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Sustentabilidade e Serra da Cantareira : o descarte da morte

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Academic year: 2021

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Universidade Estadual de Campinas

Instituto de Filosofia e Ciências Humanas

ANTONIO PAULO BARÊA COUTINHO

SUSTENTABILIDADE E SERRA DA CANTAREIRA: O DESCARTE DA MORTE

Tese de Doutorado em Ciências Sociais apresentada ao Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas, sob orientação do Prof. Dr. Laymert Garcia dos Santos.

Banca examinadora:

Prof. Dr. Márcio Bilharinho Naves

Profa. Dra. Maria Célia Pinheiro Machado Paoli Profa. Dra. Nadia Farage

Prof. Dr. Richard Miskolci

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FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA BIBLIOTECA CENTRAL DA UNICAMP

Palavras -chave em inglês (Keywords): Sustainable development. Environmentalism.

Biopolitics.

Cantareira Mountains (Brazil). Área de concentração: Ciências sociais.

Titulação: Doutor em ciências sociais.

Banca examinadora: Márcio Bilharinho Naves, Maria Célia Pinheiro Machado Paoli, Nadia Farage, Richard Miskolci, Fernando Antonio Lourenço.

Data da defesa: 25/02/2005.

Coutinho, Antonio Paulo Barêa.

C837s Sustentabilidade e Serra da Cantareira : o descarte da da morte / Antonio Paulo Barêa Coutinho. -- Campinas, SP : [s.n.], 2005.

Orientador: Laymert Garcia dos Santos. Tese (doutorado) - Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.

1. Desenvolvimento sustentável. 2. Ambientalismo.

Biopolítica. 4. Serra da Cantareira (Brasil). I. Santos,

Laymert G. dos (Laymert Garcia dos), 1948-

II.Universidade Estadual de Campinas. Instituto de

Filosofia e Ciências Humanas. III. Título.

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Para meus filhos,

Pedro e João

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Agradecimentos

• Ao professor Laymert Garcia dos Santos, orientador, por ter acreditado nesta construção com generosidade e atenção.

• À minha mãe, Maria Barêa Coutinho, pelo apoio geral. Do transporte & outros. • A minhas irmãs, Carmo e Dolores. Apoios vários, além do habitacional.

• Ao pessoal do SOS Cantareira, Yuca em especial, gente que luta com lucidez, coragem e alegria.

• Ao professor Márcio Bilharinho Naves, por substituir o orientador na banca, apoio no exame de qualificação e depois.

• Ao parecerista (anônimo) da Fapesp, que acompanhou o desenvolvimento do trabalho desde o projeto e que, em seus pareceres, ajudou. A pesquisa contou com apoio da Fapesp, bolsa de doutorado, processo 00/04025-8.

• Aos funcionários do IFCH: secretaria de pós-graduação, Irani em especial; Departamento de Sociologia: Beth; setor de patrimônio (o computador na hora “h”); informática e biblioteca.

• Aos funcionários da Unicamp, do CCUEC e das bibliotecas, em particular: IEL, BAE, Central, Biologia e Educação.

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• Aos amigos em Barão Geraldo, que em algum momento: apoio, conversa, companhia e outras coisas que permitem um doutorado ser concluído (até indicação bibliográfica): Iara, Téia, Val, Tia Léo, Fabrício.

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RESUMO

A tese apresenta o desenvolvimento desta questão: se sustentabilidade, promessa de manutenção da vida, é algo que ainda não temos, o que hoje poderia colocar um fim à vida na Terra? Ao localizar na Segunda Guerra Mundial o aparecimento da ameça à vida, com o nazismo e as bombas atômicas lançadas sobre Hiroxima e Nagasáki, torna-se importante apontar no discurso da sustentabilidade o que nele se esconde. A ação do estado e a formulação de políticas públicas, local privilegiado nas propostas por sustentabilidade, podem se revelar elas mesmas promotoras de uma máquina de morte, como se vê na região da Serra da Cantareira, na região metropolitana de São Paulo.

ABSTRACT

The thesis presents the development of this question: if sustainability, promise of life’s maintenance, is something that to this day we don´t have, what today could put an end to life on earth? After the end of Second World War, or after nazism and the atomic bombs over Hiroxima and Nagasaki, we can see the menace to life; it is important, than, to show what in sustainability’s discourse is hidden. The state action and the formulation of public policy, where we always can see the word sustainability, could be itself a death’s machine as we can see that in Cantareira Mountais, São Paulo metropolitan area.

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SUMÁRIO INTRODUÇÃO ... 3 CAPÍTULO 1 ... 17 CAPÍTULO 2 ... 60 CAPÍTULO 3 ... 91 CAPÍTULO 4 ... 123 CONCLUSÃO ... 132 BIBLIOGRAFIA ... 142 ANEXOS TEXTO ... 160 ANEXOS FOTOS ... 239

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INTRODUÇÃO

A tese pode ser apresentada, no mais importante de seu itinerário, por seus três principais momentos:

• quando da formulação inicial do projeto, sustentabilidade era aceita como idéia orientadora; paradigma que serviria para realizar “um recorte”. Na Serra da Cantareira, como se alcançaria a sustentabilidade? Quais os obstáculos, os conflitos, os participantes? O compromisso com as gerações futuras por baliza, como dar-se-ia o acesso a tal possibilidade em uma região importante para a Grande São Paulo? Essas eram as questões.

• 10 de setembro/11 de setembro de 2001: escapando à formulação teórica inicial, o ataque terrorista aos Estados Unidos e o assassinato do prefeito de Campinas, Antonio da Costa Santos, nos surpreende em pesquisa de campo; morador da Serra da Cantareira. Uma série de fatos simultâneos constelam uma situação “forte”; a principal referência teórica, então, colapsa. 11 de setembro foi, na Cantareira, um arrebentar da idéia, talvez só então tornada clara, da possível articulação entre “comunidade” e “sociedade”; ao menos como ali tal questão se apresentava. Local e global tomaram outros sentidos; e isto não poderia ser “resolvido” senão por um futuro que, mesmo não distante, recusa-se a dar pistas do que será. Em todo caso, quando se trata de sustentabilidade, talvez possa ser dito que tal idéia sofreu duro revés. Pois o discurso da sustentabilidade quase sempre escora-se em um fundamento: constrói alternativas e parcerias para a ação e políticas públicas. Mas, o que dizer se a questão da soberania nacional, no caso do Iraque, deixa de ser uma questão internacional e passa para o domínio da decisão possível e realizável do governo americano? Soma-se a isto, como mais um exemplo, a questão da não adesão ao Protocolo de Quioto pelos Estados Unidos. E, para chegar mais perto, a longa e indecifrável “tomada de decisão” sobre organismos geneticamente modificados pelo governo brasileiro atual. Um esforço de síntese: tanto em âmbito internacional quanto no brasileiro, parece que justamente o grande responsável pelas decisões mais impactantes sobre as gerações futuras, o estado nacional, está muito pouco orientado pela preocupação, por todo título justa, com a preservação da vida. Trata-se da hegemonia

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política internacional dos EUA, em âmbito global, ou da necessária e obsessiva “retomada do crescimento” em nosso país; deve-se evitar uma “terceira década perdida”. Governar bem é, quase de modo absoluto, garantir a expansão do Produto Interno Bruto; não importa que a expansão da soja em Mato Grosso, por exemplo, alcance a destruição que vem sendo notada. Sustentável, como vemos a cada dia nos jornais, é sinônimo de tudo aquilo que precisaria ser mantido; e isto é aplicado quase sempre com referência aos cenários ou indicadores de atividade econômica. Foi retomado o antigo sentido de “sustained development” que já existiu na década de 1950 e que teve W. W. Rostow como seu primeiro divulgador; importaria darmos um “salto” à frente (take-off). Este é o discurso atual, que reflete uma prática política ao menos nisto consistente: importa ter um crescimento econômico sustentável, expansão das exportações sustentável, déficit público sustentável; e por aí vai. Se o estado nacional não alcança o “outro mundo possível” da sustentabilidade enquanto compromisso com a vida, coisa que é questão planetária há décadas, o que resta enquanto ação política não comprometida com a destruição?

A leitura de Primo Levi, em particular É isto um homem?, marcou um reviravolta na pesquisa e, em alguma medida, define o eixo central da tese. Dado o colapso de 10/11 de setembro, aonde ter apoio? Em quem já anunciou, ainda que talvez não tenha colocado uma palavra atrás da outra (coisa desnecessária neste caso) que a era da sobrevivência teve um começo. E não foi nos anos 1970 nos Estados Unidos, nas campanhas ambientalistas, nem com a publicação de Primavera Silenciosa (1962) de Rachel Carson ou Limites do Crescimento (1972) de Meadows et al. O “ponto de mutação” de que falamos não é nada que permita aproximações oportunas da ciência ocidental com perspectivas “holistas” ou “sistêmicas”. O “desencantamento do mundo” ganhou sua expressão máxima com a morte industrializada na Segunda Guerra Mundial. Tentar dar alguma consistência a este argumento orienta a tese. O que poderia ser pensada como uma contribuição, e este é nosso esforço, seria a justaposição do mundo em chamas da Segunda Guerra com a situação atual, com atenção à Serra da Cantareira, onde muito disto pode ser visto. O que não transforma políticos atuais em nazistas; mas, parece, há uma máquina de morte em funcionamento. E insistir em garantir um desenvolvimento sustentável como tem sido proposto geralmente, sem levar a gravidade profunda da situação atual em conta, parece que é parte da máquina de morte; engrenagem que

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confunde, porque fala de outro mundo, que não existe e que não se sabe como seria alcançado.

Com estas considerações talves fique claro o porquê do abandono da noção de sustentabilidade como eixo organizador da tese. E o deslocamento, inesperado, para temas como Segunda Guerra Mundial, nazismo e bombas atômicas.

* * *

A pesquisa, em seu início, também poderia ser descrita brevemente com três principais indexadores: sustentabilidade, ação local e Serra da Cantareira. Tratava-se de procurar relações entre a idéia de preservação ambiental para as próximas gerações e os conflitos e ações em uma região hoje de extrema importância para a maior metrópole brasileira. O texto, sua divisão, procura estar de acordo com as questões que se apresentaram ao longo da pesquisa. Entre o projeto e a tese, no entanto, houve uma pergunta: se a sustentabilidade, qualquer que seja sua definição, é aquilo que não temos, então deverá ser alcançada. Ora, se não temos hoje um mundo sustentável, que poderia manter-se, e se não houver uma mudança, então a vida das gerações futuras está, nas condições atuais, sob ameaça. Disso segue que estamos, hoje, sob ameaça; a vida ameaçada. E de onde viria ou, ainda, o que é isto que chamaríamos de ameaça à vida? Qual a face dessa morte?

Essas perguntas não vêm do vazio de uma especulação desatenta ao mundo. Entre o início dos estudos que resultam nesta tese e agora (início de 2005) há dois fatos, pelo menos, que marcam a passagem do tempo e inscrevem a morte como eixo da pergunta central aqui: o que nos ameaça? Em 11 de setembro de 2001 começa um novo mundo na política internacional de que, hoje, ainda, não se apreende com clareza os desdobramentos; em um aspecto, ao menos, talvez não haja dúvida: aumento da violência e intervenção internacional, com cenas de barbaridade em tempos de guerra, como o abuso de prisioneiros no Iraque ou em Guantanamo, que evocam os momentos mais sombrios do século XX. O exército brasileiro no Haiti; do que se trata?

Um dia antes do 11 de setembro de 2001, Antonio da Costa Santos, prefeito de Campinas, cidade que sedia a universidade em que esta tese será apresentada, foi assassinado. Na madrugada [segue a reportagem, que não é necessariamente policial] “...

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do dia 2 de outubro de 2001, o delegado do 4o Distrito Policial de Campinas, Marcos Antônio Manfrin, os investigadores Rogério Diniz, Nelson da Costa e Alcir Biazon Jr. e os carcereiros Fábio Arruda Campos e Sandro José da Costa invadiram o condomínio Maré Mansa, em Caraguatatuba, onde mataram quatro rapazes que dormiam em um dos apartamentos, Fábio Soares Menengrone, de 22 anos, Alessandro Renato Pereira de Carvalho, 23 anos – ambos sem antecedentes criminais –, e os dois procurados [acusados do assassinato do prefeito Antonio, o Toninho do PT], Valmir e Anzo. Os corpos foram alvejados por dezoito tiros, no rosto, na cabeça e no tórax. Depois de ouvir os disparos, o porteiro e o zelador viram os policiais retirando dois corpos do apartamento – depois reconhecidos por fotografia pelo zelador como os de Anzo e Valmir – e colocando-os no porta-malas do Passat que as próprias vítimas usavam. Pouco depois, acionada por um vizinho, chegou a Polícia Militar, que chamou uma ambulância para transportar os corpos de Fábio e Alessandro. Flagrados pela PM, os policiais de Campinas tiveram de retirar os corpos de Valmir e Anzo do porta-malas do Passat e comparecer à delegacia para registrar o BO. Se a PM não tivesse chegado, é provável que ninguém tomasse conhecimento das circunstâncias em que foram mortos os dois acusados pelo assassinato do prefeito, até porque os policiais não apresentaram nenhum documento que os identificasse ao porteiro, assustado demais para exigi-lo. Na delegacia, Manfrin disse que os quatro mortos haviam recebido os policiais a bala ...” (Marina Amaral; Caros Amigos in www.carosamigos.com.br) . E não se sabe ainda quem matou Toninho.

* * *

Pois, então, do início, uma pergunta: a sustentabilidade é verificável? Ou, mais precisamente: o discurso pró-sustentabilidade encontra abrigo em fatos sociais que podem ser discriminados? Quais seriam os fatos que indicariam o caminho da sustentabilidade estar ou não sendo cumprido? Trata-se de construir e melhorar políticas públicas? O estado que produz, ou permite, omisso, Guantanamo e quemmatoutoninho terá ele o compromisso em achar um caminho para a vida ameaçada? Esta tese, não calçada em estudo de análise de discurso, admite, ainda assim, que a maciça presença dos termos sustentabilidade e desenvolvimento sustentável nos textos do governo, imprensa e sociedade civil organizada – organizações não governamentais à frente-, apresentaria

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algum significado; e mais: tal imenso esforço, ao menos de retórica, não seria sem consequências.

Qiuanto à questão local, a preocupação com um local, isto viria como tentativa de aumentar o poder de verificação como, ainda, resulta de aceitar o fato, amplamente divulgado, de que se a sustentabilidade tem que “acontecer”, isto se dará em algum “lugar”. Talvez o bordão “pensar global e agir local” seja expressão bem acabada desse raciocínio.

A área escolhida para ser pesquisada foi, a princípio, a do Parque Estadual da Cantareira e seu entorno, que abrange áreas de vários municípios – São Paulo, Guarulhos, Mairiporã e Caieiras -, por apresentar questões ambientais relevantes: a preservação de florestas, mananciais, além de conflitos quanto ao uso e ocupação do solo. No entanto, os conflitos entre o movimento social SOS Cantareira e o governo estadual paulista em torno da construção do Rodoanel, anel viário da Grande São Paulo, ganharam destaque antes não previsto; ainda que a muitas instituições estaduais no estado de São Paulo possam ser atribuídos méritos na preservação ambiental, a construção do Rodoanel Mário Covas revelou-se prioridade governamental a que nada, no âmbito do governo estadual ao menos, poderia se opor.

Com o desenvolvimento da pesquisa foi tornando-se mais claro que a “questão da sustentabilidade”, ao declarar a necessidade de preservar a condição de vida para as gerações futuras, vincula-se, antes de tudo, à idéia de sobrevivência. A idéia de uma sociedade sustentável fixa um futuro que procura afastar as ameaças presentes, mas talvez não consiga ir muito adiante do seguinte: será uma vez quando sobreviveremos para sempre. E esse desejo ou fórmula tem a característica de ser muito adaptável, que quer a tudo adjetivar: cidades, agricultura, transportes, futuro. Ao evitar um “método” de apresentar o problema da sustentabilidade “por partes”, houve uma nucleação em torno dos seguintes temas:

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Por onde começar uma discussão sobre tema que pretende abraçar os principais problemas que hoje se apresentam à humanidade, das metrópoles aos desertos? A questão mesma da origem, do começo, acaba por se impor. Principalmente para que se supere uma perspectiva progressiva ou evolucionista da história; para que o “mundo sustentável” não prossiga sendo uma miragem que perde, e muito, capacidade de compreensão das forças que atualmente (e não em um futuro inalcançável) estão compremetendo a possibilidade de vida futura. O que permite dizer sobre “um começo” quando a questão é a própria preservação das condições de vida no planeta? O que pode ser um começo, também de um texto, quando a origem não é um paraíso mas o inferno possível e nem sequer imaginável do fim da história, não como realização plena do espírito, mas como fim das condições físicas, biológicas e morais que sustentam a humanidade?

Os discursos e debates em torno da sustentabilidade partem geralmente desta questão: como alcançar a conservação das condições de vida para as gerações futuras? Mas talvez seja necessária outra pergunta: quando a permanência das condições de vida para as próximas gerações tornou-se um problema?

A sustentabilidade, particularmente quando sabe-se que não é a situação hoje presente, deveria ser alcançada de alguma forma. E, talvez por isso mesmo, vem pareada com a idéia de desenvolvimento. Desenvolvimento sustentável é a noção que serve de suporte para muito do combate em torno à qualidade de vida e direitos relacionados ao meio ambiente, em espectro amplo como podem ser as questões sociais relevantes hoje, da saúde à conservação de florestas.

O par sustentabilidade/desenvolvimento traz uma dupla presença de idéias que vêm do século XIX: evolução e progresso talvez as duas mais importantes. A presença do social-darwinismo como elemento ideológico importante na ascenção do nazismo e a eugenia procuram seus fundamentos na teoria evolucionista de Darwin. Progresso e evolução se entrelaçam e possibilitariam a emergência de realização das “últimas

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possibilidades” do ser humano. Tais assuntos estão, hoje, recolocados na agenda de discussão política, principalmente pelo avanço das biotecnologias.

Se não há uma causalidade direta e mecânica que nos leva de Darwin ao nazismo, também é verdade que a idéia de sustentabilidade lança ao futuro uma sociedade capaz de administrar seu “capital ecológico” de maneira ótima. E o desenvolvimento sustentável deverá (ou deveria) ser o instrumento para tal realização. Mas será necessária uma revisão, talvez o melhor termo seja uma atualização, de idéias que encontram-se espalhadas desde o final do século XIX. O par ciência social-ciência da natureza troca analogias e metáforas desde esta época, muitas que ainda hoje têm impacto. Procurar estabelecer alguma coisa desse “começo”, que não pretende nem pode ser completo, parece necessário neste momento em que a política renova-se, orientada por um “desenvolvimentismo” que já tem no DNA uma presença importante em seu imaginário.

2) OUTRO COMEÇO/ SEGUNDA GUERRA

O desenvolvimento é idéia que também aparece, da forma que tem repercussão até hoje, em estudos biológicos do século XIX; em certa perspectiva evolucionista, no entanto, pode vincular-se de modo claro a tragédias as piores do século XX. Ernst Haeckel, por exemplo, que cunhou o termo ecologia em 1866, fundou a Liga Monista, instituição associada ao surgimento do nazismo; ainda que Haeckel tenha falecido em 1919 e não possa ser pessoalmente vinculado à bárbarie do III Reich. O universo concentracionário nazista e as bombas atômicas lançadas sobre o Japão impõem uma nova questão: a vida da espécie humana passa a ter outro significado, sob o signo da sobrevivência. Esse “começo” inaugura o que será o cenário para a questão da sustentabilidade, talvez antes de tudo como um cenário não explícito, escondido. Desterritorialização da morte.

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A questão da “origem”: quando teria sido necessário falar em sustentabilidade, e o que causou essa necessidade? Trata-se de buscar as justificativas para indicar, na Segunda Guerra Mundial, o início dessa “era de sobrevivência” que nos alcança hoje.

A racionalidade do “mundo administrado” é portadora, carrega consigo, uma inédita capacidade de destruição. A organização burocrática nazista e o projeto do governo dos Estados Unidos que leva à construção da bomba atômica são disso os índices maiores; administração científica e ciência administrada: Auschwitz e Projeto Manhattan. Não se trata de uma análise da burocracia ou dos perigos que vêm da ciência e tecnologia modernas. No entanto, Zygmunt Bauman nos indica que o holocausto é uma “janela” e, quanto mais recusarmo-nos a por ali olhar, menores serão as chances de compreendermos o mundo atual. (BAUMAN; 1998:10)

O discurso e a prática da sustentabilidade são, ao menos em parte, hoje, constituintes desse desejo por um “mundo administrado”; estão voltados para a gerência das instituições e políticas públicas. Parece importante ser lembrado que o “mundo da sobrevivência” surgiu quando a morte da espécie humana apresentou-se possível. E se uma “questão” como essa não permite aproximação fácil, pior seria ignorá-la. Para construir novas possibilidades parece ser necessário que não sejam escamoteados os obstáculos que a elas se opõem; compreender esses obstáculos que procuram esconder-se. Não se trata, também, de procurar encontrar nos absurdos da Segunda Guerra Mundial, e no quanto tais fatos orientaram o mundo até hoje, uma fatalidade, um destino. Para garantir escolhas, é preciso ampliar o campo da liberdade, no que há compromisso. Seguimos aqui uma orientação de Zygmunt Bauman: “Os sociólogos só podem negar ou esquecer os efeitos de seu trabalho sobre a ‘visão de mundo’, e o impacto dessa visão sobre as ações humanas singulares ou em conjunto, ao custo de fugir à responsabilidade de escolha que todo ser humano enfrenta diariamente. A tarefa da sociologia é assegurar que essas escolhas sejam verdadeiramente livres e que assim continuem, cada vez mais, enquanto durar a humanidade.” (BAUMAN; 2001:246)

A percepção do “mundo da sobrevivência”, reafirmamos, veio com a leitura de “É isto um homem?” de Primo Levi, o que realizou um “corte epistemológico” na pesquisa. Não retomaremos aqui a importância de Levi, que vai para muito além desta tese. Importa,

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talvez, renovar a referência à possibilidade de uma “leitura cruzada” entre teoria social e literatura. E, particularmente, a uma passagem de É isto um homem? , de Levi. Pois que estaria também inscrito na história a capacidade de guardar a esperança e o conhecimento, mesmo nas situações de maior restrição à própria condição de ser humano. Primo Levi nos traz isto de Auschwitz, quando ali lembra-se e tenta traduzir a um amigo francês a poesia de Dante. Por mais inatingível que seja para nós tal passagem, fica ali ao menos uma referência bem marcada de que é possível a construção de outros mundos, diferentes daqueles apresentadas pelo genocídio da Segunda Guerra ou do biocídio atual do crescimento econômico; fatos esses relacionáveis.

3) SUSTENTABILIDADE

A crise do desenvolvimento trouxe a busca por alternativas; a “questão ambiental” surge como limite para o desenvolvimento do modo como foi aceito no pós-guerra. Mas algo fica escondido: depois de Hiroxima e dos campos de concentração nazistas outros riscos estão aí. A redução da sustentabilidade a uma perspectiva técno-gerencial espelha a atual incapacidade de respostas para situações que estão muito além de um “risco” crescente.

Sobre a história do surgimento das “questões ambientais” após a Segunda Guerra já há muita avaliação e, parece, é assunto que passa mesmo por uma saturação. Não se acredita, esperamos, que será muito proveitoso esperar uma “Rio+20” para realizar mais um balanço, talvez sombrio. O discurso da sustentabilidade foi eficaz ao encobrir uma destruição crescente e sem par. E isto por um motivo primordial: o discurso da sustentabilidade desconhece ou faz desconhecer a origem da morte como possibilidade inscrita na história; morte da humanidade.

Assim, torna-se mais importante aqui apresentar o que é ausente no discurso da sustentabilidade. Tal ausência não é de modo algum, nos parece, sem conseqüências. A elaboração de propostas, a constituição de conselhos, departamentos e muitas outras instituições que têm na sustentabilidade seu eixo de atuação têm resultado em muito pouco. Não se trata, conforme acreditamos, de uma “insuficiência” dos poderes públicos e

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políticos, que deveriam, então, ser alertados e sensibilizados. Se o que determina o principal da ação política são as questões nacionais centradas nos poderes econômico e militar, a “questão ambiental” não é apenas secundária; encontra-se, de fato, submetida a uma lógica de extermínio da vida. E, para que seja refutado o argumento do “catastrofismo”, será preciso lembrar que “a catástrofe” já aconteceu; ou seja, que a possibilidade de manutenção da vida humana sobre a Terra já está lançada como questão. Fato que o discurso da sustentabilidade desconhece, encobre.

A perspectiva aqui resumida não está orientada por uma necessidade crítica que desconheceria todos os inúmeros esforços somados sob a perspectiva da sustentabilidade ou do desenvolvimento sustentável; ao menos da intenção desses esforços. Como o itinerário mesmo da tese nos apresentou, porém, será preciso de alguma forma aprofundar a insuficiência da perspectiva da sustentabilidade como um fundamento para a ação política aliada à vida. A relação burocracia-morte ou uma sua aparentada, guerra-morte, não permitiria que continuássemos a, de modo inocente, ver a questão da sobrevivência como um questão de “departamentos”: sustentabilidades econômica, social, ambiental, econômica; entre outras. Se aceita tal “hipótese de trabalho”, talvez só restasse procurar lugar em alguma instância administrativa e lutar por uma “decisão melhor”; ainda que os espaços institucionais de decisão política sejam lugares importantes na luta para a manutenção da vida, o “possível” ali dentro está por demais tomado por uma retórica que tem se mostrado pelo menos estagnada já há algum tempo. Por isto estaria justificado o esforço em “forçar uma passagem” que abra novas possibilidades, ainda que para tanto seja preciso lembrar de assuntos que ninguém tem prazer em recordar; e, talvez por isso mesmo, continuam presentes com uma força que escapa normalmente à nossa ação consciente.

4) A SERRA DA CANTAREIRA E O RODOANEL MÁRIO COVAS

A região da Serra da Cantareira vive momento ímpar: a construção do Rodoanel traz a questão (técnica) da “troca”: natureza-desenvolvimento. E os conflitos que são observados, particularmente aqueles liderados pelo SOS Cantareira, movimento social

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com grande capacidade de mobilização, com os órgãos do governo estadual paulista, são reveladores. Há uma máquina administrativa que só vê diante de si a construção, a empreitada. E assim a muitos essa máquina procura anular ou calar, também técnicos da administração estadual com pareceres contrários ao interesse do governo estadual.

O mais importante para uma avaliação do local de pesquisa, mantendo coerência com a organização do texto, é mostrar o quanto as instituições públicas, em particular estaduais, estiveram entre as maiores ameaças a esta reserva de mata atlântica dentro da maior metrópole brasileira.

Desde a construção do aeroporto internacional de Guarulhos, no início dos anos 1980, tem havido uma constante ameaça ao patrimônio natural da Serra da Cantareira. O movimento social que ali se organizou, desde então, tem nos órgãos estaduais seus principais adversários. Hoje, a construção do rodoanel é a questão de maior destaque pois que poderia trazer grandes prejuízos à integridade da mata atlântica ainda preservada.

Quanto ao rodoanel, os esforços do governo estadual em ver a obra concluída teve recentemente mais um lance, que indica uma política orquestrada e que tem múltipla ramificação: foi aprovada uma avaliação “por partes” dos impactos ambientais, permitindo avançar sobre áreas menos mobilizadas politicamente e, assim, pretende ir “comendo pelas bordas” a posssibilidade do forte movimento da Serra da Cantareira opor-se no futuro à conclusão da obra. Esta mesma articulação política que o governo do estado apresenta quando da aprovação e execução dessa grande obra, que leva o nome de Mário Covas, não aparece quando do planejamento e projeto da mesma obra. Lembremos aqui: o traçado original do rodoanel, na região norte, passava por cima de nada menos do que uma estação de tratamento de água da Sabesp; e do sistema Cantareira depende mais de 50% do abastecimento de água da Grande São Paulo. Outra: a pesquisa que serviu de parâmetro técnico para justificar a construção da obra quanto a fluxo de transporte foi a de origem e destino do metrô (!) paulistano. Ou seja, as discussões talvez mais atentas às reais necessidades do transporte metropolitano ou daquele que passa pela Grande São Paulo, como a ampliação do metrô, a retomada dos investimentos e planejamento do setor ferroviário, ampliação de melhores condições para o transporte público que possibitassem a opção de não usar carros particulares, entre outras, ficam descartadas pela obstinação

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em ter os governos associados à construção de “grandes obras”. No caso, obras que permitiriam mais caminhões e automóveis, pois a indústria automobilística ainda é vista como “estratégica” para manutenção dos níveis de produção e emprego.

Não são poucas as evidências que associam estreitamente o poder público e os grandes empreiteiros no Brasil e, no caso do rodoanel, o parecer do Tribunal de Contas da União sobre o aditamento de verbas excessivo indica que tal associação prossegue.

O movimento de resistência na Serra da Cantareira não tem uma cor partidária, também porque nenhum partido político teve uma presença significativa e clara contra a construção do rodoanel ou mesmo de uma resistência à intenção original do governo estadual. Porque será que isto acontece? Arriscamos, talvez não muito: há um consenso quanto ao crescimento econômico como fim último da política brasileira, e a expansão dos transportes e tudo que a isto pode estar associado tem um valor positivo. A construção de mais estradas parece sempre criar mais possibilidades, mais produção e, assim, mais empregos; parece que dali vem o fio-da-meada de um dinamismo virtuoso. Mesmo com a história já conhecida, ainda que duplamente distante, no tempo e no espaço, da construção da rodovia Cuiabá-Porto Velho e a ocupação destruidora que caiu sobre Rondônia.

O governo estadual, particular mas não exclusivamente, pode ser caracterizado, ali na Serra da Cantareira, como um produtor de caos, de desordem tal em assuntos tão decisivos como abastecimento de água e mesmo transporte, que haveria chance para a tese seguinte: a lógica da destruição inaugurada em grande escala na Segunda Guerra Mundial, racional e administrada, prossegue seu caminho. Coisa que nossos olhos alcançam, caso possam e queiram.

* * *

A questão da sobrevivência surge a partir da Segunda Guerra Mundial; não mais aquela anterior sobrevivência dos enfrentamentos com pestes, guerras ou fome; de alguma forma limitados. Sobrevivência, agora, da espécie. E isto por Hiroxima, Nagasaki, Auschwitz, Gueto de Varsóvia, República de Vichy, o bombardeio “por saturação” da alemã Dresden e outras manifestações da morte, agora já com alcance planetário e potência antes desconhecida. Logo após a Segunda Guerra isso se apresentava, e as

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radiações decorrentes dos testes com armas atômicas vieram como a primeira “questão ambiental global”. Ainda no final dos anos 60 e início dos 70, alguns estudos distribuíram polêmica por todo o mundo, como Limites do Crescimento (MEADOWS et al; 1978) , que indicou uma possível catástrofe caso não houvesse diminuição na crescente exploração dos recursos.

Anunciada nos anos 70, como ecodesenvolvimento, e ganhando espaço com força a partir de meados dos anos 80, a nova visão: sustentabilidade; muita vez na embalagem desenvolvimento sustentável. A sobrevivência, assim, ganhou uma racionalização que descartou a morte. O futuro irradiaria esperança, mesmo depois de Chernobil.

Hoje, em modo que evoca o ocorrido nos territórios ocupados pelos alemães durante o nazismo, todo valor que pode estar encerrado na vida está sob ameaça. Se não há os campos de extermínio nazistas, a lógica suicida permanece, com genocídios recentes, na mesma Europa. Com um agravante: a destruição de rios e florestas em todo mundo, particularmente nas regiões tropicais, nunca havia alcançado a extensão das últimas décadas. A vida confinada: eis uma imagem atual.

A racionalidade que permitiu a matança nazista encontraria um eco, assustador, hoje? Não estaria nossa situação de sobreviventes descartada pelo vozerio da sustentabilidade? A racionalização que apela à imagem de um futuro saudável nos séculos vindouros não escamotearia o fato de que prossegue intacta a prática extensivamente biocida do “desenvolvimento”? Não será verdade que a fumaça sustentabilista também não é banal do mesmo modo como não foi banal Eichmann, burocrata-mor dos campos de extermínio nazistas? Não seria a ponte sustentabilista, estranha ponte com fundações lançadas no futuro e que o presente não sabe como acessar, um dos caminhos por onde hoje nos desafia a morte?

* * *

A sustentabilidade como um descarte da morte neste tempo de sobrevivência. Com um olhar sobre a Serra da Cantareira. Por aí vai a tese.

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C A P Í T U L O 1 O C O M E Ç O “ N ã o j u l g o n a d a d e s e s p e r a d o , n e m me s mo o t e r r o r i s mo . A p r o p a g a n d a , a s i d e o l o g i a s t o r n a r a m a b s t r a t a s a s r e l a ç õ e s h u ma n a s . C a b e - n o s i n d i v i d u a l me n t e t o r n á - l a s n o v a me n t e c o n c r e t a s . A n t e s d e ma i s n a d a r e s i s t i n d o à s f o r ç a s d e a b s t r a ç ã o e mo r t e . E m s e g u i d a , e s t a b e l e c e r , a c i ma d a s f r o n t e i r a s e d e n t r o d e n ó s me s mo s , u ma c o r r e n t e d e c a l o r e s o l i d a r i e d a d e . P u g n o p e l a p a i x ã o , n ã o p e l a c i ê n c i a , e m t u d o q u e é h u ma n o . ” A l b e r t C a m u s e m e n t r e v i s t a r e g i s t r a d a p o r C l á u d i o A b r a m o p a r a O E s t a d o d e S ã o P a u l o e m 5 d e a g o s t o d e 1 9 4 9 . ( I n A r e g r a d o j o g o , p . 5 5 ) “ P o d e mo s p e n s a r q u e a c i ê n c i a c r i o u a p e n a s c o n f o r t o ; e c e r t a me n t e o f e z - p r ó p r i a p a l a v r a ‘ c o n f o r t á v e l ’ , e m s e n t i d o mo d e r n o , d a t a d a R e v o l u ç ã o I n d u s t r i a l . M a s a l g u ma v e z n o s d e t i v e mo s a p e n s a r n o q u e a c i ê n c i a f e z , n ã o a o n o s s o mo d o d e v i d a , ma s à n o s s a v i d a ? F a l a mo s d e i n v e s t i g a ç ã o p a r a a mo r t e , d a a me a ç a d a g u e r r a e d o n ú me r o d e c i v i s q u e n e l a mo r r e m. M a s a l g u ma v e z c o n t r a p u s e mo s i s s o a o a u me n t o d e d u r a ç ã o d a n o s s a v i d a ? F a ç a mo s u m p e q u e n o c á l c u l o . O n ú me r o d e p e s s o a s q u e e m s e i s a n o s d e g u e r r a f o r a m n a G r ã - B r e t a n h a p e l a s b o mb a s a l e mã s , p e l a s b o mb a s

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v o a d o r a s e p e l a s V 2 f o i d e s e s s e n t a m i l . E r a u m c o n j u n t o mé d i o d e p e s s o a s , o q u e s i g n i f i c a q u e , e m mé d i a , p e r d e r a m me t a d e d a s u a e x p e c t a t i v a d e v i d a . U m l o n g o ma s f á c i l c á l c u l o mo s t r a q u e o e f e i t o d i s s o s o b r e n o s s a p o p u l a ç ã o d e c i n q u e n t a mi l h õ e s f o i o d e e n c u r t a r a d u r a ç ã o mé d i a d a v i d a e m me n o s d e 0 , 1 p o r c e n t o . O u s e j a , c e r c a d e q u i n z e d i a s . P ú n h a mo s i s s o n a c o l u n a d e d é b i t o . E n a c o l u n a d e c r é d i t o s a b e mo s q u e , n o s ú l t i mo s c e m a n o s , a d u r a ç ã o mé d i a d a v i d a n a I n g l a t e r r a a u m e n t o u d e v i n t e a n o s . Q u e i r a mo s o u n ã o , é e s s e o p r e ç o d a c i ê n c i a – u ma q u i n z e n a p o r v i n t e a n o s d e v i d a . E e s s e s v i n t e a n o s f o r a m o b t i d o s a p l i c a n d o à v i d a c o t i d i a n a , a o v e s t u á r i o e a o s o n o , à h i g i e n e e à i n f e c ç ã o , a o n a s c i me n t o e à mo r t e , a s i d é i a s s i mp l e s d a c i ê n c i a – a s i d é i a s f u n d a me n t a i s d e q u e f a l e i : o r d e m, c a u s a e a c a s o . S e h á i d é i a s q u e me r e c e m i n t i t u l a r - s e c r i a d o r a s p o r q u e c r i a r a m v i d a , e s s a s s e r ã o a s i d é i a s d a c i ê n c i a . ” J a c o b B r o n o w s k i I n O s e n s o c o mu m d a c i ê n c i a . B e l o H o r i z o n t e : I t a t i a i a ; S ã o P a u l o : E d u s p , 1 9 7 7 . ( O h o m e m e a c i ê n c i a ; v . 4 )

(23)

S e e s t a s p r i m e i r a s p a l a v r a s , c o m o p a r e c e e l a s m e s m a s a c r e d i t a m , d e v e m a p r e s s a r - s e p a r a f u n d a r e s t e s e u p e q u e n o m u n d o , e n t ã o i s t o : a q u i s e t r a t a d e n o m e a r a m o r t e . N ã o a m o r t e d e s t e q u e e s c r e v e n e m m e s m o a q u e l a q u e n a T a b a c a r i a d e F e r n a n d o P e s s o a Á l v a r o d e C a m p o s “ . . . M a s o D o n o d a T a b a c a r i a c h e g o u à p o r t a e f i c o u à p o r t a / . . . / E l e mo r r e r á e e u mo r r e r e i . / E l e d e i x a r á a t a b u l e t a , e u d e i x a r e i v e r s o s . / A c e r t a a l t u r a mo r r e r á a t a b u l e t a t a mb é m, e o s v e r s o s t a mb é m. / D e p o i s d e c e r t a a l t u r a mo r r e r á a r u a o n d e e s t e v e a t a b u l e t a , / E a l í n g u a e m q u e f o r a m e s c r i t o s o s v e r s o s . / M o r r e r á d e p o i s o p l a n e t a g i r a n t e e m q u e t u d o i s t o s e d e u . / “ ( P E S S O A ; 1 5 - 1 - 1 9 2 8 ; 1 9 9 7 : 3 6 5 ) T a l m e l a n c o l i a e x t r e m a p o d e o c o r r e r a a l g u é m q u e a t e n t e p a r a r e c o n s t i t u i ç õ e s d e n o s s o s m u i t o d i s t a n t e s a n t e p a s s a d o s q u e v i v e r a m h á d o i s o u t r ê s m i l h õ e s d e a n o s ; e e n t ã o p e r c e b e r q u e n ã o h á n a d a e x i s t e n t e à s u a v o l t a q u e p u d e s s e d e c l a r a r o u p r e t e n d e r f i x o , i m u t á v e l . T a m b é m n ã o s e t r a t a d e m o r t e c o m o v e m n a s h i s t ó r i a s d e h e r ó i s o u h e r o í n a s : o u A q u i l e s q u e p o d e r i a t e r f i c a d o e m s u a p á t r i a e v i v i d o a t é a v e l h i c e , s e m g l ó r i a , o u A n t í g o n a , q u e p o d e r i a t e r o b e d e c i d o a o r e i e d e i x a d o o i r m ã o i n s e p u l t o . A q u i l e s n e m A n t í g o n a s u i c i d a s ; e l e s e s c o l h e r a m a p r ó p r i a m o r t e , d e c i d i r a m . N ã o d e c i d i r a m p e l a m o r t e , d e c i d i r a m e m p e r s e v e r a r e m s e r o q u e e r a m ; a m o r t e f o i u m a c o n s e q ü ê n c i a . N ã o , n e m d a m o r t e d o e g o é o q u e a q u i s e t r a t a ; p o s s í v e l s u p e r a ç ã o d a d u a l i d a d e s u j e i t o - o b j e t o q u e p o d e r i a n o s f a z e r s a l t a r s o b r e a d o r d e v i v e r . U m a m o r t e m a i s d i f í c i l ; d i f í c i l d e s e r v i s t a ; e q u e , s e v e n c e d o r a , m a t a r i a t u d o d e h u m a n o , a t é a m o r t e , a m o r t e h u m a n a . Q u e m

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n o s a v i s a i s t o é P r i m o L e v i e m s e u l i v r o É i s t o u m h o me m? : [ q u a n d o n a e n f e r m a r i a d o c a m p o d e e x t e r m í n i o n a z i s t a , l i v r e d o s o f r i m e n t o f í s i c o ] “ P o r i s s o , q u e m a i n d a p o s s u i u m g e r me d e c o n s c i ê n c i a , r e c u p e r a e s s a c o n s c i ê n c i a ; p o r i s s o , n o s e t e r n o s d i a s v a z i o s , a g e n t e n ã o f a l a a p e n a s d e f o me e d e t r a b a l h o ; c h e g a mo s a c o n s i d e r a r c o mo n o s t r a n s f o r ma r a m, o q u a n t o n o s t i r a r a m, o q u e é a n o s s a v i d a . N e s t e K a - B e [ e n f e r m a r i a ] , p a r ê n t e s e d e r e l a t i v a p a z , a p r e n d e mo s q u e n o s s a p e r s o n a l i d a d e c o r r e ma i o r p e r i g o q u e a p r ó p r i a v i d a . ” ( L E V I ; 1 9 8 8 : 5 4 ) P o r q u e a m o r t e ? P o r q u e e n t r e o i n í c i o e o f i m d a S e g u n d a G u e r r a M u n d i a l d e u - s e i s t o : o s c a m p o s d e m a t a n ç a n a z i s t a s e a c o n s t r u ç ã o e e x p l o s ã o d e b o m b a s a t ô m i c a s s o b r e H i r o x i m a e N a g a s á k i . “ . . . a n t e s d a b o mb a t e r mo n u c l e a r o h o me m t i n h a d e v i v e r c o m a i d é i a d e s u a mo r t e c o mo i n d i v í d u o ; d e a g o r a e m d i a n t e , a h u ma n i d a d e t e m d e v i v e r c o m a i d é i a d e s u a mo r t e c o mo e s p é c i e . ” ( K O E S T L E R ; 1 9 6 9 : 3 7 0 ) A h u m a n i d a d e v i u , c o m o p o s s i b i l i d a d e , o s e u f i m . A p ó s m u i t a s t e n t a t i v a s d e e s t a b e l e c e r o c o m e ç o d e u m t e x t o , a o t e n t a r r e s p o n d e r m a i s u m a v e z à p e r g u n t a q u e i m o b i l i z a : P o r o n d e c o me ç a r ? - , p o d e n o s o c o r r e r q u e o c o m e ç o t a l v e z n ã o s e j a a p e n a s p o n t o d e p a r t i d a , p a l a v r a , p e r s p e c t i v a o u i d é i a ; p o i s a o r i g e m é p r o d u ç ã o ; u m a f o n t e , n a s c e n t e . E i s s o a c o n t e c e p o r m u i t a s r a z õ e s , i n u m e r á v e i s : h á s e m p r e u m n o v o c o m e ç o p o s s í v e l . O q u e n ã o n o s d e s o b r i g a : p o r o n d e c o m e ç a r , a q u i n o s s o a s s u n t o p r i n c i p a l , u m a d i s c u s s ã o s o b r e a s u s t e n t a b i l i d a d e ? Q u a n d o a p e r m a n ê n c i a d a s c o n d i ç õ e s d e v i d a p a r a a s p r ó x i m a s g e r a ç õ e s t o r n o u - s e u m a q u e s t ã o ?

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O s c o m e ç o s p o s s í v e i s q u e s u r g i r a m n a c o n s t r u ç ã o d e s t e t e x t o s ó c e s s a r a m d e i n s i s t i r e m a p a r e c e r , e p o r t a n t o d e i x a r a m d e s e r i n d i f e r e n t e s , q u a n d o o e n f r e n t a m e n t o d i r e t o d a q u e s t ã o d a o r i g e m t o r n o u - s e i n c o n t o r n á v e l . O c o m e ç o , p o r r e s u l t a r d e u m a e s c o l h a , r e v e l a u m v a l o r ; c o m e ç a r o r i e n t a - s e p o r u m a q u e s t ã o d e v a l o r . E , h o j e , t a l v e z s e a n t e c i p e a t o d o s o s o u t r o s p o s s í v e i s v a l o r e s a q u e l e q u e p e r m i t i r i a d i z e r , d e a l g u m m o d o , s o b r e a o r i g e m d o n o s s o m u n d o c o n t e m p o r â n e o ; a l g o q u e n o s p e r m i t e p e r c e b e r a h i s t ó r i a a t u a l , q u e v i v e m o s . C o m o s o b r e v i v e n t e s . E , a s s i m , u m c o m e ç o s e r i a m a i s d o q u e p o s s í v e l ; n e c e s s á r i o . Q u a n d o p e n s a m o s q u e n o s s o m u n d o a t u a l t e m o r i g e m n a t e n t a t i v a d e s u p e r a ç ã o d e s o c i e d a d e s t o t a l i t á r i a s n a S e g u n d a G u e r r a M u n d i a l b e m c o m o d a p e r m a n ê n c i a d e s s e d e s a f i o , H a n n a h A r e n d t n o s o f e r e c e u m a a s s o c i a ç ã o i n t e r e s s a n t e q u a n d o n o s a d v e r t e : “ O q u e p r e p a r a o s h o me n s p a r a o d o mí n i o t o t a l i t á r i o n o mu n d o n ã o t o t a l i t á r i o é o f a t o d e a s o l i d ã o , q u e j á f o i u ma e x p e r i ê n c i a f r o n t e i r i ç a , s o f r i d a g e r a l me n t e e m c e r t a s c o n d i ç õ e s s o c i a i s ma r g i n a i s , c o mo a v e l h i c e , t e r p a s s a d o a s e r , n o n o s s o s é c u l o [ o s é c u l o X X ] , a e x p e r i ê n c i a d i á r i a d e ma s s a s c a d a v e z ma i o r e s . O i mp i e d o s o p r o c e s s o n o q u a l o t o t a l i t a r i s mo e n g o l f a e o r g a n i z a a s ma s s a s p a r e c e u ma f u g a s u i c i d a d e s s a r e a l i d a d e . ” E m s e g u i d a n o s f a l a d a “ s o l i d ã o o r g a n i z a d a ” : “ O s e u p e r i g o é q u e a me a ç a d e v a s t a r o mu n d o q u e c o n h e c e mo s – u m mu n d o q u e , e m t o d a a p a r t e , p a r e c e t e r c h e g a d o a o f i m – a n t e s q u e u m n o v o c o me ç o , s u r g i n d o d e s s e f i m, t e n h a t i d o t e mp o d e s e f i r ma r . ” O q u e r e s u l t a n a d i s c u s s ã o d e u m c o m e ç o : “ M a s p e r ma n e c e t a mb é m a v e r d a d e d e q u e t o d o o f i m n a h i s t ó r i a

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c o n s t i t u i n e c e s s a r i a me n t e u m n o v o c o me ç o ; e s s e c o me ç o é a p r o me s s a , a ú n i c a ‘ me n s a g e m’ q u e o f i m p o d e p r o d u z i r . O c o me ç o , a n t e s d e s e t o r n a r e v e n t o h i s t ó r i c o , é a s u p r e ma c a p a c i d a d e d o h o me m; p o l i t i c a me n t e , e q u i v a l e à l i b e r d a d e d o h o me m. I n i t i u m u t e s s e t h o mo c r e a t u s e s t ( i t á l i c o n o o r i g i n a l ) – ‘ o h o me m f o i c r i a d o p a r a q u e h o u v e s s e u m c o me ç o ’ , d i s s e A g o s t i n h o [ D e C i v i t a t e D e i ; L i v r o 1 2 , c a p í t u l o 2 0 ] . C a d a n o v o n a s c i me n t o g a r a n t e e s s e c o me ç o ; e l e é , n a v e r d a d e , c a d a u m d e n ó s . ” ( H A N N A H A R E N D T ; O s i s t e ma t o t a l i t á r i o , p p 5 9 1 - 5 9 3 ) M a s e s s e c o m e ç o p o s s í v e l s e m p r e s e r á a l g o q u e s e d á n a h i s t ó r i a . E , p a r a h a v e r h i s t ó r i a , s e m p r e f o i p r e c i s o h a v e r l e m b r a n ç a . J e a n n e M a r i e G a g n e b i n d e f i n e , e m H i s t ó r i a e N a r r a ç ã o e m W a l t e r B e n j a mi n , “ . . . a q u e s t ã o q u e n o s o c u p a c o mo a d a i mp o r t â n c i a d a n a r r a ç ã o p a r a a c o n s t i t u i ç ã o d o s u j e i t o . E s s a i mp o r t â n c i a s e mp r e f o i r e c o n h e c i d a c o mo a d a r e me mo r a ç ã o , d a r e t o ma d a s a l v a d o r a p e l a p a l a v r a d e u m p a s s a d o q u e , s e m i s s o , d e s a p a r e c e r i a n o s i l ê n c i o e n o e s q u e c i me n t o . E s s a e mp r e s a d e r e me mo r a ç ã o j á d e t e r mi n a , n a a u r o r a d o p e n s a me n t o g r e g o , a t a r e f a d o p o e t a e , ma i s t a r d e , a d o h i s t o r i a d o r . ” ( G A G N E B I N ; 1 9 9 4 : 3 ) P a r a m a n t e r a a t e n ç ã o e m n o s s o a s s u n t o p r i m e i r o , o c o m e ç o , i m p o r t a r e g i s t r a r a g o r a a a n t e c e d ê n c i a q u e t e v e o p o e t a ; a t a r e f a d o h i s t o r i a d o r v e i o d e p o i s . A i n d a q u e o s d o i s e s t e j a m u n i d o s p a r a m a n t e r a l e m b r a n ç a . O v a l o r q u e a n t e c e d e e , a s s i m , o r d e n a e s t e c a p í t u l o e p o r e x t e n s ã o o s o u t r o s , v e m d e c e r t a l e i t u r a d e u m c a n t o d a D i v i n a C o mé d i a , d e D a n t e A l i g h i e r i . N ã o u m a l e i t u r a q u a l q u e r , m a s a q u e l a q u e o c o r r e u e m

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d e t e r m i n a d o s l u g a r e m o m e n t o : é a l e m b r a n ç a d o C a n t o X X V I d a D i v i n a C o mé d i a q u e t e m P r i m o L e v i e m A u s c h w i t z ; é o c a n t o e m q u e D a n t e n o s d e s c r e v e a m o r t e d e U l i s s e s , q u e s e l a n ç o u a o o c e a n o d e s c o n h e c i d o d e p o i s d e s e u r e t o r n o a Í t a c a . A p o e s i a p r e s e n t e e m u m c a m p o d e e x t e r m í n i o n a z i s t a c o m o f o n t e d e v i d a e d e e s p e r a n ç a , t a l v e z s e j a o q u e p o d e m e l h o r s i m b o l i z a r a r e s i s t ê n c i a f r e n t e a u m m u n d o t e c n i f i c a d o e r a c i o n a l i z a d o c o m o n u n c a . E i s s o t e m i m p o r t â n c i a d e c i s i v a p a r a o m u n d o d e h o j e . P a r a J e a n n e M a r i e G a g n e b i n , s o b r e a f i l o s o f i a d a h i s t ó r i a p a r a W a l t e r B e n j a m i n : o c o n c e i t o d e o r i g e m ( U r s p r u n g ) p a r a e s s e a u t o r n ã o é u m a r e c u s a d o m o d e r n i s m o , m a s u m a n o ç ã o q u e “ . . . d e v e s e r v i r d e b a s e a u ma h i s t o r i o g r a f i a r e g i d a p o r u ma o u t r a t e mp o r a l i d a d e q u e a d e u ma c a u s a l i d a d e l i n e a r , e x t e r i o r a o e v e n t o . ” M a i s a d i a n t e a a u t o r a n o s a p r e s e n t a u m a c i t a ç ã o d e W a l t e r B e n j a m i n ( i n D a s P a s s a g e n - W e r k ) : “ M i n h a t e n t a t i v a d e t r a z e r à e x p r e s s ã o u ma c o n c e p ç ã o d e h i s t ó r i a , n a q u a l o c o n c e i t o d e d e s e n v o l v i me n t o s e j a t o t a l me n t e c o n t i d o p o r a q u e l e d e o r i g e m. ” E , r e t o m a n d o a s p a l a v r a s d e J e a n n e M a r i e G a g n e b i n , t e m o s q u e “ O U r s p r u n g d e s i g n a , p o r t a n t o , a o r i g e m c o mo s a l t o ( S p r u n g ) p a r a f o r a d a s u c e s s ã o c r o n o l ó g i c a n i v e l a d o r a à q u a l u ma c e r t a f o r ma d e e x p l i c a ç ã o h i s t ó r i c a n o s a c o s t u mo u . P e l o s e u s u r g i r , a o r i g e m q u e b r a a l i n h a d o t e mp o , o p e r a c o r t e s n o d i s c u r s o r o n r o n a n t e e n i v e l a d o r d a h i s t o r i o g r a f i a t r a d i c i o n a l . ” ( G A G N E B I N ; 1 9 9 4 : 9 - 1 2 ) M a s , s e v a m o s p a r a a l é m d o n i v e l a m e n t o d a “ h i s t o r i o g r a f i a t r a d i c i o n a l ” , o n d e a f i r m a r í a m o s h a v e r u m c o m e ç o n e s t e m u n d o d e i m e n s a s q u a n t i d a d e s e

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p r o d u ç õ e s ? P o i s t e m o s q u a n t i d a d e s d e t o d o t i p o : n o v o s p r o d u t o s , r e s t o s , f r a g m e n t o s , a t e r r o s s a n i t á r i o s , p r o f u n d i d a d e s e m s í t i o s a r q u e o l ó g i c o s , d e s m a t a m e n t o s , c o n g r e s s o s i n t e r n a c i o n a i s . Q u a n t i d a d e s d a p r e s e n ç a h u m a n a , d a h i s t ó r i a . E c o m o h á p r o d u ç ã o t a m b é m d e m e i o s d e p r o d u ç ã o , a s q u a n t i d a d e s e s t ã o r e g i d a s p o r , s e n ã o u m a l e i , u m a t e n d ê n c i a : s e r ã o c a d a v e z m a i o r e s . D e s c o n t a d a s o s c i l a ç õ e s d e t o d a s o r t e , h á m a i s d e d o i s s é c u l o s r e v o l u ç õ e s n a E u r o p a o c i d e n t a l e n a A m é r i c a d o N o r t e p r i n c i p i a r a m e s s a d i n â m i c a , c a p i t a l i s t a , h o j e d o m i n a n t e e m t o d o s o s p a í s e s c o m a l g u m a r e l e v â n c i a n a e c o n o m i a m u n d i a l . O s g o v e r n o s n a c i o n a i s s e g u e m a m e d i d a : m e l h o r é c r e s c e r ; e p o r a í s ã o j u l g a d o s . S e p r o d u ç ã o e q u a n t i d a d e , n a C h i n a , s ã o c a d a v e z m a i o r e s , p r o c u r a m - s e a s c a u s a s d o “ s u c e s s o ” c h i n ê s p a r a m o d e l o o u i n s p i r a ç ã o . A p r o d u ç ã o j a p o n e s a n ã o c r e s c e ? E s q u e c e - s e d a i m p r e s s i o n a n t e r e c u p e r a ç ã o d o p a í s a p ó s a s u a r u í n a , s o b q u a l q u e r p e r s p e c t i v a , n a S e g u n d a G u e r r a M u n d i a l . E j á s e a p r u m a a p e r g u n t a : q u a l s e r á o “ p r o b l e m a ” j a p o n ê s q u e , t a m b é m f o r a d e s s e p a í s , d e v e r á s e r e v i t a d o ? E a í p o d e s u r g i r u m a e s p é c i e d e m o d e l o à s a v e s s a s . N ã o i m p o r t a m a s q u a n t i d a d e s j á a c u m u l a d a s , t a m b é m d e b i b l i o t e c a s e h o s p i t a i s , o u a m a n u t e n ç ã o d e u m p a t a m a r d e p r o d u ç ã o ; i m p o r t a c r e s c e r . E , t a m b é m , n ã o i m p o r t a t e n t a r c o m p r e e n d e r q u e a b a i x a d e p r o d u ç ã o j a p o n e s a t e r i a a l g o a v e r c o m a e x p a n s ã o c h i n e s a ; n a l ó g i c a d a c o n t a b i l i d a d e n a c i o n a l , b o m é m a i s . E , a s s i m , t a n t o s e p r o d u z q u e a h i s t ó r i a p a r e c e i n v e s t i r - s e d e u m a p o t ê n c i a a n t e s r e c o n h e c i d a n a t e m p o r a l i d a d e d e e s c a l a

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g e o l ó g i c a , p o i s o q u e j á d e m o r o u m i l ê n i o s h o j e p o d e r i a s e r q u e s t ã o d e d é c a d a s . C o m o v e m o s p e l a s i m a g e n s d e s a t é l i t e q u e m o s t r a m a a l t e r a ç ã o d a p a i s a g e m a m a z ô n i c a o u a m o r t e d o m a r d e A r a l . A p r o d u ç ã o c r e s c e n t e d e t o d o t i p o d e q u a n t i d a d e a g u a r d a s e u c o n s u m o , r e a l i z a ç ã o , d i l u í d a e m t o d o t i p o d e l i q u i d e z , p r i n c i p a l m e n t e n o s m a r e s o c e a n o s a t u a i s , p o i s q u e s e n a v e g a n a i n t e r n e t , h á t o r m e n t a s n o m e r c a d o f i n a n c e i r o i n t e r n a c i o n a l e n o f i m d o m u n d o s u r g e o d r a g ã o c h i n ê s . O n d e e s t a r i a o c o m e ç o ? P a r t í c u l a s e m s u s p e n s ã o , e m q u a n t i d a d e s i n i m a g i n á v e i s ; s e d i m e n t a ç ã o a c e l e r a d a . E , a o n o s d e t e r m o s n e s s a s i m a g e n s e c o n c e d e n d o a e l a s a l g u m p o d e r e x p l i c a t i v o , s e g u i r i a o u o p e s a d e l o d e u m i n e s c a p á v e l s o t e r r a m e n t o s o b a p r o d u ç ã o i m e n s a o u o r e c o n h e c i m e n t o d a n e c e s s á r i a c o n s t r u ç ã o d e u m p o d e r q u e s e c o n t r a p o n h a à a m e a ç a v i o l e n t a d e e x t i n ç ã o d a e s p é c i e h u m a n a . C a t a s t r o f i s m o ? I m p o s s í v e l ; t a m b é m p o r q u e a c a t á s t r o f e j á a c o n t e c e u . O u c o m o c h a m a r í a m o s , e x e m p l o s m a i o r e s , o s c a m p o s d e c o n c e n t r a ç ã o n a z i s t a s e s o v i é t i c o s e a s b o m b a s a t ô m i c a s s o b r e H i r o x i m a e N a g a s a k i e m u m a p a l a v r a ? P r o v a v e l m e n t e e s t á s o t e r r a d o ( v i v e n e s s a c o n d i ç ã o ) q u e m a c r e d i t a q u e t u d o i s t o é i n e v i t á v e l e , s e a s s i m n ã o e s t a m o s , t a m b é m p o r q u e n ã o q u e r e m o s e s t a r , e n t ã o e s t a m o s s o b r e a l g o . I s s o q u e r d i z e r : s e r e c u s a m o s o n i i l i s m o , o q u e t a l v e z s ó p o s s a s e r f e i t o c o n t a n d o c o m o s p u l m õ e s c h e i o s , a f i r m a m o s a l g u m a c o i s a . H á u m a p o i o ; f a l a m o s d e a l g u m l u g a r . S e a b o c a

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p o d e a i n d a f a l a r e f a b u l a r , é t a m b é m p o r q u e q u e r e m o s ; o u , a n t e s : p r e c i s a m o s ! E s t e n o s s o m u n d o s u g e r e u m a i m a g e m : o s p é s s o b r e a l g o s ó l i d o ; e s t a m o s s o b r e u m t e r r e n o m u i t o j o v e m , a o m e n o s e m s u a s c a m a d a s s u p e r f i c i a i s , p o i s a q u i s e s e d i m e n t a m u i t a c o i s a , d e t o d o t i p o , r a p i d a m e n t e . A l g o s e m e l h a n t e à f o z d e u m i m e n s o r i o c o m m u i t o m a t e r i a l e m s u s p e n s ã o . A l i e a q u i a s d u n a s d e f r a g m e n t o s , p r o d u t o s e r e s t o s c o m p o s s i b i l i d a d e s i l i m i t a d a s d e p r o s p e c ç ã o e i n v e s t i g a ç ã o . O s i n c r í v e i s n ú m e r o s b a l d i o s e s u a s e m b a l a g e n s d e s c a r t á v e i s ; m u i t o s o s a r t i g o s d e u m a b i b l i o t e c a v i r t u a l ; t a n t a s e s p é c i e s e x t i n t a s n a s ú l t i m a s d é c a d a s ; a s t a x o n o m i a s . A i n c r í v e l , e n u n c a a n t e s v i s t a a b u n d â n c i a a t u a l , o q u e n ã o i m p l i c a a c e s s o e m e n o s a i n d a d i s p o n i b i l i d a d e , e x i g e e s c o l h a p a r a a o m e n o s p e r g u n t a r : o q u e é i s t o ? E a e s c o l h a p r i m o r d i a l , p a r a q u a l q u e r a s s u n t o n e s t e m u n d o d e m u i t a q u a n t i d a d e , n ã o p o d e s e r o u t r a , j á v i m o s : p o r o n d e c o m e ç a r ? O c o m e ç o : t a l v e z a p e r g u n t a m a i s d i f í c i l e a r r i s c a d a , p o r q u e i m p l i c a t a m b é m v a l o r i z a r a q u i l o q u e t e r á o p o d e r p r i m o r d i a l d e e x p l i c a ç ã o , n ã o i m p o r t a e m q u e p a r t e d o t e x t o s e e n c o n t r e , o r i e n t a r á o d i s c u r s o e o a l c a n c e d e s e u e v e n t u a l v a l o r . T a m b é m e s t á a f i r m a d o , a s s i m , q u e n ã o p e r g u n t a r p e l o c o m e ç o i m p l i c a n ã o s a b e r q u e e s s e p r o b l e m a e x i s t e ; e i s s o é e s t a r s o t e r r a d o n o m u n d o d e i m e n s a s q u a n t i d a d e s , o q u e p o d e r á o c o r r e r , p o r e x e m p l o , n a s e d i m e n t a ç ã o d i s c i p l i n a r , q u a s e s e m p r e p r o d u ç ã o e m e s p a ç o h o m o g ê n e o , m o n o l ó g i c o e a u t á r q u i c o . O n d e n a s c e e c r e s c e m u i t o d o s d i s c u r s o s d a e s o b r e a s u s t e n t a b i l i d a d e .

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E s t á a o a l c a n c e d e n o s s a i m a g i n a ç ã o n o s p e n s a r m o s u m a q u a n t i d a d e f i n i t a , a i n d a q u e i m e n s a , d e u n i d a d e s d e i n f o r m a ç ã o . E n t ã o p o d e r í a m o s a l c a n ç a r a p o s s i b i l i d a d e d e v i v e r , c o m a c o n s c i ê n c i a d e q u e “ e u v i v o ” , p o r t e m p o i n d e t e r m i n a d o , b a s e a d o s e m u m p r o g r a m a d e c o m p u t a d o r . M a s a i n d a t e m o s q u e a b r i r a p o r t a d e c a s a p a r a s a i r à r u a , e n ã o i m p o r t a a e l e t r ô n i c a q u e p o s s a e s t a r e m b u t i d a e m u m a f e c h a d u r a . N o s s o c o r p o s a i p e l a p o r t a , e n ã o p e l a f e c h a d u r a ; e e s s a s e r á , m u i t o p r o v a v e l m e n t e , a r e a l i d a d e n a s p r ó x i m a s d é c a d a s , q u a n d o d e v e r á s e r d e f i n i d a a p o s s i b i l i d a d e d e e x i s t ê n c i a d a v i d a o u , p e l o m e n o s , q u a l a c o n d i ç ã o d a e x i s t ê n c i a h u m a n a . A i m e n s a a c u m u l a ç ã o d e t e x t o s , t r i t u r a d o s e m c i t a ç õ e s , o f e r e c e - n o s u m a r e a l i d a d e q u e s e c r i s t a l i z a e m q u a s e - i n f i n i t a s p o s s i b i l i d a d e s a c a d a p a s s o ; t r a t a s e d e u m a p o s s i b i l i d a d e , a o m e n o s a p a r e n t e m e n t e , “ h i p e r -r i z ô m i c a ” . E o n d e o c o m e ç o ? E p o r q u e o i n í c i o , o c o m e ç o d e s t e t e x t o d e d i c a d o a s i m e s m o , e n s i m e s m a d o ? T a l v e z p o r q u e o t e x t o e s t e j a s o b u m m u i t o s e v e r o e p e r i g o s o a t a q u e . P e n s a m o s a q u i e m c e r t a a b s t r a ç ã o : o t e x t o c o m o a q u i l o q u e é d i t o e q u e p o d e d e f i n i r e d e f i n e n o s s o m u n d o . O t e x t o , a s s i m c o m p r e e n d i d o , p e r d e v a l o r , d e i x a d e s e r i m p o r t a n t e , p o r e x e m p l o , q u a n d o n o B r a s i l a e l e i ç ã o d o p r e s i d e n t e L u l a p õ e a p i q u e a g r a n d e e s p e r a n ç a q u e o o r i g i n o u . S e a d e m o c r a c i a f i c a s o b f o g o c r u z a d o , é j u s t a m e n t e p o r a q u e l a d e s q u a l i f i c a ç ã o b r u t a l d e u m t e x t o e s t a b e l e c i d o , n e s s e c a s o , a o l o n g o d e m a i s d e d u a s d é c a d a s . D a f r a t u r a q u e s e p e r c e b e e n t r e a o r i g e m e o s p a s s o s a t u a i s d o “ t e x t o ” L u l a - P a r t i d o d o s T r a b a l h a d o r e s , v e m a d e s e s p e r a n ç a . E a s a r m a s

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m u i t o p e r i g o s a s q u e t e r i a o I r a q u e d e S a d d a m H u s s e i n , “ t e x t o ” q u e p e r m i t e u m b o m b a r d e i o s o b r e u m p a í s i n t e i r o , s i m p l e s m e n t e n ã o e x i s t e m ; e , e m s e g u i d a , o t e x t o “ O c i d e n t e i n v a d e I r a q u e p a r a i n s t a l a r d e m o c r a c i a ” s o f r e p e s a d a m e n t e c o m f o t o g r a f i a s d e p r i s i o n e i r o s t o r t u r a d o s . O h o m e m p ú b l i c o n ú m e r o u m d a I t á l i a , B e r l u s c o n i , é u m g r a n d e p r o p r i e t á r i o d e m e i o s d e c o m u n i c a ç ã o d e m a s s a ; q u a l s e r á o “ t e x t o ” d e l e , e n t ã o ? O s n a z i s t a s n ã o d a v a m o n o m e c o r r e t o à s c o i s a s ; d e s i n f e c ç ã o p o d e r i a s e r m o r t e p o r e n v e n e n a m e n t o n a s c â m a r a s d e g á s . O t e x t o e m s u a d e g r a d a ç ã o t o r n a - s e a n t e s d e t u d o s u s p e i t o . S u s p e i ç ã o ; v i g i l â n c i a . V i o l ê n c i a . * * * M e s m o e m n a r r a t i v a s s u r p r e e n d e n t e s o e s c r i t o p o r v e z e s p a r e c e t e r s i d o f e i t o d e u m a v e z , p o i s , q u a n d o a l c a n ç o u c o n s i s t ê n c i a m u i t o j á s u p e r o u . E , a i n d a q u e u m t e x t o f o s s e e s c r i t o d e u m a ú n i c a i n v e s t i d a , e s s e a c o n t e c i m e n t o , p o s s í v e l , n ã o s o m a r i a n e c e s s a r i a m e n t e v a l o r a o t e x t o ; e m a i s : a i n d a q u e p o s s í v e l , u m a c o n s t r u ç ã o i m e d i a t a d o t e x t o n ã o p o d e r i a s u r g i r d o n a d a , u m e s f o r ç o a n t e r i o r d e a c u m u l a ç ã o e c r í t i c a s e r i a n e c e s s á r i o . D e q u a l q u e r f o r m a , s a b e - s e q u e u m t e x t o m a i s l o n g o s ó m u i t o r a r a m e n t e é e s c r i t o d e u m a v e z ; e , p a r a m u i t o s , d e c i s i v o m e s m o n a c o n s t r u ç ã o d e u m t e x t o é c o r t a r , d i m i n u i r . N a s p a l a v r a s d e E r n e s t o S á b a t o : “ N ã o q u e me r e p u g n e o e x t e n s o : r e p u g n a - me o e s t e n d i d o , q u e n ã o é o me s mo . ” ( S Á B A T O ; 1 9 9 3 : 4 9 ) Q u e o t e x t o , t r a b a l h o e c o n s t r u ç ã o , p r e t e n d e e s t a r a l é m d o r a b i s c o , d o i n c o e r e n t e . H á u m a c o n f u s ã o a n t e r i o r a o t e x t o , d e s o r d e m ; i s s o t e m q u e s e r s u p e r a d o , o

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q u e s ó p o d e a c o n t e c e r e m u m i n s t a n t e . E s ó h á a e x p e c t a t i v a d e u m i n s t a n t e c r i a t i v o , s e m q u e j a m a i s s e p o s s a e s p e r a r o i n s t a n t e e x t á t i c o ( a s u s p e n s ã o n o i n s t a n t e d e r e a l i z a ç ã o e m s u a i n t e n s i d a d e m a i o r : r e l i g i o s a o u a r t í s t i c a ) . O e s f o r ç o m e s m o d e s u p e r a ç ã o d a d e s o r d e m a n t e r i o r a o t e x t o é d i á l o g o , q u e o p a p e l , f u n d o p a r a o t e x t o , t a m b é m r e c u s a , n e g a c e i a e s e f u r t a . H á n e l e , n o p a p e l , r e s i s t ê n c i a . E r o m p e r e s s a r e s i s t ê n c i a s e m c u i d a d o , d e o l h o s f e c h a d o s , é o u t r a c e g a v i o l ê n c i a . V i o l ê n c i a q u e t e m p o r n o m e t r a n s b o r d a m e n t o ; a f a l t a d e l i m i t e . T a m b é m p r e s e n t e s n o s t e x t o s q u e p r o c u r a m r e f o r m a r o m u n d o . * * * O c o m e ç o m e s m o d o t e x t o d e f i n e u m a p e r s p e c t i v a , u m v a l o r . E o c o m e ç o d o t e x t o é o p r i n c i p a l r e s p o n s á v e l p e l a i l u s ã o a q u e e s t a m o s s u j e i t o s q u a n t o à s u a c o n s t r u ç ã o . O c o m e ç o , p o r d e f i n i ç ã o – o u s e r i a m e l h o r d i z e r p o s i ç ã o ? - , t e m a t a r e f a d a a b e r t u r a ; m o m e n t o f u n d a d o r . D á o t o m , p e r s p e c t i v a , e q u a n d o s e t r a t a d e u m t e x t o t e ó r i c o , e m C i ê n c i a s H u m a n a s o u o u t r a q u a l q u e r , d e v e r á d a r c o n t a d e m o s t r a r , s u a s a r m a s : o s c o n c e i t o s . N a l i t e r a t u r a o c o m e ç o p o d e t e r o d o m d e i n a u g u r a r u m m u n d o n o v o e m p o u c a s p a l a v r a s . N o s s a a t e n ç ã o d e r e p e n t e s e d e s l o c a b r u t a l m e n t e : “ Q u a n d o c e r t a ma n h ã G r e g o r S a n s a a c o r d o u d e s o n h o s i n t r a n q ü i l o s , e n c o n t r o u - s e e m s u a c a ma me t a mo r f o s e a d o n u m i n s e t o mo n s t r u o s o . ” ( A me t a mo r f o s e , d e F r a n z K a f k a , t r a d u ç ã o d e M o d e s t o C a r o n e ) O u :

Referências

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