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Conflitos sociais na Primeira República

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Academic year: 2021

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Conflitos sociais

na Primeira República

Os conflitos sociais na Primeira

República

Da passagem do século XIX para o XX, até a década de 1930, a sociedade brasileira passou por várias adaptações, a começar pela mudança do regime político, de Monarquia para República. Vários movimentos sociais e políticos ocorreram nesse período, tanto no campo como nas cidades.

O primeiro presidente civil da República foi Prudente de Morais, que governou o país de 1894 a 1898. Cafeicultor paulista, seu princi-pal objetivo na presidência foi consolidar o poder da oligarquia cafeei-ra. Ao assumir, Prudente de Morais já teve de enfrentar uma revolta em andamento no Rio Grande do Sul, iniciada por ocasião das eleições estaduais e envolvendo dois grupos políticos distintos. A chamada Revolução Federalista (1893-1895) opunha, de um lado, os federa-listas, que defendiam a separação do Rio Grande do Sul do restante do Brasil, e de outro os legalistas, apoiados pelo Exército paulista e pelas forças do governo federal. Os legalistas saíram vitoriosos.

Conflitos no campo

Na mesma época da Revolu-ção Federalista, entre os anos de 1893 e 1897, aconteceu no sertão da Bahia um dos mais importantes movimentos populares do período, a Guerra de Canudos. O palco do conflito foi o vilarejo Belo Monte, ou Arraial de Canudos, uma área pertencente a uma fazenda abando-nada onde viviam os seguidores do beato Antônio Conselheiro. As ori-gens do conflito estão na pobreza, na injusta distribuição de terras e na ausência completa do Estado na

região. Nessas terras, Conselheiro e os seguidores ergueram a Igreja de Bom Jesus, construíram casebres de taipa e exploravam coleti-vamente a terra. Em seu auge, Canudos reuniu uma população de cerca de 20 mil pessoas e sua fama se espalhou pelo sertão. Incomo-dados, fazendeiros, políticos locais e representantes da Igreja Cató-lica começaram a exigir providências do governo federal para inibir a influência de Conselheiro e desarticular Canudos. As primeiras investidas das tropas federais foram modestas, mas aumentavam gradativamente diante da resistência dos sertanejos. Somente na quarta expedição, após um ano de guerra, em 1897, Belo Monte foi completamente destruído pelas forças governamentais.

Litogravura do arraial de Canudos, no sertão do atual Estado da Bahia, 1897. Museu Histórico Nacional,

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Na fronteira entre o Paraná e Santa Catarina, em uma região conhecida como Contestado e que recebeu esse nome por ser alvo da disputa entre os dois estados, ocorreu um conflito, a Guerra do Contestado, entre os anos de 1912 e 1916. Os descontenta-mentos se iniciaram quando o governo federal desapropriou par-te das par-terras do Conpar-testado para a construção de um trecho da ferrovia que seria construída pela empresa norte-americana Brazil Railway, ligando São Paulo ao Rio Grande do Sul. Cerca de 30 qui-lômetros de largura ao longo da ferrovia foram cedidos à empresa norte-americana em 1908. Os antigos colonos foram expulsos do local. Quando o trecho que passava pelo Contestado ficou pronto, a Brazil Railway loteou as terras às margens da ferrovia para imi-grantes alemães, italianos e poloneses. Os oito mil trabalhadores, contratados em várias regiões do país para a construção da ferro-via, ficaram desempregados e sem ter para onde ir. A situação pio-rou quando uma madeireira, do mesmo grupo da Brasil Railway, comprou terras na região para a exploração de madeiras e tentou expulsar a população local.

Desempregadas e desesperadas, as pessoas passaram a seguir o líder messiânico José Maria, que afirmava operar milagres e curar doenças com plantas e chás medicinais. Assim como em Ca-nudos, José Maria formou uma comunidade religiosa igualitária, chamada “Monarquia Celeste”, regida pelos códigos dos cavaleiros medievais, que ele aprendera em leituras de romances de cavala-ria. Centenas de desempregados e miseráveis liderados por José Maria combateram as tropas do governo. Mesmo depois da morte de José Maria, ocorrida durante uma das batalhas, os revoltosos não cederam, e as ocupações na região do Contestado começaram a aumentar. O governo brasileiro mobilizou oito mil soldados e, pela primeira vez, usou aviões para combater os rebeldes. A luta terminou em 1916 com o saldo de 20 mil mortos.

O cangaçO

O cangaço foi um fenômeno que surgiu no sertão do atual Nordeste brasileiro na virada do século XIX para o XX. Sua origem está na formação de milícias armadas pelos fazendeiros, os “coronéis”, que sustentavam jagunços para protegê-los ou para praticar atos criminosos em benefício de seus interesses. Alguns desses jagunços partiram para a formação do próprio bando, independentemente das ordens de um coronel. Armados, estabeleciam suas regras e eram chefiados por um líder a quem obedeciam e respeitavam. O cangaço atingiu seu

apogeu na década de 1920, com o bando chefiado por Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Outros líderes importantes foram Antônio Silvino e Corisco, cuja morte, em 1940, marcou o fim do cangaço. Os cangaceiros estão envoltos em lendas de heroísmos românticos. Na verdade, eram indivíduos marginalizados socialmente, que tentavam sobreviver em meio ao poder de grandes proprietários de terras, que dominavam as leis, a polícia, a Igreja e a população em geral. A opção pelo banditismo, desse modo, era uma alternativa às regras estabelecidas pelos coronéis e à opressão representada pelo latifúndio.

glOssáriO:

Jagunço: bandido, pessoa

contratada para roubar, matar ou cometer outros crimes por encomenda; foragido da justiça.

Lampião e Maria Bonita (ao centro), com seu bando de cangaceiros. Fotografia de Benjamim Abrahão, 1936.

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Conflitos urbanos

A exemplo do que ocorrera no campo, os conflitos sociais também atingiram as cidades. No ano de 1904, houve um surto de varíola na cidade do Rio de Janeiro e o então presidente Rodrigues Alves deter-minou que se fizesse uma vacinação obrigatória. Como não houve maio-res esclarecimentos sobre a gravida-de da situação, a população recebeu mal a determinação do Governo Fe-deral. Em 11 de novembro foi criada a Liga Contra a Vacina

Obrigató-ria, que reunia diferentes setores da sociedade. Entre os dias 10 e 16 de novembro, a cidade se tornou palco de manifestações violentas que opunham populares e autoridades policiais. Após ter sido sufo-cado o conflito, alguns dos envolvidos foram deportados para o Acre e a obrigatoriedade da vacina foi revogada. A Revolta da Vacina foi o mais rápido e tenso levante popular da Primeira República.

Em 1910, eclodiu no Rio de Janeiro a Revolta da Chibata. O movimento se iniciou por causa da antiga prática da Marinha bra-sileira de lançar mão de castigos físicos para punir os marinheiros, em sua maioria negros e mulatos. Os castigos mais comuns eram as chibatadas e o isolamento em prisões. Poucos dias após a posse do presidente Hermes da Fonseca, um grupo de marinheiros iniciou uma rebelião sob o pretexto de que um de seus colegas teria sido se-veramente castigado. No conflito, um comandante foi morto e os re-voltosos foram presos. Em 9 de dezembro daquele ano, houve nova revolta. Desta vez, os marinheiros manobraram os dois encouraçados mais poderosos da Marinha, o São Paulo e o Minas Gerais, apontando os canhões dos navios para a cidade do Rio de Janeiro. Os rebeldes reivindicavam o fim dos castigos corporais, melhores condições de trabalho e anistia aos presos no conflito anterior. Diante da ameaça, o governo aceitou as reivindicações, mas não as cumpriu. Quando a revolta foi controlada, os líderes foram presos e vários deles morre-ram em situações suspeitas. João Cândido sobreviveu, mas foi preso no Hospital dos Alienados, apesar de não ter problemas mentais, e expulso da Marinha. Julgado em 1912 e absolvido, foi trabalhar como carregador de peixes no porto do Rio de Janeiro.

Movimentos militares na década de 1920

Em 5 de julho de 1922, um grupo de tenentes se rebelou no For-te de Copacabana, contra o Governo Federal, depois que o presidenFor-te Epitácio Pessoa ordenou o fechamento do Clube Militar e a prisão do marechal Hermes da Fonseca por causa das duras críticas que fez ao governo. A intenção era marchar até o palácio do Catete, mas a maior parte dos rebelados desistiu. Somente 17 tenentes e um civil seguiram pela praia de Copacabana em direção ao Catete. No caminho enfrenta-ram as tropas do governo e somente dois deles sobreviveenfrenta-ram. O movi-mento ficou conhecido como a Revolta dos Dezoito do Forte.

Os marinheiros da Revolta da Chibata; destacado, ao centro, o líder do movimento, João Cândido, Rio de Janeiro, 1910.

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Atividades

Depois do movimento no Forte de Copacabana, outro conflito oporia os militares e o governo, dois anos mais tarde: a Revolução de 1924. Os militares tomaram alguns quartéis e se estabelece-ram em pontos estratégicos de São Paulo para exigir a renúncia do presidente. Após conflitos com as forças legalistas, os tenentes deixaram a cidade de São Paulo e se dirigiram para o interior, onde se juntaram a outros grupos de rebelados.

Militares que haviam lutado na revolta tenentista em diversas cidades do interior de São Paulo formaram a Coluna Paulista, que, sob a liderança de Siqueira Campos e Juarez Távora, pretendia en-frentar as tropas do governo e derrubar o presidente Arthur Ber-nardes (1922-1926). Outra coluna formada no Rio Grande do Sul e liderada pelo tenente João Alberto e pelo capitão Luís Carlos Prestes juntou-se aos paulistas em abril de 1925, em Foz do Iguaçu, no Para-ná, e decidiu percorrer o país para divulgar as ideias do Movimento Tenentista e conseguir apoio popular. Surgia assim a Coluna Pres-tes. Entre os anos de 1925 e 1927, a Coluna percorreu

aproximada-mente 24 mil quilômetros, passando por 12 estados. O presidente

Arthur Bernardes mobilizou tropas para lutar contra a Coluna, que ia perdendo adeptos com o desgaste da marcha pelo interior do país. O cansaço e a pouca adesão popular, além das perdas nos conflitos, minaram o vigor da Coluna e, em 1927, os que ainda resistiam deci-diram pôr fim ao movimento e se exilaram em países vizinhos.

1 Leia o texto a seguir, retirado do final da obra intitulada Os sertões, escrita por Euclides da Cunha, e responda às questões.

Canudos não se rendeu

Fechemos este livro.

Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até o esgotamento com-pleto. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados.

[...] Caiu o arraial a 5. No dia 6 acabaram de o destruir desmanchando-lhes as casas, 5.200, cuidadosamente contadas.

Euclides da Cunha. Os sertões. Disponível em: <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>. Acesso em: 10 ago. 2009. a) Por que Euclides da Cunha intitula o seu texto “Canudos não se rendeu”?

b) Por que as Forças do Governo brasileiro fizeram questão de destruir fisicamente o Arraial de Canudos?

2 Relacione o surgimento das favelas às reformas urbanas do Rio de Janeiro.

3 No caderno, faça um quadro seguindo o exemplo abaixo e complete-o com o que aprendeu sobre as revoltas militares que ocorreram no Brasil na primeira metade do século XX.

revoltas Pessoas envolvidas O que exigiam

revolta de 1924 |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||| ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||

revolta dos Dezoito do Forte |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||| ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||

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1 a) Segundo Euclides da Cunha, os habitantes de Canudos resistiram até não haver um úni-co sobrevivente.

b) Para que o local não voltasse a ser ocupado e se iniciasse ali um novo arraial. A intenção do Governo era “apagar” a experiência de Canu-dos e mostrar à população que aquele era um exemplo que não deveria ser seguido. 2 As favelas surgiram com a remodelação da

cidade, ocasião em que os cortiços da região central foram demolidos por ordem das autori-dades do Rio de Janeiro. Desalojados e sem ter para onde ir, os moradores começam a cons-truir barracos nas encostas dos morros cario-cas e lá se instalaram.

3 Revolução de 1924: movimento militar que se iniciou em São Paulo e, depois de alguns con-flitos com as Forças governamentais, dirigiu-se para o interior, unindo-se a outro grupo militar rebelde. Exigia a renúncia imediata do presi-dente Arthur Bernardes.

Revolta dos Dezoito do Forte: ocorreu no Rio de Janeiro em 1922, como reação ao fechamen-to do Clube Militar e à ordem de prisão ao ma-rechal Hermes da Fonseca, opositor do presi-dente Epitácio Pessoa. A revolta terminou com o confronto entre 17 tenentes e um civil com as forças legalistas, quando 16 dos rebelados foram mortos.

Coluna Prestes: formada por militares paulis-tas que haviam lutado na Revolução de 1924 e por uma coluna formada no Rio Grande do Sul, liderada pelo tenente João Alberto e pelo capitão Luís Carlos Prestes. Juntas, as duas co-lunas decidiram percorrer o país para divulgar as ideias do Movimento Tenentista e conseguir apoio popular. Entre os anos de 1925 e 1927, a Coluna Prestes percorreu, aproximadamente, 24 mil quilômetros, passando por 12 estados. Após as várias baixas obtidas em confrontos com as tropas do Governo e a pouca adesão popular, os que ainda resistiram resolveram pôr fim ao movimento e se exilaram em países vi-zinhos.

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