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A Escola Primaria, 1929, anno 13, n. 1, mar., RJ

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(1)

,

ANNO XIII N.

1

Numero avulso

·

1$500

Director: ALFREDO C. DE ~,. ALVIM

ASSIGNATURA

Para o Brasil - Um anno. . . 15$000 Hedacção : RUA 7 DE SETEMBRO, 174 6 m ezes. . . 8$000

SUMMARIO

.

O ensino 1>articular

Ovidio Oecroly.. . . . Liberdade e educação

C-clina Padilha. . . . . . . . Dos fins e 1nethodos da escola nova

Gilda fontenclle.. . . • . • • • . • Circulo de paes

Mari o de Li 111a • • • • • • • • • • • • • • • O ensino religioso nas

es-escolas

·

-P. A. Pinto ....•... Consuelo Pinheiro . •••..•... Mestre-Escola ... . Othello Reis .•..•...•..•..• ,. ,. • • • • • • • • • • • • • • • • • • • Sebastíana de figueiredo .. ... . Mittdezas de linguagen1 Pl atica da escola activa Trcs palavrinhas Educação do ho111en1 e do cidadão Ocogra1,hia Arithmetica

ENSINO

PARTICULAR

1

T

indo, em boa

hora,

ao

encontro

mais

de u,na

vez.

Mas estd

1io

conheci·

de

antigas as/Jirações,

varías vezes mento de

todos,

ou

de

q11asi

todos,

qtie

co11signadas

nesta

pagina,

estatuiu

a

etn

nu,nerosissimos

estabeleci11zentos

par-11ova

lei do

e1zsino do

Districto

Federal,

ticttlares ne,,z

1io que

toca

ao material

dec. n. 3281 de 23 de

Janeiro

de

1928,

1ze,n

no

que

se

refer

e

ás

condiçlJes

i1z-alg·u1zs 11receitos relcttivos ao registo

e

á

trinsecas do /Jessoal

são

satisfeitas as

1i1s;Jer:çiio

do

e11si1zo pri11zario

ptzrticttlar.

eler1ze1ztarissi1nas exigetzcias legaes.

() q11e se

exige

é~

como

co1z1-,lnz,

Q11,a1id~

fôr

!!ossf

11el.

i12troduzi(

al-11111ito pouco,

afi111

de

11ão

tolhe,,.

a

li- gamas

r,iodiftcafo.es

a

lei

acttial,

liao

de

herdade dos

directnres

e

;;rofessores

do

lembra~

-

se ~s

dtJ"tgentes,.

,,ze,,zb,~os

dopo-r11agisterio privado, mas

é

rzecessario,

der

legislativo

e execut~vo,

de amparar

por isso rnesrno, que as autoridades nzu- melh~r, rzess:-s ef

/.abelecun.entos~

?

snrte

11ici11aes

não ~;e

desc1tide1n

enz

fazer

en- d~

PI

ofesso, ·

E

o

111est1t1

11a1ttc1tlar

o

t'

ar

110

regimen prescr;pto os

estabele-

pa, ta, o

escravo explurar~~· _aqu.elle '!ªe

i"111e11tos em

qtte

tal

ensi110

se 11zi11istra

sea

esforço, sua

dedtt

a~ao, o

brtl/10

e _ . . _ · totln

ele seu

es11irito

/Jor

e,çtipe,idios

que

Nao

basta

a

LIJZ/Jo

Siç~o de

algitmcts ttão

passa

11z, e11i

geral)

aa

categoría

de

11lul.tas

aos

que.

JJor

desle_ixo

ou ,/Jor /J~o-

11!

iseraveis

es/Jortzilas.

A

liberdade

de

!?

0

s_ito

~e fzirt~nt

ao registo· .

E

.P':el·rso

escolher

1nes11zo

e1ztre

os

que,

não se11do

qtze. a ins;;ecçao escoln;r este;a

vig_ila,zte,

professores de

carreirti,

f

or1iece111 um

tra-obr~gp,1zdo

ce_rtos collegios ~o respeito

do~ balho

de

coolies,

levar os di,:ectores se11z

·

fer.1c1dos nactona~s, que._ izao fora,n

inst,.

escrupizlo

a regatear de tal

sorte,

tJue

o

tuidos Plf'.ª

octo e si,n .co,no

nieto

de

nzagiste,,.io privado te11z

ae

ser

unz

pis

calt1t.ra

.ct~ica ;

que

o enst~o de

«toda!»

aller.

Vae-se

para elle

enzq1ta1zto

não se

as

dzsct/Jltnas,

.com

exc~pça~

~o

de

lttz-

obte,n

q1ialquer.

coisa

q1ze

co,npense.

guas

estrangeiras, seJa ministrado em /1zstitlta o snr. FernatYdo de Azevedo

portug1lez

·

,· t/tle o edifiªcio e os liorarios co,n O prestigio qrle justa1ne11te

aureol;

satisfapam ás condiçô~s hygte11;icas

e

pe- seu

1zo1ne

e secundado /JOr esforçados

~

dagogicas ; que o en~u10 da lt~gua. ver- obreiros como Serrano e Piragibe,

que

1,1,ac11~a,

d_a geogrt:,pliia e

da historia

do bem de

/Jerto viranz

e

conhecera11z

a

i1zse-q

\

Brasil se1ani

confiados a prof esso!'"es na-

g11ra1iça

e

a dureza

do

nzagisterio

priva-cio11aes. , . _;4,C

do,

de

que

viveram,

a

alforria

do

profes

4

-...

Desejam

til.ff

f

rec

r.d1/fâ~

d.f

sor

r:

IJ,articular e a_ccresctnterá luzente

factos concret ,

~

fl!

iJ;

~

os

ll»caph'Gzas

~

JJiJfp

ffi4Cllerecido

renonie •

. J J •

1

e

- . . - , . , . . , ~

-

-

·

·

~----Coll

Registro

.

..

·~ ··· ... -. ... ' ..

(2)

,

l

1

-A

ESCOI~A

PRIMARIA -

Ma1·ço

de

1929

___

_

_

_,,_

____

_

. .

-

· -

-

-

- . . .

-

·-

-

- - -

- -

- - ~- --- -- -

-

-

-

·

-OVIDIO DECROLY

Este trabalho do illustre pedagogo 'belga, tão ja nosso conhecido foi

. lido no 11, <',,,,.!J'''!!lti,, l11lt!1'11t1ci,,1,.a.l ,,,~ E,11,,•,i,111,,

íl

'

,,

,

,,,

realizado, e1n Locarno, em Agosto do anno passado_ ,

A sua traducção, devemol-a ao Sr. Prof. Luiz l'almeira, que tendo

recebido alguma,s publicações referentes áquelle " certamen'' pedagogico

jul-gou por bem nos offerecer a conferencia do conhecidissimo director da

''Escola para a Vida", de BruxellaR .

A libe1·dade na edt1cação

é

un1 p1·0

-

obstaculos para que nao

se

dê 1Jl na

li-blema que tem sido aboi·dado, amiuda- be1·dade, co11soante a natui·eza do

i11di-damei1te. Milhões de homens inori·eram

viduo

mesmo. Não póde ha ,

,

ei

·

u111a 1

·

~-e

outros tantos pensam, aincla, morrei·

g1·a

gei·al;

cada caso

de,

,

e sei·

co11s1-por

ella

. Ouvimos

em

to1·no de nós

o clP,i'ado segundo set1s c1·itei·ios,

pai·a a

g1·ito pela libe1'dade dos povos, in[ts

a

possibilidacle de podei·

sei·

dada

c?n1-libe1·dade dos meninos não nos

ten1

pleta

ot1

parcial libei·dade ao meni110,

preoccupado, emboi'a

seja,

quiçá, um cm razão

elo

seu propi·io be

.

n1 con10

outro pr·oblema de i·eal importancia. igualmente,

em

i·azão do pi'opi·10 bem do

Ha uns quantos

.

que pedem libei·dade

g1'upo.

.

.

para si, poi'ém a negam pa1'a os demais :

Si

estudai·mos

os meninos em face

outros reclamam t1ma libetdade

a ex-

deste pi·oblema,

vei·ificaremos

que c~da

pensa dos ot1t1·os.

um delles diffei'e dos demais e n~o existe

A pa

l

av1'a libe1'dade

se

usa, oi·dina- 1·eg1'a unica pa1·a

concede1·-se

liberdade

i

ame11te, nt1m sentido m11ito i·est1·icto

ou

.

o

.

A iclade

é

o pi·in1eii·o f~ctoi·

·

pe

l

os mesti'e;::; e paes

.

Estes a confundem Ev

i

dentemente, um gai·oto de se

i

s a11

-com a licença. Pensam

elles

que libei·- nos tem n1ais

l

ibei·dade

_

qu~ um de ti·es

.

dade é, apenas,

D

pi·ocedei· ma

l

ou o não Poi' out1·a pai·te ao p1·

i

me1i'O se dá

me-fa

z

e

i

·

n

ada;

ent1·e-tanto

existe a

l

ibei'- nos indulgencia

e

menos conces~ão q~e

dade pai·a fazei' o bem .

-

ao de ti·es

.

O n1esmo se póde dizer do

O

i·a,

é

mu

i

to n1a

i

s f'aci

l

pi'ol1ibir

·

que menino de nove ou de dôze annos

. O

d

ii·i

gir; m

u

ito mais fac

.

il confeccionai· sexo

é

out1·0 facto1·

..

Fal

l

ando:se de ~m

u

m

cod

i

go, do que não se

clevei'

i

a fazei·, modo ge1·al, as men

i

nas acceitam

ª

.

~is-do que daqu

i

l

l

o que se devei·ia fazei'

.

ciJ)

l

i11a 111ais faci

l

me!1te que os men

in

o~,

A maio

i

'

i

a, pois, elos

i1

1dividuos teme a aq n1cnos tenho

eu

isto obsei·vado;

_

d

i

-li

be

r·d

a

d

e pe

l

o ma

l

entendimei1to da pa- zen1

-

i11e, toclavia, que não é tanto, ~ss

im.

l

avra

.

As condições physicas en~1·am

1

g

u

a

l-L

t

b

e

1

·dade

r

e

l

a

t

i·z,a. -

Ha condi- mente em conta

.

Uma c1·1ança e

n

fe

i

'

-ções q

u

e

li1

nitam a

li

be

dade de acção ma é 111a

i

s pass

i

va

.

q

u

e 11ma sa

ud

a

-na

l

ibei·

d

ade de acção na

esco

l

a

.

Existe ve

l.

O 1notor se~soi'

i

al, sab

_

emos, co

n-u

m co

n

f

li

cto

i

nev

i

tave

l

em cei·tos pon

-

d

i

c

i

ona a matei'

i

a

.

O men

i

no q

u

e

pa-tos entre os d

ir

e

i

tos e

i

nteresses do

i

n-

i

'ece desobed

i

ente e pe

1

,t

u

i·bado1' pode

dividuo

·

e os do g

1

·

u

po

.

.

Ha, ta

m

bem, se

i

·

u

m me

ni

110 deb

il

do 011v

i

do ou da;

A ESCOLA PRIMARIA -

Março

de 1929

3

-1

vista, e portanto, não

pe1·cebe

bem.

evita te1· companhei~os e

nada faz .

se

te11dencias do1ninantes, os

instinctos

do

nllo

é

estimulado e aJudado

pelo p1·ofes

-menino devem ser,

tamb

e

n1,

tidos em so1·.

Ha out1·os

mais, entretanto, a

que111

conta tal como

as

cii'cun1stancias

·

do-

se

pode

confiar,

plenamente, poi·que

mesticas.

Um petiz

com

irmãos

e

ii·

-

trabalham

bem

que:

so.zinhos,

. que1'

em

mãs se adapta muito

n1ais

sua,

,

emente, g1·upo, e exercem boa

infl11enc1a

sobr·~

.

quando

vae á escola, que

um

outr·o, fi

-

os collegas.

De

out1·0

lad?, ~e.mos

os

que

lho

u1rico, sobi·e o qual o

inter

e

sse e a pensam e t!'ª?~lh~m

d1re1t1nhos, mas

atte11ção

do lai·

estão concent1

·

ados. Os carecem de

i111c1at1va

e

pei·sev_e1·ança.

conhecimentos

·

ace1·ca

do

n1e11i110 suas

Estes,

constanteme11te,

necessitam de

experiencias ante1

·

io1'es,

detern1ina~ sem ajuda

do pi·ofesso1·,. pois

se

disti·ahem

duvida,

o gráo

de liberda

,

de que

elle

po- a

todo

momento. ~xistem,

tam?em,

os

derá

gozar.

que na~

só se cl1st1

·

aheJ?,

facilmente

Tgpos dif

f

e,·entes

li'berciades dif-

como d1st1·ahem os demais. Estes

são

os

-F. ,

t

_

p

'· ha

observaf'

.

llO ext1·emos q11e temos encontrado: o

apa-1

er en es.

or

min

y

th·

t b d

d

1

d

d.

irecta, nas

escoas, com

1

as quaes.

t

e

-

1co

f. d

e

o pe1' ui'

,

i

mesn10 e cliano de confi-

a or, e

um

a

o,

e

o

nho

estado em contacto

po

s

·o

d1ze1·

con

1

ª

0

ª

8 i:,

'

·

an('a do out1·0 com toda classe

tle

va

-que

ha

alguns typos aos quaes

l1be1·da

-

.

Y '

t

'd·

d

.

e se

po

d d

e

ª

1', emquan

t

°

que ª ou

tros

'

riações in

As

mesmas

ei·me

diff'e1'

ias.

e

nças vemos

ti·es

não. Tenho

a

i·espe~to notado

que al

-

n

a

ois

no

a1·u o

dos de nove an

-guns delles,. aos

seis e ª?s

nove

annos,

an

os :smo em

~mpde doze

ainda

de-não

esta.o ai11da em condições

de

ser-

no~

e

O

.d-

.

1

.

'

1

h

es conce

d.d 1

1 a i

·

b

er a e,

'd

d

mesmo ~u

e

al- pois dos annos de 1scip 1na

eia escolar.

Temos uma menina de nové

e expe11ene

canc.e:11

dose annos, tal . a

sua

i_nada: an11os que

é

bôa nos

estu

·

dos; po1·én1

-pt~~il1dade

escolar.

Quiçá, possive~

e

um pouco lenta na aula de cozinha

.

E'

cre,r-se que a

escola,

n~da te11ha fe,1,to algo difficil

en1 seu cai'acter,

obstinada,

po1

0

elles,

facto que

e ~erto

não

occo11 e. susceptivel,

mas

é

r·esponsavel

e sabe

Albumas

cousas

ha, r ealmeute, q11e a

como

O

ti·abalho oi·ganizai·. Pode-se

dei-escola

nada pode fazer.

xai· esta

menina

em

completa libe1·dade,

Po1·

exemplo:

Temos nun1a mes1na obtendo-se bons resultados

.

Na mesma,

classe um menino que 11ão attingiu os classe ha um garoto de mentalidade me

:

sete

annos,

e

a quem

se

pode dizer-<

<

fa

-

dia gosando pouca saúde, que

é

p1·egui-ze o que quip1·egui-zei·es

>>:

é

um menino mui- ços~ e falto de iniciativa e per·seve

-to activo e intelligente, sempi·e a tra- i·ança. Necessita vigilancia em se11

ti·a-balha bem: sozinl10, longe dos ou- balho. 01'a, minhas conclusões ti1·adas

ti·os; outi·o,

ainda, é

quasi igual ao pi·i- de todo

es e

mate1·ial, que tenho

ac-meii'o, mas })recisa,

em

muito gráo,

·

do cumulado,

é

que devemos conci·etiza1·

e

estimulo

da approvaçílo da

classe; ou

-

generalizai·. Se a um pi'ofessor, que

e.

-t1·0 não pode ti·abalhai· dii·eito

senão com

em

antagonismo

com

todos esses pi·o

-os collegas; outro ~·

.

ó pode trabalhai' blemas pessoaes diffe1·entes,

disserdes-bem

se é

o pi·imei1·0 do gi·upo ou

se

a

<<Sêde

a111igo da libei'dade>>-fa1·eis

ou-matei·ia de estudo lhe intei·essa, parti- t1·0 inin1igo de

l

la. Nao ha nada (

1

1em

culai·1ne1ite.

Um menino timido, a1Ja- pocle1·á havei·) que faça co111 que a

li

-thico, tendo sido mal

educado em

casa, be1·dade seja completa na

escola.

Cada

(3)

• ' 1 • '

A

ESCOLA

PRIMARIA

-Ma1·ço

de

1929

'

4

menino te1·eis q1le

estudal-o

cial-o.

e differen-

5

·)

Te1·

en1

conta a

idade

e

de1nais

factores

individuaes

pertinei1tes a cada

men1.no.

A maioria dos

g1·andes educadoi·es

do passado, ainda aquelles

que ama,

r

~m

a liberdade não pensaram de

,

outra

foi·-

+ ili •

ª

~e

~--id • 9

º

ª •

e; •

~

-

+c-a-+

-

3 -.

ma. Assim

,

0

fez Fenelon, que

se

inani-

Dos fi11s e methodos da escola

festou contra1·io á

<<

disciplina

>>

do

me-nino affirmando que

a

obediencia deve

ser imposta

em

certos

casos,

ainda

que

seja melho1· 11sar

-se

da persuasã_o que do

medo. Montesso1·i, a quem cons1de1·amos

uma g1•ande

lib

ertado1·a

da infai:cia, não

1·ecommenda

semp1·e,

uma l1be1·dade

illimitada. Ella reconhece un1 limite

quando os di1·eitos do a_lumno

entram en1

conflicto com

os

dema.1s. Ellen Key,

011-tra grande libertadora,

c1·ê

que

?

meni

-no deve

sei·

<<

disciplii1adó

>>

especial1nen-te nos t1·es primei1·os

a11nos

~e

Slla :Vida,

para que possa gozar· depois da

libei·-dade. Po1· outra pa1·te, Foe1·ste1·,

o

g1·ande ci·ente da disciplina, pensa que

a coacção

é

o pi·1mei1·0 gi·áo_ de

ecl1lca-ção, na p1·epa1·ação do menino par·a a

livre obedie11cia. N

enhtln1 clestes

ecl11-cado1·es defe11cle,

céga111ente,

uma 1·eg1·a

o·ei·al pa1·a

todos

os

meninos

cm

todas

~s circ

·

u111stancias.

O

p1·01Jloma da libe:

·

-dade é, 1·ealn1ente, o lJroblema

elo

n1eni-no individualn1ente

conside1·ado. Em

'

vlguns casos ha que f'aze1· tal

cousa; em

O

utros outra

·

mas no con1mum das

hy

-'

'

1

potheses se 1Joclem applica1·,

co1n a

gu-ma extensão, estas :µ01·gu-mas:

.

1 ·) 01·ga11iza1' o an1biente pa1·a

l1be1·-ta1· os meninos

e

despe1·tar-lhes

set1s

molho1·es instinctos;

2·) Pr·epa1

·a1·

os pr·ofesso1·es pa1·a a

libe1·dade

;

.

2·)

Escolhei· pi·ofessores que saiba~

usar

da libe1·dade

e do ambiente, merce

uma

f

órma social ;

4·) Cultivai· em cada menino os

ins-tinctos sociaes ;

nova

A

e3cola 11ova baseia sua

methodo-logia nos modernos conceitos de

psy-chol ogia

infantil

e vê a cria11ça como tttn

ser, embora em evolução,

completo

em

cada idade em que seja considerada.

Assim, em vez da preoccupação de

preparai-a para a vida do adulto,

trata-se

-

de permittir que viva cada momento

de sua

vida

da maneira rnais completa,

dentro de

sua

capacidade.

EJucar

é,

nesse caso, dirigir a

cri-ança

de modo que adquira nas

expe-riencias que vae realizando,

poss:bilida-des cada vez maiores de ve11cer os

obs-tacttlos que se apresentem.

Educar

é

desenvolver-lhe o poder de agir e

rea-gir com ple11a efficiencia diante das

cir-ct1msta11cias, o que se resume e111 certa

plasticidade ott disposição para .

prog:e-dir, adaptar-se ao mon1e11to social e

1n-flt1ir no progresso em geral.

A escola primaria hoje não

sedes-tina ao preparo

tJara

un1 cttrso

subse-quente ne111

sett

objectivo

é

dar

11oções

para urna applicação longi°;gua,

o

que

tiraria e111 grande parte o interesse

ao

estudo JJOr se referir a un1 futur~

para

os alt1rnnos se1n significação precisa.

A

finalidade da escola primaria está

em si mesma e aecorre do proprio

sen-tido da educação

-

fazer a cria11ça

pa~-ticipar da vida, tornando-a,

pela

act1-vidade capaz physica, intellectual e

mo-ralmente de resolver as sftuações

que

forem st1rgindo. Deste modo a escola

nova prepara para a vida, sem

que no

enta11to seja esse o seu escopo ;

todos

os esforços empregados

têm

antes

em

mira

resultado immediato.

Por

outro lado

a escola antiga

se

propunha

a

instruir,

a

moder11a

visa

edu-1 1 . •

..

-A ESCOL-A

PRIMARIA -

Ma1·ço

de

1929

..

5

·

----

---~---·-"

-

·

-car. Não

é

menos verdade que aqt1ella

educava instruindo

e

qtte

esta

ta1nbem

i11strue. Differem, porém, não somente

nos modos e processos mas tambern na

efficie11cia dos resttltados.

Na escola nova os conheci,nentos

que apparelham o individt10 para a

so-lução de problemas vitaes 11ão

são

mi·

nistrados na organização logica pela

qual a humanidade já os

systematizot1,

como se faz na escola i ntellectualista.

No decurso de suas experiencias,

~ui ada r;>elo profess~r, a criança cl1ega a

aesc0Br1I-os, conqu1sta11do-os para

ap-plicação em sttbsequentes trabalhos,

coordenando-os,

enfim, com o

auxilio

do

mestre,

adquirindo a po11co e pouco

as

noções

scientificas que lhe facil:tarão

agir

de melhor fór1na etn beneficio

pro-prio

e da co\lectividade a que perte11ce.

O

saber attingido pela actividade é,

além disso, alguma cot1sa de real para

a

criança

que o assimila e delle se

uti-liza

no momento opportt1nó, ao passo

que, con;io noção imposta pelo

tJrofes-sor e recebida sob pressão, ficava como

fórmulas decoradas, quasi

sernpre

intei-ramente se1Jaradas dos factos.

Mas o que define sobretudo

a

es·

.

cola prin1aria moderna

é

o que se resu111e

na

caracteristica

de escola unica. Dar a

todos

os

individuas

bases communs que

lhes

proporcionen1 por urna educação

intregal,

a

·

expansão de todas as st1as

capacidades de sentir,

de

pensar e de

agir.

Continua11do na escola a existencia

do

grttpo a que

pertence,

irá o

indivi-duo adquirindo

o sentido da

sociabili-dade

em harmonia com a

livre

expansão

de

sua

personalidade

; e, auxiliado

pe-la cultura,

com qtte se apparelhará seu

espírito,

terá

possibilidades de realizar

plenamente

a vida, collaborando no

cir-culo social para

onde suas capacidades

individuaes o encaminharem.

Pelo

se11-timento de

grupo

terá facilidade

de

ada-ptar-se

e pel0

desenvolvimento

de sua

individualidade poderá

ser, em

determi-nado momento,

factor

de progresso

so-cial.

Para

tal

se conseguir os methodos

devem assentar no

interesse

que tenha a

criança pela realização a qt1e se

propoz

,

trabal\1ando ao mesmo tempo com as

mãos,

o

cerebro

e o

coraçãó,

pondo

todo

o

desejo

em

attingir o resultado.

Desde

que o professor empreste ao assumpto

uma attracção artificial para conseguir

a attenção do alumno, seguirá

um

pro-cesso deseducativo.

O

saber do rnestre co11siste

em

achar

fór,nas de actividade,

jogos ou trabalhos

ttteis, de accordo com a capacidade

da

criança e em connexão com a vida,

cu-jos modos e processos serão

t1sados

e

esc

-

larecidos na escola, onde

os

proble-mas serão dados á criança

taes

como se

lhe apresentavam anteriorn1ente, em

to-da stta complexito-dade.

Elia

se

empenha-rá e11tão e111 chegar ao

fim collimado,

empregando para

isso toda força de seu

raciocínio, auxiliando-se

das

experien-cias passadas.

Para isso devem ser

os trabalhos

taes que não conduzam

ao desanimo por

solt1ções muito difficies e a escola

for-necerá para resolver as

difficuldades

so-brevindas, os meios

necessarios: livros

e

informações

de

toda

ordem.

Agi11do, a crianca

é

conduzida a

observar, associar, tirando

conclusões

que lhe darão apparelhamento

melhor

para consequentes

trabalhos.

O

methodo

assiro co11siderado como

o modo por qt1e se

aprende no,

-

aprender

fazendo

-

encerra

a maleabilidade

pre-cisa a resolver

os

casos

individuaes.

O

professor

facilitará as

opportuni-dades do alun1no fazer observações que

serão depois expressas

de todas as

fór-mas

ao

alcance das criancas : pela lin.

guagem,

pelo desenho, pelos trabalhos

manuaes. Serão aproveitadas tambem,

para

desenvolver a exp1·essão, as

obser-vaç

ões

e

experiencias

já realizadas pela

classe ou que se façam espontaneamen

.

te,

constitt1irá esse um meio valioso de

conhecimento

do alumno pelo mestre

que surprehenderá

inclinações e

prefe-•

renc1as.

Celina Padilha

-• •

(4)

-• • • •

6

A

ESCOLA PRIMARIA

1'.íarço

de 1929

- - · - ·

- -

---

- - - - ---~---

---

--1 Peço, pois, que penseis

frequente-\ ruente nesta casa a que confiaes vossos

(

.

Discurso proferido pela adjunta Gilda

filhos.

Fontertelle, na escola Padre M. da

1 . No Rio de Janeiro, como en1 quasi

CIRCULO DE PAES

Nobrega).

todo o paiz, são a s escolas publi cas, já Srs. Paes de al t1mnos :

.<\.gradeço-vós, em primeiro Jogar, a

gentileza com que correspondestes ao

convite que, por intermedio de vossos

filhinhos, vos fizeram as professoras da

Escola Padre Manoel da Nobrega.

Esta festa, que hoje aqui realisamos, vos é inteiramente offerecida.

A escola deseja que se estabeleça

entre os paes dos alumnos e suas pro-fessoras uma perfeita collaboração para que ella possa cumprir o <,eu ideal de levar á familia o resultado da educação

das crianças a ella confiadas.

E é por isto que, hoje, embora sem

• •

pompa, sem apparato, inaugura-se aqui

neste estabelecimento o «Circttlo de

Paes>> .

l)essa in stituição farão parte todos aquelles que se in~ercssam pela educação

de seus filhos, todos aquelles que

acom-panh;1m e completam com carinho a

obra que nós, professoras, iniciamos aqui tta escola.

'l'odos vós sabeis que a nossa missão não l:'e limita sómente a e11cher as ca-becin lias das crianças dun1a som111a maior ou m ~nor de conhecimentos.

Não, hoje em dia não se pode pen-sar e111 instruir sem educar.

J\[as essa educação das crianças nunc,1 será inteiramente alcançada por

nos sem que contemos com a vossa

col-labor;tção. E' preciso que entre paes e

mestres haja um entendimento no

modo de vêr, de pensar, de jttlgar, em

uma só palavra, de educar.

E' este o fim do «Circulo de Paes». Torn,t-se necessario reunir, sempre que possi vel, em u n1a sessão, os paes e as professoras para que juntos possam dis-cutir os interesses das crianças.

« A escola até hoje, apezar de ser uma institttição social, sempre

funccío-nou sem outro ~ontacto com a

socie-dade, além da matricula e dos incidentes

escolares

...

não ha quem conteste, os mais altos, os melhores estabeleci111entos de educa-ção da infancia. Procurae amparar essa

preciosidade : a vossa esco 1 a, a

es-cola que não é mantida como industria para lucro pecuniario dos proprietarios, a escola onde se pratica a igualdade

re-publicana, dogma e ft1ndamento da vida

nacional, onde não ha distincções sen;io

as que se conquistam pelo talento e pelo esforço. Em torno desta escola, que

é

vossa, cerrae fileiras.

Não devemos contar só1nente corn a administração m u nic: pal. E' preciso-que acorraes em seu auxilio, organi zando em torno da escola as obras d e

defesa, de estimulo e de sustento, que

não são novidade nos pa izes ct1 l tos· Estabelecei· bem firmes e calla vez rnais

fortes os laços entre a familia e a es· cola, da11do a esta o apoio moral e ma· terial de que nec~ssita: defendei-a dos maldizentes e dos maLtS cidadãos que a

deprimem por isso mesmo que ell;i é o

cadinho da igualdade; constitt1i-lhe o

patrimonio, engrandecei a. A nós é que

cabe, se quereis manifestar o vosso ap ·

plattso ,1 nosso trabalho, desenvolver e

auxiliar alguns serviços _creados na

Escola Padre Manoel da Nobrega.

Entre estes, tenho a satisfação de apresentar-vos hoje o gabinete dentario, i11stallado sob os auspícios do Dr.

Sant'-Anna e de nossa Directora, D. Maria Albertina de Mello, gabinete esse que é o inicio dos serviços da escola á familia, além da educação que offerece aos filhos.

· Finalmente, a todos os membros

das familias de nossos escolares, peço, mais uma vez, estar sempre ao nosso lado, ao lado da escola, e fazei-o

firme-mente para que nosso trabalho fructi-fique.

Seja o dia de boje o de 11m tratado

firme, indissoluvel, eterno dessas duas

forças na.cionaes: a familia e o profes-sorado e seja a escola a arca da alli·

ança.

A ESCOLA PRIMARIA

Ma1·ço

'

de

1929

7

E assim como outr ora 1am · • · os h e· I que e ' a esco a. 1 N' os vo o Jttramos; n1 . _

e-breus entoando canticos e leva ,,a m a tra- 1 nhum sacrifício será grande demais.

vez dos desertos pedregosos a arca santa, 1 [remos com os pés sangrando, mas

dei-conduzíren1os nós, no 1neio das vicissi- xaremos no deserto 11n1 rastro

lLtmi-tudes mais amargas, a arca sagrada, noso.

'

ensino re

1

IOSO

nas

.

esco as

rimarias

Temos

fto,j

e

a sati·st ação de tra1iscreve1" e,n nossas

colu1;tnas7 a

es,nagadora

resposta qize o i'llizstre

D,··

Mar·1,·n de Lirna7 secretari'o da

Presi'denci·a

do Es·

tado

d

0

_lf,:nas,

deu7

e1rt

nome do

D,

·.

Antonio Carlos)

ás

3p

esentações

a,,·,·z:qidas pelos crentes

evange-li'co,,;;7 contra o tJcto do Governo qiie permitti'iz o

·

ensino

do ccttecismo nas

escolas

p1·i1narias

do

g1·ande estado ce1ztral.

« Rev. sr. 1\.. Hardie, pastor

Campo Evangelico de Patrocínio. Saudações.

do I

cter obrigatorio, dentro do

horario

esco-lar,

o ensino do catecismo que, com

breve solução de continuidade, os go-vernos anteriores já haviam auctorizado,

facultativa11ze1zte, fóra do horario escolar,

110s /Jroprios edificios das

escolas

pu·

Acompanhadas ele vossa carta de 29

de outubro proxi1no findo, recebeu o sr . Presidente do Estado as representações

que lf.1e foram dirigidas pelos crentes

evangelicos de Carmo do Paranal1yba,

Rio Paranahvba Patrocínio, Arapoá e

.

'

Paracatú, no sentido de ser reconside·

rado o acto do governo permittindo o

e11sino do catecismo nas escolas

prima-rias do Estado.

Em nome do sr. Presidente do Es·

tado. qtte me delegou poderes para ta11to.

vcnl10 e1rpor-vos as razões em virtude

das q uaes ma11tém s. ex. a liberal

reso-lução, que tão infundados receios

des-pertou no animo dos referidos crentes

evangelicos.

As representações e11cé1minhadas

por vosso intermedio assentam sua

ar-• •

gumentação en1 cerebr1na prem1ssa,

quando affirma1r1 que o acto do sr. Pre-sidente ,,exige o ensino religioso nos

estabelecimentos de e11sino primario». o que não é verdade, pois s. ex. apenas

permlttiµ,

isto

é,

auctori~ou,

sem

,ara-•

blicas.

.

Nos primeiros 16 annos do regímen

republicé1110 em Y.linas, todos os governos permittiram,

sem caracter

obrigatorio,

()

ensino catholico nas escolas officiaes, sem que levantasse o menor protesto

esse acto, baseado na Constituição do

Estado, q Lte

explicitamente

repudiára o

principio da escola leiga, como se

veri-fica do exame do elemento historico do

pacto constitttcional mineiro.

Ha,

no sentido dessa per111issão, um

aviso do presidente Cesario Alvim. que

foi segttido, con10 norma, por todas as

administrações estaduaes, até 1906, isto

é, até a reforma. Carvalho Britto.

O proprio auctor dessa reforma, em

artigo, que teve larga repercussão ao ser publicado em 16 de dezembro de 1906 no «Jornal do Commercio», reconhece

que o programma de ensino de 1906

«se deixou p1'ender nas teias do

precon-ceito doutrinario,

segundo o qual ao

Es·

(5)

8

A ESCOL.t\. PRIMARIA -

Março de

1929

t~d_o leigo não é permittido o ensino re- \ petir,

per1nittiu o ensino religioso, dentro

I1g1oso nas escolas».

do

horario

escola

·

r a catholicos e

acatho-. Em 7_de setembro de 1911, restabe-

licos, que queiradi

se valer dessa

fran.-lec1a offic1almente o governo estadual a

qaia.

tradição dc1• en sino do .ca~ecismo na~ es-. Demonstrada, assim, a

facultativi

-colas. publicas , perm1tt1ndo-o fóra do

dade

do ensino religioso nas escolas pu-borar10 esc?lar, como se vê da resposta blicas, de accôrdo con1 o espírito que do dr. Delfim Moreira, então secretario anima resolução do sr. Presidente do

do Interior, ·ao questionario que lhe fôra Estado, examinemos a questão de sua

apres~ntado por uma c_ommissão do

2.

0

constituciotzalidade.

,,~e

·

lJ

~

~?p.gresso Catholico Mineiro: aqui reu· - ·- --· ·=·., .,,,

ti1do ·

F..ssa ' permis,são; mantida

por

todos os. góvernós posteriores, consta

~xpllci-tatnente:

a) do art, 21 da lei n. 800, de 27

de setembro de 1920 ;

b) do art. 489, do decreto n. 6,655,

de 1.9 de agosto de 1924;

c) das instrucções approvadas pelo decreto n. 6. 758, de 1.0 de janeiro de

1925, onde se preceitúa : « Mil occasiões

surgem na vida escolar, permittindo que

se

ln

.

spirem

ao a1umno a

idéa

religiosa,

os d

e

veres para

com

Deus

e para com o

proxi mo»: etc. - e .. Ao falar em Deus

e em religião, dP:ve o pr<>fessor abster-se

de inc1.1l car a o aluinno determinada cren -ça religiosa,

não se esquecendo,

porém,

de q,1e a

Religião

Catholica

!

a

do povo

brasileiro, na sua maioria

e

especial-mente

a do povo mineiro ;

d) do art. 580 do decreto numero

7. 97 J -A, de 15 de 011tubro de

t

927, já

no g0verno Antonio Carlos.

Verifica,se , do exposto, que o sr. Presidente do Estado reatou apenas a

tradição do ensino <:atholico fac ultativo

dentro do horario escolar, que fôra

sem-pre Jiraticado nos 16 primeiros annos da

Rep1iblica; que s. ex., que encontrára,

já,

a per1nissão do ensino catholico, sem

caracter -obrigatorio, f6ra do horario

es-colar, rasol veu, de accordo com a refe

-rida tradição, permittil-o

dentro do

hora-rio

escolar,

extendendo, porém, a

conces-são a todas as confissões religiosas.

E',

portanto, contra uma concessão liberal,

que tambem lhes aproveita, que os

cren-tes evangelicos estão protestando,

fir-mados, sem duvida, no presupposto de

inexistente caracter obrigatorio da reso-lução do governo, que, não

é

demais

re-. O acto do sr. Prcsiden te Antonit> CáÍ:l?S

é

perfeitamente coristitdcio,rial;

ex-vi

da hermeneutica liberal e

auctori-zadissima dos maiores mestres desse

ra-n10 do nosso direito·

Tomamos a liberdade de chamar a

vossa attenção para os notaveis

traba-lhos de exegese constitucional em que

Ruy Barbosa e Pedra I,essa, brilhante,

exhaustiva e irt'efutavelmente examina-ram a questão.

Referimo-nos, quanto a Ruy

Bar-bosa, ao discurso proferido, em 1903, no

Collegio Anchieta de Friburgo, disct1rso

que se encontra transcripto no vol .

XVlI

dos Annaes da Camara dos Dep1.1tados

ao Congresso Nacional, edição de t 9t8,

pags. 645 a 672 e á conferencia realizada,

a 20 de fevereiro de 191 O, no Theatro

Municipal de Bello 1-Iorizonte, e que foi

publicada no volume

«Excztrsão

eleitora

l

aós Estados da

Bahia

e Minas Oeraes»,

Casa Garraud, São Paulo, L 910, pags .

195 a 220.

O estudo de Pedro Lessa

denomi-na-se

«

Interpreta

ção

do art.

11,

n.

2

e

do art.

72,

§§

3.º

e

7.

0

da

Co1zstituição

F

ede

ral

»

e é o primeiro capitulo de sua

obra

Dissertaçõ

e

s

e

Pol

e

niica

s,

Rio de

Janeiro, Typ. do «Jornal do

Commer-cio>, 1909, pags. :; a 24.

Melhor do que contrapôr

affirma-ções pessoaes nossas a affirmações,

vos-sas e dos crentes evagelicos,

relativa-mente á constitucionalidade do acto d0 sr. Presidente do Estado, melhor do que

isso será transcrever os numerosos

tre-chos desses grandes e saudosos

juris-consultos brasileiros, que disseram so

bre o assumpto a ultima palavra. ,_.. ..]

Comecemos pelo «testamento po-lítico• de Rt1y Barbosa, isto

é,

pelo

seu-,

-\

A

ESCOLA PRIMARIA

-

Ma1·ço

de

1929

9

discurso de 1903, em Friburgo, no qu,Ll

elle mes1110 dizia, referindo-se aos que

não comprehen<liam o espírito q1.1e havia

presidido ao principio de secularização no Brasil: <Ü contagio francez ha de

• •

sitiar -nos, para nos envolver no seu tor-velinho funesto. Lem brae-vos então de

mim, si eu ainda fôr lembrado e resisti.

Porque eu contribui para esta Co niiti-tttição mais do que esses>.

São do discu rso de Friburgo s

se-•

gu1ntes trechos :

« Na emancipação americana, o ideal

christão funda uma constituicão sem '

egual, uma democracia sem egua l. t1ma

prosperidede sem egual, uma potencia

desmarcada e assombrosa que, virtual

-mente enthronizada. no protectorado de

um continente, projecta a sua ~ombra &obre o outro, através dos dois oceanos.

Esse

o ideal

que, em 1889, nos attrahiu :. .

(Loc. cit., pagina 653) .

-«Uma constituição

é,

por assim di · zer, a miniatura política da physiono-mia de uma nacionalidade. Quando não

seja, pois, um falso testemunho solen-neme11te levantado ao povo a que se

destina, tem de lhe esboçar em grandes

traços o senti111ento geral.

Seria elle p ')sitivista, atheista,

in-di fferen tista, no Brasil, quando tom bo1.1,

em 1889, a monarcbia, e se erigiu a Re·

publica em 1891? Ou teria a

Constitui-ção de

24

de fevere iro rompido

aberta-mente em materia espiritual, com a

ín-dole brásileira, impondo-lhe um pacto

constitucional qt1e a opprimia?

Ha, por ahi, ttma feição peculiar

de radicaes, emanação da França

voltai-•

r1ana, da França revolucionaria, da

França jacobina, da França comtista,

que in1aginou engendrar a tbeoria da

nossa constituição á luz das tenden cia15

franc ezas, das p reoccupações francezas, das r eacções francezas, das

idiosyncra-sias francesas. Mas, senhores, a

consti-ti1i ção federalista do Brai!iil não tem a mais remota descendencia ás margens do Sená. Sua embryogenia é exclusiva e notoriamente americana. Ora, os

ame-ricanos, por este lad0, não devem nada

-

- - - -

-

-á influencia: franceza. » ( Loc.

cit.

pag.

654).

« ••. A constituição americana, mãe,

por

adopção

e

identidade intima,

da

nos-sa,

omitte o nome de Deus. Mas isto não

obsta a que, nos Estados Unidos, a

re-:igião seja a primeira das instituições

p olíticas e sob essa constituição a vida

religiosa tenha um amparo mais estavel e uma rcilação mais declarada com os

grandes actos do Estado que noutro qual·

qut'r ponto da terra. e A religião na Ame

-ri,;a, escreve Tocqueville, não participa

directan1ente no governo da sociedade ,

mas

é

,

comtudo, a sua mais alta insti•

tuição política. E eu tenho por certo que

os ameri canos consideram a religião in-dispensavel á 111atança das instituições r ept1blicanas. Este juizo não

é

peculiar

alli a uma classe, ou a um partido: per-tence a toda a nação e a todas as

situa-ções !lociaes.,. Seus

homens

de Estado,

seus legisladores, seus presidentes nunca.

se envergonharam de CQnfessar alli esta

verdade, mostrando, pelos actos mais

{n-signes, de caracter official, que «a sepa·

ração entre a Egreja e o Estado, tal qual

se pratica naquellc paiz, 11ão separou a

nação do Christianisn10 » . (Loc. cit. pags.

654-655).

-•

«O anno de 1876, festeja a Republíca

(americana) entre demonstrações magni ·

ficas, o centenario da independencia

ame-ricana e o Jogar supremo na gratidão na-cional

é

offerccido ao Senhor. O Senado

e a Camara dos Representantes, reuni-dos em congresso, proclamam «com ado-ração, em nome do povo inteiro, que Deus terá sido, para elle, a fonte e o ma-nancial, o auctor e o distribuidor de to-dos 01 bens,,, (Loc.

cit.,

pag. 658) .

---« Festeja-se em 1887, com solenui-dades que attrahiram a attenção e con-correncia do orbe inteiro, o centenario da Constituição dos . Estados Unidos.

Abre a grande ceremonia o bispo catho·

lico Potter, tle Nova York, com uma ad-miravel invocação a Deus, que termina pelas singelas expressões do Padre Nos-so.

Só após

delle fala,

presidindo,

o

Pre•

(6)

'

'

10

A ESCOLA PRIMARIA -

Março de 1929

-

-

-

-

--

·

---

---

-

- -

~-

-

-

---~--

-

---·

--sidente da Republica.,. Outros oradores se ouviram em seguida. Mas quem en-cerra a festividade é a religião O car·

<leal Gibb_'.)ns pronuncia a oração fínal, e, por ultimo, 1.1m sacerdote despede os fiéis com a benção

em nome de Nosso

Senhor

Jesus Christo-.. ( Loc. cit.

pags.

658-659).

--«Assumindo, em 1893, a presidencia

dos Estados Unidos, Cleveland jura,

os-culando a Biblia, Sua mãe lhe dera, quarenta annos antes, 11n1 exemplar do livro sagrado. Levan1-lh'a a ';) Capitolio

e sobre esse é que o novo presidente, na grande solennidade official, repete o

.

'

Juramento de seus antecessores. Taes os

• • •

ausp1c1os sob que se pronuncia o se11 discurso inaugural, onde sobresáe a in-vocação a Deus. (Seg11e-se a invocação).

E'

desta maneira que se emoossam

.

nos

'

Estados Unidos, os presidentes da

Re-publica>.

(Loc

·

.

cit.

pag.

659).

--«Véda a Constituição, de todo, alli, como aqui, aos poderes federaes qual-quer alliança entre a r:greja e o Estado: circ11mvalla entre esta e aquella a sepa-raçã ,) mais completa. Mas os actos mais

sole11nes do governo invocam o nome de Peus. Os generaes em serviço de

guerra imploram, deante das tropas, «a

bon,lade tutellar dessa Providencia que encéi minha individuos e nacões.:,, A' voz

do 1)residente se reune todos os annos,

em <lia certo, a nação inteira, a re11der graç ,ts ao Eterno. As sesiões do

Con-gresc;o, nas sua<; duas Camaras, se abrem

e encerram diariamente com as preces

de um sacerdote. O Senado tem o seu

capellão;

tem

o seu

a

Camara dos Re-presentantes, um e outro eleitos

pores-sas <luas assembléas. Teem-se, ainda,

nomeados pelo presidente, õ.S prisões,

es hospícios de alienados, as escolas mi-litares, o exercito e a marinha. até 24

para esta e para aquelle 34. A proprie-dade ecclesiastica não se tributa no dis-tricto de Columbia, nem nos Estados. O juramento, das instituições federc1es 1

como nas estaduaes, se defere sobre a

escriptura

sagrada

aos que não a rejei

..

tam. As leis da União, como a dos

Esta-dos, cons~lgram o descanço don1inical. Em uma das suas ordens do dia, Lin-coln, con10 general em chefe do exercito e da arm11da, no t11eio da terrível guerra civil em que periclitott a existencia da

União, itnpunba rig·orosamente ás suas forças a obediencia a esse preceito. «O

general espera e confia, ditia elle, <{Ue

cada official e cada praça buscará vi-ver como convém a soldados christãos, afamados em luct,tr pelos mais caros di-reitos de sua terra».

Nas escolas neutras

ernfi m, o horari() profano

abre espaço

a~

ensino religioso,

distrib11ido pelos 1ni-nistros dos varios cttltos,

nos proprios

re-cintos escolares.

Al1i não se divisa nes-ses factos o rr1ini mo agg·ra vo á secula-ridade legal das instituições».

(Loc.cit.,

pag. 660),

-.. Mas <<nenhum principio de direito constitucional se quebranta, diz um grau de j t1risconsu 1 to americano, o juiz Cooley, quando se fixam dias de acção de graças e jejum, quando se nomeam capellães para o exercito e a marinha, quando se abrem as sessões legislativas, orando ou lendo a Bíblia,

quando

se

ani11za

o

ensino religioso,

favorecendo com a imrnunidade tributaria as c·asas consa-gradas ao culto».

(Loc.

cit.

pag, 660).

--«Ahi está porque o constituciona-lisrr10 americano repelle essa uniformi-dade athéa, cuja superstição professa a

Republica no Brasil e que não estava, de certo, nos intuitos dos seus

funda-dores.

Desde 1876 que eu escrevia e pre-gava conter o co11sorcio da Egreja com

ó Est,tdo; n1as nt1nca o fiz em nome da

irreligião; sen1pre em nome ela liberdade. Or,t, liberdade e religião são socias, não inimigas. Não ba religião sem liberdade.

Não ha liberdade sem religião, «O des-potismo é qt1e passará sem fé: a liber-dade não passa», clizia Tocqueville,

edi-ficado pelo espectaculo dos Estados Unidos.

• • • • •• • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • •

Foi sob esse pensamento que ado-ptamos

a

Constituição de 1891. Tinha.

1

A ESCOLA PRIMARIA -

Março de

1929

11

- -

. - .

-

-

-

-

- - - -

-

·-

-

---

-

- ·

-

- - - -

-

-mos, então, os olhos fitos nos Estados para tyrannizar, mas para escudar a U11idos e o

que os Estados Uziinos nos

consciencia dos povos. «A nossa

Cons-mostravarn era a

liberdade

retigiosa, não

tituição, diz um escri ptor americano,

a

liberdade rnaterialista.

Naquelle paiz a qi1e tratou

ex-professo

o assumpto, a incr..:(!uliuade 11ossue tambem o seu gri1- nossa Constituição não creou a nação

po, q1.1e advoga a tributação dos cultos. 11en1 a religião nacional, Acho11-as pre-a SL1ppress ão dos capellães, a abolição/ existentes, e estabeleceu-se com o in-de todos os serviços religiosos custea- tuito in-de

as proteger

sob uma fórma

re-dos l)e lo Thesoi1ro, a extincção elo jura- publicana de g·overno. » Ora, a condição mento, a substituição, nas lei s da moral de nós ot1tros é identica, por este lado, á

christã pela moral natural. M ,1s esse dos Estados Unidos Antes da Republica

programma, formulado alli ha trinta an- existia o Brasil; e o Brasil nasceu

chris-nos, definha enkystad o na seita q'.,':! 0 tão, cresceu christão, christâo

conti-concebett, n6a a ser até hoje, Logo, si a

Repu-«Nós somos um povo chrístão, diz blica, veiu organizar o Brasil e ·não

es-o juiz Kent, um dos patriarchas da juris- magal · o, a formula da liberdade

consti-prudencia ame ri cana, e a nossa mo rali- tucion al na i,' epu blica, necessari21mente

dade política está profundamente enxer- ha de ser uma formula christã. As insti-tada no Christianismo».

(Loc. cit.,

pag. tuições de 1891 não se destinaram a

662). matar o espírito religioso, mas a

depu-- depu-- ral·o, emancipando a religião do jugo «Esse facto (o Christianisn10)

prece-ceu á Constituição, alli e aqui. Aqui, domo alli, esse facto subsíste sob a

Cons-tituição, Ella o não podia deslruir por

que, lá e cá, era, nas dt1as nações, a grande realidade espiritual. Na Repu-blica Norte-Americana a sttperficie mo-ral do paiz estava mais ou menos

egual-mente divida entre uma variedade nota-vel de confissões religiosas. No Brasil,

o Catholicis1110 era a religião geral; o

protestantismo, o deísmo, o positivismo,

o atheismo, excepções ci rcumscri pta s.

De 1nodo que, emq11anto nos Estados

Unidos a egualdade religiosa constitt1ia

uma necessidade sentida, mais ou menos,

no 1nesmo gráo, por todas as

commu-nhões, entre nós ella representava tão són1ente aspirações da minoria. A liber• dade de cultos veiu satisfazer, em bôa justiça, a condição oppressiva dessas

dis-sidencias maltratadas pela exclusão

offi-cial ,.

nzas não i1zvertel-a

co,ztra

a

consci-encia da

,naioría.

Si

nos Estados Uni dos

avultava no rnaior relevo «o facto de que

o christianismo era, e seu1pre foi, a

reli-gião popular» (são palavras de um

ma-gistrado americatlo), no Brasil esse facto

não tinha vulto menos proeminente»

(Loc.

cit.

,

pags. 662 663).

-«As constituições não se adoptam

o fficial. Comt, aos americanos, pois, nos assiste a nós o jus de considerar o prin-cipio christâo como elemento essencial e fundamental do direito brasileiro.

Ne1;ta verdade se encerram todas :ls

ga-rantias da liberdade e todas as

necessi-dades da fé.:.

(Loc.

cit.,

pag. 663).

\•

Da conferencia de Ruy Barbosa, proferida a 20 de fevereiro de 1910, no Theatro Municipal de Bello Horizonte,

~ão os seguintes trechos: «Dos intuitos

n,1 nossa lei organica, neste assumpto, o verdadeiro commentario, a licc;ão exa•

cta haveis de buscal-a na pratica da

Constituição dos Estados Unidos, onde

se bebeu a inspiração e o teor da •

nossa.,_.

-«Geralmente, e com especialidade

nas materias c1ue entendem com a con-sciencia religiosa, ha entre nós, um

in-feliz pen<lor para entender a liberdade ás avessas, Em conversa com o escri-ptor francez André Tardieu, ha dois

annos, lhe dizia monsenhor O'Connell, bispo de Boston: «Nada ha de commum entre a separação da Egreja e do Estado, tal qual aqui.

a

praticamos, e

o

regímen

Referências

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