MÓDULO 7 – A política brasileira para exportar
Sob o ponto de vista da economia nacional, um dos principais motivos para um país exportar é a necessidade que ele tem para pagar suas importações. Já, analisando sob o ponto de vista empresarial, o exportador absorve tecnologia e atinge novos mercados, o que provoca maior notoriedade nacional e internacionalmente, além de aumentar sua produtividade.
A exportação proporciona ao país uma abertura para o mundo e é uma forma de se pôr à prova em outros mercados para verificar sua capacidade tecnológica. Dessa maneira, as empresas exportadoras assimilam e agregam técnicas e conceitos aos seus produtos e à sua estratégia no mercado interno, por exemplo:
· Maior produtividade – exportar implica em aumentar a escala de produção existente, através da utilização plena da capacidade da empresa otimizando os processos produtivos. Dessa forma, a empresa poderá, inclusive, minimizar seus custos de operação e aumentar sua margem de lucro, tornandose mais competitiva e rentável;
· Diminuição da carga tributária – a empresa pode conseguir uma compensação no recolhimento dos impostos devidos internamente, através da exportação, da seguinte forma:
a) sobre produtos exportados não incide o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados);
b) sobre produtos industrializados, semielaborados, primários ou prestação de serviço, que forem exportados, não incide a cobrança do ICMS (Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços;
c) para o cálculo da COFINS (Contribuição para Financiamento da Seguridade Social), as receitas decorrentes da exportação são excluídas;
d) as receitas provenientes da exportação também são isentas para o cálculo do PIS (Programa de Integração Social) e PASEP (Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público);
e) o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), aplicado também exportação de produtos e serviços, através das operações de câmbio, tem alíquota zero.
· Redução da dependência das vendas no mercado interno – o ingresso em mercados externos proporciona ao exportador maior segurança contra possíveis oscilações na demanda interna;
· Aumento da capacidade inovadora – as empresas exportadoras tendem a ser mais inovadoras, pois a concorrência externa “obriga” a uma constante adaptação tecnológica. Com isso acabam introduzindo novos processos de fabricação e padrões de qualidade mais rigorosos;
· Aprimoramento de recursos humanos – as empresas exportadoras destacamse também por investirem em seus funcionários: oferecendo treinamentos, melhores salários e oportunidades de ascensão;
· Aperfeiçoamento dos processos industriais e comerciais – através da constante melhoria na qualidade e na apresentação dos seus produtos, a empresa se torna mais competitiva, tanto no mercado interno quanto no mercado externo;
· Imagem da empresa – o fato da empresa atuar no mercado internacional tornaa uma importante referência no Brasil, pois sua imagem passa a ser associada à padrões internacionais de qualidade, o que reflete positivamente para seus clientes e fornecedores.
Portanto, a exportação é o caminho mais eficaz para uma empresa garantir o seu espaço em um mercado globalizado e competitivo. Mas, existe um preço para a conquista desse espaço: as empresas que desejam exportar devem estar plenamente capacitadas para enfrentar a concorrência internacional, o que implica em aporte de recursos financeiros.
Para a economia brasileira, a atividade exportadora também possui uma grande importância estratégica: por contribuir com a geração de emprego e renda, por gerar divisas para equilibrar a balança comercia e por promover o desenvolvimento econômico nacional.
7.1. O desenvolvimento das exportações brasileiras (1998 a 2005)
O histórico do comércio brasileiro no exterior não é muito bem sucedido ao ser comparado ao resultado mundial. Na realidade, de acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio (MDIC), o Brasil não obteve rendimentos significativos em sua balança comercial desde a década de cinqüenta.
Ao longo do tempo, muitos governos buscaram resolver o problema do saldo da balança comercial brasileira através de pacotes cambiais. Mas, somente nos últimos anos, podese constatar que houve uma evolução das exportações brasileiras. Notoriamente, de acordo com a tabela abaixo, as exportações brasileiras em 2005 superaram quase três vezes as exportações de 1998.
Participação (%) Ano Exportação Brasileira
(US$ bi) Variação Anual (%) América Mundo Exportação Mundial 1998 51.1 6,5 0,95 5.386,0 1999 48.0 6,1 8,9 0,86 5.583,0 2000 55.1 14,7 9,1 0,88 6.295,0 2001 58.2 5,7 11,4 0,97 6.031,0 2002 60.4 3,7 13,1 0,96 6.306,0 2003 73.1 21,1 14,4 0,99 7.365,0 2004 96.5 32,0 16,0 1,05 9.191,0 2005 118.3 22,6 14,9 1,14 10.393,0 Fonte: Ministério do Desenvolvimento da Indústria e Comércio (MDIC)
A participação do resultado brasileiro na economia mundial, em 2005, chegou a 1,14%, a maior no período citado. Mas, quanto à participação na economia das Américas, o melhor ano foi 2004, com 16,0%.
Agora, observe na tabela a seguir o saldo da balança comercial brasileira, no período de 1994 a 2005.
Ano Exportações Brasileiras (US$) Variação Anual (%) Importações Brasileiras (US$) Saldo da Balança (US$) 1994 43.545.149 33.078.690 10.466.459 1995 46.506.282 6,80 49.971.896 3.465.614 1996 47.746.728 2,67 53.345.767 5.599.039 1997 52.982.726 10,97 59.747.227 6.764.501 1998 51.139.862 3,48 57.763.476 6.623.614 1999 48.011.444 6,12 49.294.639 1.283.195 2000 55.085.595 14,73 55.838.590 752.994 2001 58.222.642 5,69 55.572.176 2.650.466 2002 60.361.786 3,67 47.240.488 13.121.297 2003 73.084.140 21,08 48.304.598 24.779.541 2004 96.475.244 32,01 62.834.698 33.640.547 2005 118.308.387 22,63 73.599.631 44.708.756 Fonte: Ministério do Desenvolvimento da Indústria e Comércio (MDIC)
Podese perceber que durante pelo período de 1995 a 2000, o saldo da balança comercial nacional mantevese negativo. Somente em 2001, após o controle das importações e incentivo à exportação, o saldo da balança ficou positivo. Isso vislumbrou nos micro e pequenos empresários a possibilidade de atuarem no mercado exterior.
7.2. Tipos de exportação
As exportações de bens podem ocorrer, basicamente, de duas formas: direta ou indiretamente.
· Diretamente: quando o exportador fatura e remete o produto ao importador, mesmo que a venda tenha sido realizada por algum intermediário ou representante. Nesse tipo de exportação cabe ao exportador conhecer todo o processo de exportação e trâmite legal. Geralmente, é necessário que a empresa tenha um departamento específico com pessoal qualificado para esta atividade. Vale ressaltar, que o produto exportado, sob essa condição, é isento do IPI e não ocorre a incidência do ICMS, além de se beneficiar dos créditos fiscais (ICMS) que incidem sobre os insumos utilizados no processo produtivo.
As trading companies, são empresas comerciais exportadoras que gozam de um tratamento tributário individual. As vendas faturadas por exportadores para elas assumem caráter de exportação direta. Logo, o exportador conta com a isenção de impostos, previsto em lei para a exportação direta, e se exime das
responsabilidades sobre a continuidade da transação. Estas empresas foram criadas pelo decretolei 1.248 de 1972, e têm seus registros concedidos pelo Departamento de Operações em Comércio Exterior (Decex) e pela Secretaria da Receita Federal (SRF).
· Indiretamente: o produtor vende o produto a um intermediário, estabelecido no mesmo país do produtor, com o objetivo de exportálo. É necessário que a transação seja discriminada em Nota Fiscal. Os impostos não incidirão sobre a venda, desde que ela seja efetivamente realizada, caso contrário, o produtor deverá recolhêlos. O intermediário pode ser: o Uma empresa comercial exclusivamente exportadora; o Uma empresa que atua com exportação e importação; o Uma cooperativa ou consórcio de exportadores.
Apesar dos consórcios de exportação serem bem sucedidos em muitos países, no Brasil eles se encontram em fase de desenvolvimento. Tratase de empresas exportadoras que se associaram para reduzirem seus custos e aumentarem a oferta de seus produtos aos mercados externos, ampliando suas exportações. Estes consórcios são constituídos por empresas que desejem exportar e que seus produtos sejam complementares ou até mesmo concorrentes.
7.3. Modalidades de pagamento
Para evitar os riscos inerentes a qualquer transação comercial as partes envolvidas (vendedor e comprador) devem tomar certas precauções quanto ao pagamento e ao recebimento da mercadoria.
A mesma precaução deve ser tomada no comércio internacional. O exportador, ao remeter a mercadoria ao exterior, deve ter garantido o pagamento. Enquanto que o importador deve estar seguro quanto ao recebimento da mercadoria, de acordo como foi negociado com o exportador.
É extremamente relevante em uma transação internacional que a forma de pagamento e as condições de recebimento da mercadoria estejam definidas com clareza entre as partes. Logo, a modalidade de pagamento escolhida deve englobar os interesses dos envolvidos, em particular, nas áreas: comercial, financeira e de segurança. Então, as partes podem optar por:
a) Pagamento Antecipado:
Na modalidade Pagamento Antecipado, o importador paga ao exportador antes do embarque do produto. Esta modalidade é utilizada nos seguintes casos:
o Quando o importador não transmite credibilidade ou quando o exportador é inexperiente e não conhece seus parceiros;
o Quando é necessário o financiamento para iniciar a produção ou para reforçar o capital de giro do exportador;
o Quando o valor da transação é baixo;
o Quando o produto a ser exportado é de alta tecnologia ou produzido sob encomenda, o pagamento antecipado servirá como uma garantia, para o exportador, contra o risco do cancelamento do pedido.
Ao exportador cabe encaminhar os documentos originais de exportação ao importador no momento que embarcar a mercadoria, para que este consiga desembaraçála no seu destino. Cópias dos documentos de exportação devem ser remetidas, pelo exportador, ao banco responsável pela contratação do câmbio.
Esta é a opção mais interessante para o exportador, que recebe o pagamento antes do envio da mercadoria; e mais arriscada para o importador, que pode não receber a mercadoria ou, até mesmo, recebêla em condições que não foram acordadas com o exportador.
b) Remessa direta (ou Remessa sem saque):
Nesta modalidade o importador paga somente após o produto ser embarcado e haver recebido a documentação para o desembaraço aduaneiro.
A Remessa direta ou Sem saque pode ser utilizada sob as seguintes circunstâncias:
o Quando se deseja evitar o custo com a intermediação bancária da operação;
o Quando se trata do envio para empresas interligadas (matriz e filial). O risco representado para o exportador é muito elevado, pois toda a transação é baseada somente na confiança no importador. Logo, esta modalidade é recomendada para transações entre clientes tradicionais.
c) Cobrança Documentária:
Nesta modalidade, após o embarque da mercadoria, o exportador emite a letra de câmbio (ou “saque” ou “cambial”), que é encaminhada ao banco negociador do câmbio (banco remetente), juntamente com os documentos de embarque. Este encaminha a letra de câmbio e os documentos para o desembaraço da mercadoria ao seu banco correspondente no país do importador (banco cobrador), via carta cobrança.
Ao receber toda a documentação, o banco cobrador remeteos ao importador, mediante o pagamento (se a transação for com pagamento à vista) ou o aceite do saque na letra de câmbio (se a transação for com pagamento a prazo). Já com os documentos em mãos, o importador desembaraça e retira a mercadoria no ponto de destino acordado com o exportador.
Há casos em que o exportador pode enviar diretamente ao importador os documentos para a retirada da mercadoria. Dessa forma, o banco cobrador deve apresentar a letra de câmbio ao importador para receber o pagamento ou o aceite. Nesse caso, se, na letra de câmbio, o importador se recusar a pôr o seu "aceite", o exportador ficará incapacitado legalmente para acionálo judicialmente, uma vez que o importador já está de posse dos documentos para retirar a mercadoria.
Logo, dentro do procedimento normal, se a operação for acordada à vista, o risco do exportador é limitado, pois os documentos que irão desembaraçar a mercadoria serão liberados somente após o pagamento. Mas, no caso de ter sido
acordado a cobrança a prazo, o importador poderá retirar os documentos do banco cobrador para desembaraçar a mercadoria somente após dar o seu “aceite” na letra de câmbio, que lhe será apresentada para pagamento após o prazo acordado ter decorrido.
As regras para esta modalidade de pagamento foram estabelecidas pela Câmara Internacional de Comércio (CIC) através da Publicação nº 552, que definem todas as obrigações das partes.
d) Carta de Crédito:
A Carta de Crédito é uma ordem de pagamento, emitida por um banco (banco emissor) na praça do importador (tomador de crédito) a seu pedido, em favor de um exportador (beneficiário), que somente receberá o pagamento se atender a todas as exigências nela descritas, como: valor da transação, beneficiário, documentação exigida, prazo, local de embarque e desembarque, descrição da mercadoria, quantidade e outros dados necessários para a exportação.
Após a mercadoria ter sido embarcada, o exportador deve entregar os documentos para desembaraçála a um banco (banco avisador) de sua praça, que, geralmente, é o mesmo banco negociador do câmbio. Este, após conferir os documentos estabelecidos na carta de crédito, paga o exportador e remete os documentos ao banco emissor, que entrega os documentos ao importador para desembaraçar a mercadoria. Vale ressaltar que o pagamento ao exportador depende somente dele, isto é, que cumpra o que está descrito na Carta de Crédito (prazo, seguro, transporte etc).
A Carta de Crédito é válida para operações com pagamento à vista ou a prazo e, por ser uma garantia bancária, acarreta custos ao importador, como: taxas e comissões. Estes custos variam em função da análise cadastral do importador, da sua capacidade financeira, das garantias oferecidas, do prazo de pagamento, das condições internas do país etc.
Portanto, esta modalidade é uma alternativa ao exportador que não quer assumir riscos comerciais, uma vez que o responsável pelo pagamento é o banco emissor da Carta de Crédito no país do importador.
A Carta de Crédito, quanto à sua classificação, pode ser:
o Irrevogável: não permite o seu cancelamento unilateralmente, salvo se houver concordância expressa entre o banco emissor e o exportador. Beneficia o exportador.
o Intransferível: não permite que o beneficiário (exportador) transfira seu valor a terceiros. Beneficia o importador.
o Confirmada: beneficia o exportador ao garantir o seu pagamento, por um terceiro banco, que remeterá divisas ao país onde o exportador mantém suas atividades, em caso de inadimplemento do banco emissor.
Qualquer alteração destas três características deve estar expressamente acordada entre as partes.
A Câmara Internacional de Comércio (CIC) estabeleceu as normas para emissão e utilização dessa modalidade através da Publicação nº 500, que são aceitas mundialmente.