RÊVISTA
P R I M E I R O ANNO
V O L U M E I
i T - A . T - A . X - i e m p r e sa d’ A REPUBLICA
EDITOHA
1 8 9 1 )O BR AS P U B L IC A D A S :
REVISTA DO RIO GRANDE DO NORTE—Anno I
vol. I
RUINAS—Versos. Henrique Castriciano.
NO PRELO ;
MÃE—Poemeto. Henrique Castriciano.
OBRAS A PUBLICAR :
HORTO—Versos. A uta de Souza.
ALMA E PATRIA—Poema eivico : Homem de Si
queira.
A VIDA POTYGUAR—Critica de costumes, A nto
nio de Souza.
HORAS DE OCIO—Plistoria e litteratura. Alberto
Maranhão.
FAV0N10S—Contos e clironicas. Zephirino Arruda.
CHOROGRAPHIA DO RIO GRANDE DO NORTI
—Alberto Maranhão.
O ENGEITADO Drama. Henrique Castriciano.
SUPREMA DOR—Drama em verso. Henrique Cas
triciano.
CINZAS—Versos. Henrique Castriciano.
EM PREPARAÇÃO :
LIVRO AZUL—Contos e pliantasias. Manoel Dantas.
A REDEMPÇÃO DE SA.TAN— Poema symbolico.
Henrique Castriciano.
0 PHTYSICO—Romance. Henrique Castriciano
ENSAIOS PHlLOSOPHICOS—Antonio de Souza
DO CANTO A BICA—Critica de costumes—Polv-
carpo Feitosa.
/
TRES SÉCULOS
25 ç[e Dezembro de 1597—25 de Dezembro de 1097,
Quando uma raça e ainda vigorosa e joven ; guando os seus antecedentes ethnologieos s;To bem definido» pela pureza e pela robustez de suas origeus; guando um sangue novo, rico e ardente circula-lhe rapidamente nas veias com o perfeito equilíbrio lunccional de todos ob
orgãos, o com o desenvolvimento normal e harmonico das faculdades mentaes, tres séculos são bem pouco na vida das nacionalidades ; mas, ainda assim, n'esse lapso de tempo, tal povo, joven e rico da seiva haurida no seio fecundo das raças mies, tem leito já o bastante para firmar solidamente a posse do seu logar no mundo, logar conquistado com vigor o energia, mantido com hombri dade e altivez e defendido com heroísmo indomável.
Tal foi o caso do Romano, originário de raças lie-- terogeneag, embora mais ou menos filiadas á grande fa mília aryana, fundando a sua gloriosa cidade com os elementos mais deseonnexos, porem todos fortes e valen tes , conquistando pela força tudo aquillo de que carecia, desde o território até as mulheres, mantendo-se com altivez sempre crescente, e fundando, menos de tresentos annos depois da ereação lendaria da grande l 'rbs uma republica relativamente admiravel e da qual algumas leis ainda hoje são a fonte sagrada do direito e da legisla ção oceidentaes.
Tal é ainda o dos anglo-saxonios emigrados para a America do,. Norte onde constituiram em tão pouco tempo a grande nação de poderosa vitalidade que são os Es tados Unidos.
Apezar de começada muito mais tarde a sua colonisaçào, iniciada por Waltur Raleigh com a Virgínia, n° rim do século XVI, o seu admiravel espirito de
in-Revida do Rio Grande do Rode o
dependencia muito mais rapidamente do que a nós, e, no decurso do século presente, o seu espantoso desenvol vimento industrial levou-os coin calma e segurança a um dos primeiros e mais invejáveis logares entre as nações do mundo.
A nossa colonisação, iniciada um quarto de seeulo depois da inesperada descoberta da riquissima Vera-Cruz, com os mais lamentáveis elementos e pelos systeinas mais deploráveis, só muiro tarde veiu a dar o 1'ructo compa tível com a fraqueza biologiea da seiva originaria.
Criminosos deportados, escoria sócia! da civilisaçào quinhentista ; aventureiros sem outra ambição mais (pie a sede insaciável e vii do ganho por todos os meios, inclusive os mais infames ; marinheiros evadidos ; pro- du das variados da organisação social e da educação je
suítica n’uina raçajã dessorada, e relativamente enfra quecida e incapaz de sustentar com brilho a tradição gloriosa dos Afionsos, de Nun’Alvares e de .loão II. foram, em geral, os elementos oriundos da métropole, o sou contingente para a formação laboriosa e imperfeita da nacionalidade brazileira.
Cor outro lado contribuições de egual valor, tendo ainda a menos a inferioridade ethnologica, vieram-nos do indigena selvagem e primitivo e do africano boçal e es tupido.
Com taes elementos, só a natural evolução, que requer tempo demorado e largo concurso de circum- stancias favoráveis, nem sempre sobrevindas no mo mento proprio, poderm tirar do amalgama heterogeneo algo de forte, são e capaz de verdadeira vida social.
A supervençao posterior de alguns poucos elementos melhores, simultaneamente combinada com aquelle pode- factor, conseguiram, todavia, encetar a transforma ção da raça n’uin produeto,. sinão dotado de altas qua lidades de resistência, de energia e de força, peíos me nos não desprovida de qualidades aptas para a ascen dência evolutiva, sobretudo no tocante ao desenvolvimen-
mdiseutido dos instinctos suciaes e do amor ao tra- baiho.
Não obstante a fraqueza das origens, a nossa raça
Revista do Rio (íraude do Norte 3 desenvolver-se sob o inlluxo e de accordo com os prin cípios logieos da evolução.
Taes considerardes e tantas outras, naturalmcnte de correntes da observarão dos tactos da nossa vida uctual, são irrestivebnente suggeridas pela lembram;« da data histórica da fundarão d’esta pequena capital.
A cidade de Natal, antiga villa dos Reis. completa hoje tresentoa annos. Iniciada em -23 de Dezembro de J.V.)7 por Manoel de Mascarenhas (pie, de pazeB leitas com os valentes Rotyguares, comerou com elles e alguns co lonos a construcrão do pc(|iieno micleo, ella conta, tres séculos depois, pouco mais de dez mil habitantes.
Não ha necessidade de mais simples nem mais forte argumento para demonstrar a fraqueza das origeiiB, a incapacidade etimológica que tres séculos apenas foram sulficientes para fazer conhecer.
* *
Dom poucos, nimiamente deficientes e, sobretudo, duvidosos oii falsos são os documentos e tradições que restam nos sobre a historia do primeiro periodo colonial da nova cidade.
Alguns dos mais reputados livros sobre a nossa his toria colonial ou nada dizem especial sobre o Rio (Linde do Norte, ou, o que é talvez peior, dizem incompleto e errado.
A famosa Historia da America Votiuyutua de Sebas tião da Rocha Ritta, por exemplo, com ser mais um pa~ negyrico, que historia, na própria phrase do relator da Academia Real da Historia, de Lisboa, incumbulo do dar parecer indispensável ã publicarão da obra. tão somente consagra tres pequenos paragraphos ã proüncia do Rio
(Irandc (1).
Da cidade apenas diz «pie é *de mediana grandeza e ha bitarão, com matriz sumptuosa e boas igrejas, e fortaleza das mais capazes do B razil; abunda de todoB os man timentos necessários parti o sustento de um povo maior
( J ) Rocha P itu , Uút. da Arneric. 2Wt. Lisboa, la ed. 17ÜUL.
J Revista do Rio Gr and do orte
« que o de que ella consta, pois não passa de quinhen- « tos visinhos.
Do rio diz que nasce de uma lagoa de vinte léguas de « cireumfereneia. na qual se acliam pérolas das melliores
quo se tem colhido no B razil»...
Referindo-se á tentativa de explorarão de Nicolau de Resende, relata que este e seus trinta companheiros de naufragio descobriram outra lagoa muito maior (pie a primeira em comprimento e largura, porque, caminhando muitos dias pelas suas ribeiras, não chegaram a ver-lhe o íim, e que n’ella, conforme alTirmaram os gentios «se « croavam pérolas em mais quantidade que na outra, e lhes mostraram e deram algumas perfeitíssimas e gran- .« rles».. .
E’ o caso, ou nunca, de repetir que assim se escre ve a historia.
Sobre a fundarão da cidade e sua colonisacão nada diz, e apenas refere que a província era, n’aqnella epo- ch.'i, titulo de condado de Dopo Kurtado de Mendoii(,'a primeiro conde do Rio Grande.
Iniciada a colonisação do Brazil, um quarto de sé culo depois da descoberta, com os elementos primeiros já lembrados, começou pouco depois o rei João 111 a sua systematisação pelo meio atrazado e improfícuo do enfeudamento, organisando em lõá-l as primeiras capita
nias.
D’esta data é a do Rio Grande do Norte, doada ao historiographo João de Barros, o autor das celebradas Décadas. Este, porem, como vários outros, nada poude fazer, e a nascente capitania reverteu, poucos annos depois, ao dominio da coroa (2).
Para esta. como para algumas mais, ficou, portanto, recurs t unico de colonisavão durante muitos annos o .que aprazia ao governo da matropole destinar-lhe : degre dados, judeus fn’aquelle tempo considerados peiores que degredados), «mulheres mais ou menos perdidas».
Alem do que, era a colonia « azylo, couto e homuio «garantido a todos os criminosos que ahi quizessem ir
( 2 ) Oliveira Matlias—Ü Brazil em calou. port.—.2' ed.-LiaboH, 1881. biv. 1- Cap. 2.
lit
« morar, com a excepção unica dos réus de herezia, « trahição, sodomia c moeda
falBa».
(:J)Abandonada assim ao acaso das ambições e máoa iustinetos de taes colonisadores em constante guerra com ns autochtones por muito tempo infensos a toda conci liação, a terra dos Potyguaree só no fim d’aquelle sé culo viu fundado o primeiro núcleo de estrangeiros.
Durante o século XVI1 o impulso tomado pelo desenvolvimento da pequena colonia reseníe-se da bené fica influencia do dominio hollandez. Auxiliados ofíi-cazmente por Domingos Fernandes Calabar, que a elles alliara-se, talvez movido apenas por odios particulares, mas, em todo euso, podendo deixar suppor uma vaga intuição das vantagens da colonisação batava, os llol- landezes apoderaram-se do Uio Grande do Morte, visi taram os seus sertóeB, encetaram emprebendimentos tendentes a prover o progresso e bem estar da colonia, e, apezar do seu dominio ephemero, deixa ram gottas de Beu sangue vigoroso e ousado ainda boje reconhecíveis nas nossas populações do interior.
Sob o influxo poderoso e bemfazejo da sábia admi nistração de João Mauricio de Nassau, que, embora enviado e representante de uma companhia de com- mercio, elevou o seu papel a altura do de ver dadeiro e habilissmo estadista, pela sua política de actividade e de tolerância, digna dos maiores estadistas do século presente, foi em poucos annos bem rápido o desenvolvimento do Uio Grande do Norte.
Arredados os Mollandezes pela fanatismo venci dor dos (pie n’elles, apezar da mngnanima tolerância de ,1oão Mauricio, apenas viam os herejes, quando o il lustre principe, protestante, mas bom e intelligente go verno, mandava reconstruir as egrejas catholicas cm minas, dava ampla liberdade a todas as festas reli giosas, inclusive úb dos Judeus, tão mal vistos naquelln epoclia, o desenvolvimento da colonia passou a depen der, como antes, dos mais desconnexos e mais mon sos factores.
D'esse periodo em diante a evolução histórica
Revista do Rio Orando do Norte.
Rio (irando do Norte é representada pelos factos da vida dos poucos filhos seus cujo patriotismo, habilidade e valor são relembrados na historia patria como padrão de gloria indiscutível.
A parte saliente que toniou nos movimentos revo lucionários de Pernambuco no primeiro quartel do sé culo actual é conhecida e celebrada com orgulho por todos os norte rio-grandenses. O nome do Padre i\li- guelinho. alma da gloriosa revolução de is i7 , cujo sangue foi o orvalho fecundíssimo que regou o tronco ainda pouco solido da arvore da liberdade, brilha sobe- ranaruente mo céo da nossa pçquenn historia como
um exemplo vivo do civismo e da abnégação p a trió tic a
alliados a qualidades admiráveis de político.
Não cabe, porem, aqui a narração d’estes fastos, pro mettimentos de futura importância histórica, quando a ’ aele- cção effectuada entre os elementos constitutivos di ra ç a
houver dado um produc to mais largam ;nte apto do que nós ainda hoje somos.
Tresentos annos apos o despontar do primeiro ger- raen, nós apenas começamos a compreheuder o que somos e o que poderemos valer.
Em tres séculos de demorada evolução a raça ainda não formada mostra, todavia, signaea demonstrativos do uma futura vitalidade promettsdora e fecunda, o embrvão, ainda pouco desenvolvido, ma3 vivaz, de qualidades van tajosas de resistência e de energia garanfidoras de um por vir auspicioso.
Hoje nada poderiamos fazer grande, por que ainda faltam-nos os nieios só compatíveis com um progresso mais amplo de que ainda não dispomos, nem só meios materiaes conio, sobretudo, recursos mentaes. Tres gerações mais como o rápido incremento que teetn, nestes últimos annos. tomado todas ou quasi todas as nossas manifestações
Rórida tin Rio raude th Norle 7 devida social,"'e o (junrto centenário <la cidade dos Keiâ., bem como outras datas commemorativns de tactos da nossa historia, terão celebração condigna.
Por ora, nós poderiamos, cerramente, si não fazer gran de, ao monos significativo ; para isso, porem, faltam-nos ainda, não já os recursos d acjuellas duas ordens, mau os dons inapreciáveis da vontade e da inicativa em qualquer manifestação não muito proximamente relacionada com os connmins interesses da vida ordinaria.
Não foram absolutamente os obstáculos decorrentes da carência de recursos que impediram-nos de celebrar o terceiro centenário da nossa vida eollectiva, pois que de monstrações bem significativas poderiam seríeitas com qua- si completa independencia de meios materiaos ; musa eom- prehenção clara da importância dos factos d'aquella mesma vida eollectiva para todos os indivíduos que d'ella fazem parte,
Quando os Estados Unidos celebraram em ,l87(>, com uma das maiores festas industriaes do mundo, o primeiro centenário da sua independencia, não tiveram apenas em vista o desenvolvimento das suas relações commerciaos com os outros paizes pela exposição dos admiráveis produetos que, á custa de muita força de vontade tenaz e intelligente, a sua poderosíssima industria conseguira obter.
Quando a França celebrou, em 187s e 1880, com 'duas grandes exposições, das quaes tantas e tão admiráveis con sequências souberam tirar todos as povos do globo, inclu sive os seus inimigos, os centenários da morte de Voltaire. e da Crise immensa de onde sahiram todas as conquistas da liberdade moderna, não pretendeu apenas demonstrai', de modo brilhante e irrecusável, que para a vida do grande povo latino apenas fora um lastimável incidente a grande1 iléhadc de 1870.
Ambos tiveram em mira aflinnar também o seu des envolvimento mental, a sua comprehensão .da patria nas mais altas e mais edificantes manifestações dos sen timentos patrióticos, o mais, firmar com energia o seu
direito tão nobremente adquirido aos legares invejáveis que occupam na humanidade.
ti Revista do Rio Grande do No
Era o que nós, guardadas as proporções ainda, in- telizmente, muito distanciadas, deveramos ter feito : a af- firmação, na medida das nossas torças ainda rudimni -
tares, da vontade de viver, da intençõo raqiocinada e decidida de ser alguém no seio da civiiisação contempo rânea.