INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
MARCIELI ELOISA MÜLLER
INTENCIONALIDADE: A POSSIBILIDADE DE UM MODELO PRAGMÁTICO
CAMPINAS 2015
Ficha catalográfica
Universidade Estadual de Campinas
Biblioteca do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas Cecília Maria Jorge Nicolau - CRB 8/3387
Müller, Marcieli Eloisa,
M914i M_UIntencionalidade : a possibilidade de um modelo pragmático / Marcieli Eloisa Müller. – Campinas, SP : [s.n.], 2015.
M_UOrientador: Marco Antonio Caron Ruffino.
M_UDissertação (mestrado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.
M_U1. Intencionalidade (Filosofia). 2. Linguagem. 3. Corpo e mente. 4. Pragmática. I. Ruffino, Marco,1963-. II. Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. III. Título.
Informações para Biblioteca Digital
Título em outro idioma: Intentionality : an pragmatical approach Palavras-chave em inglês:
Intentionality (Philosophy) Language
Mind and body Pragmatic
Área de concentração: Filosofia Titulação: Mestra em Filosofia Banca examinadora:
Marco Antonio Caron Ruffino [Orientador] Ludovic Soutif
Emiliano Boccardi
Data de defesa: 28-08-2015
Programa de Pós-Graduação: Filosofia
À Universidade Estadual de Campinas, e ao Programa de PósGraduação em Filosofia, pela assistência e oportunidade.
À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, pelo financiamento dessa pesquisa. Ao professor Marco Ruffino, pela orientação e confiança. Aos meus pais, pela simplicidade e exemplo. Ao grupo do “chá das cinco”, pela amizade. Ao Thiago, pela disposição em me acompanhar nas infindáveis aventuras, da filosofia e da vida.
que a levavam toda vez que atravessavam o rio.”
Esta dissertação tem como principal objetivo analisar o papel que a noção de intencionalidade desempenha no contexto da obra de Wittgenstein, tendo como fio condutor o problema da compreensão do conteúdo proposicional. De maneira geral, Wittgenstein argumenta contra a tese de que a compreensão de uma proposição seja redutível a um processo mental, no sentido de algo que se passa “dentro da cabeça” de alguém. A respeito desta questão, a tese defendida por Wittgenstein consiste em afirmar que nós operamos com proposições, e que estas são compreendidas na medida em que demonstramos habilidade em operálas, isto é, sabemos como utilizálas de acordo com certas regras. O ponto consiste em investigar em que medida essa aplicação de regras num contexto de uma pragmática exibiria ou pressuporia uma espécie de comportamento intencional, em detrimento de orientações “internalistas” (no sentido de um processo psicológico privado). Nesse sentido, nossa principal orientação consiste em analisar se a idéia de “operar com proposições”, como um meio para compreender seu conteúdo, os oferece bons subsídios para uma abordagem pragmática da intencionalidade, de acordo com a qual o que é visado por meio de um estado intencional não é, primariamente, um objeto ou sua representação, mas uma operação, no sentido de uma função (jogo) a ser cumprida num determinado contexto sociolinguístico.
The main aim of this project is to analyze the role that the notion of intentionality plays in the context of Wittgenstein's work, considering the problem of propositional content understanding. In general terms, Wittgenstein argues against the claim that the understanding of a proposition would be reduced to a mental process, in the sense of something in "someone's head". About this question, Wittgenstein's claim is that we do handle with propositions, and these are understood as much as we show ourselves skillful to operate them, that is, we know how use them according certain rules. The point is to inquiry in what extent this rules application in a pragmatical context would show or presuppose a kind of intentional behavior, despite of "internalists" approaches (in the sense of a private psychological process). Our main question is about if the idea of "handle of propositions", as a way to understand its content, give us a good deal to hold up a pragmatical approach to intentionality, according to which what is sight by a intentional state is not, primarily, a object or its representation, but a operation, in the sense of a function (game) to be fulfilled in a specific sóciolinguistic context.
Introdução ...…..10 Capítulo 1 O modelo clássico de Intencionalidade ...17 1. 1. Brentano: Critérios de demarcação para o domínio dos fenômenos mentais...17 1. 2. Críticas à tese de Brentano sobre a natureza dos fenômenos mentais...…...21 Capítulo 2 Uma leitura pragmática da Intencionalidade...26 2. 1. Sobre conceitos psicológicos – The Voices of Wittgenstein...27 2. 2. Intencionalidade nas Investigações Filosóficas...31 Capítulo 3 Críticas ao modelo pragmático de Intencionalidade...36 3. 1. Intencionalidade nas Investigações Filosóficas...37 Capítulo 4 Hacker sobre Intencionalidade, Gramática e Pragmática...44 Conclusão...54 Bibliografia...63
Introdução
Ordinariamente, fazemos uso de palavras, signos, expressões linguísticas para comunicar algo que visamos ou temos em mente. O universo de expressões das quais podemos lançar mão para comunicar nossos pensamentos contempla variados tipos e formas. Assim, a sentença1 “o gato está no telhado” exemplifica um tipo de expressão que pode ser
facilmente compreendida, uma vez que faz parte de uma família de expressões que se referem a coisas ou eventos relativos ao domínio natural. Bem formulada do ponto de vista do vernáculo em que é asserida, basta que tenhamos condições de saber se o que a expressão se refere é ou não o caso, ou seja, se há algum objeto ou evento no mundo que corresponda ao que é expresso. Havendo alguma dificuldade em saber o que a sentença expressa, podese recorrer a ostensão ou a um conjunto de descrições a fim de determinar univocamente sua referência. Também costumamos fazer uso de expressões do tipo “3 é menor do que 4”. De maneira similar, esse tipo de expressão pode ser facilmente compreendido por qualquer falante que esteja habituado ou tenha familiaridade com matemática, ainda que o domínio referido pela expressão não necessariamente seja o de um fato ordinário ou de um objeto da natureza ou cultura. Há, ademais, outro tipo ou família de expressões que pode ser exemplificado pela frase: “sala pessoas na cinco há”. Neste caso, a compreensão da sentença como expressando uma ideia ou pensamento é dificultada, senão ausente, pois a sentença mesma parece carecer de uma unidade de sentido. A razão para tal é que estamos diante de uma sentença malformada, isto é, que não segue as regras de composição da gramática do vernáculo, pois sua formulação é dissonante à sintaxe ou padrões normativos prescritos.2 1 Neste primeiro momento, estamos usando “sentença”, “palavra” e “signo” em um sentido não técnico, intuitivo. Assim, uma expressão linguística pode ser lida como uma sentença, frase ou proposição. 2
Boa parte do desenvolvimento inicial da filosofia “analítica” da linguagem no início do século XX foi orientada por análises críticas seja de um ponto de vista sintático seja de um ponto de vista “categorial”. O exemplo clássico do primeiro caso é a crítica de Carnap a Heidegger, apresentada em The Elimination of Metaphysics Through Logical Analysis of Language. Neste artigo, Carnap avalia que sentenças como “o nada nadifica” e “o mundo munda” são exemplos de uso deturpado da linguagem, por conta da atribuição de caráter de verbo ao que é substantivo. Já como exemplo para o segundo caso, da análise categorial, a referência é a
Por outro lado, expressões como “o amor é azulzinho” ou “amor é fogo que arde sem se ver” podem ser consideradas como exemplos de mau uso da linguagem, por incorrerem numa espécie de “engano categorial”, ou seja, de tomar uma classe de indivíduos ou entes de domínio distintos como pertencente a um mesmo conjunto de propriedades ou atributos similares3. Diferentemente do exemplo anterior, neste caso, podemos observar a
conformidade com a gramática do vernáculo, ainda que não consigamos, ao menos não tão facilmente, entender o que se pretende expressar por meio de tais sentenças. Para esta categoria de expressões, costumase conceder a chamada “licença poética”, uma vez que há a possibilidade de que o sentido seja livremente interpretado por cada um que leia/ouça expressões desta categoria. Poderseia dizer que, no caso da poesia, não há um sentido específico que se pretende veicular. Pelo contrário, poderíamos pensar que a intenção do poeta é a de que cada sujeito aprecie e/ou reinterprete aquilo que lê/ouve da maneira que mais lhe convir. Por fim, consideremos outro tipo de expressões que carregam consigo uma boa dose de ambiguidade. Por exemplo, a sentença “hoje é sábado”, apesar de ser bem formada em relação ao vernáculo e de fácil compreensão no tocante ao seu sentido, é indeterminada no que diz respeito ao que se refere, visto que seu conteúdo está estritamente relacionado ao contexto de enunciação (ao que o termo “hoje” representa). O caso pode ser resolvido apelandose ao contexto de enunciação: basta consultar o fuso horário local e um calendário para saber o dia em que se está, de tal modo que se possa constatar que a aparente ambiguidade carregada pela sentença se desfaz. Assim, a ambiguidade de sentenças que envolvem termos indexicais, do tipo “hoje”, “aqui”, “agora”, pode ser resolvida ao recorrermos ao seu contexto de enunciação (Cf. Kaplan, 1989).
E se, entretanto, nas mesmas condições da expressão, o contexto ainda é ambíguo,
crítica apresentada por Ryle a Descartes, em The Concept of Mind. Este erro consiste em representar fatos em uma categoria lógica que pertencem à outra. Para ilustrar o problema, o autor lança mão de vários exemplos, dentre os quais, um relativo à noção de Universidade. Neste exemplo, a confusão categorial ocorre quando
acreditamos que Universidade faça parte da mesma categoria que bibliotecas, museus, escritórios, salas de
aula... De fato, tratase do modo como estes se organizam, caracterizando uma categoria lógica distinta. Desse
modo, podese pensar que a descrição de atividade mental como “não mecânico” e “não espacial” também tratase de um caso similar de erro categorial.
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Aqui, temos a ideia que não faz sentido dizer certas coisas (atributos) de um determinado ente, pois este não pertence ao domínio para o qual aquelas propriedades ou atributos seriam naturalmente mais apropriados.
como podemos chegar à compreensão do que está sendo expresso? Suponhamos que, ao caminhar por um campo com várias árvores frutíferas encontramos um colega que está vestindo uma camisa branca com mangas de cor laranja, segurando uma sacola cheia de mangas, no caso, frutas em tom alaranjado. Então, alguém ao meu lado observa: “olhe! as mangas dele parecem laranja!”.
Parece natural que qualquer interlocutor terá dificuldades, num primeiro momento, para entender a que o outro está se referindo. Ainda que a sentença expressa esteja bem formulada no vernáculo e o domínio de objetos possíveis representados pela sentença encontre referência no contexto (uma vez que há dois objetos que corretamente preenchem os requisitos ser manga e ser laranja), parece carecer de algo para a determinação do sentido, havendo ambiguidade não só na sentença, mas também no contexto.
Sendo assim, a forma mais natural de resolver o caso é perguntando ao interlocutor o que ele quer dizer, o que ele tem em mente, a que ele se refere quando faz uso de tal expressão. Sua resposta muito provavelmente será: “'tenho em mente isso ou aquilo...”, “quero dizer a manga da camisa, não a fruta”. Sua resposta revela o que ele quer dizer, sua intenção de significação, a que ele se refere ou tem em mente quando profere determinada expressão. Nesses casos, em que não há compreensão imediata do sentido de uma sentença, ao utilizarmos uma expressão linguística, tal como “quero dizer que...” ou “tenho em mente que...” é revelado de modo mais genuíno um componente intencional implícito do “ato de fala”4, pois a intenção de significação expressa pelo falante nada mais é do que um visar algo de alguma maneira, um direcionarse para algo. Esse direcionarse para algo foi reconhecido na tradição filosófica moderna como uma característica distintiva da mente humana, ou seja, de possuir intencionalidade. Assim sendo, se entendermos a intencionalidade como característica exclusiva dos fenômenos mentais, como representação de objetos visados, seria natural entender que a compreensão do significado se afigura como um processo mental, por meio do qual formaríamos uma “imagem” do objeto representado. Nesta perspectiva, dizer que a pintura
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Não se trata ainda do termo técnico, tal como definido por Searle ou Austin, mas pura e simplesmente o ato da enunciação linguística do ponto de vista de sua intenção de expressão.
representa a pessoa x significa que a conexão entre a pintura e a pessoa por ela representada é criada na mente de alguém que “vê” a imagem e então lhe confere um significado.
Tendo isso em vista, o objetivo central dessa dissertação é analisar o papel que as intenções do falante desempenham para a compreensão do significado linguístico. Visto que recorrer às intenções do falante parece algo natural em contextos onde a linguagem é usada de forma ambígua, nossa análise será restrita ao âmbito ou domínio de uso da linguagem ordinária, entendido com um contexto pragmático.
Do ponto de vista de uma teoria do significado, restringirnosemos, portanto, a uma abordagem de cunho pragmático, que considera o significado linguístico como algo instituído sócio culturalmente, fundamentado no modo como a linguagem é usada por uma comunidade de falantes. De forma geral, um “pragmatista” em termos linguísticos defende que os significados linguísticos são socialmente instituídos, portanto, são contextuais, e sua compreensão repousa na habilidade do falante em operálos num contexto linguístico específico.
Essa orientação nos é de particular interesse, pois nos proporciona entender (hipostasiar) o fenômeno da intencionalidade para além do domínio mental, no sentido tradicional de um estado psicológico privado. Assim, o ponto consiste em investigar em que medida a noção “operacional” (pragmática) de significado geraria uma abordagem “pragmática” da intencionalidade, de acordo com o qual o que é visado por meio um estado intencional não é, primariamente, um objeto ou sua representação, mas uma operação, no sentido de uma função a ser cumprida num determinado contexto sociolinguístico. Tal abordagem é representada, de acordo com a interpretação que apresentaremos neste trabalho, pela teoria dos jogos de linguagem de Wittgenstein. Em termos de estrutura, nossa análise será desenvolvida em quatro partes: No primeiro capítulo, faremos uma apresentação de uma abordagem clássica a respeito do conceito de intencionalidade, a saber: a tese de Brentano sobre a identidade entre estados mentais e estados intencionais, que consiste em afirmar que todos estados mentais, e somente os estados mentais, são intencionais, de tal modo que estaria vetada a possibilidade de haver estados mentais não intencionais, assim como a de haver estados intencionais não mentais.
Brentano define estados mentais como intencionais pela referência a objetos, característica essa que pode ainda ser chamada de referência a um conteúdo ou
direcionamento para um objeto (que não necessariamente é um objeto existente no mundo
natural, ou seja, pode ser acerca de um ente ideal). Nesse sentido, diz Brentano, para o caso de uma representação, há algo representado, no juízo, algo é afirmado ou negado. O ponto é que sempre há algo a que os estados mentais estão direcionados, algo de que são sobre e é isso que os caracteriza como intencionais.
Na sequência, apresentaremos um desenvolvimento crítico da proposta de Brentano, a saber, a teoria de Searle. Nosso interesse em Searle se resume à sua crítica ao conceito de intencionalidade de Brentano. Para fins de esclarecimento, consideremos a tese de Brentano em duas partes: “todos estados mentais são intencionais” e “apenas estados mentais são intencionais”. Disso depreendese que não é o caso que um estado mental seja não intencional e que não é o caso que um estado não intencional seja mental. A crítica de Searle repousa sobre a primeira parte da tese, pois segundo ele há estados mentais cujo objeto não está determinado, violando o critério de direcionalidade, distintivo dos estados intencionais. O caráter distintivo a respeito das investigações de Searle reside no fato de que ele defende que o fenômeno da significação linguística remete explicitamente à estrutura da intencionalidade, seja por atos de significação ou atos de fala. Assim, considerando que o ato de visar intencionalmente um objeto consiste numa espécie de direcionamento, tornase pertinente a questão sob quais condições um estado intencional referese a algo e de que modo nós “captamos” o conteúdo intencional visado. No primeiro caso, tratase de uma questão acerca da designação dos estados intencionais, cuja resposta envolve uma teoria sobre a designação linguística, e, no segundo, acerca das condições de satisfação da compreensão do objeto intencional visado, cuja solução envolve uma teoria epistemológica a respeito dos atos de conhecimento e funcionamento da mente.
No segundo capítulo, interpretaremos a teoria dos jogos de linguagem de Wittgenstein como um caso da concepção pragmática, contextualista de significado. Nesse contexto, nosso interesse é duplo: primeiro, saber como Wittgenstein entende a significação linguística, especificamente numa perspectiva pragmática, e, em relação a isso, qual o significado do ato intencional dada sua concepção acerca da significação linguística.
Considerando a primeira questão, sobre como Wittgenstein entende a significação linguística, podese pensar na explicação proveniente de dois modelos: um baseado na ideia de representação e outro na noção de uso em um dado contexto. O primeiro modelo é apresentado no Tractatus por meio da noção de Figuração e tem por princípio a ideia de que representamos um estado de coisas no mundo por meio de uma proposição, uma vez que esta compartilha com a realidade uma mesma estrutura lógica, a assim chamada relação interna
afiguradora (Cf. Wittgenstein, 2001, p. 167 §4.014). Nessa perspectiva, a proposição é
formada de acordo com certas regras de composição da linguagem e adquire significado na medida em que corresponde a um estado de coisas no mundo. Sendo assim, podese pensar que a compreensão do conteúdo proposicional está atrelada às regras lógico/sintáticas de formação da linguagem e às condições de determinação de verdade ou falsidade (idem, p. 169 §4.021; 4.024). O segundo modelo, que tem por base a noção de uso, consiste na tese de que operamos com proposições, e que seu significado é compreendido na medida em que demonstramos habilidade para utilizálas de acordo com certas regras.
Considerando a segunda questão interpretativa a respeito das ideias de Wittgenstein, o ponto consiste em determinar o significado do ato intencional, dada sua concepção acerca da significação linguística. Aparentemente, a compreensão inicial consistiria em afirmar que o que é visado por meio de um estado intencional não é, primariamente, um objeto ou sua representação, mas uma operação, no sentido de uma função a ser cumprida num determinado contexto sociolinguístico, tal que o papel desempenhado por cada componente linguístico seja determinado pelas regras dessa estrutura intencional, caracterizada pela habilidade em “jogar o jogo” em questão. Disso decorre a ideia de que os signos linguísticos adquirem significado no contexto em que os aplicamos, de acordo com o papel que desempenham nesse contexto, diferentemente de uma posição que sustenta que os significados são instituídos psicologicamente (a la Brentano), mas também diferentemente do modelo da Figuração a la Tractatus (Cf. Wittgenstein, 1999, p. 114).
No terceiro capítulo, examinaremos a crítica ao pragmatismo de Wittgenstein, apresentada por Crane. A crítica de Crane consiste em negar que a abordagem gramatical de Wittgenstein seja suficiente para explicar como se dá a relação entre, por exemplo, a
expectativa e sua satisfação e entre a ordem e seu cumprimento.5 A contribuição de Crane
consiste em uma tentativa de eliminar concepções como a de Wittgenstein, entendido como um “externalista” (no sentido da determinação do conteúdo dos estados mentais), ao mesmo tempo em que apresenta uma defesa do representacionalismo clássico, inspirado em Brentano, que por sua vez tem sido classificado como uma abordagem de cunho “internalista”. Considerando este cenário que opõe internalismo e externalismo, temos por um lado uma leitura de Wittgenstein, que critica o internalismo semântico6, ao mesmo tempo em que é
objeto de críticas de um autor que defende uma espécie de internalismo.
No quarto capítulo, apresentaremos a crítica de Hacker a Crane, especificamente no que tange à defesa que Hacker faz da leitura de Wittgenstein relativo ao tema da intencionalidade. O ponto da crítica de Hacker é mostrar que a interpretação de Crane é parcial, não tocando nos pontos centrais da proposta de Wittgenstein relativo a intencionalidade, discutida em termos da relação entre pensamento e realidade. Basicamente, colocaremos, lado a lado, ambas as interpretações, a fim de avaliar o alcance da crítica de Hacker.
Por fim, na conclusão, avaliaremos os argumentos discutidos nos capítulos anteriores, sumarizados basicamente em dois pontos: (i) considerando as consequências do abandono da proposta pragmática de significação (no sentido de Wittgenstein), seria o caso de recorrer ao representacionalismo? (ii) haveria a possibilidade de preservar o papel das intenções do falante no tocante à significação sem cair num representacionalismo (clássico) nem relegar à determinação do significado tão somente ao contexto relativizado a uma comunidade linguística?
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Esta ideia de solução gramatical oferecida por Wittgenstein é defendida por autores como Peter Hacker no contexto de uma discussão acerca do conceito de intencionalidade.
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Um possível desdobramento da orientação de tipo internalista consiste na hipótese de uma “linguagem privada”, ou seja, uma linguagem cujo acesso está restrito ao seu possuidor (cf. Kripke, 1982). De tal hipótese seguese, igualmente, que a determinação do conteúdo mental, e, por conseguinte proposicional (da “intenção de significação”), seria “interna” à mente. De fato, Wittgenstein não nega que existam estados mentais aos quais aplicamos nossos conceitos, tal como o de intenção, no entanto, não são tais estados que determinam o conteúdo proposicional, isto é, não é necessário que existam para que os conceitos tenham sentido e possam ser aplicados (cf. Wittgenstein, 2003, p. 413ss).
Capítulo 1
O modelo clássico de Intencionalidade
Em Psychology from an Empirical Standpoint, Franz Brentano tem por objetivo fundamentar uma ciência que explique de maneira satisfatória a classe de fenômenos que não encontrava lugar no contexto de outra ciência já estabelecida, a Fisiologia, a qual se dedicava ao estudo dos fenômenos de natureza físico/biológica. Os fenômenos que não encontravam explicação na perspectiva da Fisiologia, Brentano convencionou chamar “fenômenos mentais”, e a ciência que permite melhor explicálos é a Psicologia.Para fundamentar essa nova ciência, fazse necessário delimitar seu campo de atuação, bem como caracterizar adequadamente seu objeto de estudo. Dado que o campo de atuação é o domínio relativo ao que se denomina de “mental”, Brentano recorre à tradição, que remete aos escolásticos, para estabelecer o que é característico do domínio mental, afirmando que o caráter distintivo do que é mental reside em estar sempre voltado a ou direcionada a. Tal caráter da mente de estar voltado ou direcionado é denominado por meio da noção escolástica de intentio, ou, inexistência intencional do objeto.7 Para dar conta do propósito geral de sua investigação, de apresentar um critério de demarcação entre o domínio dos fenômenos físicos e dos mentais, Brentano toma como tarefa preliminar oferecer uma caracterização, mesmo que primeiramente negativa, das notas que compõem o conceito de fenômeno mental. É essa análise e delimitação conceitual elaborada por Brentano que passamos a descrever na seção a seguir.
1. 1. Brentano: Critérios de demarcação para o domínio dos fenômenos mentais
Brentano analisa diretamente três características que tradicionalmente são
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A tradição que os escolásticos resgataram remonta aos termos árabes: 'ma'qul' de Al Farabi e 'ma'na' de Avicena e ao termo grego 'noema', de Aristóteles. 'Noema': “aquilo que está 'diante da' mente enquanto pensa; aquilo que a mente visa”. Crane, por exemplo, trata 'intentio', 'noema', ma'qul' e 'ma'na' como termos sinônimos.
atribuídas como distintivas dos fenômenos mentais, quais sejam: (i) a definição dos fenômenos mentais como não extensos;
(ii) como fruto da percepção interna, percebidos apenas pela consciência;
(iii) como fenômenos que ocorrem sequencialmente, em contraposição aos fenômenos físicos, que ocorrem simultaneamente.
Relativo ao critério (i), sobre a extensionalidade dos fenômenos mentais, Brentano argumenta que considerálos como não extensos, em contraposição aos fenômenos físicos, não é o suficiente para uma caracterização positiva da mente, especialmente se considerada a possibilidade de fenômenos físicos não extensos, como por exemplo, sons e cheiros. De maneira similar, argumenta Brentano, poderíamos conceber a existência de fenômenos mentais dotados de extensionalidade, tal como, por exemplo, quando nos referimos a um pensamento ou ideia que tínhamos num determinado contexto, eventualmente indicado por uma foto ou figura (Brentano, 1995, p. 65ss).
Tal caracterização dos fenômenos mentais encontra representantes na tradição filosófica, tais como Kant e Descartes, que oferecem primeiramente uma caracterização negativa da mente, como algo não extenso, não espacialmente localizado. No caso de Kant, essa visão claramente decorre de sua concepção de natureza espacial, do sentido externo da percepção (intuição), e para Descartes, simplesmente pela concepção de que os entes naturais (res) pertencem ao domínio da extensa, ou seja, do espaço entendido em sentido absoluto (não condicionado à subjetividade do sujeito). Por outro lado, numa acepção idealista extrema (por exemplo, Berkeley), poder seia conjecturar que nenhum fenômeno da percepção externa é extenso, ou ainda, que nos parecem extensos com base em nossas representações mentais anteriores, ou seja, todo objeto só pode ser concebido via uma ideia do mesmo, a qual não pertence ao domínio da extensão espacial, se entendido em sentido absoluto. Para Brentano, esse tipo de caracterização não é suficiente pelo fato de não oferecer uma demarcação precisa, uma vez que se pode tanto conceber fenômenos físicos não extensos, como conceber fenômenos mentais extensos, exemplificada pela ideia de “membro fantasma”.
caracterizar o domínio dos fenômenos mentais frente aos físicos, por meio da distinção entre percepção interna e externa. Brentano considera satisfatório caracterizar os fenômenos mentais em termos de sua percepção pela consciência interna, porém, argumenta ser enganoso falar em termos da percepção externa. Para Brentano, apenas a percepção interna é percepção em sentido estrito, pois esta possui como características marcantes ser imediata e infalivelmente autoevidente. Uma vez que o conceito de percepção interna em uso nesse contexto pressupõe como nota característica a noção de falibilidade, tornase fácil notar a razão pela qual Brentano desengana a percepção externa como fonte legítima para caracterização de uma forma de percepção (Brentano, 1995, p. 70).
Relativo ao critério (iii), a distinção entre fenômenos físicos e mentais teria por base a temporalidade, em termos de simultaneidade e sucessividade. A suposição de que os fenômenos físicos têm como característica a simultaneidade reside na analogia com as funções biológicas do corpo humano, tais como, digestão, respiração, circulação [...] que são percebidas em sincronia, todas ocorrendo ao mesmo tempo e interdependentemente. Nesse esquema de raciocínio, os fenômenos mentais seriam caracterizados como sucessivos, uma vez que as atividades do pensamento nos apareceriam sempre separadamente e uma após a outra. Para Brentano, a não correção deste critério pode ser atestada tanto pela existência de fenômenos físicos que ocorram sucessivamente, quanto pela existência de fenômenos mentais que ocorram simultaneamente. O argumento usado por Brentano para denegar o critério da simultaneidade pode ser assim exemplificado: pensemos em uma experiência ordinária, tal como o ato de andar. Tal ato envolve uma série de fenômenos mentais, não necessariamente percebidos pela consciência, e menos ainda, de forma sucessiva. Por exemplo, o simples ato de caminhar pela Avenida Paulista envolve uma série de atividades às quais estamos atentos: ouvimos o barulho do trânsito, o que nos permite acompanhálo para saber se há um veículo por perto e com base nisso, podemos modificar nossa trajetória; ouvimos música e eventualmente temos a lembrança de alguém; pensamos no compromisso ao qual devemos comparecer dali a poucos minutos e para o qual estamos atrasados […]. Todos esses fenômenos são mentais e ocorrem de forma simultânea – não é necessário que tenhamos a percepção de cada um em particular em nossa consciência para que eles se deem (Brentano, 1995, p. 72ss).
Ao considerar tais critérios, Brentano conclui que a caracterização dos fenômenos mentais em termos dos conceitos de extensionalidade, percepção externa e simultaneidade, não é suficiente para a delimitação do objeto de estudo da Psicologia. Em contraposição aos critérios tradicionais, Brentano apresenta outras três notas para o conceito de fenômeno mental, a saber:
(i) os fenômenos mentais são aqueles realmente existentes;
(ii) todos os fenômenos mentais são representações ou baseados em representações; (iii) todos os fenômenos mentais são intencionais. A despeito de serem três as notas distintivas do conceito, Brentano atribui como característica marcante do mental a referência a um objeto, ou seja, a intencionalidade. Em suas palavras (idem, p. 68): “Todo fenômeno mental é caracterizado por aquilo que os escolásticos da Idade Média chamaram de inexistência intencional (ou mental) de um objeto, e que nós deveremos chamar, mesmo que de forma não totalmente clara (não ambígua), referência a um conteúdo, direção a um objeto (que não é para ser entendido aqui como significando uma coisa), ou objetividade imanente. Todo fenômeno mental inclui algo como objeto em si mesmo, embora eles não o fazem todos do mesmo modo. Na representação algo é representado, no juízo algo afirmado ou negado, no amor algo amado, no ódio algo odiado, no desejo algo desejado e assim por diante. Essa inexistência intencional é característica exclusiva do fenômeno mental. Nenhum fenômeno físico exibe algo similar. Nós podemos, portanto, definir os fenômenos mentais dizendo que eles são aqueles fenômenos que contêm um objeto intencionalmente neles mesmos”. Assim, a característica que define os fenômenos mentais, o objeto de estudo da Psicologia, ao mesmo tempo em que demarca seu campo de atuação frente à Fisiologia, é a intencionalidade. Tal caracterização deu origem ao que chamamos de a “tese de Brentano”, a qual pode ser descrita pelo seguinte lema: todos os estados mentais são intencionais e todos os estados intencionais são mentais. No decorrer desta dissertação, ora nos referiremos à tese em sua forma original, ora nos referiremos à sua primeira ou segunda parte. Por esta razão, optamos por desmembrála em duas afirmações: todos os estados mentais são intencionais e todos os estados intencionais são mentais. A tradição que teve origem com a tese de Brentano convencionou descrever a intencionalidade como uma relação sobre algo, um voltarse a, ou ainda, um direcionamento para algo. Essa relação é tal que não implica que ambos os termos sejam existentes, mas
apenas um dos relata. Que tipo de relação é essa, na qual não há a necessidade do objeto referido existir? A que se refere um estado intencional que é sobre “objetos não existentes”? O que são “objetos intencionais”? Se uma relação intencional pode fazer referência a objetos inexistentes, seria razoável cogitar que objetos intencionais possuem um status diferente dos objetos reais, tal como sugerido por Meinong? Essas são algumas das questões relativas à tese de Brentano, no entanto, em nosso trabalho não examinaremos em detalhe o desenvolvimento de tais questões. Na próxima seção, nossa exposição será direcionada às críticas apresentadas à tese de Brentano, especificamente, a elaborada por Searle, acrescida da apresentação de uma tentativa de defesa da referida tese desenvolvida por Tim Crane. É precisamente pela forma como tais críticas são construídas, por meio de contraexemplos apresentados ora à afirmação de que “todos os estados mentais são intencionais”, ora a “todos os estados intencionais são mentais”, que optamos pela apresentação da tese a partir de duas afirmações separadas, ainda que sejam interdependentes. 1. 2. Críticas à tese de Brentano sobre a natureza dos fenômenos mentais A tese de Brentano sobre a natureza dos estados mentais consiste na afirmação de que todos os estados mentais são intencionais e todos os estados intencionais são mentais. A partir dessa formulação geral, podese afirmar o seguinte:
(i) a intencionalidade é condição necessária e suficiente para definir o que é mente; (ii) não existem estados mentais que não sejam intencionais; (iii) não existem estados intencionais que não sejam mentais. As críticas à tese tem a forma de contraexemplos que questionam ora a correção da segunda, ora a da terceira dessas afirmações. No que se refere à afirmação todos estados mentais são intencionais, os críticos costumam questionála cogitando a possibilidade de existirem estados mentais não intencionais. Como exemplo paradigmático desse modelo de crítica, temos a afirmação de Searle em seu livro Intencionalidade, segundo a qual: “apenas alguns estados mentais, e não todos, têm Intencionalidade. Crenças, temores e esperanças são intencionais, mas há formas de nervosismo, exaltação e ansiedade
nãodirecionada que não o são. Uma chave para essa distinção é fornecida pelas restrições que envolvem o relato de tais estados. Se eu disser que tenho uma crença ou um desejo, fará sempre sentido perguntar: 'Em que, exatamente, você acredita?' ou: 'O que é que você deseja?', e não poderei responder, 'Ah, eu só tenho uma crença e um desejo sem acreditar em nada nem desejar coisa alguma'. Minhas crenças e meus desejos devem ser sempre referentes a alguma coisa. Mas meu nervosismo e minha ansiedade não direcionada não precisam ser referentes a alguma coisa, nesse sentido” (Searle, 2002, p. 2). O ponto em questão para Searle consiste em esclarecer quais estados mentais po dem ser considerados genuinamente intencionais. Searle denomina sua condição para estados intencionais de Critério de Direcionalidade. Tal critério prevê a capacidade do sujeito de res ponder a perguntas do seguinte formato: “a que se refere tal estado mental?”. Caso não seja possível responder a pergunta, não se pode afirmar que o estado mental em questão seja inten cional. É com base nesse critério que alguns estados mentais, especialmente certos tipos de emoções, tais como exaltação, depressão, ansiedade, nervosismo […] não seriam intencionais. Não atenderiam o critério de direcionalidade, pois o individuo não seria capaz de dizer sobre o que é sua ansiedade, ou nervosismo, não sendo possível determinar o objeto do estado men tal. A correção do contraexemplo de Searle poria a perder a necessária identidade en tre mente e intencionalidade e implicaria ou na revisão da tese de Brentano, por meio de uma alteração no conceito de intencionalidade a fim de contemplar a crítica, ou no melhor esclare cimento da tese, dissolvendo o problema. Se, por um lado, um crítico alinhado à concepção de Searle diria que a intencionalidade não é uma característica necessária para a caracterização do domínio do mental e que a melhor alternativa é a alteração do conceito de intencionalida de, por outro lado, defensores da tradição de Brentano, afirmariam que a crítica reside na má compreensão da tese e que a solução pode ser encontrada ao se deixar mais claro o que se en tende por “todo estado mental é intencional”. No que se refere à afirmação todos os estados intencionais são mentais, os críticos costumam questionála cogitando a possibilidade de existirem estados intencionais não mentais. Diferentemente das críticas apresentadas à outra afirmação da tese exemplificada acima, no presente caso, os exemplos são bastante controversos. Dentre eles, podemos citar o fenômeno da disposição de algumas plantas que se movem procurando a luz solar, como uma
forma primitiva de intencionalidade não mental.8
Os contraexemplos apresentados à afirmação de que todos os estados intencionais são mentais têm por objetivo a conclusão de que a intencionalidade não é suficiente para caracterizar o que é mental. Diante de tal objeção, há duas alternativas possíveis: ou alterar conceito de mente, a fim de contemplar a crítica, ou esclarecer de forma mais abrangente a tese de Brentano, dissolvendo o problema. Um exemplo de defensor da teoria de Brentano é Tim Crane. Sua posição consiste em afirmar que as críticas apresentadas à tese tem origem numa confusão histórico/exegética. Para afastar a necessidade de uma alteração nos conceitos de “mente” e “intencionalidade”, a alternativa encontrada por Crane consiste em esclarecer de forma mais abrangente o conteúdo da tese, com a intenção de dissolver os problemas levantados pelas críticas. Crane argumenta primeiramente contra a possibilidade da existência de estados mentais não intencionais, tal como exemplificado, pelas teorias de Searle (2002) e McGinn (1982). São objetos de sua análise os contraexemplos que indicam as categorias de sensações e emoções, apresentados como exemplos de estados mentais não intencionais. Com respeito às sensações, especificamente a de dor, o argumento oferecido pelos críticos consiste no seguinte: se estados intencionais são aqueles sobre alguma coisa, direcio nados a algo, então se pode demarcar a classe de estados intencionais a partir da seguinte per gunta – “sobre o que é x?” Dado um estado de dor, a resposta que se obtém é “sobre nada”, 8 Autores representativos desta posição são Dretske, Fred. Knowledge and the Flow of Information. Cambridge, MA: MIT Press, 1981; B. Enç. 'Intentional States of Mechanical Devices' Mind 91, 1982. Aparentemente, carecemos do ponto de vista científico, de uma metodologia suficientemente desenvolvida para afirmar que o movimento de uma planta em direção ao sol se dá não por uma questão físico/causal, mas por uma decisão deliberada, de caráter volitivo condição necessária para concluirmos que, por exemplo, o girassol por buscar a luz do sol possui alguma forma, ainda que rudimentar, de intencionalidade. Para ilustrar, pensemos no seguinte experimento de pensamento: ao observarmos um campo de girassóis, deveríamos observar que alguns se movem em direção ao sol, enquanto outros ficam parados ou, que o mesmo girassol, por vezes movimentase em direção ao sol, por vezes não, ao passo que outros girassóis giram em direção à luz. Para o comportamento de uma planta em busca da luz solar ser considerado intencional, deve ser contemplada a possibilidade de ela não fazêlo. Para que determinado desempenho não seja executada, para que tal evento não ocorra, ela deve estar contemplada no universo de possibilidades; para que x decida não fazer y, x deve ter a representação de y em seu universo de possibilidades. Para o girassol ter estados intencionais, deve poder escolher não girar em direção ao sol; para poder escolher não girar em direção ao sol, deve poder considerar a possibilidade de não fazêlo; tal possibilidade deve estar contida em um universo de possibilidades que lhe é representado. Sem o cumprimento de tais condições, não poderíamos afirmar seguramente a possibilidade de estados intencionais não mentais e, consequentemente, a tese de Brentano não estaria ameaçada.
visto que nem sempre se pode determinar o conteúdo ou referência de tal sensação. Logo, tal estado mental não possui direcionalidade (pelo critério de Searle), não podendo ser caracteri zado como intencional. Para este caso, Crane argumentará que uma relação intencional não é uma relação de caráter exclusivamente externo, podendo ser autorreferencial. Isso se funda menta na própria definição brentaniana do objeto intencional como inexistente, ou seja, como existente (internamente) no domínio mental. Não se trata, portanto, necessariamente de uma relação entre algo que está na mente do sujeito e um relata no mundo; pode ser o caso de que o relata do objeto intencional seja oriundo do próprio domínio mental, como uma ficção ou conceito fruto da imaginação. Em outros termos, os críticos afirmam que uma relação (no caso, intencional) aRb não existe porque um dos relata é indeterminado no tocante à sua natureza, ou não pode ser representado. O que Crane visa mostrar é que, da impossibilidade de se poder determinar a natureza de um dos relata, não se segue que a própria relação não exista ou não faça sentido (algo que poderia ser efetivado apenas por meio de um juízo a respeito da subsistência ou não da relação). Por exemplo, o fato de que não se perceba ou se atente para uma sensação, não se segue que esta não tenha um relata – tal como sermos acordados por uma forte dor causada por uma cãibra – a cãibra é o relata intencional da sensação de dor. Nesse sentido, não é necessário que se note a dor para que a mesma tenha referência. Outro exemplo se dá quando no contexto de uma luta, um lutador é lesionado, mas continua o combate, mesmo após fortes hematomas, somente notados ao fim do combate. Para o caso das emoções, especificamente no caso da ansiedade, o ponto é o mes mo: devese poder responder a pergunta a respeito de que se está ansioso. Neste caso, a crítica (de Searle, por exemplo) consiste em defender que, se não se pode descrever (expressar) o ob jeto da emoção, então a mesma não tem um objeto específico (não tem um relata intencional). A resposta de Crane a essa crítica é mais direta: do fato de que não possamos sempre estar em condições de oferecer uma descrição ou nos expressar a respeito do objeto de nossa ansieda de, não se segue que a mesma não tenha um relata intencional (exemplo: TPM feminina). O relata intencional, neste caso, nem precisa ser algo atual ou determinado, representável descri tivamente – pode ser um estado de crença a respeito de um evento futuro, uma expectativa a respeito de um fato.
Notase que os argumentos de Crane seguem a mesma estrutura, tanto para o caso das sensações, quanto para o das emoções. Se, por um lado, não é suficiente mostrar a possi bilidade de emoções terem causas que ignoramos para refutar a crítica de Searle, por outro lado, dizer que certos tipos de emoções não são estados intencionais porque não podemos di zer a respeito do que tratam também não é suficiente para corroborar a crítica de Searle e refu tar a tese de Brentano. No que segue, no próximo capítulo, apresentaremos uma abordagem gramatical a respeito de conceitos mentais ou psicológicos – tais como estados de crença. Tal abordagem, devida ao pensamento de Wittgenstein, está fundamentada numa concepção pragmática da linguagem, de acordo com a qual o significado dos conceitos ou termos linguísticos é instituí do por meio do modo como o mesmo é usado num determinado contexto linguístico. A orien tação filosóficometodológica que fundamenta a análise de Wittgenstein tem por fim dissolver certos problemas filosóficos que, de acordo com ele, são oriundos da não observância do uso adequado da gramática de acordo com a normativa instituída pelo seu contexto original de uso. Dentre os problemas que diretamente se referem ao tema deste trabalho, encontramse a relação entre mente, linguagem e mundo, a natureza do conteúdo dos estados mentais (estados de crença, etc.), e a fundamentação da ação (do querer).
Capítulo 2
Uma leitura pragmática da Intencionalidade
Neste capítulo, apresentaremos uma abordagem gramatical a respeito dos conceitos mentais ou psicológicos. Tal abordagem, devida ao pensamento de Wittgenstein, está fundamentada numa concepção pragmática da linguagem, de acordo com a qual a normatividade que confere significado aos conceitos ou termos linguísticos é instituída por meio do modo como os mesmos são usados num determinado contexto linguístico. A orientação filosóficometodológica que fundamenta a análise de Wittgenstein tem por fim dissolver certos problemas filosóficos que, para essa visão, são oriundos da não observância do uso adequado da gramática de acordo com a normativa instituída pelo seu contexto original de uso. Dentre os problemas que diretamente se referem ao tema deste trabalho, encontramse a relação entre mente, linguagem e mundo, a natureza do conteúdo dos estados mentais (estados de crença, etc.), e a fundamentação da ação (do querer). Iniciaremos o capítulo nos remetendo aos ditados de Wittgenstein a Waismann (Cf. Baker, 2003), nos quais Wittgenstein trata do tema da compreensão do conteúdo proposi cional e dos conceitos psicológicos, especificamente o de intencionalidade. Dois modelos se rão analisados nesse contexto: o da ostensividade e o dos processos psicológicos. O ponto para Wittgenstein é mostrar que ambos explicam a questão da compreensão tomando o signi ficado como fruto de uma relação extralinguística. Seu modelo proposto, em contrapartida, parte da tese de que a compreensão do significado é fruto de sua operação em conformidade com certas regras prescritas pelo contexto de uso. Essa solução está fundamentada na ideia de que o significado é oriundo de uma relação intralinguística – entre um signo ou nome linguís tico e o modo como é operado no próprio contexto de uso da linguagem. Em seguida, focaremos no que é o objeto central da discussão sobre o conceito de intencionalidade no pensamento de Wittgenstein, qual seja: os trechos §§428465 das Investi gações Filosóficas, contexto em que a discussão sobre a intencionalidade, no sentido de ter a intenção de, referese à análise gramatical do esperar e do desejar. Apresentaremos os princi pais trechos, seguidos de uma exegese dos mesmos. Nosso objetivo é caracterizar e elucidar
as teses que servirão de conteúdo base para a discussão a ser apresentada no quarto capítulo, o qual é dedicado ao confronto das interpretações de Hacker (2011) e Crane (2010/2013).
2. 1. Sobre conceitos psicológicos – The Voices of Wittgenstein
Apesar de não ser uma obra redigida propriamente por Wittgenstein, podendo ser vista até mesmo como “apócrifa”, é no The Voices of Wittgenstein que, salvo engano, a temática da intencionalidade e sua referência a Brentano aparecem de maneira particularmente explícita. Ademais, alguns comentadores referendam tal asserção, julgando o texto como relevante para o entendimento da posição de Wittgenstein a respeito dos conceitos psicológicos em geral, e o de intencionalidade em particular (Cf. Hacker, 2011, p. 2). A questão que importa a Wittgenstein no contexto de seus ditados a Waismann é a análise dos conceitos psicológicos no que tange ao que está envolvido na compreensão do significado do conteúdo proposicional. De uma perspectiva mais geral, podese interpretar que o questionamento de Wittgenstein a respeito dos conceitos psicológicos remete a um criticismo “gramatical” sobre o psicologismo na lógica, uma vez que conceitos como
significar algo, crer, julgar, compreender, inferir e supor poderiam ser vistos como
atividades mentais. Por suas objeções à pretensão explicativa dos conceitos psicológicos, Wittgenstein propõe que o essencial para tais conceitos são os usos, as operações, entendidos do ponto de vista do papel que eles desempenham em nosso universo linguístico, e não as experiências que temos ao usálos (ou seja, a forma que exibem na experiência, não o conteúdo desta). O objeto da crítica é a tese de que a relação de significação, e assim, o significado, seja de natureza extralinguística. Nesse sentido, sua análise visa mostrar que esse é o pressuposto adotado por ambos os modelos aos quais remete sua análise crítica, a saber: a definição ostensiva e a teoria que toma conceitos como compreensão no sentido de processos mentais.
A tese de Wittgenstein é que a relação de significação deve ser tratada exclusivamente no escopo da linguagem, sendo tão somente de caráter intralinguístico. Tendo como parâmetro de análise a questão acerca do que está envolvido na compreensão do significado, basicamente são investigadas três abordagens distintas, quais sejam:
(i) o modelo de compreensão por meio de definição ostensiva; (ii) o modelo da compreensão como um processo ou estado da consciência que ocorre “em mim” ao ouvir uma proposição; (iii) o modelo que representa a proposta de Wittgenstein, de que a compreensão é uma habilidade de usar os signos linguísticos de forma adequada ao contexto de uso. A tese de Wittgenstein é, portanto, de que:
“[…] understanding is not a particular psychological process that is there in addition, supplementary to the perception of a propositionalpicture. It is true that various processes are going on inside me when I hear or read a proposition. An intuitive image may surface, and various other images may be associated with it, which may in turn be imbued with certain subtle shades of emotion. But all these processes are not what really interest us here. We want to know in what consists what is called understanding the proposition. The answer we wish here to support runs: I understand a proposition by applying it. The point of a proposition is that we should operate with it. And we understand it if we have the ability to operate with it.” (Baker, 2003, p. 437). Quer dizer, a compreensão não se reduz a um processo que ocorre em nossa mente, no sentido de uma representação. Compreensão é uma habilidade que adquirimos e que nos torna capaz de “operar” com proposições de acordo com certas regras de uso.
Um modelo que também entra em questão para Wittgenstein nesse contexto é o da definição ostensiva, por ser uma forma de definir o significado de um signo como aquilo para
o que ele aponta. Obviamente, diz Wittgenstein, não é o próprio signo que aponta para algo,
mas o faz ao ser usado por um falante como um instrumento de designação. A definição ostensiva pressupõe que o significado remete à relação entre um signo (um nome) e o objeto expresso pelo signo/nome, caracterizandose como uma relação binária, nSo, entre um nome e um objeto nomeado. O que Wittgenstein vê como problemático no caso da definição ostensiva é que o significado de algo é estabelecido como uma relação extralinguística, tal como um “stepping outside language”: “One calls Venus the bearer of the name ‘Venus’ or of the name ‘The Morning Star’. For this case the rule holds: ‘The bearer of the name “N” is synonymous with “N” ’. It is important that in this rule the word ‘bearer’ is not to be replaced by the word ‘meaning’. Instead of saying ‘Mr N has gone away’ I can I suppose say ‘The bearer of name N has gone away’ but not ‘The meaning of the name N has gone away’. ‘The word N has no meaning’ does not mean ‘The bearer of the name N does not exist’, for the latter statement has sense only if the sign N has meaning”. (Baker, 2003, p. 461). O argumento acima poderia ser assim reconstruído: (i) assuma que o significado é
uma relação binária, entre um nome e um objeto (nSo); (ii) uma relação binária só tem sentido se ambos objetos da relação estiverem presentes (pois senão seria uma relação de outra ordem, unária, etc); (iii) suponha que o objeto referido pela relação tenha sido aniquilado ou não exista mais; (iv) por (ii), a relação extinguirseia; (v) por i, o significado também extinguirseia. Assim sendo, o significado não poderia ser confundido com o portador de um nome (referência), pois o portador pode deixar de existir, ao passo que o significado não.
Outro modelo a ser analisado por Wittgenstein é o da Psicologia, que apresenta a compreensão como representação. Este modelo concebe a compreensão como um estado mental, no sentido de um processo psicológico privado, um estado da consciência do sujeito. Dessa forma, a compreensão seria algo que acompanharia o conteúdo proposicional, tal como se este causasse uma representação mental daquilo que é expresso pela proposição. Neste contexto, o problema da compreensão como processo psicológico é analisado por Wittgenstein a partir de duas questões: (i) qual estrutura do processo psicológico, e, por conseguinte, da compreensão; e (ii) como tal estrutura se relaciona com o significado.
Para a questão (i), sobre qual a estrutura da compreensão como processo psicológico, o argumento de Wittgenstein tem por base a ideia de que processo pressupõe temporalidade, uma vez que o conceito de temporalidade é uma nota do conceito de processo. Se a estrutura da compreensão fosse a de um processo ou estado psicológico, teríamos de conceder que ocupa um intervalo de tempo. Tal ideia pode ser exemplificada pela pergunta: “Quando eu o compreendo? Já no som da primeira letra? Ou apenas depois da primeira sílaba? Ou apenas no fim da palavra completa?” (Cf. Baker, 2003, p. 439). Com relação a isso, segundo Wittgenstein, podese concluir que não faz sentido pensar a compreensão como “sem interrupção” ou “continuamente”, algo que deveria fazer sentido, uma vez que o conceito de processo pressupõe o de temporalidade.
Considerando a pergunta sobre a estrutura da compreensão, esta não pode ser a de um processo que corre em paralelo com a sequência das palavras que ouvimos, uma vez que a compreensão não é um processo que se estende ao longo do tempo. A posição de Wittgenstein sobre tal questão tem por base a ideia de que quando aprendemos a usar uma palavra, aprendemos as regras do seu uso e por meio de tais regras adquirimos um padrão que contempla as possibilidades do correto emprego da palavra, de acordo com o qual seu
significado se efetiva. Sendo assim, compreender o significado de uma palavra não tem a forma de um estado, mas de uma disposição, relativa a uma capacidade, qual seja, a de usar a palavra.
O segundo aspecto da tese de que compreensão seria um estado mental diz respeito diretamente ao tópico de nosso interesse, o conceito de intencionalidade. O interesse em recorrer à análise desse conceito por parte de Wittgenstein nesse contexto é clara, pois intencionalidade foi concebida por Brentano como a característica distintiva do que é mental (Cf. Baker, 2003, p. 443449). A ideia central em torno da noção de intencionalidade consiste em uma capacidade da mente de estar voltada a, direcionada a, no sentido de que para cada ato mental há um objeto pressuposto, e esta pressuposição se dá na forma de uma representação do objeto.
Neste aspecto, a primeira questão de Wittgenstein diz respeito a que tipo de relação subsiste entre a figura e o objeto representado, ou, sobre qual a natureza da relação de visar/intencionar algo. A postura contra a qual ele se posiciona é a de afirmar que não há conexão real entre a representação e o objeto representado, sendo a relação uma criação da mente, produto da consciência – a mente é que confere sentido à figura, correlacionando objetos a signos. Seria, assim, o mesmo caso da definição ostensiva, uma vez que se trata de uma relação binária, extralinguística, agora, porém, 'residente' na mente, 'dentro' da cabeça do sujeito (Baker, 2003, p. 443). Relativo à pergunta sobre “como se estrutura a relação entre signo e objeto?”, a resposta oferecida pelos representacionalistas visa sustentar que a mesma se dá por meio da vinculação da representação do objeto e o objeto representado, ao afirmarem que tal relação ocorre por meio de atos mentais, de intencionar, visar algo. No entanto, como se daria esse ato de apontar para além de si mesmo? Considerando ato como experiência, e esta como parte da realidade: como pode uma porção da realidade visar outra? Como pode um evento ser sombra do outro? É esse tipo de questionamento que importa a Wittgenstein nesse contexto.
O primeiro argumento de Wittgenstein pode ser mais bem explicitado pelo exemplo de escrever num papel o nome de alguém, no caso, de João: 'João'. Um representacionalista poderia afirmar que não é o signo, mas o pensamento que faz uso do signo que se conecta ao significado; tratase de um processo que se dá por detrás do signo, e
se for possível observar o processo, algo é visto nisso que não é visto nas marcas da grafia, isto é, a conexão com o objeto 'João'. Nesse sentido, podese perguntar se 'há conexão entre o nome (no ponto de vista das partículas físicas do papel em que é escrito) e a pessoa?' Não. Então entre a imagem visual (Gestalt) dos símbolos escritos e a pessoa? (representação pictórica). A primeira é uma relação tipotipo (físico material), a segunda uma relação de representação 'pictórica'/figurativa (tal como se dá, por exemplo, entre o signo '4' e o objeto, o número que ele representa). (Cf. Baker, 2003, p. 445).
A despeito das possibilidades aventadas pelos modelos acima, para Wittgenstein, a compreensão é uma habilidade de operar com proposições em um contexto de uso, de acordo com certas regras. Portanto, Wittgenstein interpreta a questão brentaniana da intencionalidade como a busca por uma “ponte” ou relação entre a realidade (mundo) e o pensamento. Para Wittgenstein, essa abordagem não é satisfatória para explicar, por exemplo, a significação, pois reduz este a uma relação extralinguística, tal como apontado acima. Um dos problemas que se pode entrever com tal crítica consiste no fato de que, como sugerido com a argumentação de Wittgenstein, relações extralinguísticas não seriam fortes o suficientes para estabelecer a significação, isto é, não poderiam ser vistas como relações de necessidade.9 Esse é o cerne do modelo pragmático contextualista, cujo desenvolvimento mais maduro é encontrado nas Investigações Filosóficas, que passamos a examinar na sequência. 2. 2. Intencionalidade nas Investigações Filosóficas 9 Infelizmente não há espaço para desenvolver esse aspecto da argumentação de Wittgenstein; como nota vale dizer que Wittgenstein faz uso de um conceito tradicional (kantiano) de necessidade, segundo o qual algo é necessário se analítico, isto é, trivial (no caso, linguisticamente trivial). Por outro lado, poderseia interpretar tal questão seguindo a ideia de que a aplicação adequada de uma palavra por meio de um objeto tornaria este uma espécie de modelo (cf. Investigações, §16) que caracterizaria a normativa subjacente ao contexto linguístico em uso. Vendo por esse lado, faria mais sentido falar em “relação interna” justamente porque se trata de uma questão intralinguística, isto é, de como a linguagem é operada por nós, do que propriamente a respeito do objeto referido.