CARLA BEATRIZ DREHER HEUSER
A CONCEPÇÃO PSICANALÍTICA E A CLÍNICA INFANTIL
UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL – UNIJUÍ
DEPARTAMENTO DE HUMANIDADES E EDUCAÇÃO - DHE CURSO DE PSICOLOGIA
A CONCEPÇÃO PSICANALÍTICA E A CLÍNICA INFANTIL
CARLA BEATRIZ DREHER HEUSER
ORIENTADORA: PROFª. DRª LALA CATARINA LENZINODARI
Trabalho de conclusão de curso apresentado como requisito parcial para conclusão do curso de formação de Psicólogo.
AGRADECIMENTOS
Sou imensamente grata a meus pais Cercio e Lori, por terem me dado a vida e me apoiado incondicionalmente nesta minha caminhada.
Muito obrigada Donato, Ester e Bibiana meus manos queridos, pois com vocês pude, por muitas vezes mesmo depois de adulta experimentar o gostinho da infância.
Agradeço com o coração cheio de amor, por ter tido a oportunidade de ser a mãe da Júlia.
Muito obrigada Professora Lala minha orientadora, por toda atenção, carinho, tempo, paciência, dedicação e estimulo para que eu pudesse realizar este trabalho.
Gostaria de agradecer também a professora Sonia que aceitou participar da minha banca neste trabalho.
Agradeço a psicóloga Marta Meneghetti pelo exemplo ético.
Muito obrigada Jaqueline, Denize e Maurício, pela amizade verdadeira.
Queridos Magda, Marcel e Fabiana, muito obrigada por terem me mostrado que é possível uma vida mais leve.
Título: A CONCEPÇÃO PSICANALÍTICA E A CLÍNICA INFANTIL Aluna: CARLA BEATRIZ DREHER HEUSER
Orientadora: LALA CATARINA LENZINODARI
RESUMO
O presente trabalho monográfico visa a apresentar como a clínica psicanalítica infantil se desenvolveu. Para tanto, iniciamos o percurso da pesquisa apresentando o processo de subjetivação psíquica do sujeito, sendo que num primeiro momento tratamos da questão dos pais desejarem ter um filho/filha e a consequente apropriação da função materna e paterna. Analisou-se, também, o estádio do espelho como constituição do Eu e dissolução do complexo de Édipo e de castração, cujas conseqüências resultam na fundamentação da identidade sexual futura. Num segundo momento nos ocupamos de mostrar a grande importância que o fenômeno da relação transferencial, tem sobre o tratamento psicanalítico infantil, para, então, tratar das questões que envolvem a clínica psicanalítica infantil e o lugar do brincar nela. Mostramos as especificidades da clínica infantil, e de como alguns psicanalistas se dedicaram na prática e teoricamente com a psicanálise de crianças. Finalizamos esta pesquisa por meio da apresentação de um caso clínico, ilustrando o fenômeno do brincar na clínica e a abordagem interpretativa do analista.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 5
1 A CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO NA TEORIA PSICANALÍTICA ... 7
1.1 Função materna ... 8
1.2 Fase do Espelho ... 14
1.3 Dissolução do Complexo de Édipo ... 16
2 A CLÍNICA PSICANALÍTICA COM CRIANÇAS ... 20
2.1 Clínica psicanalítica e a imprescindível transferência ... 20
2.2 Transferência ... 20
2.3 A clínica infantil ... 25
2.4 Principais teóricos da clínica infantil ... 27
2.4.1 Anna Freud e a psicologia do ego ... 28
2.4.2 Melanie Klein e a prevalência da fantasia e dos objetos internos ... 28
2.4.3 Donald Winnicott e o espaço transicional ... 30
2.4.4 Françoise Dolto e a escuta do inconsciente ... 32
2.4.5 Recorte de um caso clínico ... 34
CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 37
INTRODUÇÃO
O interesse em pesquisar o tema sobre o brincar na clínica infantil, está em explorar as condições possíveis sobre a prática norteada pela teoria psicanalítica.
O trabalho da psicologia clínica na infância possibilita o reconhecimento da criança a partir das construções conscientes e inconscientes que se materializam através do brincar.
Neste trabalho monográfico foram produzidos dois capítulos, no primeiro abordamos como ocorre a subjetivação psíquica a partir do suporte teórico psicanalítico. Utilizamo-nos dos autores Freud, Lacan, Jeruzalinsky, Dor entre outros, para nos embasar teoricamente com relação a como a criança se estrutura psiquicamente. Abordamos sobre a importância da função materna quando a criança nasce e de como a função paterna é necessária para intervir na relação dual entre mãe e bebê.
Ainda no primeiro capítulo desenvolvemos os conceitos das pulsões formuladas por Freud (1996a), o processo do estádio do espelho e a dissolução do complexo de Édipo e de castração a partir da visão de Lacan e Dor.
Já no segundo capítulo discorremos a respeito do que é específico na psicanálise com crianças e de como o brincar nos atendimentos são essenciais para uma boa evolução do tratamento.
Efetuamos uma revisão bibliográfica sobre a transferência nos utilizando do dicionário de psicanálise de Roudinesco e Plon (1998) e percebemos o quanto o fenômeno da relação transferencial é importante para um bom andamento do tratamento.
Os escritos e seminários relacionados à infância elaborados por Freud, mobilizou muitos psicanalistas a se dedicarem a tarefa de analisar crianças. Ativemo-nos em explanar sobre os quatro principais psicanalistas que se dedicaram a prática clínica com crianças.
Iniciamos com o trabalho desenvolvido por Anna Freud que abrangeu a análise das funções do ego e suas correlações com os pensamentos e sentimentos. Já o pensamento teórico de Melanie Klein fundamenta-se pelo processo de que o mundo interno forma-se por percepções do mundo externo e que há em todos os sujeitos a prevalência da fantasia e dos objetos internos. O inglês Donald Winnicott desenvolve um conceito sobre objeto transicional e a da mãe suficientemente boa.
A última psicanalista pesquisada foi Françoise Dolto que se dedica a escuta do inconsciente e a respeitar a verdade sobre a criança.
Trazemos um recorte de um caso clínico de autoria de Eliana Marcello de Felice, para ilustrar o brincar na clínica e a abordagem interpretativa do analista pelo viés da psicanálise.
1 A CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO NA TEORIA PSICANALÍTICA
Quando uma gestação acontece, começa a ter concretude um bebê. Há um vir-a-ser e a espera faz-se repleta de expectativas, plena de imaginário dos futuros pais. Ali sedia também o desejo dos pais por um filho, o qual os remete a imaginar, dentre muitas possibilidades, como será a aparência física do filho que aguardam: imaginam como será seu rostinho, com quem se parecerá, de que cor serão seus olhos e seus cabelos. Interrogam-se também sobre o sexo do bebê. Será menino? Será menina? E assim, vai sendo construída a criança, filho/a querido/a e esperado pelo casal. Ambos, futuros “pai e mãe” pensam e fazem planos ainda acerca das formas de cuidados que dispensarão ao bebê, falarão de suas angústias e medos sobre o futuro e as responsabilidades que começam já nesse momento. Podem até começar o planejamento sobre a educação, em algumas culturas são abertas contas bancárias para financiar os estudos em nível superior daquele que ainda nem nasceu.
Nesse mesmo processo, característico da espera, os pais escolhem o nome que darão ao/a filho/a. Buscam um nome que lhes seja importante e significativo; tão importante e significativo, quanto importante lhes é o/a filho/a que aguardam. Na perspectiva de Freud (1996a), grande importância é depositada sobre esse/a filho/a também porque dele/dela é esperado que realize aquilo que os pais não puderam ser, em suas palavras:
A criança concretizará os sonhos dourados que os pais jamais realizaram – o menino se tornará um grande homem e um herói em lugar do pai, a menina se casará com um príncipe como compensação para a mãe(FREUD,1996a, p. 98).
Do ponto de vista da mãe, a compensação referida por Freud é no sentido de realizar uma relação conjugal perfeita, cuja promessa, assim como referida nos contos de fadas, é de que viverão felizes para sempre. É, portanto, dessa maneira, que essa criança vai estar inserida no discurso da família, isto é, mesmo antes de nascer, ela já será falada, pensada, imaginada, desejada. Assim, ao falarem sobre este filho, os pais o incluem nas suas histórias de vida, iniciando, desse modo, a fundação de uma nova história, que tem início com a presença imaginada do bebê
por vir. Por essa razão, desejam os futuros pais que o herdeiro seja feliz e de que deste filho advenha a realização de um futuro melhor.
Ser pai e mãe não é algo que esteja estabelecido previamente, ou seja, não é condição inerente e obrigatória ao ser homem e ao ser mulher, ou mesmo ao ser casal. Ainda que haja a possibilidade biológica de reprodução, ou seja, mesmo que o casal esteja preparado biologicamente para gerar e gestar um filho, a maternidade e a paternidade do ponto de vista do psiquismo ou psiquicamente falando, é uma função que se constitui subjetivamente, pelas vivências que os mesmos, homem e mulher, tiveram como filhos, em suas famílias com seus pais, irmãos, avós, tios. São essas vivências que constituirão as possibilidades significantes e o desejo em formar sua própria família.
1.1 Função materna
O bebê, ao nascer, é um ser vivo que chega ao mundo em estado de absoluta imaturidade. Por essa razão, para atender todas as suas necessidades, desde as mais simples e primárias, do ponto de vista orgânico, como alimentação e cuidados higiênicos, até as do ponto de vista psíquico, como atenção e cuidado afetivo, ele depende totalmente de seus semelhantes para sobreviver. Ele manifesta suas necessidades através do choro e quando este ocorre, necessita de atenção. Muitas vezes o choro do bebê só cessa quando ele se sente amparado e, conseqüentemente, seguro. Esses cuidados primordiais, de um lado, serão atendidos pela mãe ou por outra pessoa que cumpra essas tarefas desenvolvendo assim, os primeiros cuidados de maternagem, fornecendo, assim, o suporte para o desenvolvimento do bebê.
De outro lado, podemos compreender que a alimentação e asseio vão muito além de garantir a sobrevivência do bebê. Estes cuidados são acompanhados de investimentos libidinais1 singulares que se reportam ao desejo da mãe, uma vez que o bebê deseja receber da mãe não somente alimento, mas também amor e compreensão, expressos através dos cuidados que ela lhe dispensa. Aqui se trataria da “sobrevivência” psíquica, a qual exige da mãe muito mais do que apenas a
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Libido: energia psíquica das pulsões sexuais, que encontram seu regime em termos de desejo, de aspirações amorosas, e que, para S.Freud, explica a presença e a manifestação do sexual na vida psíquica (CHEMAMA,1993).
satisfação das necessidades biológicas primárias. A proximidade, a presença, a proteção, o afeto são alguns dos elementos cruciais para tanto. Desse modo, ela começa a exercer seu papel de mãe, ou seja, passa a cumprir a função materna, essencial para a organização psíquica do bebê e a decorrente constituição de sua subjetividade. A mãe exerce essa função de diferentes formas e, nesse momento inicial, o faz atendendo, especialmente, as demandas do bebê, interpretando-as e nomeando-as, a fim de integrar, desse modo, as sensações fisiológicas ao discurso, ao domínio da linguagem e à inscrição simbólica sustentada pelo desejo do Outro2. Fazendo isso, a mãe empresta a sua palavra ao sujeito em constituição que é, ainda, incapaz de falar. Ação materna imprescindível para a constituição da subjetividade, tal como afirma Jerusalinsky (2002, p. 59): “É sobre tais manifestações reflexas que a mãe pode ancorar a suposição de desejo e de demanda no bebê ao tomar as produções corporais deste como a ‘fala’ de um sujeito à qual ela empresta a palavra”.
A formação psíquica principia, então, por meio do contato entre a mãe e o bebê, ao ponto de, nesse momento, parecer que, no mundo, só existem a mãe e o bebê. Ao falar, interpretar e sentir por ele, os elementos psíquicos iniciais sustentam-se na figura materna, a qual é como define Lacan (1999), o “outro primordial”. É assim que, com seus cuidados, a mãe mapeia o corpo do/a filho/a, e o significa com palavras e afeto. O contato entre a mãe e a criança permeia-se por interpretações subjetivas e únicas. Será pelos elementos discursivos e pelo desejo da mãe que a criança se desenvolverá e será impulsionada a ser um sujeito desejante, ou seja, a criança forma seu “mundo” a partir da relação com sua mãe.
Como exemplo do que tratamos, podemos imaginar a mãe banhando seu bebê e o quanto de investimento e envolvimento emocional há nesta atividade. As brincadeiras com a água e as reações da criança ao toque em partes do seu corpo, à fala da mãe sobre como o está fazendo (por exemplo, que está lavando seu pezinho), mesmo que, primeiramente, sejam espontâneas, para a mãe terão conotações de resposta às suas ações, supondo a antecipação de um sujeito capaz de realizações. Como aponta Jerusalinsky (2002, p. 59):
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Outro: expressão usada na psicanálise para denominar a pessoa que virá a significar verbalmente as manifestações da criança, que o determina como sujeito inserido na linguagem(CHEMAMA, 1993).
É a mãe que diz ‘olha só que vontade de mamar!’ quando se desencadeia o reflexo de sucção, ou ‘que susto levei com essa água, mamãe!’, quando diante do reflexo de Moro, ela fala como se o bebê estivesse a falar. A mãe atribui a autoria da produção ao bebê, supondo um sujeito onde havia apenas reações involuntárias.
Nesse gesto de emprestar a palavra ao bebê, desenvolve-se uma relação dual, ou seja, a mãe põe o bebê em um lugar especial, único e o inscreve no campo do simbólico, inscreve-o na linguagem. As reações da criança aos estímulos e desejos corroboram para a intensificação dos afetos e demandas. Há uma relação simbiótica que se manifesta pelo cuidado contínuo, a mãe se reveza entre as mamadas, cuidados de higiene, cólicas e choro. A forma como a mãe fala, pergunta e responde às demandas do filho inaugura no corpo da criança marcas e inscrições simbólicas “é fundamental notar que é por meio de um agente materno que um bebê recebe marcas significantes e é inscrito no campo da linguagem” (JERUSALINSKY, 2002, p. 58). A mãe desenvolve a capacidade de interpretar as reações e comportamentos do recém-nascido, dando significado ao que seria inicialmente sem sentido, amparada pela cadeia discursiva, garantindo, assim, uma existência simbólica.
Assim como é preciso, para que o bebê venha a constituir-se enquanto sujeito do desejo, que a mãe suponha um sujeito no bebê e interrogue a este, interrogando-se, “O que você quer?”, também é preciso que ela detenha as infinitas possibilidades de supostas respostas ao efetuar, entre interrogação e interrogação, pontos de amarra que armem inscrição, que organizem o funcionamento pulsional do bebê, a partir das arbitrariedades simbólicas introduzidas pelo saber materno. (JERUSALINSKY, 2002, p. 70).
O bebê ocupa um lugar que completa a mãe, numa relação indistinta, fusional, em que o filho se coloca num lugar de ser o objeto faltante da mãe, gerando uma onipotência em relação ao seu desejo narcísico. Há uma alienação à imagem do Outro, na qual o bebê fica capturado pelo olhar materno, possibilitando a sustentação de uma unidade corporal, antecipando a formação de um “eu” unificado. A vinda de um filho está, portanto, acompanhada de uma promessa de satisfação plena, pois pressupõe a existência de um desejo intrínseco de encontrar um objeto que venha a satisfazer plenamente sua falta primordial, objeto este representado simbolicamente pelo falo.
O investimento emocional por parte da mãe, em relação ao filho, permeia-se pelo desejo de que ele se desenvolva saudável. Ao manusear o corpo do bebê
inauguram-se as zonas erógenas. O contato físico está envolto pelo saber da mãe como Outro de linguagem, que dá lugar ao pequeno ser no discurso. Desse modo, conforme pensa Jerusalinsky (2002), a mãe faz marcas significantes em seu bebê, inscrevendo-o assim, no campo da linguagem. Sendo assim, para se constituir como sujeito, o ser humano precisa do Outro:
Diante dos estímulos endógenos do bebê é preciso um Outro encarnado que atribua intenção de comunicação ao seu grito e, por meio de uma interpretação, produza uma ação específica capaz de satisfazê-lo. Se há interpretação é porque já há linguagem ali. Mas é evidente que a linguagem não se inscreve por si. Não basta colocar um bebê na frente do rádio ou da televisão. Para que o gozo do bebê se atrele ao Outro, como instância da linguagem, é preciso um endereçamento, é preciso um Outro que, ao tomar o bebê desde um desejo não anônimo e a partir do saber simbólico que a linguagem lhe permitiu constituir, opere corte e costura do funcionamento corporal do bebê, levando em conta o que o afeta e fazendo borda a seu gozo. Se isto atrela o bebê ao campo do Outro, para que ele possa chegar a situar-se na condição de falante, e não como um mero repetidor ecolálico do que lhe é dito, será preciso que esse desejo não anônimo opere no laço mãe-bebê enquanto um enigma diante do qual, para a mãe, o bebê se situa como sujeito que supostamente deteria um saber. (JERUSALINSKY, 2009, p. 68).
O choro do bebê, inicialmente, manifesta uma tensão indeterminada, ao qual a mãe atribui um sentido, determinando-o, por exemplo, quando o acode ao lhe oferecer o seio. Ao interpretar esta manifestação como demanda de fome, a mãe dá significação ao que era indiferenciado. Ao mamar, o recém-nascido experimenta, com a sucção, sensações prazerosas revelando uma das primeiras manifestações da sexualidade infantil. Nesta manifestação sexual a pulsão é auto-erótica, ou seja, voltada para uma parte do seu corpo denominada como zona erógena3, não tendo um objeto externo como alvo. Para Freud (1996b, p. 159):
Por ‘pulsão’ podemos entender, a princípio, apenas o representante psíquico de uma fonte endossomática de estimulação que flui continuamente, para diferenciá-la do ‘estímulo’, que é produzido por excitações isoladas de fora. Pulsão, portanto, é um dos conceitos de delimitação entre o anímico e o físico.
A zona erógena oral apresenta-se como uma das primeiras fases auto-eróticas caracterizada por investimentos parciais direcionados a partes do corpo específicas, como os lábios e a mucosa interna da boca. Inicialmente o suporte da
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Entende-se como zona erógena parte da pele ou mucosa em que havendo uma estimulação de forma ritmada, provoca excitação e sensação prazerosa, pois as satisfações das pulsões realizam-se de um modo não organizado, por estarem relacionadas a partes específicas do corpo (FREUD, 1996b).
atividade sexual está relacionado a uma necessidade orgânica de alimentar-se, mas que, posteriormente, distancia-se desta função. Ao observarmos quando a criança leva a mão à boca e repete o movimento de “chuchar”, substituindo o seio da mãe por um dedo, proporciona a si, de maneira independente ao mundo externo, satisfação prazerosa.
Diríamos que os lábios da criança comportaram-se como uma zona erógena, e a estimulação pelo fluxo cálido de leite foi sem dúvida a origem da sensação prazerosa [...]. A atividade sexual apóia-se primeiramente numa das funções que servem à preservação da vida, e só depois torna-se independente delas. (FREUD, 1996b, p.171).
Percebem-se outras duas zonas erógenas no desenvolvimento inicial infantil, a saber, a zona anal e a zona genital. A zona erógena anal tem sua descrição por Freud (1996b, p.175) como uma zona de grande importância por ser “uma área de mucosa sexualmente sensível”, ela reforça o prazer e excitabilidade que a criança sente em reter as fezes, “Os distúrbios intestinais são freqüentes na infância providenciam para que não faltem a essa zona excitações intensas” (1996b, p.175). Segundo o autor, no domínio do controle esfincteriano pelo lactante, as fezes representam parte do seu corpo e, ao se desfazer delas, a oferece como um “presente” que estaria relacionado a um bebê exemplificado mais tarde em uma das teorias sexuais infantis, onde o bebê seria adquirido pelo alimento e seu nascimento pelo intestino.
Com relação à zona erógena genital, Freud associa os órgãos sexuais à micção e aos cuidados com o corpo infantil, tomados pelo adulto, apontando o quanto são estimulados desde o início, o que resultaria na futura primazia dessa zona erógena na atividade sexual da vida adulta. “As atividades sexuais dessa zona erógena, que faz parte dos órgãos sexuais propriamente ditos, são sem dúvida o começo da futura vida sexual ‘normal’” (FREUD, 1996b, p.176)
Para que o bebê constitua-se sujeito inscrito na linguagem, é importante que os movimentos da mãe sejam caracterizados por momentos de presenças e de ausências. Ao afastar-se do filho há uma sustentação simbólica para dar suporte as suas ausências. Suporte este representado por seu discurso: quando ela sai diz para o filho que está indo para tal lugar, fala que ele não precisa ficar triste, pois ela retornará logo e, ao voltar, festeja seu retorno. Este movimento transmite uma mensagem de que ela não está infinitamente disponível, demonstrando que existem
outros objetos que também lhe interessam. O ir e vir da mãe causa na criança sentimentos de angústia de prazer/desprazer e a elaboração simbólica da presença/ausência passa por um processo lúdico imprescindível. Tal processo foi percebido por Freud a partir da observação do jogo de carretel de seu neto.
Ao relatar a brincadeira de seu neto, Freud (1996c) diz-nos que a criança brincando cria um mundo próprio ou rearranja as coisas da realidade de forma que lhe agrada, este jogo é levado a sério e investido de emoção. Este menino com menos de dois anos, brincava com um carretel de madeira, com um pedaço de cordão amarrado em volta dele que o fazia desaparecer enquanto expressava “fort” (fora), e quando puxava o carretel e o fazia reaparecer exclamando "da" (aqui), a essa cena Freud chamou de "Fort-da", sendo interpretada como um jogo que a criança fazia para suportar a ausência da mãe. Essa brincadeira, segundo a interpretação de Freud (1996c, p. 26),
[...] se relacionava à grande realização cultural da criança, a renúncia à satisfação instintual, que efetuara ao deixar a mãe ir embora sem protestar. Compensava-se por isso, por assim dizer, encenando ele próprio o desaparecimento e a volta dos objetos que se encontravam a seu alcance.
A falta da mãe que gera sentimento de desprazer na criança, passa pelo processo simbólico através da brincadeira acompanhada da fala, transformando-se em algo prazeroso:
De fato, a criança transformou a situação, posto que de agora em diante é ela que abandona sua mãe simbolicamente. A inversão simbólica operada é a justificativa mais evidente da atualização de um processo de controle: a criança fez-se mestre da ausência graças a uma identificação. Era a mãe que a repelia ausentar-se; agora é ela que repele a mãe ao arremessar o carretel. Daí a jubilação intensa da criança ao descobrir seu controle da ausência do objeto perdido (a mãe). (DOR, 1990, p. 90).
Ao pai, cabe “entrar” nessa relação dual, abrindo-a. Isso só se torna possível, no entanto, se a mãe o apresentar. Não basta que o pai esteja presente na vida cotidiana da família, é necessário que a mãe o nomeie. Sobre isso, Lacan (1998, p. 828) se manifesta dizendo:
Que dessa autoridade da Lei o Pai possa ser tido como o representante original, eis o que exige especificar sob qual modalidade privilegiada de presença ele se sustenta para além do sujeito levado a ocupar realmente o lugar do Outro, ou seja, a Mãe.
O pai chega como um terceiro nessa relação e sua inclusão ocorrem através das falas da mãe. Ao dizer que o pai é forte, que quando o filho/a crescer poderá jogar bola com ele, por exemplo, a mãe introduz e reforça a presença paterna que secciona e causa um sentimento de privação na relação entre mãe e filho/a. A dissociação materna atesta que a criança não está completa, esta ruptura denuncia que há uma falta, onde se funda o desejo, pois somente existe desejo se existir a falta. O pai, assim, passa a cumprir uma função, mostrando ao/a filho/a que a mãe deseja outros objetos de gozo além dele (o bebê).A presença do pai, como função, sustenta os atributos conferidos pela mãe e se presentifica como representante da lei de interdição incestuosa, garantindo ao filho a saída da relação de totalidade materna.
Esse terceiro, representado pela figura paterna– o Nome do Pai –, vai destituir o lugar imaginário de que a criança é o falo da mãe, permitindo que ela saia deste lugar para constituir-se como um sujeito de desejo, inserindo-se na ordem da cultura, desprendendo-se do mundo materno. Esse terceiro representante do Nome do Pai:
[...] é quem assegura na criança a função simbólica da palavra. Sem substituição do desejo da mãe pela palavra do pai (metáfora paterna), a criança não poderia ter acesso ao universo simbólico e, por conseguinte, à cultura. (VOLNOVICH, 1991, p. 35).
O processo constitutivo do sujeito, da formação da psique humana, tem continuidade pelo atravessamento das crises subjetivante, como o estádio do espelho, o complexo de Édipo e a castração. Crises essas que são apresentadas a seguir.
1.2 Fase do Espelho
O olhar que a mãe direciona para o bebê torna-se uma ligação amorosa de reconhecimento de um filho desejado e de uma mãe que deseja. A criança mesmo sem ser capaz de coordenar seus movimentos no espaço ou organizar o pensamento em linguagem, vê neste olhar um espelho que reflete a confirmação de unidade, a identificação com a imagem do Outro que a constitui, passando a buscar
a validação de uma unidade, de um vir a ser sujeito afirmando uma existência simbólica. Para Lacan (1998, p. 97),
A assunção jubilatória de sua imagem especular por esse ser ainda mergulhado na impotência motora e na dependência da amamentação que é o filhote do homem nesse estágio de infans parecer-nos-á pois manifestar, numa situação exemplar, a matriz simbólica em que o (eu) se precipita numa forma primordial, antes de se objetivar na dialética da identificação com o outro e antes que a linguagem lhe restitua, no universal, sua função de sujeito.
A presença do Outro é de suma importância para que ocorra o processo de subjetivação do sujeito na passagem pelo estádio do espelho. O investimento pela cultura e o desejo parental sustentará a suposição de um sujeito de desejo. Havendo investimento na imagem da criança, formar-se-á o eu ideal depositário de expectativas, sonhos e desejos dos pais.
A relação do olhar é fundamental para a constituição do sujeito, o espelhamento no Outro sustenta a unificação egóica e a constituição de um "eu" unificado que anteriormente era despedaçado. O estádio do espelho elaborado por Lacan sustenta-se para explicar o narcisismo4 primário em que ocorre uma organização pulsional que se concretiza por um movimento de integração da imagem corporal dissociada do corpo da mãe, ocorrendo o surgimento do ego como unidade psíquica. A respeito disso, Dor (1990, p. 79) refere que:
O ‘estádio do espelho’ ordena-se essencialmente a partir de uma experiência de identificação fundamental, durante a qual a criança faz a conquista da imagem de seu próprio corpo. a identificação primordial da criança com esta imagem irá promover a estruturação do ‘Eu’, terminando com essa vivência psíquica singular que Lacan designa como fantasma do corpo esfacelado.
A fase do espelho articula-se em três tempos fundamentais, por meio dos quais a criança, progressivamente, adquire, captura a imagem de seu corpo. Evidencia-se, no primeiro momento do estádio do espelho, o assujeitamento da criança ao registro do imaginário, ou seja, o eu do bebê e o seu corpo erógeno estão submetidos ao desejo dos pais. A imagem do corpo da criança é percebida como um ser real, diverso dela própria, a quem ela tenta se aproximar e apreender. No
4Narcisismo: a partir de 1914 com o texto “Sobre O Narcisismo Uma Introdução”, S.Freud faz do
narcisismo uma forma de investimento pulsional necessária à vida subjetiva, torna-se um dado estrutural do sujeito (CHEMAMA,1993).
segundo momento, o processo identificatório constitui uma etapa definitiva, pois a criança percebe que a imagem refletida no espelho é a sua própria imagem e não um outro estranho, desistindo de possuí-la. A partir desse momento há uma alteração na percepção e no comportamento, a criança não irá “mais procurarno geral, seu comportamento indica que ela sabe, de agora em diante, distinguir a imagem do outro da realidade do outro” (DOR, 1990, p. 80).No terceiro momento, a criança tem segurança que o reflexo no espelho não passa disso, uma imagem e que é sua, ocorrendo uma resolução dos dois momentos anteriores. Para Dor (1990, p. 80):
O terceiro momento dialetiza as duas etapas precedentes, não somente porque a criança está segura de que o reflexo do espelho é uma imagem, mas, sobretudo, porque adquire a convicção de que não é nada mais que uma imagem, e que é dela.
No estádio do espelho a criança realiza sua identificação primordial que, com a unificação da imagem corporal, estrutura a identidade do sujeito, a qual, por sua vez, prenuncia o complexo de Édipo a partir de três tempos lógicos que indicam diferentes relações com o campo do Outro e com a castração.
1.3 Dissolução do Complexo de Édipo
A partir da formulação teórica de Freud e a releitura feita por Lacan, o complexo de Édipo e de castração, expressam uma experiência psíquica vivida inconscientemente pela criança e que se torna decisiva para a fundamentação da sua identidade sexual futura. Ocorre um sentimento ambíguo de amor e ódio em relação à triangulação mãe, filho e pai, este último inserindo-se nesta relação, barrando, castrando simbolicamente o desejo incestuoso pela mãe. Esse processo vivenciado pela criança tem como aspecto essencial, uma problemática fálica, pois ao deparar-se com a diferença anatômica entre os sexos, ela sente-se angustiada ao perceber que nem todos possuem pênis e que diante de tal fato a ilusão de onipotência se perde e desorganiza a relação do desejo incestuoso pela mãe. Desejo este que terá de ser aceito pela criança, uma vez que o próprio universo é constituído de homens e mulheres, além de que o próprio corpo tem limites. Nas palavras de Nasio (1997, p.13), a criança terá que “aceitar que seu pênis de menino
jamais lhe permitirá concretizar seus intensos desejos sexuais em relação à mãe”. A criança ainda mantém uma relação indistinta de quase fusão com a mãe ao sair da fase identificatória do estádio do espelho. Nesse momento ela ainda não é um sujeito, apenas se delineia um sujeito. A criança, em relação à mãe, mantém-se numa posição de colocar-se no lugar de uma suposição de ser o objeto de seu desejo. Esta suposição “é amplamente facilitada, e até induzida, pela relação de imediação entre a mãe e a criança, a começar pelos primeiros cuidados e a satisfação das necessidades” (DOR, 1990, p. 81). Nessas trocas, a criança posiciona-se de uma forma a supor ser o objeto que falta a mãe, o falo: único objeto que poderá satisfazer a mãe. Como afirma Dor (1990, p. 81) “este objeto suscetível de preencher a falta do outro é, exatamente, o falo. No primeiro tempo do Édipo, a relação entre a mãe e a criança caracteriza-se por uma indistinção fusional em que o filho identifica-se como o falo materno, sendo que a mãe apresenta-se para a criança como um Outro onipotente. Neste momento do Édipo o pai fica fora da relação, ele aparece de maneira encoberta; mesmo que a mãe enuncie sua presença ele ainda não está colocado como terceiro que faz um corte na relação entre a mãe e a criança.
Conforme Lacan (1999, p. 200),
[...] a instância paterna se introduz de uma forma velada, ou ainda não aparece. Isso não impede que o pai exista na realidade mundana, ou seja, no mundo, em virtude de neste reinar a lei do símbolo. Por causa disto, a questão do falo já está colocada em algum lugar da mãe, onde a criança tem de situá-la.
O fato de a criança identificar-se com o falo nessa relação será o mote propulsor para o questionamento sobre ser ou não ser o falo, que lhe tira a certeza de ser a única coisa que a mãe deseja: a “identificação com o objeto fálico que alude à mediação da castração convoca-a melhor ainda no terreno de uma oscilação dialética entre ser ou não ser o falo” (DOR, 1990, p. 81). O movimento inconstante abre caminho para o surgimento do segundo tempo do complexo de Édipo, que introduz a dimensão da castração pela mediação paterna. O segundo tempo do Édipo caracteriza-se pela entrada de um terceiro que introduz a lei de interdição à relação fusional entre mãe e filho\a. Esta intervenção permite a criança deparar-se com a questão da falta. Para Lacan (1999, p. 200): “o pai se afirma em sua presença privadora, como aquele que é o suporte da lei, e isso já não é feito de maneira
velada, porém de um modo mediado pela mãe, que é quem o instaura como aquele que lhe faz lei”.
O pai passa a ocupar um lugar significante, surgindo como uma metáfora da ausência da mãe, ocupando o lugar do significante do desejo materno. Através da inclusão efetiva da figura paterna, insere-se o registro da castração. Em resposta, o\a filho\a internaliza essa lei que o priva de obter satisfação em relação à mãe. A mediação paterna intervém sob a forma de privação. Lacan (1999, p. 190-191) nos diz:
O pai, como aquele que priva a mãe do objeto de seu desejo, a saber, o objeto fálico, desempenha um papel absolutamente essencial, [...] em qualquer neurose e em todo o desenrolar, por mais fácil e mais normal que seja, do complexo de Édipo [...] há de fato uma privação, uma vez que toda privação real exige a simbolização. Assim, é no plano da privação da mãe que, num dado momento da evolução do Édipo, coloca-se para o sujeito a questão de aceitar, de registrar, de simbolizar, ele mesmo, de dar valor de significação a essa privação da qual a mãe revela-se o objeto.
Ao se defrontar com a lei do pai, a criança efetivamente confronta-se com a castração. O segundo momento do Édipo será o passo para que ela possa ter acesso à simbolização da lei que,
Abalada em sua certeza de ser ela mesma objeto fálico desejado pela mãe, a criança é, de agora em diante, forçada pela função paterna a aceitar, não somente não ser o falo, mas também não tê-lo, assim como a mãe, dando-se conta de que ela o dedando-seja lá onde ele é suposto estar e onde torna-dando-se, então, possível tê-lo. (DOR, 1990, p. 87).
No terceiro momento do Édipo, “o passo a ser dado na assunção da conquista do falo irá desdobrar-se num terceiro tempo que dialetizará os dois precedentes” (DOR, 1990, p. 87), caracterizando-se por uma dissolução a partir de uma oposição de forças conflitantes. Isso porque, enquanto no primeiro momento do Édipo não há menção de que a relação fusional mãe-filho\a se desfaz, mesmo com a presença do pai; no segundo momento, a criança se sente privada de seu objeto de desejo por um terceiro onipotente que justamente possui o falo. Esse é o terceiro e definitivo momento, a saída do complexo de Édipo: quando o pai se revela como aquele que tem o falo. Na medida em que o pai intervém como aquele que tem o falo, é o momento de saída do complexo por meio de uma identificação com o pai.
Tal saída é considerada favorável, uma vez que por meio da identificação há aquilo que, na psicanálise, denomina-se “Ideal do eu”. A referida identificação é imprescindível para que a formação do sujeito se dê de maneira “normal”, pois ela é responsável pela constituição da realidade e do supereu5. Pode-se afirmar que essa identificação é responsável pela inserção do sujeito na cultura, pois ela é uma espécie de lógica que tenta interpretar os processos (históricos, sociais, econômicos etc.) a partir da oposição de suas forças (antítese), buscando encontrar uma resolução (síntese).
Esses processos e as passagens de um estádio ao outro, assim como de um momento interno ao outro de um estádio específico, no entanto, não são automáticos e necessários em todas as crianças. Há sempre a possibilidade de que, se a criança não for ouvida no registro de seu desejo, não haja eficácia psíquica, isto é, o que não ficar organizado psiquicamente retornar como um sintoma físico, ou de desenvolvimento nas aprendizagens. Ou ainda, quando a mãe e/ou o pai não realizam a sua função simbólica, podem ocorrer fraturas no período inicial de constituição do sujeito. Isso ocorrendo, as funções constituintes do sujeito possa se patologizar, o que demandará a necessidade de tratamento.
O processo de desenvolvimento da perspectiva psicanalítica acerca da subjetivação psíquica da criança se deu por meio do prisma teórico, mas também do clínico, o qual não pôde ser desenvolvido exclusivamente por meio da “cura pela palavra”, da associação livre daquilo que é dito no set psicanalítico. Com as crianças é preciso mais do que isso. Há a necessidade de compreender aquilo que pode ser próprio da infância, pode vir a esclarecer o modo de fazer a clínica infantil. Para tanto, buscaremos a articulação entre o lúdico e a escuta analítica. No próximo capítulo trataremos da transferência e do método de escuta da criança por meio do brincar.
5 A identificação terá que “inscrever-se no triângulo simbólico no pólo em que está o filho, na medida
em que é no pólo materno que começa a se constituir tudo o que depois será realidade, ao passo que é no nível do pai que começa a se constituir tudo o que será o supereu” (LACAN, 1999, p. 200-201).
2 A CLÍNICA PSICANALÍTICA COM CRIANÇAS
2.1 Clínica psicanalítica e a imprescindível transferência
A procura por atendimento clínico, por terapia é movida por algum sofrimento psíquico que acomete o sujeito. A clínica em psicologia tem como tarefa primordial acolher o sujeito em seu sofrimento constituinte, daquilo que pode ser apreendido da vivência subjetiva. A clínica é a acolhida a essa demanda, através de um olhar e, especialmente, de uma escuta que possa contemplar e alcançar a subjetividade humana tal como ela se apresenta. Nessa acolhida, para que tal alcance se efetive, é imprescindível o estabelecimento de uma relação que seja reveladora e formadora de sentidos, a qual pode expressar e permitir o desvelamento das causas do sofrimento psíquico.
Essa relação, contudo, têm características peculiares. Sua descrição foi feita com demora por Freud, passando a ser processo constitutivo do tratamento psicanalítico e conceito central da psicanálise. No que se refere ao tratamento de crianças o conceito é exatamente o mesmo. Por essa razão, é indispensável para essa pesquisa que se explicite a complexa noção de transferência cunhada por Freud e seu discípulo, Sandor Ferenczi, entre 1900 e 1909. Foram eles que tomaram o termo transferência, que não era próprio do vocabulário psicanalítico – uma vez que muitos campos de saber o utilizam sempre implicando numa ideia de deslocamento, de substituição de um lugar por outro, sem que tal operação interfira na integridade do objeto – e designaram um componente essencial da psicanálise, a ponto de tornar-se instrumento da cura no processo de tratamento e ser tema de diversos estudos posteriores de Freud, de seus discípulos e das variadas correntes do freudismo (ROUDINESCO; PLON, 1998).
2.2 Transferência
Como afirmado, a relação de transferência não é exclusiva da psicanálise. No campo psicoterápico, de qualquer vertente interpretativa, bem como em qualquer âmbito em que há relação de quais quer elementos, a existência de transferência é atestada e pode ser pensada por meio de outras terminologias, tais como afinidade, necessidade de direção, transposição afetiva. Freud, por sua vez, com sua
sensibilidade e perspicácia, reconheceu nesse fenômeno o diferencial para o tratamento psicanalítico, o qual não foi por ele tomado como algo natural pelo contrário, até o fim de sua vida a recorrência do fenômeno o impressionou. Como ele próprio atesta na inacabada obra Esboço de psicanálise, escrita em 1938 e só publicada postumamente, em 1940 (ROUDINESCO; PLON, 1998). Inicialmente, no entanto, Freud não percebeu a transferência como componente da relação terapêutica, mas o apreendeu como um “deslocamento do investimento no nível das representações psíquicas” (ROUDINESCO; PLON, 1998, p. 767), tal como se pode verificar em Estudos sobre a histeria (1893) e em A interpretação dos sonhos (1900). Somente em 1905, com o Caso Dora, Freud experienciou, a contragosto, a materialidade da transferência e atestou que o analista desempenha um papel na transferência do analisando. Este papel não é necessariamente, positivo. Nesse caso a experiência foi negativa, pois, frente ao arroubo amoroso da paciente, Freud opôs resistência, o que “desencadeou uma transferência negativa por parte dela” (ROUDINESCO; PLON, 1998, p. 768). Anos depois, ele qualificou o ocorrido como contratransferência. SandorFerenczi, em 1909, observou que em todas as relações humanas, tais como entre professor e aluno, médico e paciente, há transferência; no entanto, na análise, entre analista e analisando, o discípulo de Freud constatou que o paciente colocava, inconscientemente, o terapeuta numa posição parental. No mesmo período, Freud passou a discernir que os “sentimentos inconscientes do paciente para com o analista eram manifestações de uma relação recalcada com as imagos parentais” (ROUDINESCO; PLON, 1998, p. 768). Somente em 1912 Freud publicou um texto dedicado, integralmente a essa questão. Em A dinâmica da
transferência (1996d), Freudqualificou o fenômeno entre positivo, negativo e misto: a
dinâmica positiva é feita de ternura e amor, a negativa manifesta-se como vetor de sentimentos hostis e agressivos e a mista reproduz os sentimentos ambivalentes da criança em relação aos pais.
Por meio da observação da repetição da transferência que nunca deixou de surpreender Freud (1996c), em Além do princípio do prazer, ele constatou que a repetição sempre se refere a fragmentos da vida sexual infantil, o que o fez ligar a transferência ao complexo de Édipo e concluir que a neurose original era substituída, na análise, por uma neurose artificial, ou “neurose de transferência”, a qual, no processo analítico, deveria conduzir o paciente a um reconhecimento da neurose infantil. Com tal ligação e conclusão, a transferência torna-se componente
insubstituível do tratamento psicanalítico, uma vez que é a via de acesso ao desejo inconsciente. Portanto, trata-se de um terreno em que é preciso conseguir uma vitória, sem a qual o êxito terapêutico é inalcançável. Nas palavras de Freud, a transferência é “o mais poderoso adjuvante do tratamento” (ROUDINESCO; PLON, 1998, p. 768).
Ainda que depois de Freud outras interpretações a respeito da transferência tenham sido desenvolvidas, nenhuma das escolas pós-freudianas abriu mão desse adjuvante terapêutico. Lacan, por sua vez, a partir da sua leitura do Caso Dora, em 1951, quando definiu a relação transferencial como “uma seqüência de inversões dialéticas, e sublinhou que os momentos ‘fortes’ da transferência inscreviam-se nos tempos ‘fracos’ do analista. A cada inversão, o analisando avança na descoberta da verdade” (ROUDINESCO; PLON, 1998, p. 768), nunca deixou de problematizar a transferência, o que o fez variar a perspectiva.
Como Freud, Lacan se interessa pelo amor transferencial, mas desloca a atenção: passa do desejo do paciente ao desejo do analista. Em tal passagem, introduz, por meio da original e marcante leitura que faz do Banquete de Platão (Seminário 1960-1961), o desejo do psicanalista a fim de esclarecer a verdade do amor transferencial. Lacan transforma a personagem central do Banquete, Sócrates, em psicanalista, uma vez que ele ocupa o lugar de intérprete do desejo de seus discípulos. O amor do belo Alcibíades por Sócrates é célebre, Lacan, contudo, interpreta que Sócrates não cede a esse amor não porque ama a filosofia, mas porque o verdadeiro objeto do desejo do irresistível mancebo era Agatão, outra personagem do diálogo platônico, e não Sócrates. Em outras palavras, Alcibíades acreditava desejar Sócrates quando desejava Agatão. Eis em que consiste a transferência para Lacan, nesse momento: um artifício que se refere inconscientemente a um objeto que reflete outro. Já no seminário de 1961-1962 dedicado à identificação, Lacan introduz uma nova interpretação e faz da transferência não mais um artifício, mas um engano: a transferência consiste em o analisando atribuir o saber absoluto ao analista, colocá-lo no lugar do sujeito-suposto-saber. Engano necessário para a psicanálise e para o sucesso terapêutico, uma espécie de encenação da realidade do inconsciente que se expressa na experiência analítica. No Seminário 1964 Lacan põe o conceito de transferência ao lado do conceito de inconsciente, da repetição e de pulsão, compondo o conjunto de quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Em suma, no tratamento
psicanalítico, a transferência é o processo pelo qual “os desejos inconscientes do analisando concernentes a objetos externos passam a se repetir, no âmbito da relação analítica, na pessoa do analista, colocado na posição desses diversos objetos” (ROUDINESCO; PLON, 1998, p. 767).
Com esse horizonte teórico, pode-se afirmar que a escolha e demanda por atendimento clínico psicológico, por iniciativa própria ou por indicação de outrem, já é o início de uma relação transferencial entre paciente e terapeuta. Ao dirigir-se a um terapeuta o paciente está supondo que este saiba sobre como ajudar a resolver aflições, temores, angústias, pois na maioria dos casos a demanda é por amenizar algum sofrimento psíquico.
A transferência se manifesta em qualquer relação interpessoal seja ela amorosa, de hierarquia ou profissional. Nesta forma de relação, os envolvidos estão presos em uma transferência, e na maioria das vezes não há consciência deste fato. A diferença entre relações interpessoais e tratamento analítico, evidencia-se pelo analista em razão de seu processo formativo e que o coloca no lugar de intérprete, estando disponível e atento a escutar6 o seu paciente. Quem procura por atendimento psicoterapêutico deposita em seu terapeuta admiração, respeito e confiança por imaginar que ele saiba sobre seus males. Confiar, no contexto do tratamento, implica em acreditar que haverá a possibilidade de que a cura, ou alívio do sofrimento aconteça.
No texto “Observações sobre o amor transferencial” (1996e), Freud aborda a questão do amor de transferência. Afirma que por mais genuíno e sincero que seja o afeto podendo ser de amor ou de ódio, é um sentimento endereçado ao terapeuta, mas que deriva de lembranças relacionadas a vida afetiva do paciente em suas relações parentais. Esta relação permite que ele possa reviver a gama de afetos e paixões que são presentes em sua vida, e que a partir da interpretação do terapeuta, os padrões afetivos repetidos podem ter um rumo e desfecho modificados. Em “Dinâmica da transferência” escrito originalmente em 1912, o que Freud refere é que há uma elevada tendência acerca daquilo que não for falado se repetir em atos e sintomas, o que será definido por Freud como resistência. A resistência é um fenômeno fundamental para o avanço do tratamento:
6
A escuta analítica ressalta a singularidade de sentido da palavra enunciada, sendo que a palavra é a forma de acesso ao inconsciente, ao que é desconhecido para o sujeito.
Não se discute que controlar os fenômenos da transferência representa para o psicanalista as maiores dificuldades; mas não se deve esquecer que são precisamente eles que nos prestam o inestimável serviço de tornar imediatos e manifestos os impulsos eróticos ocultos e esquecidos do paciente. (FREUD, 1996d, p.119).
Embora seja uma repetição de vivências e afetos a resistência, na relação transferencial, é também lugar de transformação e criação de sentido. Lidar com o não sabido na psicoterapia é respeitar a verdade do paciente. A transferência é o que dará suporte para que haja o deslizamento do significante na cadeia discursiva, pois quando o objetivo do tratamento é a cura, o terapeuta deve abster-se de impor o seu saber frente a este discurso. Eis então o que, como já afirmamos anteriormente o que Lacan definiu como “sujeito-suposto-saber”: o terapeuta coloca-se em uma posição de suposição de saber, faz coloca-semblante ao que o paciente verbaliza, assim o discurso veiculado através da associação livre sustenta-se e se produz no contexto transferencial. Roza (1993, p. 132) assim resume a transferência na análise:
[...] a análise tem como finalidade a realização pelo sujeito de sua história, na sua relação com o futuro, sendo o lugar do analista aquele que possibilita o encontro do sujeito com sua questão, pela via da linguagem, precipitando uma interpretação. O discurso dirigido a um outro deve encontrar o Outro, o sujeito-suposto-saber, vertente simbólica da transferência. Como elemento ternário que se interpõe na intersubjetividade, a palavra do analista é o significante introduzido no discurso que proporciona os efeitos de significação.
Nesta relação forma-se um vínculo em um alto grau de afetividade, por ambas as partes envolvidas, abdicando da ideia de que haja uma “neutralidade” por parte do terapeuta. O terapeuta está implicado em ajudar o paciente. Mas de que ajuda se trata? Através de uma escuta atenta, com uma postura de não obstrução da verdade que está sendo dita pelo paciente, o terapeuta tem como função oferecer suporte para interpretar o que está na palavra do paciente, ou seja, o que emerge é a verdade do inconsciente sem a obstrução do saber do terapeuta.
Após essas considerações, é preciso reafirmar a necessidade imprescindível da transferência na clínica psicanalítica, seja ela voltada para pacientes adultos ou crianças. Pode-se afirmar, com segurança, que a transferência é condição sine qua
non do tratamento psicanalítico com qualquer paciente independente de sua idade,
2.3 A clínica infantil
Considerando que o objetivo dessa pesquisa é tratar da clínica infantil e do lugar do brincar nela, não é possível ignorar a afirmação de Manoni (1987, p. 9): “A psicanálise de criança é a psicanálise”. Portanto, ainda que sejam necessárias adaptações da técnica psicanalítica quando se trata da criança, os conceitos fundamentais da psicanálise não podem ser negligenciados. O campo no qual o analista opera também quando o paciente é uma criança é o da linguagem, mesmo se ela ainda não fala.
O discurso que se processa na clínica infantil é coletivo, uma vez que engloba, além da criança e do analista, os pais. Assim como com adultos, o discurso se constitui em torno do sintoma do paciente. No caso que interessa à presente pesquisa, é o sintoma da criança, mas não só. O que está em jogo em tal discurso é sim a criança real, a perturbação da qual se fala e que é objetivável, no entanto, a representação que o adulto – os pais – faz da infância também entra em campo.
Como já afirmado no primeiro capítulo deste trabalho, há desde a gravidez, uma expectativa dos pais sobre a criança, voltada para aquilo que eles não foram capazes de realizar, uma vez que é próprio do estatuto conferido pela sociedade encarregar a criança “de realizar o futuro do adulto: a criança tem por missão reparar o malogro dos pais, realizar-lhes os sonhos perdidos” (MANONI, 1987, p. 9). Assim, é preciso considerar que no discurso dos pais sobre os sintomas da criança está contida também a problemática do adulto que fala e que se queixa. Ouvir os pais a respeito de seu passado, de seu “tempo de criança” permite ao analista identificar tanto a realidade quanto um sonho irrealizado que pode ter efeitos sobre os sintomas da criança, a qual é o centro da terapia. Isso porque “o discurso, que se processa na psicanálise, assim na criança como no adulto, nos remete, pois, não tanto a uma realidade quanto a um mundo de desejos e de sonhos” (MANONI,1987, p. 9).
Como para essa pesquisa importa compreender o trabalho com crianças e as formas possíveis do fazer clínico o brinquedo e o brincar são peças importantes tanto na constituição do sujeito, quanto na prática da clínica com crianças, como um modo de "falar". Desse modo há o papel do brincar na clínica infantil, pois é por esse meio que a criança “reordena o seu mundo presente ou passado de acordo com a
sua aspiração. Sua palavra surge então para tocar um adulto imaginário ou real (isto é, um companheiro imaginário)” (MANONI, 1987, p.10).
Brincar é inerente à infância, é uma atividade natural que se inicia em tenra idade modificando-se, enriquecendo-se em detalhes no transcorrer da infância. O brincar é a forma de expressão privilegiada na infância, é a capacidade da criança produzir associações que podem também ser manifestas verbalmente, além disso, é uma das mais importantes distinções entre criança e adulto (ROZA, 1993). É pelas brincadeiras que a criança traduz, de modo simbólico, suas fantasias, seus desejos e suas experiências vividas. O brincar traz efeitos de significação, é a realização de um trajeto no qual o inconsciente se manifesta produzindo um sentido. Desse modo, não pode ser negligenciado também no meio psicoterápico. Em tal meio ele precisa ser considerado em seu aspecto global, o qual envolve as imagens em ação, os gestos e as palavras, uma vez que tem papel determinante na constituição do sujeito.
Na terapia com crianças, desde os estudos de Freud até a atualidade, é possível compreender grande relevância do brincar, já que é através dele que a criança representa seu mundo psíquico. Assim poderá projetar na brincadeira medos, desejos, expectativas, demonstração de verbalizações e associações livres que se desencadeiam por jogos e brincadeiras que serão o meio para o terapeuta mediar os conflitos e propiciar ressignificações das angústias e sofrimentos.
Como já afirmado anteriormente, o que diferencia a terapia com crianças da de adultos é o método de condução, não se distanciando dos princípios básicos de toda a teoria psicanalítica que abrange o inconsciente, a transferência, a repetição e a pulsão. O que sabemos é que a psicanálise se ocupa do sujeito do inconsciente, não importando que seja uma criança ou um adulto. No entanto, de um lado, o que se mostra específico na análise com crianças é que algumas características são próprias do infantil, não podendo se esperar que associe livremente como um adulto. Por outro lado, percebe-se que se a criança sentir-se livre, ela brincará com o que encontrar à sua frente, sendo esse o modo “natural” de se expressar. A brincadeira contribui para a construção da realidade psíquica. Por meio dela a criança consegue,
reordenar os fantasmas pelas possibilidades que ele oferece em termos das trocas entre os sistemas inconsciente/pré-consciente-consciente, enfim, de produzir significações pelas articulações dos significantes tanto de demarcação como lingüísticos (ROZA, 1993, p. 135).
A atividade lúdica utilizada na terapia tornou-se uma maneira de abrir caminho para que a criança sinta-se livre para manifestar sua criatividade e imaginação, bem como trazer à tona conflitos psíquicos que a estejam afligindo. Pela brincadeira a criança realiza o que imagina, sem se preocupar com a realidade. Ela é que propõe as regras, pois tudo é possível no faz de conta. Deste modo está livre para experimentar sentimentos de amor, medo, tristeza, raiva, reproduzindo-os nas brincadeiras, o que por ventura possa estar sendo recalcado e não falado no meio familiar. Aberastury (1992, p. 15) nos diz que:
Ao brincar, a criança desloca para o exterior seus medos, angústias e problemas internos, dominando-os por meio da ação. Repete no brinquedo todas as situações excessivas para seu ego fraco e isto lhe permite, devido ao domínio sobre os objetos externos a seu alcance, tornar ativo aquilo que sofreu passivamente, modificar um final que lhe foi penoso, tolerar papéis e situações que seriam proibidas na vida real tanto interna como externamente e também repetir à vontade situações prazerosas.
Assim concebido, o brincar deixa de ser mera atividade imaginativa e passa a ser um meio de realização do sujeito do inconsciente que se dá pela via da figuração, tal como foi capaz de perceber Freud quando observou seu neto brincando com o carretel. Como analisa Roza (1993, p. 70):
O jogo do carretel representa o momento do estabelecimento da clivagem psíquica, da constituição do sujeito: a descoberta da diferença entre presença e ausência, e o par fonemático fort e da indicam, conforme a leitura de Lacan, uma oposição binária que marca a entrada na linguagem, ponto da partida da lógica do significante.
O exemplo do carretel é amplamente utilizado quando se trata de expor a questão do brincar relacionada a subjetivação simbólica e a internalização da falta, do vazio entre a presença e ausência do objeto amado.
2.4 Principais teóricos da clínica infantil
Exploraremos, a partir de agora, a forma como alguns autores desenvolveram e teorizaram suas experiências na clínica psicoterápica infantil a partir do referencial teórico psicanalítico.
2.4.1 Anna Freud e a psicologia do ego
Anna Freud foi pioneira no desenvolvimento da psicanálise infantil, nasceu em 3 de dezembro de 1895, em Viena, na Áustria. Sendo a filha mais nova de Sigmund Freud, era muito dedicada ao seu pai e aos conceitos teóricos da psicanálise. Ainda jovem ensinou em escolas primárias, o que lhe permitiu a observação diária de crianças, fator que instigou o seu interesse pela psicologia infantil. Suas observações do comportamento das crianças em relação às brincadeiras realizadas, nas diferentes etapas do desenvolvimento, lhe proporcionaram subsídios para formulações teóricas sobre a prática de análise com crianças.
Em seu livro "O tratamento psicanalítico das crianças" (1971), Anna Freud expõe os princípios da análise infantil, recomendando aos analistas de crianças que desempenhassem um papel ativamente pedagógico, apostando na liberação de impulsos recalcados na criança. Seu trabalho teórico abrangeu a análise das funções que o ego desempenha, no sentido de tornar tolerável a intensidade da ansiedade despertada por pensamentos e sentimentos pessoais frente às demandas pulsionais.
No período da doença de seu pai, Anna dedicou-se a acompanhá-lo. Após o falecimento de Sigmund Freud, ela retomou suas atividades como psicanalista e em 1943 fundou, em Londres, a clínica Hampshead destinada a cuidar de crianças órfãs que sofriam psiquicamente por efeitos da guerra. Até sua morte, no ano de 1982, permaneceu em atividade profissional.
2.4.2 Melanie Klein e a prevalência da fantasia e dos objetos internos
Nascida em Viena, em 1882, Melanie Klein cursou medicina, mas após casar-se optou por continuar os estudos em Arte e História. Com o falecimento de sua mãe, em 1914, ela procurou por atendimento psicanalítico com Sandor Ferenczi, discípulo húngaro de Freud. Seu analista sugeriu dedicar-se ao estudo e atendimento com crianças, sendo que ele próprio defendia esta prática. Logo se interessou em participar das atividades da Sociedade Psicanalítica de Budapeste e, em 1919, apresentou um caso clínico que se tratava da análise de seu filho Erich, utilizando o pseudônimo de Fritz. Entre os psicanalistas era uma prática usual analisar os próprios filhos ou de seus colegas.
Na medida em que considera a brincadeira como uma atividade natural das crianças, Melanie Klein, tendo como base a ludicidade, elabora uma técnica de análise clínica com crianças fundada no brincar. Segundo ela, por meio da brincadeira a criança é capaz de expressar simbolicamente suas fantasias inconscientes, seus desejos e experiências vividas (COSTA, 2010).
Ainda que Klein tenha desenvolvido um escopo teórico próprio, as bases psicanalíticas são marcantes em sua perspectiva, também é o acesso ao inconsciente que lhe interessa. Para ela, o que diferencia a clínica analítica entre adultos e crianças é a forma de acesso ao inconsciente, com as crianças ele se dá através do brincar e com os adultos pela livre associação discursiva, como afirma Costa (2010, p. 31): “a prática psicanalítica com crianças repousa sobre o mesmo corpo conceitual teórico no qual se apoia toda a teoria psicanalítica: o inconsciente, a transferência e a pulsão”.
Segundo Costa (2010, p. 30), o pensamento teórico kleiniano fundamenta-se pelo processo de que o mundo interno forma-se por percepções do mundo externo. “O elemento organizador essencial do pensamento de Melanie Klein é a prevalência da fantasia e dos ‘objetos internos’ sobre as experiências desenvolvidas no contato com a realidade externa”. Nesse sentido, a autora traz o seio materno como o primeiro objeto com o qual a criança se relaciona com o mundo externo, sendo percebido como "seio bom" ao receber dele seu alimento causando-lhe satisfação e "seio mau" quando não recebe alimento à hora que deseja. Como invariavelmente não há a possibilidade de satisfação contínua, fica o registro do seio bom e mau. Como Zornig (2000, p. 88) explana:
bastante cedo, o ego tem relação com dois objetos: o objeto primário, o seio é dividido em duas partes - o seio ideal e persecutório. A fantasia do objeto ideal funde-se com as experiências gratificantes de amor e de alimentação recebidos pela mãe externa e real e é confirmada por essas experiências, enquanto a fantasia de perseguição funde-se de modo semelhante, com experiências reais de privação e sofrimento as quais são atribuídas pelo bebê aos objetos perseguidores.
São dois sentimentos básicos que o bebê sente logo ao nascer, amor e ódio ao seio, objeto primário que inicialmente percebe-se em separado e que posteriormente integraliza e reconhece que é único, causando-lhe ansiedade persecutória, pois a reação de ódio e vingança pelo seio mau internaliza-se. A chamada "posição esquizoparanóide" se caracteriza por um conjunto de ansiedade
persecutória e pelas defesas respectivas. Com a posterior percepção de que o seio possa ter sido danificado e a sua possível perda, surge um sentimento depressivo, chamado por Klein de "posição depressiva", incluindo o conceito de fases pulsionais freudiano a um movimento de posições dinâmicas do funcionamento psíquico. Klein rompe com a noção de fases ou etapas, própria da perspectiva freudiana e inaugura o conceito de “posição”:
Ao postular o conceito de posição e não de fases ou etapas, Klein introduz um aspecto dinâmico e estrutural à clínica psicanalítica, já que qualquer posição (esquizoparanóide, depressiva) se modifica dependendo do lugar do sujeito face a seu sintoma.(ZORNIG, 2000, p. 90).
As trajetórias de Melanie Klein e Anna Freud se entrecruzam por divergências teóricas, seus posicionamentos são bastante controversos, resultando na formação de dois grupos teóricos distintos. A escola vienense liderada por Anna Freud que defende uma postura de análise com crianças com uma possibilidade pedagógica de adaptação e fortalecimento do ego. Já a escola kleiniana que se inicia na Sociedade Britânica de Psicanálise, dedica-se a explorar uma psicanálise com crianças fundamentada numa clínica que privilegia o mundo interno do sujeito do inconsciente, voltada a "liberar as atividades fantasmáticas que se exprimem pelo jogo e pelo desenho" (ZORNIG, 2000, p. 91).
O radicalismo teórico entre os dois grupos faz surgir um terceiro, que denomina-se “neutro” e um dos membros que se destaca neste terceiro grupo é Donald Winnicott.
2.4.3 Donald Winnicott e o espaço transicional
Donald Winnicott, nascido em abril de 1896, na Inglaterra, foi um importante psicanalista, membro da Sociedade Britânica de Psicanálise, com formação em medicina pediátrica, que se identificava teoricamente com o grupo denominado "Middle Group", grupo dos independentes.
Suas contribuições para a psicanálise relacionada a clínica infantil, sobretudo, dizem respeito a como a figura da mãe tem importante influência no desenvolvimento da criança. De acordo com ele, a relação precoce entre mãe e bebê desenvolve o psiquismo do nascente, estabelecido pelos cuidados maternos e
pelo espaço transicional que faz parte desta relação. Para o autor, a importância da mãe é vital no início da vida, pois é através de sua dedicação e cuidados que o bebê passa a conhecer o mundo. A expressão "mãe suficientemente boa" foi utilizada pelo autor para frisar a importância da função da mãe, conforme segue:
Winnicott repete em inúmeros textos que a mãe suficientemente boa é aquela que começa com uma adaptação quase completa às necessidades de seu bebê para, com o passar do tempo, adaptar-se menos completamente, de modo gradativo, segundo a crescente capacidade do bebê em lidar com seu fracasso. (ZORNIG, 2000, p. 97).
Ao adaptar-se as necessidades do bebê, a mãe permite que ele experimente uma sensação de segurança em relação à vida, possibilitando um desenvolvimento físico e psíquico inerente a gênese humana. Esta é a forma como a mãe possibilita o suporte psíquico nomeado por Winnicott como "holding", conforme Zornig (2000, p. 96):
Esta continuidade de cuidados, que corresponde à noção de holding ou sustentação psíquica, consiste em permitir que o ego infantil encontre pontos de referência estáveis e simples, mas fundamentais para que ele possa se integrar no tempo e no espaço.
Em uma fase posterior, após os seis meses de vida, o bebê, aos poucos, sente que ele e a mãe são separados, a partir desta percepção o bebê perde a ilusão de que tem autonomia em criar objetos, causando-lhe grande angústia nos momentos que a mãe ausenta-se, ou quando é hora de dormir. Para suportar a angústia da separação surge a necessidade de preenchimento deste espaço vazio, que irá entremear a realidade interna com a externa. Esta área, denominada de espaço transicional, “refere-se a uma área intermediária entre o corpo da criança e o corpo da mãe, que Winnicott designa como espaço potencial” (ROZA,1993,p.54).
O apego a algum objeto específico, os famosos paninhos ou bichinhos de pelúcia, corrobora para evidenciar um comportamento da criança que ainda não fala, mas que está inserida no contexto cultural e da linguagem. Segundo Roza (1993, p.53), Winnicott coloca o brincar em relação aos objetos transicionais, não como uma atividade específica do desenvolvimento infantil, "mas como prática significante que se estabelece bem anteriormente ao surgimento da linguagem verbal na criança". Os objetos transicionais cumprem a função que o próprio nome indica, uma transição, uma passagem que contribui para que a criança suporte a separação com