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Academic year: 2021

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(1)UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO FACULDADE DE COMUNICAÇÃO, EDUCAÇÃO E HUMANIDADES PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS DA RELIGIÃO. OFIR MARYURI MORA GRISALES. RASTROS DE EROS: INTUIÇÕES SOBRE UMA ER/ÉTICA POSSÍVEL. SÃO BERNARDO DO CAMPO 2016.

(2) OFIR MARYURI MORA GRISALES. RASTROS DE EROS: INTUIÇÕES SOBRE UMA ER/ÉTICA POSSÍVEL. Tese apresentada em cumprimento às exigências do curso de Pós-Graduação em Ciências da Religião, da Universidade Metodista de São Paulo, Faculdade de Comunicação, Educação e Humanidades, para obtenção do grau de Doutora. Área de concentração: Linguagens da Religião. Orientação: Profa. Dra. Sandra Duarte de Souza. SÃO BERNARDO DO CAMPO 2016.

(3) FICHA CATALOGRÁFICA. M791r. Mora Grisales, Ofir Maryuri Rastros de eros:intuições sobre uma er/ética possível / Ofir Mayuri Mora Grisales -- São Bernardo do Campo, 2016. 205fl. Tese (Doutorado em Ciências da Religião) – Escola de comunicação, Educação e Humanidades Programa de Pós Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo Bibliografia Orientação de: Sandra Duarte de Souza 1.. Feminismo 2. Erotismo – Aspectos religiosos3. Ética I. Título CDD 301.412.

(4) A tese de doutorado intitulada: “Rastros de Eros: intuições sobre uma er/ética possível” elaborada por OFIR MARYURI MORA GRISALES, foi apresentada e aprovada em 01 de agosto de 2016, perante banca examinadora composta pela Profa. Dra. Sandra Duarte de Souza (Presidenta/UMESP) Prof. Dr. Claudio de Oliveira Ribeiro (Titular/UMESP) Prof. Dr. Helmut Renders (Titular/UMESP), Profa. Dra. Ivone Gebara (Titular) e pelo Prof. Dr. André Musskopf (Titular/Escola Superior de Teologia).. __________________________________________ Profa. Dra. Sandra Duarte de Souza Orientadora e Presidenta da Banca Examinadora. ________________________________________ Prof. Dr. Helmut Renders Coordenador do Programa de Pós-Graduação. Programa: Pós-Graduação em Ciências da Religião Área de Concentração: Linguagens da Religião Linha de Pesquisa: Teologia das Religiões e Cultura.

(5) AGRADECIMENTOS. Sou imensamente grata a muitas pessoas que em diferentes momentos dos anos de pesquisa e escrita passaram pela minha vida, das mais diversas maneiras, afetando o meu pensamento e meu corpo. Gracias Manu (Manoel Botelho) pelo carinho, cuidado e paciência com esta doutoranda colombiana e doida. Obrigada por me oferecer um lar temporário no final da escrita deste texto, pelo café, pelo abraço e presença revigorante no meu caos vital. Gracias Humberto pela sua inigualável amizade, pelas desafiantes, boas e longas conversas (sempre!). A convicção de que você não me deixaria pular fora foi fundamental para continuar, mesmo nos momentos mais tensos deste processo. Gracias Carlos, pela amizade fronteiriça e queer, pelos debates sempre críticos e profundos, e principalmente pela confiança e respeito a minha trajetória e ideias. Obrigada pelas críticas e sugestões ao meu texto. Gracias Cesar, por ser amigo incondicional, pelas conversas e risadas regadas a ironia e energia erótica. Obrigada por me permitir construir no diálogo abertamente transgressor e indecente, a teologia que dá sentido a minha vida e que alimenta a minha luta. Jacque, obrigada por ter se tornado uma amiga incondicional, porto seguro e cúmplice no último ano do doutorado. Na sua casa teci algumas loucas ideias sobre erotismo e teologia. Ao Daniel, baianinnho, por ser interlocutor inteligente, engajado e atualizado. Obrigada pela amizade, por seu ouvido paciente e apurado, pelo abraço apertado e o cheiro no cangote. Raquel, grata sempre pela tua presença, por ter sido irmã em momentos difíceis e solitários do tempo no Brasil. Obrigada pela amizade e força. Joshua, obrigada pela amizade, pela ajuda com textos e traduções e pelo carinho que transcende a distância. Você é um amor de gringo! Andréia Fernandez, querida, sou imensamente grata a você pelo término deste texto. Suas orações, além da sua mão e ombro amigo nos momentos mais difíceis dos últimos meses foram amor divino na minha vida em caos. À minha amiga em diáspora, Nicoly (nos Estados Unidos), obrigada pelas ligações, mensagens e por estar presente e me animar nesse duro processo de escrita da tese. Às minhas amigas na Colômbia, Isabel, Aida, Glenda, Francy, Gleydis, Lorena. Às amigas em são.

(6) Bernardo do campo, Lilian e Lídia, perto de vocês sempre me senti amada e cuidada. Obrigada pela amizade durante esse tempo. À minha família, especialmente a minha mãe, Nury Grisales, por ser essa mulher forte e sensível, amiga e suporte em todos os sentidos. Às minhas três corajosas, belíssimas e sabias irmãs: Ângela, Tati e Lauren. Ao meu sobrinho George e a minha sobrinha Sofia, apesar de longe, a esperança de um mundo melhor vem quando penso em vocês dois. Ao meu pai, Over Mora, que insistentemente perguntou pelo processo e acreditou sempre no meu trabalho. Papá, a pesar de la distancia y de todas las dificultades que enfrentamos, tu voz siempre me animó, gracias ! Ao Fernando Candido pela amizade, pelas ideias brilhantes que acompanharam sempre nossos cafés e cervejas em casa. Obrigada pela sua voz crítica ad infinitum. À REJU, e todas as pessoas que fazem parte desse plural e bagunçado grupo de militância ecumênico, principalmente à REJU São Paulo por se tornar o meu espaço de espiritualidade e de luta nos últimos anos. Às mulheres da Universidade Metodista, Regiane, Camilla e Ana Fonseca, pela ajuda e paciência nesses longos e difíceis quatro anos. À professora Sandra Duarte de Souza pela confiança e pela paciência. Obrigada por estar presente nessa caminhada e especialmente pela coragem e ajuda dos últimos meses. À professora Lieve Troch, por ter sido a orientadora desta tese durante três anos e meio, pelos ensinamentos, críticas e desafios nesse conturbado processo acadêmico. Ao professor Cláudio Ribeiro, pela amizade e pelos comentários críticos e oportunos ao meu texto. E ao professor Paulo Ayres Mattos, pelo cuidado, respeito e encorajamento no processo. À CAPES pela concessão da bolsa que fez possível o desenvolvimento e conclusão desta pesquisa. Ao Instituto Ecumênico de Pós-Graduação (IEPG) da Universidade Metodista de São Paulo e a Kerk In Act na Holanda, pelas bolsas concedidas, as quais foram fundamentais para minha manutenção no Brasil durante o tempo da pesquisa e escrita dessa tese..

(7) Tan solo existen las ideas viejas y olvidadas; una vez que las reconozcamos en nuestro interior, podremos realizar con ellas nuevas combinaciones, nuevas extrapolaciones, y hacer acopio de valor para ponerlas en práctica. Y en todo momento hemos de infundirnos ánimo a nosotras mismas y unas a otras para poner a prueba esas acciones heréticas que están implícitas en nuestros sueños y desacreditadas por nuestra forma tradicional de pensar.. Audre Lorde.

(8) GRISALES, O. Maryuri Mora. Rastros de Eros: intuições sobre uma er/ética possível. Tese de Doutorado em Ciências da Religião. Faculdade de Comunicação, Educação e Humanidades, da Universidade Metodista de São Paulo. São Bernardo do Campo, 2016.. RESUMO. Eros é uma força vital, um fluir de energia difícil de definir e emoldurar. Optei assim, por percebê-la a partir dos fragmentos, dos rastros que consegui vislumbrar no ímpeto e beleza do seu percurso nas vidas e nas relações humanas. O meu interesse pelo erótico decorreu inicialmente de algumas suspeitas concretas: o lugar periférico, quase ausente do erótico na teologia, a erotização da violência e da dominação como prática recorrente na América Latina, a racialização do erótico e finalmente uma excessiva sexualização do erotismo na cultura ocidental. Visei, pois, reconstruir o erótico desde uma perspectiva ética e transformadora. Para tanto, o caminho foi a desconstrução e a interrupção enquanto estratégias feministas e subalternas de busca por outros significados, outras práticas e inclusive outra linguagem. Tal caminho me endereçou num processo de desestabilização da compreensão hegemônica que informava teológica e simbolicamente teorias e práticas do erotismo. Teologias críticas feministas, de libertação e indecentes, caminharam junto nesse percurso errático que inevitavelmente excedeu os limites do discurso teológico. Finalmente então, propus que a er/ética seja a expressão para um novo e aberto espaço de significação e negociação do erótico, o qual só pode ser compreendido no seu potencial transgressor, na medida em que é capaz de descobrir e manter vivo o fluxo de energia que nos move, no profundo da nossa experiência corpórea, individual e coletiva e para além da dominação e da utilidade do tempo e mundo capitalista e colonial. A fragmentação da palavra coloca as fronteiras em aberto, desestabiliza os limites disciplinares, ao mesmo tempo em que cria as condições para sua relação.. Palavras chaves: Eros, feminismos, rastro, energia, ética e relação..

(9) GRISALES, O. Maryuri Mora. Rastros de Eros: intuições sobre uma er/ética possível. Tese de Doutorado em Ciências da Religião. Faculdade de Comunicação, Educação e Humanidades, da Universidade Metodista de São Paulo. São Bernardo do Campo, 2016.. ABSTRACT. Eros is a vital and dynamic energy very difficult to define and frame. Thus I decided to grasp with it through the fragments and tracks I could glimpse within the impetus and beauty of its journey in the lives of people and through human relationships. My interest in eroticism was triggered by some initial concrete suspicions regarding its peripheral, almost absent location in theological discourses, the erotization of violence and domination as a common phenomenon in Latin America, the racialization of the eroticism and finally an excessive sexualization of eroticism in Western culture. I aimed at a reconstruction of eroticism from an ethical and transformative perspective. Deconstruction and interruption were used as feminist and subaltern strategies of searching for other meanings, other practices and even another language. This led my way through a destabilizing dynamic of the hegemonic thinking that underpinned eroticism in theory and practice. Feminist critical theologies, as well as liberation and indecent theologies, walked together along this erratic route that ended up transcending the theoretical framework of theological discourses. Thus I proposed that er/ethics shall be a plausible expression for an open and new space of meaning and negotiation of eroticism which can only be discovered in its transgressive potential in that it is able to discover and keep alive the flow of energy that moves us in the depths of our bodily experience, individually and collectively and beyond domination, beyond the way in which time is experienced in our capitalist and postcolonial world. The fragmented character of the word make the borders fluid, destabilizing disciplinary boundaries, and at the same time, it creates the conditions of its relatedness. Key words: Eros, feminisms, tracks, energy, ethics, relation..

(10) GRISALES, O. Maryuri Mora. Rastros de Eros: intuições sobre uma er/ética possível. Tese de Doutorado em Ciências da Religião. Faculdade de Comunicação, Educação e Humanidades, da Universidade Metodista de São Paulo. São Bernardo do Campo, 2016.. RESUMEN. Eros es una fuerza vital, un fluir de energía difícil de encerrar. Opté, pues, por captarla a partir de los fragmentos, de los rastros que conseguí vislumbrar en el ímpetu y belleza de su transitar en las vidas y relaciones humanas. Mi interés por lo erótico es resultado, inicialmente de algunas sospechas concretas: el lugar periférico, casi ausente de lo erótico en la teología, la erotización de la violencia y de la dominación, como práctica frecuente en América Latina, la racialización de lo erótico y finalmente, una excesiva sexualización del erotismo en la cultura occidental. Busqué reconstruir lo erótico desde una perspectiva ética y transformadora. Para eso, el camino usado fue la desconstrucción y la interrupción como estrategias feministas y subalternas de busca por otros significado, otras prácticas e inclusive, otro lenguaje. Este camino me condujo por un proceso de desestabilización en relación a la comprensión hegemónica que alimenta, teológica y simbólicamente teorías y prácticas del erotismo. Teologías críticas feministas, de liberación e indecentes, caminaron juntas en este recorrido errático que inevitablemente excedió los límites del discurso teológico. Finalmente propuse que la er/ética sea una expresión para un nuevo y abierto espacio de significación y negociación de lo erótico. Tal espacio, solamente podrá ser entendido en su potencial transgresor, en la medida en que sea capaz de descubrir y mantener vivo el flujo de energía que nos mueve, en lo profundo de nuestra experiencia corporal, individual y colectiva, más allá de la dominación y de la utilidad del tiempo y el mundo capitalista y colonial. La fragmentación de la palabra marca las fronteras abiertas, desestabilizando los límites disciplinares, al mismo tiempo en que crea las condiciones para su relación. Palabras claves: Eros, feminismos, rastros, ética, energía, relación..

(11) SUMÁRIO. Introdução ................................................................................................................................. 10 CAPÍTULO I: VOZES LATINO-AMERICANAS DO ERÓTICO NA TEOLOGIA .... 20 1.1 Busca mitológica de Eros– arquétipo ou protótipo? ........................................................... 22 1.1.1 O mito de Eros e Psiqué: uma leitura crítica ................................................................... 24 1.1.2 Limites da compreensão mitológica e filosófica de Eros ................................................ 29 1.2 O erótico como transgressão............................................................................................... 32 1.3 O erótico: beleza e poesia ................................................................................................... 34 1.4 O erótico como carne e corpo sagrados .............................................................................. 38 1.4.1 Corpo(s): chave e limite do erótico ................................................................................. 40 1.4.2 O sagrado do corpo, erotismo e Bíblia ............................................................................ 43 1.5 O erótico como grito feminista e clamor teológico ............................................................ 52 1.5.1 Teologia Feminista: corpo e cotidiano ............................................................................ 53 1.5.2 O erótico teológico: um clamor pelo mistério ................................................................. 58 CAPÍTULO II: ENERGIA E COMUNIDADE: RASTROS DO ERÓTICO EM AÇÃO .................................................................................................................................................. 63 2.1 As autoras e seus contextos ............................................................................................... 65 2.1.1 Audre Lorde..................................................................................................................... 66 2.1.2 Carter Heyward................................................................................................................ 67 2.1.3 Rita Nakashima Brock ..................................................................................................... 67 2.2 Energia Erótica ................................................................................................................... 68 2.2.1 A poesia como expressão dessa energia .......................................................................... 69 2.2.2 Energia erótica, força feminista, força negra ................................................................... 71 2.2.3 A energia que vem da paixão .......................................................................................... 76 2.2.3.1 Funcionamento da paixão nas estruturas de poder ....................................................... 77 2.2.3.2 Institucionalização teológica da exclusão da paixão. a paixão como elemento forcluído ................................................................................................................................... 79 2.2.4 ‘Heart’, energia e poder erótico trasformador ................................................................. 83 2.3 Comunidade erótica ............................................................................................................ 87 2.3.1 A comunidade que emerge da paixão .............................................................................. 87 2.3.1.1 Paixão e o poder da relação .......................................................................................... 90 2.3.1.2 O erótico como poder e mutualidade ............................................................................ 93.

(12) 2.3.2 A comunidade teológica – uma Crista erótica ................................................................. 98 2.3.2.1 Crista: erótica e encarnada ............................................................................................ 99 CAPÍTULO III: A TEOLOGIA INDECENTE DE MARCELLA ALTHAUS-REID E O EROTISMO QUE A MOVE ............................................................................................... 104 3.1 A Teologia Indecente....................................................................................................... 105 3.1.1 A indecência na encruzilhada ........................................................................................ 107 3.1.1.1 A Teologia da Libertação ........................................................................................... 108 3.1.1.2 A Teologia Feminista ................................................................................................. 109 3.1.1.3 A Teologia Queer ....................................................................................................... 110 3.2 Fazer Teologia Indecente: hermenêutica da suspeita e método libertino ........................ 113 3.2.1 A leitura libertina: queerificando a Teologia ............................................................... 117 3.2.2 Apontamentos sobre linguagem transgressora .............................................................. 123 3.3 A recepção da Teologia Indecente na América Latina ..................................................... 125 3.4 Contribuições da Teologia Indecente à Teologia Latino-Americana .............................. 136 3.5 O erotismo que move a Teologia Indecente de Marcella Althaus-Reid ........................... 141 CAPÍTULO IV: ER/ÉTICA: UM ESPAÇO AGONÍSTICO EM (E PARA ALÉM DA) TEOLOGIA .......................................................................................................................... 147 4.1. Justiça e Ética no caminho da desconstrução .................................................................. 148 4.1.1 Ética Feminista como horizonte de/em transformação................................................. 150 4.2. O processo de emergência de uma er/ética ...................................................................... 154 4.2.1 O potencial interruptor e pós-colonial da linguagem .................................................... 155 4.2.2 Limites e possibilidades do dizer teológico sobre Eros ................................................. 158 4.2.2.1 Uma poética passional ................................................................................................ 162 4.2.2.2 O erótico transcendente (?): face, corpo e encontro .................................................. 165 4.2.3 Uma estética errática ..................................................................................................... 167 4.3 Er/ética: anotações sobre o conteúdo desse espaço agonístico e relacional ..................... 171 4.3.1 Er/ética e o imaginário da relação ................................................................................. 173 4.3.2 Rastros er/éticos que a rua proporciona ....................................................................... 176 4.3.3 O caráter agonístico da er/ética ..................................................................................... 179 Conclusão .............................................................................................................................. 184 Bibliografia ............................................................................................................................. 192.

(13) 10. INTRODUÇÃO. Nombrar nuestras prácticas y sentimientos nosotras mismas sin tener miedo al sonido de nuestra propia voz, no tener miedo a crear teorías, conceptos y explicaciones, no dudar en interpretar lo que nos pasa, tampoco a tener miedo a proyectar nuestros deseos, nuestros sueños y nuestras utopías. Recuperar el derecho a existir de manera diferente en el mundo (Julieta Paredes, 2008). Permito-me começar esta introdução com a pequena autobiografia que elaborei, um ano atrás, tentando narrar parte do trabalho teórico-existencial que significou para mim a construção desta tese. Considero-a relevante porque permite minha localização e uma melhor compreensão das escolhas feitas ao longo do caminho. A opção pelo tema, a posterior construção do referencial, o percurso metodológico e até o estilo de escrever e apresentar os resultados, foram passos vagarosos, difíceis e atrapalhados, que tentei dar, no meio à bagunça que se tornaria meu corpo durante os anos em que me debatia, talvez sem muita sorte, entre anseios pessoais e aspirações transgressoras, teológicas e para além. Tal foi o cenário do processo de produção deste texto. E aqui estou eu, colocando-me em cena.. Mi itinerario1 Me pregunto si vivo, de alguna manera, una condición de exilio. No quisiera colocarme en un lugar fijo, claramente “exilio” nunca lo sería. Solo intento pensar en lo que significa para mí, como intelectual en construcción, el “estar fuera de lugar” deparada siempre con el imperativo y el miedo de (no) “ajustarme”. Esa sensación y casi certeza de no ser de aquí ni de allá. Ser del medio. Ser un puente o tal vez un rio que corre. Pasé un poco más de seis años estudiando en estas tierras brasileñas de encantos y desencantos. Intentando no morir en el intento de ser académicamente competente, como CAPES manda. Caminando fragilmente entre ideas reconfiguradas de familia y afecto, agradeciendo a esta vida por las redes de amistades que se tejieron fuertes y tratando de mantenerme con mis dos pies firmes en algunas luchas que lograron darle sentido al limbo llamado doctorado. 1. Peço licença, além do mais, pra manter esse texto na minha língua materna..

(14) 11. ¿Sería yo la mestiza que Glória Anzaldua describe como viviendo en la encrucijada? A veces siento que vivo en mi cuerpo esta frontera, este lidiar constante con la ambiguedad y la contradicción. Un viacrucis interior. Escribo para mí y esa es tal vez la parte más egoísta y paradójicamente la más linda y emancipadora que he aprendido con este ejercicio: solo siendo radicalmente “yo” puedo ser también ese universal inherente a todo lo humano. Mi exilio simbólico y de alguna manera físico se volvió mi trinchera, mi lugar de lucha epistémica y política y por lo tanto, mi locus de enunciación teológica. Siempre sospeché, pero hoy tengo “certeza”, de que no estoy fuera de mi cuerpo – con toda la transcendencia que lo constituye – cuando escribo y pienso en lo erótico. Estoy (obviamente) dentro de él, intentando ajustarme a las leyes, a los cánones académicos de la burocracia científica: plazos, informes y textos, en medio de esa maraña de contingencia que es la existencia cotidiana. Intentando pensar lo erótico desde este cuerpo, a veces cansado y otras veces enfermo que se niega pero se obliga a escribir, a ‘teologizar’. Anhelando una creatividad que no siempre llega, que se demora, que tiene su propio tiempo, mientras se subliman y se desbordan algunos deseos. Sensaciones, experiencias y expectativas se misturan en mí. Inclusive culpa y miedo (desagradables compañías) toman poder delante de los minutos, los días y los meses que pasan implacables llevándose las horas no convertidas obligatoriamente en párrafos, análisis teológicas, lindas y profundas frases o capítulos de una tesis. Y continúo en mi obstinada lucha por descubrir– no sin dificultades – lo erótico dentro de mi compromiso con la producción de conocimiento emancipador. Intentando particularmente trascender algunas teologías tradicionales e inclusive “de liberación” que no logran superar el fetichismo del concepto, esa obsesión por las definiciones y los enunciados filosóficos e históricos adecuados, precisos u “objetivos”. Intentando también trascender el miedo de pensar y hacer teología indecente (en el sentido amplio y concreto que la grandiosa Marcela Althauss-Reid nos legó para este adjetivo). Por todo lo anterior, escribir una tesis de doctorado para mí fue/es un acto político y necesariamente ético. Es un acto de disputa intelectual, entendiendo el papel del/ de la intelectual como responsable o cómplice de discursos hegemónicos, pero también en su posibilidad orgánica de lucha contra las formas del poder que dividen y jerarquizan los saberes, otorgándole al mismo tiempo un lugar de alguna manera privilegiado. Sin embargo y finalmente, la dicha a la cual soy grata en medio de ésta lucha, es que el tema me resultó siempre apasionante, me provocó, me desafió, me emocionó profundamente de comienzo a fin. Me siento tocada por esa energía erótica que busco y que encuentro – no.

(15) 12. sin dificultad y dolor –en mi vida cotidiana, ese erotismo presente en mi deseo de experiencias más sentidas y emancipadoras de subjetividad y colectividad sagrada, plena y alegre en la multiplicidad de rostros, imaginarios y vivencias heterogéneas que componen el itinerario de este sur.. Ponto de partida e expectativa de chegada. O objetivo que guiou meu trabalho foi o de abrir novos caminhos hermenêuticos e possibilitar outros sentidos e significados, através da aproximação crítica e feminista ao erótico. Minha escolha do erótico se deu apartir do contato com propostas críticas e instigantes dentro da teologia, as quais me levaram a enxergar desafios éticos numa exploração e avaliação dos rastros de Eros. Ao compreender o erótico como força vital e poder de ser (LORDE, 1984) e de conexão (HEYWARD, 1982) pensei nas probabilidades de transcender eróticas desgastadas, violentas e limitadas que vemos e experimentamos lá e acolá. Ativou-se em mim uma esperança feminista. Pensei na necessidade constante do exercício de estranhamento, re-significação e atribuição de novos sentidos e valores, no intuito de transformação. E esta aproximação feminista é aplicável a cada experiência, conceito, projeto ou âmbito da vida. A pesquisa enveredou-se, assim, numa revisão, abertura e reconstrução do erótico, provocando, também, uma infinidade de possibilidades. Tal objetivo implicou não só na contextualização e redefinição de conceitos, mas principalmente no desafío de articular novas perguntas sobre o erótico a partir de um olhar teológico feminista. Uma das preocupações da pesquisa foi pelas pessoas que experimentam o erótico como violência, como abuso, como negação do próprio desejo, experiências negativas que enfraquecem a vida e as relações. Parecia-me evidente que algum vínculo estava quebrado ou não estava funcionando bem na tríade erótica, ética e teologia. A limitada interpretação do erótico, o caráter restritivo geralmente atribuído a práticas ou discursos vinculados a ele, assim como os sujeitos subalternizados por uma erótica normativa eram elementos que precisavam ser revisados desde uma perspectiva crítica feminista. Assumindo um compromisso com a superação de estruturas que legitimam teológica e ideologicamente a miséria sexual e erótica.. Usos e abusos do erótico.

(16) 13. Existe um excesso sexual do erótico na cultura ocidental. O contexto deste excesso é a liberdade sexual como privilegio masculino e a repressão autoritária da sexualidade, principalmente a não normativa. Nesse contexto, o binarismo homem-mulher aparece sempre como a base que sustenta qualquer referência ao erótico (FIGARI, 2009: 16). A redução do erótico ao sexual se faz presente, por exemplo, na relação que geralmente se estabelece entre erotismo e pornografia. Qual é a fronteira entre o erótico e o pornográfico? Qual seria o critério para estabelecer tal fronteira? É claro que as respostas são variadas e atravessadas pelo poder de quem olha e quem nomeia. Pornografia e erótico são, de qualquer maneira, elementos comparáveis, e podem ser também intercambiáveis, isto é, seu sentido e uso estão atrelados a processos contextuais – nunca unívocos –de significação. Na literatura sobre o tema, aparecem variados argumentos que tentam explicitar as diferenças. A pornografia é uma espécie de rosto obsceno, cujo contrário seria o rosto sensual do erótico (O´NEILL, 1994: 80). A distinção vincula o pornográfico ao animal, ao grotesco e ao instintivo, enquanto se atenuam tais características no erotismo, que prefere ser relacionado a uma expressão sexual mais branda e por isso mesmo “legítima”. Para Juan Antonio Herrero, por exemplo, a pornografia refletiria uma sexualidade desumanizada e baseada na dominação do homem sobre a mulher, distinta do erotismo que expressaria uma sexualidade integrada, baseada no mutuo afeto e o desejo entre iguais (HERRERO, 1996 Apud PRADA, 2010: 12). Por trás dessa radical oposição, e da clara tentativa de atribuir valor ao erótico em detrimento do pornográfico, se encontra uma perspectiva moralista da sexualidade. Como é afirmado por Nancy Prada, “A partir do século XIX a justificativa pública do controle das representações sexuais começa a formular-se em termos morais, o que permitiu, pela primeira vez, falar de obras indecentes ou licenciosas” (PRADA, 2010: 9). O olhar de quem? É claro que a fronteira entre o pornográfico e o erótico é artificial e por isso mesmo instável. As constantes definições do erótico como negação ou oposição à pornografia em realidade limitam suas possibilidades hermenêuticas, mantendo-o no limiar de uma restrita e binária concepção da sexualidade. O erótico nessa perspectiva só existe como a contraparte do pornográfico. Dois elementos relacionados com o erótico constituem problemas sérios no contexto da América Latina. Por uma parte, a erotização da dominação (LEBACQZ, 1994: 244) e da violência; e por outra parte, mas intrinsecamente ligada à anterior, a racialização do erótico (CANESSA, 2007; VIVEROS, 2009). Ambas são situações que comprovam a naturalização dos efeitos opressores do erótico na experiência latino-americana..

(17) 14. Judith Ress se pergunta, por exemplo, como pensar a erótica num “mundo onde aceitar a dor e o sofrimento se tornou a essência do erotismo”? (REES, 2007: 26). A violência em países da América Latina está atravessada por uma legitimidade sexual atrelada ao poder exercido sobre corpos, principalmente sobre corpos subalternizados, isto é, corpos sobre os quais se exerce o poder como dominação, abuso e coerção (Cf. FOUCAULT, 2003: 77-78). Com frequência, violência e sexualidade estão relacionadas na experiência das mulheres numa cultura definida por padrões masculinos de dominação. Estupro e outras formas de opressão sexual são consequências da violência estruturada no próprio sistema de sexualidade. Segundo Lebaqz, o problema não é somente que o estupro seja algo comum, mas que de fato, seja difícil entender a diferença entre a violência sexual e a sexualidade heterossexual comum (LEBACQZ, 1994: 246). Segundo afirma Enrique Dussel, a erótica latino-americana é um reflexo da colonização e da subsequente negação da erótica ameríndia (DUSSEL, 1977: 55-60)2. A imposição de um “eu” conquistador masculino que satisfaz sua vontade de poder na posse dos corpos e na apropriação da sexualidade alheia. “Trata-se da satisfação da voluptuosidade, a sexualidade puramente masculina, opressora, alienante” (DUSSEL, 1977: 62). A erótica latino-americana está, segundo Dussel, marcada pelo desejo masculino europeu e violento. Nesse quesito coloca-se de manifesto o que Marcela Althauss-Reid vai chamar de “aliança patriarcal” (ALTHAUSS-REID, 2005: 26) e Julieta Paredes de “entronque patriarcal” (PAREDES, 2011) referindo-se à cumplicidade entre colonizadores e colonizados, no que tange ao caráter patriarcal das narrativas e práticas de autoridade. A relação colonial que naturaliza a violência é claramente racista e patriarcal. Embora Enrique Dussel afirme que a erótica ameríndia era familiar, política e religiosa, articulada em relação a uma ordem ou totalidade estabelecida a partir de uma tradição milenar (DUSSEL, 1977: 61), a situação da mulher não era privilegiada. Finalmente, o autor reconhece que, “A erótica popular vai depender do machismo hispânico colonial, dos costumes indígenas préhispânicos e das normas que foram surgindo como modos de subsistência diante do sistema dominador” (DUSSEL, 1977: 118). À erotização da violência soma-se à racialização do erótico. Denomino racialização do erótico o processo pelo qual se regula e organiza a experiência erótica com base em valores atribuídos à cor da pele na estrutura colonial de poder (VIVEROS, 2000: 97; 2. Este texto teve uma re-edição em 2007, isto é, 30 anos depois. Nessa nova edição, o autor revisa mas conserva o texto. De fato, só houve algumas pequenas mudanças, por exemplo, em relação às afirmações do primeiro texto contra o feminismo, as quais foram amenizadas..

(18) 15. HOPKINS, 2004: 182-183). Nessa estrutura colonial se situam hierarquicamente os diferentes corpos e suas “possibilidades” eróticas claramente delimitadas por sistemas de classificação racial e de gênero. Segundo a Colombiana Mara Viveros Vigoya, a categoria raça é um correlato do processo de propagação de uma bio-racionalização do governo e da difusão de tecnologias de poder para a administração da população (VIVEROS, 2009). Assim, a sexualização da raça e a racialização do sexo aparecem como elementos fundamentais no contexto da mestiçagem na América Latina. A autora constata a articulação do racismo com formas concretas de dominação sexual e acordos assimétricos de posse e intercambio dos corpos (VIVEROS, 2009). Viveros, citando a Roger Bastide, sugere que os encontros sexuais inter-raciais não acontecem em um contexto de respeito e igualdade dos sexos, senão, a partir de estereótipos sobre as mulheres negras como objetos de prazer e presas fáceis para homens brancos, assim como reafirmam o estereótipo de homens negros virilmente superiores aos homens brancos (VIVEROS, 2000). Estes estereótipos, enquanto construções imaginárias encobrem e dificultam aspectos reais que enfrentam tanto homens como mulheres negras nas suas experiências afetivas e sexuais. Outro aspecto da racialização do erótico também se relaciona com uma certa deserotização das mulheres indígenas. A “índia” não possui até hoje uma própria “erotização”, no sentido que foi construída para a mulata em países com significativa população afrodescendente, isto é, o imaginário da mulher mulata como fisicamente atraente e sexualmente desejável. Segundo Andrew Canessa, na Bolívia não há evidencia de que homens mestiços e crioulos considerem às índias atrativas fisicamente, sendo mais provável a expressão do contrário. Para o autor, o desejo sexual parece estar construído aqui “não de uma estética sensual senão de uma erótica do poder” (CANESSA, 2008: 74). Contudo, a erotização da mulata, no sentido proposto pelo autor, também implica sua objetivação e dominação, principalmente porque é uma erotização imposta, operada desde fora. Naquela ordem política, tanto mulata, quanto negra e indígena são, dentro do mesmo sistema dominante de raça/sexo, seres para a satisfação de um desejo alheio. O erótico na Teologia (?) O erótico na teologia é subalternizado, “vítima” de um poder exercido, nesse caso como controle e restrição. A minha suspeita é que o lugar periférico do erótico na teologia.

(19) 16. esteja relacionado com a localização ambígua, central e ao mesmo tempo marginal, que o corpo assumiu ao seu interior. Central porque o corpo está presente nas principais doutrinas e metáforas teológicas: Deus que se faz corpo – o evento salvífico por excelência –, a Igreja como corpo de Cristo e, a ressurreição do corpo como grande esperança escatológica. Mas, também marginal, ou melhor, marginalizado, porque sobre o corpo há um silêncio cúmplice, uma tentativa de negar sua importância e centralidade. Não obstante, na reflexão teológica Latino-americana alguns teólogos e algumas teólogas. contribuíram. para. teologizar. o. erótico. desde. perspectivas. geralmente. interdisciplinares, visando oferecer novas pistas de interpretação. Nancy Cardoso e Ivone Gebara, por exemplo, trouxeram inquietações a respeito da importância do erótico na vida das mulheres tanto na imaginação teológica quanto na leitura da Bíblia. Apontaram, entre outras coisas, para as possibilidades de uma leitura bíblica libertadora em chave erótica (PEREIRA, 2001), assim como para a possibilidade de se abrir e imaginar o erótico como um grito pelo mistério presente na vida (GEBARA, 2001). Por outro lado, Marcella Althauss Reid fez uma opção direta pela sexualidade como critério teológico e por incorporar leituras diversas do “erótico” na sua teologia indecente; a qual consiste em suspeitar, desconstruir e subverter os códigos tradicionais da teologia para dar sentido a uma nova “comunidade” plural, que leve a sério a sexualidade em toda sua variada e complexa expressão. Assim também, Rita Nakashima Brock e Carter Heyward me conduziram por um percurso de disputa e apropriação teológica, compartilhando, por exemplo, um deslocamento feminino da figura do Cristo que se transforma em Crista; com as implicações teológicas e feministas de tal ousadia, dentro de uma comunidade de pessoas subalternizadas especificamente pela sua sexualidade. Novas linguagens, narrativas e imaginação operam nas propostas de criação erótica-teológica destas duas teólogas norte-americanas. Desta maneira, não é possível dizer que o erótico esteja ausente na reflexão teológica. Porém, na teologia dominante, o erótico “aparece” nas constantes tentativas de negação, de redução, assim como de controle discursivo e simbólico dos corpos, principalmente dos corpos que se cruzam e que também cruzam as fronteiras normativas do sexo e do gênero. Assim, a busca dentro (e fora) da teologia, foi por compreensões instigantes, desafiadoras e transgressoras do erótico. Para Audre Lorde, por exemplo, o erótico é uma poderosa força criativa, a qual proporciona o poder que vem da experiência de compartilhar profundamente qualquer atividade com alguém (LORDE, 1994: 440). Essa experiência de partilha cria pontes entre as pessoas, os quais podem ser a base para entender melhor aquilo.

(20) 17. que não partilham, e diminuir o sentimento de ameaça que provocam as diferenças. Tal compreensão, somada às outras, são uma ferramenta importante e funcionaram como inspiração para a construção de um espaço de negociação vital, teológico (e para além), no qual ensaiar novos passos na definição e nas práticas do erotismo. Falo em rastros, porque só assim consigo compreender a minha busca. Não se trata de uma experiência facilmente definível, ou de uma abstração. Mas da enxergar as maneiras em que eros aparece e irrompe, deixando um vestígio, um sinal, uma pegada. Que, a despeito disso, é equivoca e errática. A contribuição à ética e à teologia nesta busca pelos rastros de eros e pela reconstrução do erótico, está no seu potencial para a criação de um poder relacional e comunitário, de um outro espaço (er/ético), capaz afirmar o sujeito (a própria subjetividade), de reconhecer o corpo como lócus de poder transformador, assim como de permitir o fluxo de energia vital capaz de criar e expander as relações. Assumir a reconstrução do erótico significou, pois, apropriar-se de um discurso subalternizado e, por isso mesmo, detentor de uma quantidade de experiências e significados a serem explorados, mudados, abertos. A subalternidade é, por isso, um conceito importante ao longo da tese. Trata-se de um conceito Gramsciano3, apropriado aqui no intuito de deslocar o foco de um sujeito pré-estabelecido e fixo. Por uma parte, com a palavra “subalternos/as” me refiro a sujeitos alocados em diferentes e cambiantes situações de subalternidade – isto é, condições heterogêneas e complexas de inferiorização, silenciamento, alienação. Por outra parte, entendo a subalternidade também como perspectiva (Veena Das: 2008:198), isto é, como uma forma e um ‘lugar’ desde o qual enxergar – e se colocar –(n)o mundo, o qual também inclui a necessidade de articular uma escuta atenta a essas vozes subalternizadas e reconhecer os problemas ao redor tanto da fala subalterna quando das possibilidades reais dessa escuta (SPIVAK, 1988). A tese evidencia as ambivalências e as tensões próprias de alguns conceitos que tentaram apreender experiências tão próprias, tão íntimas, tão concretas que escapam à normatização da definição, da clareza e da “objetividade” dos conceitos. Assim, é um caminho que permanecerá aberto à descoberta e à invenção. A tese foi dividida em quatro capítulos: 3. Como afirma Isabel Monal, a pergunta central que devemos fazer é,em que medida Gramsci pode e deve ser útil para as lutas revolucionárias hoje? (2003: 189). Qualquer apropriação Gramsciana precisa passar por uma necessária releitura das propostas de Gramsci. E não apenas, como bem frisa a autora cubana, “uma utilização ou adaptação de Gramsci às realidades nacionais, mas também à nova realidade internacional da mundializações múltiplas e da irrupção de uma rica variedade de movimentos sociais no panorama social político” (MONAL, 2003: 190)..

(21) 18. No capítulo um começei explorando criticamente a relação da palavra erótico com seu referente mítico e filosófico. Depois me propus a escutar atentamente às vozes diferentes, vozes inquietas de teólogas e teólogos latino-americanos (especificamente brasileiros/as) Jaci Maraschin, Vitor Westhelle, Nancy Cardoso e Ivone Gebara, as e os quais traçaram um caminho de aberturas e transgressões teológicas e bíblicas para a desconstrução e reconstrução teológica do erótico. No segundo capítulo, visei rastrear eros agindo na construção do ser e da existência comunitária. Para tanto, escolhi dois conceitos chaves, a energia e comunidade, que teriam sido, de fato, as formas mais concretas de expressão do erótico presente na teologia de Rita Nakashima Brock e de Carter Heyward, ambas inspiradas em Audre Lorde e seu clamor poético pelo erótico, isto é, por uma forma diferente e forte de poder. As três autoras tentam, pois, articular novas possibilidades de ser e existir em comunidade a partir da autoconsciência de Eros agindo na própria vida e nas relações. O terceiro capítulo está dedicado ao rastreamento do erótico na teologia indecente de Marcella Althaus-Reid. Através de um percurso por ideias, imaginários e narrativas transgressoras, me deparei com hermenêuticas e afirmações teológicas que, para além de traçar a emergência de uma teologia torcida no contexto de América latina, colocam em evidência, principalmente, as máscaras opressoras da Teologia, desvendando as ideologias que as sustentam e oferecendo assim, possibilidades de deslocamentos e transgressões criativas e propositivas. No último capítulo apresento, de maneira (ainda) provisória, o processo de construção e o conteúdo do que chamo de e/ética, que caracterizo como um espaço agonístico e relacional que percebe e potencializa o acontecer –fluir – de eros enquanto energia vital presente nos nossos corpos e nas nossas relações. Tal espaço precisará ser operativizado através de uma ética da ambiguidade, da dança e da negociação. Finalmente alguns esclarecimentos de forma e linguagem: No que se refere à maneira de apresentação das palavras das autoras, fiz opção pela língua na qual as encontrei. O que nem sempre esteve relacionado com a língua na qual os textos foram escritos “originalmente”. No caso da Marcella Althaus-Reid, p.ex. que escreveu tanto em espanhol como em inglês, me permiti o uso dos seus textos nas duas línguas. As autoras norte-americanas foram citadas em inglês e só em português quando tive acesso a alguma tradução na internet, como no caso de Audre Lorde. Usei, por vezes, duas versões do mesmo texto, em espanhol e inglês, tentando sempre deixar claro, com o ano da referência, a qual das obras estava me referindo. A minha dificuldade com as palavras, além do espanhol que teimou em se infiltrar no meio do.

(22) 19. português, também se fez presente na padronização da escrita de algumas palavras centrais na tese como ‘eros’ e ‘teologia’, e de outras também importantes como ‘deus’, ‘bíblia’ ‘igreja’ (Freud explica, não é?). Não consegui sempre manter um padrão na escrita destas palavras, principalmente porque embora saiba da maneira ‘adequada’ em que elas costumam ser usadas, escrever de um outro jeito relativiza simbolicamente sua autoridade. Para além disso, em ocasiões ganhou mesmo o corretor do word..

(23) 20. CAPÍTULO I VOZES LATINO-AMERICANAS DO ERÓTICO NA TEOLOGIA. “O corpo inventa eroticamente o mundo” (Pereira, 2001:136) “Os corpos humanos são eróticos no sentido em que são corpos sempre se atraindo entre si” (Maraschin, 2010:239). Para Carlos Figari, o erótico se refere na tradição ocidental ao que em diferentes épocas se relacionou com o amor como paixão sensual. E que na modernidade também se vincularia à sexualidade, pensada como um campo do social, da vida individual e da identidade (FIGARI, 2009: 23). O erótico embora não esteja reduzido ao sexo, aparece quase sempre ligado a ele. Diante de palavras como “erótico”, “erótica” ou “erotismo” ativa-se um imaginário cultural que as vincula a algum tipo de expressão ou comportamento sexual: corpos, genitália, sedução, prazer, mídia ou inclusive pornografia. Haveria assim certa “naturalidade” na associação entre sexualidade e erótico. Existem diferentes definições, assim como abordagens do erótico: psicanalítica, filosófica, literária, antropológica, entre outras. Assim, o erótico abrange um leque amplo de ideias, práticas e experiências culturais concretas, não existindo apenas uma expressão ou modelo. O erótico vai sempre depender e variar de acordo com o enfoque com o qual se defina (LEARNED, 2008: 2). Isso também me lembra que historicamente a definição se relaciona diretamente com os interesses ao quais serve. Assim, parte do problema da pesquisa está nos limites da definição, nas fronteiras e interstícios do que podemos chamar de erótico, assim como nos alcances e possibilidades das experiências às quais atribuímos tal nomeação. Por exemplo, a escultura do êxtase de Santa Teresa de Ávila (1647-1652) de Gian Lorenzo Bernini é geralmente considerada uma imagem erótica. Aliás, religiosamente erótica, o que a torna mais interessante. As pinturas de Frida Kalho, os poemas de Octavio Paz, de Adelia Prado ou de Gioconda Belli, também fazem parte de um conjunto de produtos culturais aos quais de alguma ou outra maneira se confere essa caracterização. Mas como e por que o adjetivo “erótico” é erigido e atrelado a imagens, narrativas, objetos?.

(24) 21. O alvo deste primeiro capítulo será apresentar algumas compreensões do erótico a partir de vozes críticas e intrigantes dentro da teologia. Como a ambiguidade do erótico é constitutiva e suas linhas de abordagens são múltiplas, o objetivo será analisar algumas definições que iluminam as possibilidades hermenêuticas para o contexto latino-americano. Assim, me interessa neste capítulo abordar o erótico a partir de alguns autores e algumas autoras que apresentam tentativas de abrir o conceito e de “transgredir” as definições que têm sido hegemônicas historicamente. Esses/as autores/as representam uma reação e uma crítica à compreensão monolítica e reducionista do erótico. Foram escolhidos/as, pois, sob o critério de possuir elementos ou pistas que apontam para alguma novidade hermenêutica, teológica e ética. Para atingir o objetivo tentei encontrar um fio condutor, o que denomino aqui uma chave de leitura, a qual permitisse a compreensão de cada autor/autora no que tange ao erótico, reconhecendo, porém, que no pensamento desses/as autores/as, o erótico não constitui um elemento central nem chega a se constituir diretamente em categoria teológica. A escolha está relacionada com uma leitura situada e particular, com os objetivos gerais da pesquisa, assim como com a forma pela qual autores/autoras apresentaram o erótico. Desta maneira, é a partir de conceitos, frases e propostas propriamente encontradas nos seus textos que foi estruturado este capítulo. Inicialmente, detenho-me numa apresentação crítica do mito de Eros e Psiqué, problematizando algumas buscas arquetípicas e a influência do mito grego nas formas ocidentais de erotismo. Tal influência, assim como sua contestação e crítica aparecem transversalmente nos autores e nas autoras que compõem este capítulo. Em seguida, apresento o erótico como transgressão, chave de leitura que é possível rastrear em dois teólogos brasileiros, Vitor Whestelle e Claudio Carvalhaes. Os dois autores se debruçam sobre a relação entre teologia, arte e liturgia encontrando na experiência erótica um denominador comum. As intuições são tecidas a partir de uma compreensão de transgressão que uniria tanto a experiência religiosa quanto a erótica. Depois, apresento a proposta de Jaci Maraschin, para quem o erótico assim como o sagrado são experiências melhor expressadas através da poesia e da contemplação da sua beleza. Em terceiro lugar, abordo o erótico enquanto corpo e carne sagrados, expressão procedente de um texto de Nancy Cardoso Pereira na Revista de interpretação bíblica latinoamericana (RIBLA, 2001). Partindo do pressuposto que corpo e carne aparecem como conceitos centrais na aproximação que a autora faz do erótico, pretendo mostrar os usos diferenciados (ou não) que ela faz do conceito, assim como as possibilidades que isto nos oferece para alargar seu alcance dentro da teologia. Finalmente procuro algumas intuições na.

(25) 22. proposta da teóloga Ivone Gebara, seus indícios filosóficos e teológicos do erotismo como “grito e clamor teológico”, e a contribuição de tal proposta para a busca por abrir caminhos através da reconstrução do erótico.. 1.1 BUSCA MITOLÓGICA DE EROS– ARQUÉTIPO OU PROTÓTIPO?. Erotismo remete diretamente a Eros. E Eros é a palavra grega para significar o amor como desejo sexual. Eros corresponde, na mitologia grega4, ao deus do amor, filho de Ares e de Afrodite (LURKER, 1993: 67). Embora não seja o objetivo traçar uma linha histórica nem filosófica sobre a evolução e os usos diversos do erótico, parece-me importante alguma referência à mitologia e à Grécia como fonte primordial da compreensão ocidental do erótico. Não obstante, nosso olhar para o mito de Eros será feito desde uma perspectiva crítica, para a qual resultam importantes as contribuições de Elisabeth Schüssler Fiorenza com a distinção entre arquétipo e protótipo na compreensão da Bíblia no seu livro “Bread not Stones” (SCHÜSSLER FIORENZA, 1984) assim como de Jacques Derrida no seu “mal de arquivo” (DERRIDA, 1994). Para Elisabeth Schüssler Fiorenza, a interpretação feminista da Bíblia constitui uma estratégia hermenêutica de recuperação do poder das memórias, palavras e tradição das mulheres como uma herança permanente que sustenta a luta por libertação e transformação (SCHÜSSLER FIORENZA, 1998: 5). Segundo a autora, a compreensão de que a Bíblia não é só uma fonte de verdade e revelação – fonte de espiritualidade tradicional e central na vida de muitas mulheres –, mas também uma fonte de violência e dominação, é fundamental para as teologias da libertação, demanda um novo paradigma de interpretação que não compreenda a Bíblia como arquétipo, mas como protótipo (SCHÜSSLER FIORENZA, 1984: 61). Eis a parte que me interessa. Tanto arquétipo (do grego arché) quanto protótipo (do prefixo grego protos) fazem alusão a algo primeiro, a um modelo original ou inicial (LALANDE,1999: 878). Embora pareça existir etimologicamente uma similaridade nesses conceitos, no mesmo dicionário. 4. Importante frisar que existe mais de uma forma de relatar a mitologia. Existem diferenças também nos nomes e na história que se atribui a cada deus/deusa tanto na mitologia grega quanto na Romana. Na mitologia grega, Afrodite é a deusa do amor e da beleza, conhecida pelos romanos como Vênus. Segundo Byrne Fone, Roma teria se apropriado da gloria grega para adornar a grandeza romana (FONE, 2000: 35). Para conferir algumas das diferenças entre a forma de contar os mitos e situar as relações familiares e amorosas entre deuses e deusas da mitologia grega, veja: As deusas e a mulher (BOLEN, 1990) e Dicionário de deuses e demônios (LURKER, 1993)..

(26) 23. filosófico, arquétipo é apresentado em mais detalhe no seu sentido metafísico como “tipo supremo”, modelo original ou “eterno” (LALANDE, 1999:880), sentido que não é assim atribuído ao protótipo. Por outro lado, Rachel Blau Duplessis5, citada por Schüssler Fiorenza, propõe uma maior elucidação entre as duas palavras. Segundo a autora, arquétipo é geralmente construído como uma “forma ideal” que estabeleceria um padrão imutável, enquanto o protótipo não é um padrão de vínculo atemporal, mas uma forma crítica e aberta à possibilidade, e mesmo à necessidade da sua própria transformação. E termina afirmando: “Thinking in terms of prototypes historicizes the myth” (DuPlessis apud SCHÜSSLER-FIORENZA, 1984:61). Mitos geralmente são considerados arquétipos, modelos ideais com certa autoridade explicativa originária. O que corre o risco de apagar ou esvaziar o mundo social que os sustenta. Seguindo a intuição de DuPlessis, é necessário historicizar o mito, isto é, encarná-lo no seu correspondente lócus espaço-temporal e político. A ideia de pensar o mito – e Bíblia, no uso que propõe Schüssler Fiorenza – enquanto protótipo histórico e não como um arquétipo mítico abre possibilidades hermenêuticas para indagar criticamente as dinâmicas operativas na formulação das chamadas Escrituras e lhe permite “à comunidade cristã um senso de continuidade da sua história e também da sua identidade teológica” (SCHÜSSLER FIORENZA, 1984: 62-63). A ideia do mito arquetípico alude a um padrão fixo que restringe o significado a uma suposta origem. O protótipo, por outra parte, permite pensar em adaptação, desafio e renovação de um modelo também assumido como “inaugural”, porém concreto enquanto histórico e dinâmico. Tal concepção pareceu a mais acertada para debruçar-me sobre o mito de Eros. Embora encontre acertado ir ao mito como uma das fontes de sentido histórico outorgado à experiência erótica no ocidente, tal olhar permitirá entender a relação entre o social e o literário presente no mito, assim como indagar as possibilidades de abrir os sentidos que este carrega. Reconhecendo assim que o(s) sentido(s) não está (ão) enclausurado(s) numa essência atemporal definitiva. E aqui já é possível começar a dialogar com Derrida. O mito é um dispositivo discursivo codificado e arquivado. Esse processo arquivístico institui e enclausura um sentido. Trata-se de uma impressão, uma pegada histórica. Por tal razão, a questão central ao acessar mitos centrais da cultura (bíblicos, gregos, etc.) é a questão da autoridade que eles parecem possuir per se. Segundo Jacques Derrida (1994), o conceito de “arquivo” carrega a memória do“Arché”. Na sua análise, o autor apresenta dois fenômenos DuPlessis, Rachel Blau. “The critique of consciousness and Myth in Levertov, Rich, and Rukeyser” Feminist studies 3. P.199-221. (SCHÜSSLER FIORENZA, 1984: 61). 5.

(27) 24. funcionando na estruturação dos mitos, relacionados a essa palavra "arché": o primeiro como origem (princípio físico, histórico ou ontológico) e o segundo como força de comando ("princípio nomológico"). O arquivo possui assim força de lei e supõe uma determinada interpretação, enquanto guarda e vigia o significado. É por tal razão que, para Derrida, todo arquivo é ao mesmo tempo “instituinte” e conservador. O segundo princípio, o nomológico, junto com o reconhecimento do mundo social que participa na estruturação do mito, aponta pará à necessidade de uma crítica retórica, ou no mínimo, à necessidade do reconhecimento que tais forças estão agindo no mito. Derrida analisa essa questão à luz do "mal do arquivo", mal como "doença" ou como problema, ao que ele denomina como aquela “impaciência absoluta de um desejo de memória” (1994). Podemos afirmar assim que, desconstruir a retórica autoritativa e o princípio nomológico do qual fala Derrida é imprescindível para abrir os significados limitados pela lógica arquivística, de modo a romper os moldes (arquétipos) e a encaminhar uma interpretação transformadora.. 1.1.1 O mito de Eros e Psiqué: Uma leitura crítica Depois de uma breve explanação do critério teórico-crítico desta aproximação, entramos no mito, reconhecendo que aproximar-se do erótico desde a mitologia é complexo. Essa complexidade está relacionada, primeiro, com a existência de várias versões dos mitos, mas principalmente com a constatação de que “cada época inventa Grécia segundo sua própria imagem” (FONE, 2000: 35). A voz grega não é uniforme. Isto é verdade em relação a qualquer passado, história ou origem. Segundo Byrne Fone, muita da literatura grega que sobrevive relata do mesmo modo antigos e novos mitos e lendas. Além disso, as obras refletem interesses contemporâneos de filósofos, políticos e científicos. Entretanto, a poesia, a lírica, a erótica e a romântica representariam as convenções sociais que regiam também atitudes afetivas e sexuais da época (FONE, 2000: 36-37). Dessa maneira, se for possível desenhar uma definição –mesmo que provisória – do erótico a partir da mitologia, desejando que ela ofereça um viés interessante para a análise, será necessário debruçar-se sobre ela de maneira crítica. Segundo Junito de Souza Brandão (1987), o mito de Eros e Psiqué, apesar de ter chegado até nós através do romance Metamorfose, do escritor Lúcio Apuleio (África, 125),.

(28) 25. seria de origem grega (BRANDÃO, 1987: 209). Segundo Brandão, este mito apresenta muitas mudanças, tanto pelas análises, como pelas suas diferentes interpretações no decorrer da história6. Por conta da pequena avaliação que faço no presente capítulo não parece necessário transcrever o mito por inteiro, menciono algumas partes que, no decorrer da análise, são importantes para a sua compreensão. Usei, para tanto, o mito tal como aparece na Mitologia Grega de Brandão (1987). O centro do mito parece estar numa disputa entre a deusa Afrodite e a humana Psiqué. Psiqué estaria distraindo as pessoas e deslocando a adoração que tradicionalmente era dirigida a Afrodite, para concentrá-la na sua extrema beleza. “Psiqué se tornara a nova deusa do amor, a nova Afrodite!” (BRANDÃO, 1987: 210). Na realidade, trata-se de uma luta iniciada por Afrodite, sendo ela quem se sente ameaçada pela menina humana que ousadamente estaria roubando o seu lugar. Eros “menino alado e de maus costumes, corruptor da moral pública e provocador de escândalos” (BRANDÃO, 1987: 210) é o filho de Afrodite. Na história, parece estar implícita a ideia do poder que Eros tinha para causar a paixão nos mortais. O pedido de Afrodite (a mãe) é claro: conseguir que Psiqué se apaixone pelo mais feio dos mortais. O plano, porém se frustra e é Eros quem se apaixona por Psique. Leva-a para um lugar distante, um castelo e “a faz sua mulher” [sic] (BRANDÃO, 1987: 211) sem que ela, porém, o conheça. Psique é retratada na histórica como uma mulher que aceita de bom agrado a situação que seu amantedeus lhe impõe. A mulher representada por Psiqué não pergunta nem questiona, mas aceita, já que tal relação lhe traz alguma alegria, algum prazer. Imaginário que muito possivelmente está sustentado num ideal de amor sacrificial. Por insistência das irmãs, que segundo a história, invejam a caçula (BRANDÃO, 1987: 212-213), Psiqué decide tentar conhecer o ser misterioso que mora com ela. Com um candeeiro numa mão e um punhal na outra, ela decide saber “a verdade”. A surpresa dela ao desvendar o grande segredo é que Eros, o deus do amor, lhe aparece ante seus olhos como “a mais delicada e bela das feras” (BRANDÃO, 1987: 213 itálica do texto). Diante da beleza agora descoberta do marido, fica atônita contemplando-o e, sem querer, é atingida ainda por uma das flechas da aljava de Eros e sua paixão se exalta. “Inflamada de amor, começa a beijá-lo como louca. Esquecida do candeeiro deixa-o curvar-se em demasia e uma gota de óleo fervente cai no ombro do deus adormecido” (BRANDÃO, 1987: 214). Eros, enfurecido 6. A interpretação de Brandão está baseada, segundo ele mesmo afirma, nos neoplatônicos e sobre tudo na obra “erudita de Neuman” (BRANDÃO, 1987: 220)..

(29) 26. e atônito deixa Psiqué, a qual arrependida procura se vingar das suas irmãs para depois peregrinar sem rumo à procura do seu amado. Ao mesmo tempo, Afrodite, mãe de Eros, toma conhecimento do acontecido e depois de repreender seu filho, vai à procura de Psiqué, quem, depois de muita reflexão, decide “entregar-se à sogra e mitigar-lhe o ódio com humilde submissão”. Com Psiqué no seu poder, Afrodite a espanca, a humilha e lhe impõe “as quatro célebres tarefas” (BRANDÃO 1987: 215-216). A trama está entretecida com negociações entre deuses e deusas. Psiqué parece estar sempre à disposição do amor e das limitações impostas por Eros, seu amado misterioso, ou dos castigos impostos por Afrodite. Finalmente é Zeus quem interfere, a pedido de Eros, para salvar Psiqué da fúria de Afrodite (BRANDÃO, 1987: 219). No discurso de Zeus, que o autor transcreve, aparece de novo a alusão à paixão desregrada de Eros:. (...) julgo ser conveniente refrear de uma vez por todas as desregradas paixões da sua juventude. Chega de ouvir falar em seus escândalos diários no mundo inteiro, mercê de seus galanteios e devassidões. Chega o momento de tirar-lhe qualquer oportunidade de praticar a luxúria. Cumpre aprisionarlhe o comportamento lascivo da meninice nos laços do himeneu. Ele escolheu uma donzela e roubou-lhe a virgindade. Que ele a possua, que ela o conserve para sempre, que ele goze do seu amor e tenha Psiqué em seus braços por toda a eternidade (BRANDÃO, 1987: 219 Negrita minha).. Resultam interessantes as palavras de Zeus, precisamente quando no mito, tal como apresentado por Brandão, Eros aparece simplesmente como o deus/menino alado apaixonado de Psiqué e consideravelmente influenciado pela sua mãe Afrodite. Não haveria, pois, no que é relatado, um Eros lascivo ou cheio de luxúria como constata o discurso de Zeus, embora possa se afirmar que as descrições das noites que vivem Psiqué e Eros no interior do castelo estejam rodeadas de um ar de mistério, paixão e sedução. No discurso de Zeus, tal como apresentado por Brandão, encontram-se, porém, alguns elementos do imaginário do erótico ou do erotismo que ainda influenciam os imaginários ocidentais. Finalmente, Psiqué bebe a imortalidade que é oferecida por Zeus, e entre muita música, dança e cantos, com muitas rosas e bálsamos, sob as bênçãos de Afrodite, Eros e Psiqué se “reuniram” para sempre. No tocante à Afrodite, nada teria com que preocupar-se, pois este casamento morganático, isto é, entre um deus e uma mortal, em nada afetaria a dignidade e a nobreza da deusa do amor, por quanto Zeus faria que o mesmo se realizasse dentro dos cânones do melhor Direito Civil do Olimpo (BRANDÃO, 1987: 219). Nesse relato mitológico, Eros é deus masculino, um menino alado, filho de Afrodite, deusa de renomada importância na mitologia grega. É ela quem se destaca numa narrativa.

Referências

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