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Sustentabilidade: Primeiro Grande Inquérito em Portugal

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Luísa Schmidt

Mónica Truninger

João Guerra

Pedro Prista

Sustentabilidade

Primeiro Grande Inquérito

em Portugal

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© Instituto de Ciências Sociais, 2018 Capa e conceção gráfica: João Segurado

Revisão: Soares de Almeida

Impressão e acabamento: Gráfica Manuel Barbosa & Filhos, Lda. Depósito legal: 440852/18

1.ª edição: Maio de 2018

Instituto de Ciências Sociais — Catalogação na Publicação

SCHMIDT , Luísa

Sustentabilidade : primeiro grande inquérito em Portugal / Luísa Schmidt, Mónica Truninger, João Guerra, Pedro Prista. -

Lisboa : ICS. Imprensa de Ciências Sociais, 2018. ISBN 978-972-671-491-0

CDU 50

Imprensa de Ciências Sociais

Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa

Av. Prof. Aníbal de Bettencourt, 9 1600-189 Lisboa – Portugal Telef. 21 780 47 00 – Fax 21 794 02 74

www.ics.ulisboa.pt/imprensa E-mail: [email protected]

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Índice

Os autores . . . 15

Introdução . . . 17

Capítulo 1 Portugal prospetivo: setores, políticas e problemas . . . 33

Setores de investimento prioritário . . . 34

Políticas públicas . . . 42

Problemas ambientais . . . 47

Capítulo 2 Sustentabilidade e sensibilidades . . . 53

Familiaridade com sustentabilidade . . . 54

Definição de sustentabilidade . . . 57

Valores ecológicos . . . 63

Responsabilidade social das empresas . . . 69

Capítulo 3 Consumo e perfis de consumidores . . . 73

Consumo responsável . . . 74

Consumidor: dos perfis dominantes aos emergentes . . . 84

Capítulo 4 Saúde, alimentação e desperdício . . . 91

Autoavaliação, práticas e associações à alimentação saudável . . . 92

Responsabilidades, contextos e critérios de compra alimentar . . 105

Contextos de compra e aquisição alimentar . . . 107

Preocupação e informação alimentar: um ciclo de reforço mútuo . 114 Alternativas alimentares futuras . . . 117

Justiça socioambiental nos processos de produção . . . 119

(8)

Capítulo 5

Participação e práticas . . . 129

Associativismo e voluntariado . . . 130

Ações a favor da comunidade . . . 134

Ações a favor do ambiente . . . 136

Ações para promover a sustentabilidade ambiental . . . 141

Capítulo 6 Crise e mudança . . . 145

Alimentação e crise económica . . . 145

Mudança nas práticas de consumo . . . 148

Práticas de lazer, sonhos e perfis de consumidor . . . 155

Reflexões finais . . . 161

Bibliografia . . . 169

Anexo . . . 173

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Índice de figuras e quadros

Figuras

1.1 Setores em que Portugal deve investir (escolha múltipla) (%) . . . 35 1.2 Setores em que Portugal deve investir segundo o género (%) . . . 36 1.3 Setores em que Portugal deve investir segundo as gerações

mais jovens e mais velhas (%) . . . 37 1.4 Setores em que o país deve investir (comparação entre 2000 e 2016) (%) 38 1.5 Prioridades de políticas públicas . . . 43 1.6 Prioridades de políticas públicas segundo o sexo dos inquiridos (%) . 43 1.7 Prioridades de políticas sociais (média por idade, escolaridade

e rendimento) . . . 44 1.8 Prioridades de políticas ambientais (média por idade, escolaridade

e rendimento) . . . 44 1.9 Prioridades de políticas económicas (média por idade, escolaridade

e rendimento) . . . 45 1.10 Prioridades de políticas de governança (média por idade,

escolaridade e rendimento) . . . 45 1.11 Problemas ambientais referidos pelos portugueses (escolha múltipla) (%) 48 1.12 Os oito problemas ambientais mais referidos segundo o grupo etário (%) 49 1.13 Problemas ambientais segundo a escolaridade (escolha múltipla) (%) . 50 1.14 Categorias de problemas selecionados (% do total de respostas) . . . 51 2.1 Já ouviu falar no termo «sustentabilidade»? . . . 54 2.2 Familiaridade com o termo sustentabilidade segundo a idade

e o habitat subjetivo (%) . . . 55 2.3 Contextos em que os portugueses ouviram falar de sustentabilidade

(escolha múltipla) (%) . . . 55 2.4 Responsabilidade atribuída na promoção de sustentabilidade

(escolha múltipla) (%) . . . 56 2.5 Principais definições associadas a sustentabilidade (%) . . . 58

(10)

2.6 Principais definições associadas a sustentabilidade por escolaridade (%) . 61 2.7 Dimensões cognitivas da sustentabilidade (categorias de resposta) . . . 62 2.8 Equidade, valores locais e sustentabilidade ambiental (%) . . . 63 2.9 Níveis médios de pendor ecocêntrico e antropocêntrico . . . 64 2.10 Adesão aos valores ecológicos segundo o habitat, idade e género

(média) . . . 65 2.11 Pendor pró-ecológico e pendor antropocêntrico por sexo, idade

e escolaridade . . . 66 2.12 Adesão aos valores ecológicos segundo a familiaridade com o termo

«sustentabilidade» . . . 67 2.13 Adesão aos valores ecológicos – valores distritais e nacionais (%) . . . . 68 2.14 Áreas onde as empresas devem realizar ações de responsabilidade

social (%) . . . 70 2.15 Quem considera prioritária a saúde para beneficiar de apoio

das empresas (RSE) . . . 70 2.16 O que os portugueses mais valorizam dentro da área da saúde

para serem apoiados por empresas (escolha múltipla) (%) . . . 71 3.1 Principais medidas defendidas para aumentar o consumo responsável (%) 75 3.2 Principais medidas para aumentar o consumo responsável

por habitat (%) . . . 75 3.3 Disponibilidade para reduzir os padrões de consumo para proteger

o ambiente . . . 77 3.4 Disponibilidade para reduzir os padrões de consumo e práticas

e valores ambientais . . . 78 3.5 Opinião sobre o uso de recursos naturais e o respeito pelos direitos

humanos (sensibilidade socioambiental) (média) . . . 78 3.6 Sensibilidade socioambiental face aos processos de produção

e características sociográficas . . . 80 3.7 Disponibilidade para a mudança decorrente do grau de sensibilidade

socioambiental . . . 80 3.8 Sensibilidade socioambiental e disponibilidade para reduzir

os padrões de consumo . . . 83 3.9 Modelo de sensibilidade socioambiental face aos processos

de produção . . . 83

(11)

3.10 Perfis do consumidor português e clusters de adesão . . . 85 3.11 Perfis de consumidor segundo as famílias com ou sem filhos menores . 87 4.1 Autoavaliação do estilo de vida e da alimentação segundo a saúde (%) 92 4.2 Modelo «vida saudável» (estilo de vida e alimentação) . . . 93 4.3 Adoção de comportamentos saudáveis (resposta múltipla) (%) . . . 94 4.4 Adoção de comportamentos saudáveis por sexo (resposta múltipla) (%) . 95 4.5 Adoção de comportamentos saudáveis por faixa etária

(resposta múltipla) (%) . . . 96 4.6 Adoção de comportamentos saudáveis por habitat

(resposta múltipla) (%) . . . 97 4.7 Consumo de alimentos de agricultura biológica (%) . . . 98 4.8 Práticas associadas à alimentação saudável (escolha múltipla) (%) . . . 98 4.9 Associações de práticas à alimentação saudável por sexo (%) . . . 99 4.10 Práticas associadas à alimentação saudável por idade (%) . . . 100 4.11 Práticas associadas à alimentação saudável por nível de escolaridade (%) . 101 4.12 Alimentação saudável associada à ingestão frequente

de verduras/legumes (%) . . . 102 4.13 Quais os principais responsáveis pelas compras alimentares? (%) . . . . 106 4.14 Locais de acesso a produtos alimentares dos portugueses (%) . . . 108 4.15 Onde os portugueses compram, em média, produtos alimentares . . . 109 4.16 Critérios na escolha de produtos alimentares (média) . . . 112 4.17 Critérios usados pelos portugueses na compra de alimentos

embalados (média) . . . 114 4.18 Preocupações alimentares dos portugueses (%) . . . 115 4.19 Preocupação com os alimentos segundo o género, idade e habitat

(média) . . . 116 4.20 Modelo de correlações – preocupação alimentar e critérios de escolha . 116 4.21 Disposição para optar por alternativas alimentares futuras (%) . . . 118 4.22 Disposição para optar por alternativas alimentares futuras

(sem carne) . . . 118 4.23 Disposição para optar por alternativas alimentares futuras segundo

a idade, escolaridade e habitat . . . 119 4.24 Nível de concordância com a justiça socioambiental dos processos

(12)

4.25 Prioridade à produção local, mesmo que isso implique preços mais

elevados (média) . . . 121

4.26 Atitudes face à redução do desperdício alimentar . . . 122

4.27 Índice de incentivo à redução do desperdício alimentar na restauração e supermercados . . . 123

4.28 Modelo da redução de desperdício alimentar nas empresas . . . 123

4.29 Redução individual de desperdício alimentar (média) . . . 125

4.30 Quem deita fora as sobras de comida? (média) . . . 125

4.31 Importância de ações para a combater o desperdício alimentar (média) 127 5.1 Participantes e não participantes em organizações não lucrativas . . . . 131

5.2 Participação em organizações não lucrativas (escolha múltipla) (%) . . 131

5.3 Áreas de intervenção das práticas em organizações não lucrativas . . . 132

5.4 Práticas desenvolvidas a favor da comunidade (%) . . . 135

5.5 Práticas a favor da comunidade por sexo e rendimento subjetivo (média) . . . 135

5.6 Ações desenvolvidas a favor do ambiente (%) . . . 137

5.7 Nível médio de ações de reciclagem (média) . . . 137

5.8 Opinião sobre as consequências da medida de taxar os sacos plásticos (%) 138 5.9 Opinião sobre as consequências de taxar os sacos plásticos segundo o género . . . 139

5.10 Consequência na separação do lixo da medida de taxar sacos plásticos 140 5.11 Adesão dos portugueses a medidas ligadas à energia (%) . . . 141

5.12 Ações de sustentabilidade ambiental mais importantes (%) . . . 142

5.13 Ações de sustentabilidade ambiental mais importantes por categorias . 143 6.1 Autoavaliação dos efeitos da crise económica na alimentação . . . 146

6.2 Razões atribuídas à mudança nos hábitos alimentares (%) . . . 147

6.3 Mudanças nas práticas de consumo (escolha múltipla) (%) . . . 149

6.4 Caracterização sociodemográfica de quem não alterou os hábitos de consumo (%) . . . 150

6.5 Mudanças nas práticas de consumo com a crise (%) . . . 150

6.6 Representação bidimensional de elementos (frugalidade e poupança) . 153 6.7 Frugalidade e poupança segundo determinados grupos sociais . . . 154

6.8 Mudanças nas atividades de lazer por efeito da crise (%) . . . 155

6.9 Manutenção e ausência de atividades de lazer nos portugueses (%) . . 156

(13)

6.10 O que os portugueses fariam se o seu orçamento familiar aumentasse (%) 157 6.11 Perfis de consumidor dominantes segundo as práticas de consumo

e investimentos . . . 158

6.12 Perfis de consumidor emergentes segundo as práticas de consumo e investimentos . . . 159

A.1 Situação dos inquiridos face ao trabalho . . . 174

A.2 Inquiridos segundo o rendimento subjetivo . . . 175

A.3 Inquiridos por escalão etário e habitat subjetivo . . . 175

A.4 Distribuição demográfica por rendimento do agregado familar . . . 177

Quadros

1.1 Retrato sociodemográfico – setores em que Portugal deve investir (prioridade alta) . . . 40

1.2 Retrato sociodemográfico – setores em que Portugal deve investir (prioridade média) . . . 41

1.3 Retrato sociodemográfico – políticas públicas mais importantes . . . . 46

2.1 Retrato sociodemográfico – definições associadas às dimensões ambiental e económica . . . 59

2.2 Retrato sociodemográfico – definições associadas às dimensões social e de governança . . . 60

3.1 Retrato sociodemográfico – medidas para aumentar o consumo responsável . . . 76

3.2 Retrato sociodemográfico – sensibilidade socioambiental face aos processos de produção . . . 79

3.3 Retrato sociodemográfico – questões socioambientais e disponibilidade para mudar . . . 82

3.4 Retrato sociodemográfico – perfis do consumidor português . . . 88

4.1 Retrato sociodemográfico – avaliação da vida saudável . . . 93

4.2 Retrato sociodemográfico – associações semânticas à alimentação saudável (redução) . . . 103

4.3 Retrato sociodemográfico – associações semânticas à alimentação saudável (acréscimo) . . . 104

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4.4 Retrato sociodemográfico – responsabilidade pelas compras

alimentares . . . 106

4.5 Contextos de compra de produtos alimentares . . . 109

4.6 Retrato sociodemográfico – contextos de compras alimentares . . . 111

4.7 Relação dos critérios na escolha de alimentos com os perfis de consumidor . . . 113

4.8 Relação da disposição para alternativas alimentares com os perfis de consumidor . . . 120

4.9 Retrato sociodemográfico – justiça socioambiental . . . 121

4.10 Retrato sociodemográfico – redução do desperdício individual e nas empresas . . . 126

5.1 Retrato sociodemográfico – membros associados de organizações não lucrativas . . . 133

5.2 Retrato sociodemográfico – trabalho voluntário em organizações não lucrativas . . . 133

5.3 Retrato sociodemográfico – ações individuais e coletivas a favor do ambiente (mais comum) . . . 138

5.4 A medida de taxar os sacos plásticos segundo a adesão aos novos valores ecológicos . . . 139

6.1 Retrato sociodemográfico – alimentação saudável face à experiência de crise . . . 148

A.1 Nacionalidades da amostra e da sua ascendência (%) . . . 173

A.2 Retrato sociodemográfico – habitat subjetivo (mais comum) . . . 176

A.3 Retrato sociodemográfico – habitat subjetivo (menos comum) . . . 176

A.4 Retrato sociodemográfico – rendimento do agregado familiar . . . 177

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Os autores

Luísa Schmidt, socióloga, é investigadora principal no Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa, onde coordena o Observa – Observatório de Ambiente, Território e Sociedade. É membro do Conse-lho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável e integra o comité científico do programa doutoral interdisciplinar em «Alterações Climáticas e Políticas de Desenvolvimento Sustentável», iniciado em 2009. Autora de vários artigos e livros; colaboradora regular do jornal

Ex-presso.

Mónica Truninger, socióloga, é investigadora auxiliar no Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa, onde coordena vários projetos nacionais e internacionais na área da alimentação, consumo e sustentabilidade. É membro do Observa, autora de vários artigos e livros, e coedi -tora do Routledge Handbook on Consumption, publicado em 2017 pela Routl edge.

João Guerra, sociólogo, é investigador de pós-doutoramento no Ins-tituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa. A sua área de interesse é a construção da sustentabilidade e, em particular, a mobilização social e o intrincado de relações e interdependências que a constituem. É mem-bro do Observa e do Grupo de Investigação em Ambiente, Território e Sociedade do referido instituto.

Pedro Prista, antropólogo, é professor auxiliar no Departamento de Antropologia da Escola de Ciências Sociais e Humanas do ISCTE-IUL, investigador integrado do CRIA-ISCTE-IUL, colaborador do IELT-UNL e investigador associado do Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa, onde integra a equipa do Observa desde o seu início. Entre outros temas de investigação, tem abordado processos de transformação na sociedade portuguesa.

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Introdução

1. Este livro resulta, como o seu próprio nome indica, daquele que foi o primeiro grande inquérito realizado à escala nacional sobre alguns aspetos da cada vez mais atual e multifacetada questão da sustentabilidade. Com efeito, as ruturas ambientais e sociais resultantes do modelo de crescimento económico prevalecente têm-se feito sentir de forma progressiva e aguda em todo o mundo nos últimos anos e, particularmente, a partir da crise finan-ceira mundial de 2008 (com particulares repercussões em Portugal entre 2011 e 2014), colocando a problemática da sustentabilidade em maior relevo.

Da crise dos refugiados à das energias, das tensões políticas interna-cionais aos novos populismos e fundamentalismos, dos impactos das al-terações climáticas à crise da consciência cívica no mundo das redes so-ciais, tudo parece escapar à lógica de uma racionalidade global justamente no momento em que os processos desmultiplicados da globalização mais exigiriam e mais fariam esperar a intensificação dos acordos, do diálogo, da cooperação e do encontro em torno de objetivos comuns. É por estes desígnios comuns que a ONU tem mantido e renovado o seu plano de grandes objetivos globais, inicialmente os Objetivos do Milénio (2000--2015) e agora os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (2016-2030), reformulados e mais abrangentes – implicando todos os países do mundo na agenda 20-30 e nas suas metas (UN 2015).

Nunca os valores da sustentabilidade foram tão decisivos e nunca es-tiveram em situação tão crítica como agora. Estará este paradoxo asso-ciado à própria noção de sustentabilidade? Na verdade, o conceito mul-tiplica a sua utilização, mas também suscita revisões críticas. Seja como for, o que está em causa é de tal modo importante que o assunto se revela decisivo a qualquer escala que o queiramos considerar. Assim, tomar o pulso às representações e práticas de sustentabilidade em Portugal parece indiscutivelmente pertinente.

Não se pense, contudo, que o assunto é recente. Os próprios antece-dentes da noção de sustentabilidade mergulham raízes na filosofia moral e assinalam parentesco com questões de prosperidade, paz e até algumas utopias de várias épocas. A palavra atualiza, pois, antecedentes remotos e a noção ecoa preocupações antigas, mas o quadro atual, em que tanto

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a palavra como a noção existem, tem uma escala, complexidade e urgên-cia tais que obrigam a tomá-la como uma realidade nova gerada da ace-leração que se seguiu ao período do pós-Segunda Guerra Mundial.

É neste sentido que particularmente no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, a questão tem sido abordada e muito especifica-mente pela equipa do Observa – Observatório de Ambiente, Território e Sociedade – desde 1997. Integrando as quatro dimensões – ambiental, social, económica e de governança –, a problemática da sustentabilidade tem sido uma linha permanente dos projetos de investigação que o Observa tem conduzido em Portugal, por vezes em associação com outros projetos de escala internacional, tais como o European Social Survey, European Values

Sur-vey, International Social Survey Programe, ou ainda a rede Energy and Society.

A ideia de realizar um inquérito nacional às representações e práticas em torno da sustentabilidade pôs em rota de encontro estes importantes antecedentes de pesquisa com a crescente urgência e multiplicação das diferentes escalas do problema. Foi por isso que o desafio lançado ao ICS pela Missão Continente – uma missão votada à sustentabilidade – pareceu um exemplo de boa articulação entre as inquietações da socie-dade civil sobre as suas responsabilisocie-dades, as estruturas empresariais e a missão cívica da investigação científica.

O estudo desenvolveu-se entre abril e setembro de 2016 e os resultados pareceram, para além de relevantes, também inspiradores, recomendando desdobramentos, continuidades e sobretudo ampla divulgação. É o que o Observa realiza agora, com o apoio da Missão Continente, através da publicação deste livro.

O título desta obra não poderia, pois, deixar de ser Sustentabilidade. Uma palavra que se diria do momento e que expressa as mais transversais angústias do tempo presente face a um futuro incerto. É também um termo cujos contornos permanecem disputados e um conceito que não parou ainda de se desdobrar e cujos antecedentes revelam longínqua ge-nealogia (Amaro 2003; Soromenho-Marques 2003 e 2005).

Não queremos aqui, nem tal seria possível, abordar este interessante conjunto de histórias que o conceito – interdisciplinar, aliás – transporta consigo, mas não podemos deixar de assinalar algumas reflexões recentes em torno das noções de sustentabilidade, de desenvolvimento, de cres-cimento e de desenvolvimento sustentável.

2. Trinta anos depois da publicação do Relatório Brundtland, que lançou e projetou o conceito de desenvolvimento sustentável (DS), este continua a ser, sem dúvida, um grande desígnio a várias escalas.

Sustentabilidade

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Apesar de, em termos globais, diversos indicadores ambientais, sociais e económicos evidenciarem um afastamento progressivo do modelo de DS então defendido, coexistem avanços notáveis, mesmo que localiza-dos. Sobretudo alastrou a popularidade do conceito, envolvendo dife-rentes agentes sociais e económicos em distintos contextos demográficos (Schmidt e Guerra 2016).

O DS implica o equilíbrio entre imperativos adstritos às suas quatro dimensões: uma economia menos predatória e regenerativa, mais coesão e equidade social, mais conservação e restauro ambiental, mais e melhor democracia e transparência nos processos de decisão.

Temos assim que, por um lado, a transversalidade, elasticidade e om-nipresença da ideia de desenvolvimento sustentável representará certa-mente uma das suas maiores potencialidades e, no mínimo, terá imposto uma consciência clara dos limites ecológicos hoje dificilmente contestá-veis. Por outro lado, a multiplicação de definições e interpretações que decorreram dessa disseminação alargada, bem como o agravamento da pressão sobre os recursos, poucos efeitos tiveram no redesenhar dos ca-minhos para a sua aplicação efetiva, tornando o conceito de DS alvo de crítica e até de contestação.

Dois sentidos dessa crítica se destacam. Um aborda a eventual carência lógica da expressão, chegando mesmo a considerá-la um «oxímero» (Daly 1990; Redclift 2005). Trata-se de uma crítica que se foca na natureza con-traditória da relação entre crescimento e sustentabilidade no pressuposto de uma identificação direta, ainda que não expressa, de desenvolvimento com crescimento. Veremos adiante como este eventual paradoxo se en-contra assumido ao nível de propostas programáticas específicas e constitui atualmente uma importante frente de exploração de vias para a sustenta-bilidade, omitindo-se nela intencionalmente as expressões «desenvolvi-mento» ou «cresci«desenvolvi-mento».

A outra tem a ver com a distância entre o discurso e a prática recorrente em todos os processos de mudança social – e mais ainda num processo que se pretende global. Neste sentido, vários autores têm sublinhado cri-ticamente o «generoso» discurso da sustentabilidade como um mero re-curso de conveniência e, eventualmente, uma forma legitimada de os paí-ses do Norte penetrarem nos paípaí-ses do Sul, assegurando novas formas de apropriação, por exemplo, através do patenteamento da biodiversidade e dos recursos naturais (Pureza 2000; Redclift 2009). Esta crítica recorrente relaciona-se com o facto de a agenda da sustentabilidade ser quase exclu-sivamente delineada pelos países do Norte e pelos seus problemas e inte-resses, numa espécie de neoimperialismo ecológico ocidental (Latouche

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2005; Beck 2009), bem visível, por exemplo, na forma como o problema das alterações climáticas tem sido equacionado. Embora os países do Sul já sejam as principais vítimas das consequências das alterações climáticas (para as quais, aliás, quase não contribuíram), na perspetiva do Sul a agenda em torno desta questão tem sido essencialmente marcada pelos interesses do Norte. Um sintoma disso mesmo é a preocupação recorrente e dominante com problemas que afetarão as gerações futuras, minorando--se problemas bem mais próximos que se colocam já às gerações do pre-sente, em muitas regiões e países do Sul (Latouche 2005; Redclift e Hinton 2008; Redclift e Springett 2015). Na sequência destes e de outros alertas lançados por cientistas de diversas áreas, o papa Francisco, na sua recente carta-encíclica Laudato Si, alerta claramente para esta situação, articulando as questões do ambiente com as das desigualdades e formulando a equa-ção entre justiça e carbono como decisiva na resposta Norte/Sul aos efei-tos das alterações climáticas. O papa desafia-nos depois na «busca de um desenvolvimento que seja verdadeiramente sustentável» porque nele vê a capacidade de mudança de rumo por ser um modelo de economia mais inteligente capaz de contrariar o horizonte de derrocada das sociedades humanas (Francisco 2015).

Por isso, apesar de todas as críticas anunciadas, importa sublinhar as transformações decisivas e as conquistas já alcançadas pelo projeto de pro-moção global dos princípios do desenvolvimento sustentável. Indepen-dentemente das contradições e críticas dos que veem o desenvolvimento sustentável mais como um discurso balsâmico do que como uma estraté-gia efetiva de decisão, alguns autores sublinham a sua importância en-quanto discurso inspirador de mudança, evidenciando fatores essenciais de ordem social, económica e ambiental e colocando o desenvolvimento e o ambiente como duas faces da mesma moeda. Por outras palavras, a dimensão excessivamente retórica do discurso do desenvolvimento sus-tentável, como alguns acusam, faz, afinal, parte da sua própria força, na medida em que um dos objetivos é justamente testar a sua capacidade de influência, de persistência e de arrastamento de consequências.

Mesmo que, a partir de 2008, a crise financeira tenha abrandado, ou até desvirtuado, a implementação do desenvolvimento sustentável e pro-movido os critérios económicos em detrimento dos sociais e ambientais, o certo é que os processos transformativos para a sustentabilidade segui-ram o seu caminho, eventualmente com ritmos mais brandos e com mu-danças, ora impostas, ora optadas.

E, de facto, voltando ao Relatório Brundtland, podemos dizer que, se é verdade que a distância entre o discurso e a prática da sustentabilidade Sustentabilidade

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infelizmente aumentou, muitas das suas sementes também germinaram: o tema está inscrito na ordem do dia das agendas políticas nacionais e internacionais; influiu cognitivamente, alcançando consensos, mesmo que algo retóricos; entrou nas lógicas de produção do mundo empresa-rial; faz parte das prioridades da investigação científica; constitui um pro-cesso cumulativo de conquistas, ainda que com reveses, como atual-mente se constata. Veja-se, por exemplo, o modo como muitas organizações internacionais e europeias se têm mobilizado na produção de documentos com propostas inovadoras para uma nova economia mais sustentável, mais verde e de maior bem-estar (Ferrão 2014).

3. Ora, justamente num desses documentos – Prosperidade sem

Cresci-mento: Economia para Um Planeta Finito –, Tim Jackson alerta para o facto

de um dos maiores desafios para a sustentabilidade ter a ver com os pro-cessos de produção e consumo de bens e serviços. Não se trata apenas ou essencialmente de uma questão ambiental. A sustentabilidade implica o reforço do sentido crítico entre cidadãos responsáveis e atuantes que ponham em causa o status quo, o repensar de práticas de produção e de consumo e, sobretudo, uma consciência clara dos efeitos que o modo de vida de uns têm sobre a capacidade de escolha de muitos outros (Jack-son 2009 [2013]).

As práticas de produção e consumo são, pois, uma componente nuclear da sustentabilidade – das sustentabilidades todas, se quisermos pensar nas suas várias vertentes em separado, como habitualmente surgem referidas. «Por um lado, a motivação do lucro estimula produtos e serviços mais novos, melhores ou mais baratos, através de um processo contínuo de inovação e ‘destruição criativa’. Por outro lado, a procura cada vez maior desses bens por parte dos consumidores é alimentada por uma lógica so-cial complexa» (id., ibid., 110). Repensar as formas de produção e estilos de vida que mais pressionam os recursos em sociedades de hiperconsumo são, por isso, aspetos cruciais para a sustentabilidade no futuro.

Elaborado em 2009, este documento de Tim Jackson traduz o modo como resultou no pensamento económico a experiência traumática da crise de 2008, ponderando com notável sensatez a condição económica da sociedade ocidental e demonstrando com lucidez a viabilidade prática da saída da(s) crise(s). O texto é também uma proposta programática que fala de coisas que tocam individualmente a vida de todos nós: prosperi-dade, bem-estar, segurança... Entre algumas passagens particularmente im-portantes destaca-se, por exemplo, a de uma redefinição da ideia de «pros-peridade» em termos modernos, que parte do princípio, já amplamente

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verificado, segundo o qual viver na vertigem de consumir cada vez mais mercadorias, mais baratas e menos duradouras não aumenta o estado de satisfação das pessoas com a vida. Isto é, mais consumo material não im-plica necessariamente atingir mais felicidade.

Não se trata aqui, evidentemente, de suspender o consumo, o que acarretaria uma ruína tão má ou pior do que aquela em que estamos a cair, mas sim de gerar novos horizontes de consumo – não só ao nível dos bens produzidos, mas também da forma como eles são consumidos. Aquilo a que se pode chamar uma «frugalidade epicurista» que permita elevar a arte e a cultura do consumo na razão inversa das suas insusten-tabilidades todas. Trata-se de incentivar uma nova cultura de consumo mais sofisticada, menos viciada nas montanhas de produtos inúteis e na espiral de consumismo que nos levou ao irremissível endividamento com que a crise nos trouxe à coleira. Uma cultura de consumo ambiental e socialmente motivada que implique mais incorporação de conhecimento e de inovação, desdobrando novos setores económicos com um cresci-mento de perfil diferente, ou seja, com lógicas energéticas e ambientais muito mais desenvolvidas e socialmente mais justas. Apesar de esta abor-dagem não criticar moralmente as práticas de consumo – entendendo--as como ferramentas fundamentais de comunicação, identidade e expres-são de valores e convenções sociais das sociedades contemporâneas –, o autor não deixa de partir de uma visão demasiado voluntarista, indivi-dualista e racional. Isto é, parte do pressuposto de que, com conheci-mento, vontade e empenho pessoal, as pessoas conseguem compreender a necessidade da mudança das suas práticas de consumo.

Nesta ótica, as escolhas de bens e serviços mais sustentáveis decorre-riam de uma maior consciência dos efeitos negativos do seu próprio con-sumo na capacidade de carga do planeta. Porém, para que tornemos o consumo mais sustentável não é suficiente fazermos melhores escolhas ou aumentarmos a nossa consciência sobre os malefícios do nosso con-sumo excessivo. Precisamos de fazer mudanças fundamentais na forma como vivemos, trabalhamos e usufruímos de atividades de lazer e férias, e muitas destas mudanças não podem ser realizadas sem acicatar cons-ciências. O consumo sustentável requer assim que façamos mudanças profundas nas nossas práticas quotidianas (Watson 2017), tornando-se crucial uma análise capaz e a compreensão desse processo de mudança.

Nesse sentido, pesquisas recentes na área do consumo começam a dar atenção aos aspetos mais invisíveis, mundanos e quotidianos destas prá-ticas, refinando inclusive o próprio conceito de consumo. Este último deixa de se tornar uma prática para ser entendido como um momento Sustentabilidade

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que ocorre em quase todas as práticas quotidianas (Warde 2017). Isto é, para se ser competente na realização de determinadas práticas (seja reci-clar, comprar produtos de agricultura biológica, passear em jardins ou parques, trabalhar numa horta urbana) é necessário adquirir bens e ser-viços (caixotes para a separação do lixo, produtos «bio», sapatos confor-táveis para passeio, enxadas e sementes, água, energia, terra). Ou seja, consumir de forma a reproduzir essas mesmas práticas que incorporam determinados significados e valores, bem como conhecimentos, capaci-dades e competências (Halkier, Keller, Truninger e Wilska 2017).

Mas, mais importante do que focar a forma como as práticas se cons-tituem, reproduzem ou desvanecem no dia a dia, é cada vez mais pre-mente entender as relações entre várias práticas, tendo em conta escalas analíticas, espaciais e temporais múltiplas. O conceito de «sistemas de prá-tica» permite que mudanças nas práticas estejam relacionadas com mu-danças em todos os sistemas nos quais essas práticas estão incorporadas, bem como os seus momentos de consumo de bens e serviços (Watson 2012; Truninger 2015). A procura de mudanças nas práticas pode significar a busca de mudanças que impliquem a reestruturação dos sistemas de provisão de bens e serviços (e. g., água, energia, alimentação, vestuário, desperdício e lixo), dos meios de comunicação social, do governo, das empresas, do desenho das cidades sustentáveis do futuro, do planeamento dos deslocamentos vários das populações por causa dos efeitos das alte-rações climáticas. Tudo isto em vez de intervir diretamente nos compor-tamentos individuais – o que constitui uma pequena gota num enorme oceano de mudanças necessárias em direção à sustentabilidade.

É nesta linha que as Nações Unidas vêm trabalhando cada vez mais em torno de caminhos viáveis tendo por base os valores da sustentabili-dade, como propõem agora os Objetivos do Desenvolvimento Susten-tável (ONU 2015), a implementar por todos os países do mundo durante os próximos quinze anos, orientando políticas nacionais e medidas de cooperação internacional na agenda 20-30. Nos 17 objetivos e 169 metas articulam-se problemas ambientais, económicos, sociais e de governança global no sentido de contrariar o horizonte de derrocada das sociedades humanas e do planeta.

Trata-se de procurar a transição para modelos de economia mais inte-ligentes, que garantam políticas de regeneração e desenvolvimento cons-trutivas não só do ponto de vista económico, como ambiental, social e ético, passando obrigatoriamente pela redução da pobreza e por uma nova gestão sustentável dos recursos naturais. Tal implica mudanças pro-fundas nos hábitos quotidianos das populações e passa pela redefinição

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dos próprios conceitos de «progresso» e «prosperidade» em termos mo-dernos, distanciados da bulimia e da obesidade das sociedades de hiper-consumo ditas avançadas. Há um nível a partir do qual a espiral de con-sumo perde eficiência na produção de bem-estar para os seus consumidores, mas continua a produzir mal-estar e degradação às socie-dades cujos recursos naturais explora.

Uma mudança que implica também conceitos como a «suficiência», a «poupança» e a «frugalidade». Neste sentido, o trabalho de Thomas Princen – The Logic of Sufficiency – questiona o princípio da eficiência como caminho adotado pelas sociedades contemporâneas para a susten-tabilidade. A eficiência energética, por exemplo, mais do que reduzir a utilização de recursos escassos, teve, por vezes, efeitos contrários aos es-perados, aumentando até muitas vezes o consumo energético («efeito de ricochete»). É por esta razão que Princen acredita que as sociedades atuais devem seguir uma lógica diferente – em vez da eficiência devem apostar na suficiência.

Esta aposta implica saber viver, trabalhar e consumir de forma regrada, sem cometer excessos e contentando-se com o suficiente. A ideia da sufi-ciência preconiza que, através de uma racionalidade ecológica, as pessoas sejam capazes de se conterem nos seus consumos e gastos de recursos de forma a obterem ganhos e vantagens no futuro (e. g., sobrevivência do pla-neta, bem-estar para as gerações futuras). Reconhecer que se tem o suciente para viver com bem-estar é algo que norteia o fundamento desta fi-losofia. Apesar de a distinção entre uma lógica da eficiência e da suficiência ser um contributo interessante nesta discussão, o que é certo é que o con-ceito de suficiência não foi ainda devidamente debatido e problematizado. Alguns autores têm vindo a contribuir para dissecar a diferença entre os conceitos de frugalidade e poupança, os quais tocam, nalguns aspetos, no de suficiência. Evans (2011), tendo como pano de fundo a crise económica pós-2008, distingue entre poupança (thrift) e frugalidade (frugality) para olhar para as questões do consumo sustentável e conclui que há diferenças a as-sinalar. Assim, o conceito de poupança apresenta uma divergência com o consumo sustentável, já que o objetivo é poupar nos recursos para mais tarde, quando a crise passar, se voltar a gastar de novo. Há uma restrição no consumo como expressão de um cuidado com o próximo (o bem-estar da família e amigos), mas, assim que as circunstâncias económicas melho-ram, volta-se aos velhos hábitos de consumo conspícuo e excessivo.

Por contraste, a frugalidade está mais orientada para o consumo sus-tentável, uma vez que parte do imperativo moral de poupar e reduzir o uso excessivo de recursos para preservar o planeta e o bem-estar de Sustentabilidade

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outrem. Inspirada no legado do puritanismo e ascetismo, a frugalidade valoriza o trabalho em vez do lazer, a poupança em vez do gasto, a res-trição em vez da indulgência, apresentando-se como uma resres-trição moral ao consumo e uma forma de resistência aos excessos do consumo de massas (Evans 2011, 552-553). Este conceito está assim mais próximo do de suficiência de Princen e claramente mais orientado para as preocupa-ções da sustentabilidade, onde as questões do consumo prudente e a re-dução do desperdício são centrais.

Estes dois conceitos – poupança e frugalidade – serão mobilizados nas nossas análises de forma a testar se, com a crise económica, os portugue-ses se orientaram mais para uma atitude de poupança ou de frugalidade, sabendo que ambas as orientações têm implicações diferentes no que se refere ao posicionamento dos portugueses face à sustentabilidade.

4. Portugal é uma sociedade onde o consumo de massas surgiu tardia-mente, facto que deixou marcas na persistência de alguns valores de pou-pança e frugalidade. Contudo, identifica-se uma clivagem importante nas práticas sociais de consumo antes e depois do 25 de Abril de 1974. Antes da revolução de abril a sociedade portuguesa, maioritariamente rural e empobrecida, vivia num consenso generalizado em torno de va-lores de autossubsistência económica e de poupança, numa prudência desconfiada dos excessos, caucionada pela mentalidade difusa que o poder político promovia e da qual também comungava.

Portugal era não só pobre, como também fechado e isolado. Na se-gunda metade do século XXas populações rurais começavam a sentir o

declínio dos seus rendimentos devido à estagnação das taxas de cresci-mento da agricultura portuguesa, sobretudo a partir de finais dos anos 50 e inícios dos anos 60 (Brito Soares 2005). Assim, muitos terão resol-vido romper com a insustentabilidade da sua vida rústica, deslocando-se para as periferias urbanas, a viver por vezes em bairros de lata, ou emi-grando para a França, a Alemanha ou o Luxemburgo. A memória da ex-periência dramática de insustentabilidade socioeconómica das suas vidas pessoais tradicionais terá reforçado os valores defensivos de «produzir e poupar» na fórmula muito conhecida que Salazar popularizou.

Com o 25 de Abril outras insustentabilidades do país desembocaram igualmente na rutura: a insustentabilidade do regime político, a insus-tentabilidade da guerra colonial, a insusinsus-tentabilidade do isolamento in-ternacional. Subitamente, a sociedade portuguesa iniciou o seu processo de transformação para a descolonização e para a paz, para o regime de-mocrático, para a economia aberta e para a integração europeia.

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Sustentabilidade

Note-se que já anteriormente, a partir dos anos 60, algo se entreabrira com a experiência europeia dos emigrados, com as modernidades de con-sumo induzidas pelo turismo, que dava os primeiros passos, e com a pro-gressiva escolarização das crianças entre os 7 e os 9 anos (embora esta continuasse bastante incipiente entre os jovens acima dos 10 anos1). To-davia, sem o 25 de Abril não teria havido a mudança acelerada para todas as aberturas que haveriam de conduzir à expansão consumista dos anos 80. Em resposta aos anos intensamente políticos de 1974 a 1976, instala--se depois uma forma disciplinar da sociedade civil baseada num novo encantamento pelos media, entretanto desdobrados em mais suportes e protagonizados pela televisão a cores a partir de 1980.

Esta mudança subtil, que foi transferindo as pessoas das ruas e das pra-ças para o espaço doméstico, da vida pública para a vida privada e dos projetos políticos para as satisfações do consumo, trouxe uma adesão à cultura publicitária de ânimo moderno, juvenil e entusiasmante (Schmidt 1993). Este processo dava resposta a um novo comércio que, então, se começava a expandir e que contava com a promoção de novos objetos e produtos de consumo que a facilitação de crédito a partir de 1986 ins-tigou (Cruz 2013).

Bastou depois a caução política de sucessivos governos desde finais de 1980, seguida da inundação de fundos comunitários que a adesão à UE proporcionou e de créditos bancários fáceis, para criar o que terá sido a maior eclosão consumista na sociedade portuguesa. Uma sociedade agora totalmente aberta e imprudentemente instigada ao consumo de tudo obliterou nessa euforia, em apenas duas décadas, a sua memória antiga de frugalidade, prudência e poupança.

A época foi de grande expansão e euforia. Foram as décadas das gran-des superfícies, dos centros comerciais, dos outlets, das áreas comerciais, dos stands de automóveis novos e usados espalhados um pouco por todo o país, do ritmo galopante do renovo das aquisições e da dinâmica con-tínua de consumos, desde a habitação até à multiplicação de despesas associadas à escolaridade, aos lazeres e aos bens de apresentação e com-petição pelo prestígio social – dos telemóveis aos automóveis, que, por

1Nos anos 40 apenas 33% das crianças entre os 7 e os 9 anos frequentavam a escola

primária; essa percentagem sobe para 95% nos anos 60 (Candeias 2001, 59, cit. in Vieira 2011, 175). Como refere ainda Vieira (2011, 174): «A percentagem de jovens com mais de 10 anos que permanece a estudar nos liceus ou nas escolas técnicas é extremamente reduzida: somente 6,5% do total de jovens em 1950 e apenas o dobro (13,3%) em 1960, no caso dos jovens com idades compreendidas entre os 10 e os 17 anos».

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vezes, chegaram ao nível do ostentatório, tal como algumas revistas so-ciais retrataram nas vida das elites endinheiradas da época.

A repentina crise de 2008 abateu-se, assim, com uma «surpreendente sur-presa» sobre a maior parte da população, em larga medida já desligada das seguranças rústicas e das memórias da economia prudente da sociedade rural tradicional.

Os efeitos da austeridade que se seguiu foram drásticos, muitas vezes cruéis, e ampliaram as, já de si, profundas desigualdades sociais, numa altura em que se esperaria ter a modernização resgatado alguma equidade no interior da sociedade portuguesa (v. Rodrigues, Figueira e Junqueira 2016). De facto, o alargamento da escolaridade e as capacitações que gerou, os novos media, como a internet, a abertura cosmopolita e as muito melhoradas condições de vida que se tinham generalizado antes da crise levaram a esquecer que havia fossos de desigualdades que per-maneciam ativos. Rapidamente se aprofundaram ainda mais os enormes desequilíbrios dentro da sociedade portuguesa: ao mesmo tempo empo-breceu-se e enriqueceu-se muito; romperam-se acordos de solidariedade que se mostraram, afinal, mais frágeis do que o otimismo da democracia levara a julgar. E regressaram tensões sociais evocativas de um passado não muito distante.

Apesar da gravíssima prova de tração a que a sociedade portuguesa foi sujeita com «a crise», ecoaram nela, ainda assim, os vestígios de uma cul-tura antiga que falava de valores tradicionais de prudência, poupança, parcimónia e também do âmbito social que melhor os garantia: a família, as solidariedades próximas e a vida local, recuada quase sempre a meia distância entre os centros (sub)urbanos, grandes de mais, e o interior, vazio de mais. Era o mundo híbrido que Álvaro Domingues e Duarte Belo têm documentado (v., por exemplo, Belo 2008 e Domingues 2012 e 2017).

A sustentabilidade, aliás, as insustentabilidades em Portugal ganharam novas configurações e esta parecia ser a ocasião ótima para a investigar nas suas muitas modelações sociais e numa altura em que à escala inter-nacional se fazem já sentir os impactos de alterações globais por via cli-mática, mas não só.

Os valores da sustentabilidade estão, pois, instalados no destino da sociedade portuguesa não só pela experiência amarga da crise de 2008 (que em Portugal ganhou maior impacto a partir de 2011), mas também pela vulnerabilidade que o país manifestou de forma exuberante aos im-pactos das alterações climáticas. E tudo isto numa altura em que, ao con-trário do que seria de supor, os valores da velha prudência tradicional se

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assinalam mesmo que só vestigialmente e ainda que por vezes a reboque de ambíguos conservadorismos.

Faz tudo isto de Portugal um laboratório demasiado fascinante para se perder agora a ocasião certa de a explorar, tal como tem sido feito com outras dimensões da vida do país. Para tal, a equipa do ICS da Universi-dade de Lisboa liderou o processo de elaboração e operacionalização do primeiro grande inquérito que constitui o elemento-chave para o arran-que de um barómetro de desenvolvimento sustentável.

5. O objetivo central de criar um barómetro de desenvolvimento sus-tentável é contribuir para a sustentabilidade social, económica e ambien-tal do país, baseando-se no reconhecimento do papel que a informação desempenha na mobilização das comunidades para uma governança mais responsável e participada. Nele integrado, o Primeiro Grande Inquérito

sobre Sustentabilidade em Portugal é um estudo de grande dimensão a

re-plicar posteriormente com abordagens anuais mais focadas e, consequen-temente, mais reduzidas.

A sua operacionalização consiste num inquérito por questionário apli-cado direta e pessoalmente a uma amostra representativa da população portuguesa, cobrindo todas as áreas temáticas respeitantes à Missão Con-tinente (alimentação saudável, produção nacional, sustentabilidade am-biental e consumo responsável), mas não descurando temáticas relevantes que se enquadram noutras áreas estratégicas da sustentabilidade (por exemplo, o desperdício alimentar, a inclusão e justiça social e ambiental, a saúde, a cidadania e a participação). Posteriormente, em cada edição, vai ser selecionado um tema específico que será alvo de um aprofunda-mento mais detalhado, não invalidando, porém, a manutenção regular de uma bateria de questões consideradas centrais e que serão monitori-zadas ao longo do tempo.

Acreditando que o desenvolvimento sustentável é responsabilidade de todos – governo, empresas, sociedade civil e cidadãos – o Primeiro

Grande Inquérito sobre Sustentabilidade teve como objetivos gerais: (i)

co-nhecer os hábitos dos portugueses no que respeita às várias vertentes que compõem o conceito de desenvolvimento sustentável; (ii) identificar áreas onde se tornam prioritárias ações de informação, sensibilização e mobilização; (iii) partilhar informação importante com diversos parceiros da sociedade civil para definir melhores estratégias de atuação no sentido do desenvolvimento sustentável.

Trata-se de um inquérito pioneiro e, como já se referiu, representativo da população portuguesa com mais de 18 anos de idade, residente em Sustentabilidade

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Portugal (continente e ilhas), que explora a sensibilidade, os valores, o conhecimento e as representações sociais dos portugueses sobre susten-tabilidade. Neste sentido, abordam-se grandes campos temáticos organi-zados em torno das quatro dimensões do conceito: economia, sociedade, ambiente e governança.

A partir destas dimensões da sustentabilidade, aplicaram-se questões que cobriram os seguintes campos temáticos:

a) Opções e expectativas de desenvolvimento: atividades e visões

mais e/ou menos sustentáveis que se vislumbram para o futuro do país; políticas públicas prioritárias e dimensões que mais se ar-ticulam ao conceito de sustentabilidade;

b) Consumo e responsabilidade: perfis de consumidor (consciência,

lazer, variedade e escolha, experiência, suficiência, etc.); conflitos de valores nas práticas de consumo quotidianas (conveniência, preço, ambiente, justiça social, saúde e higiene); predisposição para a mudança nos padrões de consumo;

c) Produção nacional/global: valores, atitudes em relação à produção

nacional e local e também à produção global e suas implicações;

d) Alimentação e saúde: perceções sobre alimentação saudável,

cri-térios e locais de compra alimentar, perceções sobre risco alimen-tar, atitudes face ao futuro da alimentação;

e) Desperdício alimentar: atitudes face ao desperdício alimentar (nas

cantinas, nos supermercados e em casa); ações para minimizar o desperdício e noção da suficiência;

f) Participação e práticas: causas mais mobilizadoras para os

portu-gueses na resolução estrutural dos problemas socioambientais (ação coletiva ecológica, social ou económica, economia circular, associativismo, iniciativas de solidariedade social);

g) Crise e mudanças: impactos da recente crise económica nas

alte-rações dos hábitos de consumo, nas práticas alimentares e de lazer, bem como nas perspetivas futuras dos portugueses.

6. Os resultados obtidos encontram-se organizados em oito capítulos. Em primeiro lugar, a presente introdução procurou enquadrar breve-mente a problemática da sustentabilidade que inspira e modela os obje-tivos deste trabalho tanto em termos gerais como especificamente para a situação vivida pela sociedade portuguesa ao longo das últimas déca-das.

Segue-se depois a análise dos resultados. Numa parte inicial – «Portugal prospetivo: setores, políticas e problemas» (capítulo 1) – reflete-se sobre

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o modo como veem os portugueses o seu país e que expectativas têm quanto ao seu desenvolvimento – seja a nível dos setores económicos a investir, seja das políticas públicas prioritárias e, dentro da dimensão am-biental, quais as preocupações a exigirem medidas mais prementes.

Em seguida, procede-se a uma análise sobre «sustentabilidade e sensi-bilidades» (capítulo 2) – como estão, ou não, os portugueses familiariza-dos com o conceito de «sustentabilidade» e como o interpretam conside-rando as suas diferentes dimensões. Focando especificamente a dimensão ambiental – e recuperando uma escala que avalia a sensibilidade gica –, avaliamos até que ponto os portugueses aderem aos novos valores ecológicos.

Sucede-se, depois, um bloco dedicado ao «consumo, consumidores e responsabilidade» (capítulo 3) – onde procuramos entender como se po-sicionam os portugueses perante práticas de consumo que se articulam com as quatro dimensões da sustentabilidade (económica, ambiental, so-cial e institucional) e como integraram a dimensão moral (positiva ou negativa) no ato de consumir. Delineamos ainda nesta parte os perfis de consumidores dominantes e os perfis emergentes, conforme as caracte-rísticas sociais dos inquiridos.

As questões de «alimentação, saúde e desperdício» (capítulo 4) mere-ceram um enfoque específico, a fim de avaliar quais as tendências que os portugueses apresentam quanto às suas escolhas alimentares e o que os pressiona num ou noutro sentido; quais os critérios de compra que os orientam nas suas escolhas alimentares e que preocupações destacam no que respeita à informação e rotulagem; bem como as predisposições que manifestam para novas dietas alimentares.

Um ponto seguinte dedica-se à «participação e práticas» (capítulo 5) – como se posicionam os portugueses face ao associativismo e voluntariado e em que escalas opera a participação cívica no país – entre as ações de proximidade e os níveis nacionais e globais. Ainda nesta parte analisam--se as práticas mais frequentes a favor da comunidade e também as ações regulares a favor do ambiente.

Um último ponto incide sobre a «crise e mudança» (capítulo 6) – que impactos viveram (e vivem) os portugueses devido à crise económica e que novas situações foram criadas a vários níveis: alimentação, opções de consumo e alterações nas práticas de lazer.

Remata-se esta análise de resultados do Primeiro Grande Inquérito sobre

Sustentabilidade em Portugal com um conjunto de «reflexões finais» onde se

sintetizam as principais conclusões e se perspetivam caminhos futuros de aprofundamento de algumas das questões centrais abordadas no estudo. Sustentabilidade

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Finalmente, depois de apresentada a bibliografia, junta-se em anexo uma análise sucinta sobre a amostra selecionada.

7. A primeira apresentação pública deste trabalho teve lugar no ICS a 6 de setembro de 2016 numa sessão que contou, para além dos autores, com intervenções de José Luís Cardoso (diretor do ICS, Universidade de Lisboa), Luís Moutinho (CEO da SONAE MC), João Pedro Matos Fernandes (ministro do Ambiente) e José António Vieira da Silva (mi-nistro do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social). Como comenta-dores dos resultados num debate animado pelo jornalista da RTP João Adelino Faria, estiveram presentes Ana Escoval (presidente do conselho de administração do Centro Hospitalar Lisboa Central), Carlos Pimenta (engenheiro e ex-secretário de Estado do Ambiente), Isabel Jonet (presi-dente do Banco Alimentar contra a Fome), Pedro Adão e Silva (professor de Ciência Política e Políticas Públicas no ISCTE-IUL).

Este foi um momento enriquecedor de ciência aberta e socialmente responsável que, muito significativamente, foi encerrado por um discurso sobre sustentabilidade e o país proferido por S. Ex.ª o Presidente da Re-pública, Prof. Doutor Marcelo Rebelo de Sousa.

Resta assinalar que o trabalho de pesquisa decorreu desde o início em plena sintonia entre a equipa de investigação do Observa e a equipa da Missão Continente e seus parceiros estratégicos (incluindo o seu conse-lho consultivo) no mais escrupuloso respeito pela independência cientí-fica. Os inquéritos foram aplicados pela empresa de estudos de mercado IMR, com a qual colaborámos ativamente na construção do protocolo, na formação dos inquiridores e na construção da amostra (v. anexo).

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Capítulo 1

Portugal prospetivo: setores, políticas

e problemas

Em tempos conturbados pela crise económica, a apreensão social tende a aumentar e, com ela, a desconfiança nas instituições. Neste qua-dro mais tenso, as opções e prioridades económicas e sociais para o país nem sempre são consensuais. Nos seus vários desdobramentos (isto é, económico, social e ambiental), a crise, em particular a que Portugal atra-vessou a partir de 2011, deu origem a dificuldades crescentes na compa-tibilização entre as necessidades socioeconómicas e os imperativos de proteção/promoção ambiental (Delicado et al. 2015; Guerra, Schmidt e Valente 2017). Nos tempos que correm enfrentamos, portanto, um duplo desafio:

i) A mudança do modelo socioeconómico atual que, num mundo

onde a pobreza e a fome ocorrem em simultâneo com o excesso de consumo, deu provas suficientes de «não conseguir proporcionar bem-estar social, estabilidade ambiental e justiça social» (Leahy, Healy e Murphy 2014, 105);

ii) A ultrapassagem dos bloqueios institucionais e tecnológicos que

têm vindo a impedir a substituição do atual paradigma de cresci-mento económico pelo paradigma da sustentabilidade, tornando reféns dos impulsos de produção e de consumo quer os cidadãos, quer os decisores (Van Griethuysen 2009).

Importou, por isso, numa altura em que a crise económico-financeira apenas dava ténues sinais de recuperação, questionar os portugueses tanto sobre as prioridades de investimento no país para garantir um modelo de desenvolvimento viável como sobre as políticas públicas mais adequadas para alcançar os almejados níveis de desenvolvimento e de qualidade

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de vida. E também os problemas ambientais que mais os preocupam, sejam eles de nível global, sejam de nível mais localizado.1

Setores de investimento prioritário

A sustentabilidade tem como objetivo considerar globalmente os im-pactos de ações, crenças e comportamentos humanos no planeta e, em particular, nas condições de vida das gerações presentes e futuras, numa ótica transversal que abarca dinâmicas sociais, económicas e ambientais. Antes de introduzir o tema, e para não influenciar a resposta, questioná-mos os portugueses sobre as prioridades que defendem para a adminis-tração da coisa pública, tendo em mente uma lista pré-estabelecida de setores de investimentos. Procurámos, assim, perceber quais são as prin-cipais preocupações dos portugueses e, sobretudo, como é que essas preo-cupações determinam a sua opinião sobre os investimentos públicos prioritários.

Quando se pergunta aos inquiridos em que setores o país deveria in-vestir no futuro próximo, surgem como setores prioritários a «educação e formação» e o «turismo» (figura 1.1). «Educação e formação» constituem ferramentas de competitividade cruciais numa Europa desigual em que Portugal ainda mantém défices claros, tendo os portugueses noção evi-dente dessa desvantagem comparativa que os desfavorece interna e exter-namente. O «turismo» surge como área onde os portugueses pressentem maior capacidade de competirem e de se afirmarem, seja pelas condições climatéricas favoráveis, seja, mais recentemente, pela instabilidade e inse-gurança sentidas noutras paragens que podem potenciar o destino «Por-tugal». Aliás, convém sublinhar que as atividades turísticas, na sua diver-sidade, constituíram, de certo modo, a grande resposta à crise económica e social que afetou o país a partir do início da presente década.

Sustentabilidade

1 O inquérito por questionário, cuja aplicação presencial (no domicílio dos inquiridos) decorreu entre 7 de março e 17 de abril de 2016, incidiu numa amostra aleatória de 1500 inquiridos, representativa dos cidadãos residentes em Portugal maiores de 18 anos (in-tervalo de confiança de 95% e erro amostral de 2,53%). Para garantir maior representati-vidade procedeu-se a uma estratificação da amostra por região (NUTS 2), género, idade e escolaridade (v. anexo final para maior detalhe). A análise realizada contou com alguns aprofundamentos estatísticos pontuais (e. g., MDS – multidimentional scaling; ACP – aná-lise de componentes principais), mas foi propositadamente simplificada para se adequar às exigências de um público alargado não familiarizado com estes instrumentos de esta-tística inferencial. Ainda assim, nos vários «retratos sociodemográficos» produzidos, sus-tentámos a análise de forma mais regular em alguns testes estatísticos que permitiram avaliar relações entre variáveis (U, r, X2...) e a consistência de indicadores compósitos [e. g., alfa (α) de Cronbach].

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Neste primeiro patamar de prioridades, as «energias renováveis» des-tacam-se no terceiro lugar, afirmando-se como um setor inovador que já ocupa um lugar cimeiro nas prioridades dos portugueses. De muito perto, seguem-se setores tradicionais, como a «agricultura e pecuária» e, mais abaixo, o «comércio». De acordo com os resultados, o futuro do país de-penderá, assim, da imbricação entre setores inovadores com setores mais tradicionais.

Nesta sequência, o setor da «tecnologia, ciência e investigação» enca-beça o que aqui, por uma questão de simplificação da análise, designa-mos por segundo patamar de prioridades nacionais. Com quase um quarto dos portugueses a referi-la, esta área, onde a inovação terá uma presença mais visível, é acompanhada, de muito perto, por outros setores de elevada relevância, como o «ambiente», o «mar e pescas» e a «indús-tria» (todos com percentagens de resposta entre os 22% e os 23,2%), que, por sua vez, são seguidos, a alguma distância, pelo desporto (12,6% dos inquiridos).

Finalmente, num terceiro patamar, que se destaca pela negativa (poucos portugueses os referiram como prioridades nacionais), podemos referir, por ordem decrescente, os «museus e património», as «florestas» (apesar do endémico problema dos incêndios, que, entretanto, um ano depois deste inquérito, desembocaria na tragédia de Pedrógão Grande), a

Figura 1.1 – Setores em que Portugal deve investir (escolha múltipla) (%)

Fonte: Primeiro Grande Inquérito sobre Sustentabilidade em Portugal, Observa, 2016. Educação e formação

Turismo Energias renováveis Agricultura e pecuária Comércio Tecnologia, ciência e investigação Ambiente Mar e pescas Indústrias Desporto Museus e património Florestas Extração mineira Banca e seguros Energias fósseis 45,7 45,6 37,1 36,4 31,5 24,9 23,2 22,2 22,0 12,6 7,5 5,8 4,5 2,7 1,0 Prioridade alta Prioridade média Prioridade baixa

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«extração mineira», a «banca e seguros» e, por fim, as «energias fósseis», cuja defesa como investimento prioritário não obtém mais do que 1% dos portugueses.

Quanto ao grau de importância geral atribuído aos setores segundo o género, existem algumas flutuações entre as respostas dos participantes, sendo de salientar, por exemplo, que as mulheres atribuem ainda maior importância à «educação e formação» e às «energias renováveis», en-quanto os homens atribuem mais importância do que as mulheres ao «desporto», «mar e pescas» e também «extração mineira» (figura 1.2).

Com exceção do «turismo», que surge referido com percentagens se-melhantes entre as faixas mais jovens e mais idosas, as prioridades não se distribuem uniformemente pelas diferentes gerações. Para os mais jovens Sustentabilidade

Figura 1.2 – Setores em que Portugal deve investir segundo o género (%)

Educação e formação Turismo Energias renováveis Agricultura e pecuária Comércio Ambiente

Tecnologia, ciência e investigação

Indústrias Mar e pescas Desporto Museus e património Florestas Extração mineira Banca e seguros Energias fósseis 38,2 50,0 42,945,8 32,1 37,0 38,3 36,7 33,934,1 21,624,2 25,7 23,9 24,8 21,3 25,2 19,6 16,5 8,7 6,78,2 5,6 6,8 6,3 3,3 3,1 2,5 1,1 1,0 Mulheres Homens

Fonte: Primeiro Grande Inquérito sobre Sustentabilidade em Portugal, Observa, 2016.

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e adultos em idade ativa, Portugal deveria investir, sobretudo, e por ordem de preferência, na «educação e formação», nas «energias renováveis», no «turismo», nas «novas tecnologias/investigação» e também no «ambiente» e no «desporto». De assinalar também que na opção de investimento em «energias renováveis», «novas tecnologias» e «educação/formação» se des-tacam os inquiridos com filhos menores e que residem em cidades médias e áreas metropolitanas. Já os portugueses com mais de 54 anos, com baixa escolaridade e sem filhos menores a cargo, apostariam maioritariamente no «comércio» e na «agricultura». Neste caso, tanto o «turismo» como a «educação e formação» e, sobretudo, as «energias renováveis» e as «novas tecnologias» surgem com percentagens substancialmente inferiores às in-dicadas pelos grupos mais jovens (figura 1.3).

Figura 1.3 – Setores em que Portugal deve investir segundo as gerações mais jovens e mais velhas (%)

Educação e formação

Energias renováveis

Turismo

Tecnologia, ciência e investigação

Desporto Comércio Agricultura e pecuária Ambiente Indústrias Mar e pescas Florestas Museus e património Extração mineira Banca e seguros Energias fósseis 37,2 51,2 25,3 44,8 39,9 49,3 15,9 28,2 11,3 13,4 42,6 24,2 42,9 32,9 22,5 23,7 25,2 19,9 24,3 20,8 5,7 5,8 7,47,6 5,7 3,6 3,4 2,3 1,5 0,7 18-54 anos > 54 anos

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Quanto ao «mar e pescas», que não está tão destacado como seria ex-pectável, dada a projeção política de que tem sido alvo nos últimos anos, é um setor referido sobretudo por indivíduos com idade ativa (entre 35 e 55 anos) e, curiosamente, com alguma polarização quanto ao grau de escolarização, dado que tanto é destacado pelos que têm apenas o ensino básico como pelos que têm mestrado. A par do setor «mar e pescas», as «novas tecnologias/investigação» são claramente mais referenciadas pelos mais novos (18-44 anos) e pelos doutorados.

Quem escolhe mais o «ambiente» como setor prioritário são os grupos etários extremos: ora os indivíduos mais novos (18-34 anos), ora os indi-víduos mais velhos (maiores de 64 anos). As razões serão diferentes e Sustentabilidade

Figura 1.4 – Setores em que o país deve investir (comparação entre 2000 e 2016) (%)

Fonte: Segundo inquérito Os Portugueses e o Ambiente, Observa, 2000, e Primeiro Grande Inquérito

sobre Sustentabilidade em Portugal, Observa, 2016.

Educação e formação

Turismo

Energias renováveis*

Agricultura e pecuária

Comércio

Novas tecnologias e investigação

Ambiente Mar e pescas* Indústrias Desporto* Museus e património Florestas Extração mineira* Banca e seguros Energias fósseis 45,7 52,5 45,6 16,9 37,1 4,1 36,4 54,3 31,5 15,6 24,9 27,9 23,2 29,2 22,2 25,0 45,3 12,6 4,6 7,5 10,0 5,8 12,3 4,5 2,7 2,4 1,0 0,0 2000 2016

* Categorias diferentes entre os dois inquéritos

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decorrem de experiências e realidades distintas: os mais velhos, prova-velmente ligados a uma visão mais tradicional ou até rural de ligação à natureza; os mais novos, com uma conceção mais escolar e modernizada, já que são eles que também mais apostam nas energias renováveis – as quais contribuem para reduzir a emissão de gases com efeito de estufa, mitigando as alterações climáticas e ditando assim um novo rumo para um desenvolvimento guiado pelos princípios da sustentabilidade.

Estamos, portanto, perante gerações que partilham algumas priorida-des (educação e turismo), mas se distanciam claramente noutras (energias renováveis e novas tecnologias no caso dos mais novos versus agricultura e comércio no caso dos mais velhos), vislumbrando um futuro para o país em (e com) sentidos diferentes.

Num inquérito realizado em 2000 (Ferreira de Almeida 2004) colo-cara-se a mesma questão (ainda que com algumas atualizações – nomea-damente a introdução do setor do mar), pelo que interessou agora com-parar resultados.

De acordo com a figura 1.4, verificamos que se mantém uma convic-ção muito forte relativamente ao papel desempenhado pela «educaconvic-ção/ formação» como uma ferramenta verdadeiramente sustentável para o de-senvolvimento do país: já era uma grande prioridade em 2000, que ainda se manteve em 2016. Quanto às diferenças, enquanto em 2000 a «agri-cultura» era o setor mais destacado como prioritário, sobretudo, pelos mais velhos e menos escolarizados; em 2016 perde terreno, tal como a indústria e até as florestas. Em contrapartida, os setores que mais subiram foram, acima de tudo, o «turismo» e as energias, que, entretanto, adqui-riram uma relevância inexistente em 2000 por via das «energias renová-veis», cujo crescimento começa efetivamente depois da aprovação do programa E4 em 2001 (Ministério da Economia 2001). Acompanhando esta tendência de subida, surgem também o «desporto» e o «comércio». Finalmente, para além da já referida «educação/formação», mantém-se relativamente estável o setor das «novas tecnologias/investigação».

Vejamos então outras variáveis que, de alguma forma se relacionam com a priorização dada pelos portugueses aos diversos setores em análise. De acordo com o quadro 1.1, estatisticamente, o género dos inquiridos influencia apenas a priorização da «educação e formação», surgindo as mulheres como as que mais defendem um investimento prioritário nesta área. Já a idade e a escolaridade influenciam a priorização dos cinco se-tores presentes no quadro 1.1: quem defende um maior investimento na «agricultura e pecuária» e no «comércio» são, sobretudo, os mais velhos (> 54 anos), que, comparativamente, apostam menos na «educação», no

Imagem

Figura 1.3 – Setores em que Portugal deve investir segundo as gerações                     mais jovens e mais velhas (%)
Figura 2.3 – Contextos em que os portugueses ouviram falar                       de sustentabilidade (escolha múltipla) (%)
Figura 2.4 – Responsabilidade atribuída na promoção de sustentabilidade                     (escolha múltipla) (%) 85,8 50,2 39,3 37,9 31,9 24,9 15,9Cada um de nósGoverno nacionalPoder localEmpresasUnião EuropeiaOrganizações internacionaisOrganizações não
Figura 2.7 – Dimensões cognitivas da sustentabilidade                     (categorias de resposta) Economia 35,2% Governança 7,7% Sociedade 22,3%Ambiente34,9%
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Referências

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