Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
PLANEAMENTO TERRITORIAL NO ALTO ALENTEJO
A DEFESA DA FLORESTA CONTRA INCENDIOS SOB O PONTO DE
VISTA TERRITORIAL
Dissertação de Mestrado
2.º Ciclo em Engenharia Florestal
Carlos Fernando Esteves de Sá Ramalho
Orientador: Professor Doutor João Paulo Fidalgo Carvalho
Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
PLANEAMENTO TERRITORIAL NO ALTO ALENTEJO
A DEFESA DA FLORESTA CONTRA INCENDIOS SOB O PONTO DE
VISTA TERRITORIAL
Dissertação de Mestrado
2.º Ciclo em Engenharia Florestal
Carlos Fernando Esteves de Sá Ramalho
Orientador: Professor Doutor João Paulo Fidalgo Carvalho
Este trabalho foi expressamente elaborado como Dissertação para efeito de obtenção do grau de Mestre em Engenharia Florestal, sendo apresentado na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, no âmbito do 2.º ciclo de formação em Engenharia Florestal.
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AGRADECIMENTOS
Começo por agradecer a todos os meus colegas de trabalho que direta ou indiretamente fizeram parte do trabalho da ex-CRRAA e posteriormente contribuíram para muita discussão em torno deste trabalho.
Agradeço também e especialmente aos colegas Mestre Nuno Guiomar e ao Mestre Henrique Pires, pelo apoio no tratamento dos dados em SIG.
Desde logo também quero evidenciar todas as instituições que contribuíram para a obtenção de dados essencial ao trabalho e de que destaco os ex-GTF, criados no âmbito da ex-CRRAA.
Agradeço ao meu orientador pela capacidade crítica essencial ao desenvolvimento metodológico do trabalho.
Agradeço à minha família (esposa e filha) pela paciência e pela ausência e á minha mãe pelo apoio.
ii
ÍNDICE GERAL
AGRADECIMENTOS ... i ÍNDICE GERAL ... ii ÍNDICE FIGURAS ... iv ÍNDICE QUADROS ... vi RESUMO ... 7 ABSTRAT ... 8 1. INTRODUÇÃO ... 9 2. OBJETIVOS ... 15 3. ENQUADRAMENTO BIBLIOGRÁFICO ... 163.1. Planeamento Florestal em Portugal ... 16
3.2. A Floresta em Portugal Continental ... 19
3.3. A Floresta na Área da Comissão Regional de Reflorestação do Alto Alentejo - CRRAA ... 24
3.4. A Estratégia Nacional para as Florestas no Contexto do Alto Alentejo ... 27
3.5. O Ordenamento e o Sistema de Planeamento Florestal Português ... 28
3.6. A Estrutura Fundiária em Portugal Continental ... 30
3.7. A Estrutura Fundiária Regional do Alto Alentejo ... 36
3.8. A Demografia e a Ruralidade no Alto Alentejo ... 38
3.9. A Problemática dos Incêndios Florestais: Os Grandes Incêndios ... 42
3.9.1. A experiência do Ordenamento do Território e da Defesa da Floresta Contra os Incêndios ... 43
3.9.2. Os Incêndios em Florestais de 2003 ... 46
3.9.2.1. Em Portugal Continental ... 46
3.9.2.2. Na Região do Alto Alentejo - CRRAA ... 52
iii
3.11. Reforma Estrutural do Sector Florestal ... 57
3.12. Orientações Regionais de Reflorestação do Alto Alentejo (CRRAA) ... 58
3.12.1. Princípios gerais ... 58
3.12.2. Modelo de Infraestruturação Territorial no Âmbito da DFCI ... 61
3.12.3. Rede Regional de Defesa da Floresta Contra os Incêndios ... 61
3.12.4. Componentes da Rede Regional de Defesa da Floresta Contra os Incêndios ... 62
3.13. Modelação e Definição de Áreas Prioritárias de Intervenção ... 64
3.13.1. Áreas Prioritárias de Reflorestação e DFCI na área da CRRAA ... 64
3.13.2. Áreas Prioritárias para constituição de ZIF na área da CRRAA ... 65
4. MATERIAL E MÉTODOS ... 67
4.1. Breve Descrição da Área de Estudo ... 67
4.2. Recolha de Dados Cartográficos ... 69
4.3. Tratamento dos Dados ... 72
4.4. Análise SWOT ... 74
5. RESULTADOS ... 75
5.1. Análise Descritiva... 75
5.2. Análise de Correlação ... 80
5.3. Análise de Componentes Principais ... 82
5.4. Regressão Múltipla e Regressão Logística ... 84
5.5. Análise de Clusters ... 85 5.6. Análise SWOT ... 88 6. CONCLUSÕES ... 91 7. CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 96 8. ACRÓNIMOS ... 98 9. BIBLIOGRAFIA ... 99 10. ANEXOS ... I
ANEXO I – TABELAS DE DADOS ... I ANEXO IV – CARTOGRAFIA ... IV
iv
ÍNDICE FIGURAS
Figura 1 - O fogo relacionado com imagens sobre o fim dos nossos tempos (Fonte: Bridgeman) ... 9
Figura 2 - Área ardida em 2003 no Alto Alentejo. ... 11
Figura 3 – A Administração Pública Florestal de 1886 a 2006 (ENF, 2006) ... 17
Figura 4 – Os Instrumentos de Planeamento Florestal de 1864 a 2009 (Pinho, 2009) ... 18
Figura 5 – Evolução da Floresta Portuguesa entre 1900 e 2002 (Pinho, 2005). ... 19
Figura 6 – Tipo de gestão florestal (Pinho, 2006). ... 19
Figura 7 – Ocupação Florestal em Portugal Continental- Área e percentagem de ocupação por espécie (Pinho, 2010). ... 21
Figura 8 – Vegetação natural potencial em Portugal Continental (Costa et. al., 1998/2001). ... 22
Figura 9 – Classificação dos Espaços em Portugal Continental (5.º Inventário Florestal Nacional, 2005-06 - AFN). ... 23
Figura 10 – Exportações Florestais por Sector (Fonte: BES – Espírito Santo Research, 2011). ... 23
Figura 11 – Valor Global (euros/ha/ano) da Floresta em Portugal Continental (ENF, 2006). ... 24
Figura 12 – Localização dos Espaços Florestais no Alto Alentejo, Floresta, Espaços não arborizados e águas interiores (PROF Alto Alentejo - DGRF, 2007). ... 25
Figura 13 – Ocupação Florestal no Alto Alentejo (PROF Alto Alentejo - DGRF, 2007). ... 26
Figura 14 – Dimensão Mancha Florestal no Alto Alentejo (hectares) (PROF Alto Alentejo - DGRF, 2007). ... 27
Figura 15 – Explorações em 1999 e correspondência no início da atividade rural em três décadas (Fonte: INE) . ... 28
Figura 16 – Articulação das figuras de planeamento florestal (Pinho, 2010). ... 29
Figura 17 – Articulação das OER com o planeamento e projeto (Pinho, 2006). ... 30
Figura 18 - SAU - ares (Fonte: INE). ... 31
Figura 19 – SAU – Blocos (número) (Fonte: INE). ... 32
Figura 20 - Explorações (número) (Fonte: INE). ... 32
Figura 21 - SAU – Evolução Exploração Conta Própria (número) (Fonte: INE). ... 33
Figura 22 – Evolução Explorações Arrendamento Fixo (número) (Fonte: INE). ... 33
Figura 23 - SAU – Evolução Exploração Arrendamento Campanha (número) (Fonte: INE). ... 34
Figura 24 – Reconversões em Pousios (número) (Fonte: INE). ... 35
Figura 25 - Reconversões em Floresta (número) (Fonte: INE). ... 35
Figura 26 – Reconversões em Pastagens (número) (Fonte: INE). ... 36
Figura 27 – Evolução e diversidade nas explorações no Alto Alentejo (número) (Fonte: INE). ... 37
v
Figura 29 – N.º Explorações Alto Alentejo em função da existência de mínimo de SAU, Pecuária e
Culturas Agrícolas (Fonte: INE)... 39
Figura 30 – Evolução utilização solo no Alto Alentejo (Fonte: INE). ... 40
Figura 31 – Evolução da mecanização no Alto Alentejo (Fonte: INE). ... 41
Figura 32 - Áreas florestais ardidas entre 1971 - 2011. Médias móveis de 5 anos (ha) (Fonte: AFN). .... 46
Figura 33 – Evolução Climática 1920 – 2000 (ENF, 2006). ... 47
Figura 34 – Suscetibilidade à Desertificação – Análise da série 2000/2010 (PANCD, 2011)... 48
Figura 35 – Suscetibilidade à Desertificação – Análise da série 1960/1990 (PANCD, 2011)... 49
Figura 36 - Terrenos arborizados percorridos por incêndios em 2003 (Fonte: CRRAA). ... 54
Figura 37 – Orientações Regionais de Reflorestação (CRRAA, 2006) ... 60
Figura 38 – Rede Regional de Defesa da Floresta Contra os Incêndios (CRRAA, 2006) ... 62
Figura 39 – Áreas Prioritárias de Reflorestação na Área da CRRAA (CRRAA, 2005) . ... 64
Figura 40 – Áreas Prioritárias DFCI na Área da CRRAA (CRRAA, 2005). ... 65
Figura 41 – Áreas Prioritárias de Implantação ZIF na Área da CRRAA (CRRAA, 2005). ... 66
Figura 42 – Enquadramento da CRRAA em Portugal Continental. ... 67
Figura 43 – Freguesias constituintes da CRRAA (Base: IGP). ... 68
Figura 44 – RRDFCI (Rede Primária e Secundária de Faixas de Gestão de Combustíveis) Planeada na CRRAA (Fonte: CRRAA). ... 76
Figura 45 – RRDFCI (Rede Primária e Secundária de Faixas de Gestão de Combustíveis) Executada na CRRAA entre 2006 e 2009 (Fonte: AFN). ... 77
Figura 46 – Áreas ardidas nos dois ciclos considerados, por freguesia. ... 78
Figura 47 – Histograma de ocorrência de incêndios e grandes incêndios nos dois ciclos considerados, por freguesia. ... 79
Figura 48 – Ocorrências por freguesia nos dois ciclos considerados, por freguesia. ... 79
Figura 49 – Área de rede planeada e executada nos dois ciclos considerados, por freguesia. ... 80
Figura 50 – Gráfico de Variabilidade Acumulada da ACP. ... 82
Figura 51 – Relação das variáveis com os fatores F1 e F2 obtidos da ACP. ... 83
Figura 52 – Dendrograma resultante da análise de clusters. ... 86
vi
ÍNDICE QUADROS
Quadro 1 – Estatística Descritiva das Variáveis. ... 75
Quadro 2 – Análise de Correlações para as Variáveis Dependentes. ... 80
Quadro 3 – Resumo dos resultados das análises de regressão múltipla. ... 84
Quadro 4 – Resumo dos resultados das análises de regressões logística. ... 85
Quadro 5 – Análise de Clusters - Agregação de Classes. ... 87
Quadro 6 – Análise SWOT. ... 89
7
RESUMO
Em 2004 foi criado o Conselho de Nacional Reflorestação (CNR) e a Comissão Regional de Reflorestação do Alto Alentejo (CRRAA) (da qual o autor foi então nomeado Coordenador Regional), uma das quatro regiões alvo deste CNR como resposta da tutela aos devastadores incêndios florestais do verão de 2003. Foi nestas circunstâncias que se deu início a uma nova e profunda discussão sobre territorialidade, no intuito da multidisciplinariedade de abordagem ao problema, mas todas foram unânimes num aspeto fundamental: esta questão não era exclusivamente florestal mas sim rural e como tal o paradigma teria que se ancorar exatamente nessa abordagem, a territorialidade.
Esta dissertação de Mestrado em Engª Florestal procura abordar a problemática dos incêndios florestais sob o ponto de vista da territorialidade e a incidência do planeamento e silvicultura delineados na sequência dos trabalhos da (CRRAA).
Analisa-se a aderência do modelo de Rede Regional de Defesa da Floresta Contra Incêndios na área da CRRAA, em função da associação com variáveis territoriais, sociais e operacionais, recorrendo a plataformas SIG, análises estatísticas complementares e uma análise SWOT como ferramenta estratégica de atuação nestes sistemas rurais.
Com base nas análises efetuadas encontrou-se uma relação direta dos incêndios florestais, designadamente nas ocorrências, áreas ardidas e grandes incêndios, com o tipo de organização e ocupação do território, tendo sido selecionadas, através dos modelos estatísticos utilizados, variáveis correlacionadas entre si que contribuem para o agravamento deste fenómeno e para as suas principais características devastadoras.
Por fim, com base na análise estratégica de SWOT, apoiada nas variáveis tratadas e correlacionadas entre si, propôs-se delinear um desenho estratégico para procurar pistas que diminuam os efeitos deste fenómeno, que se demonstram exequíveis.
Palavras - chave: Fogos Florestais, Planeamento Territorial, Silvicultura, Ordenamento Florestal.
8
ABSTRACT
In 2004 the National Reforestation Council (NRC) and the Reforestation Regional Commission of Alto Alentejo (RRCAA) (being the author appointed as Regional Coordinator) were created, one of the four target regions of the NRC as a governmental response to the devastating forest fires occurred in the summer of 2003. It was under these circumstances that a new and profound discussion of territoriality was initiated.
A multidisciplinary approach to the problem was established, and one fundamental aspect was defined: the issue is not an exclusive matter of forest development but relies on the paradigm of territoriality as a whole.
This master dissertation in Forestry seeks to address the analysis of forest fires from the point of view of territorial planning and the incidence of planning as a base-model of Regional Network for the Defense of Forest Fire in the area of RRCAA.
The implementation of a fuel management system is analyzed on the basis of association with territorial, social and operational variables using GIS platforms, statistical analyzes and a SWOT analysis as a strategic tool is used in this work.
Based on the conducted analyzes direct relationships were found involving forest fires, especially concerning occurrences, burned areas and large fires, with the occupation of the territory, and selected variables obtained from the statistical analyses providing relevant information to understand the fire phenomenon its main characteristics, helping the establishment of proper forest management planning.
Using a strategic SWOT analysis based on correlated variables, a strategic planning design was established and clues to diminish the effects of this phenomenon and its practicability were analysed.
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1. INTRODUÇÃO
O fogo é pela sua natureza um constituinte integrante da biosfera que tem evidentemente acompanhado o processo de evolução, sob o ponto de vista darwiniano, e certamente o acompanhará enquanto as forças vitais do complexo macro sistema do nosso planeta forem aquelas que conhecemos.
Muitas foram as peripécias que a Humanidade teve que ultrapassar até conseguir em dominar algumas das suas características, mas nunca dominou nem dominará a génese deste elemento estrutural (muito menos tendo em vista a sua extinção), até porque ele é exatamente uma parte deste todo extraordinário que, desde a mitologia primordial à ciência sensorial moderna como descreveu recentemente Damásio, (1996) para a utilização dos sentidos no cogito descritivo, passando pela Filosofia com a descrição da razão de Kant ou pela quantificação da própria filosofia com a verdade absoluta do método científico, é intento da comunidade científica explicar e dominar.
Não nos podemos esquecer que fatores externos ditaram provavelmente no passado caminhos evolutivos nas espécies, como seja a extinção de grande percentagem de seres vivos no Jurássico, permitindo por outro lado a evolução por
10 outros vetores até aos dias de hoje e que os mesmos estiveram diretamente correlacionados com o fogo ou suas causas e consequências.
Também do ponto de vista da Filosofia muitas foram as conjeturas e explanações sobre as forças da natureza, onde naturalmente a componente fogo teve um papel predominante e até mitológico, sobretudo na arte da “Sagesse” Grega, onde esteve diretamente conectado com a “Sofia” explicativa do mundo.
A sua utilização foi assim acompanhando integralmente a humanidade pelos seus caminhos quer na sua instalação ou sedentarismo quer na sua defesa, como são exemplo o uso do fogo na agricultura ou nas atividades bélicas tão difundidas na idade média. A chama pode, como é sabido desde a Alquimia à Ciência Pura dos nossos dias, ser um processo espontâneo ou provocado desde que se adicionem os fatores constituintes nas suas devidas proporções.
Nesta era de Ciência e evolução alucinante a própria Humanidade esqueceu por momentos este seu amigo integrante e passou a considerá-lo um inimigo, não pelas suas características naturais de ignição ou propagação, pois estas não se alteraram, mas sim pelas características devastadoras das suas consequências, pondo de lado a sua quota-parte de culpabilidade e assim não o entendendo, nem sendo capaz de, como aliás foi durante séculos, utilizá-lo inteligentemente ou de minimizar as suas consequências, “dominando-o”.
Dentro desta problemática dos fogos incluem-se naturalmente os fogos florestais que, estando erradamente dissociados dos “outros”, são a vertente que nos interessa abordar em relação com a silvicultura e o planeamento do território. Não é possível abordar a temática dos incêndios florestais sem entender as causas ou prever as consequências. Deste modo há um trabalho de análise a montante que tem forçosamente de ser abordado e que se revê na estrutura de desenvolvimento local, regional e nacional e global a que hoje assistimos.
Não esquecendo a diacronia temporal e, tal como apontava já Morin (1971) no seu ensaio, encontrando nós neste estágio da humanidade o caos organizativo do todo que lhe vai dando forma e conteúdo, devemos procurar entender que as evoluções, ainda que assimétricas, das sociedades como tal, levou em algumas regiões do nosso planeta a alterações ecossociológicas muito acentuadas e vertiginosas que comutaram as vertentes eco-biogeográficas nas partes e no todo, como também referencia Morin (1984). É um facto que as sociedades contemporâneas, ditas desenvolvidas, apreenderam rapidamente padrões de vida e de realização que levaram num curto espaço de tempo a alterações profundas das relações indivíduo/espaço, sociedade/espaço/tempo e consequentemente da ocupação individual e social do espaço geográfico e suas relações. Isto é um facto que tem que
11 ser encarado como evolutivo e não dramático, sendo que a solução do problema está na inteligível capacidade de interagir com a dinâmica de equilíbrio da natureza.
Também devemos abordar, sem dissociar, relevantes alterações climáticas que hoje já se fazem sentir. É um facto que estamos perante fenómenos ao nível das alterações climáticas cada vez mais evidentes e alguns deles como seja o aquecimento global, o aumento em número e extensão de vagas de calor ou mesmo períodos de seca ciclicamente mais curtos, em conjugação com as questões sociais de êxodo ou práticas agrárias derivadas das alterações das relações anteriormente descritas, produzem um efeito explosivo para o aparecimento dos incêndios e sua propagação.
É um facto que, apesar de uma significativa melhoria das condições de vida nas últimas décadas, a industrialização se centrou no litoral de Portugal Continental assim como as oportunidades de emprego e prosperidade. Deste facto resultou o “despovoamento” de territórios ditos interiores e nestes o tema dos incêndios, associada às suas componentes de severidade, intensidade e recorrência (Moreira et
al., 2010) são abordados como fator essencial na análise da restauração dos
ecossistemas rurais florestais e vetores de estudo essenciais no combate à desertificação e ao despovoamento, como refere Vallejo et al. (2010).
Também por este mesmo motivo e pela necessidade de maximização dos recursos produtivos e minimização de custos, a mecanização e o trabalho temporário foram-se transformando durante estes tempos em práticas correntes.
12 Destes fatores conjugados vamos encontrar uma fórmula explosiva que associada aos cobertos em monocultura e abandono das práticas agrícolas, que outrora moldavam e criavam mosaico estrutural, compartimentado, propicia a acumulação de combustíveis em quantidade e extensão suficiente para ciclicamente se verificar um fenómeno de grandes incêndios, como foi o caso de 2003 em Portugal Continental.
Assim, temos por um lado menos capacidade social de resposta na execução de políticas de ordenamento do território, e por outro fatores que propiciam mais ignição, natural ou artificial, cuja conjugação permite o aparecimento de fenómenos de grandes incêndios que são devastadores sob o ponto de vista social, agravando a clivagem, e sob o ponto de vista da ecologia do fogo na reestruturação e restauração dos ecossistemas pela sua intensidade, severidade e recorrência (Moreira et al., 2010; Vallejo et al., 2010). Foi com base nestes pressupostos que já no trabalho desenvolvido no Conselho Nacional de Reflorestação se procurou encontrar formas de resposta para este complexo ecológico, biológico e sociogeográfico, que em certeza tenderá inevitavelmente para acentuar esta realidade, como aliás se pôde verificar em 2003, 2004 e 2005 em variadas partes do globo dando acento especial para os incêndios de 2003 que devastaram cerca de 400 mil hectares em Portugal. Outros exemplos há e salientam-se para entendimento de toda esta problemática: os incêndios florestais da nossa vizinha Galiza durante o ano de 2006, ou na Grécia em 2007.
Também é um facto que durante uma certa fase se pensou que atingindo performances de excelência no combate, nomeadamente na primeira intervenção resolveríamos no todo este problema. Hoje sabemos da extrema importância desse facto, mas porém esquecemos durante algumas décadas a problemática da acumulação de combustíveis ou, como atrás se referiu, esquecemos que estes e a utilização dos meios de gestão territorial são partes integrantes do sistema e o simples combate e sua excelência na organização desta vertente não porta sustentabilidade à defesa contra os grandes incêndios, como é explícito nas conclusões do projeto Fireparadox (Costa.P. et al.,2011).
Assim as consequências foram a acumulação de combustíveis pela incapacidade de intervenção no território e da implementação das políticas de silvicultura e ordenamento então diagnosticadas e por um excesso de confiança na exclusividade e excelência das ações de combate. Os resultados são catastróficos mas já eram conhecidos de todos, como por exemplo na Catalunha na década de 80. Isto é paradoxal, pois a nossa arma mais inovadora foi inesperadamente um grande inimigo. O problema está em que é necessário acompanhar a inovação nos sistemas de combate com real prevenção aos fogos florestais a montante, isto é, na gestão
13 florestal e na capacidade que nós temos de introduzir variáveis realistas no desenho da paisagem e no ordenamento do território que permitam encontrar fatores que contrariem o fenómeno.
A gestão é um “chavão” utilizado vezes sem conta mas que se limita à utilização racional e rentável das áreas florestais ou agroflorestais tendo em conta os fatores limitantes da economia global em que nos inserimos e assim, devendo-se acentuar na inovação da gestão e adoção de tecnológica para selecionar novas formas de organização territorial, capacidade produtiva, qualidade e comercialização em mercados segmentados e organizados, que permitam naquilo a que se chama “Valor Global dos Espaços Florestais”, e se acrescentaria dos “Espaços Geográficos”, sustentar produtos sociais e comerciais que gerem mais-valia.
Está explicita na Estratégia Nacional para as Florestas, aprovada em Conselho de Ministros, a necessidade de diminuir riscos inerentes à atividade florestal, atraindo a si deste modo nova formatação em termos organização territorial, sendo disso exemplo as zonas de intervenção florestal (ZIF), e também de investimento, como os fundos imobiliários florestais que, pela sua natureza, só são passíveis de êxito financeiro com a sua manutenção em capitalização até ao fim dos ciclos previstos, e capazes de atrair investidores com a diminuição de risco inerente à sua explorabilidade.
Destas novas formas organizativas tendenciais tem que se saber olhar o macro-sistema (Morin, 1971) e tirar ilações sobre as diferentes estratégias a seguir para os diferentes espaços biogeográficos com as suas peculiares estruturas eco-sócio-biogeográficas, como sejam por exemplo as diferenças entre a estrutura social e fundiária entre o Norte e o Sul de Portugal ou então as evidentes diferenças entre o minifúndio minhoto e transmontano ou entre o Alentejo Litoral, o Alto Alentejo e o Alentejo Central (Ribeiro, 1967).
Estas são as componentes, indissociáveis do todo e com as quais, teremos de trabalhar. É neste contexto que temos que fomentar o aparecimento de ZIF ou qualquer outras formas inovadoras de gestão, como sejam empresas SA (Zonas de Intervenção Agrárias) onde se encontre posteriormente a formatação associada a fundos imobiliários florestais (ou, mais alargadamente, rurais) sérios e defensores da prosperidade dos sistemas florestais e do verdadeiro aforro sustentado dos investidores e claro está dos proprietários rurais.
É neste panorama e abrindo o sistema a subsistemas que se deve colocar o observador para procurar implementar o Plano Nacional de Defesa da Floresta Contra Incêndios nas suas metas e objetivos estratégicos. Devem-se elucidar e formar os atores na construção deste puzzle ao nível dos Planos Municipais, Intermunicipais ou Distritais de Defesa da Floresta Contra Incêndios e ter igualmente em conta que a
14 correta atuação está não na unificação da problemática mas sim em interligar o processo compreendendo que por vezes ações de desenvolvimento rural, como motivar o empresariado rural para a criação de micro empresas, podem ter papéis fundamentais em processos paralelos como sejam os fogos florestais.
É numa gestão equilibrada do território que se mantém a gestão de combustíveis e é na génese do ordenamento do território que se ganham esta e outras batalhas. Senão pensemos quem intrinsecamente e sem qualquer planeamento estratégico delineado geria combustíveis há 30 ou 40 anos no território: eram claro está, os nossos antepassados, por necessidade e por estarem integralmente associados ao meio em que viviam.
É desta forma e pelas novas formatações do mundo rural que foi criado e aperfeiçoado o conceito de Rede Regional de Defesa da Floresta Contra Incêndios ao nível do Conselho Nacional de Reflorestação, consagrada mais tarde no Decreto-lei n.º 124/2006 de 28 de Junho e recentemente aperfeiçoada no Decreto-lei n.º 17/2009 de 14 de Janeiro, dada por figuras de planeamento hierarquicamente superiores como sejam os PROF, tendo em vista a consequente integração das várias visões. É claro que uma Rede de Defesa da Floresta Contra os Incêndios não é implementável onde não haja a capacidade de paralelamente desenvolver sistemas geradores de espaços sustentáveis social e economicamente. Para isso existem esses outros mecanismos e terão obrigatoriamente que ter em conta estas variáveis até porque naturalmente o inverso é verdade, isto é, não há capacidade de incremento de vertentes de desenvolvimento regional se os alicerces de sustentação estiverem com fatores de degradação ou de risco além de determinados níveis.
Resta dizer que nenhum planeamento poderá a este nível ser objetivado em ação sem que todos os intervenientes entendam que têm um papel a desempenhar e que este é um caminho duro e desafiante, que agita sistemas sociais e mentalidades cujo êxito depende essencialmente de muita coordenação de esforços, e garantidamente de muito trabalho e persistência.
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2. OBJETIVOS
Tendo em consideração os valores descritos na introdução, interessa apontar que os objetivos propostos a atingir nesta dissertação são uma análise integrada de diversos fatores no fenómeno dos incêndios florestais e suas correlações, assim como procurar demonstrar a importância de fatores relacionados com a silvicultura, territorialidade e ordenamento/planeamento no fenómeno dos incêndios florestais.
Assim, iniciando pela tarefa de caraterizar a área de estudo, a área de intervenção da Comissão Regional de Reflorestação do Alto Alentejo (CRRAA), através de uma série de dados base em sistemas de informação geográfica (SIG) representando dois ciclos de seis anos antes e após os incêndios catastróficos de 2003 (entre 1998 e 2003 e entre 2004 e 2009). Os dados referem-se a variáveis com características específicas nas seguintes grandes vertentes:
Incêndios, com ocorrências, áreas ardidas e grandes incêndios nos ciclos;
Território;
Demografia;
Operacionais,
cuja descrição se pode consultar na metodologia.
O objetivo principal desta análise é encontrar interligações entre diversas variáveis relativas a estas vertentes através de análises estatísticas e modelação territorial, e encontrar correlações e modelação explicativa de modo a auxiliar o planeamento e gestão do território do Alto Alentejo.
Por fim e usando técnicas de análise estratégica SWOT é também objetivo evidenciar essas mesmas ligações com os sistemas de planeamento e sob o ponto de vista do território (como ponto central) efetuar uma análise critica à realidade encontrada.
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3. ENQUADRAMENTO BIBLIOGRÁFICO
3.1. Planeamento Florestal em Portugal
A Administração Pública esteve presente desde cedo na tentativa de Ordenamento e Planeamento da Floresta Portuguesa e teve também uma evolução que se foi adaptando aos tempos e à própria evolução da sociedade.
Se podemos afirmar que a silvicultura é desde muito cedo uma apetência dos espaços silvestres em Portugal e que a tentativa do ordenamento dos espaços e da produtividade dos mesmos, cuidado que se prova desde logo com a plantação do Pinhal de Leiria pelas Cortes de D. Afonso III e mandado aumentar por já pelas Cortes de D. Dinis para perto das áreas atuais, também podemos decididamente afirmar que é em 1824, já nas Cortes de D. Pedro, e em momento histórico conturbado, que se inicia a “saga” dos Serviços Florestais com a implementação do Serviço então designado pela “Administração Geral das Matas do Reino” (Rego, 2001).
Este fato prova a preocupação com este tema e com a matéria florestal que os Governantes de Portugal desde cedo tiveram.
Essa preocupação em conjunto com o desenvolver das ciências florestais, que aparece em Portugal pela mão do primeiro silvicultor conhecido entre nós: José Bonifácio de Andrada e Silva (act. 1802-1819), sendo pela mão já de Bernardino Barros Gomes (act. 1863-83) que aparecem os primeiros Planos de Gestão Florestal e ainda o primeiro Atlas Geográfico de Portugal. É ainda nesses tempos por Nery & Ribeiro em 1868, que é então produzido o “Relatório acerca da Arborização Geral do País”. Associada a estas evoluções nascem então as Administrações Florestais em 1888, decorrentes da criação do Serviço Público de Florestas em 1824, com a designação de Administração Geral das Matas Reino, como acima se referiu.
Na figura 3 podemos visualizar essa mesma evolução, a da Administração enquanto fator de acompanhamento dos espaços silvestres.
17 Figura 3 – A Administração Pública Florestal de 1886 a 2006 (ENF, 2006)
18 Por outro lado, os Instrumentos legais e institucionais foram também acompanhando esse mesmo percurso e foram aparecendo como ferramentas de controlo e tentativa de ordenamento dos espaços. Essas mesmas ferramentas de ordenamento e gestão aparecem associadas à própria evolução Política do País e assim à sua explanação administrativa.
É nesse sentido que foram sendo desenhados também desde cedo Planos que atravessam as escalas Nacionais, Regionais/Setoriais e Municipais, como se pode explanar melhor na figura 4.
19
3.2. A Floresta em Portugal Continental
Foi neste contexto, e considerando todos os fatores envolvidos, que pudemos herdar a floresta atual em Portugal Continental, que se pode considerar evolutivamente, segundo os dados existentes e registados, relativamente estável, tal como explanado na figura 5.
Figura 5 – Evolução da Floresta Portuguesa entre 1900 e 2002 (Pinho, 2005).
Por outro lado a análise da distribuição da posse da floresta Portuguesa denota uma componente privada muito alta quando comparada com outras regiões do globo, como se pode depreender da análise da figura 6.
20 Estes fatos, associados ao evoluir natural da sociedade Portuguesa e consequentemente da sua estratégia politica como Nação, levaram a um tipo de coberto florestal associado às práticas culturais e às tradições e costumes (Ribeiro, 1967), que se pode visualizar na figura 7.
Não deixa de ser interessante apontar para questões etnográficas regionais e mesmo locais, associado aos momentos históricos e políticos, uma correlação de fato com o coberto dos espaços silvestres e florestais.
Neste sentido, podem relacionar-se alguns momentos ou tradições como sejam a introdução/expansão da cultura do Eucalipto (que trouxe além da controvérsia um dos
clusters florestais mais importantes sob o ponto de vista económico Nacional) ou a
manutenção dos soutos e carvalhais do interior transmontano com a profunda ligação à terra dessas gentes durante séculos ou ainda a ramada minhota e a cultura agrícola associada como atividades intrínsecas à cultura local e seu desenvolvimento, ou ainda os montados do sul como os conhecemos hoje e a proliferação da indústria da cortiça e a criação de outro dos maiores clusters financeiros nacionais.
A paisagem e os espaços foram também sofrendo estas alterações em consonância com a atividade das populações e das escolhas orientadoras de política florestal, que nestas matérias se fazem sentir na generalidade, nas gerações vindouras.
A construção dos espaços é assim uma mistura de evidências de utilização dos mesmos durante os séculos com as condições naturais que à partida proporcionam essas mesmas utilizações. Queremos neste ponto alertar para que os fenómenos humanos estão claramente ligados aos espaços como fator de sobrevivência, mas também como fator de modelação destes mesmos espaços.
Esta característica pode conduzir os espaços para a harmonia e gradativa evolução de conservação e biodiversidade mas também conduzir à sua degradação quando são rompidos os equilíbrios essenciais da sustentabilidade.
Deste modo, podemos encarar aqui um dos princípios básicos da evolução do tema dos incêndios florestais em Portugal, que é a própria relação entre os espaços silvestres e a sua humanização. Os fatores de despovoamento entre outros, como sejam as tendências evidenciadas para silviculturas produtivas em monocultura de larga escala com espécies mais vulneráveis ao aparecimento do fogo e sua propagação, o abandono da atividade rural, a disponibilidade de mecanização e a capacidade financeira que se verificaram nas ultimas décadas são também fator de modelação em escala temporal, como é para a vinha um ano de crise climatérico ou para a cortiça um ano de crise na vinha ou ainda uma qualquer crise mundial no consumo de vinho.
21 A figura 7 dá-nos uma visualização da ocupação florestal em Portugal Continental, cuja distribuição pode ser caracterizada em função da dominância da ocupação dos espaços e que como já mencionamos engloba no seu todo a apetência florestal natural do seu território, explanado graficamente na figura 8, e segundo um conceito e classificação dos espaços a uma escala superior, como se pode visualizar na figura 9.
Figura 7 – Ocupação Florestal em Portugal Continental- Área e percentagem de ocupação por espécie (Pinho, 2010).
22 Figura 8 – Vegetação natural potencial em Portugal Continental (Costa et. al., 1998/2001).
23 Figura 9 – Classificação dos Espaços em Portugal Continental (5.º Inventário Florestal
Nacional, 2005-06 - AFN).
Por outro lado a imensa riqueza que este setor proporciona está latente na incorporação de valor na cadeia produtiva, que se traduz em incremento na cadeia de valor acrescentado na fileira, e que calcula em cerca de 60 a 70 cêntimos por euro exportado (Bessa, Prof. Doutor Daniel, Conferência BES, 2011) e cujos resultados totais brutos se podem visualizar na figura 10.
Figura 10 – Exportações Florestais por Sector (Fonte: BES – Espírito Santo Research, 2011).
24 Os quais, traduzem em termos de PIB um valor significativo, que atingiu em 2010 cerca de 10,4% das exportações e 1,7 % do PIB Nacional.
Por outro lado temos que ter em conta a noção de valor dos ecossistemas e a avaliação referenciada já para os ecossistemas mediterrâneos (ENF, 2006), que aponta para valores muito significativos do valor global por hectare e por ano às florestas portuguesas, no contexto da bacia mediterrânea, como se pode inferir da leitura da figura 11.
Figura 11 – Valor Global (euros/ha/ano) da Floresta em Portugal Continental (ENF, 2006).
3.3. A Floresta na Área da Comissão Regional de Reflorestação
do Alto Alentejo - CRRAA
A ocupação florestal na área da CRRAA, que integrou os concelhos de Portalegre, Castelo-de-Vide, Marvão, Nisa, Ponte-de-Sôr, Crato, Alter-do-Chão e Gavião, na sua integralidade e todos incluídos no distrito de Portalegre e consequentemente no PROF do Alto Alentejo, é demonstrativa da ocupação florestal no Alto Alentejo e como se pode entender da figura 12, a distribuição é uniforme ao longo deste território, tal como já descrito no PROF do Alto Alentejo, considerando que existe sobreposição natural entre os sistemas agrícolas (essencialmente pecuários) e os sistemas florestais, a ocupação florestal e agrícola tem uma expressão no território com mais de 70% dos espaços. 0 20 40 60 80 100 120 140 160 Pr o d u to s L e n h o so s O u tr o s Pr o d u to s não L e n h o so s Pastag e n s C aç a R ec rei o Pr o te ção R e gi me H íd ri co Se q u e str o C ar b o n o Pr o te ção Pai sag e m e Bi o d iv e rsi d ad e
Valores de Uso Direto Valores de Uso Indireto
Eu ro s/h a/ an o
25 Figura 12 – Localização dos Espaços Florestais no Alto Alentejo, Floresta, Espaços não arborizados e águas interiores (PROF Alto Alentejo - DGRF, 2007).
No que diz respeito à ocupação florestal (PROF Alto Alentejo, 2007) temos uma distribuição em que predominam as formações de sobreiro e azinheira, seguidas do eucalipto e do pinheiro-bravo. Esta distribuição assenta nas características geomorfológicas e estruturais da região (Cancela, 2000 a,b), onde podemos observar a predominância do sobreiro e azinho nas Sub-Regiões Homogéneas (PROF do Alto Alentejo, 2007) “Montados do Alentejo Central”, “Peneplanície do Alto Alentejo” e “Charneca do Tejo e Sado e as formações de Eucaliptal e Pinhal nas Sub-Regiões Homogéneas “Pinhais do Alto Alentejo”, “Tejo Superior” e “Serra de S. Mamede”. Nesta última Sub-Região Homogénea aparecem ainda formações de Castanheiro e outros Carvalhos. Esta distribuição pode ser melhor visualizada na figura 13.
Dá-se realce ainda para o aparecimento de povoamentos mistos, de sobreiro e azinheira e de se encontrarem ainda alguns soutos de Castanheiro e formações agroflorestais de Carvalhos na Sub-Região Homogénea “Serra de S. Mamede”.
26 Figura 13 – Ocupação Florestal no Alto Alentejo (PROF Alto Alentejo - DGRF, 2007).
Por outro lado podemos intuir a continuidade das manchas florestais nesta área ao analisarmos a figura 14 e assim verificarmos que a maior continuidade de manchas se deve às formações de sobreiro da charneca da Ponte de Sor, aos eucaliptais de Nisa e Gavião e aos pinhais e eucaliptais da Serra de S. Mamede.
27 Figura 14 – Dimensão Mancha Florestal no Alto Alentejo (hectares) (PROF Alto
Alentejo - DGRF, 2007).
3.4. A Estratégia Nacional para as Florestas no Contexto do Alto
Alentejo
A ENF, publicada em 2006 e após o delineamento e aprovação das OER, vem consolidar, aprofundar e ordenar muitas destas considerações.
É um fato que as OER são consubstanciadas pelos objetivos estratégicos da ENF, nas suas varias componentes, com enfâse nas OER para as componentes A (Minimização dos Riscos de Incêndios e Agentes Bióticos) e B ( Especialização do Território) (ENF, 2006).
São as componentes A e B da ENF as que mais se salientam nas OER, mas as componentes C (Melhoria da Produtividade através da Gestão Florestal Sustentável), D (Redução de Riscos do Mercado e aumento do Valor dos Produtos), E (Melhoria Geral da Eficiência e Competitividade do Setor) e F (Racionalização e Simplificação dos Instrumentos de Politica), não deixam de estar presentes e muito menos consequentes (ENF, 2006).
28
3.5. O Ordenamento e o Sistema de Planeamento Florestal
Português
O sistema de Planeamento Territorial Português tem duas vertentes que são necessárias entender antes da abordagem ao sistema propriamente dito e cujo entendimento é imprescindível ao entendimento da própria territorialidade:
São diacrónicos no tempo ao nível das instituições, quer na Administração Central quer na Administração Local, quer entre ambas;
O nível de explanação destes às populações e a compreensão/ assimilação destes pelas mesmas é muito demorado e por vezes superior ao ciclo de vida dos próprios instrumentos;
Estes factos derivam da instabilidade institucional e do envelhecimento geral da população portuguesa, fenómeno que se acentua nas regiões rurais, tal como podemos visualizar na figura 15.
Figura 15 – Explorações em 1999 e correspondência no início da atividade rural em três décadas (Fonte: INE) .
29 Quanto ao Planeamento Territorial propriamente dito, podemos afirmar que temos uma conceptualização bem explanada, baseada em Planos bem estruturados e com definição estratégicas dos seus vínculos bem organizada, que se articulam entre si e que culminam na figura dos PDM.
Nesta direção, em sequência hierárquica:
PROT Alentejo (que desenvolve o PNPOT)
PROF Alto Alentejo
Plano de Ordenamento do PNSSM
PDDFCI do Alto Alentejo
PDM dos oito municípios
PMDFCI.
Esta hierarquia é importante pois além de outras figuras de enquadramento e leis em geral para matérias específicas temos que o sistema de planeamento florestal assenta basicamente na transposição em tempo dos PROF para os PDM e do planeamento DFCI também para os PDM e para a figura de um Plano Distrital DFCI.
Esta articulação é lenta e a revisão diacrónica destes instrumentos de gestão territorial levam a uma certa desordem na capacidade de resposta a questões como inovação e competitividade no mundo rural, que associado ao abandono e envelhecimento da população cria obstáculos fortíssimos ao desenvolvimento e prosperidade destas populações.
A figura 16 mostra a articulação e dependência das figuras de planeamento florestal em vigor.
30 A estruturação das Orientações Regionais de Reflorestação foram entrelaçadas nesta rede de figuras de Ordenamento/Planeamento de forma a coincidirem com as mesmas e poderem fazer verter nestas, nos momentos de revisão, os seus conteúdos. Foi assim que se verteu no PROF do Alto Alentejo a parte da Rede Regional de Defesa da Floresta Contra Incêndios aprovada em sede da CRRAA e que os diversos PDM, quando em revisão estão a absorver através da estabilização das mesmas, os conteúdos técnicos nos PMDFCI e no PDDFCI, então iniciados e já concluídos segundo o esquema que se pode visualizar na figura 17.
Figura 17 – Articulação das OER com o planeamento e projeto (Pinho, 2006).
3.6. A Estrutura Fundiária em Portugal Continental
A análise da estrutura fundiária de Portugal Continental para esta abordagem específica restringe-se à designação técnica da estrutura cadastral da propriedade.
Essa estrutura tem diferenças significativas entre o Norte e o Sul de Portugal Continental (Ribeiro, 1967) fruto da diversidade de sistemas agrários nestas duas realidades.
Este facto realça-se na dimensão média de exploração e consequentemente no tipo de exploração praticado tendo por fundo claro está a rota dos tempos e
31 concludentemente a marca das culturas e dos saberes. Não nos podemos esquecer de tal como afirma (Ribeiro, 1967) estamos sob influências que determinam enormes diversidades em pequenos espaços geográficos.
Para este trabalho chega esta distinção entre Norte e Sul, que se espelha nas figuras 18, 19, 20, 21, 22 e 23 como facto de apoio à explicação de determinados fenómenos, designadamente neste caso os incêndios florestais e o ordenamento do território.
32 Figura 19 – SAU – Blocos (número) (Fonte: INE).
33 Figura 21 - SAU – Evolução Exploração Conta Própria (número) (Fonte: INE).
34
Figura 23 - SAU – Evolução Exploração Arrendamento Campanha (número) (Fonte: INE).
Não podemos deixar de citar como fator crítico de análise a evolução do tipo de propriedade, da sua posse e exploração em Portugal Continental, como base de entendimento de um dos fatores que entendemos para ponto de partida, tal como já referido na introdução dada a sua natureza e complexidade na interação com o fenómeno do uso do fogo, isto é, da gestão de combustíveis (Fireparadox, 2010) na procura da compreensão dos incêndios florestais e sua conexão com a ruralidade.
35 Figura 24 – Reconversões em Pousios (número) (Fonte: INE).
36 Figura 26 – Reconversões em Pastagens (número) (Fonte: INE).
Por outro lado uma leitura atenta das figuras 24, 25 e 26 levam-nos à conclusão de fatores de abandono da atividade agrícola tradicional, com a conversão em pousios, floresta e pastagens de uma grande percentagem do território Nacional entre os dois censos gerais agrícolas efetuados.
3.7. A Estrutura Fundiária Regional do Alto Alentejo
A Região do Alto Alentejo tem uma estrutura fundiária complexa, desde logo associada a diferentes unidades de paisagem e diferentes unidades geomorfológicas
(PROF Alto Alentejo - DGRF, 2007).
A diversidade do Alto Alentejo, ancorada na diversidade da sua base territorial, isto é, paisagística, tem razões naturais que levam a estar representado neste território uma excelente base de análise à escala nacional, com a exceção das zonas litorais costeiras. Tendo por fundo a Serra de S. Mamede com a sua grandiosidade, é banhado pelos sistemas de sobro, na charneca de Ponte de Sôr (que depois se estende pela Chamusca até à Lezíria do Tejo) e azinho que é característico dos xistos
37 mais interiores e sob o ponto de vista litológico mais pobres, do sul de Portugal até às encostas do Tejo internacional, com o retalho característico.
É neste complexo território que encontramos também a convivência com a média propriedade (mesmo alguma grande na Charneca) com o retalho da propriedade na serra ou no médio Tejo (freguesia de Belver – Gavião). É um território de charneca entre o norte e o sul, naquele conceito de propriedade inicial, que se transpõe naturalmente entre os dois. É visível a extensão das freguesias a sul com a planície alentejana e a norte com a continuidade serrana, tal como se pode inferir na extensão da freguesia de Belver para norte nas freguesias e concelhos vizinhos a denotar a tal evidência da tão normal e conhecida transição cuja culpa é novamente da diversidade que Orlando Ribeiro tanto acentuou.
Estas características, quer da estrutura da propriedade quer da sua evolução associadas à implantação humana e suas atividades levam à modelação do território e é assim que aparentemente imutável o mesmo sofre alterações temporais resultantes destas dinâmicas, tal como se pode depreender da análise da figura 27.
Figura 27 – Evolução e diversidade nas explorações no Alto Alentejo (número) (Fonte: INE).
38
3.8. A Demografia e a Ruralidade no Alto Alentejo
Quando falamos de demografia e ruralidade no contexto deste trabalho estamos a restringir o plano de análise aos fatores críticos para o fenómeno a estudar. É uma evidência que as alterações nos hábitos e práticas rurais e as novas vias de comunicação têm influência estratégica na abordagem, mas no contexto deste trabalho estamos a abordar o problema pela sua vertente rural exclusiva e assim interessa concretizar a forma de exploração, que se pode resumir na figura 28, e a evolução das explorações em número, que se pode constatar na figura 29.
39 Figura 29 – N.º Explorações Alto Alentejo em função da existência de mínimo de SAU, Pecuária e Culturas Agrícolas (Fonte: INE).
Por outro lado o tipo de práticas e o tipo de aproveitamento do território rural que podem ser observados nas figuras 30 e 31 é logicamente um fator critico de análise que tem de ser posto em evidência.
40 Figura 30 – Evolução utilização solo no Alto Alentejo (Fonte: INE).
41 Figura 31 – Evolução da mecanização no Alto Alentejo (Fonte: INE).
42 Neste contexto, a leitura das figuras anteriores aponta para a alteração da quantidade de terra arável limpa, alteração na estrutura familiar com a diminuição de horta familiar e com um incremento da mecanização, através do aparecimento de plantadores/transplantadores e estufas móveis, associado a um aumento notável do número de tratores no processo agrícola.
É notório que temos de associar estes fatores a outros socioeconómicos, para se poder entender a desertificação do interior e suas consequências (Desertificação, 1988) assim como entender a mecanização em massa como um fator de degradação do solo quando usado em larga escala (DSVF, 2003) e também o abandono das atividades de subsistência, que caraterizavam as zonas de minifúndio e assim nesta área em particular, a zona da serra de S. Mamede e sua envolvência.
A operacionalização dos quadros comunitários de apoio em escala na paisagem teve a virtude de incrementar beneficiação de povoamentos florestais e também a de arborizar territórios agrícolas marginais associando esse fenómeno à criação de empresas e desenvolvimento económico, mas que se esgotam nesses mesmos quadros e que em tempos menos vigorosos de apoios públicos fazem de novo acentuar o êxodo, como se pode verificar nesta fase em que durante os últimos anos a execução dos quadros comunitários de apoio (QCA) e da PAC foi fraca e errática, promovendo o abandono (Desertificação, 1988).
É sob este contexto e a necessidade de planeamento dos espaços em função da sua territorialidade, associada inevitavelmente às tendências evolutivas dos fatores socioeconómicos, que temos de planear o território das próximas gerações como um fator de sustentabilidade.
A estes fatores acresce, tal como descrito no PROF do Alto Alentejo, que estamos numa área de baixa densidade populacional e com mecanismos sociais de tendência de incremento da urbanização em volta dos espaços urbanos sede de concelho (PROF Alto Alentejo - DGRF, 2007) o que naturalmente vai retirando população aos espaços rurais.
3.9. A Problemática dos Incêndios Florestais: Os Grandes
Incêndios
É um fato que um dos grandes problemas dos incêndios florestais são os grandes incêndios (PNDFCI, 2004) designadamente pelas suas consequências.
43 Assim, podemos afirmar que por exemplo para o ano fatídico de 2003, só cerca de 6% dos incêndios na área da CRRAA se transformaram em grandes incêndios e que esses consumiram mais de 80% da área ardida nesse mesmo ano.
Por outro lado e se a nomenclatura técnica divide os incêndios em fogachos (menos de 1 hectare), incêndios (até 100 hectares) e grandes incêndios (mais de 100 hectares) (Carvalho e Lopes, 2001) todos começam naturalmente pelos mesmos fatores, oportunidade de combustão com destaque para os modelos de combustível (Fernandes, 2009), disponibilidade de combustíveis (que inclui ocupação do solo e a estrutura e composição dos povoamentos florestais) (Moreira et al., 2010) (e.g. Rothermel, 1983; Mermoz et al.,2005) e por fim condições climatéricas favoráveis.
Neste sentido a eclosão de grandes incêndios, ao contrário dos fogos propriamente ditos, podem ser alvo de tentativa de mitigação e minimização de efeitos, com a introdução de técnicas silvicultura e planeamento que levem à diminuição da probabilidade de incêndio (com ações de sensibilização das populações e diminuição das cargas de risco) (Moreira et al., 2010) a uma melhor capacidade de controlo da propagação dos mesmos, com a introdução de descontinuidade de combustíveis através de mosaicos estruturais, (Rigolot, 2002) (CRRAA, 2006) (Pinho et al., 2006) cuja velocidade de propagação, à escala da paisagem, está relacionada pelo grau de heterogeneidade desta (Turner e Dale, 1990) e uma melhor preparação para a deteção e combate (infraestruturação em redes e melhor capacitação de meios e comando), (PNDFCI, 2004).
É a este fenómeno integrado que no fundo chamamos a Rede Regional de Defesa da Floresta Contra os Incêndios e que será posteriormente abordada.
No entanto podemos desde já afirmar que todo este trabalho integrado avalia a capacidade natural dos espaços e respetivas populações, valores e capacidades de resposta, que permitam minimizar os efeitos dos grandes incêndios e, em última análise, intentar que estes sejam suprimidos à cabeça.
3.9.1. A experiência do Ordenamento do Território e da Defesa da
Floresta Contra os Incêndios
O planeamento da recuperação de espaços percorridos por grandes incêndios florestais tem um longo historial em Portugal, dada a dimensão que este fenómeno vem ganhando nos últimos 50 anos. Numa vertente exclusivamente biofísica, a recuperação de áreas ardidas envolve, tradicionalmente e para os sistemas florestais de silvicultura não intensiva, três fases distintas (CRRAA, 2006):
44
A primeira, muitas vezes designada como de “intervenção” ou “estabilização de emergência”, decorre logo após (ou ainda mesmo durante) a fase de combate ao incêndio e visa não só o controlo da erosão e a proteção da rede hidrográfica, mas também a defesa das infraestruturas e das estações e habitats mais sensíveis;
Segue-se uma fase de “reabilitação”, nos dois anos seguintes, em que se procede, entre outras ações, à avaliação dos danos e da reação dos ecossistemas, à recolha de salvados e, eventualmente, ao controlo fitossanitário, a ações de recuperação biofísica e mesmo já à reflorestação de zonas mais sensíveis;
Na terceira fase são planeados e implementados os projetos definitivos de recuperação/reflorestação, normalmente a partir dos três anos após a passagem do fogo.
Os procedimentos relativamente às duas primeiras fases, cuja implementação é responsabilidade do proprietário florestal ou de entidades públicas em zonas especiais de gestão (perímetros florestais, áreas protegidas, albufeiras de águas públicas, etc.); são exceção os anos de épocas severas de fogos florestais, em que são instituídos mecanismos excecionais de apoio ao controlo da erosão, à recolha de salvados, à silvopastorícia, etc. (Moreira et al, 2010).
Após o Verão de 2003 foi criado um regime alargado de auxílio às áreas sinistradas, em parte suportado pelo Fundo de Solidariedade da União Europeia, que abrangeu um leque variado de operações de emergência, desde a reparação de infraestruturas municipais até à proteção de ecossistemas e espécies classificadas ou ao controlo da erosão e risco de cheias. Também em Setembro de 2003 foi aprovado o “PROGRAMA DE EMERGÊNCIA PARA AVALIAÇÃO E MINIMIZAÇÃO DE RISCOS DE CHEIAS E DE EROSÃO EM ZONAS AFECTADAS POR INCÊNDIOS FLORESTAIS”, coordenado pelo Instituto da Água (INAG) e envolvendo ainda as Direções Regionais do Ambiente, a Direcção-Geral das Florestas (DGF) e o Instituto da Conservação da Natureza (ICN).
No que respeita à fase 3 são numerosas as experiências de recuperação florestal pós-incêndio que, como já se referiu, teve o primeiro enquadramento legal com o Decreto-Lei n.º 488/70, de 21 de Outubro, o qual previa um apoio especial à reflorestação e encarregava a Direcção-Geral dos Serviços Florestais e Aquícolas de “tomar todas as disposições tendentes à reconstituição dos povoamentos florestais atingidos por incêndios”. Em 1988 foi incluído no chamado “Pacote Florestal” o Decreto-Lei n.º 139/88, de 22 de Abril, que estabelece o regime a que ficam sujeitas
45 as áreas de povoamentos florestais percorridas por incêndios e prevê como regra geral a rearborização dos terrenos florestais ardidos.
A década de 1980 assistiu a iniciativas interessantes de recuperação após grandes incêndios (Silva, J.M., 1988), das quais realçamos a que se desenvolveu no Perímetro Florestal da Serra do Marão após o incêndio de 1985, em que novas metodologias de organização do espaço (algumas desenvolvidas com base nos ensinamentos colhidos com o próprio incêndio) foram concretizadas em larga escala, com sucesso até ao momento. Interessa por isso focar, ainda que brevemente, os casos mais representativos e salientar para a recuperação das áreas ardidas, os exemplos do Perímetro Florestal do Marão, Meia Via e Ordem e ainda o caso dos Planos Especiais de Recuperação de Áreas Ardidas, em que se evidência por questões Regionais o caso do Plano de Recuperação das áreas Ardidas dos Incêndios de 1995 e 1999 na Serra do Caldeirão.
Por fim e já na década de 2000 tivemos os grandes incêndios de 2003 e 2004, que fustigaram uma vastíssima área, desde o sopé da serra da estrela até ao algarve. (CRRAA, 2006).
Dos casos acima exemplificados podem ser retiradas as seguintes ilações para os processos de recuperação de espaços florestais atingidos por incêndios de grandes dimensões (CRRAA, 2006):
A intervenção exclusiva nos terrenos ardidos (ou em zonas de reduzida dimensão, no caso dos fogos mais pequenos) oferece poucas garantias de sucesso quanto à possibilidade de alterar decisivamente os fatores estruturais que contribuíram para a extensão dos fogos;
A interdisciplinaridade na elaboração dos programas de intervenção garante uma maior aderência à realidade biofísica e socioeconómica das regiões em recuperação;
A adoção de medidas especiais de defesa da floresta contra incêndios (DFCI) deverá ser considerada prioritária, aproveitando a janela de oportunidade para a reestruturação do espaço;
O envolvimento de outras entidades e, em especial, dos proprietários florestais tem, entre outros, o mérito de fomentar a contribuição positiva por parte dos diversos atores, garantindo um maior equilíbrio nas soluções e um maior empenhamento na sua execução;
46
É fundamental disponibilizar os prazos e meios financeiros e legais adequados, bem como identificar uma entidade responsável pela execução ou promoção da execução do plano.
3.9.2. Os Incêndios em Florestais de 2003
3.9.2.1. Em Portugal Continental
O Verão de 2003 assistiu à pior época de fogos florestais de sempre em Portugal. A superfície territorial percorrida por incêndios totalizou cerca de 420.000 ha, sendo este valor 4 vezes superior à média do decénio 1993-2002 e 3,4 vezes à do quinquénio 1998-2002, que já fora o pior desde que há estatísticas oficiais. (CRRAA, 2006).
Em 2004 e 2005 ocorreram novos episódios meteorológicos extremos e, em simultâneo, incêndios florestais que no sudoeste da Península Ibérica devastaram novamente extensas áreas de espaços florestais supostamente mais resistentes aos fogos.
Figura 32 - Áreas florestais ardidas entre 1971 - 2011. Médias móveis de 5 anos (ha) (Fonte: AFN).
47 Nos fatídicos incêndios florestais de 2003, vinte pessoas morreram em consequência direta dos fogos; 3 848 famílias foram diretamente afetadas. Como exemplo dos danos patrimoniais indique-se um saldo final de 244 habitações destruídas ou parcialmente danificadas, 2500 edifícios igualmente destruídos ou danificados ou ainda 62 empresas afetadas.
Dificilmente porém será apurada a real dimensão dos prejuízos em patrimónios naturais e culturais, como os recursos hídricos e pedológicos, a diversidade biológica, a qualidade do ar ou a paisagem, e na base económica do país, em sectores tão diversos como as fileiras florestais, o turismo, o abastecimento de água potável ou a produção de energia.
Antes de qualquer outra explicação para o fenómeno então verificado, devemos incidir na leitura da figura 33, que nos reporta de algum modo alguns critérios de análise de alterações climáticas em Portugal Continental, tal como descrito na Estratégia Nacional para as Florestas. (ENF, 2006).
Figura 33 – Evolução Climática 1920 – 2000 (ENF, 2006).
Também ao nível dos trabalhos em curso de revisão do PANCD (Programa Ação Nacional de Combate à Desertificação), no âmbito do projeto “DesertWatch II”
48 desenvolvido em parceria entre a UNCCD (Comissão das Nações Unidas Combate à Desertificação) e a ESA (Agência Espacial Europeia), os trabalhos preliminares mostram um avanço dos índices de suscetibilidade no território nacional, quando efetuada uma comparação entre as séries climáticas 1960/1990 e as séries 2000/2010.
Apesar de os dados da última série terem somente uma década como suporte de análise, mostram uma tendência clara de agravamento deste fenómeno.
Na área da CRRAA, temos a mesma situação com incremento do índice para a generalidade da área, como se pode visualizar na comparação das figuras 34 e 35.
Figura 34 – Suscetibilidade à Desertificação – Análise da série 2000/2010 (PANCD, 2011).
49 Figura 35 – Suscetibilidade à Desertificação – Análise da série 1960/1990 (PANCD, 2011).
Entre os documentos produzidos na sequência dos incêndios de 2003 salientamos, tal como já o foi no texto do CNR e CRRAA, o “RELATÓRIO DA COMISSÃO EVENTUAL PARA OS INCÊNDIOS FLORESTAIS” da Assembleia da República que identificou então os diversos fatores, estruturais e conjunturais, explicativos da catástrofe:
50
A falta de ordenamento e abandono dos espaços florestais, a que acresce uma profunda mutação na organização dos espaços rurais, com o abandono das atividades agrícolas tradicionais, que frequentemente compartimentavam e estruturavam os povoamentos florestais;
Uma onda de calor e, nalgumas regiões, um período seco prolongado, que elevou os índices de risco a valores extremos durante largos períodos e ocorrência de inúmeras trovoadas secas (como fonte de ignição);
A situação meteorológica e o número e dimensão dos incêndios verificados acentuaram deficiências antigas no âmbito da logística, comunicações, coordenação dos meios aéreos e adequação dos meios de combate;
A origem criminosa, com negligência ou dolo, da grande maioria dos fogos com causa apurada;
O não cumprimento ou concretização de grande parte da legislação florestal. Relativamente às causas identificada pela Comissão Eventual de Incêndios Florestais e como tendências pesadas tidas em conta no planeamento da recuperação das áreas ardidas em 2003 salientamos ainda:
Uma acrescida dificuldade em travar o despovoamento das regiões florestais e o abandono das práticas agrárias tradicionais, até pela aplicação das novas medidas de política agrícola comum europeia, que propiciarão o acumular de combustíveis na generalidade dos espaços rurais;
O agravamento projetado das condições climáticas que propiciam a ocorrência dos incêndios (Pereira e Santos, 2003);
A grande dificuldade de, no curto a médio prazo, se conseguir uma substancial mudança comportamental no uso do fogo por segmentos importantes da população que vive nos meios rurais e nos urbanos, para além das sempre problemáticas repressão e dissuasão da atividade criminosa;
Num documento precursor e, infelizmente, premonitório do que viria a suceder nas décadas seguintes, (Quintanilha et al.,1965) identificam as estratégias necessárias para a resolução do problema, então emergente, dos grandes incêndios na floresta privada das regiões em processo de despovoamento.
Gizado na sequência de incêndios de grandes dimensões que afetaram, em parte, propriedades administradas pelos Serviços Florestais e, também, após a constituição