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Intencionalidade : a possibilidade de um modelo pragmático

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Academic year: 2021

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INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

MARCIELI ELOISA MÜLLER

INTENCIONALIDADE: A POSSIBILIDADE DE UM MODELO PRAGMÁTICO

CAMPINAS 2015

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Ficha catalográfica

Universidade Estadual de Campinas

Biblioteca do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas Cecília Maria Jorge Nicolau - CRB 8/3387

Müller, Marcieli Eloisa,

M914i M_UIntencionalidade : a possibilidade de um modelo pragmático / Marcieli Eloisa Müller. – Campinas, SP : [s.n.], 2015.

M_UOrientador: Marco Antonio Caron Ruffino.

M_UDissertação (mestrado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.

M_U1. Intencionalidade (Filosofia). 2. Linguagem. 3. Corpo e mente. 4. Pragmática. I. Ruffino, Marco,1963-. II. Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. III. Título.

Informações para Biblioteca Digital

Título em outro idioma: Intentionality : an pragmatical approach Palavras-chave em inglês:

Intentionality (Philosophy) Language

Mind and body Pragmatic

Área de concentração: Filosofia Titulação: Mestra em Filosofia Banca examinadora:

Marco Antonio Caron Ruffino [Orientador] Ludovic Soutif

Emiliano Boccardi

Data de defesa: 28-08-2015

Programa de Pós-Graduação: Filosofia

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À Universidade Estadual de Campinas, e ao Programa de Pós­Graduação em Filosofia, pela assistência e oportunidade.

À  Fundação   de   Amparo   à   Pesquisa   do   Estado   de  São   Paulo,   pelo   financiamento   dessa pesquisa. Ao professor Marco Ruffino, pela orientação e confiança. Aos meus pais, pela simplicidade e exemplo. Ao grupo do “chá das cinco”, pela amizade. Ao Thiago, pela disposição em me acompanhar nas infindáveis aventuras, da filosofia e da vida. 

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que a levavam toda vez que atravessavam o rio.”

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Esta dissertação tem como principal objetivo analisar o papel que a noção de intencionalidade desempenha no contexto da obra de Wittgenstein, tendo como fio condutor o problema da compreensão do conteúdo proposicional. De maneira geral, Wittgenstein argumenta contra a tese de que a compreensão de uma proposição seja redutível a um processo mental, no sentido de   algo   que   se   passa   “dentro   da   cabeça”   de   alguém.   A   respeito   desta   questão,   a   tese defendida por Wittgenstein consiste em afirmar que nós operamos com proposições, e que estas são compreendidas na medida em que demonstramos habilidade em operá­las, isto é, sabemos como utilizá­las de acordo com certas regras. O ponto consiste em investigar em que medida essa aplicação de regras num contexto de uma pragmática exibiria ou pressuporia uma espécie   de   comportamento   intencional,   em   detrimento   de   orientações   “internalistas”   (no sentido   de   um   processo   psicológico   privado).   Nesse   sentido,   nossa   principal   orientação consiste   em   analisar   se   a   idéia   de   “operar   com   proposições”,   como   um   meio   para compreender seu conteúdo, os oferece bons subsídios para uma abordagem pragmática da intencionalidade, de acordo com a qual o que é visado por meio de um estado intencional não é, primariamente, um objeto ou sua representação, mas uma operação, no sentido de uma função (jogo) a ser cumprida num determinado contexto sociolinguístico.

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The main aim of this project is to analyze the role that the notion of intentionality plays in the context   of   Wittgenstein's   work,   considering   the   problem   of   propositional   content understanding. In general terms, Wittgenstein argues against the claim that the understanding of   a   proposition   would   be   reduced   to   a   mental   process,   in   the   sense   of   something   in "someone's   head".   About   this   question,   Wittgenstein's   claim   is   that   we   do   handle   with propositions, and these are understood as much as we show ourselves skillful to operate them, that is, we know how use them according certain rules. The point is to inquiry in what extent this rules application in a pragmatical context would show or presuppose a kind of intentional behavior,   despite   of   "internalists"   approaches   (in   the   sense   of   a   private   psychological process). Our main question is about if the idea of "handle of propositions", as a way to understand   its   content,   give   us   a   good   deal   to   hold   up   a   pragmatical   approach   to intentionality, according to which what is sight by a intentional state is not, primarily, a object or its representation, but a operation, in the sense of a function (game) to be fulfilled in a specific sócio­linguistic context.

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Introdução ...…..10 Capítulo 1 ­ O modelo clássico de Intencionalidade ...17 1. 1. Brentano: Critérios de demarcação para o domínio dos fenômenos mentais...17 1. 2. Críticas à tese de Brentano sobre a natureza dos fenômenos mentais...…...21 Capítulo 2 ­ Uma leitura pragmática da Intencionalidade...26 2. 1. Sobre conceitos psicológicos – The Voices of Wittgenstein...27 2. 2. Intencionalidade nas Investigações Filosóficas...31 Capítulo 3 ­ Críticas ao modelo pragmático de Intencionalidade...36 3. 1. Intencionalidade nas Investigações Filosóficas...37 Capítulo 4 ­ Hacker sobre Intencionalidade, Gramática e Pragmática...44 Conclusão...54 Bibliografia...63

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Introdução

Ordinariamente,  fazemos  uso de palavras, signos, expressões linguísticas para comunicar   algo   que   visamos   ou   temos   em   mente.   O   universo   de   expressões   das   quais podemos lançar mão para comunicar nossos pensamentos contempla variados tipos e formas. Assim, a sentença1 “o gato está no telhado” exemplifica um tipo de expressão que pode ser

facilmente compreendida, uma vez que faz parte de uma família de expressões que se referem a   coisas   ou   eventos   relativos   ao   domínio   natural.   Bem   formulada   do   ponto   de   vista   do vernáculo em que é asserida, basta que tenhamos condições de saber se o que a expressão se refere é ou não o caso, ou seja, se há algum objeto ou evento no mundo que corresponda ao que é expresso. Havendo alguma dificuldade em saber o que a sentença expressa, pode­se recorrer a ostensão ou a um conjunto de descrições a fim de determinar univocamente sua referência. Também costumamos fazer uso de expressões do tipo “3 é menor do que 4”. De maneira   similar,   esse   tipo   de   expressão   pode   ser   facilmente   compreendido   por   qualquer falante que esteja habituado ou tenha familiaridade com matemática, ainda que o domínio referido pela expressão não necessariamente seja o de um fato ordinário ou de um objeto da natureza ou cultura.  Há, ademais, outro tipo ou família de expressões que pode ser exemplificado pela frase: “sala pessoas na cinco há”. Neste caso, a compreensão da sentença como expressando uma ideia ou pensamento é dificultada, senão ausente, pois a sentença mesma parece carecer de   uma   unidade   de   sentido.   A   razão   para   tal   é   que   estamos   diante   de   uma   sentença malformada, isto é, que não segue as regras de composição da gramática do vernáculo, pois sua formulação é dissonante à sintaxe ou padrões normativos prescritos.2  1 Neste primeiro momento, estamos usando “sentença”, “palavra” e “signo” em um sentido não técnico, intuitivo. Assim, uma expressão linguística pode ser lida como uma sentença, frase ou proposição.  2

  Boa  parte  do desenvolvimento inicial  da  filosofia  “analítica”  da  linguagem  no  início  do século  XX foi orientada por análises críticas seja de um ponto de vista sintático seja de um ponto de vista “categorial”. O exemplo clássico do primeiro caso é a crítica de Carnap a Heidegger, apresentada em The Elimination of Metaphysics Through Logical Analysis of Language. Neste artigo, Carnap avalia que sentenças como “o nada nadifica” e “o mundo munda” são exemplos de uso deturpado da linguagem, por conta da atribuição de caráter de verbo ao que é substantivo. Já como exemplo para o segundo caso, da análise categorial, a referência é a

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Por outro lado, expressões como “o amor é azulzinho” ou “amor é fogo que arde sem   se   ver”   podem   ser   consideradas   como   exemplos   de  mau   uso  da   linguagem,   por incorrerem numa espécie de “engano categorial”, ou seja, de tomar uma classe de indivíduos ou entes de domínio distintos como pertencente a um mesmo conjunto de propriedades ou atributos similares3.  Diferentemente do exemplo anterior, neste caso, podemos observar a

conformidade com a gramática do vernáculo, ainda que não consigamos, ao menos não tão facilmente,   entender   o   que   se   pretende   expressar   por   meio   de   tais   sentenças.  Para   esta categoria de expressões, costuma­se conceder a chamada “licença poética”, uma vez que há a possibilidade   de   que   o   sentido   seja   livremente   interpretado   por   cada   um   que   leia/ouça expressões desta categoria. Poder­se­ia dizer que, no caso da poesia, não há um sentido específico que se pretende veicular. Pelo contrário, poderíamos pensar que a intenção do poeta é a de que cada sujeito aprecie e/ou reinterprete aquilo que lê/ouve da maneira que mais lhe convir. Por fim, consideremos outro tipo de expressões que carregam consigo uma boa dose de ambiguidade. Por exemplo, a sentença “hoje é sábado”, apesar de ser bem formada em relação ao vernáculo e de fácil compreensão no tocante ao seu sentido, é indeterminada no que diz respeito ao que  se refere, visto que seu conteúdo está estritamente relacionado ao contexto   de   enunciação   (ao   que   o   termo   “hoje”   representa).   O   caso   pode   ser   resolvido apelando­se ao contexto de enunciação: basta consultar o fuso horário local e um calendário para   saber   o   dia   em   que   se   está,   de   tal   modo   que   se   possa   constatar   que   a   aparente ambiguidade  carregada  pela  sentença  se desfaz.  Assim,  a  ambiguidade  de  sentenças  que envolvem   termos   indexicais,   do   tipo   “hoje”,   “aqui”,   “agora”,   pode   ser   resolvida   ao recorrermos ao seu contexto de enunciação (Cf. Kaplan, 1989). 

E se, entretanto, nas mesmas condições da expressão, o contexto ainda é ambíguo,

crítica apresentada por Ryle a Descartes, em The Concept of Mind. Este erro consiste em representar fatos em uma categoria lógica que pertencem à outra. Para ilustrar o problema, o autor lança mão de vários exemplos, dentre os quais, um relativo à noção de Universidade. Neste exemplo, a confusão categorial ocorre quando

acreditamos que Universidade faça parte da mesma categoria  que  bibliotecas, museus, escritórios, salas de

aula... De fato, trata­se do modo como estes se organizam, caracterizando uma categoria lógica distinta. Desse

modo, pode­se pensar que a descrição de atividade mental como “não mecânico”  e  “não espacial”  também trata­se de um caso similar de erro categorial. 

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 Aqui, temos a ideia que não faz sentido dizer certas coisas (atributos) de um determinado ente, pois este não pertence ao domínio para o qual aquelas propriedades ou atributos seriam naturalmente mais apropriados.

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como podemos chegar à compreensão do que está sendo expresso? Suponhamos que, ao caminhar   por   um   campo   com   várias   árvores   frutíferas   encontramos   um   colega   que   está vestindo uma camisa branca com mangas de cor laranja, segurando uma sacola cheia de mangas, no caso,  frutas  em tom alaranjado. Então, alguém ao meu lado observa: “olhe! as mangas dele parecem laranja!”. 

Parece   natural   que   qualquer   interlocutor   terá   dificuldades,   num   primeiro momento, para entender a que o outro está se referindo. Ainda que a sentença expressa esteja bem formulada no vernáculo e o domínio de objetos possíveis representados pela sentença encontre referência no contexto (uma vez que há dois objetos que corretamente preenchem os requisitos ser manga e ser laranja), parece carecer de algo para a determinação do sentido, havendo ambiguidade não só na sentença, mas também no contexto. 

Sendo   assim,   a   forma   mais   natural   de   resolver   o   caso   é   perguntando   ao interlocutor o que ele quer dizer, o que ele tem em mente, a que ele se refere quando faz uso de tal expressão. Sua resposta muito provavelmente será: “'tenho em mente isso ou aquilo...”, “quero dizer a manga da camisa, não a fruta”. Sua resposta revela o que ele quer dizer, sua intenção de significação, a que ele se refere ou tem em mente quando profere determinada expressão.  Nesses casos, em que não há compreensão imediata do sentido de uma sentença, ao utilizarmos uma expressão linguística, tal como “quero dizer que...” ou “tenho em mente que...”  é revelado de modo mais genuíno um componente intencional implícito do “ato de fala”4, pois a intenção de significação expressa pelo falante nada mais é do que um visar algo de alguma maneira, um direcionar­se para algo. Esse direcionar­se para algo foi reconhecido na tradição filosófica moderna como uma característica distintiva da mente humana, ou seja, de possuir intencionalidade. Assim sendo, se entendermos a intencionalidade como característica exclusiva dos fenômenos mentais, como representação de objetos visados, seria natural entender que a compreensão   do   significado   se   afigura   como   um   processo   mental,   por   meio   do   qual formaríamos uma “imagem” do objeto representado. Nesta perspectiva, dizer que a pintura

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 Não se trata ainda do termo técnico, tal como definido por Searle ou Austin, mas pura e simplesmente o ato da enunciação linguística do ponto de vista de sua intenção de expressão.

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representa a pessoa x significa que a conexão entre a pintura e a pessoa por ela representada é criada na mente de alguém que “vê” a imagem e então lhe confere um significado. 

Tendo isso em vista, o objetivo central dessa dissertação é analisar o papel que as intenções do falante desempenham para a compreensão do significado linguístico. Visto que recorrer às intenções do falante parece algo natural em contextos onde a linguagem é usada de forma   ambígua,   nossa   análise   será   restrita   ao   âmbito   ou   domínio   de   uso   da   linguagem ordinária, entendido com um contexto pragmático. 

Do ponto de vista de uma teoria do significado, restringir­nos­emos, portanto, a uma abordagem de cunho  pragmático, que considera o significado linguístico como algo instituído sócio culturalmente, fundamentado no modo como a linguagem é  usada  por uma comunidade de falantes. De forma geral, um “pragmatista” em termos linguísticos defende que os significados linguísticos são socialmente instituídos, portanto, são contextuais, e sua compreensão   repousa   na   habilidade   do   falante   em   operá­los   num   contexto   linguístico específico. 

Essa   orientação   nos   é   de   particular   interesse,   pois   nos   proporciona   entender (hipostasiar)   o   fenômeno   da   intencionalidade   para   além   do   domínio   mental,   no   sentido tradicional de um estado psicológico privado. Assim, o ponto consiste em investigar em que medida   a   noção   “operacional”   (pragmática)   de   significado   geraria   uma   abordagem “pragmática” da intencionalidade, de acordo com o qual o que é visado por meio um estado intencional não é, primariamente, um objeto ou sua representação, mas uma operação, no sentido   de   uma   função   a   ser   cumprida   num   determinado   contexto   sociolinguístico.   Tal abordagem é representada, de acordo com a interpretação que apresentaremos neste trabalho, pela teoria dos jogos de linguagem de Wittgenstein. Em termos de estrutura, nossa análise será desenvolvida em quatro partes: No primeiro capítulo, faremos uma apresentação de uma abordagem clássica a respeito do conceito de intencionalidade, a saber: a tese de Brentano sobre a identidade entre estados mentais e estados intencionais, que consiste em afirmar que todos estados mentais, e somente os estados mentais, são intencionais, de tal modo que estaria vetada a possibilidade de haver estados mentais não intencionais, assim como a de haver estados intencionais não mentais. 

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Brentano   define   estados   mentais   como   intencionais   pela   referência   a   objetos, característica   essa   que   pode   ainda   ser   chamada   de  referência   a   um   conteúdo   ou

direcionamento para um objeto  (que não necessariamente é um objeto existente no mundo

natural, ou seja, pode ser acerca de um ente ideal). Nesse sentido, diz Brentano, para o caso de uma representação, há algo representado, no juízo, algo é afirmado ou negado. O ponto é que sempre há algo a que os estados mentais estão direcionados, algo de que são sobre e é isso que os caracteriza como intencionais.

Na   sequência,   apresentaremos   um   desenvolvimento   crítico   da   proposta   de Brentano, a saber, a teoria de Searle. Nosso interesse em Searle se resume à sua crítica ao conceito de intencionalidade de Brentano. Para fins de esclarecimento, consideremos a tese de Brentano em duas partes: “todos estados mentais são intencionais” e “apenas estados mentais são intencionais”.  Disso depreende­se que não é  o caso que um estado  mental seja  não intencional e que não é o caso que um estado não intencional seja mental. A crítica de Searle repousa sobre a primeira parte da tese, pois segundo ele há estados mentais cujo objeto não está determinado, violando o critério de direcionalidade, distintivo dos estados intencionais.  O caráter distintivo a respeito das investigações de Searle reside no fato de que ele defende que o fenômeno da significação linguística remete explicitamente à estrutura da intencionalidade, seja por atos de significação ou atos de fala. Assim, considerando que o ato de   visar   intencionalmente   um   objeto   consiste   numa   espécie   de   direcionamento,   torna­se pertinente a questão sob quais condições um estado intencional refere­se a algo e de que modo nós “captamos” o conteúdo intencional visado. No primeiro caso, trata­se de uma questão acerca da designação dos estados intencionais, cuja resposta envolve uma teoria sobre a designação linguística, e, no segundo, acerca das condições de satisfação da compreensão do objeto intencional visado, cuja solução envolve uma teoria epistemológica a respeito dos atos de conhecimento e funcionamento da mente. 

No   segundo   capítulo,   interpretaremos   a   teoria   dos   jogos   de   linguagem   de Wittgenstein como um caso da concepção pragmática, contextualista de significado. Nesse contexto, nosso interesse é duplo: primeiro, saber como Wittgenstein entende a significação linguística,   especificamente   numa   perspectiva   pragmática,   e,   em   relação   a   isso,   qual   o significado do ato intencional dada sua concepção acerca da significação linguística. 

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Considerando a primeira questão, sobre como Wittgenstein entende a significação linguística, pode­se pensar na explicação proveniente de dois modelos: um baseado na ideia de  representação   e  outro  na  noção   de  uso  em  um   dado  contexto.  O  primeiro  modelo   é apresentado no Tractatus por meio da noção de Figuração e tem por princípio a ideia de que representamos um estado de coisas no mundo por meio de uma proposição, uma vez que esta compartilha com a realidade uma mesma estrutura lógica, a assim chamada relação interna

afiguradora  (Cf.   Wittgenstein,   2001,   p.   167   §4.014).   Nessa   perspectiva,   a   proposição   é

formada de acordo com certas regras de composição da linguagem e adquire significado na medida em que corresponde a um estado de coisas no mundo. Sendo assim, pode­se pensar que a compreensão do conteúdo proposicional está atrelada às regras lógico/sintáticas de formação da linguagem e às condições de determinação de verdade ou falsidade (idem, p. 169 §4.021; 4.024). O segundo modelo, que tem por base a noção de uso, consiste na tese de que operamos   com   proposições,   e   que   seu   significado   é   compreendido   na   medida   em   que demonstramos habilidade para utilizá­las de acordo com certas regras. 

Considerando   a   segunda   questão   interpretativa   a   respeito   das   ideias   de Wittgenstein,  o ponto consiste  em determinar o significado do ato  intencional,  dada sua concepção   acerca   da   significação   linguística.   Aparentemente,   a   compreensão   inicial consistiria   em   afirmar   que   o   que   é   visado   por   meio   de   um   estado   intencional   não   é, primariamente, um objeto ou sua representação, mas uma operação, no sentido de uma função a ser cumprida num determinado contexto sociolinguístico, tal que o papel desempenhado por cada   componente   linguístico   seja   determinado   pelas   regras   dessa   estrutura   intencional, caracterizada pela habilidade em “jogar o jogo” em questão. Disso decorre a ideia de que os signos linguísticos adquirem significado no contexto em que os aplicamos, de acordo com o papel que desempenham nesse contexto, diferentemente de uma posição que sustenta que os significados são instituídos psicologicamente (a la Brentano), mas também diferentemente do modelo da Figuração a la Tractatus (Cf. Wittgenstein, 1999, p. 114).

No terceiro capítulo, examinaremos a crítica ao  pragmatismo  de Wittgenstein, apresentada por Crane. A crítica de Crane consiste em negar que a abordagem gramatical de Wittgenstein   seja   suficiente   para   explicar   como   se   dá   a   relação   entre,   por   exemplo,   a

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expectativa e sua satisfação e entre a ordem e seu cumprimento.5  A contribuição de Crane

consiste em uma tentativa de eliminar concepções como a de Wittgenstein, entendido como um “externalista” (no sentido da determinação do conteúdo dos estados mentais), ao mesmo tempo em que apresenta uma defesa do representacionalismo clássico, inspirado em Brentano, que   por   sua   vez   tem   sido   classificado   como   uma   abordagem   de   cunho   “internalista”. Considerando este cenário que opõe internalismo e externalismo, temos por um lado uma leitura de Wittgenstein, que critica o internalismo semântico6, ao mesmo tempo em que é

objeto de críticas de um autor que defende uma espécie de internalismo. 

No quarto capítulo, apresentaremos a crítica de Hacker a Crane, especificamente no   que   tange   à   defesa   que   Hacker   faz   da   leitura   de   Wittgenstein   relativo   ao   tema   da intencionalidade. O ponto da crítica de Hacker é mostrar que a interpretação de Crane é parcial,   não   tocando   nos   pontos   centrais   da   proposta   de   Wittgenstein   relativo   a intencionalidade, discutida em termos da relação entre pensamento e realidade. Basicamente, colocaremos, lado a lado, ambas as interpretações, a fim de avaliar o alcance da crítica de Hacker.

Por   fim,   na   conclusão,   avaliaremos   os   argumentos   discutidos   nos   capítulos anteriores, sumarizados basicamente em dois pontos: (i) considerando as consequências do abandono da proposta pragmática de significação (no sentido de Wittgenstein), seria o caso de recorrer   ao   representacionalismo?   (ii)   haveria   a   possibilidade   de   preservar   o   papel   das intenções do falante no tocante à significação sem cair num representacionalismo (clássico) nem   relegar   à   determinação   do   significado   tão   somente   ao   contexto   relativizado   a   uma comunidade linguística?

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 Esta ideia de solução gramatical oferecida por Wittgenstein é defendida por autores como Peter Hacker no contexto de uma discussão acerca do conceito de intencionalidade.

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  Um   possível   desdobramento   da   orientação   de   tipo   internalista   consiste   na   hipótese   de   uma   “linguagem privada”, ou seja, uma linguagem cujo acesso está restrito ao seu possuidor (cf. Kripke, 1982). De tal hipótese segue­se, igualmente, que a determinação do conteúdo mental, e, por conseguinte proposicional (da “intenção de significação”), seria “interna” à mente. De fato, Wittgenstein não nega que existam estados mentais aos quais aplicamos nossos conceitos, tal como o de intenção, no entanto, não são tais estados que determinam o conteúdo proposicional, isto é, não é necessário que existam para que os conceitos tenham sentido e possam ser aplicados (cf. Wittgenstein, 2003, p. 413ss).

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Capítulo 1

O modelo clássico de Intencionalidade

Em Psychology from an Empirical Standpoint, Franz Brentano tem por objetivo fundamentar uma ciência que explique de maneira satisfatória a classe de fenômenos que não encontrava lugar no contexto de outra ciência já estabelecida, a Fisiologia, a qual se dedicava ao estudo dos fenômenos de natureza físico/biológica. Os fenômenos que não encontravam explicação   na   perspectiva   da   Fisiologia,   Brentano   convencionou   chamar   “fenômenos mentais”, e a ciência que permite melhor explicá­los é a Psicologia. 

Para fundamentar essa nova ciência, faz­se necessário delimitar seu campo de atuação, bem como caracterizar adequadamente seu objeto de estudo. Dado que o campo de atuação é o domínio relativo ao que se denomina de “mental”, Brentano recorre à tradição, que   remete   aos   escolásticos,   para   estabelecer   o   que   é   característico   do   domínio   mental, afirmando que o caráter distintivo do que é mental reside em estar sempre  voltado a  ou direcionada a. Tal caráter da mente de estar voltado ou direcionado é denominado por meio da noção escolástica de intentio, ou, inexistência intencional do objeto.7 Para dar conta do propósito geral de sua investigação, de apresentar um critério de demarcação entre o domínio dos fenômenos físicos e dos mentais, Brentano toma como tarefa preliminar oferecer uma caracterização, mesmo que primeiramente negativa, das notas que compõem o conceito de fenômeno mental. É essa análise e delimitação conceitual elaborada por Brentano que passamos a descrever na seção a seguir.

1.   1.   Brentano:   Critérios   de  demarcação   para   o   domínio   dos   fenômenos mentais

Brentano   analisa   diretamente   três   características   que   tradicionalmente   são

7

  A  tradição que os escolásticos resgataram remonta aos termos árabes: 'ma'qul' de Al Farabi e 'ma'na' de Avicena e ao termo grego 'noema', de Aristóteles. 'Noema': “aquilo que está 'diante da' mente enquanto pensa; aquilo que a mente visa”. Crane, por exemplo, trata 'intentio', 'noema', ma'qul' e 'ma'na' como termos sinônimos.

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atribuídas como distintivas dos fenômenos mentais, quais sejam:  (i) a definição dos fenômenos mentais como não extensos;

(ii) como fruto da percepção interna, percebidos apenas pela consciência;

(iii)   como   fenômenos   que   ocorrem  sequencialmente,   em   contraposição   aos fenômenos físicos, que ocorrem simultaneamente.

Relativo ao critério (i), sobre a extensionalidade dos fenômenos mentais, Brentano argumenta que considerá­los como  não extensos, em contraposição aos fenômenos físicos, não é o suficiente para uma caracterização positiva da mente, especialmente se considerada a possibilidade de fenômenos físicos  não extensos, como por exemplo, sons e cheiros. De maneira   similar,   argumenta   Brentano,   poderíamos   conceber   a   existência   de   fenômenos mentais dotados de extensionalidade, tal como, por exemplo, quando nos referimos a um pensamento ou ideia que tínhamos num determinado contexto, eventualmente indicado por uma foto ou figura (Brentano, 1995, p. 65ss).

Tal caracterização dos fenômenos mentais encontra representantes na tradição filosófica,   tais   como   Kant   e   Descartes,   que   oferecem   primeiramente   uma   caracterização negativa da mente, como algo não extenso, não espacialmente localizado. No caso de Kant, essa visão claramente decorre de sua concepção de natureza espacial, do sentido externo da percepção (intuição), e para Descartes, simplesmente pela concepção de que os entes naturais (res) pertencem ao domínio da extensa, ou seja, do espaço entendido em sentido absoluto (não condicionado à subjetividade do sujeito).  Por outro lado, numa acepção idealista extrema (por exemplo, Berkeley), poder­ se­ia conjecturar que nenhum fenômeno da percepção externa é extenso, ou ainda, que nos parecem extensos com base em nossas representações mentais anteriores, ou seja, todo objeto só pode ser concebido via uma ideia do mesmo, a qual não pertence ao domínio da extensão espacial, se entendido em sentido absoluto. Para Brentano, esse tipo de caracterização não é suficiente pelo fato de não oferecer uma demarcação precisa, uma vez que se pode tanto conceber   fenômenos   físicos  não   extensos,   como   conceber   fenômenos   mentais   extensos, exemplificada pela ideia de “membro fantasma”. 

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caracterizar o domínio dos fenômenos mentais frente aos físicos, por meio da distinção entre percepção   interna   e   externa.   Brentano   considera   satisfatório   caracterizar   os   fenômenos mentais em termos de sua percepção pela consciência interna, porém, argumenta ser enganoso falar em termos da percepção externa. Para Brentano, apenas a percepção interna é percepção em   sentido   estrito,   pois   esta   possui   como   características   marcantes   ser  imediata  e infalivelmente  autoevidente. Uma vez que o conceito de percepção interna em uso nesse contexto pressupõe como nota característica a noção de  falibilidade, torna­se fácil notar a razão   pela   qual   Brentano   desengana   a   percepção   externa   como   fonte   legítima   para caracterização de uma forma de percepção (Brentano, 1995, p. 70).

Relativo ao critério (iii), a distinção entre fenômenos físicos e mentais teria por base a temporalidade, em termos de simultaneidade e sucessividade. A suposição de que os fenômenos   físicos   têm   como   característica   a   simultaneidade   reside   na   analogia   com   as funções biológicas do corpo humano, tais como, digestão, respiração, circulação [...] que são percebidas em sincronia, todas ocorrendo ao mesmo tempo e interdependentemente. Nesse esquema de raciocínio, os fenômenos mentais seriam caracterizados como sucessivos, uma vez que as atividades do pensamento nos apareceriam sempre separadamente e uma após a outra. Para Brentano, a não correção deste critério pode ser atestada tanto pela existência de fenômenos físicos que ocorram sucessivamente, quanto pela existência de fenômenos mentais que ocorram simultaneamente.  O argumento usado por Brentano para denegar o critério da simultaneidade pode ser assim exemplificado: pensemos em uma experiência ordinária, tal como o ato de andar. Tal   ato   envolve   uma   série   de   fenômenos   mentais,   não   necessariamente   percebidos   pela consciência, e menos ainda, de forma sucessiva. Por exemplo, o simples ato de caminhar pela Avenida   Paulista   envolve   uma   série   de   atividades   às   quais   estamos   atentos:   ouvimos   o barulho do trânsito, o que nos permite acompanhá­lo para saber se há um veículo por perto e com base nisso, podemos modificar nossa trajetória; ouvimos música e eventualmente temos a lembrança de alguém; pensamos no compromisso ao qual devemos comparecer dali a poucos minutos e para o qual estamos atrasados […]. Todos esses fenômenos são mentais e ocorrem de forma simultânea – não é necessário que tenhamos a percepção de cada um em particular em nossa consciência para que eles se deem (Brentano, 1995, p. 72ss).

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Ao considerar tais critérios, Brentano conclui que a caracterização dos fenômenos mentais em termos dos conceitos de extensionalidade, percepção externa e simultaneidade, não é suficiente para a delimitação do objeto de estudo da Psicologia. Em contraposição aos critérios   tradicionais,   Brentano   apresenta   outras   três   notas   para   o   conceito   de  fenômeno mental, a saber:

(i) os fenômenos mentais são aqueles realmente existentes;

(ii)  todos   os   fenômenos   mentais   são  representações  ou   baseados   em representações; (iii) todos os fenômenos mentais são intencionais. A despeito de serem três as notas distintivas do conceito, Brentano atribui como característica marcante do mental a referência a um objeto, ou seja, a intencionalidade. Em suas palavras (idem, p. 68):  “Todo fenômeno mental é caracterizado por aquilo que os escolásticos da Idade Média chamaram de inexistência intencional (ou mental) de um objeto, e que nós deveremos   chamar,   mesmo   que   de   forma   não   totalmente   clara   (não   ambígua), referência a um conteúdo, direção a um objeto (que não é para ser entendido aqui como significando uma coisa), ou objetividade imanente. Todo fenômeno mental inclui algo como objeto em si mesmo, embora eles não o fazem todos do mesmo modo. Na representação algo é representado, no juízo algo afirmado ou negado, no amor algo amado, no ódio algo odiado, no desejo algo desejado e assim por diante. Essa   in­existência   intencional   é   característica   exclusiva   do   fenômeno   mental. Nenhum  fenômeno físico exibe algo similar. Nós podemos, portanto, definir os fenômenos mentais dizendo que eles são aqueles fenômenos que contêm um objeto intencionalmente neles mesmos”. Assim, a característica que define os fenômenos mentais, o objeto de estudo da Psicologia, ao mesmo tempo em que demarca seu campo de atuação frente à Fisiologia, é a intencionalidade. Tal caracterização deu origem ao que chamamos de a “tese de Brentano”, a qual pode ser descrita pelo seguinte lema: todos os estados mentais são intencionais e todos os estados intencionais são mentais. No decorrer desta dissertação, ora nos referiremos à tese em sua forma original, ora nos referiremos à sua primeira ou segunda parte. Por esta razão, optamos por desmembrá­la em duas afirmações: todos os estados mentais são intencionais e todos os estados intencionais são mentais.  A tradição que teve origem com a tese de Brentano convencionou descrever a intencionalidade como uma relação sobre algo, um voltar­se a, ou ainda, um direcionamento para algo. Essa relação é tal que não implica que ambos os termos sejam existentes, mas

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apenas um dos  relata. Que tipo de relação é essa, na qual não há a necessidade do objeto referido existir? A que se refere um estado intencional que é sobre “objetos não existentes”? O que são “objetos intencionais”? Se uma relação intencional pode fazer referência a objetos inexistentes, seria razoável cogitar que objetos intencionais possuem um status diferente dos objetos reais, tal como sugerido por Meinong? Essas são algumas das questões relativas à tese de Brentano, no entanto, em nosso trabalho não examinaremos em detalhe o desenvolvimento de tais questões.  Na próxima seção, nossa exposição será direcionada às críticas apresentadas à tese de Brentano,  especificamente,  a elaborada por Searle, acrescida da  apresentação de uma tentativa de defesa da referida tese desenvolvida por Tim Crane. É precisamente pela forma como tais críticas são construídas, por meio de contraexemplos apresentados ora à afirmação de que “todos os estados mentais são intencionais”, ora a “todos os estados intencionais são mentais”, que optamos pela apresentação da tese a partir de duas afirmações separadas, ainda que sejam interdependentes. 1. 2. Críticas à tese de Brentano sobre a natureza dos fenômenos mentais A tese de Brentano sobre a natureza dos estados mentais consiste na afirmação de que todos os estados mentais são intencionais e todos os estados intencionais são mentais. A partir dessa formulação geral, pode­se afirmar o seguinte: 

(i) a intencionalidade  é  condição  necessária  e suficiente para  definir  o que  é mente; (ii) não existem estados mentais que não sejam intencionais; (iii) não existem estados intencionais que não sejam mentais. As críticas à tese tem a forma de contraexemplos que questionam ora a correção da segunda, ora a da terceira dessas afirmações. No que se refere à afirmação todos estados mentais são intencionais, os críticos costumam questioná­la cogitando a possibilidade de existirem estados mentais não intencionais. Como exemplo paradigmático desse modelo de crítica, temos a afirmação de Searle em seu livro Intencionalidade, segundo a qual: “apenas alguns estados mentais, e não todos, têm Intencionalidade. Crenças, temores e esperanças são intencionais, mas há formas de nervosismo, exaltação e ansiedade

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não­direcionada que não o são. Uma chave para essa distinção é fornecida pelas restrições que envolvem o relato de tais estados. Se eu disser que tenho uma crença ou um desejo, fará sempre sentido perguntar: 'Em que, exatamente, você acredita?' ou: 'O que é que você deseja?', e não poderei responder, 'Ah, eu só tenho uma crença e um desejo sem acreditar em nada nem desejar coisa alguma'. Minhas crenças e meus desejos devem ser sempre referentes a alguma coisa. Mas meu nervosismo e minha ansiedade não direcionada não precisam ser referentes a alguma coisa, nesse sentido” (Searle, 2002, p. 2). O ponto em questão para Searle consiste em esclarecer quais estados mentais po­ dem ser considerados genuinamente intencionais. Searle denomina sua condição para estados intencionais de Critério de Direcionalidade. Tal critério prevê a capacidade do sujeito de res­ ponder a perguntas do seguinte formato: “a que se refere tal estado mental?”. Caso não seja possível responder a pergunta, não se pode afirmar que o estado mental em questão seja inten­ cional. É com base nesse critério que alguns estados mentais, especialmente certos tipos de emoções, tais como exaltação, depressão, ansiedade, nervosismo […] não seriam intencionais. Não atenderiam o critério de direcionalidade, pois o individuo não seria capaz de dizer sobre o que é sua ansiedade, ou nervosismo, não sendo possível determinar o objeto do estado men­ tal.  A correção do contraexemplo de Searle poria a perder a necessária identidade en­ tre mente e intencionalidade e implicaria ou na revisão da tese de Brentano, por meio de uma alteração no conceito de intencionalidade a fim de contemplar a crítica, ou no melhor esclare­ cimento da tese, dissolvendo o problema. Se, por um lado, um crítico alinhado à concepção de Searle diria que a intencionalidade não é uma característica necessária para a caracterização do domínio do mental e que a melhor alternativa é a alteração do conceito de intencionalida­ de, por outro lado, defensores da tradição de Brentano, afirmariam que a crítica reside na má compreensão da tese e que a solução pode ser encontrada ao se deixar mais claro o que se en­ tende por “todo estado mental é intencional”.  No que se refere à afirmação todos os estados intencionais são mentais, os críticos costumam   questioná­la   cogitando   a   possibilidade   de   existirem   estados   intencionais   não mentais. Diferentemente das críticas apresentadas à outra afirmação da tese exemplificada acima, no presente caso, os exemplos são bastante controversos. Dentre eles, podemos citar o fenômeno da disposição de algumas plantas que se movem procurando a luz solar, como uma

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forma primitiva de intencionalidade não mental.8

Os contraexemplos apresentados à afirmação de que todos os estados intencionais são mentais têm por objetivo a conclusão de que a intencionalidade não é  suficiente  para caracterizar o que é mental. Diante de tal objeção, há duas alternativas possíveis: ou alterar conceito de mente, a fim de contemplar a crítica, ou esclarecer de forma mais abrangente a tese de Brentano, dissolvendo o problema.   Um exemplo de defensor da teoria de Brentano é Tim Crane. Sua posição consiste em afirmar que as críticas apresentadas à tese tem origem numa confusão histórico/exegética. Para afastar a necessidade de uma alteração nos conceitos de “mente” e “intencionalidade”, a alternativa encontrada por Crane consiste em esclarecer de forma mais abrangente o conteúdo da tese, com a intenção de dissolver os problemas levantados pelas críticas.  Crane argumenta primeiramente contra a possibilidade da existência de estados mentais não intencionais, tal como exemplificado, pelas teorias de Searle (2002) e McGinn (1982). São objetos de sua análise os contraexemplos que indicam as categorias de sensações e emoções, apresentados como exemplos de estados mentais não intencionais.  Com respeito às sensações, especificamente a de dor, o argumento oferecido pelos críticos consiste no seguinte: se estados intencionais são aqueles sobre alguma coisa, direcio­ nados a algo, então se pode demarcar a classe de estados intencionais a partir da seguinte per­ gunta – “sobre o que é x?” Dado um estado de dor, a resposta que se obtém é “sobre nada”, 8  Autores representativos desta posição são Dretske, Fred. Knowledge and the Flow of Information. Cambridge, MA: MIT Press, 1981; B. Enç. 'Intentional States of Mechanical Devices'  Mind  91, 1982. Aparentemente, carecemos do ponto de vista científico, de uma metodologia suficientemente desenvolvida para afirmar que o movimento de uma planta em direção ao sol se dá não por uma questão físico/causal, mas por uma decisão deliberada, de caráter volitivo ­ condição necessária para concluirmos que, por exemplo, o girassol por buscar a luz do sol possui alguma forma, ainda que rudimentar, de intencionalidade. Para ilustrar, pensemos no seguinte experimento de pensamento: ao observarmos um campo de girassóis, deveríamos observar que alguns se movem em direção ao sol, enquanto outros ficam parados ou, que o mesmo girassol, por vezes movimenta­se em direção ao sol, por vezes não, ao passo que outros girassóis giram em direção à luz. Para o comportamento de uma planta em busca da luz solar ser considerado intencional, deve ser contemplada a possibilidade de ela não fazê­lo. Para que determinado desempenho não seja executada, para que tal evento não ocorra, ela deve estar contemplada no universo de possibilidades; para que x decida não fazer y, x deve ter a representação de y em seu universo de possibilidades. Para o girassol ter estados intencionais, deve poder escolher não girar em direção ao sol; para poder   escolher   não   girar   em   direção   ao   sol,   deve   poder   considerar   a   possibilidade   de   não   fazê­lo;   tal possibilidade deve estar contida em um universo de possibilidades que lhe é representado. Sem o cumprimento de tais condições, não poderíamos afirmar seguramente a possibilidade de estados intencionais não mentais e, consequentemente, a tese de Brentano não estaria ameaçada.

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visto que nem sempre se pode determinar o conteúdo ou referência de tal sensação. Logo, tal estado mental não possui direcionalidade (pelo critério de Searle), não podendo ser caracteri­ zado como intencional. Para este caso, Crane argumentará que uma relação intencional não é uma relação de caráter exclusivamente externo, podendo ser autorreferencial. Isso se funda­ menta na própria definição brentaniana do objeto intencional como in­existente, ou seja, como existente (internamente) no domínio mental. Não se trata, portanto, necessariamente de uma relação entre algo que está na mente do sujeito e um relata no mundo; pode ser o caso de que o relata do objeto intencional seja oriundo do próprio domínio mental, como uma ficção ou conceito fruto da imaginação.  Em outros termos, os críticos afirmam que uma relação (no caso, intencional) aRb não existe porque um dos relata é indeterminado no tocante à sua natureza, ou não pode ser representado. O que Crane visa mostrar é que, da impossibilidade de se poder determinar a natureza de um dos relata, não se segue que a própria relação não exista ou não faça sentido (algo que poderia ser efetivado apenas por meio de um juízo a respeito da subsistência ou não da relação). Por exemplo, o fato de que não se perceba ou se atente para uma sensação, não se segue que esta não tenha um relata – tal como sermos acordados por uma forte dor causada por uma cãibra – a cãibra é o  relata  intencional da sensação de dor. Nesse sentido, não é necessário que se note a dor para que a mesma tenha referência. Outro exemplo se dá quando no contexto de uma luta, um lutador é lesionado, mas continua o combate, mesmo após fortes hematomas, somente notados ao fim do combate. Para o caso das emoções, especificamente no caso da ansiedade, o ponto é o mes­ mo: deve­se poder responder a pergunta a respeito de que se está ansioso. Neste caso, a crítica (de Searle, por exemplo) consiste em defender que, se não se pode descrever (expressar) o ob­ jeto da emoção, então a mesma não tem um objeto específico (não tem um relata intencional). A resposta de Crane a essa crítica é mais direta: do fato de que não possamos sempre estar em condições de oferecer uma descrição ou nos expressar a respeito do objeto de nossa ansieda­ de, não se segue que a mesma não tenha um relata intencional (exemplo: TPM feminina). O relata intencional, neste caso, nem precisa ser algo atual ou determinado, representável descri­ tivamente – pode ser um estado de crença a respeito de um evento futuro, uma expectativa a respeito de um fato.

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Nota­se que os argumentos de Crane seguem a mesma estrutura, tanto para o caso das sensações, quanto para o das emoções. Se, por um lado, não é suficiente mostrar a possi­ bilidade de emoções terem causas que ignoramos para refutar a crítica de Searle, por outro lado, dizer que certos tipos de emoções não são estados intencionais porque não podemos di­ zer a respeito do que tratam também não é suficiente para corroborar a crítica de Searle e refu­ tar a tese de Brentano. No que segue, no próximo capítulo, apresentaremos uma abordagem gramatical a respeito de conceitos mentais ou psicológicos – tais como estados de crença. Tal abordagem, devida ao pensamento de Wittgenstein, está fundamentada numa concepção pragmática da linguagem, de acordo com a qual o significado dos conceitos ou termos linguísticos é instituí­ do por meio do modo como o mesmo é usado num determinado contexto linguístico. A orien­ tação filosófico­metodológica que fundamenta a análise de Wittgenstein tem por fim dissolver certos problemas filosóficos que, de acordo com ele, são oriundos da não observância do uso adequado da gramática de acordo com a normativa instituída pelo seu contexto original de uso. Dentre os problemas que diretamente se referem ao tema deste trabalho, encontram­se a relação entre mente, linguagem e mundo, a natureza do conteúdo dos estados mentais (estados de crença, etc.), e a fundamentação da ação (do querer).

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Capítulo 2

Uma leitura pragmática da Intencionalidade

Neste   capítulo,   apresentaremos   uma   abordagem  gramatical  a   respeito   dos conceitos mentais ou psicológicos. Tal abordagem, devida ao pensamento de Wittgenstein, está   fundamentada   numa   concepção   pragmática   da   linguagem,   de   acordo   com   a   qual   a normatividade que confere significado aos conceitos ou termos linguísticos é instituída por meio   do   modo   como   os   mesmos   são  usados  num   determinado   contexto   linguístico.   A orientação filosófico­metodológica que fundamenta a análise de Wittgenstein tem por fim dissolver certos problemas filosóficos que, para essa visão, são oriundos da não observância do   uso   adequado   da   gramática   de   acordo   com   a   normativa   instituída   pelo   seu   contexto original de uso. Dentre os problemas que diretamente se referem ao tema deste trabalho, encontram­se a relação entre mente, linguagem e mundo, a natureza do conteúdo dos estados mentais (estados de crença, etc.), e a fundamentação da ação (do querer). Iniciaremos o capítulo nos remetendo aos ditados de Wittgenstein a Waismann (Cf. Baker, 2003), nos quais Wittgenstein trata do tema da compreensão do conteúdo proposi­ cional e dos conceitos psicológicos, especificamente o de intencionalidade. Dois modelos se­ rão analisados nesse contexto: o da ostensividade e o dos processos psicológicos. O ponto para Wittgenstein é mostrar que ambos explicam a questão da compreensão tomando o signi­ ficado como fruto de uma relação  extralinguística. Seu modelo proposto, em contrapartida, parte da tese de que a compreensão do significado é fruto de sua operação em conformidade com certas regras prescritas pelo contexto de uso. Essa solução está fundamentada na ideia de que o significado é oriundo de uma relação intralinguística – entre um signo ou nome linguís­ tico e o modo como é operado no próprio contexto de uso da linguagem.  Em seguida, focaremos no que é o objeto central da discussão sobre o conceito de intencionalidade no pensamento de Wittgenstein, qual seja: os trechos §§428­465 das Investi­ gações Filosóficas, contexto em que a discussão sobre a intencionalidade, no sentido de ter a intenção de, refere­se à análise gramatical do esperar e do desejar. Apresentaremos os princi­ pais trechos, seguidos de uma exegese dos mesmos. Nosso objetivo é caracterizar e elucidar

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as teses que servirão de conteúdo base para a discussão a ser apresentada no quarto capítulo, o qual é dedicado ao confronto das interpretações de Hacker (2011) e Crane (2010/2013).

2. 1. Sobre conceitos psicológicos – The Voices of Wittgenstein

Apesar de não ser uma obra redigida propriamente por Wittgenstein, podendo ser vista até mesmo como “apócrifa”, é no  The Voices of Wittgenstein  que, salvo engano, a temática   da  intencionalidade   e   sua   referência   a   Brentano   aparecem   de   maneira particularmente explícita. Ademais, alguns comentadores referendam tal asserção, julgando o texto como relevante para o entendimento da posição de Wittgenstein a respeito dos conceitos psicológicos em geral, e o de intencionalidade em particular (Cf. Hacker, 2011, p. 2). A questão que importa a Wittgenstein no contexto de seus ditados a Waismann é a análise dos conceitos psicológicos no que tange ao que está envolvido na compreensão do significado do conteúdo proposicional. De uma perspectiva mais geral, pode­se interpretar que o questionamento de Wittgenstein a respeito dos conceitos psicológicos remete a um criticismo   “gramatical”   sobre   o   psicologismo   na   lógica,   uma   vez   que   conceitos   como

significar   algo,  crer,  julgar,  compreender,  inferir  e  supor  poderiam   ser   vistos   como

atividades mentais. Por suas objeções à pretensão explicativa dos conceitos psicológicos, Wittgenstein propõe que o essencial para tais conceitos são os usos, as operações, entendidos do ponto de vista do papel que eles desempenham em nosso universo linguístico, e  não as experiências que temos ao usá­los (ou seja, a forma que exibem na experiência, não o conteúdo desta). O objeto da crítica é a tese de que a relação de significação, e assim, o significado, seja de natureza extralinguística. Nesse sentido, sua análise visa mostrar que esse é o pressuposto adotado por ambos os modelos aos quais remete sua análise crítica, a saber: a definição ostensiva e a teoria que toma conceitos como compreensão no sentido de processos mentais. 

A   tese   de   Wittgenstein   é   que   a   relação   de   significação   deve   ser   tratada exclusivamente no escopo da linguagem, sendo tão somente de caráter intralinguístico. Tendo como   parâmetro   de   análise   a   questão   acerca   do   que   está   envolvido   na   compreensão   do significado, basicamente são investigadas três abordagens distintas, quais sejam: 

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(i) o modelo de compreensão por meio de definição ostensiva; (ii) o modelo da compreensão como um processo ou estado da consciência que ocorre “em mim” ao ouvir uma proposição; (iii) o modelo que representa a proposta de Wittgenstein, de que a compreensão é uma habilidade de usar os signos linguísticos de forma adequada ao contexto de uso. A tese de Wittgenstein é, portanto, de que: 

“[…]   understanding   is   not   a   particular   psychological   process   that   is   there   in addition, supplementary to the perception of a propositional­picture. It is true that various processes are going on inside me when I hear or read a proposition. An intuitive image may surface, and various other images may be associated with it, which may in turn be imbued with certain subtle shades of emotion. But all these processes are not what really interest us here. We want to know in what consists what is called understanding the proposition. The answer we wish here to support runs: I understand a proposition by applying it. The point of a proposition is that we should operate with it. And we understand it if we have the ability to operate with it.” (Baker, 2003, p. 437). Quer dizer, a compreensão não se reduz a um processo que ocorre em nossa mente, no sentido de uma representação.  Compreensão  é uma habilidade que adquirimos e que nos torna capaz de “operar” com proposições de acordo com certas regras de uso. 

Um modelo que também entra em questão para Wittgenstein nesse contexto é o da definição ostensiva, por ser uma forma de definir o significado de um signo como aquilo para

o que ele aponta. Obviamente, diz Wittgenstein, não é o próprio signo que aponta para algo,

mas o faz ao ser usado por um falante como um  instrumento  de designação. A definição ostensiva pressupõe que o significado remete à relação entre um signo (um nome) e o objeto expresso pelo signo/nome, caracterizando­se como uma relação binária, nSo, entre um nome e um   objeto   nomeado.   O   que   Wittgenstein   vê   como   problemático   no   caso   da   definição ostensiva é que o significado de algo é estabelecido como uma relação  extralinguística, tal como um “stepping outside language”:  “One calls Venus the bearer of the name ‘Venus’ or of the name ‘The Morning Star’. For this case the rule holds: ‘The bearer of the name “N” is synonymous with “N” ’. It is important that in this rule the word ‘bearer’ is not to be replaced by the word ‘meaning’. Instead of saying ‘Mr N has gone away’ I can I suppose say ‘The bearer of name N has gone away’ but not ‘The meaning of the name N has gone away’. ‘The word N has no meaning’ does not mean ‘The bearer of the name N does not exist’, for the latter statement has sense only if the sign N has meaning”. (Baker, 2003, p. 461). O argumento acima poderia ser assim reconstruído: (i) assuma que o significado é

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uma relação binária, entre um nome e um objeto (nSo); (ii) uma relação binária só tem sentido se ambos objetos da relação estiverem presentes (pois senão seria uma relação de outra ordem, unária, etc); (iii) suponha que o objeto referido pela relação tenha sido aniquilado ou não   exista   mais;   (iv)   por   (ii),   a   relação   extinguir­se­ia;   (v)  por   i,   o  significado   também extinguir­se­ia.  Assim sendo, o significado não poderia ser confundido com o portador de um nome (referência), pois o portador pode deixar de existir, ao passo que o significado não.

Outro modelo a ser analisado por Wittgenstein é o da Psicologia, que apresenta a compreensão como  representação. Este modelo concebe  a compreensão como um estado mental, no sentido de um processo psicológico privado, um estado da consciência do sujeito. Dessa forma, a compreensão seria algo que acompanharia o conteúdo proposicional, tal como se este causasse uma representação mental daquilo que é expresso pela proposição. Neste contexto,   o   problema   da   compreensão   como   processo   psicológico   é   analisado   por Wittgenstein a partir de duas questões: (i) qual estrutura do processo psicológico, e, por conseguinte, da compreensão; e (ii) como tal estrutura se relaciona com o significado.

Para   a   questão   (i),   sobre   qual   a   estrutura   da   compreensão   como   processo psicológico, o argumento de Wittgenstein tem por base a ideia de que  processo  pressupõe temporalidade, uma vez que o conceito de temporalidade é uma nota do conceito de processo. Se a estrutura da compreensão fosse a de um processo ou estado psicológico, teríamos de conceder que ocupa um intervalo de tempo. Tal ideia pode ser exemplificada pela pergunta: “Quando eu o compreendo? Já no som da primeira letra? Ou apenas depois da primeira sílaba? Ou apenas no fim da palavra completa?” (Cf. Baker, 2003, p. 439). Com relação a isso, segundo Wittgenstein, pode­se concluir que não faz sentido pensar a compreensão como “sem   interrupção”   ou   “continuamente”,   algo   que   deveria   fazer   sentido,   uma   vez   que   o conceito de processo pressupõe o de temporalidade.

Considerando a pergunta sobre a estrutura da compreensão, esta não pode ser a de um processo que corre em paralelo com a sequência das palavras que ouvimos, uma vez que a compreensão não é um processo que se estende ao longo do tempo. A posição de Wittgenstein sobre   tal   questão  tem  por  base  a  ideia   de  que  quando  aprendemos  a  usar  uma   palavra, aprendemos   as  regras   do   seu  uso  e   por  meio   de   tais   regras  adquirimos   um   padrão   que contempla   as   possibilidades   do   correto   emprego   da   palavra,   de   acordo   com   o   qual   seu

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significado se efetiva. Sendo assim, compreender o significado de uma palavra não tem a forma de um estado, mas de uma disposição, relativa a uma capacidade, qual seja, a de usar a palavra.

O   segundo   aspecto   da   tese   de   que   compreensão   seria   um   estado   mental   diz respeito diretamente ao tópico de nosso interesse, o conceito de intencionalidade. O interesse em recorrer à análise desse conceito por parte de Wittgenstein nesse contexto é clara, pois intencionalidade foi concebida por Brentano como a característica distintiva do que é mental (Cf. Baker, 2003, p. 443­449). A ideia central em torno da noção de intencionalidade consiste em uma capacidade da mente de estar voltada a, direcionada a, no sentido de que para cada ato   mental   há   um   objeto   pressuposto,   e   esta   pressuposição   se   dá   na   forma   de   uma representação do objeto. 

Neste  aspecto,  a primeira questão  de Wittgenstein diz  respeito  a  que  tipo de relação subsiste entre a figura e o objeto representado, ou, sobre qual a natureza da relação de visar/intencionar algo. A postura contra a qual ele se posiciona é a de afirmar que não há conexão real entre a representação e o objeto representado, sendo a relação uma criação da mente, produto da consciência – a mente é que confere sentido à figura, correlacionando objetos a signos. Seria, assim, o mesmo caso da definição ostensiva, uma vez que se trata de uma relação binária, extralinguística, agora, porém, 'residente' na mente, 'dentro' da cabeça do sujeito (Baker, 2003, p. 443). Relativo à pergunta sobre “como se estrutura a relação entre signo e objeto?”, a resposta oferecida pelos representacionalistas visa sustentar que a mesma se dá por meio da vinculação da representação do objeto e o objeto representado, ao afirmarem que tal relação ocorre por meio de atos mentais, de intencionar, visar algo. No entanto, como se daria esse ato de apontar para além de si mesmo? Considerando ato como experiência, e esta como parte da realidade: como pode uma porção da realidade visar outra? Como pode um evento ser sombra do outro? É esse tipo de questionamento que importa a Wittgenstein nesse contexto.

O   primeiro   argumento   de   Wittgenstein   pode   ser   mais   bem   explicitado   pelo exemplo   de   escrever   num   papel   o   nome   de   alguém,   no   caso,   de   João:   'João'.   Um representacionalista poderia afirmar que não é o signo, mas o pensamento que faz uso do signo que se conecta ao significado; trata­se de um processo que se dá por detrás do signo, e

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se for possível observar o processo, algo é visto nisso que não é visto nas marcas da grafia, isto é, a conexão com o objeto 'João'. Nesse sentido, pode­se perguntar se 'há conexão entre o nome (no ponto de vista das partículas físicas do papel em que é escrito) e a pessoa?' Não. Então   entre   a  imagem   visual   (Gestalt)   dos   símbolos   escritos   e   a  pessoa?   (representação pictórica). A primeira é uma relação tipo­tipo (físico material), a segunda uma relação de representação 'pictórica'/figurativa (tal como se dá, por exemplo, entre o signo '4' e o objeto, o número que ele representa). (Cf. Baker, 2003, p. 445).

A despeito das possibilidades aventadas pelos modelos acima, para Wittgenstein, a compreensão é uma habilidade de  operar  com proposições em um contexto de uso, de acordo   com   certas   regras.   Portanto,   Wittgenstein   interpreta   a   questão   brentaniana   da intencionalidade como a busca por uma “ponte” ou relação entre a realidade (mundo) e o pensamento. Para Wittgenstein, essa abordagem não é satisfatória para explicar, por exemplo, a significação, pois reduz este a uma relação extralinguística, tal como apontado acima. Um dos problemas que se pode entrever com tal crítica consiste no fato de que, como sugerido com   a   argumentação   de   Wittgenstein,   relações   extralinguísticas   não   seriam   fortes   o suficientes para estabelecer a significação, isto é, não poderiam ser vistas como relações de necessidade.9 Esse é o cerne do modelo pragmático contextualista, cujo desenvolvimento mais maduro é encontrado nas Investigações Filosóficas, que passamos a examinar na sequência. 2. 2. Intencionalidade nas Investigações Filosóficas 9  Infelizmente não há espaço para desenvolver esse aspecto da argumentação de Wittgenstein; como nota vale dizer que Wittgenstein faz uso de um conceito tradicional (kantiano) de necessidade, segundo o qual algo  é necessário se analítico, isto é, trivial (no caso, linguisticamente trivial). Por outro lado, poder­se­ia interpretar tal questão seguindo a ideia de que a aplicação adequada de uma palavra por meio de um objeto tornaria este uma espécie de modelo (cf. Investigações, §16) que caracterizaria a normativa subjacente ao contexto linguístico em uso. Vendo por esse lado, faria mais sentido falar em “relação interna” justamente porque se trata de uma questão intralinguística, isto é, de como a linguagem é operada por nós, do que propriamente a respeito do objeto referido.

Referências

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