DEPARTAMENTO DE F´ISICA TE ´ORICA E EXPERIMENTAL BACHARELADO EM F´ISICA
Leandro de Andrade Silva
´
ATOMOS DE RYDBERG E BLOQUEIO DE
DIPOLO
Natal-RN
Maio de 2017
´
Atomos de Rydberg e Bloqueio de Dipolo
Monografia de Gradua¸c˜ao apresentada ao Departamento de F´ısica Te´orica e Experimental do Centro de Ciˆencias Exatas e da Terra da Universidade Federal do Rio Grande do Norte como requisito parcial para a obten¸c˜ao do grau de bacharel em F´ısica.
Orientador:
Professor Dr. Tommaso Macr`ı
Universidade Federal do Rio Grande do Norte — UFRN Departamento de F´ısica Te´orica e Experimental — DFTE
Natal-RN Maio de 2017
Catalogação da Publicação na Fonte. UFRN / SISBI / Biblioteca Setorial Centro de Ciências Exatas e da Terra – CCET.
Silva, Leandro de Andrade.
Átomos de Rydberg e bloqueio de dipolo / Leandro de Andrade Silva. - Natal, 2017.
61 f.: il.
Orientador: Prof. Dr. Tommaso Macrì.
Monografia (Graduação) – Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Centro de Ciências Exatas e da Terra. Departamento de Física Teórica e Experimental.
1. Física atômica – Monografia. 2. Átomos de Rydberg – Monografia. 3. Oscilações de Rabi – Monografia. 4. Átomo de dois níveis – Monografia. 5. Bloqueio de dipolo – Monografia. I. Macrì, Tommaso. II. Título.
Experimental do Centro de Ciˆencias Exatas e da Terra da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, sendo aprovada por todos os membros da banca examinadora abaixo especificada:
Prof. Tommaso Macr`ı
Universidade Federal do Rio Grande do Norte Departamento de F´ısica Te´orica e Experimental
Prof. Madras Viswanathan Gandhi Mohan Universidade Federal do Rio Grande do Norte Departamento de F´ısica Te´orica e Experimental
Prof. Dory Helio Aires de Lima Anselmo Universidade Federal do Rio Grande do Norte Departamento de F´ısica Te´orica e Experimental
20 Pois desde a cria¸c˜ao do mundo os atributos invis´ıveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, tˆem sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que tais homens s˜ao indesculp´aveis;
Resumo
Os ´atomos de Rydberg s˜ao part´ıculas altamente excitadas, com n´umero quˆantico prin-cipal grande, n & 10. Essas part´ıculas apresentam propriedades exageradas como: raio de ´
orbita grande, crescendo com n2; energia de liga¸c˜ao fraca, decrescendo com 1/n2; per´ıodo
de ´orbita longo, aumentando com n3.
O estudo de sistemas quˆanticos realizado com ´atomos de Rydberg tem demonstrado grande relevˆancia na descoberta de muitos fenˆomenos e diversas aplica¸c˜oes em ´areas da f´ısica, tais como ´optica quˆantica e informa¸c˜ao quˆantica.
Neste trabalho, estudaremos as propriedades dos ´atomos de Rydberg que interagem com um campo eletromagn´etico externo. Estudaremos o efeito de bloqueio de dipolo quando, pelo menos, dois ´atomos de Rydberg interagem entre si por meio do potencial de van der Waals forte.
Palavras-chave: ´Atomo de Rydberg. Oscila¸c˜oes de Rabi. ´Atomo de Dois N´ıveis. Bloqueio de Dipolo.
Abstract
Rydberg atoms are highly excited particles, with a large principal quantum number, n & 10. These particles have exaggerated properties such as: large orbit radius, growing with n2; Weak bonding energy, decreasing with 1/n2; Orbit period increases with n3.
The study of quantum systems performed with Rydberg atoms has shown great rele-vance in the discovery of many phenomena and in diverse applications in areas of physics such as quantum optics and quantum information.
In this work, we will study the properties of Rydberg atoms that interact with an external electromagnetic field. We will study the dipole blockade effect when, at least, two Rydberg atoms interact with each other through strong van der Waals potential.
Lista de Figuras
1.1 Espectro do ´atomo de Hidrogˆenio. As letras s, p e d s˜ao nomenclaturas associadas ao valor de `. Para ` = 0, por exemplo, associamos `a letra s; para ` = 1, `a letra p. . . 4 1.2 Modelo cl´assico simplificado da ´orbita eletrˆonica com respeito `a conserva¸c˜ao
dos vetores L e N . . . 5 2.1 Diagrama parcial dos n´ıveis de energia dos ´atomos de hidrogˆenio, L´ıtio e
S´odio mostrando que os n´ıveis se aproximam dos do hidrogˆenio quando os n´umeros quˆanticos principal e orbital s˜ao grandes. . . 8 2.2 Modelo esquem´atico da deforma¸c˜ao do core iˆonico na presen¸ca de um
el´etron de valˆencia quando este ´e trazido do infinito at´e uma distˆancia r do core. O el´etron induz um momento de dipolo, p, no core iˆonico. . . . 9 2.3 Atomos de Rydberg com um el´etron de valˆencia interagindo entre si. . . . 12 2.4 Modelo simplificado de dois ´atomos com 3 n´ıveis interagindo com potencial
dipolo-dipolo. . . 15 3.1 Modelo de Rabi de um ´atomo de dois n´ıveis. Os n´ıveis s˜ao separados pela
frequˆencia ω0, e ω ´e a frequˆencia de oscila¸c˜ao campo el´etrico externo. ∆ ´e
a diferen¸ca entre ω0 e ω. Se ∆ igual a zero, o sistema entra em ressonˆancia. 23
3.2 A frequˆencia de Rabi, ΩR, foi igualada a 1. O ´atomo ´e excitado ao estado
|ei, atingindo seu m´aximo no per´ıodo de π, e volta ao estado fundamental totalmente no per´ıodo de 2π. . . 26 3.3 (a)Para Ω = 2, com ∆ = 1 e ΩR =
√
3, o ´atomo ocupa parcialmente o estado excitado. (b) Pico de m´axima excita¸c˜ao. Ocorre transi¸c˜ao total quando ∆ = 0, indo a zero em valores de ∆ grande. . . 27 4.1 Dependˆencia da energia E(R) com R. O estado duplamente excitado |rri
se desloca no raio de bloqueio para fora da ressonˆancia da excita¸c˜ao de Rydberg. . . 29
4.2 Intera¸c˜ao entre dois ´atomos no regime de ressonˆancia. (a) e (c) mostram a dinˆamica de invers˜ao populacional dos ´atomos sob a a¸c˜ao do potencial de van der Waals, V (R) = −C6
R6. A probabilidade de encontrar ambos os
´
atomos no estado de Rydberg ´e cada vez menor. (b) e (d) mostram qu˜ao menor ´e o n´umero de excita¸c˜oes em que encontramos ambos os ´atomo no estado de Rydberg. . . 32 4.3 Intera¸c˜ao entre dois ´atomos no regime de ressonˆancia. (a), (c) Quando o
potencial de van der Waals, V (R) = −C6
R6, ´e muito grande, a probabilidade
dos dois ´atomos se encontrarem no estado de Rydberg ´e nula. (b) e (d) mostram que o n´umero de excita¸c˜oes, quando R ´e muito pequeno, oscila mais rapidamente, e com amplitude m´axima igual a 1. . . 33 4.4 O bloqueio de dipolo para trˆes regimes de intera¸c˜ao. Os potenciais de van
der Waals, dipolo-dipolo e V (R) = −1/R10 s˜ao comparados. Notemos que
o Rb = 1. . . 34
4.5 Previs˜ao te´orica e resultado experimental da frequˆencia coletiva em fun¸c˜ao do n´umero de ´atomos no estado fundamental N em um sistema de ´atomos em uma rede ´optica. . . 36 B.1 (a) k ´e a inclina¸c˜ao da reta (em vermelho), e h ´e o tamanho do passo
definido pela diferen¸ca t1− t0. (b) Inclina¸c˜oes dos k’s estimados nos pontos
Lista de Tabelas
1.1 Propriedades f´ısicas do ´atomo de Hidrogˆenio no estado fundamental (n = 1) 5 2.1 Defeitos quˆanticos dos ´atomos alcalinos para ` = 0 – 3. . . 12 2.2 Algumas propriedades dos ´atomos de Rydberg. Para n grande, tais
Conte´
udo
Resumo i
Abstract ii
1 Introdu¸c˜ao 1
2 Atomos de Rydberg´ 7
2.1 Defeito Quˆantico . . . 7
2.1.1 Introdu¸c˜ao . . . 7
2.1.2 C´alculo do Defeito Quˆantico . . . 8
2.2 Intera¸c˜ao entre ´Atomos Rydberg . . . 12
3 Intera¸c˜ao ´Atomo-Radia¸c˜ao Eletromagn´etica 18 3.1 Introdu¸c˜ao . . . 18
3.2 Aproxima¸c˜ao de Dipolo . . . 18
3.2.1 Intera¸c˜ao Semi-Cl´assica ´Atomo-Campo . . . 20
3.3 Modelo de Rabi . . . 22
3.3.1 Oscila¸c˜ao Ressonante de Rabi . . . 24
3.3.2 Oscila¸c˜ao de Rabi Quase Ressonante . . . 26
4 Bloqueio de Dipolo 29 4.1 Introdu¸c˜ao . . . 29
4.2 Bloqueio de Dipolo no Modelo de Rabi . . . 30
4.3 Excita¸c˜oes Coletivas . . . 34
5 Conclus˜ao 37 A Teoria das Perturba¸c˜oes 38 A.1 Teoria da Perturba¸c˜ao Independente do Tempo . . . 38
A.1.1 Caso N˜ao-Degenerado . . . 39
B M´etodo de Runge-Kutta de 4a Ordem 44
B.1 Introdu¸c˜ao . . . 44 B.2 Desenvolvimento do m´etodo . . . 44
Cap´ıtulo 1
Introdu¸
c˜
ao
Os ´atomos de Rydberg s˜ao definidos quando o el´etron do ´atomo de hidrogˆenio, ou ´
atomos semelhantes, encontram-se em um estado no qual o n´umero quˆantico principal n & 10. Por esta raz˜ao, apresentam propriedades exageradas. Historicamente, as primeiras apari¸c˜oes desses ´atomos foram em estudos relacionados `a espectroscopia do Hidrogˆenio atˆomico pela s´erie emp´ırica modificada de Balmer. Rydberg estudou ´atomos alcalinos, mostrando que o n´umero de onda, κ, dependia dos defeitos quˆanticos, δ(s,p,d)), relativos
aos orbitais (s, p, d), e da constante de Rydberg do hidrogˆenio RyH: κ(s,p,d) = κ∞(s,p,d)−
RyH (n − δ(s,p,d))2
RyH = 1.096776 × 107m−1 (1.1) em que κ∞(s,p,d) ´e uma constante.
Por´em, a compreens˜ao dos ´atomos de Rydberg se tornou clara a partir do modelo atˆomico de Niels Bohr. Ele considerou o ´atomo de hidrogˆenio, que consiste de um pr´oton de carga e (Z = 1) e massa mp, e um el´etron de carga −e e massa me, interagindo por
meio de um potencial coulombiano atrativo VCou(r) = −
e2 4π0
1 r
(r ´e o m´odulo da distˆancia relativa entre as duas part´ıculas), e descreveu suas propriedades, estabelecendo 4 postulados:
• Um el´etron interage com o n´ucleo atˆomico por meio de um potencial coulombiano atrativo e se move em uma ´orbita circular particular em torno desse n´ucleo;
• O momento angular ´e constante do movimento e m´ultiplo inteiro de ~;
• O el´etron se move em uma ´orbita permitida sem perda de energia na forma de radia¸c˜ao;
• Um el´etron, ao saltar de uma ´orbita permitida para outra, emite energia na forma de radia¸c˜ao eletromagn´etica com frequˆencia f = (Ef − Ei)/~.
Bohr propˆos que a condi¸c˜ao de estabilidade do el´etron era devida `a igualdade entre as for¸cas eletrost´atica e centr´ıpeta:
mv2 r = 1 4π0 Ze2 r2 (1.2)
Como o momento angular orbital do el´etron ´e constante, o movimento circular seria quantizado:
mvr = n~ n = 1, 2, 3, .... (1.3)
A partir das condi¸c˜oes (1.2) e (1.3), Bohr demonstrou que o raio atˆomico, a velocidade e o per´ıodo da ´orbita do el´etron eram quantizados:
v = Ze
2
4π0~
1
n (Velocidade da ´orbita eletrˆonica) r = 4π0~
2
mZe2 n 2
(raio da ´orbita eletrˆonica) T = 2π
4π0 Ze2
2
~3n3 (Per´ıodo da ´orbita eletrˆonica)
Al´em dessas propriedades, ele demonstrou que a energia total era quantizada, esca-lando com 1/n2: E = − m 2n2 Ze2 4π0~ !2 (1.4) Portanto, pela diferen¸ca entre duas energias de transi¸c˜ao, verificou-se uma semelhan¸ca com a s´erie modificada de Balmer (1.1):
Ef − Ei = Ry 1 n2 i − 1 n2 f ! Ry = m 2 Ze2 4π0~ !2 (1.5) Assim, o modelo de Bohr determinava, mais claramente, que a constante de Rydberg dependia da carga e da massa do el´etron, e a energia, do n´umero inteiro n. Dessa ma-neira, os ´atomos de Rydberg se mostravam interessantes. Todavia, esse modelo ainda apresentava algumas falhas, porque n˜ao dizia, por exemplo, como calcular a taxa com que as transi¸c˜oes ocorriam, ou o que acontecia `a energia quando um ´atomo possuia mais de um el´etron na camada de valˆencia.
A teoria quˆantica de Schr¨odinger possibilitou avan¸cos na formula¸c˜ao da dinˆamica atˆomica, tornando-se mais consistente com as descri¸c˜oes dos fenˆomenos atˆomicos envolvi-dos. O primeiro ´atomo estudado na nova mecˆanica quˆantica foi o ´atomo de Hidrogˆenio.
O hamiltoniano do sistema ´e determinado pelos termos cin´etico e potencial (em coor-denadas esf´ericas):
ˆ H0 = − ~ 2 2me ( 1 r2 ∂ ∂r r ∂ ∂r ! + 1 r2 " 1 sin θ ∂ ∂θ sin θ ∂ ∂θ ! + 1 sin2θ ∂ ∂φ #) − e 2 4π0 1 r
cuja parte angular (entre colchetes) ´e a representa¸c˜ao diferencial dos operadores ˆL2 e ˆL z,
os quais comutam com ˆH0:
h ˆH0, ˆL2i=h ˆH 0, ˆLz i =h ˆL2, ˆLz i = 0
significando que existe uma base comum capaz de diagonalizar estes operadores. Visto que comutam, essas grandezas s˜ao conservadas.
O operador ˆH0 ´e diagonalizado pelo estado |n`mi, cuja fun¸c˜ao, em coordenadas
esf´ericas, ´e definida em termos dos polinˆomios harmˆonicos esf´ericos e polinˆomios asso-ciados de Laguerre:
hrθφ|n`mi = ψ(r, θ, φ) = RE,`(r)Y`,m(θ, φ)
Y`m(θ, φ) = (−1)m
h(2` + 1)(` − m)! 4π(` + m)!
i1/2
P`m(cos θ)eimφ Rn`(r) = − n 2 na0 3 (n − ` − 1)! 2n[(n + `)!]3 o12 ena0r 2r na0 ` L2`+1n+` 2r na0
na qual a0´e o raio de Bohr, que corresponde ao valor m´edio da ´orbita eletrˆonica do ´atomo
de Hidrogˆenio no estado fundamental. Este raio ´e definido por: a0 =
4π0~2 mee2
∼
= 5, 29 × 10−11m
A equa¸c˜ao de Schr¨odinger desse sistema se resume a uma equa¸c˜ao radial unidimensi-onal independente do tempo:
" − ~ 2 2me 1 r2 ∂ ∂r r ∂ ∂r ! + Veff(r) # RE,`(r) = ERE,`(r)
em que Veff(r) ´e o potencial efetivo no qual a part´ıcula se move:
Veff(r) = VCou(r) +`(` + 1)~ 2
2mer2
O segundo termo de Veff(r) ´e chamado de barreira centr´ıfuga. ´E uma energia repulsiva
e surge do movimento orbital do el´etron. Observe que, para ` > 0, Veff(r) tende a +∞
quando r tende a zero. Para ` = 0, o potencial efetivo ´e igual ao potencial coulombiano. Os ´ındices E, ` e m s˜ao autovalores associados aos operadores H0, ˆL2 e ˆLz,
respecti-vamente. ` e m s˜ao os n´umeros quˆanticos orbital e magn´etico, determinados pela a¸c˜ao de ˆ
L2 e ˆL
z sobre a base Y`,m(θ, φ). O autovalor E ´e a energia do sistema, que depende de
um parˆametro n, o n´umero quˆantico principal. A energia, portanto, ´e dada por:
E = − e 2 4π0 !2 me ~2 1 2n2 = − 1 2mec 2α2 n2
Figura 1.1: Espectro do ´atomo de Hidrogˆenio. As letras s, p e d s˜ao nomenclaturas associadas ao valor de `. Para ` = 0, por exemplo, associamos `a letra s; para ` = 1, `a letra p.
Fonte: Referˆencia [3]
em que c ´e a velocidade da luz e α, a constante de estrutura fina, a qual ´e definida por: α = e
2
4π0~c
∼= 1 137
A figura (1.1) mostra o espectro de energia do ´atomo de Hidrogˆenio de acordo com cada n e `.
A energia E depende do n´umero quˆantico principal n, que varia de 1 a +∞ n´ıveis discretos. No entanto, n depende de `, implicando numa degenerecˆencia em rela¸c˜ao a ` e m. Ou seja, para cada valor de n, teremos 0, 1, · · · , n − 1 valores de `, e para cada valor de `, teremos (2` + 1) poss´ıveis valores de m (m = −`, · · · , 0, 1, 2, · · · , `). Vemos que, de fato, a degenerecˆencia total implica em n2. Se somarmos os 2` + 1 valores de m, variando ` de 0 a n − 1, obteremos:
n−1
X
`=0
(2` + 1) = n2
Segundo o teorema de Noether, a simetria de um sistema implica na conserva¸c˜ao de uma grandeza f´ısica. Uma vez que VCou(r) ´e invariante sob rota¸c˜ao, temos uma
con-serva¸c˜ao do momento angular ` e, consequentemente, uma degenerecˆencia em rela¸c˜ao a esta grandeza.
A degenerecˆencia de m est´a presente em qualquer potencial central. Por outro lado, a degenerecˆencia de ` ´e caracter´ıstica do potencial coulombiano. Se um sistema depender de outros potenciais, haver´a quebra da degenerecˆencia de `, e a energia E passa a depender explicitamente de `, como veremos no contexto de ´atomos de Rydberg.
Figura 1.2: Modelo cl´assico simplificado da ´orbita eletrˆonica com respeito `a conserva¸c˜ao dos vetores L e N
Fonte: Elaborado pelo autor
Al´em disso, existe outra grandeza conservada conhecida por vetor de Runge-Lenz, N, que, na mecˆanica quˆantica, ´e da seguinte forma:
ˆ N = 1 2m ˆP × ˆL − ˆL × ˆP − e 2ˆr ˆ r
cujo operador ˆP ´e o operador momento linear e ˆr ´e o operador posi¸c˜ao da part´ıcula. Classicamente, no problema de Coulomb, ou no problema de Kepler, se a ´orbita est´a confinada ao plano perpendicular a `, a conserva¸c˜ao de N definir´a que esta ´orbita ´e fechada (figura 1.2).
Algumas propriedades do ´atomos de Hidrogˆenio s˜ao dadas na tabela (1.1).
Tabela 1.1: Propriedades f´ısicas do ´atomo de Hidrogˆenio no estado fundamental (n = 1)
Propriedades Quantidade F´ısica Quantidade num´erica Raio atˆomico a0 = 4π0~
2 mee2 5, 29 × 10 −11 m Energia de Ioniza¸c˜ao E1 = mec 2α2 2 2.18 × 10 −18 J
Velocidade do el´etron v0 = cα ≈ 2, 2 × 106 m/s
Per´ıodo da ´orbita T0 = 2πav 0
0 1, 5 × 10
−16 s
Constante de Estrutura Fina α = 4πεe2
0~c
∼ = 1371 Fonte: Elaborado pelo autor
Como consequˆencia da descri¸c˜ao do ´atomo de Hidrogˆenio, na perspectiva do modelo atˆomico de Schr¨odinger, podemos escrever ´atomos multieletrˆonicos (ou ´ıons) como tipo-Hidrogˆenio, se supormos que um ´unico el´etron orbita um caro¸co (ou core), formado pelos el´etrons das camadas mais profundas e o n´ucleo atˆomico. Em geral estes ´atomos n˜ao possuem degenerecˆencia acidental, como o Hidrogˆenio, pois outros potenciais est˜ao envol-vidos nesse sistema. Logo a energia pode depender de n e ` explicitamente.
Em suma, todas essas propriedades tornaram a compreens˜ao dos ´atomos de Rydberg mais clara e atrativa na realiza¸c˜ao de pesquisas cient´ıficas fundamentais em diversas ´areas da f´ısica. Tamb´em foram ´uteis em muitas aplica¸c˜oes.
Trabalhos recentes mostram que eles s˜ao sens´ıveis a campos externos, possibilitando sua manipula¸c˜ao. Apresentam dinˆamica diferenciada atrav´es de intera¸c˜oes fortes do tipo
van der Waals, ou do tipo dipolo-dipolo, em longo e curto alcance. Muitos trabalhos desenvolvidos atualmente tˆem mostrado fenˆomenos no ˆambito de sistemas coletivos, em particular, na forma¸c˜ao de super´atomos: podemos reduzir um sistema de muitos corpos a outro que se comporta como um ´unico ´atomo.
Os ´atomos de Rydberg apresentam momento de dipolo elevado quando interagem entre si. Esta propriedade ´e ´util quando estudamos fenˆomenos de transporte [10], emara-nhamento mediado por estado de Rydberg[21], desenvolvimento de computa¸c˜ao quˆantica baseada em qubits de ´atomos neutros [11] e bloqueio de excita¸c˜ao atˆomica em intera¸c˜oes de curto e longo alcance [6, 13].
Algumas caracter´ısticas dos ´atomos de Rydberg s˜ao descritas a seguir:
• Eles s˜ao muito grandes comparados `as dimens˜oes atˆomicas, crescendo com n2; • A energia de liga¸c˜ao ´e muito fraca. A energia de separa¸c˜ao entre dois n´ıveis quˆanticos
decresce com 1/n3;
• O tempo-de-vida desses ´atomos s˜ao muito longos, aumentando com n3.
• Intera¸c˜ao ´e forte no regime de van der Waals C6/R6, com C6 dependente de n11
Assim, descrevemos as principais caracter´ısticas dos ´atomos de Rydberg.
Vamos estudar no cap´ıtulo seguinte (2), a dependˆencia expl´ıcita de ` na energia em ´
atomos tipo-Hidrogˆenio, e mostrar que os estados de Rydberg se aproximam dos estados do Hidrogˆenio quando ` ´e grande. Tamb´em estudaremos os casos em que os ´atomos de Rydberg interagem entre si em dois simples casos.
No cap´ıtulo (3), trataremos do modelo atˆomico de dois n´ıveis, com o qual o campo ele-tromagn´etico interage, descrevendo um sistema em que ambos oscilam com uma frequˆencia caracter´ıstica que acopla os estados atˆomicos. No cap´ıtulo (4), desenvolveremos o caso em que dois ´atomos interagem fortemente com um potencial de van der Waals, e de-monstraremos que este sistema recai em um estado de dois n´ıveis, o qual oscila com uma frequˆencia coletiva. Finalmente, conclu´ımos com a descri¸c˜ao generalizada de N ´atomos, determinando o modelo de super´atomo. Como ferramenta complementar, com o intuito de oferecer a base matem´atica necess´aria ao acompanhamento deste trabalho, foram de-senvolvidos dois m´etodos: a teoria das perturba¸c˜oes no apˆendice (A) e o m´etodo de Runge-Kutta de 4a ordem no apˆendice (B).
Cap´ıtulo 2
´
Atomos de Rydberg
2.1
Defeito Quˆ
antico
2.1.1
Introdu¸
c˜
ao
A energia do ´atomo de Hidrogˆenio ´e dada por −Ry/2n2, na qual Ry (= hc/α2) ´e a
constante de Rydberg, e apresenta degenerecˆencia nos n´ıveis por causa da invariˆancia rotacional no potencial coulombiano. ´Atomos multieletrˆonicos alcalinos, por´em, possuem energias que dependem do n´umero quˆantico principal, n, e de uma quantidade δ`chamada
de defeito quˆantico, o qual depende de `. δ`´e uma extens˜ao fenomenol´ogica da energia do
Hidrogˆenio, que foi escrita por Rydberg. Portanto, escrevendo a constante de Rydberg Ry = 1 (consideremos a partir daqui em unidades atˆomicas, a fim de simplifica¸c˜ao), temos que a energia ´e dada por:
En` = −
1 2(n − δ`)2
(2.1) Esta f´ormula, do ponto de vista experimental, funciona bem em ´atomos alcalinos. Pode-se notar que a equa¸c˜ao (2.1) tende `a energia do ´atomo de Hidrogˆenio quando δ` → 0.
Em particular, os n´ıveis de energia dos ´atomos alcalinos ficam cada vez mais pr´oximos dos n´ıveis de energia do Hidrogˆenio quando ` ´e muito grande, enquanto n ´e mantido fixo. A figura (2.1) mostra um diagrama dos n´ıveis de energia dos ´atomos alcalinos S´odio (Na) e L´ıtio (Li) comparados com os n´ıveis de energia do Hidrogˆenio. Vemos que os n´ıveis de energia de Li e Na se aproximam dos n´ıveis do ´atomo de Hidrogˆenio quando n, ou `, aumenta.
Uma vez que o momento angular ` ´e pequeno, o el´etron de valˆencia penetra no core iˆonico1, ocorrendo uma repuls˜ao intereletrˆonica. Por outro lado, quando ` ´e grande, o el´etron de valˆencia permanece fora do core, movendo-se no campo produzido pelos Z 1Apesar desse nome ter sido adotado em todo o texto, queremos dizer que se trata de um ´ıon formado
Figura 2.1: Diagrama parcial dos n´ıveis de energia dos ´atomos de hidrogˆenio, L´ıtio e S´odio mostrando que os n´ıveis se aproximam dos do hidrogˆenio quando os n´umeros quˆanticos principal e orbital s˜ao grandes.
Fonte: Referˆencia [7]
pr´otons e (Z − 1) el´etrons. O potencial de um ´atomo multieletrˆonico ´e substancialmente diferente do potencial coulombiano previsto no ´atomo de hidrogˆenio.
Vamos calcular δ`, mostrando sua dependˆencia expl´ıcita com o n´umero quˆantico `,
assumindo que a ´orbita eletrˆonica ´e semelhante `a ´orbita planet´aria, ou seja, em termos de uma descri¸c˜ao semi-cl´assica.
2.1.2
C´
alculo do Defeito Quˆ
antico
O defeito quˆantico ´e obtido a partir da equa¸c˜ao (2.1). Como esperamos que δ` seja
muito pequeno, expandimos o termo quadr´atico da energia em torno de δ`/n. Ent˜ao
verificamos que a energia En` ficar´a:
En` ' En−
δ`
n3 (n 1) (2.2)
O segundo termo desta equa¸c˜ao resulta do valor m´edio do potencial n˜ao coulombiano, que surge devido aos el´etrons do core. Em geral, este potencial vem das contribui¸c˜oes dos potenciais de penetra¸c˜ao, polarizabiblidade do core iˆonico, e os de efeitos relativ´ısticos. Em outras palavras, δ` resulta das contribui¸c˜oes dos potenciais causados pela intera¸c˜ao
core-el´etron de valˆencia, e ´e calculado como uma m´edia temporal da ´orbita eletrˆonica. Do ponto de vista semi-cl´assico, o valor m´edio da ´orbita do el´etron de valˆencia ´e dado por:
δ` = 1 τ t Z 0 Vc(r) dt0 (2.3)
onde τ = 2πn3 (segundo o modelo de Bohr), e define o per´ıodo orbital kepleriano do
Figura 2.2: Modelo esquem´atico da deforma¸c˜ao do core iˆonico na presen¸ca de um el´etron de valˆencia quando este ´e trazido do infinito at´e uma distˆancia r do core. O el´etron induz um momento de dipolo, p, no core iˆonico.
Fonte: Referˆencia [7]
Para mostrar que δ` depende de `, usando o m´etodo cl´assico de ´orbita el´ıptica, vamos
supor que um ´atomo tipo-Hidrogˆenio possui apenas a contribui¸c˜ao do potencial polariza-bilidade Vpol(r). Assim, o hamiltoniano total ser´a:
ˆ
H = ˆHCou+ ˆVpol(ˆr) (2.4)
Podemos supor a energia potencial ˆVpol(ˆr) como o trabalho realizado para trazer o
el´etron de valˆencia do infinito at´e uma distˆancia z = r do core iˆonico, que se encontra na origem do sistema de coordenadas2 (figura 2.2). O el´etron produz um campo el´etrico coulombiano externo sobre o core:
Ee= −
1 4π0
e r2kˆ
o qual induz um momento de dipolo el´etrico p = αEe no core, e gera um campo el´etrico
dipolar descrito por:
Edip(r, θ) = p 4π0 1 r3 2 cos(θ)ˆr + sin(θ) ˆθ (2.5) Como o el´etron encontra-se no eixo z, a uma distˆancia r, conclu´ımos que θ = 0 e, assim, ˆr = ˆk. Logo o campo Edip se torna:
Edip(r, θ) = −
2αe (4π0)2
1
r5kˆ (2.6)
no qual substitu´ımos o m´odulo do momento de dipolo p na express˜ao (2.5). O trabalho, dW = F · dl, realizado para trazer o el´etron do infinito at´e r ´e dado por uma for¸ca, Fdip,
exercida por Edip sobre o el´etron de valˆencia. Assim, o trabalho fica:
Vpol(r) = W = − r Z ∞ F · dl = 2αe 2 (4π0)2 r Z ∞ 1 r05dr 0 = − e 4π0 2 α 2r4 (2.7)
Logo, substituindo este resultado no hamiltoniano (2.4), teremos: ˆ
H = ˆHCou−
αd
2ˆr4 (2.8)
em que αd= α(e/4π0)2 ´e a constante polarizabilidade do core iˆonico.
Se ˆVpol(ˆr) ´e o ´unico potencial do sistema, ent˜ao o defeito quˆantico ter´a apenas a
contribui¸c˜ao deste potencial. Portanto, o valor m´edio do potencial ˆVpol(ˆr), no per´ıodo da
´
orbita kepleriana, resulta apenas da obten¸c˜ao de δpol` . Como ˆVpol(ˆr) ´e muito pequeno e
muda relativamente pouco a energia coulombiana (En), podemo-lo considerar como uma
perturba¸c˜ao, e calcular por teoria das perturba¸c˜oes3. No entanto outro caminho ´e calcular
o valor m´edio classicamente usando o modelo de Bohr. Faremos este c´alculo do ponto de vista cl´assico, cujo resultado ser´a o mesmo[7].
Para r grande, o per´ıodo de tempo necess´ario para executar uma ´orbita completa ´e elevado. Podemos, portanto, aproximar esta trajet´oria a uma ´orbita el´ıptica, descrita pela 2a lei de Kepler, pois o el´etron passa uma maior fra¸c˜ao do per´ıodo kepleriano em grandes
valores de r, a fim de que 1/r4 seja negligenci´avel. Vamos calcular, ent˜ao, o valor m´edio
de (2.8), o qual resultar´a nas seguintes energias:
h ˆHi = h ˆHCouli − h ˆVpol(ˆr)i
hEi = hEni − αd 2 D1 r4 E (2.9) Interessa-nos obter o valor m´edio de hr−4i.
Por generalidade, a m´edia sobre uma ´orbita ´e dada por:
hr−mi = 1 τ t Z 0 r−mdt0 (2.10)
em que τ ´e o per´ıodo kepleriano e m, um expoente gen´erico. Visto que a trajet´oria ´e el´ıptica, a equa¸c˜ao de r ´e dada por:
1 r =
1 + ε cos φ
`2 (2.11)
na qual ε ´e a excentricidade e ` ´e o momento angular, que decorre da centrifugalidade da part´ıcula durante a trajet´oria. Sabemos que, em trajet´orias cl´assicas, ` ´e uma grandeza cont´ınua. Isso n˜ao significa que n˜ao possamos admitir valores discretos. Lembrando que ` vem da conserva¸c˜ao do momento angular cl´assico, r2φ = `, vamos substituir a equa¸c˜˙ ao
(2.11) em (2.10), e integrar em dφ. Assim, teremos: hr−mi = 1 2πn3 t Z 0 r−m dt 0 dφ dφ = 1 2πn3 2π Z 0 r−m 1 ˙ φ dφ = 1 2πn3 1 ` 2π Z 0 h1 + ε cos φ `2 im−2 dφ = 1 2πn3 1 (`)2m−3 2π Z 0 (1 + ε cos φ)m−2 dφ (2.12)
Ao expandir o termo (1 + ε cos φ)m−2 em uma s´erie binomial, e integrar no intervalo
[0,2π] cada parcela dessa s´erie, anulamos os termos dos cossenos de expoentes ´ımpares e permaneceremos apenas com os termos pares. Sendo assim, como estamos interessados em m = 4, devemos truncar esta s´erie, para obter:
(1+ε cos φ)m−2 = 1+(m − 2)(m − 3) 2! ε 2 cos2φ+(m − 2)(m − 3)(m − 4)(m − 5) 4! ε 4 cos4φ (2.13) Mas, em m = 4, o ´ultimo termo de (2.13) se anula, logo a integral de (2.12) ficar´a:
hr−4i = 1 2πn3 1 `5 2π Z 0 1 + ε2cos2φdφ = 1 `5n3 1 + ε 2 2 = 3 2 1 `5n3 (2.14)
cujo termo ε2 ´e aproximadamente 1, visto que no modelo planet´ario da ´orbita eletrˆonica (ε2 = 1 − `2/n2), o el´etron executa uma ´orbita muito grande. Assim , ent˜ao poderemos
substituir (2.14) em (2.9), verificando que hEi ser´a igual `a: hEi = hEni − 3 4(αd` −5 ) 1 n3 (2.15)
Comparando este resultado com a equa¸c˜ao (2.1), conclu´ımos que o defeito quˆantico δ`
´e dado por: δ` = 3 4(αd` −5 ) (2.16)
e depende explicitamente de `, como quer´ıamos demonstrar. A tabela (2.1) mostra alguns valores experimentais dos defeitos quˆanticos de metais alcalinos para ` de 0 a 3.
´
E comum representar a equa¸c˜ao (2.1) em termos do n´umero quˆantico principal efetivo, n∗ = n − δ`. A partir desta quantidade, pode-se escrever as propriedades dos ´atomos de
Rydberg em escala de n∗. A tabela (2.2) mostra algumas propriedades dos ´atomos de Rydberg escalados neste fator:
En` = −
1 2n∗2
Tabela 2.1: Defeitos quˆanticos dos ´atomos alcalinos para ` = 0 – 3. ` Li Na K Rb Cs s 0.40 1.35 2.19 3.13 4.06 p 0.04 0.85 1.35 2.66 3.59 d 0.00 0.01 0.25 1.35 2.46 f 0.00 0.00 0.00 0.01 0.02
Fonte: Referˆencia [7]
Tabela 2.2: Algumas propriedades dos ´atomos de Rydberg. Para n grande, tais propriedades dos estados de Rydberg seguem leis de escala universal.
Propriedades deriva¸c˜ao (n∗)x Raio de Rydberg hri = a0
2 (3(n ∗)2 − `(` + 1)) x = 2 Energia de Liga¸c˜ao En∗ = R ∗ (n∗)2 x = −2 Energia de Separa¸c˜ao E(n+1)∗− En∗ x = −3
Fonte: Referˆencia [2]
2.2
Intera¸
c˜
ao entre ´
Atomos Rydberg
Figura 2.3: Atomos de Rydberg com um el´etron de valˆencia interagindo entre si.
Fonte: Elaborado pelo autor
Outras propriedades dos ´atomos de Rydberg surgem da intera¸c˜ao que eles exercem entre si. Suponhamos dois ´atomos de Rydberg, cujos cores n˜ao se deformam na presen¸ca um do outro, separados por uma distˆancia R. Cada ´atomo possui um el´etron de valˆencia, distante de r de seus respectivos cores (figura 2.3). O hamiltoniano total desse sistema ´e dado pelas contribui¸c˜oes dos hamiltonianos atˆomicos livres e dos potenciais de intera¸c˜ao core-core, el´etron-core e el´etron-el´etron, ou seja:
ˆ
Hdd = ˆH1+ ˆH2+ ˆVdd(R, r1, r2) (2.17)
do qual ˆVdd(R, r1, r2) ´e o potencial dipolo-dipolo, dado por:
ˆ Vdd(R, r1, r2) = ˆV (R) − ˆV (R − r1) − ˆV (R + r2) + ˆV (R − (r1− r2)) = 1 |R| − 1 |R − r1| − 1 |R + r2| + 1 |R − (r1− r2)| (2.18)
As constantes foram definidas como 1 para simplificar o c´alculo. Note que esta express˜ao tem a seguinte forma:
f (x) = 1
|R − x| (2.19)
Assim, o potencial (2.18) pode ser reescrito desta forma: ˆ
Vdd(R, r1, r2) = f (0) − f (r1) − f (−r2) + f (r1−r2) (2.20)
Considerando que R r1,2, admitimos que os ´atomos est˜ao muito afastados um do
outro, de maneira que as fun¸c˜oes de onda dos el´etrons n˜ao se sobrep˜oem. Expandindo, em s´erie de Taylor, a equa¸c˜ao (2.19), chegamos `a conclus˜ao de que f (x) ser´a:
f (x) = 1 |R| + x · R R3 + 3(x · R)2 2R5 − x · x 2R3 (2.21)
A partir das equa¸c˜oes (2.20) e (2.21), podemos resumir (2.18) da seguinte forma: ˆ Vdd(R, r1, r2) = r1· r2− 3(r1· ˆn)(r2· ˆn) R3 ! (2.22)
com ˆn = R/R e R = |R|. A equa¸c˜ao (2.22) ´e o an´alogo cl´assico do potencial de intera¸c˜ao de dois dipolos el´etricos.
Visto que a intera¸c˜ao entre os ´atomos ´e de longo alcance, ˆVdd(R, r1, r2) se torna muito
pequeno. Portanto, podemos trat´a-lo como uma perturba¸c˜ao e calcular a energia do hamiltoniano (2.17) pela teoria das perturba¸c˜oes4.
(a) ´Atomos no estado fundamental
Como estamos supondo os ´atomos tipo-hidrogˆenio, o estado n˜ao perturbado do el´etron ´e descrito por |n`m(0)i ⊗ |1
2i, no qual | 1
2i ´e o termo de spin eletrˆonico. Assim, o estado
total dos dois el´etrons de valˆencia ser´a:
|ψi = |n1`1m1i ⊗ |n2`2m2i ⊗ |χi (2.23)
O hamiltoniano (2.17) ´e indiferente ao estado de spin |χi, logo sua a¸c˜ao sobre (2.23) acontecer´a somente os estados |n1`1m1i ⊗ |n2`2m2i.
Assumindo que os ´atomos est˜ao no estado fundamental (` = m = 0), a energia n˜ao perturbada das part´ıculas ser´a igual `a 2En00(0), devido `a a¸c˜ao de ˆH1 + ˆH2 sobre |n100i ⊗
|n200i. Na primeira ordem perturbativa, a energia E (1) n00 ´e dada por: En001 = hψ(0)| ˆVdd|ψ(0)i = Z hψ(0)|r1r2i hr1r2| ˆVdd|r01r02i hr01r02|ψ(0)i d3r1d3r2d3r01d3r02 (2.24)
sobre o qual escrevemos os estados e o potencial na base |r1r2i, aplicando a
comple-teza |r1r2i hr1r2|. A integra¸c˜ao ´e sobre um volume simetricamente esf´erico. Escrevendo
hr1r2|ψ(0)i = ψ(r1r2) = ψ1(r1)ψ2(r2) e hr1r2| ˆVdd|r01r02i = ˆVdd(r1r2)δ(r1− r01)δ(r2− r02), e
substituindo-os na equa¸c˜ao (2.24), temos que: En00(1) = Z ψ∗1(r1)ψ∗2(r2) ˆVdd(r1r2)δ(r1 − r01)δ(r2− r02)ψ1(r1)ψ2(r2) d3r1d3r2d3r01d3r02 = Z |ψ1(r1)|2|ψ2(r2)|2Vˆdd(r1r2) d3r1d3r2 (2.25)
Mas En00(1) ´e zero, visto que a integra¸c˜ao sobre o angulo azimutal se cancela, pois o po-tencial ´e invariante sob rota¸c˜ao. Logo, resta-nos verificar a energia na segunda ordem perturbativa. Portanto, temos que:
En00(2) =X n>0 | ˆV0n|2 E0− En (2.26) em que ˆV0n = hψ (0) 0 | ˆVdd(r1, r2)|ψ (0) n i hψn(0)| ˆVdd(r1, r2)|ψ (0)
0 i. Notamos que a energia E (2) n00 ∝
1/R6, devido `a dependˆencia de ˆV
dd com 1/R3. Como E0 − En < 0, conclu´ımos que E (2) n00
´e negativo e, assim:
En00(2) = −C6
R6 (2.27)
C6 ´e a constante de Van der Waals. Portanto, constatamos que a energia na segunda
ordem perturbativa ´e a energia potencial do tipo de van der Waals, e aparece quando os ´
atomos est˜ao no estado fundamental. O valor de C6 varia de sistema a sistema. Al´em
disso, o sinal negativo, que aparece na energia, representa uma intera¸c˜ao atrativa.
Uma generaliza¸c˜ao relevante desse c´alculo ´e a an´alise em ´atomos de Rydberg de trˆes n´ıveis.
(b) ´Atomos de trˆes n´ıveis
Neste modelo, discutiremos como a intera¸c˜ao de van der Waals emerge de um sistema em que os dois ´atomos est˜ao acoplados por um potencial dipolo-dipolo simplificado. Os ´
atomos saltam a outros n´ıveis e voltam `a configura¸c˜ao original por meio de processos virtuais de F¨orster[2]: se o ´atomo 1 saltar ao estado |+i, o ´atomo 2 saltar´a ao estado |−i e vice-versa, voltando ao estado |0i. Estes n´ıveis virtuais tˆem, no total, uma energia similar ao estado inicial.
Digamos que cada ´atomo possui trˆes n´ıveis (figura 2.4). A base desse sistema ´e definida pelos estados |sii ∈ {|+i , |0i , |−i} (i = 1, 2). O produto direto, |s1i ⊗ |s2i, define uma
base total de nove estados. Assumimos, tamb´em, que hr|s1i = hr|s2i para todo estado s.
Figura 2.4: Modelo simplificado de dois ´atomos com 3 n´ıveis interagindo com potencial dipolo-dipolo.
Fonte: Referˆencia [1]
h+i|ri|−ii = h−i|ri|+ii = 0 (2.28a)
h0i|ri|+ii = h+i|ri|0ii = d+6= 0 (2.28b)
h0i|ri|−ii = h−i|ri|0ii = d− 6= 0 (2.28c)
dos quais d+e d−s˜ao os elementos de matrizes de dipolo (que escalam com n2: d = −er =
−eron2). As energias de uma part´ıcula s˜ao ε0 = h0i| ˆHi|0ii = 0, no estado fundamental,
ε+ = h0i| ˆHi|+ii > 0, no estado excitado, e ε− = h0i| ˆHi|−ii < 0, no estado excitado
virtual. Isso implica que as energias n˜ao-perturbadas do sistema de dois ´atomos ser˜ao, portanto:
ε00 = h00| ˆH1+ ˆH2|00i = 0 (2.29a)
ε+− = ε−+ = h+ − | ˆH1+ ˆH2| + −i = ε++ ε− (2.29b)
ε++ = h+ + | ˆH1+ ˆH2| + +i = 2ε+ (2.29c)
ε−− = h− − | ˆH1+ ˆH2| − −i = 2ε− (2.29d)
Visto que as energias |ε++|, |ε−−| s˜ao muito maiores do que |ε+−|, podemos negligenciar
os estados |++i e |−−i, e manter apenas |+−i, |−+i e |00i, dos quais podemos reescrever os dois primeiros em termos dos estados sim´etrico e antissim´etrico:
|Ai = √1
2[|+−i − |−+i] (estado antissim´etrico) (2.30a) |Si = √1
2[|+−i + |−+i] (estado sim´etrico) (2.30b) Utilizando somente o primeiro termo do potencial dipolo-dipolo, ˆVdd(R, r1, r2) = r1R·r32,
s˜ao: h00| ˆVdd|Ai = h00| r1· r2 R3 |Ai = 1 √ 2R3 h00| r1· r2|(|+−i − |−+i) = √1 2R3 h00| r1 · r2|+−i − h00| r1· r2|−+i = √1 2R3(d+d−− d−d+) = 0 h00| ˆVdd|Si = h00| r1· r2 R3 |Si = 1 √ 2R3 h00| r1· r2|(|+−i + |−+i) = √1 2R3 h00| r1 · r2|+−i + h00| r1· r2|−+i = √1 2R3(d+d−+ d−d+) = √ 2d+d− R3 = d2 R3
O termo d2/R3´e a energia potencial dipolo-dipolo que acopla apenas os estados
funda-mental, |00i, e sim´etrico, |Si, reduzindo o sistema a dois n´ıveis. Portanto, o hamiltoniano resultante ser´a: ˆ H(R) = 0 d2 R3 d2 R3 −∆ ! (2.31) em que −∆ = ε+− e escala com n−3. Este termo ´e chamado de defeito de F¨orster e ´e
importante `a verifica¸c˜ao dos limites assint´oticos no regime em que ele ´e muito grande comparado com d2/R3. Calculando os autovalores de (2.31), teremos que:
E(∆ + E) − d 4 R6 = 0 → E±(R) = − ∆ 2 ± r ∆2 4 + d4 R6 (2.32)
cuja equa¸c˜ao pode ser escrita em termos de uma fun¸c˜ao sinal, em que ∆ tamb´em faz este papel. Vamos reescrever a equa¸c˜ao (2.32) como:
E(R) = −∆ 2 + sgn(∆) r ∆2 4 + d4 R6 = ∆ 2 − 1 ± r 1 + 4d 4 ∆2R6 ! (2.33)
∆ comunica o tipo de intera¸c˜ao que os ´atomos exercem entre si. Seu sinal nos diz so-bre a atratividade, ou repulsividade, do sistema: ser´a atrativo quando ∆ < 0, e repulsivo quando ∆ > 0.
No limite em que 4d4/∆2R6 1, a ra´ız quadrada na equa¸c˜ao (2.33) pode ser
expan-dida numa s´erie binomial, cujo resultado ser´a:
E(R) = ∆ 2 " − 1 + 1 + 1 2 4d4 R6 + · · · !# ≈ d 4/∆ R6 ≡ C6 R6 (2.34)
Temos, ent˜ao, uma intera¸c˜ao do tipo van der Waals (1/R6), que depende do sinal de ∆.
van der Waals ´e significativo no limite em que R ´e muito maior que p2d3 2
/∆. Por causa disto, definimos um raio cr´ıtico, Rc:
Rc=
2d2
∆ !13
(2.35)
Quando 4d2/∆2R6 1, o segundo termo da ra´ız domina, e a energia E(R) ser´a:
E(R) = ∆ 2 − 1 + r 1 + 4d 4 ∆2R6 ! ≈ ∆ 2 − 1 + 2d2 ∆R3 ! ≈ ∆d 2 |∆|R3 = sgn(∆) d2 R3 (2.36)
que ´e a intera¸c˜ao dipolo-dipolo dependente do sinal de ∆.
Os dois exemplos acima demonstram a relevˆancia em estudar um sistema onde ´atomos interagem entre si. No caso em que eles est˜ao no estado fundamental, a intera¸c˜ao em grandes distˆancias mostra uma atratividade entre os dois ´atomos. N˜ao obstante, quando lidamos com ´atomos de Rydberg de n´ıveis generalizados, o tipo de intera¸c˜ao pode ser atrativa ou repulsiva.
´
Atomos de Rydberg tamb´em mostram caracter´ısticas importantes quando interagem com um campo eletromagn´etico. O cap´ıtulo seguinte ser´a dedicado `a demonstra¸c˜ao do que acontece com o ´atomo quando aplicamos um campo cl´assico sobre ele, e o que isso causa na popula¸c˜ao, ou despopula¸c˜ao, dos n´ıveis atˆomicos.
Cap´ıtulo 3
Intera¸
c˜
ao ´
Atomo-Radia¸
c˜
ao
Eletromagn´
etica
3.1
Introdu¸
c˜
ao
Em 1913, Bohr postulou que um quantum de luz (f´oton), de frequˆencia ω, ´e absorvido, ou emitido, sempre que um ´atomo salta entre dois n´ıveis de energia quantizados, E1 e E2,
satisfazendo `a rela¸c˜ao:
E2− E1 = ~ω
No geral, um ´atomo possui muitos n´ıveis quˆanticos, e podem sofrer v´arias transi¸c˜oes. Quando lidamos com intera¸c˜oes do tipo ´atomo-luz, fazemos uma aproxima¸c˜ao conhe-cida por aproxima¸c˜ao de dois n´ıveis, porque queremos apenas transi¸c˜oes espec´ıficas entre dois n´ıveis. A luz, ao interagir com o ´atomo, deve ter uma frequˆencia que coincida com a frequˆencia natural atˆomica, ocasionando uma ressonˆancia entre eles. Essa intera¸c˜ao indu-zir´a oscila¸c˜oes que emitir´a luz na mesma frequˆencia. Logo, a magnitude dessas oscila¸c˜oes ser´a grande, e a intera¸c˜ao, forte. Caso a frequˆencia da luz esteja fora de ressonˆancia com o ´atomo, temos uma magnitude de oscila¸c˜oes dipolares pequena, e intera¸c˜ao fraca.
Neste estudo, vamos analisar a intera¸c˜ao de um ´atomo com o campo eletromagn´etico cl´assico, e determinar o hamiltoniano desse sistema.
3.2
Aproxima¸
c˜
ao de Dipolo
Vamos investigar o hamiltoniano do sistema ´atomo-radia¸c˜ao via m´etodo semi-cl´assico. Iniciaremos nossa discuss˜ao escrevendo o hamiltoniano do ´atomo de hidrogˆenio na ausˆencia de um campo externo: ˆ H0 = ˆ P2 2m + ˆV (|r|) (3.1)
V (|r|) ´e o potencial coulombiano de intera¸c˜ao entre o el´etron e o n´ucleo atˆomico. O hamiltoniano (3.1), que age sobre o autoestado n˜ao perturbado ψk(0)(r) = hr|ψki, satisfaz
a equa¸c˜ao de Schr¨odinger independente do tempo: ˆ H0ψ (0) k (r) = Ekψ (0) k (r)
sendo Ek a energia n˜ao perturbada do el´etron no n´ıvel k.
O ´atomo recebe, ent˜ao, um campo eletromagn´etico E(r, t) = −∇φ(r, t) − ∂A(r, t)
∂t (3.2a)
B(r, t) = ∇ × A(r, t) (3.2b)
o qual modifica o hamiltoniano (3.1), resultando em uma altera¸c˜ao energ´etica devida `a intera¸c˜ao ´atomo-campo. Assim, o hamiltoniano geral ´e descrito por:
ˆ H0 =
[ ˆP + eA(r, t)]2
2m − eφ(r, t) + ˆV (|r|) (3.3)
cuja carga eletrˆonica e ´e o termo de acoplamento do sistema.
Expandindo o termo quadr´atico em (3.3), obtemos os termos A(r, t) · ˆP e A(r, t)2. Considerando que o campo eletromagn´etico ´e fraco, podemos desprezar A(r, t)2 e concluir que o hamiltoniano (3.3) ser´a:
ˆ H0 = P2 2m + ˆV (|r|) + e mA(r, t) · ˆP − eφ(r, t) (3.4) O campo eletromagn´etico ´e invariante sob tranforma¸c˜ao de gauge
φ(r, t) → φ(r, t) − ∂χ(r, t)
∂t (3.5a)
A(r, t) → A(r, t) + ∇χ(r, t) (3.5b)
Assim, pelo gauge de Coulomb (∇ · A(r, t) = 0), e n˜ao havendo fontes de carga na vizinhan¸ca do ´atomo(φ(r, t) = 0), obtemos:
∇ × B = ∇ × ∇ × A(r, t) = −1 c2
∂2A(r, t)
∂t2 (3.6)
do qual escrevemos a equa¸c˜ao da onda do potencial vetor A(r, t): ∇2A(r, t) − 1
c2
∂2A(r, t)
∂t2 = 0 (3.7)
cuja solu¸c˜ao s˜ao ondas planas:
Como φ(r, t) = 0, o hamiltoniano (3.4) ser´a reescrito como: ˆ H0 = P2 2m + ˆV (|r|) + e m h A(r, t) + ∇χ(r, t)i· ˆP + e∂χ(r, t) ∂t (3.9)
Visto que |r| ´e da ordem de comprimentos atˆomicos (de alguns angstr¨oms), e λ da ordem do comprimento de onda ´optico (∼ 400-700nm), o produto escalar, k · r, ser´a muito menor do que 1, e o potencial vetor fica espacialmente uniforme:
A(r, t) ≈ A(t) = A0e−iωt (3.10)
O gauge de Coulomb nos garante que χ(r, t) = −r · A(t) (3.5b). Assim, aplicando a derivada parcial temporal sobre χ(r, t), e considerando a equa¸c˜ao (3.2a), vemos que:
∂χ(r, t)
∂t = −r ·
∂A(t)
∂t = r · E(t) (3.11)
Assim, substituindo a equa¸c˜ao (3.11) no hamiltoniano (3.9), e cancelando o termo A(r, t)+ ∇χ(r, t), obtemos o hamiltoniano ˆH transformado:
ˆ
H = ˆH0+ er · E(t) = ˆH0− ˆd · E(t) (3.12)
ˆ
d ´e conhecido como operador dipolo el´etrico, e acopla o ´atomo ao campo el´etrico. Este ´e o an´alogo cl´assico do vetor dipolo el´etrico, definido por d = −er. Esse resultado ´e conhecido como aproxima¸c˜ao de dipolo.
Uma vez que o campo ´e fraco, o termo de intera¸c˜ao ´e perturbativo. Logo, utilizaremos a teoria das perturba¸c˜oes para estudar a influˆencia desse termo sobre os estados atˆomicos, analisando a probabilidade do encontrar o ´atomo no estado mais excitado.
3.2.1
Intera¸
c˜
ao Semi-Cl´
assica ´
Atomo-Campo
Um estado dependente do tempo, cuja base s˜ao os autoestados n˜ao perturbados de ˆ H0, ´e designado por: |Ψ(t)i =X k Ck(t)e −iEkt ~ |ψ(0) k i (3.13)
Ck(t) corresponde `a amplitude de probabilidade de cada n´ıvel k, e obedece `a condi¸c˜ao de
normaliza¸c˜ao
X
k
|Ck(t)|2 = 1 (3.14)
Vamos estudar a dinˆamica do sistema, considerando o hamiltoniano (3.12) e o estado (3.13), na equa¸c˜ao de Schr¨odinger dependente do tempo:
i~∂ |Ψ(t)i
∂t =
ˆ
A equa¸c˜ao de Sch¨odinger (3.15) fornece um conjunto infinito de equa¸c˜oes. Se mul-tiplicarmos esse conjunto pelo somat´orio de estados n˜ao perturbados P
je
iEjt/~hψ(0) j |,
obteremos uma s´erie de equa¸c˜oes acopladas da forma: ˙ Cj(t) = 1 i~ X k Ck(t) ˆHint jke iωjkt (3.16)
no qual definimos que Hˆint
jk = hψ (0)
j | ˆHint|ψk(0)i, e ωjk = (Ej − Ek)/~ (a frequˆencia de
transi¸c˜ao entre os n´ıveis j e k). Pela teoria das perturba¸c˜oes dependente do tempo1, po-demos desacoplar as componentes de (3.16) se expandirmos Ck(t) numa s´erie de potˆencia
de λ (um termo adimensional muito pequeno).
Digamos que o ´atomo encontra-se em algum estado inicial i. Isso significa que pode-mos assumir a condi¸c˜ao inicial em que Ci(0)(t) = 1. Quando t > 0, o estado evolui at´e algum estado final f . Ent˜ao, o estado na primeira ordem perturbativa ser´a:
Cf(1)(t) = 1 i~ Z t 0 dt0 Hˆint f ie iωf it0 (3.17)
Em outras ordens, a transi¸c˜ao ocorre por meio de n´ıveis intermedi´arios, at´e atingir o estado final f . Por´em, n˜ao focaremos nesse caso, mas apenas na primeira ordem pertur-bativa, sem perda de generalidade. No caso em que f = i, a componenete Ci(1)(t) ser´a igual a 0, visto que Hˆint
f i = 0. Isso restringe nosso problema, e corrobora com o fato
de que Ci(0)(t) = 1.
Vamos definir o campo el´etrico como: E(t) = E0cos(ωt) =
E0
2
eiωt+ e−iωt (3.18)
Substituindo (3.18) no hamiltoniano de intera¸c˜ao ˆHint, escrevemos a equa¸c˜ao (3.17) como
segue: Cf(1)(t) = 1 2i~ ˆ d · E0 f i Z t 0 dt0 hei(ω+ωf i)t0 + e−i(ω−ωf i)t0 i (3.19) cuja solu¸c˜ao ´e dada por:
Cf(1)(t) = − ˆ d · E0 f i 2~ × ( ei(ω+ωf i)t− 1 (ω + ωf i) − e −i(ω−ωf i)t− 1 (ω − ωf i) ) (3.20) Se a frequˆencia de radia¸c˜ao ´e pr´oxima da frequˆencia de transi¸c˜ao (ω ≈ ωf i), teremos
que ω − ωf i domina sobre ω + ωf i de modo que desprezamos o primeiro termo de (3.20),
pois estamos interessados em oscila¸c˜oes lentas. Essa aproxima¸c˜ao ´e chamada de rotating wave approximation (RWA), e o coeficiente Cf(1)(t) ser´a resumido `a:
Cf(1)(t) = ˆ d · E0 f i 2~ " e−i(ω−ωf i)t− 1 (ω − ωf i) # (3.21) 1Ver apˆendice A
A probabilidade Pi→f(1) (t) de encontrar o ´atomo no estado final ´e dada por: Pi→f(1) (t) = C (1) f (t) 2 = ˆd · E0 f i 2 4~2 e−i(ω−ωf i)t− 1 (ω − ωf i) 2 = d · Eˆ 0 f i 2 4~2∆2 e −i∆t− 1 2 = d · Eˆ 0 f i 2 4~2∆2 cos(∆t) − i sin(∆t) − 1 2 = d · Eˆ 0 f i 2 2~2∆2 1 − cos(∆t) = d · Eˆ 0 f i 2 ~2 sin2 ∆t2 ∆2 (3.22)
em que ∆ (= ω − ωf i) ´e o detuning entre as frequˆencias de radia¸c˜ao e transi¸c˜ao atˆomica.
No caso em que ∆t/2 = 0, a probabilidade m´axima de Pi→f(1) (t) ser´a: Pi→f(1) (t) m´ax = d · Eˆ 0 f i 2 ~2 1 ∆2 (3.23)
Por outro lado, quando ∆t/2 ≈ 0, Pi→f(1) (t) ficar´a: Pi→f(1) (t) m´ax = ˆd · E0 f i 2 4~2 t 2 (3.24)
As equa¸c˜oes (3.23) e (3.24) s˜ao semelhantes `as equa¸c˜oes (A.37) e (A.38). Para que a expans˜ao perturbativa ser v´alida, devemos ter que Pi→f(1) (t)m´ax 1, implicando que a
equa¸c˜ao (3.23) ´e v´alida quando ∆ ´e grande, ou em tempos muito curtos de acordo com a equa¸c˜ao (3.24).
Na pr´oxima se¸c˜ao, veremos o c´alculo exato do hamiltoniano (3.12), usando um modelo atˆomico de dois n´ıveis conhecido como modelo de Rabi. Definiremos uma frequˆencia carac-ter´ıstica, que carrega as propriedades da dinˆamica do sistema. A partir dessa frequˆencia, o sistema evolui periodicamente no tempo pelas oscila¸c˜oes de Rabi.
3.3
Modelo de Rabi
Vejamos os efeitos do campo agindo sobre um ´atomo de dois n´ıveis: o estado funda-mental, |gi, e o estado de Rydberg, |ei (figura 3.1).
A frequˆencia de transi¸c˜ao, de acordo com o modelo de Bohr, ´e dado por ω0 = (Ee−
Eg)/~. Considerando o hamiltoniano do sistema ´atomo-campo descrito pela equa¸c˜ao
(3.12), e o campo el´etrico (3.18), teremos: ˆ
H = ˆH0− ˆd · E0cos(ωt) = ˆH0+ ˆHint (3.25)
O hamiltoniano ˆH possui dois termos, em que o primeiro corresponde ao hamiltoniano atˆomico livre e o segundo, `a intera¸c˜ao ´atomo-campo. Vamos escrever (3.25) na base {|gi,
Figura 3.1: Modelo de Rabi de um ´atomo de dois n´ıveis. Os n´ıveis s˜ao separados pela frequˆencia ω0, e
ω ´e a frequˆencia de oscila¸c˜ao campo el´etrico externo. ∆ ´e a diferen¸ca entre ω0 e ω. Se ∆ igual a zero, o
sistema entra em ressonˆancia.
Modelo de ´atomo de dois n´ıveis
|gi |ei ω0
ω ∆
Fonte: Elaborado pelo autor
|ei}, aplicando a identidade ˆI = |gi hg| + |ei he| pela direita e esquerda de ˆH. Obtemos a seguinte representa¸c˜ao de ˆH:
ˆ
H = (|gi hg| + |ei he|)h ˆH0+ ˆHint
i
(|gi hg| + |ei he|)
= Eg|gi hg| + Ee|ei he| + hg| ˆHint|ei |gi he| + he| ˆHint|gi |ei hg| (3.26)
Eg e Ee s˜ao as autoenergias quando ˆH0 age sobre os estados |gi e |ei. Os elementos de
matrizes hg| ˆHint|gi e he| ˆHint|ei s˜ao iguais a zero devido `a paridade. Resta-nos apenas os
elementos de matrizes fora da diagonal principal, hg| ˆHint|ei e he| ˆHint|gi. Vamos assumir
que Eg ´e igual a zero (consequentemente, Ee = ~ω0) e definir os seguintes operadores:
ˆ
σee= |ei he|, ˆσge = |gi he| e ˆσeg = |ei hg|. O elemento de matriz hg| ˆHint|ei pode ser escrito
da seguinte forma:
hg| ˆHint|ei = hg| − ˆd · E0cos(ωt)|ei = hg| − ˆd · E0|ei cos(ωt) = µgecos(ωt) (3.27)
µge ´e o elemento de matriz de dipolo. Portanto, expressando o cosseno em termos das
exponenciais, temos que a equa¸c˜ao (3.26) fica: ˆ H = ~ω0σˆee+ µge 2 eiωt+ e−iωt(ˆσge+ ˆσeg) (3.28)
Podemos transformar o hamiltoniano (3.28) na representa¸c˜ao de intera¸c˜ao, aplicando uma transforma¸c˜ao unit´aria2:
ˆ
HI = ˆU†H ˆˆU + i~(∂tUˆ†) ˆU (3.29)
O operador unit´ario ˆU , que transforma o hamiltoniano (3.28) na representa¸c˜ao das in-tera¸c˜oes, ´e o seguinte:
ˆ
U = e−iω0ˆσeet (3.30)
2Essa transforma¸c˜ao ´e obtida pelas seguintes rela¸c˜oes:
Logo,
ˆ
HI= µge 2
eiωt+ e−iωtσˆgee−iω0t+ ˆσegeiω0t
(3.31) Mais uma vez, faremos outra transforma¸c˜ao unit´aria sobre ˆHI pela aplica¸c˜ao do ope-rador unit´ario, ˆU = exp(−i∆ˆσeet), cujo termo ∆ ´e o detuning. Esta transforma¸c˜ao leva o
sistema ao referencial de rota¸c˜ao. Portanto, teremos o seguinte resultado: ˆ H = −~∆ˆσee+ ~Ω R 2 ˆ
σge+ ˆσeg+ ˆσe−2iωt+ ˆσege2iωt
(3.32) ΩR (= µge/~) ´e chamado de frequˆencia de Rabi, a qual gera as oscila¸c˜oes do sistema.
O hamiltoniano (3.32) possui dois termos que dependem do tempo. Eles podem ser negligenciados, porque estamos interessados no sistema de oscila¸c˜oes lentas de acordo com o RWA. Portanto, resumimos a equa¸c˜ao (3.32) ao seguinte hamiltoniano:
ˆ H = −~∆ˆσee+ ~Ω R 2 ˆ σge+ ˆσeg (3.33) o qual agir´a sobre o estado:
|ψ(t)i = cg(t) |gi + ce(t) |ei (3.34)
Pela equa¸c˜ao de Schr¨odinger dependente do tempo, as equa¸c˜oes (3.33) e (3.34) resul-tam em: i~ ˙cg(t) |gi + i~ ˙ce(t) |ei = ~Ω R 2 ce(t) |gi + h ~ΩR 2 cg(t) − ~∆ce(t) i |ei (3.35) no qual encontramos um sistema de duas equa¸c˜oes, cuja frequˆencia de Rabi acopla os estados da part´ıcula: ˙cg(t) = −i ΩR 2 ce(t) ˙ce(t) = −i ΩR 2 cg(t) + i∆ce(t) (3.36a) (3.36b) Vamos estudar, a seguir, o caso em que o campo entra em ressonˆancia com o ´atomo.
3.3.1
Oscila¸
c˜
ao Ressonante de Rabi
A partir do sistema (3.36), analisaremos o regime ressonante de Rabi (∆ = 0). Assim teremos: ˙ cg(t) = −i ΩR 2 ce(t) ˙ ce(t) = −i ΩR 2 cg(t) (3.37a) (3.37b) Ao desacoplar o sistema, reca´ımos numa equa¸c˜ao diferencial ordin´aria (EDO) ho-mogˆenea do oscilador harmˆonico simples, cuja ra´ızes da equa¸c˜ao caracter´ıstica s˜ao ±ΩR/2.
Como resultado, temos que as solu¸c˜oes das componentes cg(t) e ce(t) ser˜ao: cg(t) = A cos ΩR 2 t + B sin ΩR 2 t (3.38a) ce(t) = i B cos ΩR 2 t − A sin ΩR 2 t (3.38b) Quando t = 0, cg(0) = A e ce(0) = B. Se impormos a condi¸c˜ao de que ce(0) = 0 e
cg(0) = 1, temos que os coeficientes de (3.38) ficam:
cg(t) = cos ΩR 2 t ce(t) = −i sin ΩR 2 t (3.39a) (3.39b) Vemos que as amplitudes de probabilidades s˜ao peri´odicas no tempo, oscilando com a frequˆencia de Rabi. Assim, substituindo (3.39) no estado (3.34), encontramos a equa¸c˜ao que governa a dinˆamica do sistema:
|ψ(t)i = cos ΩR 2 t |gi − i sin ΩR 2 t |ei (3.40)
o qual obedece `a normaliza¸c˜ao:
hψ(t)|ψ(t)i = cos2 ΩR 2 t + sin2 ΩR 2 t = 1 (3.41)
As probabilidades de encontrar o ´atomo nos estados fundamental e excitado s˜ao: Pg(t) = | hg|ψi |2 = cos ΩR 2 t 2 = cos2 ΩR 2 t (3.42a) Pe(t) = | he|ψi |2 = − i sin ΩR 2 t 2 = sin2 ΩR 2 t (3.42b) A figura (3.2) mostra o gr´afico das oscila¸c˜oes de Rabi entre os estados |gi e |ei. O per´ıodo de transi¸c˜oes ´e T = 2nπ/ΩR. Como assumimos que ΩR´e igual a 1, as oscila¸c˜oes de
Rabi ocorrem em per´ıodos de 2π. Supondo que o campo seja ligado com dura¸c˜ao de T /2, ou seja, em per´ıodos de π, o ´atomo, no estado fundamental, ´e promovido ao estado mais excitado com probabilidade Pe(t) = 1. Esta excita¸c˜ao ´e conhecida como π-pulso. Por
outro lado, no caso em que o campo ´e ligado em per´ıodos de π/2, temos uma superposi¸c˜ao dos estados, e o ´atomo se encontra, ou no estado fundamental, ou no estado de Rydberg. Este tipo de pulso ´e chamado de π/2-pulso.
Vejamos o caso mais geral em que a frequˆencia do campo se aproxima da frequˆencia natural atˆomica.
Figura 3.2: A frequˆencia de Rabi, ΩR, foi igualada a 1. O ´atomo ´e excitado ao estado |ei, atingindo seu
m´aximo no per´ıodo de π, e volta ao estado fundamental totalmente no per´ıodo de 2π.
Fonte: Elaborado pelo autor
3.3.2
Oscila¸
c˜
ao de Rabi Quase Ressonante
Retornando ao sistema (3.36), com ∆ 6= 0, as equa¸c˜oes se reduzem a uma EDO homogˆenea:
¨
cg(t) − i∆ ˙cg(t) +
Ω2R
4 cg(t) = 0 (3.43)
cuja equa¸c˜ao caracter´ıstica tem ra´ızes iguais a i
2(∆ ± Ω), em que Ω ´e a frequˆencia
gene-ralizada dada por pΩ2
R+ ∆2. Escolhendo a ra´ız i 2(∆ − Ω), a poss´ıvel solu¸c˜ao de cg(t) ser´a: cg(t) = e i∆ 2 t A sin Ω 2t + B cos Ω 2t (3.44) na qual A e B s˜ao constantes. Correspondentemente, a solu¸c˜ao de ce(t), pela equa¸c˜ao
(3.36a), ser´a: ce(t) = ei ∆ 2t iΩ ΩR A − ∆ ΩR B cos Ω 2t − iΩ ΩR B + ∆ ΩR A sin Ω 2t (3.45) Estudando as condi¸c˜oes de contorno quando t=0, teremos que B = cg(0) e A =
−i
Ω(ΩRce(0) + ∆cg(0)). Impondo que cg(0) = 1 e ce(0) = 0, as equa¸c˜oes (3.44) e (3.45)
ficam: cg(t) = ei ∆ 2t cos Ω 2t − i∆ Ωsin Ω 2t (3.46a) ce(t) = −i ΩR Ω e i∆2tsin Ω 2t (3.46b) Portanto, as amplitudes de probabilidades evoluem periodicamente no tempo e oscilam com a frequˆencia de Rabi generalizada.
O estado, que definimos em (3.34), ´e descrito por: |ψ(t)i = ei∆2 t cos Ω 2t − i∆ Ω sin Ω 2t |gi − iΩR Ω e i∆2tsin Ω 2t |ei (3.47)
Podemos verificar que esse estado ´e normalizado: hψ(t) | ψ(t)i =cg(t)
2 +ce(t) 2 = 1. As probabilidades de encontrar os ´atomos nos n´ıveis fundamental e Rydberg s˜ao:
Pg(t) = | hg|ψi |2 = cos2 Ω 2t + ∆ 2 Ω2 sin 2 Ω 2t (3.48a) Pe(t) = | he|ψi |2 = Ω2 R Ω2 sin 2 Ω 2t (3.48b) Vamos notar que quando ∆ ΩR, voltamos ao caso ressonante, no qual o estado
excitado ´e totalmente ocupado. Por outro lado, quando ∆ ΩR, a probabilidade Pe(t)
tende a zero, significando que o ´atomo permanece no estado fundamental: Pg(t) = 1.
Podemos estudar esses limites por meio da probabilidade m´axima de excita¸c˜ao (PME) (figura 3.3b), em que analisamos a probabilidade m´axima do ´atomo ocupar o estado excitado em cada valor de ∆. Note que, quando a ressonˆancia ´e atingida (∆/ΩR = 0), a
probabilidade ´e m´axima, implicando que toda popula¸c˜ao est´a no estado excitado.
A figura (3.3) mostra o caso em que temos ∆ < ΩR. O estado excitado ´e parcialmente
ocupado em π/2. Com isso, podemos ter um controle das invers˜oes por meio da frequˆencia do campo aplicado.
Figura 3.3: (a)Para Ω = 2, com ∆ = 1 e ΩR=
√
3, o ´atomo ocupa parcialmente o estado excitado. (b) Pico de m´axima excita¸c˜ao. Ocorre transi¸c˜ao total quando ∆ = 0, indo a zero em valores de ∆ grande.
(a) (b)
Fonte: Elaborado pelo autor
Podemos ver que os ´atomos de Rydberg s˜ao sens´ıveis ao campo eletromagn´etico, visto que este interfere no estado final da part´ıcula. Por´em, al´em da sensibilidade que eles tˆem com o campo, os estados atˆomicos apresentam defasagem quando tais ´atomos interagem entre si por meio de um potencial V (R). Vimos na se¸c˜ao (2.2) que, quando dois ´atomos
de Rydberg est˜ao a uma distˆancia R grande, e est˜ao sob a influˆencia de um potencial de dipolo (1/R3), a energia resultante era um potencial do tipo van der Waals (1/R6).
Veremos, no pr´oximo cap´ıtulo, como este potencial influencia os estados das part´ıculas, e estudaremos as oscila¸c˜oes de Rabi no contexto da intera¸c˜ao entre dois ´atomos de Rydberg do modelo de Rabi.
Cap´ıtulo 4
Bloqueio de Dipolo
4.1
Introdu¸
c˜
ao
Quando ´atomos s˜ao opticamente excitados ao estado de Rydberg, as intera¸c˜oes in-fluenciam na quantidade de ´atomos a serem excitados. Se dois ´atomos pr´oximos est˜ao inicialmente no estado fundamental e excitamos um deles at´e o estado de Rydberg, o outro ter´a seu n´ıvel de Rydberg deslocado em raz˜ao dessa intera¸c˜ao. Esse deslocamento de n´ıvel altera a regi˜ao de ressonˆancia dos ´atomos, impedindo que o outro seja excitado ao estado de Rydberg. O ´atomo n˜ao excitado s´o ser´a elevado ao estado de Rydberg se mudarmos a frequˆencia de excita¸c˜ao.
Figura 4.1: Dependˆencia da energia E(R) com R. O estado duplamente excitado |rri se desloca no raio de bloqueio para fora da ressonˆancia da excita¸c˜ao de Rydberg.
Fonte: Referˆencia [2]
A figura (4.1) mostra uma base de estados {|ggi , |gri , |rgi , |rri}. Os estados s˜ao acoplados pela excita¸c˜ao laser Ω, de modo que as transi¸c˜oes |ggi → |rgi e |rgi → |rri ser˜ao igualmente ressonantes se a distˆancia entre os ´atomos for muito grande, acima de uma distˆancia caracter´ıstica chamada de raio de bloqueio1, R
b.
Quando R < Rb, a probabilidade de encontrar os ´atomos no estado duplamente
exci-tado |rri reduz-se dramaticamente a zero, pois |rri se desacopla do hamiltoniano total, e apenas um ´atomo se encontra no estado de Rydberg, enquanto os demais se mantˆem no estado fundamental. Esse processo ´e conhecido como bloqueio de dipolo. Assim, o sistema recai em um regime coletivo de dois n´ıveis: um estado fundamental e um estado coletivo de Rydberg. Esse conceito foi demonstrado experimentalmente com dois ´atomos em pin¸cas ´opticas [15, 13].
De modo geral, sistemas coletivos mostram oscila¸c˜oes de Rabi que escalam com √N , sendo N o n´umero de part´ıculas. Tal escalamento foi demonstrado em sistemas de muitos ´
atomos, correspondendo a uma varia¸c˜ao em cerca de duas ordens de magnitude [16, 20]. Um sistema coletivo introduz `a forma¸c˜ao de um super´atomo. As primeiras imple-menta¸c˜oes de super´atomos isolados foram criadas com ´atomos de Rydberg, para demons-trar uma porta l´ogica de dois qubits [13, 15, 17, 18, 19].
No caso em que R > Rb, o modelo de super´atomo ´e quebrado, necessitando acrescentar
mais estados excitados que se acoplam ao estado coletivo de Rydberg [20]. Por´em, n˜ao abordaremos tal assunto neste trabalho.
Vamos estudar, neste cap´ıtulo, o fenˆomeno de bloqueio de dipolo, em que dois ´atomos de Rydberg, interagindo por meio de um potencial V (R), provoca um no outro. Estuda-remos especificamente a condi¸c˜ao em que R < Rb, e veremos a influˆencia de V (R) sobre
os estados atˆomicos, e como podemos generalizar esse sistema para N ´atomos interagindo entre si.
4.2
Bloqueio de Dipolo no Modelo de Rabi
Estudamos, no cap´ıtulo anterior, a intera¸c˜ao entre um ´atomo de dois n´ıveis e um campo el´etrico externo. Veremos, agora, os efeitos produzidos nesta intera¸c˜ao quando aproxima-mos um segundo ´atomo do primeiro. Neste novo sistema, cada ´atomo ´e representado pelo estado (3.34) e hamiltoniano (3.33). Assim, temos que |Ψi do conjunto ser´a:
|Ψi = cgg(t) |ggi + cge(t) |gei + ceg(t) |egi + cee(t) |eei (4.1)
o qual obedece `a condi¸c˜ao de normaliza¸c˜ao X
i,j
e o hamiltoniano total ser´a a soma dos hamiltonianos de cada ´atomo do sistema, mais o potencial V (R), quando eles se encontram no estado de Rydberg. Portanto, temos que:
ˆ H1+2 = ˆH1⊗ I2+ I1⊗ ˆH2+ V (R) |eei hee| = ~ΩR 2 2 X i=1 ˆ σge(i)+ ˆσeg(i) − ~∆ 2 X i=1 ˆ σee(i)+ V (R)ˆσee(1)⊗ ˆσee(2) (4.3)
O hamiltoniano total (4.3) pode ser representado por uma matriz na base {|ggi, |gei, |egi, |eei}: ˆ H1+2= ~ 0 ΩR 2 ΩR 2 0 ΩR 2 −∆ 0 ΩR 2 ΩR 2 0 −∆ ΩR 2 0 ΩR 2 ΩR 2 −2∆ + V (R) ~ (4.4)
Substituindo (4.1) e (4.4) na equa¸c˜ao de Schr¨odinger dependente do tempo, obtemos um sistema de quatro equa¸c˜oes acopladas pela frequˆencia de Rabi ΩR, como segue:
˙cgg(t) = −i ΩR 2 cge(t) + ceg(t) (4.5a) ˙cge(t) = −i ΩR 2 cgg(t) + cee(t) − i∆cge(t) (4.5b) ˙ceg(t) = −i ΩR 2 cgg(t) + cee(t) − i∆ceg(t) (4.5c) ˙cee(t) = −i ΩR 2 cge(t) + ceg(t) + i 2∆ − V (R) ~ ! cee(t) (4.5d)
Na equa¸c˜ao (4.5d), o potencial V (R) funciona como um detuning. Ou seja, ∆ e V (R) agregam um detuning efetivo, ∆eff, no deslocamento dos n´ıveis. A partir de agora,
estu-daremos apenas o sistema em ressonˆancia com o campo el´etrico (∆ = 0). Isto implicar´a que as energias m´edias hgg| ˆH1+2|ggi, hge| ˆH1+2|gei e heg| ˆH1+2|egi ser˜ao iguais a zero. Por
outro lado, a energia Eee do estado duplamente excitado ´e igual ao potencial V (R):
Eee(R) = D ee ˆ H1+2 ee E = C6 R6 ≡ V (R) (4.6)
V (R), portanto, ´e o gap de energia entre os n´ıveis dos estados { |ggi, |gei, |egi } e |eei. Podemos determinar que, se V (R) e ~ΩRs˜ao da mesma ordem de grandeza, ent˜ao obtemos
uma distˆancia caracter´ıstica dependente da frequˆencia de Rabi e da constante de van der Waals: V (R) = ~ΩR ⇒ C6 R6 = ~ΩR ⇒ Rb = C6 ~ΩR !16 (4.7) Rb ´e o raio de bloqueio que varia com ΩR e C6. Os valores t´ıpicos desta grandeza s˜ao da
Figura 4.2: Intera¸c˜ao entre dois ´atomos no regime de ressonˆancia. (a) e (c) mostram a dinˆamica de in-vers˜ao populacional dos ´atomos sob a a¸c˜ao do potencial de van der Waals, V (R) = −C6
R6. A probabilidade
de encontrar ambos os ´atomos no estado de Rydberg ´e cada vez menor. (b) e (d) mostram qu˜ao menor ´e o n´umero de excita¸c˜oes em que encontramos ambos os ´atomo no estado de Rydberg.
(a) (b)
(c) (d)
Fonte: Elaborado pelo autor
Vamos analisar o sistema (4.5) numericamente pelo m´etodo de Runge-Kutta de 4a
ordem2. No c´alculo computacional, definimos que ΩR = C6 = ~ = 1, 0 e o tamanho do
passo dt = 10−4 (com todas estas grandezas nas suas respectivas unidades pr´oprias). O raio de bloqueio, portanto, ser´a Rb = 1.0.
As figuras (4.2a, 4.2c) mostram a dinˆamica populacional dos estados fundamental e du-plamente excitado em alguns valores fixos de V (R). Com o potencial crescendo, diminui-se a probabilidade de dupla excita¸c˜ao, |Cee(t)|2. Isso porque o n´umero de ´atomos excitados
diminui quando eles se aproximam, aumentando a for¸ca de intera¸c˜ao interatˆomica (figuras 4.2b, 4.2d).
Uma vez que a intera¸c˜ao ´e muito forte entre os ´atomos, a probabilidade de dupla excita¸c˜ao se anula, causando o efeito de bloqueio (figuras 4.3a, 4.3c). Vemos nas figuras (4.3b, 4.3d) que, no m´aximo, um ´atomo se encontra no estado de Rydberg.
A figura (4.4) mostra o bloqueio de dipolo comparando trˆes potenciais diferentes. 2Ver Apˆendice B
Figura 4.3: Intera¸c˜ao entre dois ´atomos no regime de ressonˆancia. (a), (c) Quando o potencial de van der Waals, V (R) = −C6
R6, ´e muito grande, a probabilidade dos dois ´atomos se encontrarem no estado de
Rydberg ´e nula. (b) e (d) mostram que o n´umero de excita¸c˜oes, quando R ´e muito pequeno, oscila mais rapidamente, e com amplitude m´axima igual a 1.
(a) (b)
(c) (d)
Fonte: Elaborado pelo autor
Comparamos a probabilidade m´axima de duplamente excita¸c˜ao em fun¸c˜ao da distˆancia de intera¸c˜ao R. A probabilidade m´axima de encontrar os dois ´atomos duplamente exci-tados diminui drasticamente a zero quando R < Rb, e aumenta rapidamente a 1 quando
R > Rb. No regime do potencial V (R) = −1/R6, vemos que o bloqueio de dipolo ´e
um fenˆomeno em que a energia do estado duplamente excitado ´e muito grande quando a distˆancia interatˆomica ´e muito pequena. Esta energia desacopla o estado |eei dos demais estados, mantendo apenas um dos ´atomos no estado de Rydberg.
Este fenˆomeno tamb´em interfere nas oscila¸c˜oes atˆomicas. Se compararmos as figuras (4.2b) e (4.3d), por exemplo, notamos que a frequˆencia de oscila¸c˜ao do conjunto aumenta. Isto significa que h´a uma frequˆencia coletiva no regime de intera¸c˜ao muito forte.
Vejamos na pr´oxima se¸c˜ao, as implica¸c˜oes desse regime na mudan¸ca efetiva da frequˆencia de oscila¸c˜ao atˆomica. Descreveremos o que acontece com a frequˆencia na intera¸c˜ao en-tre dois ´atomos. Posteriormente, faremos uma generaliza¸c˜ao para o caso de N ´atomos, estudando sua rela¸c˜ao com o modelo de super´atomos.
Figura 4.4: O bloqueio de dipolo para trˆes regimes de intera¸c˜ao. Os potenciais de van der Waals, dipolo-dipolo e V (R) = −1/R10s˜ao comparados. Notemos que o R
b= 1.
Fonte: Elaborado pelo autor
4.3
Excita¸
c˜
oes Coletivas
Vimos na se¸c˜ao anterior que |Cee|2´e nulo quando V (R) ´e muito grande. Logo, o estado
|eei se desacopla do hamiltoniano total ˆH1+2(Eq. 4.4) e, por esse motivo, podemos
resumi-lo a um hamiltoniano efetivo, ˆHeff, escrito na base do subespa¸co { |ggi, |gei, |egi}, no
qual apenas um ´atomo encontra-se no estado excitado:
ˆ Heff = ~ 0 ΩR 2 ΩR 2 ΩR 2 0 0 ΩR 2 0 0 (4.8)
Os autovalores de ˆHeffs˜ao as energias efetivas, que dependem da frequˆencia ΩRalterada
pelo fator √2: E±= ±~ √ 2ΩR 2 ! = ±~Ω2 2 (4.9a) E0 = 0 (4.9b) Ω2(= √
2ΩR) ´e a frequˆencia coletiva dos dois ´atomos nesse regime de intera¸c˜ao.
Notemos dois pontos importantes. Primeiro, as autoenergias E+e E−s˜ao semelhantes
`
as autoenergias do hamiltoniano ˆH da equa¸c˜ao (3.1). Isto tem um significado razo´avel, que discutiremos posteriormente. E, segundo, observa-se que a raz˜ao dos per´ıodos de oscila¸c˜oes das figuras (4.2b) e (4.3b) corresponde a algo pr´oximo de √2, concordando com o fator de (Eq. 4.9a) no regime de bloqueio.