Volume 12 | Number 12
Article 10
12-2007
A missão em situação de conflito-Testemunho
António Moreira Loureiro
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António Moreira Loureiro
A
missão
em
situação
de
conflito
Testemunho
- António Moreira Loureiro
Pediram-me para dar
um
testemunho
sobre aexperiên-cia
que eu
vivinuma
situação de conflito.Não
vou
fazer teo-ria sobre isso.È
sóum
testemunho.Também
não
é pararecor-dar
um
passadoque
felizmente já está ultrapassado.Mas
situações
como
esta fazem parteda
Missão de todos ostempos
e da missão
do
tempo
de hoje.A
missãotem
uma
vertentepas-cal
que
vem
jádo tempo
de Cristo. Confessoque não
me
émuito
fácil falar sobre esta experiência. Situaçõescomo
aque
se viveu
em
Angola
durante longos anos, vividasna
fé,ocul-tam
um
mistérioque
sóno
silêncio ena
intimidadecom
Deus
podemos
recordar.Mas
é naturalque
haja interesseem
saberquais as dificuldades por
que
passámos, quais os valoresque
descobrimos nesta situação, quais as lições
que
recolhemos.Uma
situação de conflito é sempreponto
de partida paraum
aprofundamento da
nossa vocação missionária.Todos
conhecem
a situação de guerra porque
passouAngola
no
períododa
pós-independência. Foiuma
guerraque
varreuAngola
de lés a lés.Podemos
dizerque não houve
cidade, vila,
povoação
ou
aldeiapequena
que
fosse,que não
tivesse sofrido os reflexos nefastos desta duradoira e terrível
guerra civil
que
durou
quase trinta anos.Toda
a guerra éuma
grande calamidade,mormente
se se trata deuma
guerra civil. Foi esta calamidade da guerra civilque
se bateu sobre Angola, depois da guerra pela independência.
Esta guerra atingiu todas as estruturas
da
vidaan-golana. Cidades belas, já
em
vias claras de desenvolvimento,algumas
delas ficaram reduzidas a escombros.A
quando
da
independência,
Angola
tinha jáuma
rede de estradasasfal-tadas
que
ligavam as capitais das províncias, poronde
sepo-dia circular
com
bastantecomodidade
e rapidez.Com
a guerra, a grande maioria destas vias decomu-nicação ficou intransitável.
Os
blindadosque
por elaspas-"Toda a guerra
é
uma
grande calamidade,mormente se se
trata de
uma
guerra civil. Foi
esta calamidade da guerra civil que se bateu
sobre Angola,
depois da
guerra pela
"na altura da independência, Luanda teria uns 500 mil habitantes e hoje deve rondar os 5 milhões." "Mas
como
se estavaem
guerra, o parentesco e a amizade não contavam: era preciso matar." "Quantas pes^ soas que nada tinhamcom
a guerra e foramvítimas da sua
neutralidade"
"Um
militarnão podia entrar
na Igreja
nem
ter qualquercompromisso
com
ela."savam, as
minas que
rebentavam, as pontes destruídas, aausên-cia total de
manutenção,
deixavam-nasnum
estado lastimável.Os
combates que
se travavamnuma
determinada
zona,cidade
ou
povoação,obrigavam
as pessoas aabandonar
as suascasas, os seus campos, os seus bens e deslocar-se para outras paragens,
onde
não
tinham
casanem
campos
nem
comida.Podemos
pensar nos milhares de pessoasque
sedeslo-caram
para as cidadesonde
pensavam
encontrar segurança ealguma
qualidade de vida. Basta pensarque na
altura dain-dependência,
Luanda
teriauns
500
mil habitantes e hoje deverondar os 5 milhões.
E
oque
aconteceuem
Luanda
aconteceu,embora
em
escala menor,em
todas as outras cidades. Todaselas
receberam
milhares de refugiadosque
sejuntaram
em
enormes
bairros periféricos,vivendo
em
péssimas condições.Podemos
ainda pensar nas feridasque
a guerra provocouno
tecido social. Muitas famíliasperderam
o rasto dos parentese ainda hoje os procuram. Muitos pais
perderam
os seus filhos,obrigados a
combater
nos exércitos beligerantes. Hoje, há aindapais
que não
sabem
dos filhos: semorreram
ou
se estãoperdi-dos
em
qualquer recanto de Angola.Podemos
também
pensar nos sentimentos de ódio evingança
que
a guerra semeiano
coração das pessoas.Ouvia--se dizer: "não
podemos
dar ao inimigonem
um
palmo
deterra". Este "inimigo" podia ser
um
parente,um
conterrâneoou alguém
da
mesma
tribo.Mas
como
se estavaem
guerra, oparentesco e a
amizade
não contavam:
era preciso matar.Podemos
ainda pensarna
violência deque
os civis,que
nada
tinham
a vercom
a guerra, foram vítimas. Muitas pessoasnão queriam
a guerramas
os senhores da guerranão deixavam
que
eles ficassemna
neutralidade. Senão
estás connosco, senão
nos apoias é porque estás
com
o inimigo.Quantas
pessoas forammortas a frio
em
obediência estas lógicas.Quantas
pessoasque
nada
tinham
com
a guerra e foram vítimas da sua neutralidadeA
guerra tevetambém
uma
influência nefasta «noas-pecto religioso.
Nas
últimas décadas,em
Angola
o trabalho demissionação foi notável
O
Evangelho
tinha atingidouma
per-centagem
notável de angolanos.Com
maisou menos
profun-didade, oEvangelho
tinha penetradono
coração de muitosangolanos.
Actualmente
é já significativa apercentagem
dosindiferentes. Para isto contribuiu
sem
dúvida
a guerra.Na
grande maioria dos soldados a sua mentalização era marxista.
Um
militarnão
podia entrarna
Igrejanem
ter qualquercom-promisso
com
ela.Nem
para casar.A
vida militarnão
lhesdava
tempo
nem
liberdade para frequentar a prática religiosa.Isso terá feito
com
que
um
certonúmero
de antigos militarestenham
caídona
indiferença religiosa.António Moreira Loureiro
Este
panorama
que
marcou
toda a Angola, durante aguerra,
não
podia deixar de ter a sua repercussãono
Kuito.Bie,
onde
eu
vivi todo estetempo
da
guerraEm
1993 a cidadedo
Kuito-Bié esteve sujeita aum
cerco
de
quase 9 meses.A
cidade esteve cercadade
9de
Janeiro a 21 de Setembro.
Os bombardeamentos eram
contí-nuos:
não
se podia sair da cidade.A
comida
não
entrava e asvítimas foram aos milhares.
Os
mortoseram
enterrados nosjardins e nos quintais.
Uma
vez a guerra terminada, os corposforam
trasladados paraum
cemitério-monumento,
forada
cidade. Nesse cemitério estão para
cima
de sete mil campas.A
cidade ficouem
escombros.Quando
MaltreBlondin
Berge, ele
que
era omediador da
paz entre oGoverno
e aUnita, depois
do Acordo
de Lusakaem
1994, veio, pela primeiravez ao Kuito-Bié, disse para toda a população: "Parece
que
uma
bomba
atómica caiu sobre esta cidade!"No
dia 21 deSetembro
de 1993, a Unita tirou-nos à forçado
Bispadodo
Bié: o Bispo, os missionários e outroscivis
num
total de80
pessoasque
ali estiveram refugiados du-rante todo o cerco.Nesse
momento
a cidadedo
Kuito ficousem
um
únicomissionário.
Foram
os leigosque
ficaramna
cidadeque
as-sumiram
a coordenação das actividades das paróquias e dasmissões.
Só
em
Kamakupa
(GeneralMachado)
éque
restavaum
sacerdote e outrono
Chinguar,mas
estavam isolados poisencontravam-se
em
campos
opostosna
situaçãoda
guerra.No
fim desta guerrado
Kuito-Bié pode-se dizerque
adio-cese
do
Bié,quanto
à organização, estavacompletamente
des-mantelada.
Com
as missões e paróquiassem
missionários ecom
as estruturas destruídasou
semi-destruidas,com
a cidade-mãe dadiocese
sem
bispo esem
padres, opanorama
era confrangedor.Durante estes quase trinta anos de guerra
pouco
maisou
menos
contínuaem
Angola
eem
particularno
Kuito-Bié, qualfoi a atitude da Igreja e a nossa atitude
como
missionários?Durante
todo este tempo, a Igrejaprocurou
iluminara situação
que
opovo angolano
vivia,com
a sua Palavraclara, objectiva e até provocatória.
Sobretudo
pediaque
setomassem
atitudes justas para acabarcom
o conflitoque
es-tava a dizimar o
povo
angolano.Em
1998, a Conferência Episcopal deAngola
coligiunum
sóvolume
todos osdocumentos
emanados
pelaCon-ferência Episcopal entre 1974 e 1998
com
o título: "A Igrejaem
Angola
entre a guerra e a paz". Foi a Igrejailuminando
com
oEvangelho
e aDoutrina
Socialda
Igreja as situaçõesdramáticas
que
opovo
vivia.Não
eram
teorias abstratas,generalizadas, elas
focavam
situaçõesmuito
concretas."Em
1993 a cidade do Kuito-Bié esteve sujeita aum
cerco de quase 9 meses." "Nesse mo' mento a cidade doKuito ficou semum
único missionário.""No
fim desta guerra doKuito-Bié
pode--se dizer que a diocese do Bié, quanto à orga-nização, estava completamente desmantelada." "Durante todo este tempo, a Igreja procurou iluminar a situação que o povo angolano vivia,
com
a sua Palavra clara, objectiva e até provo-catória."os missionários
fizeramtudo o
que estava a seu
alcance para
evitar esta
calamidade."
Segundo
chegou
a constar, depoisda
publicação deal-guns
documentos
mais directoscomo
"Firmesna
Esperança"no décimo
aniversárioda
independência
deAngola
não
fal-taram
asameaças
de repressão e prisãoQuando
a Igrejacomeçou
a falarem
reconciliação,houve
da
partedo Governo
uma
forte reacção contra estaposição
da
Igreja. Falarem
reconciliação era assunto tabudu-rante a guerra.
Recordo
algumas
passagensque
demonstram
quanto
a Igreja descia a situações concretas: "Éum
crime continuarcom
a guerraem
Angola", "Bem-aventurados os obreirosda
paz,
porque
serãochamados
filhosde
Deus."Aqueles
que
querem
continuarcom
a guerranão
sepodem
chamar
filhosde Deus". Reflictam sobre as palavras de Paulo VI
na
ONU:
"Deixai cair as
armas
das vossasmãos"
e "Matar épecado
con-tra
Deus
e contra ohomem"
Alguns
dos títulos destasmensagens
são por si sóbas-tante elucidativos: "Sobre a Paz; "Sobre a reconciliação na-cional"; "Sobre a violência"; "Sobre os últimos
acontecimen-tos'(A Pátria está de luto)", "Sobre o perigo
do
regresso à guerra" Falei atrás dos acontecimentos trágicos levados acabo
na
cidadedo
Kuito-Bié: o cerco de vários meses, os milharesde
mortos
dentro e nas cercaniasda
cidade.Nesta situação concreta
que eu
vivi, os missionáriosfizeram
tudo
oque
estava a seu alcance para evitar estacalamidade.
Mas
é preciso dizer,que
numa
situaçãode
guerra, todos estamos
embarcados
no
mesmo
barco eque
assoluções ao nosso alcance
pouco
diferentes dasdo
comum
das pessoas.
Antes
do
facto acontecer,aconselhamos
as duaspartes beligerantes a evitar esta situação extrema. Depois de
desencadeado
o conflito,procuramos
ajudar as pessoas nas mais diversas situações: recolher as pessoas das casasque
es-tavam
a serbombardeadas,
levar os feridos para o hospital,muitas vezes debaixo de tiroteio.
A
residênciado
bispadoal-bergava ordinariamente 15 pessoas, durante a guerra
chegou
a acolher 120.
Todos
oscompartimentos
do
résdo
chão
eeram
bastantes, todos ficaramocupados
pelos refugiados.Isto
que
aconteceuna
residência episcopaltambém
sepassou noutros edifícios
da
Igrejacomo
o Colégio das Irmãsde S. José de Cluny, o Colégio dos Maristas e o
Seminário
diocesano.
Uma
das consequênciasdo
cerco à cidade foi a fome.Esta
fome
foi a causa directade
muitas mortes.Cada
uma
dasparóquias e
comunidade
religiosas foiacudindo
como
podiae
enquanto
pôde. Depois afome
bateu à porta de todos.Cada
um
procurava sobrevivercom
omínimo
ao seu alcance eAntónio Moreira Loureiro
fazendo ginástica para partilhar
com quem
mis
precisava.A
"Caritas" diocesana tinha
uma
pequena
reserva,mas
depressaessa reserva acabou, tanto
mais
que
nada
podia entrarna
cidade.
Os
próprios militares estavam esfomeados eusavam
de
violência sobre os lugaresonde
suspeitavam
houvesse
qualquer reserva de alimentos.
O
Colégio dos Maristasque
tinha acolhido
muita
gente foi assaltado e ficousem
nada.Durante
a guerrana
cidade,procuramos
atravésda
Ra-dio local fazer apelos,
chamar
a atençãodo
país edo
mundo
para a situação
dramática
que
estávamos
a viver.Con-seguimos
fazer chegar ao CardealNascimento
uma
mensagem
deste teor: "Faça chegar ao Presidente de
Angola
e à Direcçãoda
Unita, o seguinte apelo:Que
acabem
com
a guerraou
daqui
aalgum tempo no
Kuito-Blénão
haveránem
gentenem
estruturas.Sem
gente esta terranão
interessará a maisninguém".
Seique
estamensagem
por viasnão
oficiaischegou
ao seu destinatário.Para
além
destas iniciativasque
mais fazíamos?Rezá-vamos, celebrávamos
a Eucaristiacom
fé e esperança,no
refeitório
do
Bispadoque
era o lugar mais seguro.A
Semana
Santa de 1993 foi toda ela
uma
Sexta-Feira Santa.Mas
se aPáscoa foi celebrada,
no
silêncio ena
angústia,não deixou de
ser a Páscoa de Cristo,
anunciadora da
Esperança eda
Liber-tação. Foi
com
certeza a Páscoamais
íntima emais
verdadeirade toda a
minha
vida de missionário.Na
varanda
do
Bispado
todos os diasrezávamos
oTerço
com
a pessoasque
setinham
acolhidona
nossa casa.Com
que
emoção
cantávamos, já noite, cânticos aNossa
Sen-hora, pedindo-lhe junto de seu Filho o
dom
da
paz!Recordo
um
facto: a residência episcopal estavasitu-ada
na
área governamental.Num
dado
momento
a áreapas-sou a ser controlada pela Unita e nós lá
continuávamos.
Um
oficial
do
Governo
ficougravemente
feridona
presençado
bispo.
Pediram
para ali ser assistido, pelasmelhores
condiçõesde
que
a casa dispunha. Mais tarde,quando
a Unita entrouna
cidade, atécomida
nos arranjaram.Esta é efectivamente amissão da Igreja
em
situação decon-flito: não tomar partidoe acudiratodos os
que
precisam. Ser Igrejae ser missionário nestas situações sé sobretudo
um
ministério dereconciliação e de acolhimento, de fé e de esperança.
Depois,
com
o decorrer dos dias,procurávamos
estarperto das pessoas, concretamente
com
os feridos e vítimasda
guerra. Partilhávamos o seu sofrimento e as suas notícias
sem-pre dolorosas de desaparecimentos e mortes.
Eram
notíciasque
nos diziam respeito eque uníamos
à nossa oração.Quando
mais se
não
podia fazer ficávamosem
silêncio, recolhidos diante"Durante a guerra na cidade, procu^ ramos através da Radio local fazer apelos, chamar a atenção do país e do
mundo
para a situação dramática que estávamos a viver." missãoespiritanamj
deste mistério
que
ultrapassa a nossacapacidade
decom-preensão.
Como
Maria juntoda Cruz
a beber o sofrimento deseu Filho,