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TRES SECULOS 25.12.1597-25.12.1997. Revista do RN - 1899 - Vol. 1

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RÊVISTA

P R I M E I R O ANNO

V O L U M E I

i T - A . T - A . X - i e m p r e sa d

’ A REPUBLICA

EDITOHA

1 8 9 1 )

(2)

O BR AS P U B L IC A D A S :

REVISTA DO RIO GRANDE DO NORTE—Anno I

vol. I

RUINAS—Versos. Henrique Castriciano.

NO PRELO ;

MÃE—Poemeto. Henrique Castriciano.

OBRAS A PUBLICAR :

HORTO—Versos. A uta de Souza.

ALMA E PATRIA—Poema eivico : Homem de Si­

queira.

A VIDA POTYGUAR—Critica de costumes, A nto­

nio de Souza.

HORAS DE OCIO—Plistoria e litteratura. Alberto

Maranhão.

FAV0N10S—Contos e clironicas. Zephirino Arruda.

CHOROGRAPHIA DO RIO GRANDE DO NORTI

—Alberto Maranhão.

O ENGEITADO Drama. Henrique Castriciano.

SUPREMA DOR—Drama em verso. Henrique Cas­

triciano.

CINZAS—Versos. Henrique Castriciano.

EM PREPARAÇÃO :

LIVRO AZUL—Contos e pliantasias. Manoel Dantas.

A REDEMPÇÃO DE SA.TAN— Poema symbolico.

Henrique Castriciano.

0 PHTYSICO—Romance. Henrique Castriciano

ENSAIOS PHlLOSOPHICOS—Antonio de Souza

DO CANTO A BICA—Critica de costumes—Polv-

carpo Feitosa.

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/

TRES SÉCULOS

25 ç[e Dezembro de 1597—25 de Dezembro de 1097,

Quando uma raça e ainda vigorosa e joven ; guando os seus antecedentes ethnologieos s;To bem definido» pela pureza e pela robustez de suas origeus; guando um sangue novo, rico e ardente circula-lhe rapidamente nas veias com o perfeito equilíbrio lunccional de todos ob

orgãos, o com o desenvolvimento normal e harmonico das faculdades mentaes, tres séculos são bem pouco na vida das nacionalidades ; mas, ainda assim, n'esse lapso de tempo, tal povo, joven e rico da seiva haurida no seio fecundo das raças mies, tem leito já o bastante para firmar solidamente a posse do seu logar no mundo, logar conquistado com vigor o energia, mantido com hombri­ dade e altivez e defendido com heroísmo indomável.

Tal foi o caso do Romano, originário de raças lie-- terogeneag, embora mais ou menos filiadas á grande fa­ mília aryana, fundando a sua gloriosa cidade com os elementos mais deseonnexos, porem todos fortes e valen­ tes , conquistando pela força tudo aquillo de que carecia, desde o território até as mulheres, mantendo-se com altivez sempre crescente, e fundando, menos de tresentos annos depois da ereação lendaria da grande l 'rbs uma republica relativamente admiravel e da qual algumas leis ainda hoje são a fonte sagrada do direito e da legisla­ ção oceidentaes.

Tal é ainda o dos anglo-saxonios emigrados para a America do,. Norte onde constituiram em tão pouco tempo a grande nação de poderosa vitalidade que são os Es­ tados Unidos.

Apezar de começada muito mais tarde a sua colonisaçào, iniciada por Waltur Raleigh com a Virgínia, n° rim do século XVI, o seu admiravel espirito de

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in-Revida do Rio Grande do Rode o

dependencia muito mais rapidamente do que a nós, e, no decurso do século presente, o seu espantoso desenvol­ vimento industrial levou-os coin calma e segurança a um dos primeiros e mais invejáveis logares entre as nações do mundo.

A nossa colonisação, iniciada um quarto de seeulo depois da inesperada descoberta da riquissima Vera-Cruz, com os mais lamentáveis elementos e pelos systeinas mais deploráveis, só muiro tarde veiu a dar o 1'ructo compa­ tível com a fraqueza biologiea da seiva originaria.

Criminosos deportados, escoria sócia! da civilisaçào quinhentista ; aventureiros sem outra ambição mais (pie a sede insaciável e vii do ganho por todos os meios, inclusive os mais infames ; marinheiros evadidos ; pro- du das variados da organisação social e da educação je­

suítica n’uina raçajã dessorada, e relativamente enfra­ quecida e incapaz de sustentar com brilho a tradição gloriosa dos Afionsos, de Nun’Alvares e de .loão II. foram, em geral, os elementos oriundos da métropole, o sou contingente para a formação laboriosa e imperfeita da nacionalidade brazileira.

Cor outro lado contribuições de egual valor, tendo ainda a menos a inferioridade ethnologica, vieram-nos do indigena selvagem e primitivo e do africano boçal e es tupido.

Com taes elementos, só a natural evolução, que requer tempo demorado e largo concurso de circum- stancias favoráveis, nem sempre sobrevindas no mo­ mento proprio, poderm tirar do amalgama heterogeneo algo de forte, são e capaz de verdadeira vida social.

A supervençao posterior de alguns poucos elementos melhores, simultaneamente combinada com aquelle pode- factor, conseguiram, todavia, encetar a transforma­ ção da raça n’uin produeto,. sinão dotado de altas qua­ lidades de resistência, de energia e de força, peíos me­ nos não desprovida de qualidades aptas para a ascen­ dência evolutiva, sobretudo no tocante ao desenvolvimen-

mdiseutido dos instinctos suciaes e do amor ao tra- baiho.

Não obstante a fraqueza das origens, a nossa raça

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Revista do Rio (íraude do Norte 3 desenvolver-se sob o inlluxo e de accordo com os prin­ cípios logieos da evolução.

Taes considerardes e tantas outras, naturalmcnte de­ correntes da observarão dos tactos da nossa vida uctual, são irrestivebnente suggeridas pela lembram;« da data histórica da fundarão d’esta pequena capital.

A cidade de Natal, antiga villa dos Reis. completa hoje tresentoa annos. Iniciada em -23 de Dezembro de J.V.)7 por Manoel de Mascarenhas (pie, de pazeB leitas com os valentes Rotyguares, comerou com elles e alguns co­ lonos a construcrão do pc(|iieno micleo, ella conta, tres séculos depois, pouco mais de dez mil habitantes.

Não ha necessidade de mais simples nem mais forte argumento para demonstrar a fraqueza das origeiiB, a incapacidade etimológica que tres séculos apenas foram sulficientes para fazer conhecer.

* *

Dom poucos, nimiamente deficientes e, sobretudo, duvidosos oii falsos são os documentos e tradições que restam nos sobre a historia do primeiro periodo colonial da nova cidade.

Alguns dos mais reputados livros sobre a nossa his­ toria colonial ou nada dizem especial sobre o Rio (Linde do Norte, ou, o que é talvez peior, dizem incompleto e errado.

A famosa Historia da America Votiuyutua de Sebas­ tião da Rocha Ritta, por exemplo, com ser mais um pa~ negyrico, que historia, na própria phrase do relator da Academia Real da Historia, de Lisboa, incumbulo do dar parecer indispensável ã publicarão da obra. tão somente consagra tres pequenos paragraphos ã proüncia do Rio

(Irandc (1).

Da cidade apenas diz «pie é *de mediana grandeza e ha­ bitarão, com matriz sumptuosa e boas igrejas, e fortaleza das mais capazes do B razil; abunda de todoB os man­ timentos necessários parti o sustento de um povo maior

( J ) Rocha P itu , Uút. da Arneric. 2Wt. Lisboa, la ed. 17ÜUL.

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J Revista do Rio Gr and do orte

« que o de que ella consta, pois não passa de quinhen- « tos visinhos.

Do rio diz que nasce de uma lagoa de vinte léguas de « cireumfereneia. na qual se acliam pérolas das melliores

quo se tem colhido no B razil»...

Referindo-se á tentativa de explorarão de Nicolau de Resende, relata que este e seus trinta companheiros de naufragio descobriram outra lagoa muito maior (pie a primeira em comprimento e largura, porque, caminhando muitos dias pelas suas ribeiras, não chegaram a ver-lhe o íim, e que n’ella, conforme alTirmaram os gentios «se « croavam pérolas em mais quantidade que na outra, e lhes mostraram e deram algumas perfeitíssimas e gran- .« rles».. .

E’ o caso, ou nunca, de repetir que assim se escre­ ve a historia.

Sobre a fundarão da cidade e sua colonisacão nada diz, e apenas refere que a província era, n’aqnella epo- ch.'i, titulo de condado de Dopo Kurtado de Mendoii(,'a primeiro conde do Rio Grande.

Iniciada a colonisação do Brazil, um quarto de sé­ culo depois da descoberta, com os elementos primeiros já lembrados, começou pouco depois o rei João 111 a sua systematisação pelo meio atrazado e improfícuo do enfeudamento, organisando em lõá-l as primeiras capita­

nias.

D’esta data é a do Rio Grande do Norte, doada ao historiographo João de Barros, o autor das celebradas Décadas. Este, porem, como vários outros, nada poude fazer, e a nascente capitania reverteu, poucos annos depois, ao dominio da coroa (2).

Para esta. como para algumas mais, ficou, portanto, recurs t unico de colonisavão durante muitos annos o .que aprazia ao governo da matropole destinar-lhe : degre­ dados, judeus fn’aquelle tempo considerados peiores que degredados), «mulheres mais ou menos perdidas».

Alem do que, era a colonia « azylo, couto e homuio «garantido a todos os criminosos que ahi quizessem ir

( 2 ) Oliveira Matlias—Ü Brazil em calou. port.—.2' ed.-LiaboH, 1881. biv. 1- Cap. 2.

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lit

« morar, com a excepção unica dos réus de herezia, « trahição, sodomia c moeda

falBa».

(:J)

Abandonada assim ao acaso das ambições e máoa iustinetos de taes colonisadores em constante guerra com ns autochtones por muito tempo infensos a toda conci­ liação, a terra dos Potyguaree só no fim d’aquelle sé­ culo viu fundado o primeiro núcleo de estrangeiros.

Durante o século XVI1 o impulso tomado pelo desenvolvimento da pequena colonia reseníe-se da bené­ fica influencia do dominio hollandez. Auxiliados ofíi-cazmente por Domingos Fernandes Calabar, que a elles alliara-se, talvez movido apenas por odios particulares, mas, em todo euso, podendo deixar suppor uma vaga intuição das vantagens da colonisação batava, os llol- landezes apoderaram-se do Uio Grande do Morte, visi­ taram os seus sertóeB, encetaram emprebendimentos tendentes a prover o progresso e bem estar da colonia, e, apezar do seu dominio ephemero, deixa­ ram gottas de Beu sangue vigoroso e ousado ainda boje reconhecíveis nas nossas populações do interior.

Sob o influxo poderoso e bemfazejo da sábia admi­ nistração de João Mauricio de Nassau, que, embora enviado e representante de uma companhia de com- mercio, elevou o seu papel a altura do de ver­ dadeiro e habilissmo estadista, pela sua política de actividade e de tolerância, digna dos maiores estadistas do século presente, foi em poucos annos bem rápido o desenvolvimento do Uio Grande do Norte.

Arredados os Mollandezes pela fanatismo venci dor dos (pie n’elles, apezar da mngnanima tolerância de ,1oão Mauricio, apenas viam os herejes, quando o il­ lustre principe, protestante, mas bom e intelligente go­ verno, mandava reconstruir as egrejas catholicas cm minas, dava ampla liberdade a todas as festas reli­ giosas, inclusive úb dos Judeus, tão mal vistos naquelln epoclia, o desenvolvimento da colonia passou a depen­ der, como antes, dos mais desconnexos e mais mon sos factores.

D'esse periodo em diante a evolução histórica

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Revista do Rio Orando do Norte.

Rio (irando do Norte é representada pelos factos da vida dos poucos filhos seus cujo patriotismo, habilidade e valor são relembrados na historia patria como padrão de gloria indiscutível.

A parte saliente que toniou nos movimentos revo­ lucionários de Pernambuco no primeiro quartel do sé­ culo actual é conhecida e celebrada com orgulho por todos os norte rio-grandenses. O nome do Padre i\li- guelinho. alma da gloriosa revolução de is i7 , cujo sangue foi o orvalho fecundíssimo que regou o tronco ainda pouco solido da arvore da liberdade, brilha sobe- ranaruente mo céo da nossa pçquenn historia como

um exemplo vivo do civismo e da abnégação p a trió tic a

alliados a qualidades admiráveis de político.

Não cabe, porem, aqui a narração d’estes fastos, pro mettimentos de futura importância histórica, quando a ’ aele- cção effectuada entre os elementos constitutivos di ra ç a

houver dado um produc to mais largam ;nte apto do que nós ainda hoje somos.

Tresentos annos apos o despontar do primeiro ger- raen, nós apenas começamos a compreheuder o que somos e o que poderemos valer.

Em tres séculos de demorada evolução a raça ainda não formada mostra, todavia, signaea demonstrativos do uma futura vitalidade promettsdora e fecunda, o embrvão, ainda pouco desenvolvido, ma3 vivaz, de qualidades van­ tajosas de resistência e de energia garanfidoras de um por­ vir auspicioso.

Hoje nada poderiamos fazer grande, por que ainda faltam-nos os nieios só compatíveis com um progresso mais amplo de que ainda não dispomos, nem só meios materiaes conio, sobretudo, recursos mentaes. Tres gerações mais como o rápido incremento que teetn, nestes últimos annos. tomado todas ou quasi todas as nossas manifestações

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Rórida tin Rio raude th Norle 7 devida social,"'e o (junrto centenário <la cidade dos Keiâ., bem como outras datas commemorativns de tactos da nossa historia, terão celebração condigna.

Por ora, nós poderiamos, cerramente, si não fazer gran­ de, ao monos significativo ; para isso, porem, faltam-nos ainda, não já os recursos d acjuellas duas ordens, mau os dons inapreciáveis da vontade e da inicativa em qualquer manifestação não muito proximamente relacionada com os connmins interesses da vida ordinaria.

Não foram absolutamente os obstáculos decorrentes da carência de recursos que impediram-nos de celebrar o terceiro centenário da nossa vida eollectiva, pois que de monstrações bem significativas poderiam seríeitas com qua- si completa independencia de meios materiaos ; musa eom- prehenção clara da importância dos factos d'aquella mesma vida eollectiva para todos os indivíduos que d'ella fazem parte,

Quando os Estados Unidos celebraram em ,l87(>, com uma das maiores festas industriaes do mundo, o primeiro centenário da sua independencia, não tiveram apenas em vista o desenvolvimento das suas relações commerciaos com os outros paizes pela exposição dos admiráveis produetos que, á custa de muita força de vontade tenaz e intelligente, a sua poderosíssima industria conseguira obter.

Quando a França celebrou, em 187s e 1880, com 'duas grandes exposições, das quaes tantas e tão admiráveis con­ sequências souberam tirar todos as povos do globo, inclu­ sive os seus inimigos, os centenários da morte de Voltaire. e da Crise immensa de onde sahiram todas as conquistas da liberdade moderna, não pretendeu apenas demonstrai', de modo brilhante e irrecusável, que para a vida do grande povo latino apenas fora um lastimável incidente a grande1 iléhadc de 1870.

Ambos tiveram em mira aflinnar também o seu des­ envolvimento mental, a sua comprehensão .da patria nas mais altas e mais edificantes manifestações dos sen­ timentos patrióticos, o mais, firmar com energia o seu

direito tão nobremente adquirido aos legares invejáveis que occupam na humanidade.

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ti Revista do Rio Grande do No

Era o que nós, guardadas as proporções ainda, in- telizmente, muito distanciadas, deveramos ter feito : a af- firmação, na medida das nossas torças ainda rudimni -

tares, da vontade de viver, da intençõo raqiocinada e decidida de ser alguém no seio da civiiisação contempo­ rânea.

Referências

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