DIREITO COLETIVO DO TRABALHO CONCEITO
Subdivisão do Direito do Trabalho, formado pelo conjunto de regras e princípios que disciplinam as associações de trabalhadores e de empregadores, as organizações sindicais, os conflitos coletivos de trabalho, os meios de solução dos conflitos coletivos do trabalho, destacando-se o contrato coletivo do trabalho, a convenção coletiva do trabalho e o acordo coletivo do trabalho. Por outra vertente, e mais estreita, também se denomina direito coletivo ao conjunto das normas oriundas das negociações coletivas e dos dissídios coletivos do trabalho. Denomina-se coletivo porque seus sujeitos não são as pessoas físicas, mas os grupos, representados pelas entidades sindicais. Os grupos se constituem de empresas, ou de trabalhadores, unidos por laços instintivos de solidariedade, tendo em vista os interesses comuns e a identidade de condições de vida.
Integram o conteúdo do DCT, dentre outras matérias: a) o regramento sobre a instituição, funcionamento, prerrogativas e deveres das entidades sindicais; b) a liberdade sindical; c) os conflitos coletivos de trabalho; d) os meios de solução dos conflitos coletivos de trabalho; e) a representação dos trabalhadores na empresa e outros órgãos; f) a greve e o locaute; g) a negociação coletiva de trabalho; h) a mediação e a arbitragem coletiva do trabalho; i) o dissídio coletivo.
A função do DCT é encaminhar e solucionar os problemas, os conflitos que transbordam dos limites individuais, atingindo toda uma categoria, profissão ou ofício, de todo um setor econômico, de uma ou grupo de empresas ou do estabelecimento. Para tanto, o DCT emprega os interlocutores naturais, que são as entidades sindicais. Assim, sua função consiste em equacionar os conflitos de interesse coletivos do trabalho, mediante a produção de normas trabalhistas de natureza coletiva, de produção profissional ou mista, para cumprimento obrigatório por todos os integrantes dos grupos representados, bem como oferecer os meios de solução dos conflitos coletivos de trabalho.
OS CONFLITOS COLETIVOS DE TRABALHO E OS MECANISMOS PARA A SUA SOLUÇÃO
Conflitos coletivos são as dissidências ocorridas no âmbito das categorias econômica e profissional, causando enormes transtornos sociais, econômicos e políticos.
Há conflitos de certas categorias de âmbito nacional e em setores estratégicos, que abalam as bases do próprio Governo. Como a economia constitui a base de toda a sociedade, a qual não funciona sem o trabalho, a matéria se agiganta para atingir os interesses políticos e sociais, cujas preocupações transbordam das categorias dissidentes para os Poderes Públicos, nas esferas administrativa e judicial.
Dentre os conflitos coletivos, destacam-se: a) boicote — obstrução ao negócio da empresa, falta de cooperação, o que é ilícito; b) sabotagem — destruição ou inutilização de máquinas ou de mercadorias pelos trabalhadores, como protesto violento contra o empregador, conduta reprimida por lei; c) ocupação do estabelecimento — situação em que os trabalhadores ocupam o estabelecimento e se recusam a se retirar, ali permanecendo sem trabalhar, ferindo dois postulados básicos: o direito de propriedade e a liberdade de trabalho dos outros, o que tem ensejado a desocupação por ordem judicial; d) piquetes — forma de pressão para os trabalhadores aderirem à greve, conduta legal quando não violento; e) braços cruzados — situação em que os trabalhadores comparecem ao trabalho, mas cruzam os braços, em vez de trabalhar, o que caracteriza uma espécie de greve; f) operação padrão ou tartaruga — trabalho lento e meticuloso, com excesso de zelo, para emperrar o serviço, representando também uma espécie de greve; g) greve, o instrumento mais usado, direito dos trabalhadores garantido na Constituição e na lei, porque representa um instrumento de autodefesa da categoria; h) locaute, que é o fechamento das empresas em protesto contra algo, é a greve dos empregadores. O art. 722 da CLT o proíbe sem prévia autorização judicial. Os conflitos coletivos serão resolvidos mediante autocomposição ou heterocomposição.
A autocomposição constitui o instrumento mais legítimo, porque são as próprias categorias dissidentes que estipulam as regras de natureza coletiva para porem fim ao conflito; representa-se por meio de um desses três instrumentos: contrato coletivo do trabalho; convenção coletiva do trabalho; acordo coletivo do trabalho.
A heterocomposição significa a interferência de agentes externos às categorias, podendo ser extrajudicial ou judicial. Na primeira incluem-se a mediação e a arbitragem; a segunda são os dissídios coletivos: de natureza econômica, de natureza jurídica e de greve.
LIBERDADE ASSOCIATIVA E SINDICAL
O famoso princípio da liberdade sindical é, sem dúvida, o mais importante do nosso Direito Coletivo do Trabalho. Oportuno esclarecer que ao falarmos em liberdade sindical, também estamos nos referindo a uma liberdade associativa. Considerando que o sindicato é uma espécie de associação, podemos entender a liberdade sindical como uma espécie de liberdade associativa.
LIBERDADE ASSOCIATIVA
A liberdade associativa é uma noção aplicada para qualquer tipo de associação, incluindo a do sindicato. O sindicato, primeiramente, é registrado no Cartório de Registro de Pessoas Jurídicas e, a partir desse momento, constitui-se como uma associação. Para que ele adquira personalidade sindical, torna-se necessário o seu registro no Ministério do Trabalho e Emprego.
A liberdade associativa abrange o direito de reunião e o direito de associação. Ao analisarmos a evolução histórica do sindicalismo no Brasil, estudamos que a liberdade associativa foi protegida no texto constitucional desde a Constituição da República de 1891. Essa Constituição, influenciada pelo liberalismo da época, assegurava direitos civis e políticos como direitos fundamentais, já trazendo em seu arcabouço protetivo o direito de reunião e o direito de associação.
O direito de reunião é um direito importante para garantir o direito de associação. Não é possível fundar uma associação sem permitir a reunião das pessoas, sem permitir angariar possíveis interessados na criação daquela associação.
Esses direitos estão consagrados, em nosso ordenamento jurídico, no artigo 5º da CRFB/88. Art. 5º. (...)
XVI - todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente;
XVII - é plena a liberdade de associação para fins lícitos, vedada a de caráter paramilitar;
Nos termos do artigo 5º, XVI da CRFB/88, todos têm direito à liberdade de reunião e manifestação. Para reunir-se pacificamente, não é necessária autorização prévia do Poder Público, mas é preciso avisá-lo. Esreunir-se aviso à autoridade competente é importante porque, eventualmente, já pode ter sido marcado outro evento para aquele mesmo horário.
A par da liberdade de reunião, a Constituição Federal assegura a plena liberdade de associação (artigo 5º, XVII). No ordenamento jurídico pátrio, admite-se qualquer espécie de associação, desde que tenha fins lícitos e não seja de caráter paramilitar.
DIMENSÃO POSITIVA
A liberdade de associação, em sua dimensão positiva, possui um âmbito coletivo e um âmbito individual: i) Dimensão coletiva
É o poder de criação e estruturação de uma associação. No tocante à liberdade sindical, espécie de liberdade associativa aplicável ao sindicato, também há incidência dessa dimensão coletiva no sentido de possibilitar a criação e estruturação de uma entidade sindical. Essa criação é feita de forma coletiva, e não de maneira individual.
ii) Dimensão individual
É o poder que a pessoa tem de se vincular a uma associação/sindicato. Ninguém é obrigado a se filiar a uma associação, assim como a filiação a um sindicato também é uma faculdade do trabalhador. Se ele quiser, só se for do interesse dele é que ele vai se sindicalizar, vai se vincular aquela determinada associação,
DIMENSÃO NEGATIVA
A liberdade de associação, incluída a liberdade sindical, também possui uma dimensão negativa, de acordo com a qual todos têm o direito de não-filiação e o direito de desfiliação. Isso significa, em outras palavras, que ninguém é obrigado a se filiar e a se manter filiado a uma associação.
Em síntese, uma pessoa se vincula a uma associação/sindicato apenas se quiser, não podendo o Estado proibi-la de ser filiada (dimensão positiva individual). Da mesma forma, o Estado não pode obrigar alguém a se filiar
àquela filiação. Outro particular também não pode interferir nesses direitos da pessoa.
A dimensão negativa da liberdade associativa/sindical está consagrada no artigo 5º, XX da CRFB/88: Art. 5º. (...)
XX - ninguém poderá ser compelido a associar-se ou a permanecer associado;
LIBERDADE SINDICAL
A liberdade associativa também é aplicada ao Direito do Trabalho e, inclusive, a liberdade sindical é a base do Direito Coletivo do Trabalho. No âmbito da nossa disciplina, maIs especificamente, esse princípio está previsto no artigo 8º da CRFB/88.
Art. 8º. É livre a associação profissional ou sindical, observado o seguInte:
I - a lei não poderá exigir autorização do Estado para a fundação de sindicato, ressalvado o registro no órgão competente, vedadas ao Poder Público a interferência e a intervenção na organização sindical;
II - é vedada a criação de mais de uma organização sindical, em qualquer grau, representativa de categoria profissional ou econômica, na mesma base territorial, que será definida pelos trabalhadores ou empregadores interessados, não podendo ser inferior à área de um Município;
III - ao sindicato cabe a defesa dos direitos e interesses coletivos ou individuais da categoria, inclusive em questões judiciais ou administrativas;
IV - a assembleia geral fixará a contribuição que, em se tratando de categoria profissional, será descontada em folha, para custeio do sistema confederativo da representação sindical respectiva, independentemente da contribuição prevista em lei;
V - ninguém será obrigado a filiar-se ou a manter-se filiado a sindicato;
VI - é obrigatória a participação dos sindicatos nas negociações coletivas de trabalho; VII - o aposentado filiado tem direito a votar e ser votado nas organizações sindicais;
VIII - é vedada a dispensa do empregado sindicalizado a partir do registro da candidatura a cargo de direção ou representação sindical e, se eleito, ainda que suplente, até um ano após o final do mandato, salvo se cometer falta grave nos termos da lei.
Parágrafo único. As disposições deste artigo aplicam-se à organização de sindicatos rurais e de colônias de pescadores, atendidas as condições que a lei estabelecer.
O texto constitucional consagra a liberdade sindical no caput do seu artigo 8º. A noção básica de liberdade sindical é àquela dimensão individual positiva e negativa (artigo 8º, V da CRFB/88). Como vimos, a pessoa tem o direito de se filiar, mas também tem direito de se desfiliar a qualquer momento. Ela não pode ser obrigada a se filiar ou se manter filiada. É uma opção individual de cada trabalhador, não pode haver interferência do Estado, do sindicato ou do empregador. Ademais, não pode haver interferência no sentido de proibir a filiação. Essa é a ideia da liberdade sindical, em decorrência da liberdade associativa.
CLÁUSULAS DE SINDICALIZAÇÃO FORÇADA
Dentro desse contexto de que ninguém pode ser obrigado a se sindicalizar e a se manter filiado, existe uma enorme discussão quanto a determinadas cláusulas que, buscando garantir a existência do sindicato e fortalecê-lo, acabam vulnerando a dimensão individual do trabalhador. São as chamadas cláusulas de sindicalização forçada, também conhecidas como cláusulas de segurança sindical.
Como enfatizado acima, tratam-se de cláusulas que objetivam assegurar que os sindicatos sejam fortes e tenham membros sindicalizados. Consequentemente, como uma forma de fortalecer o sindicato e gerar segurança sindical, elas acabam forçando o trabalhador a se sindicalizar. Em alusão a isso, diz-se que são cláusulas de sindicalização forçada (trabalhadores são coagidos a se sindicalizarem).
As cláusulas de sindicalização forçada traduzem um conflito entre liberdade individual do trabalhador e fortalecimento sindical. De um lado, busca-se fortalecer o sindicato e garantir sua existência, assegurando que ele tenha força para exercer suas atividades. Por outro lado, essas cláusulas acabam vulnerando a liberdade individual do trabalhador que não queria se filiar ao sindicato, mas foi obrigado.
Nesse contexto, gera-se no Brasil uma crise de representatividade. A partir do momento que o sindicato não é composto apenas por pessoas que aderiram livremente, ele acaba não representando corretamente aqueles indivíduos. O que sentimos, hoje, é uma grande falta de representatividade. Nota-se que, muitas vezes, o
corporativos, e não da categoria).
ESPÉCIES DE CLÁUSULAS DE SINDICALIZAÇÃO FORÇADA
Antes de adentrarmos na análise de cada cláusula, convém enfatizar que todas violam a liberdade sindical (direta ou indiretamente obrigam o trabalhador a se sindicalizar). E como o princípio da liberdade sindical está consagrado na Constituição Federal, via de regra, essas cláusulas são inválidas e não devem ser admitidas no ordenamento jurídico pátrio.
As principais cláusulas de sindicalização forçada são: Closed Shop, Union Shop e Preferencial Shop. • Closed Shop
•
Nos termos dessa cláusula, a empresa só contrata sindicalizados. Por uma via transversa, ela obriga o empregado a se sindicalizar, pois, caso não seja sindicalizado, não será admitido naquela empresa. Trata-se de uma cláusula inválida, visto que viola a liberdade sindical.
Interessante frisar esse assunto no tocante aos trabalhadores avulsos. Os trabalhadores avulsos em movimentação de mercadorias terrestre (são os antigos chapas) são intermediados pelo sindicato. Contudo, de acordo com sua lei específica, o sindicato também deverá permitir a participação dos trabalhadores avulsos não sindicalizados. Isto é, não precisam ser sindicalizados para que sejam intermediados pelo sindicato.
Sendo assim, inclusive, para os trabalhadores avulsos, não há obrigatoriedade de filiação para que o trabalhador possa laborar. Isso é uma forma de garantir a liberdade sindical. Sindicalizam-se apenas aqueles que tenham realmente interesse, e não porque foi uma condição para ser contratado.
• Union Shop
•
O trabalhador, ao ser contratado pela empresa, assume o compromisso de sindicalização. Ele assume o compromisso de, em um determinado período, sindicalizar-se.
• Preferencial Shop
•
Nessa cláusula, a empresa favorece na sua contratação empregados sindicalizados. Merece destaque o fato de a Consolidação das Leis do Trabalho apresentar dispositivos que versam sobre a preferência de trabalhadores sindicalizados. Evidentemente, todas essas normas violam o princípio da liberdade sindical. Exemplo: a lei prevê uma preferência a trabalhadores sindicalizados na concessão de empréstimos públicos. Essa só norma foi prevista porque, na época da sua edição, o Estado queria cooptar o sindicato. O Estado pretendia obrigar os trabalhadores a se sindicalizarem para ter um sindicato forte, mas um sindicato que fosse um “braço” do Estado.
À luz da Constituição Federal de 1988 e do sistema de liberdade sindical, não tem como subsistir cláusulas dessa natureza, devendo ser declaradas inválidas.
Nesse sentido, há a Orientação Jurisprudencial nº 20 da Seção em Dissídios Coletivos:
OJ-SDC-20. EMPREGADOS SINDICALIZADOS. ADMISSÃO PREFERENCIAL. CONDIÇÃO VIOLADORA DO ART. 8º, V, DA CF/88 Viola o art. 8º, V, da CF/1988 cláusula de instrumento normativo que estabelece a preferência, na contratação de mão de obra, do trabalhador sindicalizado sobre os demais.
• Maintenance of membership
A empresa exige que o empregado se mantenha filiado durante a vigência da convenção coletiva de trabalho.
• Filiação automática
Trata-se de uma cláusula que prevê a filiação automática dos trabalhadores, ou seja, todos os trabalhadores estão automaticamente inseridos/filiados ao sindicato da categoria. Isso não é admitido. O sindicato tem o
os empregados façam parte dos sindicatos.
OBSERVAÇÃO: Com o advento da Reforma Trabalhista, o sindicato perdeu uma fonte de custeio (extinguiu-se a contribuição sindical obrigatória). À vista disso, vem surgido uma discussão sobre a possibilidade de o sindicato negociar em favor, apenas, dos seus membros. Em outras palavras, tem-se discutido sobre a possibilidade de o sindicato não negociar em favor de toda a categoria. Via de regra, o sindicato negocia para todos.
• Agency Shop
Impõe a todos os trabalhadores o custeio sindical. Embora o empregado não seja obrigado a se sindicalizar, ele vai ser obrigado a custear o sindicato a que não é filiado. Isso acaba dando no mesmo. Qual a diferença entre obrigar a se sindicalizar e obrigar a pagar os custos do sindicato? A agency shop, via de regra não é permitida no nosso ordenamento jurídico.
O Tribunal Superior do Trabalho e o Supremo Tribunal Federal entendem que as contribuições (seja assistencial, confederativa, mensalidade sindical) são devidas apenas pelos empregados sindicalizados. A única contribuição compulsória que existia era o chamado imposto sindical, equivalente a um dia de trabalho e pago por todos os trabalhadores da categoria. No entanto, essa norma foi revogada pela Reforma Trabalhista e a contribuição sindical passou a ser facultativa.
Em consonância com a Súmula Vinculante nº 40, o Supremo Tribunal Federal considera que somente os empregados sindicalizados têm o dever de pagar contribuição confederativa.
Súmula Vinculante nº 40. A contribuição confederativa de que trata o art. 8º, IV, da Constituição Federal, só é exigível dos filiados ao sindicato respectivo.
Adotando a mesma perspectiva, posiciona-se o Tribunal Superior do Trabalho através de sua Orientação Jurisprudencial nº 17 da Seção em Dissídios Coletivos:
OJ-SDC-17. CONTRIBUIÇÕES PARA ENTIDADES SINDICAIS. INCONSTITUCIONALIDADE DE SUA EXTENSÃO A NÃO ASSOCIADOS. As cláusulas coletivas que estabeleçam contribuição em favor de entidade sindical, a qualquer título, obrigando trabalhadores não sindicalizados, são ofensivas ao direito de livre associação e sindicalização, constitucionalmente assegurado, e, portanto, nulas, sendo passíveis de devolução, por via própria, os respectivos valores eventualmente descontados.
Por fim, o Supremo Tribunal Federal reafirma jurisprudência que veda cobrança de contribuição assistencial a trabalhadores não sindicalizados, sob pena de violação à liberdade sindical. Ele apreciou a questão no ARE nº 1018459, com repercussão geral reconhecida.
O princípio da liberdade sindical é o mais amplo e deve ser interpretado com a máxima efetividade. Ele não consiste apenas na vedação a que o empregado seja obrigado a se sindicalizar, mas também na vedação a que ele não seja obrigado a custear um sindicato do qual ele não faça parte. Se ele não for sindicalizado, não faz sentido ter que financiar essa entidade sindical.
PRÁTICAS ANTISSINDICAIS
Além das cláusulas de sindicalização forçada (cláusulas de segurança sindical), no extremo oposto há as práticas antissindicais. Enquanto aquelas cláusulas têm o condão de obrigar a sindicalização do empregado (buscando o fortalecimento do sindicato), as práticas antissindicais têm o objetivo de vedar a sindicalização. Contudo, salienta-se que ambas violam a liberdade sindical.
Diferentemente das cláusulas de sindicalização forçada, as práticas antissindicais são condutas cujo objetivo é enfraquecer o sindicato. Através dessas práticas, proíbe-se o trabalhador de se sindicalizar (de forma direta ou indireta).
• Yellow dog contracts
Essa prática decorre do direito norte-americano e consiste no compromisso de não-filiação. O sujeito é contratado e se compromete, perante a empresa, a não se filiar ao sindicato. Trata-se de uma cláusula vedada no ordenamento jurídico e, inclusive, pode gerar o pagamento de dano moral coletivo, caso seja comprovado que a empresa obrigava os seus empregados a não se filiarem como condição para serem contratados. • Company Unions
empresa. Com isso, a empresa acaba tendo uma interferência muito forte no sindicato. • Custeio do sindicato profissional pelo empregador
Essa prática antissindical ocorre quando o sindicato profissional é custeado pelo próprio empregador, constituindo uma maneira de a empresa interferir no sindicato. O sindicato que não possui uma fonte de custeio, em linhas gerais, não tem liberdade. Se o custeio do sindicato depender do empregador, o sindicato não terá liberdade, pois sempre estará sujeito à boa vontade do empregador. A sua força de reivindicação será profundamente comprometida. Por violar a liberdade sindical, qualquer cláusula que preveja essa prática será considerada inválida.
• Mise à l’index
É a chamada lista negra. Algumas empresas elaboram listas negras de empregados que exerçam atividade sindical, que estejam à frente de sindicatos (ou seja, são dirigentes sindicais). Elas praticam essa conduta com o intuito de esses trabalhadores não serem contratados por outras empresas, isto é, objetivam que eles saiam do mercado de trabalho.
OBSERVAÇÃO: No tocante ao custeio do sindicato, há dois Informativos do Tribunal Superior do Trabalho que merecem ser destacados.
Informativo nº 100:
Dano moral coletivo. Caracterização. Conduta antissindical. Convenção coletiva de trabalho. Financiamento do sindicato profissional com recursos provenientes do empregador. O financiamento do sindicato profissional com recursos provenientes do empregador (taxa negocial), conforme firmado em cláusula de convenção coletiva de trabalho, configura conduta antissindical que, ao impossibilitar a autonomia da negociação coletiva, fragiliza o sistema sindical e a relação entre empregados e empregadores, ensejando, portanto, a reparação por dano moral coletivo. Na espécie, registrou-se que, embora a cláusula em questão tenha sido suspensa por força de liminar requerida pelo Ministério Público do Trabalho nos autos de ação civil pública, restou caracterizada a conduta ilícita, de modo que a inexistência de efetiva lesão não afasta a necessidade de reparação, sob pena de retirar a proteção jurídica dos direitos coletivos. Com esse entendimento, a SBDI-I, por unanimidade, conheceu dos embargos interpostos pelo MPT, por divergência jurisprudencial e, no mérito, deu-lhes provimento para restabelecer o acórdão do Regional, impondo a condenação no importe de R$ 10.000,00 a título de dano moral coletivo. (TST. E-ARR nº 64800-98.2008.5.15.0071, SBDI-I. Rel. Min. Aloysio Corrêa da Veiga. 12/02/2015)
No caso em comento, o Tribunal Superior do Trabalho considerou conduta antissindical, gerando dano moral coletivo, cláusula de convenção coletiva que previa o custeio do sindicato profissional com recursos oriundos da empresa. A empresa não pode custear a atividade sindical, pois, se assim o fizer, o sindicato não terá liberdade e independência.
Informativo nº 13:
Contribuição patronal. Melhoria dos serviços médico e odontológico prestados pelo sindicato profissional. Afronta ao art. 2º da Convenção nº 98 da OIT. Não configuração. É válida a cláusula que cria contribuição da categoria patronal visando à melhoria dos serviços médico e odontológico prestados aos trabalhadores pelo sindicato profissional. Na hipótese, não há falar em afronta ao art. 2º da Convenção nº 98 da OIT, ratificada pelo Brasil em 18.11.1952, porquanto o recurso financeiro oriundo das empresas não se destina a manter a organização sindical dos empregados, nem implica sujeição do sindicato ao controle da categoria patronal, em prejuízo à liberdade sindical. Ao contrário, traduz a cooperação do segmento patronal para o avanço das condições de saúde de seus empregados, em consonância com o disposto no art. 7º, caput, da CF. Com esse fundamento, a SDC, por maioria, deu provimento ao recurso ordinário para declarar a validade da “Cláusula Trigésima Terceira – Contribuição Assistencial – Empresas”. Vencido, no tópico, o Ministro Fernando Eizo Ono. (TST. RO nº 36500-57.2009.5.17.0000, SDC. Rel. Min. Walmir Oliveira da Costa, 11/06/2012)
Na situação concreta narrada, uma empresa se comprometeu a contribuir para melhoria dos serviços médico e odontológico prestados aos trabalhadores pelo sindicato profissional. Ao apreciar essa demanda, o Tribunal Superior do Trabalho entendeu que não houve o comprometimento da independência sindical. Argumentou-se,
serviços médico e odontológico.
Ademais, o Tribunal Superior do Trabalho considerou que era razoável permitir essa contribuição da empresa, tendo em vista a grande dificuldade de acesso a serviços de saúde em nosso país.
As empresas, via de regra, não podem custear o sindicato profissional. No entanto, se ela estiver apenas contribuindo para serviços assistenciais específicos, segundo o Tribunal Superior do Trabalho, não haveria violação à liberdade sindical.
SISTEMAS DE ORGANIZAÇÃO SINDICAL Considerações iniciais
Como regra geral, existem três possibilidades de organização sindical: a) Unicidade Sindical
Em consonância com a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, a unicidade sindical é a forma de organização adotada pelo ordenamento jurídico brasileiro. Esse sistema de organização sindical veda a criação de mais de um sindicato representativo de determinada categoria na mesma base territorial, a qual não pode ser inferior a um Município. Evidentemente, o sistema de unicidade sindical, viola a liberdade sindical. Exemplo: se um grupo de trabalhadores quiser criar um sindicato, deverá observar se já existe algum sindicato representando a categoria profissional na base territorial pretendida. Um grupo de bancários de São Paulo não poderá criar, naquele Município, um sindicato para representar aquela categoria, pois já existe um sindicato dos bancários em São Paulo. Isso fere a liberdade sindical.
b) Pluralidade Sindical
Em sentido oposto à ideia de unicidade sindical, há o sistema de pluralidade sindical. No ordenamento jurídico brasileiro, esse sistema de organização sindical apenas foi adotado na Constituição de 1934. Embora o texto constitucional de 1934 previsse a pluralidade sindical, as normas infraconstitucionais acabavam inviabilizando a implementação, de fato, desse sistema. Ademais, a Constituição de 1934 teve uma vigência muito breve, tendo sido revogada pela Constituição de 1937.
c) Unidade Sindical
A unidade sindical não pode ser confundida com a unicidade sindical. À medida que a unicidade sindical é imposta por lei (sindicato único é imposto pela legislação), a unidade sindical ocorre em função da própria vontade dos trabalhadores.
O sistema de unidade sindical, adotado nos Estados Unidos e na Europa, é fruto de um amadurecimento político e representativo. Os atores envolvidos percebem que é melhor ter um sindicato único, pois ele será mais forte e representativo.
Interessante notarmos que no Brasil, país em que a lei proíbe a proliferação de sindicatos, existem inúmeras entidades sindicais; ao passo que nos países da europeus em que não há essa proibição (há uma liberdade sindical plena), existem pouquíssimos sindicatos. Isso ocorre porque, na Europa, os próprios trabalhadores se conscientizam e, por iniciativa própria, acabam se aglomerando em sindicatos grandes. Sindicatos grandes, por seu turno, têm mais poder de barganha, são mais poderosos para representar a categoria.
Em virtude de diversas questões, no Brasil, os sindicatos acabam sendo pulverizados. Sempre houve muitos interesses políticos e financeiros na criação de sindicatos no ordenamento jurídico brasileiro. Por vezes, sindicatos foram fundados sem observar a ideia de proteção da categoria.
A ideia de pulverização de sindicatos não é interessante para os trabalhadores. O mais adequado é quando os próprios trabalhadores, sendo livres, optam pela criação de sindicatos fortes, e não quando isso é imposto pela lei. Quando a lei impõe a noção de sindicato único, acaba produzindo efeito contrário e há a proliferação de sindicatos.
UNICIDADE SINDICAL NO BRASIL Modelo tradicional
durante o período ditatorial de Getúlio Vargas (1930 - 1945) e foi sendo aplicado até a promulgação da Constituição da República Federativa do Brasil, em 1988.
• Sindicato único estruturado por categoria
O modelo tradicional adota, como ideia central, o sindicato único estruturado por categoria. A categoria (profissional ou econômica) e o território são os elementos básicos do sindicato único. No que concerne à criação de novos sindicatos, esses dois elementos são as balizas limitadoras da liberdade sindical. Isso significa, em linhas gerais, que dentro da mesma categoria não pode haver mais de um sindicato na mesma base territorial.
• Vinculação ao Estado e controle político-administrativo pelo Ministério do Trabalho
No modelo tradicional, os sindicatos eram vinculados ao Estado e havia um controle político-administrativo pelo Ministério do Trabalho. A fase de desenvolvimento e surgimento do Direito Coletivo do Trabalho no Brasil foi notadamente antidemocrática, com um viés corporativista (o Estado cooptou de fato a atividade sindical).
• Financiamento compulsório
Nesse regime antigo, vigorava a ideia de financiamento compulsório. • Poder normativo da Justiça do Trabalho
O fato de a Justiça do Trabalho resolver conflitos coletivos acaba retirando dos atores sociais a possibilidade de desenvolvimento político. Retirava-se, então, o poder das partes e o transferia para o Poder Judiciário.
Modelo pós Constituição Federal de 1988
O modelo que passou a vigorar no ordenamento jurídico brasileiro, após o advento da Constituição Federal de 1988, é considerado um modelo híbrido. Apesar de consagrar a liberdade sindical, a autonomia sindical (impossibilidade de intervenção estatal, desvinculação do sindicato perante o Estado e o empregador) e a ampliação dos sindicatos (reconhece os acordos coletivos e as convenções coletivas de trabalho), manteve-se dois pilares básicos do modelo tradicional: unicidade sindical e enquadramento por categoria.
O enquadramento sindical ainda é por categoria. Isso significa que o trabalhador não pode escolher livremente o sindicato ao qual quer se filiar. No Brasil, cada categoria específica deve ser representada por um sindicato. Nos Estados em que há ampla liberdade, entretanto, os trabalhadores podem se filiar ao sindicato que preferirem, independentemente de categoria específica.
Exemplo: o trabalhador que labora em um banco, automaticamente, é enquadrado na categoria dos bancários. Independentemente de sua vontade, ele será representado pelo sindicato dos bancários. Caso ele preferisse se sindicalizar ao sindicato dos jornalistas, isso não seria possível.
Nota-se, com isso, que o enquadramento por categoria viola bastante a liberdade sindical, pois os trabalhadores não podem se reunir e se filiar com ampla liberdade.
A Constituição Federal de 1988 manteve a contribuição sindical compulsória, também conhecida como imposto sindical. O financiamento compulsório, no Brasil, sempre foi apontado como o grande antagonista da liberdade sindical, haja vista que o trabalhador tinha a incumbência de custear a entidade sindical, ainda que não fosse filiado. No entanto, com o advento da Lei nº 13.467 de 2017 (Reforma Trabalhista), o financiamento compulsório foi extinto em nosso ordenamento jurídico.
No tocante ao poder normativo da Justiça do Trabalho, a Emenda Constitucional nº 45 de 2004 o reduziu, já que passou a exigir o comum acordo entre as partes para o ajuizamento de dissídios coletivos de natureza econômica. Apesar disso, o poder normativo da Justiça do Trabalho ainda retira dos atores sociais (trabalhadores e empresas) a possibilidade plena de negociar, trazendo isso para o âmbito estatal.
ORGANIZAÇÃO SINDICAL BRASILEIRA Estrutura sindical
ESTRUTURA EXTERNA
A estrutura externa do sindicalismo brasileiro possui heranças do modelo corporativista e se organiza em uma estrutura piramidal, conhecida como Sistema Confederativo. Esse sistema piramidal, por sua vez, tem uma
dentro da base territorial mínima, prevalece a ideia de unicidade sindical (sindicato único). Vejamos, a seguir, como se estrutura o Sistema Confederativo:
a) Confederações
As confederações são entidades representativas de grau superior, encontrando-se no topo da estrutura piramidal. Trata-se de entidades nacionais que são criadas pela reunião de, no mínimo, três federações. b) Federações
As federações são entidades representativas de grau intermediário que, normalmente, são estaduais. Para serem criadas, faz-se necessário reunir, no mínimo, cinco sindicatos.
c) Sindicatos
Os sindicatos são os entes representativos de base que, normalmente, são municipais. Contudo, é muito comum a criação de sindicatos transmunicipais (envolvem mais de um Município). Inclusive, não existe nenhuma vedação à criação de sindicatos estaduais e nacionais. A única imposição é com relação ao limite territorial mínimo de um sindicato, mas a lei nada fala acerca do seu limite territorial máximo.
Os sindicatos são entes representativos de base, mas, com o escopo de obterem mais força, podem se aglutinar e formar as federações. Essas federações, por sua vez, podem se reunir em confederações para aumentar o poder de negociação.
Exemplo: A confederação dos bancários tem bastante força para negociar com a confederação dos bancos. Muitas vezes, as convenções coletivas de trabalho são nacionais justamente porque são firmadas pelas confederações.
Além dos sindicatos, federações e confederações, existem as chamadas centrais sindicais. Adverte-se, por oportuno, que as centrais sindicais NÃO compõem o sistema confederativo e não detêm personalidade sindical. Por esse motivo, as centrais sindicais não podem: realizar sozinhas negociações coletivas, suscitar dissídios coletivos, cobrar contribuição sindical, representar a categoria diretamente em questões judiciais e administrativas etc.
As centrais sindicais são órgãos de cúpula que visam agregar os interesses dos trabalhadores, sendo uma forma de conferir unidade política aos trabalhadores. Isto é, a representação das centrais sindicais é muito mais do ponto de vista político. Para serem criadas, é necessário o mínimo de cem sindicatos nas cinco regiões do país. Atualmente, há pouquíssimas centrais sindicais.
Exemplo: as centrais sindicais têm papel bastante relevante quando há reivindicações de natureza política (reivindicações contra a Reforma Trabalhista e a Reforma da Previdência) e, às vezes, até conseguem eleger políticos que possuem plataforma política de proteção dos trabalhadores.
ESTRUTURA E FUNCIONAMENTOS INTERNOS
Os sindicatos, internamente, são regidos pelo princípio da autonomia sindical. Nessa perspectiva, os sindicatos devem ser independentes e não podem estar vinculados ao Estado nem ao empregador. Não é admissível a intervenção estatal na organização interna dos sindicatos.
Exemplo: o empregador não pode custear o sindicato da categoria profissional, pois isso violaria a ideia de autonomia sindical.
Exemplo: não se exige a prévia autorização do Estado para que seja criado um sindicato.
Atualmente, compreende-se que a organização interna dos sindicatos é disciplinada por seu Estatuto (aprovado pelos membros). Isso significa, em última análise, que o Estatuto é a norma que regulamenta internamente os sindicatos. No entanto, existem vários dispositivos da Consolidação das Leis do Trabalho que versam sobre a organização interna dos sindicatos, não permitindo a organização própria do sindicato. Quanto a isso, muito se discute se tais dispositivos legais foram ou não recepcionados pela Constituição Federal de 1988.
A Consolidação das Leis do Trabalho limita o direito à estabilidade de emprego a sete dirigentes sindicais (e seus suplentes). Assim que a Constituição Federal de 1988 foi promulgada, surgiu a seguinte dúvida: essa norma celetista foi recepcionada pela nova Constituição Federal? A lei pode determinar quantos dirigentes haverá em um sindicato ou é a própria entidade sindical que deve estabelecer isso?
ART. 8º, I. I - O art. 522, CLT, que estabelece número de dirigentes sindicais, foi recebido pela CF/88, artigo 8º, I. II - RE conhecido e provido. (STF. RE nº 193.345. Rel. Min. Carlos Velloso. Segunda Turma. DJ de 28/05/1999).
Nesse sentido, dispõe a Súmula nº 369, II do Tribunal Superior do Trabalho:
Súmula nº 369. DIRIGENTE SINDICAL. ESTABILIDADE PROVISÓRIA. (...) II - O art. 522 da CLT foi recepcionado pela Constituição Federal de 1988. Fica limitada, assim, a estabilidade a que alude o art. 543, § 3.º, da CLT a sete dirigentes sindicais e igual número de suplentes.
O entendimento que predomina é no sentido de que o sindicato tem autonomia no seu Estatuto para se autorregulamentar, tendo ampla liberdade para definir o número dos seus dirigentes. Entretanto, buscando evitar condutas abusivas, o direito à estabilidade de emprego é limitado a sete dirigentes e seus respectivos suplentes.
Exemplo: um sindicato com cem membros, representando poucos trabalhadores, estabeleceu que vinte membros seriam dirigentes sindicais. Caso não houvesse limitação, os vinte dirigentes sindicais teriam direito à estabilidade. Essa situação, evidentemente, seria abusiva, havendo um nítido desvio de finalidade (fixou esse número de dirigentes apenas para que adquirissem a estabilidade sindical). Não faria sentido.
Assim sendo, por considerar a norma legal razoável, o Supremo Tribunal Federal entendeu que ela havia sido recepcionada pela Constituição Federal de 1988. Os sindicatos continuam tendo autonomia para estabelecer outra quantidade de dirigentes, mas somente sete adquirem a estabilidade. A aludida norma, portanto, apenas limita a quantidade de dirigentes sindicais estáveis.
É o próprio sindicato, através do seu Estatuto, que dispõe qual o critério adotado para definir os detentores da estabilidade sindical, caso o número de dirigentes sindicais ultrapasse o limite de sete.
CRISE DE REPRESENTATIVIDADE
Em consequência da constante violação à liberdade sindical, o ordenamento jurídico brasileiro vivencia uma enorme crise de representatividade. Os sindicatos, atualmente, não conseguem representar corretamente a sua categoria.
A legislação, ao trazer a unicidade sindical e a sindicalização por categoria, não dá oportunidade aos trabalhadores de escolherem os sindicatos que deverão representá-los. Nesse contexto, como há imposição da lei, os trabalhadores acabam não se sentindo representados pelos seus sindicatos.
Muitos trabalhadores, inclusive, comemoram a extinção da contribuição sindical compulsória, tendo em vista essa crise de representatividade que assola o país. Afinal, eles se viam compelidos a pagar uma contribuição sindical para sindicatos que não escolheram.
CONVENÇÃO N. 87 DA OIT Considerações iniciais
Em que pese a Convenção nº 87 da OIT não tenha sido ratificada pelo Brasil, seu estudo é muito importante, visto que ela trata sobre um tema de suma relevância para o Direito Coletivo do Trabalho, qual seja: a liberdade sindical.
A Organização Internacional do Trabalho elegeu a liberdade sindical como um dos princípios fundamentais (princípio de atuação prioritária). E a nossa Constituição Federal de 1988, por sua vez, adota a liberdade sindical, embora seja uma liberdade com mitigações.
Liberdade Sindical
A Convenção nº 87 da OIT propugna uma liberdade sindical plena. A seguir, abordaremos brevemente alguns aspectos interessantes protegidos por essa Convenção.
a) Constituição e filiação de sindicatos
A Convenção nº 87 da OIT, em síntese, trata da liberdade plena que deve existir na constituição e na filiação de sindicatos.
Os trabalhadores devem ter uma ampla liberdade para constituir sindicatos, não podendo sofrer qualquer limitação (eles têm que poder criar sindicatos de acordo com seus interesses e vontades). Da mesma maneira,
podem ser obrigados a se filiarem nem impedidos de se desfiliarem. b) Elaboração de estatutos e regulamentos administrativos
Assegura-se aos sindicatos a liberdade na elaboração de estatutos e regulamentos administrativos. Em outras palavras, isso se refere à organização interna do sindicato, também chamada de autonomia sindical (A Constituição Federal brasileira assegura a autonomia sindical, embora com algumas mitigações (por exemplo, registro do sindicato no Ministério do Trabalho e Emprego).
c) Livre eleição de representantes
Trata-se da organização da gestão (autogoverno do sindicato). Confere-se a possibilidade de os próprios trabalhadores elegerem seus representantes, sem qualquer limitação e interferência externa. Isso também é algo muito importante para a noção de liberdade sindical.
d) Livre atividade e programa de ação
Refere-se a uma autonomia do ponto de vista externo. De nada adiantaria a liberdade sindical (liberdade de criação, filiação e desfiliação de sindicato) e a autonomia sindical (possibilidade de se organizar internamente sem depender de fatores externos), caso houvesse limites à atuação dos sindicatos. Sendo assim, não são admitidos limites à atuação externa, ao programa de ação dos sindicatos.
Exemplos: sindicato que desenvolve atividade política; sindicato que desenvolve atividade econômica. Ainda que haja expressa vedação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) quanto ao exercício de atividade econômica, entende-se que a entidade sindical precisa ter ampla liberdade para decidir qual atividade desempenhará.
e) Autonomia diante do Estado
A autonomia dos sindicatos diante do Estado é uma decorrência, conforme já abordamos, da liberdade sindical. f) Vedação à dissolução e à suspensão das atividades pela via administrativa
A Constituição Federal brasileira não alberga essa proteção apenas para os sindicatos, mas também para as associações em geral. O texto constitucional veda que as associações sejam dissolvidas, salvo por decisão judicial. O cancelamento definitivo das atividades de uma associação, portanto, somente ocorre com o trânsito em julgado da decisão judicial.
g) Constituição de federações e confederações
A Convenção nº 87 da OIT versa sobre o chamado sistema confederativo (sistema piramidal). O nosso ordenamento jurídico também adota essa concepção de que o sindicato é apenas o organismo inicial, havendo entidades intermediárias (federações sindicais) e entidades de grau superior (confederações sindicais).
h) Filiação a organizações internacionais
A liberdade sindical traz a possibilidade de os sindicatos brasileiros se filiarem a organizações sindicais internacionais.
i) Aquisição de personalidade sindical não pode estar subordinada
A aquisição de personalidade sindical, segundo a Convenção nº 87 da OIT, não pode estar subordinada ao Estado.
Em relação ao ordenamento jurídico brasileiro, para que haja aquisição de personalidade sindical, a Constituição Federal exige um registro sindical. Quanto a essa exigência, há uma séria controvérsia. Há muita crítica a essa ideia de registro sindical, pois, em última análise, isso violaria a autonomia de sindicato. Por outro lado, entende-se que o Estado não poderia negar o registro requerido pelo sindicalizado (só pode negar quando houver violação à unicidade sindical), mas também não poderia adentrar no mérito da legitimidade da criação de um sindicato.
j) Respeito à legalidade
k) Legislação nacional: âmbito de aplicação às forças armadas e à polícia
Nesse aspecto, há uma incompatibilidade com a Constituição Federal, nos termos da qual é vedado o exercício de atividade sindical pelas forças armadas e pela polícia. As forças armadas e a polícia civil não podem fazer greve, nem exercerem atividade sindical.
ORGANIZAÇÃO SINDICAL BRASILEIRA
Qual seria o impedimento para a ratificação da Convenção nº 87 da OIT no ordenamento jurídico brasileiro? Após análise geral da Convenção nº 87 da OIT, concluímos que a nossa organização sindical é o impedimento para a ratificação da aludida Convenção pelo Brasil. A organização sindical brasileira, em apertada síntese, apresenta os seguintes elementos:
• Unicidade sindical
• Sindicalização por categoria
• Poder Normativo da Justiça do Trabalho • Juízes Classistas (já foram abolidos)
• Contribuição Sindical (abolida com a Reforma Trabalhista de 2017)
A Constituição Federal de 1988, nos dias de hoje, ainda contém dois resquícios do sistema corporativista (unicidade sindical e sindicalização por categoria) que impedem a ratificação da Convenção nº 87 da OIT pelo Brasil. Enquanto a Organização Internacional do Trabalho defende uma liberdade sindical plena (sem qualquer espécie de amarra), o nosso texto constitucional contempla resquícios do sistema corporativista que traduzem limites à liberdade sindical.
CATEGORIAS
Importante destacar, inicialmente, que a noção de categoria é muito relevante ao Direito, de modo geral. A ideia de dividir os sindicatos em categorias teve origem no corporativismo.
Por que se divide os sindicatos por categorias?
O fundamento dessa ideia de categoria é agrupar os trabalhadores, evitando reuniões imprevisíveis que pudessem descambar em uma atividade política (por exemplo, reunião de bancários e industriários). Limitam-se, com isso, os sindicatos (cada um deve atuar no seu espaço diferenciado) e a própria liberdade sindical. Exemplo: um bancário não pode se sindicalizar junto com um industriário ou comerciário. Os trabalhadores que laboram em bancos devem ser representados pelo sindicato dos bancários, ao passo que os trabalhadores que laboram em comércio devem ser representados pelo sindicato dos comerciários.
O enquadramento sindical por categorias viola a liberdade sindical plena. A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 limita a liberdade sindical em dois aspectos: território e categoria. Quando o trabalhador vai criar ou se filiar a um sindicato, ele possui duas limitações: ele não pode criar ou se filiar a um sindicato que não seja o da sua categoria e só pode existir um sindicato representante da categoria por base territorial. Isso acarreta uma enorme crise de representatividade.
Exemplo: o trabalhador que labora em um banco é considerado bancário e, por isso, só pode criar um sindicato de bancários. Caso naquele Município já exista sindicato dos bancários, o trabalhador não poderá criar outro, tendo se que se filiar ao sindicato existente.
ESPÉCIES
As categorias podem se dividir em: • Categoria Econômica
• Categoria Profissional • Categoria Diferenciada
a) Categoria Econômica
É a categoria que diz respeito ao empregador. Recapitulando as noções introdutórias, os sindicatos são entidades representativas tanto dos empregados quanto dos empregadores. A categoria econômica é agrupada pela atividade econômica desempenhada.
gasolina).
b) Categoria Profissional
É a categoria dos trabalhadores. Trata-se de uma categoria reflexa (categoria espelho), pois o que define o enquadramento sindical dos trabalhadores é a atividade econômica do empregador. Na hipótese de o empregador desenvolver mais de uma atividade econômica, deve-se averiguar a atividade preponderante (a sindicalização se dará pela atividade preponderante do empregador).
Exemplo: se de um lado há um sindicato de postos de gasolina, do outro lado deve haver um sindicato dos trabalhadores em postos de gasolina. Tendo em vista que o sindicato dos trabalhadores é definido pela atividade econômica do empregador, não importa a função desempenhada pelo trabalhador (se é recepcionista, frentista ou gerente), se ele trabalha para um posto de gasolina deverá ser enquadrado naquele sindicato. c) Categoria Diferenciada
É a categoria que se dá, excepcionalmente, em razão da profissão exercida pelo trabalhador, e não pela atividade econômica do empregador. Deve-se aferir, em cada caso concreto, o ofício desempenhado pelo trabalhador. Exemplo: os advogados são representados pelo sindicato dos advogados; os farmacêuticos são representados pelo sindicato dos farmacêuticos.
CATEGORIA X SINDICATO
Segundo a definição trazida por Amauri Mascaro Nascimento, categoria é a base sociológica na qual o sindicato busca sua representatividade. Na verdade, de acordo a Constituição Federal de 1988, o sindicato tem a função jurídica e política de representar uma categoria, seja uma categoria profissional (de trabalhadores) ou uma categoria econômica (de empresas).
À vista disso, surge um questionamento bastante interessante: quem forma quem? O sindicato é originado pela categoria ou a categoria que se origina do sindicato?
No ordenamento jurídico brasileiro, não pode ser criado um sindicato fora da categorização já predeterminada, qual seja: atividade econômica do empregador. Existe, portanto, um preestabelecimento, não há uma liberdade para criação de sindicatos. O sindicato tem que ser um espelho da categoria (há uma categoria e de forma reflexa já vai existir um sindicato).
CATEGORIAS SIMILARES E CONEXAS
A representação sindical, via de regra, dar-se-á em razão de uma categoria específica (econômica ou profissional) que, por sua vez, é definida pela atividade econômica do empregador. No entanto, às vezes, por haver um número pequeno de trabalhadores em categorias próximas, a lei permite que o mesmo sindicato represente mais de uma categoria. Isso é o que chamamos de representação eclética.
As categorias similares e conexas estão inseridas naquilo que chamamos de representação eclética. O sindicato pode, ao mesmo tempo, representar mais de uma categoria, desde que as categorias sejam próximas (são as denominadas categorias similares e conexas).
Art. 570. (...) Parágrafo único. Quando os exercentes de quaisquer atividades ou profissões se constituírem, seja pelo número reduzido, seja pela natureza mesma dessas atividades ou profissões, seja pelas afinidades existentes entre elas, em condições tais que não se possam sindicalizar eficientemente pelo critério de especificidade de categoria, é-lhes permitido sindicalizar-se pelo critério de categorias similares ou conexas, entendendo-se como tais as que se acham compreendidas nos limites de cada grupo constante do Quadro de Atividades e Profissões.
Nos termos do parágrafo único do artigo 570 da CLT, em regra, o critério que deve prevalecer é o da especificidade de categoria. Entretanto, caso não haja força suficiente para criar um sindicato só, é permitido que haja sindicalização por categorias similares ou categorias conexas. Em síntese, a representação eclética ocorre quando categorias similares ou conexas se unem e são representadas por um mesmo sindicato.
Exemplo: as atividades de hotéis, bares e restaurantes são parecidas, já que todas lidam com alimentação, serviço ao público e turismo. Devido a isso, em cidades turísticas, como tais atividades estão voltadas para o turista (há um interesse comum), não é raro que elas sejam representadas por um só sindicato. Embora as atividades econômicas sejam diferentes, por serem similares (próximas), podem se aglutinar dentro um mesmo sindicato.
Nesse caso, excepcionalmente, haverá apenas um sindicato para representar os bares, restaurantes e hotéis (sindicato da categoria econômica); ao passo que também só haverá um sindicato dos trabalhadores em bares, restaurantes e hotéis (sindicato da categoria profissional)
Categorias Conexas:
São as atividades que, não sendo semelhantes, complementam-se.
Exemplo: várias atividades na construção civil (alvenaria, hidráulica, pintura etc.). Cada uma dessas empresas realiza uma fase diferente da construção civil e uma atividade complementa a outra (atividades econômicas conexas). Embora cada qual conserve sua especificidade, elas podem se aglutinar no mesmo sindicato de representação eclética: sindicato das empresas de alvenaria, hidráulica e pintura.
Como a organização sindical se dá, em regra, pela especificidade da atividade econômica, sempre poderá haver o desmembramento ou dissociação do sindicato. A aglutinação das empresas em um sindicato único só ocorre porque não há força suficiente para criar sindicatos separados. A partir do momento que há essa possibilidade, haverá o desmembramento ou dissociação daquele sindicato.
Exemplo: se for possível dividir aquele sindicato de bares, hotéis e restaurantes e transformar em três sindicatos separados, isso será feito, já que o critério geral é o da especificidade.
No tocante a essa questão da especificidade, há um julgamento interessante do Tribunal Superior do Trabalho (Informativo nº 100):
Representação sindical. Sinthoresp x Sindifast. Princípio da especificidade. Prevalência. Art. 570 da CLT. O critério definidor do enquadramento sindical é o da especificidade, previsto no art. 570 da CLT, de modo que o critério da agregação tem caráter subsidiário, aplicando-se apenas quando não for possível aos exercentes de quaisquer atividades ou profissões se sindicalizarem eficientemente com base na especificidade. Nesse sentido, em ação de cobrança de contribuição sindical ajuizada pelo Sinthoresp (Sindicato dos Trabalhadores em Hotéis, Apart Hotéis, Motéis, Flats, Pensões, Hospedarias, Pousadas, Restaurantes, Churrascarias, Cantinas, Pizzarias, Bares, Lanchonetes, Sorveterias, Confeitarias, Docerias, Buffets, Fast-foods e Assemelhados de São Paulo e Região) em face da empresa Burger King do Brasil S.A. – BGK, decidiu-se que a legitimidade para representar os empregados da empresa que atua no ramo de refeições rápidas é do Sindifast (Sindicato dos Trabalhadores nas Empresas de Refeições Rápidas (Fast Food) de São Paulo), pois não é possível imaginar que as condições de trabalho em restaurantes à la carte possam ser identificadas com aquelas típicas de estabelecimentos fast food, em que não há sequer o sistema de gorjetas. Com esses fundamentos, a SBDI-I, por unanimidade, rejeitou a preliminar de ilegitimidade recursal arguida em impugnação, conheceu dos embargos interpostos pelo Sindifast, por divergência jurisprudencial, e, no mérito, deu-lhes provimento para julgar improcedente a ação de cobrança ajuizada pelo Sinthoresp e restabelecer a sentença. Ressalvaram entendimento os Ministros Ives Gandra Martins Filho, Luiz Philippe Vieira de Mello Filho e Augusto César Leite de Carvalho. (TST. E-ED-RR nº 880-42.2010.5.02.0072. SBDI-I. Rel. Min. Alexandre Agra Belmonte. 26/02/2015)
O caso em comento envolve uma disputa entre um sindicato de restaurantes e um sindicato de empresas de fast food. O Tribunal Superior do Trabalho, apreciando a questão, entendeu que restaurantes de fast food são representados pelo sindicato específico de empresas de fast food, enquanto restaurantes que servem à la carte são representados pelo sindicato de restaurantes, visto que apresentam condições diferentes. Apesar de empresas de fast food poderem se encaixar no conceito de restaurantes, as especificidades da sua atividade fazem com que elas possam criar um sindicato específico. De fato, por serem categorias similares, essas atividades poderiam se reunir; todavia, havendo representatividade, nada obsta que seja criado mais de um sindicato, cada um com uma atividade econômica específica.
com base em categorias). Nesse panorama, o trabalhador não pode, livremente, sindicalizar-se ou criar qualquer tipo de sindicato, devendo ser enquadrado no sindicato da sua categoria.
Exemplo: o trabalhador que labora em um banco é considerado bancário e, por isso, precisa se filiar ao sindicato dos bancários.
Exemplo: o trabalhador que labora em uma indústria tem que se sindicalizar ao sindicato dos trabalhadores de indústria.
Nota-se, com isso, que os trabalhadores não têm livre escolha. É o que chamamos de sindicatos verticais (sindicatos verticalizados). Faz-se necessário definir, primeiramente, qual a atividade da empresa para que, através disso, seja formado o sindicato da categoria econômica. Em seguida, por paralelismo, todos os trabalhadores inseridos naquela atividade econômica são enquadrados em um sindicato da categoria profissional.
Via de regra, os sindicatos dos trabalhadores são definidos pela atividade econômica do empregador, salvo nas hipóteses de categorias diferenciadas.
Nesse sentido, dispõe o §2º do artigo 511 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT):
Art. 511. (...) §2º. A similitude de condições de vida oriunda da profissão ou trabalho em comum, em situação de emprego na mesma atividade econômica ou em atividades econômicas similares ou conexas, compõe a expressão social elementar compreendida como categoria profissional.
À luz desse dispositivo legal, compreendemos que a categoria profissional (categoria dos empregados) é definida pela atividade econômica do empregador.
Além da categoria profissional definida pela atividade econômica do empregador, também existem as chamadas categorias similares e conexas.
O que é categoria profissional?
É uma situação fática de similitude de condições de vida, ou seja, reunião de trabalhadores que estão na mesma situação de vida. Essa ideia está presente desde os primórdios do sindicalismo. No contexto da Revolução Industrial, pela solidariedade existente entre os trabalhadores que possuíam similitude de condições de vida (trabalhavam para as mesmas empresas e residiam na mesma vila operária), surgiu o sindicalismo.
Exemplo: o sindicato dos trabalhadores em escolas é formado por indivíduos que possuem similitude de condições de vida oriunda da profissão (laboram em escolas). Como as atividades dos empregadores são as mesmas, há razões para aqueles trabalhadores se enquadrarem no mesmo sindicato, de acordo com o nosso ordenamento jurídico.
SINDICATOS POR EMPRESA
No ordenamento jurídico brasileiro, é possível a sindicalização por empresa? Há possibilidade de criar um sindicato específico para determinada empresa?
A sindicalização por empresa não é aplicada no Brasil. O nosso ordenamento jurídico adota uma sindicalização por categoria, ou seja, a nossa sindicalização é oriunda da atividade econômica da empresa.
Exemplo: o trabalhador que labora no banco “A” não vai se sindicalizar a um sindicato específico dos trabalhadores do banco “A”, mas, sim, ao sindicato dos bancários (a atividade bancária é a atividade econômica). O ordenamento jurídico brasileiro não admite essa divisão por empresa. Os sindicatos abrangem todos os trabalhadores que trabalham na mesma atividade econômica, independentemente do seu empregador.
A sindicalização por empresa é criticada porque se argumenta que ela diminui a solidariedade, à medida que aumenta o individualismo. Toda vez que a solução pulverizar os sindicatos, é uma solução que fragiliza o sindicato. Por exemplo, dentro de uma atividade econômica existem empresas que são mais fortes e empresas que são mais frágeis; há empresas que possuem maior poderio econômico e concedem benefícios aos seus trabalhadores, ao passo que há empresas mais frágeis e que não concedem benefícios. Sendo assim, caso fossem criados sindicatos específicos para cada empresa, a força desse sindicato seria muito menor. Por esse motivo, todos se reúnem em um sindicato único naquele Município.
Apesar de não se admitir sindicato por empresa no Brasil, em cada empresa poderá haver a figura do representante dos empregados (Comissão de Empresa).
Embora no Brasil haja situações de monopólio, não podemos esquecer que o sindicalismo permanece sendo por atividade econômica do empregador, e não um sindicalismo por empresa. Por exemplo, há um monopólio
atividades de correios e telégrafos apenas representa os trabalhadores da única empresa que existe nessa atividade. Contudo, em momento futuro, é possível que seja criada uma empresa de correios concorrente, o que fará com que aquele sindicato abranja todos os trabalhadores.
SINDICATOS POR RAMO OU SEGMENTO EMPRESARIAL
Além de não ser admitida a criação de sindicatos por empresa, também não é possível fundar um sindicato por ramo ou segmento empresarial. Isso favoreceria a criação de grandes sindicatos, o que até seria bom para os trabalhadores.
Exemplos: sindicato dos trabalhadores do setor industrial; sindicato dos trabalhadores do setor comercial; sindicato dos trabalhadores do setor rural etc.
O nosso sindicalismo não é tão ampliativo, permitindo especificações conforme a especialidade de cada empresa. Então, pode haver uma especificidade da atividade econômica do empregador. Em outros termos, não é apenas o segmento/ramo empresarial do empregador, e sim a atividade econômica específica que ele desenvolve.
Exemplos: sindicato dos trabalhadores em indústria têxtil; sindicato dos trabalhadores em indústria alimentícia.
SINDICATOS DE MICROEMPRESAS (ME) E EMPRESAS DE PEQUENO PORTE (EPP)
No ordenamento jurídico brasileiro, não se admite a segmentação em virtude da constituição de microempresas ou empresas de pequeno porte.
Exemplo: não se pode criar um sindicato de trabalhadores de escolas constituídas em microempresas e empresas de pequeno porte. O fato de uma escola ser constituída em uma microempresa ou em uma empresa de pequeno porte não é justificativa para que haja diferenciação sindical. Os trabalhadores dessas escolas serão representados pelo mesmo sindicato que representa os trabalhadores de escolas grandes. Há, portanto, uma única entidade sindical: sindicato dos trabalhadores em escolas.
SISTEMAS SINDICAIS – CRITÉRIOS DE REUNIÃO DOS TRABALHADORES
A organização dos sindicatos é limitada. Trata-se de uma organização cuja determinação da reunião de trabalhadores é imposta pela lei.
Qual o critério adotado pelo ordenamento jurídico brasileiro para formação da categoria que será representada por um sindicato? Qual o critério adotado para estabelecer a reunião dos trabalhadores? Os trabalhadores se reúnem em razão da mesma profissão, por trabalharem na empresa ou devido à atividade econômica do empregador?
O nosso ordenamento jurídico adota, em regra, o critério da atividade econômica do empregador. Isto é, o trabalhador é categorizado de acordo com a atividade econômica desempenhada pelo empregador.
OFÍCIO OU PROFISSÃO DO TRABALHADOR
Segundo esse critério, a atividade particular (ofício/profissão) desempenhada pelo trabalhador é o que define o seu enquadramento sindical. No tocante ao ordenamento jurídico brasileiro, via de regra, os sindicatos são formados em razão da atividade econômica que o trabalhador está abrangido, e não em função da sua atividade particular. Em outras palavras, os sindicatos por profissão não são a regra geral no Brasil.
A adoção desse critério, todavia, é bastante complicada em termos de negociação. Isso porque, muitas vezes, uma mesma empresa engloba diversas atividades diferentes. Caso houvesse uma representatividade para cada profissão exercida, a empresa teria que negociar com múltiplos sindicatos representativos das categorias profissionais. À vista disso, o sistema adotado no Brasil não sindicaliza o trabalhador pelo seu ofício ou profissão, mas, sim, em razão da atividade econômica do seu empregador.
Exemplo: no âmbito interno de um banco há inúmeras profissões diferentes sendo desempenhadas (existem advogados, gerentes, caixas, técnicos de informática, recepcionistas, etc.). Entretanto, o sistema brasileiro
sindicaliza o trabalhador pela atividade econômica do seu empregador. A princípio, portanto, não
automaticamente, será um bancário e deverá ser representado pelo sindicato dos bancários.
Exemplo: se o indivíduo trabalha no comércio, independentemente da função que exerça, será
considerado um comerciário. Nesse caso, ele será representado pelo sindicato dos comerciários.
No entanto, excepcionalmente, o ordenamento jurídico brasileiro permite os sindicatos horizontais,
formados pelas chamadas categorias profissionais diferenciadas (artigo 511, §3º da CLT).
Art. 511. (...) § 3º. Categoria profissional diferenciada é a que se forma dos empregados que
exerçam profissões ou funções diferenciadas por força de estatuto profissional especial ou em
consequência de condições de vida singulares.
Exemplo: o trabalhador que labora em um banco, via de regra, é enquadrado na categoria dos
bancários. Um indivíduo que exerce função de advogado dentro do banco, todavia, não será
considerado bancário e deverá ser representado pelo sindicato dos advogados. Isso decorre do fato
de os advogados terem um estatuto profissional específico (estatuto da advocacia), o qual estipula
diversas normas singulares para os advogados (regras específicas para o contrato de trabalho). Nessa
hipótese, como há uma diferenciação acentuada naquela profissão desempenhada, justifica-se a
existência de uma categoria diferenciada.
Esses sindicatos são chamados de horizontais porque representam profissões dentro de empresas
de toda atividade econômica. Por exemplo, os advogados empregados em hospitais, bancos,
indústrias e na zona rural são representados por um único sindicado: sindicato dos advogados.
Em regra, no ordenamento jurídico brasileiro, a sindicalização não se dá pela atividade profissional do
trabalhador, e sim pela atividade econômica do empregador. A categoria diferenciada, por
conseguinte, é uma exceção.
CATEGORIA DIFERENCIADA X CONTRIBUIÇÃO SINDICAL
Os trabalhadores que pertencem a uma categoria diferenciada não são representados pelo sindicato
da atividade econômica do empregador, e sim por um sindicato específico. A contribuição sindical
deve ser vertida, evidentemente, para o sindicato específico.
Exemplo: os farmacêuticos têm regramento especial, razão pela qual é considerado uma categoria
diferenciada. Então, um farmacêutico que trabalha em um supermercado não será representado pelo
sindicato dos trabalhadores em supermercados, e sim pelo sindicato dos farmacêuticos. A sua
contribuição sindical, por seu turno, será vertida para ao sindicato dos farmacêuticos (sindicato da sua
categoria), e não para o sindicato dos trabalhadores em supermercados.
ANÁLISE JURISPRUDENCIAL
Nesse tópico, analisaremos alguns entendimentos proferidos pelo Tribunal Superior do Trabalho no
tocante à categoria diferenciada.
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