % População rural %

Armazém 4.884 62,99 2.869 37,01

Braço do Norte 23.383 80,58 5.635 19,42

Grão Pará 3.019 48,51 3.204 51,49

Rio Fortuna 1.523 34,26 2.923 65,74

Santa Rosa de Lima 518 25,08 1.547 74,92

São Ludgero 9.863 89,72 1.130 10,28

São Martinho 1.231 38,36 1.978 61,64

Fonte: IBGE, 2010.

Conforme a tabela acima, observamos que, dos sete municípios, quatro têm o maior número de habitantes no campo; apenas Braço do Norte e São Ludgero têm maior número de habitantes na área urbana. Em relação aos demais municípios da 36ª SDR, São Ludgero é o que apresenta menor número de habitantes em área rural.

Para melhor situar São Ludgero quanto aos demais municípios, apresentamos o mapa dos municípios da 36ª SDR de Braço do Norte.

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Figura 2 – Mapa dos municípios da 36ª SDR de Braço do Norte

Fonte: Laurindo (2014, p. 12).

Situados em relação a São Ludgero e seu contexto regional, tanto no âmbito da AMUREL quanto de SRD, passamos a caracterizar o município especificamente.

2.3 CARACTERIZAÇÃO GEOGRÁFICA E POPULACIONAL DO MUNICÍPIO DE SÃO LUDGERO

O município de São Ludgero está localizado na região sul do estado de Santa Catarina, na microrregião de Tubarão, a 182 km da capital Florianópolis. O acesso é através da SC-108. Ocupa uma área territorial de 112 km², situando-se no vale do Rio Braço do Norte, com população equivalente a 0,18% da população do estado e apresenta uma densidade demográfica de 102,2 hab/km². Limita-se ao norte com o município de Braço do Norte e Orleans, ao sul com os municípios de Orleans e Pedras Grandes, ao leste com os municípios de Braço do Norte, Gravatal e Tubarão e ao oeste com o município de Orleans, conforme figura 3 a seguir.

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Figura 3 - Mapa de localização de São Ludgero e municípios limítrofes

Fonte: PLANO MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO, 2015.

De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), o Índice de Desenvolvimento Humano (IDHM) de São Ludgero era de 0,755, em 2010, o que situa esse município na faixa de Desenvolvimento Humano Alto (IDHM entre 0,700 e 0,799). A dimensão que mais contribui para o IDHM do município é a “Longevidade”, com índice de 0,834, seguida de “Renda”, com índice de 0,756, e de “Educação”, com índice de 0,683.

Podemos observar que o grupo de jovens pesquisado por nós (18 a 24 anos) abrange a faixa de maior representatividade na população e que na região há uma pequena diferença em relação ao número de homens nessa faixa etária, segundo indicações no gráfico 1 a seguir.

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Gráfico 1 - Pirâmide etária da população de São Ludgero por grupo de idade e sexo em 2010

Fonte: IBGE, 2010.

Durante vários anos a região teve sua principal economia sustentada pelas atividades agrícolas, mas a partir de 1963, com a instalação da cooperativa de eletricidade, a indústria começou a se desenvolver. As principais atividades agropecuárias e de renda do município são: a produção de ovos, com granjas que utilizam altas tecnologias (tendo recebido inclusive o título de maior produtor de ovos tipo consumo do estado); a bovinocultura de leite em integração com laticínios da região; a de suínos também com sistema de integração; a piscicultura de água doce; o reflorestamento e a horticultura (principalmente com pequenas propriedades e alta produção).

Com o desenvolvimento das indústrias, o município foi perdendo parcialmente suas características predominantemente rurais, que foram gradativamente substituídas por indústrias do ramo de plásticos de materiais descartáveis, comércio de confecções e madeireiras que passaram a atrair jovens para novos empregos.

A estrutura agrária, que ainda persiste, caracteriza-se por pequenas unidades fundiárias exploradas pela mão de obra familiar que se alterna entre o trabalho na agricultura e o trabalho assalariado nas indústrias urbanas. Tem ocorrido uma reorganização das atividades na agricultura com a família buscando rendas complementares em empregos urbanos, cabendo a primeira opção de busca de trabalho ao jovem, só depois seguida do pai e da mãe. A combinação destas jornadas de trabalho organiza-se de modo a que, na maioria das propriedades, uma pessoa da família exerça dupla jornada de trabalho: na propriedade rural e na cidade. No gráfico 2 apresentamos a população do município por área urbana e rural

(38)

correspondente aos anos de 1980 a 2010.

Gráfico 2 - População urbana e rural de São Ludgero de 1980 a 2010

Fonte: IBGE, 2010.

O município apresentou, entre 2000/2010, uma taxa média de crescimento anual de 2,50% em relação a 2000. De acordo com o IBGE (2010), a estrutura etária da população é composta por 32,8% de jovens (0 -19 anos); 59,3% de adultos (20-59 anos); e 7,9% de idosos (60 ou mais). Houve uma diminuição do percentual de população jovem em relação a 2000 e um aumento da população adulta e idosa em relação a este mesmo ano. A População Economicamente Ativa (PEA), pessoas empregadas acima de 15 anos aptas ao trabalho, passou de 53,2% em 2000 para 61,7% em 2010.3

Se analisarmos a população de homens e de mulheres no período de 1980 a 2010, fica evidente o crescimento da população urbana e, particularmente, o maior percentual de homens em relação ao de mulheres. No entanto, essa diferença de quase 5% de modo permanente na diferença entre homens e mulheres não é discriminada quanto à localização rural ou urbana. Na tabela 4, a seguir, observamos a população residente por área e sexo.

3 Não conseguimos obter os dados para homens e mulheres pelas categorias de rurais e urbanos ou da PEA por

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Tabela 4 - População residente por localização e sexo

Ano Sexo Área

Homens Mulheres Urbana Rural Total

1980 2.370 2.194 1.644 2.920 4.564

1991 3.097 2.910 2.970 3.037 6.007

2000 4.413 4.174 5.995 2.592 8.587

2010 5.625 5.368 9.863 1.130 10.993

Fonte: IBGE, 2010.

Nos últimos 20 anos fica evidente a grande evasão de pessoas da área rural para área urbana e muitos são os motivos apontados para esse movimento, como já abordamos na introdução. A própria área rural transformou-se totalmente: há 20 anos prevalecia a agricultura familiar, que produzia grandes quantidades, por exemplo, de mandioca, comercializada para os engenhos do município de Treze de Maio e que hoje não existe mais. Produtos como o polvilho, o melado, o queijo colonial, a nata, a coalhada sequer são produzidos ou se encontram para comprar, exceção feita ao açúcar mascavo (conhecido pelos moradores como açúcar grosso) que ainda pode ser encontrado na feira de produtos coloniais4, onde são comercializados pães caseiros, doces de frutas, verduras sem agrotóxicos, bolachas, cucas e flores.

2.4 CARACTERIZAÇÃO DE SÃO LUDGERO

Antes de narrarmos alguns aspectos culturais que consideramos necessários trazer para compreendermos a juventude rural no município de São Ludgero, cabe explicar o que entendemos por cultura. Definir cultura em poucas palavras não é tarefa simples, considerando a complexidade do conceito e sua polissemia. Nas palavras de Mattos (2012), “o termo cultura só começou a ser empregado a partir do século XVIII e era ligado às atividades agrícolas”. Depois passou a ser vinculado às artes e às atividades intelectuais e, com o surgimento da antropologia, de acordo com Laplantine (1998), “aquilo que os seres humanos têm em comum é sua capacidade para se diferenciar uns dos outros, para elaborar costumes, línguas, modos de conhecimento” passou a ser um dos significados de cultura. Ainda dentro do campo da Antropologia, Geertz (1989, p. 37) explica:

Tornar-se humano é tornar-se individual, e nós nos tornamos indivíduos sob a direção dos padrões culturais, sistemas de significação criados historicamente em termos dos

4 A feira de produtos coloniais de São Ludgero, criada no ano de 2006, é coordenada por mulheres rurais e

jovens e nela são comercializados produtos com identidade local, tornando-se um referencial para comercialização de produtos devido à forma coletiva da organização das mulheres.

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quais damos forma, ordem, objetivo e direção às nossas vidas. Os padrões culturais envolvidos não são gerais, mas específicos.

Dentro da concepção de cultura aqui trabalhada por nós, não há uma individualidade descolada da historicidade do sujeito e a entendemos dentro de uma totalidade decorrente de múltiplas relações. O ser humano constitui-se a partir das complexas relações sociais em que está inserido, em uma individualidade resultante de um processo coletivo a partir de sua atuação na sociedade. Marx e Engels, em “A Ideologia Alemã”, afirmam que “todas as condições e funções humanas, independente de como e quando se apresentem, exercem influência sobre a produção material, agindo sobre ela de maneira mais ou menos determinante” (MARX; ENGELS, 2007, p. 86).

Nesse sentido, a produção material da vida não está descolada da cultura que se apresenta como um emaranhado de experiências, situadas em seu contexto e compartilhadas socialmente, em relações que incluem conflitos decorrentes dos diferentes níveis das relações de poder que permeiam a sociedade, produzindo significados e sentidos sobre essa mesma materialidade simultaneamente construída enquanto se pensa nela.

Por isso, o significado de cultura aqui trabalhado envolve “um conjunto de aspectos relativos à produção e reprodução da vida, em todas as suas dimensões econômicas, políticas, artísticas, religiosas e a consciência social resultante desse amplo processo, que é simultâneo e contraditório” (CRUZ, 2014, p. 24). Assim, cultura e economia aparecerão dialeticamente articuladas como: organização da vida que envolve o sentir e o pensar sobre essa própria vida, sendo esse pensar em níveis distintos de racionalidade, quer seja próximo do senso comum fragmentado ou em ideologias e sistemas de pensamento organizados, como conhecimento e ciência. Além disso, a cultura implica também em relações de poder e conflito, em que os sujeitos expressam seus interesses e se agrupam em torno destes interesses, constituindo-se como classes em movimento.

Thompson (2009) preocupa-se com o “agir humano trabalhando na perspectiva da inter-relação entre o ser social e consciência social, mediadas pela experiência”. Para o autor (2009, p. 15), “a experiência surge espontaneamente no ser social, mas não surge sem pensamento. Surge porque homens e mulheres são racionais, e refletem sobre o que acontece a eles e ao mundo”. Importante ressaltar que, para Thompson, essa racionalidade não está separada dos sentimentos vividos nas experiências:

As pessoas não experimentam sua própria experiência apenas como ideias, no âmbito do pensamento e de seus procedimentos [...] Elas também experimentam sua experiência como sentimento e lidam com esse sentimento na cultura, como normas,

Referências

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