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A dualidade do brasileiro a partir da obra "Esaú e Jacó"

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Academic year: 2021

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“Esaú e Jacó”

Resumo

Este artigo tem por objetivo analisar a dualidade do brasileiro sob a perspectiva conservadora e progressista que habita nas opiniões sobre política e a forma de enxergar a sociedade da qual vivemos atualmente. Para tal observação, a investigação será debruçada a partir das obras Esaú e Jacó de Machado de Assis(2012), considerado o maior escritor clássico literário brasileiro, Pequena História da República de Cruz Costa(1974), filósofo graduado pela Universidade de São Paulo (USP) e A elite do atraso de Jessé Souza(2017), mestre e doutor em sociologia e pós-doutor em psicanálise e filosofia.A análise é elaborada a fim de desenvolver uma relação entre as ideias de cada autor e estruturar a hipótese de como nasceu a dualidade do brasileiro durante a transformação do regime imperialista para o republicano, cenário histórico apresentado tanto no romance de Machado de Assis, como nas obras de Jessé Souza e Cruz Costa.

Bruna Milaré

Graduanda em Sociologia e Política pela FESPSP ([email protected])

Stephany Bevenuto

Graduanda em Sociologia e Política pela FESPSP ([email protected])

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Introdução

Este trabalho tem por objetivo analisar a dualidade do brasileiro sob a perspectiva conservadora e progressista que habita nas opiniões sobre política e a forma de enxergar a sociedade da qual vivemos atualmente. Esta investigação será debruçada a partir das obras “Esaú e Jacó”, “Pequena História da República” e “A elite do atraso”, a primeira de Machado de Assis, considerado o maior escritor clássico literário brasileiro, a segunda de Cruz Costa, filósofo graduado pela Universidade de São Paulo (USP) e a terceira de Jessé Souza, mestre e doutor em sociologia e pós-doutor em psicanálise e filosofia.

Observando processo histórico pelo qual o Brasil passou durante a transição do Império para o regime republicano, pretende-se avaliar a unidade contraditória da semelhança entre ideais conservadoras e liberais, que, mesmo tendo princípios e convicções diferentes, acabam levando a estrutura social do país para o mesmo lugar. A obra de Esaú e Jacó é sinestésica para tal análise, pois com o brilhantismo literário de Machado é possível compreender, através de suas personagens, a ambiguidade da sociedade brasileira e consistência das elites que transitaram ilesas pelo século XIX e se perpetuam até os dias atuais.

A elaboração da composição da classe média durante a segunda metade do século XIX e sua formação como agente indispensável no processo de transição império-república será observada através da obra de Cruz Costa, que nos narra os conflitos que pleiteavam aquela sociedade e nos introduz aos interesses da mudança do regime.

É a partir da obra de Jessé Souza, que aborda a crítica contra a estrutura do pensamento atual e a

interpretação que o brasileiro tem sobre a sociedade, que iremos criticar como tal censo foi fundamentado pelas elites universitárias ideológicas de direita e esquerda, que contribuíram para tal dualidade polarizada se estabelecer através da cultura e economia entre as classes existentes no Brasil.

A conexão entre as obras é estabelecida a fim de identificar o contexto histórico do século XIX e através dos agentes explanados, traçar uma crítica que nos permita estabelecer os atores sociais e quais suas responsabilidades no processo de formação desse Brasil dual e desigual.

1. Esaú e Jacó: o contexto histórico e

literário

A obra Esaú e Jacó de Machado de Assis, publicada em 1904, trata as transformações políticas que o Brasil sofreu durante o final do século XIX, época em que passou a ser República após 67 anos de regime imperial. De forma sutil e um tanto quanto sarcástica, o autor aborda as questões políticas, religiosas e sociais do país através de uma somatória de fatores e examina os agentes que causaram tais transformações ao passo que mantiveram as estruturas sociais, culturais e econômicas nas mãos dos mesmos atores de sempre.

Outro aspecto a se tratar sobre a análise da obra é a forma como Machado narra a história de forma lenta e cheia de detalhes nas descrições dos fatos. Exemplo disso é a passagem do capítulo XI: “Perdoa estas minúcias. A ação podia ser sem elas, mas eu quero que saibas que a casa era, e que rua, e mais digo que ali havia uma espécie de clube, templo ou o que quer que era espírita. ” (ASSIS, 2012, p.54).

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A postura de adotar uma narrativa factual minuciosa está diretamente ligada ao processo longo, gradual e seguro pelo qual o Brasil transitou entre Império e República. As personagens de Esaú e Jacó estão carregadas de representatividade sobre o contexto histórico do Brasil na época da transição Império –República, através de um texto literário elaborado cuidadosamente para relatar seu testemunho político pela realidade dos aspectos do brasileiro.

A fim de direcionar a análise sobre de tal transição histórica já mencionada, examinaremos algumas das personagens que estão presentes na obra de Machado de Assis por meio dos elementos e conceitos que estão nas problemáticas desenvolvidas por Cruz Costa e Jessé Souza.

1.1 Natividade

O romance se inicia com as personagens Natividade, mãe de gêmeos, e sua irmã, Perpétua, indo visitar a cabocla do Morro do Castelo. Natividade ansiava por saber o destino de seus filhos que haviam chegado ao mundo há pouco tempo. Ao ouvir da cabocla que estes seriam grandes, Natividade não se contenta com a resposta e insiste por detalhes, tendo na sequência a afirmação: “serão grandes, oh! Grandes! Deus há de dar-lhes muitos benefícios. Eles hão de subir, subir, subir.... Brigaram no ventre de sua mãe, que tem? Cá fora também se briga. Seus filhos serão gloriosos. É só o que lhe digo. Quanto a quantidade da glória, coisas futuras! ” (ASSIS, 2012, p.30).

Através da cena relatava acima, destacamos aqui a personagem Natividade, figura que simboliza pátria brasileira, viveu em prol dos filhos, Pedro e Paulo, idênticos fisicamente, ambos como frutos da

mesma nação e criados a partir das mesmas doutrinas e princípios, mas que partilhavam de opiniões, convicções e ideologias diferentes. Natividade desejava que os dois estabelecessem a paz entre si e aguardou a vida toda pela “grandiosidade” que a cabocla anunciou em seus primeiros meses de vida. A personagem reflete uma nação que tenta fazer com que não ocorram conflitos grandiosos entre seus frutos mais originais: o conservador e o progressista; o arcaico e o moderno juntos através de um laço invisível, que, por mais novas as formulações sociais, culturais e governamentais que o Brasil passasse, a ruptura de seus privilegiados não aconteceria e as mãos que comandariam o país seriam as mesmas.

1.2 Pedro e Paulo

A dualidade de Pedro e Paulo é a principal alegoria

do romance. Não representa apenas a conservação e a mudança, Luis XV e Robespierre, Monarquia e República. Como os trabalhadores brancos contra os pretos, essas imagens emblematizam o confronto constante dos gêmeos. Elas representam o princípio da guerra como mãe de todas as coisas. ”

(SANSEVERINO, 1999, p.7).

“No dia 7 de abril de 1870 veio à luz um par de varões tão iguais, que antes pareciam a sombra um do outro, [...] Tinham o mesmo peso e cresciam por igual medida. A mudança ia-se fazendo por um só teor. [...]viriam a ter gênio diferente, mas por ora eram os mesmos estranhões. ”(ASSIS, 2012, p.44,45.).

A passagem escolhida para apresentar os gêmeos está no capítulo VIII, parte da obra que os nomes de Pedro e Paulo são escolhidos pela tia Perpétua, “Um dia, estando Perpétua à missa, rezou o Credo, advertiu nas palavras: “... os santos apóstolos S. Pedro e S.

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Paulo”, e mal pôde acabar a oração. Tinha descoberto os nomes. ” (ASSIS, 2012, p.45).

As duas partes relatadas anteriormente indicam dois pontos importantes dos quais o autor fez questão de referenciar para dar sentido a sua abordagem histórica e literária. A primeira se trata de como o rumo político e histórico se moldaria a partir das consequências que o nascimento de dois conceitos ideológicos que, mesmo através de semelhanças físicas, o futuro se encarregaria de diferenciá-los; a segunda é estabelecida a partir da alusão bíblica sobre a histórica Esaú e Jacó, gêmeos que mesmo antes de nascerem já brigavam na barriga da mãe e representavam a guerra entre dois povos que se dividem em uma relação de soberania e subalternação, figurados pelo gêmeo mais velho em sujeição ao mais novo.

Das duas passagens descritas estão ligadas, sobretudo na intenção de Machado em contar a realidade do Brasil durante a fase da transição conflituosa com o regime imperial e que ao mesmo tempo está em crise durante as vésperas do regime republicano, logo, Pedro e Paulo começam aqui a traçar caminhos opostos a fim de representar rumos político diferentes ao país.

Ao passo que o romance machadiano nos conta a história dos irmãos, a dualidade se faz presente durante algumas passagens, como no capítulo XCIII: “No valor e no ímpeto podia comparar o coração ao gêmeo Paulo; o espírito, pela arte e sutileza, seria o gêmeo Pedro”, (ASSIS, 2012, p. 230). O coração de Paulo e o espírito de Pedro aqui estão representando pela dualidade do mesmo ser através de uma natureza complexa que talvez só pudesse ser sentida e “explicada” através da personagem Flora, que analisaremos a seguir.

1.3 Flora

“Da gente Batista”, Flora era filha única do casal de políticos, Batista, um oportunista influenciável que se considerava conservador, mas quando o império se põe em decadência, alia-se aos liberais, e D. Cláudia, mulher interesseira e fútil que buscava a todo o tempo reintroduzir seu marido à carreira política sem nunca conseguir obter sucesso.

Flora é descrita pelo narrador da obra como uma “inexplicável”, pois, “Quem a conhecesse por esses dias, poderia compará-la a um vaso quebradiço ou à flor de uma só manhã [...] possuía olhos grandes e claros [...]. Era retraída e modesta, avessa a festas públicas, e dificilmente consentiu em aprender a dançar. ” (ASSIS, 2012, p. 93, 94). A representação desta personagem na obra de Machado está pontuada a partir de uma complexidade psicológica que carrega características fortes sobre o contexto de parte da população da época da transição Império para República.

Esta personagem é o maior objeto de discórdia entre os gêmeos, pois os dois se apaixonam pela moça, que também se envolve dubiamente, ficando ao centro de uma relação de disputa antiga entre eles desencadeando dor e vertigem irreparáveis. Na tentativa de escolher entre um dos dois irmãos, Flora adoece e acaba morrendo, representando assim um fator muito relevante para o recorte crítico político da obra: a deficiência do brasileiro em compreender a conjuntura política.

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1.4 Conselheiro Aires

“Quando o conselheiro Aires faleceu, acharam-se-lhe na secretária sete cadernos manuscritos, rijamente encapados em papelão. Cada um dos primeiros seis tinha o seu número de ordem, por algarismos romanos, I, II, III, IV, V, VI, escritos a tinta encarnada. O sétimo trazia este título: Último.”

(ASSIS, 2012, Advertência).

O enredo se desenvolve através dos manuscritos achados do Conselheiro Aires após sua morte. Tudo o que o leitor pode compreender do romance está estabelecido a partir do seu olhar e interesses.

Apesar de ser o narrador, ele também está inserido na obra como um personagem que exerce grande influência na vida dos demais e que sempre procura estar bem com todos e nunca explicitar realmente suas reais intenções e preferências. Enaltecedor de si mesmo, Aires é uma criação de Machado que representa de forma escancarada a forma como a elite manipula todos a sua volta para se perpetuar no poder.

2. Transição império-república e

nascimento da classe média no Brasil

O advento da República no Brasil não foi assinalado por grandes revoluções ou importantes reformas que marquem a fase de mudança. A contextualização histórica dos acontecimentos do século XIX, aqui retratada através da obra “Pequena História da República”, de Cruz Costa, nos permite perceber como essa transição pacífica não foi capaz de provocar progressos sociais e como a instalação do regime republicano se consolidou como uma continuidade de concentração de poder.

O regime monárquico se estabelece no Brasil em virtude dos interesses ingleses e de grandes proprietários rurais. O espírito comercial do país resumia-se na importação e exportação de escravos, estabelecendo-se como um dos pilares do império. Após a primeira metade do século XIX, a classe senhorial se consolida como principal precursora da independência. Segundo Virgínio Santa Rosa,

“O império precisava lidar com o dilema: ou vivia subjugado a terra, na madraçaria das caçadas e pescarias e multiplicando a plebe das senzalas, ou fugia à realidade triste espavonando-se do bovarismo, entulhando-se de bacharelice. E quaentulhando-se entulhando-sempre, em todos os casos, os grandes fazendeiros, ciosos da hegemonia política, despachavam os filhos para os bancos de exames das faculdades de Direito de Recife e São Paulo” (COSTA, 1974, p.6,7).

Isso demonstra que o império, apesar de não ter grandes oposições, teria seu comércio impactado por futuros senhores que defendiam interesses políticos e latifundiários, influências essas adquiridas nas faculdades das grandes capitais. Esse conflito, quase que silencioso, transformou a abolição da escravidão em um projeto. A libertação dos escravos precisava acontecer de forma lenta, gradual e segura, pois assim seria possível maquiar o conservadorismo, com aspecto de ideia liberal, e readequar as condições dos escravos para que, ainda se livres, continuassem servindo como propriedade privada.

Nesse cenário, é possível perceber o nascimento da classe média no Brasil, ou classe média incipiente, como vai definir o autor Cruz Costa. Esta passava a ser composta por elementos da atividade comercial de importação e exportação de escravos, do comércio de pequenas transações do mercado interno, por elementos do funcionalismo do Estado (uma vez

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que o crescimento da estrutura econômica brasileira requer um aparelho que compense os limites de um mercado escravocrata), profissões liberais oriundas do próprio comércio, profissões intelectuais, sacerdotes e trabalhadores agrícolas.

A partir de 1870, podemos dizer que a classe média incipiente já possui aspectos suficientes para disputa de poder. Os conflitos agrícolas no norte do país, o processo gradual da abolição da escravidão que mudava a face do comércio e da indústria, criando novas praças de exploração, são aspectos que aceleram a expansão da burguesia, tornando-a cada vez mais expressiva. Porém, essa mesma classe não seria capaz de causar mudanças sociais, primeiro por, apesar de caminhar para a abolição da escravidão, ainda detinha como principal mecanismo de produção a exploração da população africana, e segundo por que irá concentrar seus esforços em torno da criação de um Exército Nacional.

Os soldados eram pinçados nessa classe média, tornando essa força subalterna cada vez mais incômoda para império. A classe dominante não detinha simpatia pelos agentes das forças armadas e se porventura pudesse distribuir algum tipo de preferência seria pela Marinha, pois o discurso republicano não penetrava a Escola Naval (COSTA, 1974, p.18,20). O país passava por uma série de transformações industriais nos últimos 20 anos e é a partir da guerra do Paraguai que Exército ganha tamanha estabilidade que, por coesão, se tornou a prioridade política e instrumento de representação da burguesia.

Com a abolição da escravatura em 1888, desaparece a instituição que consolidava a monarquia por mais de sessenta anos. Os barões rurais passam a se colocar contra o regime vigente, irritados com as perdas e com a falta de indenização por parte da

monarquia. Muitos deles acabam por ingressar no Partido Republicano, que talvez por habilidade política, não tinha propostas esclarecidas para o problema da escravidão. O discurso republicano exploraria o desgosto dos políticos do império pelos militares, até que o Exército dê o golpe de misericórdia no regime monárquico. (COSTA, 1974).

Outro aspecto importante a ser destacado é a relação do clero brasileiro. Era tradição que sinhás sonhassem com filhos padres para que as tornassem mais íntimas de seus santos. Como não poderiam lhes oferecer bolsas, muitas vezes os enviavam para seminários em busca de instrução gratuita e de posição social. A devoção brasileira se dava principalmente pelo hábito de participar de cerimônias e não propriamente a uma devoção espiritual. Desta forma, alguns autores vão discutir que no período imperial, a relação do Estado com a igreja estava mais ligada a considerações de ordem econômica e social, e não propriamente a espiritualidade. Quando a influência do clero se manifestava, em geral se fundava no fanatismo gerado pela ignorância. Porém sua representatividade durante os acontecimentos que antecedem a República é quase nula. Uma briga interna entre bispos, maçons e governo tornou a Igreja como um plano ignorado pelo povo e indiferente aos intelectuais. A falta de manifestação a favor dos bispos deu ao alto clero (elite intelectual e devotada) autonomia para se colocar a sorte do regime, aceitando de forma branda a transição para República. (COSTA, 1974).

Dessa forma, podemos concluir que três eram as principais questões que pleiteavam a sociedade e definiriam a queda do império.A Abolição da Escravidão, devido a sua importância na estrutura comercial, a questão Religiosa, uma vez que essa também era fator de integração e ascensão social,

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e a questão Militar, que concentrava as principais ideias da classe média incipiente. O conjunto desses conflitos, conciliado com o desenvolvimento da indústria nacional, deram força as ideias liberais republicanas e incentivaram o aparecimento de representantes dessa nova cultura burguesa que de modo simples, resume-se a novas formas de força e concentração de poder. (COSTA, 1974).

3. A base da pirâmide no Brasil moderno

A partir do final do século XIX, o Brasil passa por transformações fundamentais que estruturaram nossa cultura e economia até os presentes dias. A abolição da escravidão e a mudança no deslocamento do eixo econômico são fatores fundamentais para explicar como se deram nossas classes modernas. A cultura do açúcar do nordeste é substituída pela cultura cafeeira do sul e sudeste, bem como essa mesma região recebia os imigrantes europeus que foram demandados pela ideia de progresso da República brasileira. O sociólogo Florestan Fernandes é um dos nossos mais eficientes narradores desse período por ser pioneiro em analisar a hierarquia social e a integração dos escravos recém libertos na sociedade brasileira. Utilizaremos de seus relatos para traçar uma perspectiva acerca da construção social e econômica desse período, porém nos angariemos às críticas feitas pelo sociólogo Jessé Souza, no livro A Elite do Atraso (2017),em que o autor se dispõe a analisar os pactos de poder que perpetuaram uma sociedade desigual ancorada e forjada na escravidão.

Florestan Fernandes descreve a pirâmide social que se constituía no começo do século XX da seguinte maneira: no topo, as famílias donas de propriedades

rurais e de capitanias hereditárias. Na sequência, comerciantes liberais, camponeses brancos e os estrangeiros encomendados pelo projeto de progresso e, na base da pirâmide, os negros recém libertos. Florestan se dedica a estudar a classe inviabilizada dos antigos escravos, que com a abolição, são jogados, sem preparo algum, à competitividade do mercado, tendo a escravidão os animalizados e os fadado a destruição progressiva. Para quem estava no topo da pirâmide, a abolição foi uma espécie de dádiva, pois não só estavam livres de quaisquer obrigações com os escravos, como tinham a opção de contratar mão de obra estrangeira, considerada mais eficiente e produtiva. (FERNANDES, 1978)

Gilberto Freyre discorre em Casa-Grande Senzala (1990) que os negros, especialmente os mulatos de Salvador, Rio de Janeiro e Recife, tinham acesso a funções de artesanato urbano, atividades mecânicas e ao pequeno comércio. Já os escravos recém-libertos do sul e sudeste tinham destinos bastante diferentes. Nessas regiões competiam trabalhos com imigrantes, em especial com os italianos, e sofriam mais incisivamente com a degradação de sua mão de obra e com a ideia serem escolhidos apenas por aspectos de força física.

Jessé Souza vai chamar a base da pirâmide descrita por Florestan Fernandes de ‘ralé brasileira’ pois identifica que a análise feita pelo importante sociólogo comete falhas a não identificar a hierarquia moral contida nessa mesma sociedade. Ele aponta que para Florestan, se os negros recém libertos fossem integrados a sociedade comercial de forma mais justa, podia-se sanar grande parte da herança escravocrata e dos conflitos de desigualdade, o que para Souza é uma ingenuidade cometida pelo autor. Esses pressupostos partem da concepção que a exclusão é

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um estágio transitório e não um conceito permanente. O capitalismo tende a adotar a marginalização de alguns para tornar o sistema mais produtivo, logo, a escravidão, como fator constituinte da nossa economia e cultura, não pode ser tratada como estágio histórico, mas sim como conceito que desencadearam nossas relações sociais e morais.(SOUZA, 2017)

A partir dessa introdução à crítica de Souza, percebemos que a ênfase em analisar o processo de classes do Brasil se coloca como disputa por novo um conceito; uma disputa epistemológica. Para ele, nossos intelectuais não trataram com a devida criticidade o tema da escravidão, ou talvez, devido a conjuntura de suas condições epistêmicas, não foram capazes de criticar as matrizes que levam nossa classe média a ser objeto contínuo de manobra das elites.

“Embora ainda defenda a necessidade de compreender adequadamente a produção de desigualdade de classe desde o berço, como o elemento mais importante para perceber o mundo social em todas as manifestações, mudei minha opinião em um aspecto importante. Em países como o nosso, não há como separar – a não ser analiticamente para separar o joio do trigo e evitar armadilhas das políticas indenitárias falsamente emancipadoras muito bem-vindas pelo capital financeiro – o preconceito de classe do preconceito de raça. É que as classes excluídas em países de passado escravocrata tão presente como o nosso, mesmo que existam minorias de todas as cores entre elas, são uma forma de continuar a escravidão e seus padrões de ataque covarde contra populações indefesas, fragilizadas e superexploradas. ” (Souza, 2017).

Nossa herança gerou uma produção de estereótipo do negro como inadaptado, perigoso, preguiçoso e de baixo intelecto, tornando-o cúmplice, até certa medida, do próprio sistema de opressão que o condena. A tortura física, psíquica e cotidiana que faz o indivíduo abdicar das próprias vontades e depois, com a encomenda de imigrantes europeus, implantaram o discurso liberal do mérito, em que o negro é jogado

própria sorte (ou azar). É uma espécie de “escravidão continuada”, segundo o autor. (SOUZA, 2017)

4. Luta de classes no Brasil

A luta de classes no Brasil deve ser avaliada por uma dinâmica que transcende a superficialidade da análise econômica, a fim de que se busque entender os reais interesses contidos nessas disputas. A reconstrução da nossa luta de classes trata-se, sobre tudo, de se livrar da pobreza e superficialidade analítica de classificar os indivíduos apenas pela grandeza de seus bolsos, pois inclusive essa ordem de análise parte de interesses políticos. Souza se utiliza do exemplo do trabalhador industrial e um professor. Suponhamos que ambos ganhem mensalmente 5 mil reais. Apesar da equivalência salarial, seus espaços de trabalho lhes propiciam literatura, técnica e culturas distintas, aspectos esses que irão pautar diretamente seus padrões de consumo. É necessário partir das relações sociais primárias, desde o nascimento do indivíduo, para entender sua formação e como se dão suas disputas sociais. (SOUZA, 2017)

Para Souza, a concentração e hereditariedade de recursos e privilégios são nossas principais problemáticas. Somos seres sociais que transmitem hábitos, recursos e conhecimentos para nossos filhos, isso faz com que as famílias que possuem um capital expressivo, desde o nascimento, automaticamente se sobressaiam a qualquer indivíduo da “ralé” (base da pirâmide) apontada pelo autor, o que transforma a pauta acerca das classes sociais em um fenômeno sociocultural.

Esse discurso fantasioso de classe econômica como principal viés de discussão faz com que a

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sociedade responsabilize a classe para justificar seus acessos e desigualdades. A nossa herança escravocrata por si só deveria anular a centralização dessa análise, uma vez que a construção das classes brasileiras é ancorada no processo de exploração de um grupo específico. As classes tidas como inferiores foram humilhadas e enganadas por uma elite que se perpetuou ao longo dos anos com o objetivo de manter a concentração de poder. O que mudou do século XIX para cá é que esses ricos precisam obedecer a regras sociais.

O poder da elite econômica se perpetua ao longo dos anos porque ela é capaz de comprar outras classes, uma vez que disputa social é narrada pelo acesso a capitais. Na visão de Souza, esses capitais são divididos em três estruturas: o econômico, o cultural e o social. O econômico refere-se ao poder material e aquisitivo dos indivíduos, donos dos meios de produção e dos meios de comunicação. O cultural refere-se ao conhecimento útil e prestígio dos indivíduos, uma espécie de posse conjugada pela qual medem seu sucesso e fracasso. São as matérias que levam ao destaque social e que modificam a luta não só pelo acesso a capitais, mas pela intenção de monopolizá-los. O capital social diz respeito aos caminhos de interesse e afetividades do indivíduo. São suas relações sociais, sua rede de contatos e meios. As classes dominantes possuem a combinação desses três elementos para a continuidade de poder, mas o mais expressivo para luta de classes é a disputa pelo acesso ao capital cultural, pela posse do conhecimento útil.

É aí que a classe média entra no jogo como peça significativa na estratégia de reprodução de privilégio e para implantar a moralidade de combater a corrupção. Historicamente, ela funciona como uma espécie de tropa de choque para as elites, pois mantém a lógica cultural de distinção pelos artifícios de

singularidade, fazendo com, por pequenos privilégios, seja instrumento de opressão para as classes populares e ferramenta sistemática para consolidação das elites. Esse autoengano da classe média, para Jessé, simboliza a falácia liberal da teoria meritocracia. (SOUZA, 2017)

A partir desse posicionamento, Jessé Souza demonstra que um é equívoco tratarmos as temáticas de desigualdades no Brasil somente sob a lente de diferença de classes. Há uma classe que, de diferentes formas, foi inferiorizada no nosso processo histórico e que mesmo com todas suas lutas e resistências desde a escravidão, são incapazes transitar as classes sem que haja certos entendimentos e consensos sociais.

Parece lógico que um grupo de pessoas em determinadas condições reproduzam este estereótipo ao longo de décadas, sem que percebam os impactos sociais e ferimentos a democracia. É através desse conflito que o autor, respaldado na teoria do filósofo alemão Jurgen Habernas, nos apresenta o veículo que possibilita essa reprodução histórica quase que inconsciente: a esfera pública. (SOUZA, 2017)

Para Habernas, a esfera pública não se confunde com sociedade civil, oposição ao Estado ou com o próprio Mercado. É necessário perceber a gêneses histórica da esfera e debate público para entender sua intencionalidade. Na Idade Média, a categoria de representatividade possuía um sentido literal, de teatralização, onde não se trata de uma representação da soberania popular, mas sim de uma representação de poder de um povo de fato soberano. A importância da vestimenta, da gesticulação, das regras de etiquetas eram artifícios precisos para situar o estado das coisas. (SOUZA, 2017)

A modernidade traz consigo um sentido público que combina novos fatores simbólicos. É possível perceber que desde seu início a categoria

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pública está intrinsecamente ligada a categoria do privado. É ela quem redefine as permissões a lugares públicos e privados, onde acaba por ser um meio de delimitação entre um e outro. Os primeiros representantes da opinião pública exerciam profissões liberais, eram comerciantes, pastores, professores. Essa burguesia incipiente deve ser reconhecida como a representatividade do privado na esfera pública.

Nosso processo de modernização traz consigo uma burguesia em que não é suficiente apenas ser dona do dinheiro. Ela necessita de princípios de controle discursivo e argumentativo. Os grandes meios de comunicação surgem como conteúdo de esfera pública, porém não estatal. A função da imprensa vai desde uma atividade meramente informativa e manipulativa do que interessa tornar público até a criação de um fórum de pessoas capazes de julgar, através de suas experiências pessoais, assuntos de formação de opinião pública. (SOUZA, 2017)

A condição de homem privado, pai de família, dono de mercadorias e produtor nos dá a compreensão política que a esfera pública burguesa faz de si mesma. As pessoas privadas assumem um caráter anterior ao sentido público e é a generalização dessa nova atitude em relação ao poder que irá tornar a classe burguesa e a sociedade como um todo com a ideia de soberania popular como afirmação do poder político.

A classe média que alcança pequenas vestes do capital cultural, acaba por ser o principal elemento de legitimação da moral burguesa. A voracidade para manter seus pequenos privilégios ultrapassa a intencionalidade de bem-estar social coletivo, fazendo com que as instituições públicas sirvam de aparelho repressivo e de violência material, principalmente às classes mais populares.

Conclusão

Ao aproximar as obras de Cruz Costa e Jessé Souza à de Machado de Assis, percebemos que, mesmo se tratando de tempos, estéticas e formas diferentes de abordar o Brasil e o brasileiro, a conexão estabelecida entre elas possui um fator em comum: a perpetuação das elites como fundadoras e detentoras do poder público e político.

Através da narrativa embasada por Cruz Costa, conseguimos perceber que o romance machadiano se trata, para além de uma das maiores obras literárias brasileira, de contundentes denúncias aos acontecimentos do século XIX acerca da transição pacífica dos regimes, que se justifica pelos interesses da classe dominante. O regime republicano se consolidou para que a estrutura da sociedade permanecesse centralizada nas mãos da elite, assim como já era na época do Império. A descrição da classe média incipiente nos permite perceber como ao longo da história esta foi utilizada como objeto de manobra para desenvolver a dualidade brasileira e nos perpetuar cada vez mais como uma sociedade desigual.

Como vimos anteriormente, os fatores indicados por Jessé Souza referente ao apagamento dos interesses estabelecidos entre três estruturas de capitais distintos (econômico, cultural e social) e a esfera pública moderna foram capazes de continuar o massacre contra as classes populares e combater quaisquer sintomas de progresso social. O autor também dá créditos a elite intelectual brasileira que não foi capaz de avaliar a hierarquia moral construída pelo nosso capital. A origem da nossa desigualdade é negada desde Gilberto Freyre até a Sergio Buarque de Holanda, pois quando eles demonizam as elites relacionando-os apenas a um Estado corrupto,

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atravessado pelos capitais financeiros, apagam os reais preconceitos que perpetuam esses privilégios, gerando estigmas como o de “jeitinho brasileiro” para ter acesso a capitais. Essa falácia, infelizmente naturalizada nos bares de todas as esquinas, ignora que, em qualquer sociedade capitalista, os indivíduos possuem relações sociais e que é através – também - desse capital social que se desfruta de privilégios. Não entender – ou não querer entender- tais subjetividades, superficializam nossos elementos sociais ao ponto de nos fadar ao binarismo do rico e pobre, do preto e do branco, do inteligente e o do burro, à estigmas que desconsideram que, independente do particularismo dos capitais de cada indivíduo, vivemos e convivemos todos juntos, portanto é fundamental avaliarmos as subjetividades para chegar no problema real. Souza não desvaloriza a produção feita por tais autores, sua crítica refere-se a uma disputa epistemológica. Avaliar os processos da nossa sociedade sem considerar suas hierarquias morais, seu capital cultural e o particularismo dos capitais sociais é, de certa forma, traçar inimigos invisíveis dos quais nunca seremos capazes de nos livrar.

O capital social pode ser exemplificado no romance machadiano pelo personagem Aires, que consegue estabelecer um grau de influência em diversas esferas da sociedade. Por exemplo, quando Natividade pede ao conselheiro para orientar os irmãos para que eles se entendessem em suas diferenças; ou quando Flora procura Aires a fim de fazer com que seu pai desista de um cargo de presidência de província em outra cidade.

A partir de toda essa análise, podemos concluir que Aires é nada menos que o principal agente da “Elite do Atraso” descrita por Jessé Souza. A

Natividade é a nossa pátria que busca pacificação anulando as subjetividades contidas em seus filhos. Flora é a nossa classe média, que se ao se deparar com ideias conservadoras e liberais, não consegue sair do conflito e sob essa neutralidade perpetua os interesses dos dominantes. Essas dualidades literárias, mas reais e contemporâneas na sociedade brasileira, se configuram como umas das principais ferramentas de manobra das elites para manter a centralização do poder.

Referências bibliográficas

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Referências

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