1 BROOCK, A. M. V. A Abordagem PONTES na Musicalização para crianças entre 0 e 2 anos de idade. Anais do XVII Encontro Nacional da ABEM. São Paulo, 2008.
A Abordagem PONTES na Musicalização para crianças entre 0 e 2 anos de idade
Resumo. Considerando as relações e articulações entre pais, bebês, professor, contexto e atores
presentes em todo processo da formação musical, o intuito deste trabalho é verificar como a utilização da abordagem PONTES pode influenciar o surgimento de articulações pedagógicas significativas entre os atores do processo educativo-musical que contribuam para o desenvolvimento do nível de aprendizagem musical e de atitudes dos alunos nas aulas de musicalização para bebês da UFBA. Para coletar os dados desta pesquisa utilizamos questionários e filmagens de todas as aulas do curso de Musicalização no segundo semestre de 2007, para que possamos identificar, descrever e analisar situações específicas de ações pedagógicas significativas. Consideramos para a pesquisa quatro grupos com crianças de 0 a 2 anos juntamente com seus pais. Sendo este trabalho uma pesquisa em andamento, os resultados apresentados neste artigo são ainda preliminares. No entanto, resultados mais aprofundados, bem como exemplos em vídeo, serão apresentados durante o evento. Espera-se que esta pesquisa possa auxiliar professores de Educação Musical Infantil, considerando não somente o conteúdo musical que “pode” ser aplicado com os pequenos, mas também as articulações pedagógicas presentes no contexto educacional. Desta forma, este trabalho tem implicações diretas para a Educação Musical e pode fomentar discussões sobre este assunto.
Palavras-chave: abordagem PONTES, musicalização infantil, bebês.
Introdução
A música é uma das múltiplas formas de comunicação entre a mãe e o bebê e, muitas vezes, é usada antes mesmo do nascimento. Diversos estudos sugerem que as práticas musicais das crianças e dos adultos auxiliam tanto no desenvolvimento das habilidades perceptivo-musicais quanto no desenvolvimento auditivo, motor, cognitivo, social, da atenção, da memória, sistemas de ordenação seqüencial e espacial, além de ajudar a fortalecer a relação afetiva entre as pessoas (ILARI, 2006).
O ensino de música para bebês é recente e começou a ser valorizado através das descobertas da neurociência, que apontam a primeira infância como o período mais propício do desenvolvimento cognitivo infantil, inclusive o desenvolvimento cognitivo-musical. (ILARI, 2005). No entanto, no Brasil, ainda há uma certa carência de programas de musicalização infantil para bebês e seus pais que visem estimular estas competências, e são poucas as crianças que têm o privilégio de participar desses programas. Embora haja algumas iniciativas de ensino e pesquisa, ainda são poucos os programas específicos de formação de professores de música para esta faixa etária.
2 Com base nas considerações acima, este projeto focaliza a identificação e análise de ações do professor em aulas de musicalização para bebês que possam ser relacionadas com as características da abordagem PONTES (OLIVEIRA, 2001). Desta forma, o propósito deste estudo será verificar como a utilização da abordagem PONTES pode influenciar o surgimento de articulações pedagógicas significativas entre os atores do processo educativo-musical que contribuam para o desenvolvimento do nível de aprendizagem musical e de atitudes dos alunos nas aulas de musicalização para bebês.
Abordagem PONTES na musicalização para bebês
De acordo com Oliveira (2006), a abordagem PONTES pode estimular, guiar e estruturar as ações dos professores de música de forma criativa, considerando os diferentes aspectos que acompanham o processo de ensino e aprendizagem, principalmente as vivências culturais, as características pessoais dos alunos, a essência do contexto sociocultural e as experiências prévias dos alunos. Em contrapartida, algumas pesquisas sugerem que os bebês reconhecem músicas ouvidas durante a gestação, as reconhecendo com um ano de vida pós-natal (ILARI, 2006), o que pode indicar que até mesmo os bebês trazem consigo experiências musicais prévias.
A abordagem PONTES sugere que o professor considere o que o aluno já sabe, para assim poder traçar o que ele precisa ou quer aprender, o que nos indica que uma mesma didática de ensino não funciona com todos os grupos, pois cada um traz uma experiência única. Sendo assim o professor deve desenvolver habilidades de adaptação e liderança em qualquer grupo, ampliando sua flexibilidade pedagógica. É necessário que o professor tenha consciência de um planejamento e do que ele espera como resultado, ressaltando a relação entre o espontâneo e o consciente, entre o planejado e o improvisado. Um estudo de Taebel e Coker (1980) citado por Bengt Olsson (HARGREAVES, 1997, pág. 296) fornece evidências de que a competência correlacionada mais significativamente com as aprendizagens e mudanças de atitudes dos alunos é aquela competência que relaciona os objetivos da ação docente aos interesses e necessidades dos educandos. Através de observações e relatos de professores de musicalização para bebês, pode-se dizer que as ações espontâneas e improvisadas acontecem o tempo todo, pois os pequenos têm sempre reações muito diferenciadas, e é comum uma mudança no plano da aula para aproveitar situações de descoberta das crianças, visando um maior prazer por parte delas e dos pais, que normalmente fazem as aulas juntos com os filhos. Alda chama estas mudanças de articulações pedagógicas, “costuras” ou “pontes em ação”.
3 As principais características da abordagem Pontes (OLIVEIRA et al, 2007) são:
- Positividade na relação educacional e pessoal entre o professor e o educando, entre o professor e a turma; perseverança, poder de articulação e habilidade de manter a motivação do aluno acreditando no seu potencial para aprender e se desenvolver.
- Observação cuidadosa do desenvolvimento do educando e do contexto, das situações do cotidiano, os repertórios e as representações.
- Naturalidade nas ações educativas e musicais; simplicidade nas relações com o aluno, com o conteúdo curricular e com a vida, com as instituições, contexto e participantes, tentando compreender o que o aluno expressa ou quer saber e aprender.
- Técnica pedagógica adequada (e não mecânica), ao ensino e aprendizagem em cada situação específica; habilidade para desenhar, desenvolver e criar novas estruturas de ensino e aprendizagem (de diferentes dimensões); habilidade de usar estratégias didáticas, modos de usar os diversos materiais (incluindo a voz) e instrumentos musicais para refinamento das ações e expressões dos alunos, visando a comunicação das idéias, conteúdos e significados de forma artística, musical e expressiva; técnica usada como elemento facilitador da expressão humana.
- Expressividade musical e criatividade artística; esperança e fé na capacidade de desenvolvimento da expressividade e aprendizagem do aluno.
- Sensibilidade às diversas manifestações musicais e artísticas das culturas do mundo, do contexto sociocultural e do educando; a sensibilidade se refere à capacidade docente para potencializar os talentos de cada aluno, de burilar artisticamente e encaminhar as aptidões humanas.
Todas essas características podem ser consideradas no ensino de música para bebês, pois, e principalmente, é valorizando as vivências culturais prévias dos alunos em questão que poderemos organizar currículos específicos, respeitando as particularidades e as diferenças individuais referentes ao desenvolvimento de cada criança.
Com base nas afirmações acima, pode-se dizer que há uma grande necessidade das universidades brasileiras em formar professores competentes e articulados, principalmente, para a sub-área da Educação Musical Infantil, especificamente, bebês com idades entre 0 e 2 anos.
Justificativa
Atualmente, em especial no contexto brasileiro, a formação do professor de música precisa acontecer de forma ampla e eficaz, contemplando não somente o planejamento
4 curricular e a sua formação musical, mas também com informações que considerem as relações e articulações entre pais, bebês, professor, contexto e atores presentes em todo processo da formação musical.
Objetivos
Geral
Identificar, descrever e analisar situações específicas de articulações pedagógicas significativas coletadas nas aulas de musicalização para bebês da UFBA, verificando o nível de aprendizagem e de respostas dos atores envolvidos no processo educativo-musical.
Específicos
- Fazer um levantamento bibliográfico sobre os desenvolvimentos motor, cognitivo e cognitivo-musical infantil, priorizando os dois primeiros anos de vida;
- Fazer um levantamento dos usos cotidianos da música pelas crianças do curso de Musicalização Infantil da UFBA, com idades entre 0 e 2 anos e seus responsáveis, visando estabelecer pontes de articulação significativas durante a implementação deste projeto, para coleta de dados da pesquisa.
Metodologia
Sujeitos
As crianças pesquisadas foram as regularmente matriculadas no curso Musicalização para bebês da UFBA através do interesse de seus pais, que pagam uma taxa semestral para assistir às aulas, por este ser um curso de extensão da Escola de Música da UFBA. As aulas são sempre acompanhadas pelos pais ou responsáveis. Para esta pesquisa consideramos 4 turmas, com aproximadamente 10 alunos por grupo, de crianças com idades entre 0 e 2 anos.
Instrumentos para coletas de dados:
- Para entender como é feito o uso da música com as crianças, foi elaborado um questionário com 32 perguntas direcionadas tanto aos pais quanto às mães, onde obtivemos respostas de 29 participantes, a respeito de:
1) Informações gerais sobre a criança e seus pais (idades, nacionalidade, etc.); 2) Experiência musical dos que convivem com a criança;
5 3) Cultura Musical (se a criança está exposta à música de outras culturas);
4) Preferência musical (dos pais e da criança); 5) Criança (como é feito o uso da música em casa);
6) Os pais e a música (memória musical dos pais, de quando eram crianças);
7) Curso de musicalização da UFBA (Mudanças no comportamento da criança após o início das aulas, bem como a opinião dos pais sobre o funcionamento do curso).
- Filmagens de todas as aulas do semestre (2007.2); - Diário de campo;
Procedimentos
Esta pesquisa é de caráter qualitativo e descritivo, na qual utilizaremos a técnica de Estudo de Caso. Sendo assim, a primeira fase da pesquisa consta a análise das respostas dos questionários. O passo seguinte será selecionar trechos das filmagens, buscando exemplos de situações didáticas onde possam ser identificadas situações de ensino e aprendizagem significativas e articuladas, e as características consideradas importantes e relevantes descritas pela abordagem PONTES e em seguida caracterizá-las.
Fase em que se encontra a pesquisa
Todos os dados da pesquisa já foram coletados e no momento a pesquisadora encontra-se na faencontra-se de análiencontra-se dos dados dos questionários e encontra-seleção dos trechos em vídeo para análiencontra-se e categorização.
Resultados preliminares
Para este trabalho faremos uma breve análise dos questionários, cujo objetivo foi conhecer a realidade musical dos alunos fora do contexto de sala de aula. Resultados mais aprofundados, bem como exemplos em vídeo serão apresentados durante o evento. Conforme dito, 29 pais (17 meninas x 12 meninos) participantes do projeto responderam o questionário. Através das respostas foi possível entender um pouco mais sobre as crianças envolvidas com a pesquisa. A seguir iremos relatar alguns dos dados coletados.
No que diz respeito às informações gerais, pudemos constatar que a média de idade das mães era 35 anos, dos pais era 37 anos e das crianças era 1 ano e 9 meses, sendo a maioria brasileiros, porém com algumas pessoas de outras nacionalidades, sendo 2 mães estrangeiras, uma italiana e outra argentina, 4 pais estrangeiros, sendo 2 argentinos, um italiano e outro
6 marfinês e 3 crianças de origem estrangeira, sendo 2 italianas e uma argentina. Em relação à profissão das mães e dos pais, pudemos notar que todos possuíam formação acadêmica de nível superior.
Sobre a experiência musical das mães, constatou-se que das 29, apenas 7 tocavam algum instrumento e, destas, apenas uma tocava profissionalmente. Entre os pais, constatamos que dos 29, 10 tocavam algum instrumento, sendo que, destes, 3 tocavam profissionalmente. Quisemos saber se havia algum outro músico na família, e constatamos 15 casos, sendo 11 tios e 4 avós. Cinqüenta e um por cento das crianças ouvem essas pessoas tocarem em momentos de estudo, ou seja, estão em contato direto com instrumentistas.
Todos os pais relataram fazer uso da música em casa com os pequenos em atividades diversas, como: dormir (69%), acordar (38%), comer (38%), tomar banho (55%), brincar (93%) e outros (13%). Nota-se que as atividades dormir e brincar foram as mais citadas, ou seja, as funções relaxamento e entretenimento estão fortemente presentes no dia a dia dessas crianças.
Dentre os estilos das músicas cantadas por mães e pais, pôde-se notar uma presença muito forte das músicas infantis esteriotipadas, ou seja, músicas simples e normalmente conhecidas (86%) e, com menores proporções, também se encontraram canções de ninar (13%), MPB (13%), canções inventadas (13%) e religiosas (13%). É muito interessante notar que algumas mães disseram inventar músicas, inclusive colocando o nome do filho na “brincadeira”. Segundo Trehub (2001) é muito comum aspectos improvisados serem incluídos nas letras das músicas cantadas pelos pais. Esta variação se dá de acordo com a finalidade de cada atividade, seja para brincar ou acalmar. Estas mudanças são apropriadas para o desenvolvimento das crianças.
Os pais mostraram interesse em inserir seus filhos no projeto por acreditarem que as aulas de música podem estimular seus filhos tanto para o desenvolvimento psicomotor quanto para o desenvolvimento cognitivo, mas principalmente, na tentativa de socializá-los e despertá-los para o interesse musical.
Essas e outras questões que estão sendo analisadas são de extrema valia para a preparação das aulas do curso de Musicalização, pois é conhecendo o universo do aluno que o professor se torna capaz de fazer as conexões necessárias para um ensino musical de qualidade, valorizando as experiências prévias do sujeito em questão.
7 Considerações finais
Espera-se que esta pesquisa possa auxiliar professores de Educação Musical Infantil, considerando não somente o conteúdo musical que “pode” ser aplicado com os pequenos, mas também as articulações pedagógicas presentes no contexto educacional. Desta forma, este trabalho tem implicações diretas para a Educação Musical e pode fomentar discussões sobre este assunto. Conclusões mais consistentes serão apresentadas no evento.
Referências
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OLIVEIRA, Alda. Educação musical e diversidade: pontes de articulação. Revista da ABEM, n. 14. Porto Alegre, 2006. Pp. 25-34;
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OLIVEIRA, Alda; BROOCK, Angelita; CANDUSSO, Flávia; et al. Construindo PONTES significativas no ensino de música. Ictus – Periódico do Programa de Pós Graduação em Música da UFBA, Vol. 8 nº 2, dezembro de 2007.
OLSSON, Bengt. The social psychology of music education. In HARGREAVES, David & HORTH, Adrian (Eds.). The Social Psychology of Music, Londres: Oxford University Press, 1997, p. 296.