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Tese Márcia Bertotto

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Academic year: 2021

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ENTRE O PARALELO 20 E O 30 – ANALISANDO E

PROPONDO POLÍTICAS PÚBLICAS PARA MUSEUS

NO SUL DO BRASIL

Orientador: Professor Doutor Mario Moutinho

Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias

Faculdade de Ciências Sociais, Educação e Administração

Lisboa 2013

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ENTRE O PARALELO 20 E O 30 – ANALISANDO E

PROPONDO POLÍTICAS PÚBLICAS PARA MUSEUS

NO SUL DO BRASIL

Tese apresentada para a obtenção do Grau de Doutor em Museologia no Curso de Doutoramento em Museologia, conferido pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias.

Orientador: Professor Doutor Mario Moutinho

Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias

Faculdade de Ciências Sociais, Educação e Administração

Lisboa 2013

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A Deus, por estar acima de tudo e sempre comigo

Aos meus pais, Floravante e Maria, por despertarem e apoiarem meu desejo de formação Aos meus irmãos, pela alegria, apoio, ensino e ternura à irmã mais jovem

Ao meu marido, Mauro, pelo amor e compreensão de todas as dificuldades

Ao meu filho, Bernardo, pelo amor, carinho e exemplo que embasaram muitos caminhos Aos meus colegas que encerraram e virão a encerrar esta etapa do estudo A amiga e colega Vera Rangel que trilha comigo a escalada museológica desde 1991

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Devido às mudanças sociais da contemporaneidade, a organização dos museus brasileiros na atual conjuntura, exige alterações e, terá avanços, se for embasada na sociomuseologia. O desenvolvimento de uma política museológica nacional é tarefa das autoridades constituídas e esta tese busca analisar políticas públicas para museus compreendendo seu funcionamento e aplicação. A partir de um levantamento histórico da sistematização museológica nos estados do Paraná e Rio Grande do Sul e de pesquisas junto a instituições museológicas procuramos incluir as vozes de gestores culturais e demais atores sociais envolvidos. O modelo sistêmico museológico hoje vigente não se traduz, tal qual sociólogos definem, num padrão que opera em rede, com trocas entre sistemas estaduais e nacional. Apontar para a correta aplicação e avaliação das políticas para museus, solucionaria muitas das questões que afligem hoje os museus, transformando-se numa política cultural inclusiva, participativa e democrática.

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ABSTRACT

Because the social changes of contemporaneity, the organization of the brazilian museums in the present situation, demands modifications and it will suffer improvements if based on sociomuseology. The development of a national museologic policy is a task of established authorities and this thesis has as objective to analyze public policies to museums, understanding its operation and application. From an historical research about the museologic systematization in the states of Paraná and Rio Grande do Sul and from researches within museologic institutions we try to include the cultural managers’ voices and other social actors involved. The nowadays museologic systemic model doesn’t show itself, as sociologists define, in a pattern that operates in web, with changes between states’ and national systems. Points to a correct application and evaluation of museums policies would solve a lot of questions that worry the museums nowadays, being an inclusive, participatory and democratic cultural policy.

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RESUMEN

Debido a los cambios sociales de la contemporaneidad la organización de los museos brasileños en la actual coyuntura exige alteraciones y, avanzará, si embazada en la sociomuseologia. El desenvolvimiento de una política museologica nacional eres tarea de las autoridades constituidas y esta tese busca analizar políticas públicas para los museos comprendiendo su funcionamiento y aplicación. A partir do levantamiento histórico de la sistematización museologica en los Estados de Paraná y Rio Grande do Sul y pesquisas junto a instituciones museologicas buscamos incluir as voces dos gestores culturales y

demás atores sociales envueltos. El modelo sistémico museologico hoy vigente no traduce

tal cual sociólogos definen, en un padrón que opera en rede, con trocas entre sistemas estaduales y nacionales. Diagnosticar para la correcta aplicación y avaluación de las políticas para los museos, solucionaría muchas cuestiones que afligen hoy a los museos, transformando-los en una política cultural inclusiva, participativa y democrática.

Palabras claves: museos, museologia, sistema, agentes públicos, políticas públicas.

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ABREVIATURAS E SÍMBOLOS

ABM – Associação Brasileira de Museus

ARM - Associação Riograndense de Museologia CEAM – Centro de Estudos Avançados Museológicos

CEM/RS – Coordenadoria Estadual de Museus / Rio Grande do Sul CDM – Coordenadoria de Museus (Paraná)

CNM – Cadastro Nacional de Museus COFEM – Conselho Federal de Museologia COREM – Conselho Regional de Museologia

COSEM – Coordenação do Sistema Estadual de Museus (Paraná) DEMU – Departamento de Museus e Centros Culturais

DIBAM - Dirección de Bibliotecas, Achivos y Museos DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda

FAPERGS – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul FUNBA – Faculdades Unidas de Bagé

FZB – Fundação Zoobotânica

IBPC - Instituto Brasileiro do Patrimônio Cultural IBRAM – Instituto Brasileiro de Museus

ICOM - The International Council of Museums (Conselho Internacional de Museus) ICMS – Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços

INL – Instituto Nacional do Livro

IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional IPTU – Imposto Predial e Territorial Urbano

IR – Imposto de Renda

ISS – Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza MARGS - Museu de Arte do Rio Grande do Sul MEC – Ministério da Educação e Cultura MINC – Ministério da Cultura

MINOM - Movimento Internacional para uma Nova Museologia MJC – Museu Júlio de Castilhos

MOBRAL - Movimento Brasileiro de Alfabetização OSPB - Organização Social e Política e Brasileira PCB – Partido Comunista Brasileiro

PDT – Partido Democrático Trabalhista

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PNM – Política Nacional de Museus

PNSM – Plano Nacional Setorial de Museus PSDB - Partido da Social Democracia Brasileira PT – Partido dos Trabalhadores

SBM – Sistema Brasileiro de Museus

SEEC – Secretaria de Estado da Cultura (Paraná) SEDAC - Secretaria de Estado da Cultura

SEM/RS - Sistema Estadual de Museus do Rio Grande do Sul SEM/PR – Sistema Estadual de Museus do Paraná

SEM/SC – Sistema Estadual de Museus de Santa Catarina SISEM/SP - Sistema Estadual de Museus / São Paulo SNI - Serviço Nacional de Informação

SPHAN - Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional

UNESCO – United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization (Organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura)

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ÍNDICE GERAL

INTRODUÇÃO ... 14

CAPÍTULO 1 - CULTURA E SISTEMA – MATRIZ E O ESTADO DA ARTE ... 27

1.1. Fatos marcantes da Museologia e seus Documentos Basilares ... 29

1.2. Sociomuseologia na Pós-modernidade ... 35

1.3. Teoria dos Sistemas na compreensão dos sistemas museológicos ... 41

1.4. Visão cultural da América Latina através do pensamento de Néstor Garcia Canclini ... 50

1.5. Documentos constitutivos do Sistema Museológico Brasileiro ... 54

CAPÍTULO 2 – O SISTEMA BRASILEIRO DE MUSEUS EM DIÁLOGO COM O SISTEMA DE MUSEUS DO PARANÁ E COM O SISTEMA DE MUSEUS DO RIO GRANDE DO SUL ... 57

2.1. Sistema Brasileiro de Museus ... 58

2.2. Sistema de Museus do Paraná ... 61

2.3. Sistema de Museus do Rio Grande do Sul ... 67

CAPÍTULO 3 – POLÍTICAS PÚBLICAS E POLÍTICA NACIONAL DE MUSEUS ... 82

3.1. Revisitando alguns dos principais conceitos de políticas públicas ... 83

3.2. Uma abordagem histórica sobre políticas culturais ... 88

3.3. Delineamento de uma política pública cultural brasileira ... 93

3.4. Política Nacional de Museus na atualidade ... 105

CAPÍTULO 4 – MUSEUS DO RIO GRANDE DO SUL E DO PARANÁ SINTONIZADOS E SISTEMATIZADOS À POLÍTICA NACIONAL DE MUSEUS? ... 114

4.1. Estudos exploratórios ... 115

4.2. Pesquisa com museus ... 123

4.3. Pesquisa Edital de Modernização de Museus ... 137

4.3.1. Pesquisa com museus do Rio Grande do Sul ... 148

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CONCLUSÃO ... 189

BIBLIOGRAFIA ... 202

ÍNDICE REMISSIVO ... 222

APÊNDICES ... I

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ÍNDICE DE QUADROS

Quadro 1 – Quadro Categorias de Análise – Teoria dos Sistemas em Niklas Luhmann .... 46

Quadro 2 – Explicação do sistema museológico embasado na teoria de Katz e Kahn ...50

Quadro 3 – Quadro comparativo do Sistema de Museus Rio Grande do Sul, Paraná e Sistema Brasileiro de Museus ...78

Quadro 4 - Amostra de público ...116

Quadro 5 – Definição de museu pelo termo CULTURA ...118

Quadro 6 - Definição de museu pelo termo CONHECIMENTO ...119

Quadro 7 - Definição de museu pelo termo INFORMAÇÃO ...120

Quadro 8 – Outros termos citados na definição de museu ...121

Quadro 9 - Você acha que o governo deveria investir mais em museus? ... 122

Quadro 10 - Se sim, indique quais destas atitudes são mais adequadas para estimular os museus ...122

Quadro 11 - Museus pesquisados ...125

Quadro 12 - Você observa avanços nas políticas públicas de cultura refletidas em que setores ...128

Quadro 13 - Em relação às instituições listadas abaixo, com que frequência seu Museu mantém contato ...129

Quadro 14 - Dentre as atribuições do Sistema Estadual do seu estado, indique quais ocorrem efetivamente ...131

Quadro 15 - Em que áreas você percebeu mudanças na sua instituição após a criação do Sistema Brasileiro de Museus em 2004? ...131

Quadro 16 - Atribuições efetivas do Sistema Estadual do RS ...135

Quadro 17 - Atribuições efetivas do Sistema Estadual do PR ...136

Quadro 18 – Projetos para o Programa Modernização de Museus ...138

Quadro 19 – Museus do RS contemplados pelo programa Modernização de Museus ...138

Quadro 20 – Museus do PR contemplados pelo programa Modernização de Museus ...140

Quadro 21 – Concretização da pesquisa (RS) ...144

Quadro 22 – Retorno museus RS ...148

Quadro 23 - Quem confeccionou o projeto ...151

Quadro 24 - As melhorias (equipamentos de informatização, mobiliário, projetos educacionais, etc.) que o museu obteve com este projeto poderão ser disponibilizadas ou compartilhadas com outros museus de sua vizinhança? ...152

Quadro 25 - Houve acompanhamento de técnicos do IBRAM durante realização do projeto com sua instituição? ...156

(12)

Quadro 26 - De que forma foi? ...157

Quadro 27 - Quantas vezes ocorreu este acompanhamento? ...158

Quadro 28 - Houve acompanhamento de técnicos do IBRAM depois de realizada a prestação de contas?... 158

Quadro 29 - Caso tenha inscrito e o projeto não tenha sido contemplado, acredita que foi por quê? ...166

Quadro 30 – Retorno Museus Paraná ... 168

Quadro 31 – Concretização da pesquisa (PR) ... 169

Quadro 32 - Quem confeccionou o projeto? ... 173

Quadro 33 - Você acha que o que foi solicitado correspondia à prioridade do Museu no momento? ... 173

Quadro 34 – Melhorias compartilhadas ... 174

Quadro 35 - Houve acompanhamento de técnicos do IBRAM durante a realização do projeto com sua instituição?... 175

Quadro 36 - De que forma foi? ... 175

Quadro 37 - Quantas vezes ocorreu este acompanhamento? ... 175

Quadro 38 - Houve acompanhamento de técnicos do IBRAM depois de realizada a prestação de contas?... 176

Quadro 39 - O museu inscreveu projetos em edições anteriores/posteriores do Edital Modernização de Museus? ... 178

Quadro 40 - Caso tenha inscrito e o projeto não tenha sido contemplado, acredita que foi por quê? ... 178

Quadro 41 – Quadro comparativo do Sistema de Museus Rio Grande do Sul, Paraná e Sistema Brasileiro de Museus ... 183

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ÍNDICE DE GRÁFICOS

Gráfico 1 - Você costuma ir aos museus com que frequência? ... 118

Gráfico 2 – Aspectos avaliados (1 a 5) ... 127

Gráfico 3 – Aspectos avaliados (6 a 9) ...127

Gráfico 4 - De modo geral, consideram que a comunicação entre estas instituições e o seu museu é ...130

Gráfico 5 - Avanços das políticas culturais no RS ... 134

Gráfico 6 – Avanços das políticas culturais no Paraná ... 135

Gráfico 7 – O solicitado era prioridade? ...152

Gráfico 8 – Acompanhamento IBRAM... 157

Gráfico 9 – Acompanhamento IBRAM pós-projeto... 160

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ÍNDICE DE FIGURAS

Figura 1: Mapa das regionais de cultura do estado do Paraná e instituições museais ... 64 Figura 2: Divisão regional do SEM/RS ... 72 Figura 3: Mapa da América do Sul (destaque dos países participantes em verde) ... 74

(15)

INTRODUÇÃO

Analisando a política museológica do Rio Grande do Sul, busca-se compreender como se dá a organização do Sistema Estadual de Museus do Rio Grande do Sul desde o seu surgimento, fazendo um paralelo com o Sistema Estadual de Museus do Paraná e o diálogo destes com o Sistema Brasileiro de Museus. A percepção do funcionamento do Sistema Estadual de Museus do Rio Grande do Sul, do Sistema Estadual de Museus do Paraná e do Sistema Brasileiro de Museus buscará explicitar a atuação destes órgãos como sistematizadores de políticas museológicas vigentes e ao mesmo tempo identificar o entorno onde existem lacunas para a efetivação destas políticas, cada uma a seu tempo e âmbitos de atuação.

A proposta central desta tese é analisar as políticas públicas para museus. Considerando o período de 1990 a 2011, abordando o desenvolvimento do Sistema Estadual de Museus Paraná e do Rio Grande do Sul e as mútuas relações com o Sistema Brasileiro de Museus. A escolha por esse objeto se deu por ter trabalhado profissionalmente com essa temática e ter desenvolvido um estudo precedente na dissertação do Mestrado em Ciências Sociais no ano de 2007.1 A frase que intitula esta tese faz menção a Porto Alegre – onde nasci, vivo e trabalho e junto aos habitantes desta cidade é desenvolvida parte da minha pesquisa – e a Curitiba, capital do Paraná, onde se desenvolve a outra parte da pesquisa. A capital do Estado do Rio Grande do Sul, o mais meridional do país, é cortada pelo paralelo 30, no trigésimo grau Sul no plano equatorial terrestre.

Compreende-se que os atores sociais do processo e o grande público, aos quais os museus se detêm, não estão diretamente envolvidos e nem estão preocupados com o desenvolvimento destas políticas culturais. Elas não são realizadas nem em conjunto, nem em consonância com a comunidade, desde a sua concepção, até a implantação e posterior avaliação e diligenciamento. Os operadores de museus, enquanto agentes sociais, também não oferecem uma participação ativa e efetiva, segundo percebe-se. A política existe, formal, protocolar, mas na prática não há engajamento na aplicação. Falha o funcionamento

1

Bertotto, M. R. (2007). Análise das Políticas Públicas para Museus no Rio Grande do Sul – Um estudo de sua eficácia no desenvolvimento das instituições museológicas gaúchas. Dissertação apresentada à Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul para obtenção do grau de mestre, orientada por Léo Peixoto Rodrigues. Porto Alegre.

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sistematizado. Falta o comprometimento, que se daria se os operadores compreendessem neste rol de ações a forma de efetivar suas tarefas em conjunto com o público.

Políticas públicas em democracias2 há muito consolidadas são direitos básicos dos

cidadãos. São as bases para as ações públicas em benefício da sociedade, devendo primar pela inclusão social, buscar a inclusão cultural, podendo ser medidas pela qualidade de vida de uma população: moradia, acesso à educação, cultura, saúde e transporte. Nesta tese, a abordagem situa-se especificamente na área cultural e, mais diretamente, na museológica. A pesquisa trata da esfera estatal para estudar as políticas, ou seja, o mapeamento da

atuação do Estado3 neste âmbito. Desse modo, pretende-se, através da avaliação de

indicadores sociais, pesquisas realizadas por instâncias governamentais e institutos privados na área de cultura, pesquisas com operadores de museus e grande público, perceber de que forma as políticas de cultura estão cumprindo as suas recomendações.

A Constituição Brasileira de 1988, vigente, detalha no artigo 24: "Compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente sobre: (…) proteção ao patrimônio histórico, cultural, artístico, turístico e paisagístico".

Comumente, as políticas públicas como um todo são desconhecidas pela maioria da população brasileira e, de modo particular, as políticas culturais também o são. A sociedade não faz o seu papel de acompanhamento crítico, focado para a transformação da realidade, o que tem ocorrido nos museus brasileiros de modo muito peculiar. Aliás, a população não tem um entendimento amplo do que seja cultura4. A população carente de educação, conhecimento e com poucas condições de acesso é excluída do processo de formação dessas políticas. A agenda não está alcançando esta fatia, menos favorecida em termos de conhecimento, da sociedade.

Conforme levantamento desenvolvido pelo IPEA:

“As políticas culturais estão ancoradas nos direitos e na idéia de universalidade do acesso a bens culturais, simbólicos ou materiais. A democratização e o acesso à cultura são valores de amplo acolhimento entre os diferentes atores sociais. De maneira geral, os objetivos gerais que guiam outras políticas sociais se aplicam às

2

Utiliza-se aqui o conceito de democracia de Holden, Berry no Dicionário do pensamento Social do século XX (1996, p. 179): "um sistema político no qual o povo inteiro toma, e tem o direito de tomar, as decisões básicas determinantes a respeito de questões importantes de políticas públicas". O que o autor chama a atenção é de que o povo tem o direito de tomar as decisões, direito este proveniente de um "sistema de regras básicas, tais como a constituição". (p. 179)

3

Toma-se o conceito de Estado de Anthony Giddens (2005, p. 342): “Um estado existe onde há um mecanismo político de governo (instituições como um Parlamento ou Congresso, além se servidores públicos) controlando determinado território, cuja autoridade conta com o amparo de um sistema legal e da capacidade de utilizar a força militar para implementar suas políticas.”

4

O conceito de cultura é vasto e de uso corrente na Sociologia. Usa-se o conceito de Anthony Giddens (2005, p. 38): “A cultura refere-se às formas de vida dos membros de uma sociedade. Inclui como eles se vestem, seus costumes matrimoniais e vida familiar, seus padrões de trabalho, cerimônias religiosas e ocupações de lazer” (...) “A cultura de uma sociedade compreende tanto aspectos intangíveis – as crenças, as ideias e os valores que formam o conteúdo da cultura – como também aspectos tangíveis – os objetos, os símbolos ou a tecnologia que representam esse conteúdo.”

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políticas culturais, que também são consideradas como meios para enriquecer a existência das pessoas e criar igualdade social. No entanto, as instituições culturais encontram-se diante de fortes restrições que limitam sua abrangência e acesso.” (Silva, 2007, p. 11)

No século XXI, ainda que tenham se dado avanços técnicos, estruturação de espaços, bem como alargamento de acesso público aos museus, a comunidade (em sua grande maioria) permanece distanciada dos museus, que ainda continuam sendo criados como ações oficiais, dedicados à exclusiva guarda e preservação de acervos ou mesmo ações políticas, institucionais e, por vezes, eleitoreiras e momentâneas. De uma maneira geral, permanece a ideia de museu como lugar ‘das coisas velhas’, ainda associado à percepção de algo sem vida. A despeito disso, temos exemplos de museus que têm se disseminado pelo mundo, nos países desenvolvidos e nos emergentes, coadunados com o

que preconiza a museologia contemporânea, social em seu âmago.5 Este desafio deve ser

enfrentado pelos museus da sociedade contemporânea, complexa e em permanente

construção e reconstrução. De acordo com princípios de Inovação6, o museu é um serviço

público que, fortalecido pelas políticas públicas e, caracterizado como tal, se valendo também da inovação, pode tornar esses serviços eficazes e efetivos. Trabalhando os conceitos de políticas públicas da sociedade para os formuladores, poderemos identificar variadas formas de acesso à comunidade, promovendo a inclusão e a consequente transformação das instituições de memória.

Ao abordar os museus como instituições prestadoras de serviço:

“reconhece-se que um serviço é essencialmente um produto intangível cuja produção pode ou não assentar em bens materiais. Esse produto intangível não pode ser objecto de apropriação para consumo posterior mas tem por isso a característica de ser produzido e consumido em simultâneo”. (Moutinho, 2008, p.37)

Este consumo precisa ser caracterizado pela visitação aos museus, pela apropriação das exposições pelos usuários, pela inserção da comunidade nas ações inclusivas e na intrínseca característica educativa que o serviço prestado deveria encerrar.

Mario Chagas (1985) comentou que o mundo contemporâneo demanda uma reformulação de conceito do museu. A dinamicidade da sociedade e dos testemunhos, dos acervos museológicos, não é percebida dentro dos museus. A definição de museu pode ser uma nova forma de ver o mundo, uma nova forma de pensar e aproximar-se dos

5

Sobre o conceito de Museologia Social ver MOUTINHO, Mario. Cadernos de Museologia nº 1 – 1993. 6

Utiliza-se o conceito de inovação como algo novo, criativo, conforme desenvolvido por Daniel Augusto Moreira e Ana Carolina Queiroz (2007. p. 6): “Na verdade, a inovação pode preceder e causar a mudança social ou ser desenvolvida em resposta a necessidades criadas pela mudança social (Zaltman, Duncan e Holbek, 1973). Existe uma interação contínua e dinâmica entre novas idéias, práticas e produtos, e um lado, e a estrutura e a função social, de outro. As inovações podem criar mudança social e a subseqüente mudança social pode trazer inovações adicionais que podem reagir sobre as estruturas e/ou funções alteradas que as fizeram existir ou influenciam outros aspectos da organização”.

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testemunhos que foram preservados até então e uma nova relação entre o que está preservado e o público que vivencia os museus hoje.

No final do século passado, deram-se importantes transformações no museu e na museologia mundial. A partir dos anos 70 do século XX foram realizadas discussões entre profissionais da área, a ponto de serem traçadas importantes diretrizes que delinearam toda uma nova forma de pensar o museu e a museologia, reforçando uma integração entre museu e comunidade.

A Mesa-redonda de Santiago e a Declaração de Quebec são apontadas como documentos fundamentais para as transformações pelas quais o termo museu passou. A definição de museu integral como um agente de desenvolvimento comunitário (caráter social do museu) é de Santiago do Chile. Como marcos da cunhagem do termo nova museologia, este corpus de informações hoje já deixou de cobrir a totalidade dos problemas que as instituições museais enfrentam.

A Mesa-redonda de Santiago do Chile, encontro de profissionais ocorrido em 1972, reforçou a ideia de que a política ditatorial que envolveu Brasil e Chile e o desenvolvimento econômico importante em ambos – um já mais desenvolvido e outro saindo da crise e com boas perspectivas – são aspectos relevantes a serem avaliados quando se fala em política cultural, não só brasileira, como as influências destas discussões para a América Latina. A partir das discussões, foram retiradas recomendações versando sobre: museu integral, formação e aperfeiçoamento de pessoal, museu como meio de difusão de pesquisas científicas, técnicas e culturais e fomento ao ensino.

As indicações constantes da Declaração de Quebec, em 1984, serviram como uma retomada das questões que se originaram no Chile, em 1972, e novamente havia a necessidade de reforçar o fato de que tudo fosse feito para que os poderes públicos reconhecessem e ajudassem a desenvolver as iniciativas locais que aplicassem os princípios delineados nos anos 1970. Detalhando a oposição entre museologia tradicional e nova museologia, propôs uma reflexão crítica, principalmente em termos da preocupação com a comunidade, no contexto econômico, social e cultural, e não só com a preservação dos acervos.

A Declaração de Caracas, em 1992, apontou para a falta de políticas culturais coerentes e estáveis, desenvolvidas através de relações significativas com a comunidade e com a nova museologia. A museologia social, o museu integrado, a participação da comunidade, o ecomuseu – atributos das discussões contemporâneas da área – nos levam a vivenciar as mudanças que estão se processando atualmente.

Na área cultural e, mais especificamente, na área museológica, a temática política pública está diretamente vinculada aos órgãos formuladores das políticas, visto que a

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grande maioria dos museus no Brasil é mantida por órgãos governamentais, nos níveis federal, estadual e municipal.

Mas ainda se apresentam pontos que carecem de uma investigação mais abrangente e que estão imbricados à temática das políticas públicas para a cultura – e designadamente para os museus – que se refletem nas questões de acervo, nas questões de qualificação profissional, nas ações e atividades expositivas, de difusão, de ampliação de acesso e de inclusão de variados segmentos de públicos, ou seja, uma política pública por excelência. Pelas pesquisas já publicadas pelo Instituto Brasileiro de Museus (2010), a grande maioria dos 3.025 equipamentos museológicos em funcionamento atualmente no Brasil é de tutela pública; nos museus privados, existe uma forma diferente de tratar a cultura, notadamente na sociedade em permanente transformação em que estamos vivendo, onde as instituições tem tido uma preocupação mais ampla, ainda que precisem compreender as políticas públicas como desenvolvidas para todos os âmbitos.

Ao desenvolver os assuntos atinentes à sociomuseologia, torna-se premente a manifestação dos novos rumos que a museologia vem tomando através dos tempos.

O lugar que o museu ocupa hoje na sociedade suplantou em muito o seu significado de anos atrás, levando-se em conta o surgimento da instituição como ‘gabinete

de curiosidades’, que tal qual as câmaras de maravilhas7 reuniam um sem-número de

objetos curiosos, obras raras e fragmentos da história e ainda hoje povoam o imaginário popular. As características de um museu como local de guardar preciosidades vêm da definição de museu como templo das musas e têm se perpetuado por longo tempo no Brasil. Isto é, sem dúvida, uma das heranças recebidas da Europa, influência dos grandes naturalistas estrangeiros que aqui coletavam materiais para seus estudos e para lá os levavam, como já mencionado. A partir do conhecimento da história de outros museus criados no século XIX no Brasil verifica-se que a importância primeira era com a

preservação da história natural8, com as coleções, com as novas espécies e suas

classificações e descrições.

Outras instituições que ao longo dos anos discutiram e ainda discutem as temáticas museológicas também servem de fundamentação para nossa pesquisa: UNESCO, ICOM e MINOM.

Criada em 1945, com sede em Paris, a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), organismo essencial para a cultura, esteve e permanece envolvida em todos os grandes momentos da museologia, com iniciativas expressivas. Dentre os objetivos estratégicos para o desenvolvimento da cultura no Brasil,

7

Maiores detalhes em Giraudy e Bouilhet (1990). 8

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destaca-se a contribuição com a concepção de políticas públicas para a conservação integrada e sustentável de centros históricos. Para a UNESCO ainda persistem desigualdades sociais no Brasil e a cultura é um dos setores mais atingidos, apesar da diversidade cultural tão presente. O acesso à produção cultural é preocupação deste órgão: “A focalização das políticas culturais nos níveis estaduais e municipais pode favorecer a superação desse quadro e reforçar a diversidade cultural como fator da sustentabilidade do desenvolvimento”.9

Também o ICOM (Conselho Internacional de Museus), nascido em 1946, surgiu como órgão consultivo da UNESCO para assuntos de patrimônio com 14 países e mantem-se como o braço cultural da organização até os nossos dias. Dentre mantem-seus objetivos encontra-se o apoio, organização, defesa e promoção de profissionais e ações relativas à museologia e aos museus.

O MINOM – Movimento Internacional para uma Nova Museologia – formalizado em Lisboa, em 1985, afirma a função social dos museus e o caráter global de suas intervenções. O MINOM representou a esperança de hoje ser a museologia uma grande ciência. Movimentos como este que buscam a renovação no fazer museológico apontam para a importância de assuntos atinentes à museologia que não são novidade: formação,

preocupações com o mundo globalizado, multiculturalismo10, discussões e, obviamente com

as políticas para as instituições que preservam a memória. Importante salientar a participação do MINOM em recentes discussões ao redor do mundo e, mais especialmente nos Fóruns Nacionais de Museus, que ocorrem no Brasil desde 2004.

A sociomuseologia e o museu integrado apontam para o estado da arte no campo museal hoje. A museologia social não limita uma instituição, mas determina uma forma de trabalho. A sociomuseologia está inserida na museologia e estamos engajados enquanto profissionais atuantes nessa construção. Para Mario Chagas (2008), a museologia é a ciência dos museus e todo o museu é social, reflete e faz parte da sociedade.

A Política Nacional de Museus, como política pública cultural, estimula a ampliação de uma rede sistêmica, buscando integração e aprimoramento. O Sistema Brasileiro de Museus, criado em 2004, bem como os Sistemas Estaduais de Museus do Rio Grande do Sul e do Paraná, em atuação, servirão de base para esta verificação empírica. Outros sistemas recentemente criados e em atuação no Brasil encontram-se no Ceará, Bahia, Alagoas, Maranhão, dentre outros, e as ações de criação de novas unidades, ampliando a rede já existente, seguem sendo multiplicadas, inclusive em âmbito municipal, o que não é

9

Ver mais em www.unesco.org 10

Mais detalhes podem ser vistos em Anthony Giddens (2005, p. 213 e 214), onde destaca o pluralismo cultural como um dos modelos de integração étnica e apresenta como exemplos dessa diversidade os estados Unidos e a Grã-Bretanha.

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objeto desta tese. O estado de Santa Catarina, apesar de situar-se na Região Sul do Brasil não foi incluído nas pesquisas por ter sido recentemente reestruturado e não ter influência direta na criação do Sistema Brasileiro de Museus, tal qual comprova-se com os Sistemas Estaduais de Museus do Rio Grande do Sul e Paraná.

O Plano Nacional Setorial de Museus, que no momento se consolida, criado em 2010, é fruto das novas perspectivas do governo federal na área museológica. Segundo a publicação Plano Nacional Setorial de Museus (2010): “[...] o PNSM representa um marco de regulação de longo prazo para as políticas públicas do setor de museus”. Entendido como um modelo de planejamento setorial, este plano, inserido também no Plano Nacional de Cultura, servirá para que as instituições do poder público e da sociedade civil sejam elos de uma mesma corrente que possa servir de condutora para um aprendizado de realização de ações mútuas e não somente de discussões.

O Poder Público não pode sozinho propiciar subsídios e soluções para as demandas da área da cultura, represadas há tantos anos no Brasil. É premente a parceria com as empresas privadas e com outras organizações sociais. Aliás, são as organizações privadas que ultimamente têm preenchido em parte estas lacunas deixadas pelo Estado na área de políticas culturais, quer seja dando apoio direto a projetos culturais ou através da Lei Rouanet (lei 8.313 de 23/12/1991 – que institui políticas públicas para a cultura nacional), recentemente reformulada. Esta lei serviu e em parte ainda serve e convém ao governo como uma forma de participação das empresas, do capital, na inclusão cultural da sociedade. Entretanto, o que nota-se são ações, apoiadas pelas empresas naquilo que traga um retorno positivo de imagem, visto como efetivamente mais importante do que as escolhas que esta iniciativa privada faz para a sociedade desfrutar.

No dizer de Garcia Canclini (1997), a inovação no acesso à cultura é também serviço das empresas e órgãos privados e aos governos cabe proteger e salvaguardar o patrimônio histórico. O público e o privado deveriam unir-se em benefício do social, cabendo a cada um efetivamente o papel de prover e salvaguardar com responsabilidade de inclusão social. Os escritos de Garcia Canclini, profundo conhecedor da realidade latino-americana, serão utilizados para demonstrar e comprovar algumas das propostas de análise.

Objetivos e Hipóteses de trabalho

A intenção é analisar a criação do Sistema Estadual de Museus do Paraná e do Sistema Estadual de Museus do Rio Grande do Sul (advindos da criação do Sistema Nacional de Museus, surgido em 1986), comparando as semelhanças e diferenças,

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identificando as continuidades e descontinuidades e o relacionamento destes órgãos com a atual Política Nacional de Museus e com os demais órgãos de sistematização em ações que continuam sendo criadas no século XXI. Outro ponto é verificar como se comportaram e como influenciaram na criação do Sistema Brasileiro de Museus, também levando em conta a atuação de outros órgãos ligados ao campo da museologia, como associações de classe, conselhos regionais, Conselho Internacional de Museus e demais órgãos formuladores de políticas culturais.

Objetivos

Analisar, pormenorizadamente, os documentos relativos à criação do Sistema Estadual de Museus do Paraná, do Sistema Estadual de Museus do Rio Grande do Sul e do Sistema Brasileiro de Museus, comparando a atuação sistêmica, as semelhanças e diferenças, as continuidades e descontinuidades, e identificar se alguns dos editais, os decretos, as leis, com estrutura em rede, são impactantes para as instituições museológicas, percebendo de que forma as políticas de cultura estão cumprindo as suas recomendações.

Hipóteses

Para atingir os objetivos propostos, formula-se hipóteses de investigação, que procuram dar conta do objetivo principal:

1. As políticas públicas para museus desenvolvidas pelo Sistema Estadual de Museus do Rio Grande do Sul, pelo Sistema Estadual de Museus do Paraná e pelo Sistema Brasileiro de Museus – através da Política Nacional de Museus – promovem, aplicam e avaliam o desenvolvimento de atividades, programas e ações que visam qualificar as instituições museais.

2. Os atores sociais envolvidos nesse processo podem colaborar para formatar as agendas de proposição de políticas públicas.

Compreende-se que os atores sociais também são os operadores de museus que não estão trazendo sua parcela de colaboração para que as políticas sejam propostas. As agendas também não são propostas por estes operadores que dominam os códigos, que atuam nas instituições. Nos sistemas de museus estaduais, as políticas não são tão novas quanto às do sistema brasileiro, mas à sociedade (como um todo) não são revelados os serviços que estão sendo realizados. O bem cultural é um bem público e não é

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responsabilidade só do Estado e nem somente da sociedade civil, mas do conjunto dessas duas esferas.

Metodologia

Como metodologia para o estudo ora desenvolvido utiliza-se as técnicas de análise de discurso e estudo comparativo. Busca-se compreender e comprovar em que medida a análise dos documentos de criação (decretos, leis) do Sistema Brasileiro de Museus, do Sistema Estadual de Museus do Rio Grande do Sul e do Sistema Estadual de Museus do Paraná, estão visando o serviço de atendimento à comunidade e de que forma as várias vozes dos operadores de museus e do público estão transparecendo quanto à melhoria do serviço público que encerra o museu, à participação da comunidade e a compreensão e usufruto das políticas propostas.

Buscando informações junto aos trabalhadores de museus procura-se identificar como se comportam as semelhanças e diferenças entre estes, a integração e os conflitos, as relações entre sistema e entorno, considerando as complexidades que perpassam por estas categorias de análise.

Analisam-se também os documentos basilares da museologia, nos três momentos importantes do seu surgimento enquanto ciência, e o conteúdo das muitas discussões já desenvolvidas desde a Mesa-redonda de Santiago (1972), a Declaração de Quebec (1984) e a Declaração de Caracas (1992).

O conteúdo documental extraído dos textos selecionados, das entrevistas e dos questionários aplicados servirá para revelar-nos qual a exata finalidade da sistemática de redes dos órgãos formuladores de políticas.

A aplicação da metodologia será constituída por estratégias diversificadas, com entrevistas com o grande público e os atores sociais que trabalham nos museus escolhidos para aplicar a pesquisa.

Segundo Luiza Helena Pereira (1998), os documentos que servem a uma análise de conteúdo podem ser naturais (quer dizer – já existentes na realidade social) e elaborados, para atender às necessidades de levantamento de dados das pesquisas.

Spink (2000) faz uma abordagem fundamental:

“Admitir que as práticas discursivas são polissêmicas, não significa, entretanto, dizer que não há tendência à hegemonia ou que os sentidos produzidos possuem igual poder de provocar mudanças. Por outro lado, a natureza polissêmica da linguagem possibilita às pessoas transitar por inúmeros contextos e vivenciar variadas situações. ” (Spink, 2000, p. 48)

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O que aborda Spink sobre os discursos de diferentes grupos sociais e de diferentes estruturas, quer dizer que, existem versões distintas e incompatíveis a respeito de um determinado fenômeno social. Questão esta estreitamente ligada a esta proposta de investigação, uma vez que serão entrevistados colaboradores de diversos setores da museologia (e deles é que virão as práticas discursivas), com formações e pertencimentos sociais bem diversos.

A análise comparativa centra-se nas relações existentes entre fenômenos análogos, apontando suas diferenças e semelhanças.

Mirian Goldenberg (1999) didaticamente aponta que é importante analisar, comparando as diferentes respostas e as novas ideias que são aparentes e ainda o que confirma e o que rejeita as hipóteses.

Para os estudiosos Sérgio Schneider e Cláudia Job Schmitt (1998), abordando o método comparativo: “É lançando mão de um tipo de raciocínio comparativo que podemos descobrir regularidades, perceber deslocamentos e transformações, construir modelos e tipologias, identificando continuidades e descontinuidades, semelhanças e diferenças, e explicitando as determinações mais gerais que regem os fenômenos sociais.” (Schmitt & Schneider, 1998, p. 77 ). Citam ainda que: “Bloch identifica dois momentos inerentes ao método comparativo: um momento analógico, relacionado à identificação das similitudes entre os fenômenos e um momento contrastivo, no qual são trabalhadas as diferenças entre os casos estudados.”11 (Schmitt & Schneider, 1998, p. 77).

Relativamente ao método comparativo é interessante o que relata Duverger (1969) “(...) no se comparan dos cosas absolutamente idênticas ni dos cosas completamente diferentes. La comparación requiere cierta analogía entre las cosas comparadas y toda la

dificultad reside precisamente en determinar el grado de dicha analogía” 12 (Duverger, 1969,

p.412)

Esta citação reforça a utilização de comparações entre os museus e os sistemas de museus brasileiro e estaduais, pois ainda que sejam diferentes, são análogos.

As categorias que emergirem da análise da legislação e documentos e as categorias que emergirem dos discursos dos entrevistados, de cada um dos museus, serão verificadas em termos de semelhanças e diferenças, a fim de compará-las.

Como aponta Camargo: “ao elaborar e ao executar as políticas públicas estamos atingindo essencialmente, as relações entre as pessoas, relações sociais que podem ser transformadas e aprimoradas”. (Camargo, 2005, p.117)

11

Grifo nosso. 12

Tradução livre: “não se comparam duas coisas absolutamente idênticas nem duas coisas completamente diferentes. A comparação requer certa analogia entre as coisas comparadas e toda a dificuldade reside precisamente em determinar o grau da dita analogia”.

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Ainda há o que melhorar no tocante a uma participação mais efetiva da comunidade na formulação e disseminação das políticas públicas brasileiras para a área museal. A inclusão e a ampliação do acesso da comunidade aproximariam o público das instituições museais e melhorariam a qualidade de vida e de fruição dos cidadãos, contribuindo para sua formação e informação.

No dizer de Marconi e Lakatos (2005):

“Considerando que o estudo das semelhanças e diferenças entre diversos tipos de grupos, sociedades ou povos contribui para uma melhor compreensão do comportamento humano, este método realiza comparações, com a finalidade de verificar similitudes e explicar divergências. O método comparativo é usado tanto para comparações de grupos no presente, no passado, ou entre os existentes e os do passado, quanto entre sociedades de iguais ou de diferentes estágios de desenvolvimento.” (Lakatos & Marconi, 2005, p. 107)

Na oportunidade em que se examinam tópicos para comparar à política pública cultural museológica, desde o surgimento dos dois organismos sistêmicos, as comparações são proveitosas para corroborar e refinar a política da atualidade. No entanto, precisa-se entender o ‘ir e vir’ desta política e a possibilidade de aprofundar o estudo e propor melhorias.

Através de um estudo exploratório inicial, por meio de entrevistas com a população que transita e desloca-se em frente a museus públicos, seja visitando-os ou não, a intenção é conhecer o que o grande público pensa dos museus, da programação, da política cultural. Dados extraídos desta pesquisa inicial apontam para a busca de outras informações que revelem como as políticas públicas são aplicadas e compreendidas por quem faz museu e por quem usufrui do museu.

Assim, a coleta de dados seguinte ocorre em museus públicos. Esta escolha se deu em acordo com a perspectiva desse estudo: a comparação, de tal modo que foram elencados museus com tipologias diferentes, propriamente para conseguir atingir os objetivos propostos de realizar comparativos entre as ações e reflexões.

Os sujeitos da pesquisa são os trabalhadores de museus de três níveis hierárquicos da administração com a finalidade de compor a análise de dados da forma mais inclusiva possível, buscando ouvir as vozes, visões e opiniões dos agentes de setores diferenciados, impondo a possibilidade de percepção de comparativos também neste âmbito.

Um terceiro momento de coleta de dados, se dá junto aos museus contemplados pelo edital de Modernização de Museus desenvolvido pelo Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), neste momento buscando comparativos, possibilidades de interação e futuras intervenções que possam indicar melhorias e trazer contributos à área museológica.

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As técnicas de entrevistas, aplicação de questionários com perguntas estruturadas e semi-estruturadas, são as mais adequadas aos propósitos deste estudo, a fim de atender às premissas básicas e às categorias de análise desenvolvida.

A aproximação com a teoria sistêmica, embasada nos conceitos do sociólogo Niklas Luhmann, traz em formato de quadro, as categorias conceituais deste sociólogo, quais sejam: autopoiésis social, sistema-entorno, sujeito-objeto, acoplamento estrutural, contingência, dupla-contingência e sentido e comunicação, a fim de compreender o pensamento luhmanniano, introduzido no estudo da sociedade e, neste caso, designadamente nas políticas públicas para museus.

No capítulo 1, buscando aproximar o conteúdo políticas públicas e museologia, é abordado o surgimento da sociomuseologia como fio condutor para os estudos museológicos no século XXI, fazendo um histórico de documentos fundamentais para o desenvolvimento da museologia enquanto área de conhecimento. A apresentação da teoria luhmanniana é retratada com a abordagem da teoria sistêmica; a apresentação dos decretos de criação dos sistemas de museus brasileiro e estaduais descrevem o funcionamento destas organizações. A especificidade da América Latina e a forma como a cultura está posta nesta parte do globo, servem de pano de fundo para este posicionamento abordado conforme conceitos de Garcia Canclini

No capítulo 2, por entender-se que na lógica de apresentação desta tese este assunto seja mais representativo do que o histórico, a análise é centrada nas políticas públicas de cultura no Brasil, detalhando a organização do Sistema Brasileiro de Museus e a comunicação deste com o Sistema Estadual de Museus do Paraná e com o Sistema Estadual de Museus do Rio Grande do Sul, realizando comparativo das legislações de implantação dos organismos, que apesar de suas diferenças, inclusive conjunturais, apresentam muitas semelhanças de funcionamento e aplicação.

No capítulo 3, o que se compreende sobre a conceituação de políticas públicas e a preocupação dos governos com este tema. Abordando dados históricos gerais e, a partir de 1937 (com o decreto-lei nº 25), a fim de situar o início do desenvolvimento de ações políticas culturais no Brasil, através da observação de modo mais detalhado da cronologia das políticas públicas que foram formuladas para a área museológica (a partir de 1975, com o Plano Nacional de Cultura) e as ações desenvolvidas ao longo dos anos até o surgimento da Política Nacional de Museus.

No capítulo 4, apresentando os dados dos relatórios de pesquisa, as comparações do conteúdo das políticas públicas para museus, estaduais e federal, com as atuais práticas discursivas dos operadores de museus, analisam-se os dados obtidos, a fim de verificar em que medida as mesmas correspondem à situação em que se encontram os museus,

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avaliando as mentalidades que estão por trás das políticas e de que forma podem ser propostas novas ações públicas visando a qualificação dos museus.

A norma utilizada na tese para organização das referências da pesquisa é a da American Psychological Association (APA), adotada preferencialmente pela Universidade Lusófona.

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CAPÍTULO 1

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Neste capítulo apresenta-se a matriz teórica e a matriz geográfica da tese. Na primeira parte, que compreende os três primeiros subcapítulos, a matriz teórica é explicada através de um breve histórico da museologia, como se comporta na atualidade e a teoria dos sistemas para Niklas Luhmann. Na segunda parte, os dois últimos subcapítulos demonstram o embasamento para explicar a localização e a importância da América Latina na visão cultural de Garcia Canclini, bem como a criação dos sistemas museológicos nesta conjunção.

O sistema museológico compreende todas as relações sociais que são desencadeadas dentro e no entorno dos museus, instituições de ensino, órgãos formuladores de políticas, órgãos consultivos, associações de classe e conselhos de museologia.

A museologia teve um de seus mais importantes momentos em 1972, com a realização da Mesa-redonda de Santiago do Chile. Outro marco foi a cunhagem do termo nova museologia, em 1984 e, mais recentemente, a sociomuseologia, que hoje representa os estudos avançados na área. Vários outros momentos somaram-se: Declarações de Quebec e Caracas, as discussões em torno do museu integral e integrado, as novas tecnologias e a inovação.

Garcia Canclini, teórico da América Latina, adiciona a estes signicativos marcos seus estudos sobre a realidade desta área geográfica, presente em todas estas discussões.

Nesta tese a proposta é fazer um estudo da colaboração que a teoria sistêmica desenvolvida por Niklas Luhmann pode trazer, com sua conceituação de sistema social, conforme já explanado anteriormente, à interpretação do sistema museológico.

O sistema museológico brasileiro propõe-se a estabelecer elos com uma gama de instituições, quais sejam: museus (públicos e/ou privados), associações de classe (museólogos, conservadores, historiadores), conselhos profissionais, sistemas regionais, universidades (cursos afins) dentre outros agentes, o que forma, segundo o pensamento luhmanniano, os subsistemas. Estes elos são para Luhmann, a comunicação.

A criação do Sistema Brasileiro de Museus, em 2004, do Sistema Estadual de Museus do Paraná (SEM/PR) e do Sistema Estadual de Museus do Rio Grande do Sul (SEM/RS), instituídos em 1990 e 1991 respectivamente; a organização do Conselho Federal de Museologia (COFEM), órgão fundado em 1982 para regulamentar a profissão de museólogo, e a consequente criação dos Conselhos Regionais (nesta pesquisa 3ª e 5ª regiões do COFEM), da Associação Riograndense de Museologia (ARM), criada no desordenamento político e econômico dos anos 1980, da tentativa de estabelecimento de uma nova associação de profissionais de museus no Rio Grande do Sul, em 2007 – findada

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em 2012 por falta de participação da categoria de trabalhadores em museus –, em seu conjunto, vieram trazer integração e também tensão ao sistema museológico como um todo.

1.1. FATOS MARCANTES DA MUSEOLOGIA E SEUS DOCUMENTOS BASILARES

A manifestação dos novos rumos que a museologia (ciência em construção) tomou através dos tempos nos leva ao entendimento da importância do conceito de sociomuseologia.

Pensada e gestada a partir da Mesa-redonda de Santiago do Chile (1972) e da Declaração de Caracas (1992), do curso de Especialização em Museologia Social (da ULHT), do germe do Curso de Mestrado em Museologia (da ULHT) e da criação do Centro de Estudos em Sociomuseologia (da ULHT), a sociomuseologia, como pensa Mario Moutinho (1993), traz aspectos do novo processo de discussões advindos destes encontros e da participação dos profissionais envolvidos com estas temáticas:

“O alargamento da noção de patrimônio, é a consequente redefinição de "objecto museológico", a ideia de participação da comunidade na definição e gestão das práticas museológicas, a museologia como factor de desenvolvimento, as questões de interdisciplinaridade, a utilização das "novas tecnologias" de informação e a museografia como meio autónomo de comunicação, são exemplo das questões decorrentes das práticas museológicas contemporâneas e fazem parte de uma crescente bibliografia especializada”. (Moutinho, 1993, p.6)

Salienta Moutinho (2007), que o museu e a museologia tem na comunidade e na participação, as novas ferramentas para inovar os conceitos e que a sociomuseologia é considerada como uma disciplina articulada com as ciências humanas e as áreas de ensino e serviços, engajada no desenvolvimento sustentável, na inclusão socio-econômica e na busca de uma adequação dos museus aos novos pressupostos da sociedade contemporânea, aos novos problemas e às novas realidades.

Como documentos fundamentais, que influenciaram este processo inovador da sociomuseologia, a Mesa-redonda de Santiago, a Declaração de Quebec e a Declaração de Caracas são ponto de partida.

Inicia-se, cronologicamente, com a Mesa-redonda de Santiago do Chile, em maio de 1972. O documento final tem como príncípios embasadores: a resolução dos problemas do contexto que se apresentava (meio rural, meio urbano, desenvolvimento técnico-científico, educação permanente), que a solução desses problemas devia ser compreendida pelos seus aspectos técnicos, sociais, econômicos e políticos, a tomada de consciência

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pelos museus e a integração dos museus à vida da sociedade, a fim de desempenharem um papel decisivo na educação da comunidade.

Segundo as observações de Hugues de Varine13, a Mesa-redonda de Santiago era

a sucessão dos eventos precedentes organizados pelo ICOM a pedido da UNESCO, em 1958 (Rio de Janeiro/Brasil), 1954 (Jos/Nigéria), 1966 (Nova Délhi/Índia). A realidade era a dos grandes museus do México, Brasil, Cuba e Argentina e que “não tinham lições a receber” (Varine, 1995). A principal questão é que na América Latina não se falava nem francês e nem inglês e foi tomada a decisão de organizar um encontro com especialistas da América Latina e com a língua única do espanhol. Paulo Freire, que foi convidado a participar, mas teve seu nome vetado pelo delegado brasileiro da UNESCO por razões políticas, teria como colegas de mesa um grupo formado por um peruano, um panamenho e dois argentinos. Um destes argentinos, Jorge Enrique Hardoy, foi o responsável pela “revolução nos espíritos” que pautou as decisões da carta chilena. Como urbanista e especialista em cidades, este expoente fez ver ao público que era necessário conhecer as suas localidades, os seus públicos, e saber antever as necessidades sociais e culturais das imensas e, muitas vezes, muito pobres populações. Para Varine, o essencial da mensagem de Santiago resume-se a dois pontos: a noção de museu integral e de museu enquanto instrumento de mudança social. E reforça: “esquecia-se assim, aquilo que havia se constituído, durante mais de dois séculos, na mais clara vocação do museu: a missão da coleta e da conservação”. (Varine, 1995)

No mesmo documento, Hugues de Varine aponta as dificuldades que ocorreram nos mais de vinte anos pós Mesa-redonda de Santiago nos países latino-americanos que, grosso modo, não conseguiram implementar muitas das ideias gestadas. Embora,

importantes museus tenham sido criados seguindo a conceituação de ecomuseu14 (tipo de

museu onde a comunidade é chamada a discutir, interagir, criar e gerir e que representa

aquela comunidade) e de museu integral e, a despeito do Encontro de Caracas, Varine

aponta o rejuvenescimento da Mesa-redonda de Santiago.

No Chile, bem como nas demais nações sulamericanas que se democratizaram ao longo do último quartel do século XX, nota-se ainda uma retomada cultural. Em termos de políticas públicas, os ‘pensares’ de 1972 ainda estão por serem realizados. Um volume expressivo de ações foi efetivado, mas ainda faltam ações para a concretização da totalidade do que foi discutido.

13

Análise do documento oficial feita por Hugues de Varine “A respeito da mesa-redonda de Santiago (traudação de Marcelo M. Araújo e Maria Cristina O. Bruno (1995, p.17)

14

A respeito da conceituação de ecomuseu verificar os Escritos de George Henri Riviere em: http://redemuseusmemoriaemovimentossociais.blogspot.com.br/2010/08/definicao-evolutiva-de-ecomuseu-por.html - acesso em 24/03/2012.

(32)

Olhando hoje, após a recente comemoração dos quarenta anos da Mesa-redonda de Santiago do Chile, o Brasil possui uma rede organizada de museus, traduzida pela manutenção de uma Política Nacional de Museus, proposta e mantida pelo governo federal e com uma gama de órgãos sistematizadores em várias unidades da federação.

A Declaração de Quebec, em 1984, foi uma retomada das discussões de 1972, onde surgiu um movimento por uma nova museologia. Num dos únicos encontros realizados fora da América Latina, foi no Canadá, que se reforçaram as ligações da museologia com outras ciências, destacando a interdisciplinaridade e a ação cultural como fundamentais para as novas necessidades do mundo contemporâneo, quais sejam (em termos de museologia): a ação cultural e novos métodos de gestão.

A nova museologia, tão presente nas discussões realizadas em Quebec, utiliza-se de todos os recursos da museologia – coleta, conservação, investigação científica, restituição e difusão, criação – que se adapta a cada meio e realiza projetos em conjunto com a sociedade.

São adotadas a partir da Declaração de Quebec as seguintes resoluções: o reconhecimento do novo movimento museológico e a aceitação de todas as formas de museologia ativa; o dever dos poderes públicos em ajudar as iniciativas locais a aplicarem os novos princípios; a criação de um comitê de museus comunitários nos quadros do ICOM; a criação de uma federação internacional da nova museologia e a criação de um grupo de trabalho provisório visando organizar as propostas e a aplicação de um plano de encontros e de colaboração internacional.

Mario Moutinho (1995) ao fazer um balanço da Declaração de Quebec, destaca que a contextualização desta Declaração – e que veio a lhe dar forma – se relaciona com a organização do Ateliê Internacional Ecomuseus – Nova Museologia, que também ocorreu em outubro de 1984, em Quebec. Moutinho ressalta o intercâmbio entre a nova museologia e a museologia até então instituída e diz: “por uma oposição a uma museologia de coleções, tomava forma uma museologia de preocupações de caráter social”. Ao destacar a existência de uma resistência de alguns setores do ICOM (particularmente o ICOFOM), manifestada numa reunião ocorrida em Londres, um ano antes de Quebec, que rejeitava a existência de práticas que não estivessem em consonância ao status quo da museologia, Moutinho alerta para a tomada de consciência de um movimento simultâneo em vários países que davam conta de uma realidade nova da museologia.

Uma nova ordem museológica era então representada pelas reflexões de quem preconizava uma museologia participativa que seria: interdisciplinar, de forte implicação popular, fonte de novas solidariedades, trataria das memórias coletivas e teria o público como colaborador. Transbordaram exemplos de museus em várias partes do mundo

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(México, Espanha, Suécia, Reino Unido, Nigéria), que já atuavam coadunados a esta nova estrutura.

O texto final da declaração não foi aprovado sem extensas discussões, em razão da quebra de paradigma que se impusera. Dentre as ações que foram levadas a efeito destaca-se a criação do Movimento Internacional para uma Nova Museologia, um ano após e que, posteriormente, veio a ser reconhecido como instituição afiliada ao ICOM. Mario Moutinho aponta que o importante da Declaração de Quebec, do Ateliê de 1984 e da criação do MINOM foi “o reconhecimento no seio da MUSEOLOGIA, do direito à diferença”.

O MINOM – Movimento Internacional para uma Nova Museologia – organizado em Lisboa no ano de 1985, serviu de ponto inicial para o desenvolvimento de uma nova forma de pensar o museu e define-se como um movimento que compreende a museologia comunitária, a sociomuseologia, a ecomuseologia e a museologia social. Renova-se pelo processo de globalização através de intercâmbios, ligações em rede, integrações regionais e, ainda, pelo contato com ICOM e UNESCO. Na agenda dos últimos dois anos do MINOM priorizam-se temas como: multiculturalidade, museus como prestadores de serviços,

programas de formação e problemáticas de gênero15.

Dando continuidade a linha do tempo, a Declaração de Caracas destacou, duas décadas após o marco museológico chileno, a importância da avaliação permanente e:

“Que os planos e programas elaborados com instrumentos de planejamento moderno estejam baseados em um diagnóstico das necessidades do museu e da sociedade na qual está imerso, e que a realização de tais planos e programas leve em conta as necessidades prioritárias do museu e defina objectivos e metas a longo, médio e curto prazo; [...] Que se promovam políticas culturais coerentes e estáveis que garantam a continuidade da gestão do museu.” (ICOM - Declaração de Caracas, 1992)

A Declaração de Caracas foi emitida em 1992, durante a realização do Seminário

“A Missão dos Museus na América Latina Hoje: Novos Desafios”. Reunindo gestores de museus dos diversos países da América Latina, refletiu sobre a missão do museu como agente de desenvolvimento e ocorreu com o intuito de “atualizar os conceitos e renovar os compromissos adquiridos” na reunião de Santiago do Chile. Esta Declaração, visando retomar as decisões tomadas em Santiago, aponta de forma direta a falta de uma política coerente e duradoura para a cultura, cobrando do Estado o seu papel enquanto mantenedor do patrimônio público que os acervos museais representam. Enfatiza a importância da comunidade no relacionamento com o Museu, também ressaltando características típicas da nova museologia.

15

Movimento Internacional para uma Nova Museologia [MINOM – ICOM]. (2011). www.minom-icom.net. Acedido a 21 de Março, 2011 de MINOM – ICOM em www.minom-icom.net.

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Dentre as considerações, destacam-se as que se apresentaram como mais pertinentes a esta tese e, pela atualidade de seus preceitos, nas recentes quatro décadas transcorridas:

“[...] É lamentável a falta de uma política cultural coerente que transcenda a temporalidade e garanta a continuidade de ações. [...]

O Estado não pode abandonar totalmente seu papel de guardião do acervo patrimonial de nossos povos, e deve contribuir para garantir sua conservação e integridade como o órgão mais idôneo. [...]

Que se reformulem as políticas de formação de coleções, conservação, investigação, educação e comunicação, em função do estabelecimento de uma relação mais significativa com a comunidade, com a qual o museu desenvolve suas atividades; [...]

Que se promovam políticas culturais coerentes e estáveis que garantam a continuidade da gestão do museu; [...]” (Declaração de Caracas, 1992)

Maria de Lourdes Parreiras Horta (1995) escrevendo após vinte anos da realização dos debates ocorridos em Santiago aponta para o programa intenso de mais de vinte dias de convivência em debates, reuniões e grupos de trabalho, dos quais participaram representantes de: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Cuba, Equador, México, Peru, Nicarágua e um grande volume de venezuelanos, todos da área diretiva de museus. Pelo depoimento de Horta, diferentemente da reunião de Quebec, na Venezuela houve consenso e harmonia de ideias, pensamentos, vivências, crenças e esperanças. Foram cinco os pontos de enfoque que fizeram resultar a redação do documento final: Museus e Comunicação, Museus e Gestão, Museus e Liderança, Museus e Recursos Humanos, Museus e Patrimônio.

Horta (1995) destaca novidades no documento final de Caracas, que sintetiza em três ângulos:

1. Mudanças políticas, sociais, econômicas e tecnológicas ocorridas na América Latina que gerou a transformação ocorrida nas instituições museológicas; 2. A releitura do documento de Santiago e sua atualização tomando por base o

limiar do século XXI;

3. Uma nova visão das instituições museais em relação a suas funções e modos de atuação na América Latina.

O que se apresenta de mais inovador na Declaração de Caracas é o alargamento do conceito de museu integral, transpondo-o para a expansão, a abertura para o entorno e a realidade de cada museu; o museu é uma ação concreta, comprometida com seu território e com as realidades de seu entorno, como parceiro em busca do desenvolvimento, enfim, o museu integrado à vida da comunidade.

Os três documentos observados até aqui, foram os suportes mais importantes de sustentação da museologia e, estão, ainda, muito atuais, seja pelo que preconizavam, seja

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