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PROJETO LEITURA E DIDATIZAÇÃO

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Academic year: 2021

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PROJETO LEITURA E DIDATIZAÇÃO

MACÁRIO E NOITE NA TAVERNA

ÁLVARES DE AZEVEDO

Possíveis dialogismos trabalhados neste Projeto:

1. Álvares de Azevedo e o movimento romântico (Leitura 1) I. O diálogo entre Macário e Penseroso: duas concepções distin-tas acerca da poesia

II. A poesia lírica de Gonçalves Dias: antecedentes da perspectiva de Penseroso

III. A poesia ultrarromântica de Álvares de Azevedo: ressonân-cias em Macário

2. Faces da morte nas literaturas de língua portuguesa do século XIX (Leitura 2)

I. Um episódio de necrofilia em Noite na taverna II. As caveiras apaixonadas de Soares de Passos

III. O suicídio de um apaixonado em Camilo Castelo Branco 3. Carne e sangue humanos no Romantismo brasileiro (Leitura 3) I. Um episódio de canibalismo em Noite na taverna

II. Uma mulher ébria de sangue em um poema de Castro Alves

Esta primeira proposta de trabalho toma por base um trecho de Macário – texto que antecede a novela Noite na taverna, de Álva-res de Azevedo, e que pode ser lido como uma espécie de prólogo à obra seguinte. Em Macário, o autor desenvolve um diálogo entre dois personagens centrais – Macário e Penseroso –, as quais apre-sentam concepções distintas a respeito da arte literária e assumem os papéis de representantes das principais vertentes do Roman-tismo. Desse modo, enquanto Penseroso, por um lado, encarna a perspectiva do nacionalismo característico da primeira geração romântica, o jovem Macário, por outro lado, pode ser visto como defensor de ideais que se aproximam da perspectiva defendida pela vertente ultrarromântica – geração à qual pertence o próprio autor, Álvares de Azevedo. Partindo de um fragmento da discussão entre Macário e Penseroso, esta unidade procura estabelecer um contras-te entre duas das principais correncontras-tes românticas, propondo tam-bém um diálogo entre poemas representativos das duas gerações.

LEITURA 1

ÁLVARES DE AZEVEDO E O MOVIMENTO ROMÂNTICO

(2)

Amanhã pensarás comigo. Eu também fui assim. O tronco seco sem seiva e sem verdor foi um dia o arvoredo cheio de flores e de sussurro.

PENSEROSO Não crer! e tão moço! Tenho pena de ti.

MACÁRIO

Crer? e no quê? No Deus desses sacerdotes devassos? des-ses homens que saem do lupanar quentes dos seios da concubi-na, com sua sotaina preta ainda alvejante do cotão do leito dela para ir ajoelhar-se nos degraus do templo! Crer no Deus em que eles mesmos não creem, que esses ébrios profanam até do alto da tribuna sagrada?

[…]

Talvez seja a treva de meu corpo que escureça minha alma. Talvez um anjo mau soprasse no meu espírito as cinzas sufocadoras da dúvida. Não sei. Se existe Deus, ele me perdoará se a minha alma era fraca, se na minha noite lutei embalde com o anjo como Jacó, e sucumbi. Quem sabe? — eis tudo o que há no meu entendimento. Às vezes creio, espero: ajoelho-me banhado de pranto, e oro; outras vezes não creio, e sinto o mundo objetivo vazio como um túmulo.

AZEVEDO, Álvares de. Macário e Noite na taverna. São Paulo: Saraiva, 2010. (Coleção Clássicos Saraiva).

1. Com base na leitura do fragmento acima, reflita a respeito das seguintes questões e procure estabelecer um contraste entre os pontos de vista divergentes defendidos por Macário e Penseroso: a) A fala inicial de Penseroso contém uma crítica a um poeta cético e apresenta a defesa de uma visão específica acerca da literatura. Identifique essa visão e transcreva expressões utilizadas pelo per-sonagem ao defender esse ponto de vista.

b) As falas de Macário concordam com o pensamento de Penseroso ou o refutam? Os argumentos apresentados por Macário apontam para uma necessidade de renovação artística? Justifique sua resposta.

c) Qual o principal argumento apresentado por Macário em opo-sição aos ideais preconizados pelos poetas seguidores da vertente nacionalista do movimento romântico?

d) Identifique aspectos da fala final de Macário que permitam caracterizá-lo como um personagem inclinado para o ceticismo e para a descrença.

I. O DIÁLOgO ENTRE MACÁRIO E PENSEROSO:

DUAS CONCEPÇõES DISTINTAS ACERCA DA POESIA

TEXTO 1

PENSEROSO […]

Esperanças! e esse americano não sente que ele é o filho de uma nação nova, não a sente o maldito cheio de sangue, de moci-dade e verdor? Não se lembra que seus arvoredos gigantescos, seus oceanos escumosos, os seus rios, suas cataratas, que tudo lá é grande e sublime? Nas ventanias do sertão, nas trovoadas do sul, no sus-surro das florestas à noite não escutou nunca os prelúdios daquela música-gigante da terra que entoa à manhã a epopeia do homem e de Deus? Não sentiu ele que aquela sua nação infante que se embala nos hinos da indústria europeia como Júpiter nas cavernas do Ida ao alarido do Coribantes — tem um futuro imenso?

MACÁRIO […]

Falas em esperanças. […] O mundo está de esperanças desde a primeira semana da criação… e o que tem havido de novo? […] O mun-do hoje é tão devasso como no tempo da chuva de fogo de Somun-doma. Falais na indústria, no progresso? As máquinas são muito úteis, con-cordo. Fazem-se mais palácios hoje, vendem-se mais pinturas e már-mores — mas a arte degenerou em ofício — e o gênio suicidou-se.

Enquanto não se inventar o meio de ter mocidade eterna, de po-der amar cem mulheres numa noite, de viver de música e perfumes, e de saber se a palavra mágica que fará recuar das salas do banquete universal o espectro da morte — antes disso, pouco tereis adiantado.

[…]

Falam nos gemidos da noite no sertão, nas tradições das raças perdidas da floresta, nas torrentes das serranias, como se lá tives-sem dormido ao menos uma noite, como se acordastives-sem procu-rando túmulos, e perguntando como Hamlet no cemitério a cada caveira do deserto o seu passado.

Mentidos! Tudo isso lhes veio à mente lendo as páginas de algum viajante que se esqueceu talvez de contar que nos mangues e nas águas do Amazonas e do Orenoco há mais mosquitos e sezões do que inspiração: que na floresta há insetos repulsivos, répteis imundos; que a pele furta-cor do tigre não tem o perfume das flores… que tudo isto é sublime nos livros, mas é soberanamente desagradável na realidade!

[…]

(3)

Salve, ó Lua cândida, Que trás dos altos montes Erguendo a fronte pálida, Dos negros horizontes As sombras melancólicas Vens ora afugentar! […]

Tão bem a vi na límpida Corrente vagarosa;

Tão bem nas densas árvores De selva majestosa,

Coando os raios lúbricos No lôbrego palmar. E eu só e melancólico Sentado ao pé da veia, Que a deslizar-se tímida Beijava a branca areia; Ou já na sombra tétrica Da mata secular; […]

Salve, ó astro fúlgido,

TEXTO 2

A LUA

2. Leia com atenção as afirmações abaixo e, com base no estudo da obra Macário, de Álvares de Azevedo, assinale V (verdadei-ro) ou F (falso):

( ) Macário defende que a literatura deve ocupar-se de uma representação idealizada da realidade, levando em consideração somente os aspectos sublimes e agradáveis do mundo exterior e da alma humana.

( ) Macário, descrente e cético, é defensor da perspectiva estética segundo a qual a arte não deve ocupar-se apenas dos elementos sublimes, mas também explorar os aspectos grotescos da realida-de e os recônditos obscuros e imorais da alma humana.

( ) A visão de Macário acerca da arte e da vida é marcada pelo pessimismo e pela melancolia, permitindo entrever a influência dos ensinamentos de Satã que, ao longo da obra, desempenha o papel de guia espiritual do jovem rapaz.

II. A POESIA LíRICA DE gONÇALVES DIAS:

ANTECEDENTES DA PERSPECTIVA DE PENSEROSO

Que brilhas docemente. Melhor que o lume trêmulo D’estrela inquieta, ardente, Melhor que o brilho esplêndido Do sol ferindo o mar.

Eu te amo, ó Lua pálida, Vagando em noite bela, Rompendo as nuvens túrdidas Da ríspida procela;

Eu te amo até nas lágrimas Que fazes derramar.

DIAS, Gonçalves. Poesia completa e prosa escolhida. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1959.

3. O poema “A Lua”, de Gonçalves Dias, deixa entrever, em seus versos, a presença de ideais defendidos pela primeira geração de autores românticos brasileiros. A partir da leitura do fragmento acima, responda às seguintes questões:

a) É possível afirmar que, neste poema, a Natureza é descrita de forma idealizada, de modo a ressaltar seus aspectos sublimes? Justifique sua resposta.

b) No poema, o eu-lírico se dirige à Lua. Que influências a Lua exerce sobre o estado de alma do eu-lírico?

c) Em que medida as imagens criadas por Gonçalves Dias se aproximam da concepção de literatura defendida, em Macário, pelo personagem Penseroso?

III. A POESIA ULTRARROMÂNTICA DE ÁLVARES DE AZEVEDO:

RESSONÂNCIAS EM MACÁRIO

De tanta inspiração e tanta vida, Que os nervos convulsivos inflamava E ardia sem conforto…

O que resta? — uma sombra esvaecida, Um triste que sem mãe agonizava… — Resta um poeta morto!

TEXTO 3

UM CADÁVER DE POETA

(4)

Morrer! E resvalar na sepultura, Frias na fronte as ilusões! no peito Quebrado o coração!

Nem saudades levar da vida impura Onde arquejou de fome… sem um leito! Em treva e solidão!

[…]

Meu Deus! e assim fizeste a criatura? Amassaste no lodo o peito humano? Ó poeta, silêncio! — é este o homem? A feitura de Deus! a imagem dele! O rei da criação!…

Que verme infame!

Não Deus, porém Satã no peito vácuo Uma corda prendeu-te — o egoísmo! Oh! miséria, meu Deus! e que miséria! […]

AZEVEDO, Álvares de. Obras completas de Álvares de Azevedo (org. Homero Pires). Rio de Janeiro: Cia. Editora Nacional, 1942.

4. O fragmento acima foi extraído de um extenso poema de Álvares de Azevedo. Do texto, podem ser depreendidos alguns elementos que se aproximam da perspectiva apresentada por Macário. A partir da leitura do trecho acima, responda às seguintes questões:

a) A morte do poeta apresentado no texto é atribuída à perda de alguns traços que anteriormente o identificavam. Que característi-cas foram perdidas pelo poeta, conduzindo-o à morte?

b) Este poema é marcado pelo desespero e pela descrença do eu-lírico. Que relações são estabelecidas pelo sujeito poético entre Deus, Satã e o homem?

c) Que elementos presentes no poema de Álvares de Azevedo per-mitem relacioná-lo à concepção artística defendida pelo persona-gem Macário, em oposição ao ponto de vista de Penseroso?

FACES DA MORTE NAS LITERATURAS DE LíNgUA

PORTUgUESA DO SÉCULO XIX

Esta segunda proposta de leitura tem como objetivo relacionar a obra Macário/Noite na taverna, de Álvares de Azevedo, com tex-tos de autores portugueses do século XIX. Toma-se como ponto de partida um fragmento do capítulo intitulado “Solfieri”, de Noite na

taverna, no qual o narrador-personagem relata um macabro episódio

de necrofilia. Em seguida, um diálogo será estabelecido com o mais famoso poema do Ultrarromantismo português – “O noivado do se-pulcro”, de Soares de Passos. Finalmente, a presente unidade propõe uma análise dialógica com o trecho de um conto de Camilo Castelo Branco, intitulado “A carteira de um suicida”. O trabalho conjunto com esses textos visa ampliar o repertório de leitura no tocante à narrativa gótica em língua portuguesa.

I. UM EPISóDIO DE NECROFILIA EM NOITE NA TAVERNA

LEITURA 2

Quando dei acordo de mim estava num lugar escuro: as estrelas passavam seus raios brancos entre as vidraças de um templo. As luzes de quatro círios batiam num caixão entreaberto. Abri-o: era o de uma moça. Aquele branco da mortalha, as grinaldas da morte na fronte dela, naquela tez lívida e embaçada, o vidrento dos olhos mal aperta-dos… Era uma defunta! … e aqueles traços todos me lembraram uma ideia perdida… — Era o anjo do cemitério? Cerrei as portas da igreja, que, ignoro por quê, eu achara abertas. Tomei o cadáver nos meus braços para fora do caixão. Pesava como chumbo.

[…] Foi uma ideia singular a que eu tive. Tomei-a no colo. Preguei-lhe mil beijos nos lábios. Ela era bela assim: rasguei-lhe o sudário, despi-lhe o véu e a capela como o noivo as despe à noiva. Era uma forma puríssima… Meus sonhos nunca me tinham evo-cado uma estátua tão perfeita. Era mesmo uma estátua: tão bran-ca era ela. A luz dos tocheiros dava-lhe aquela palidez de âmbar que lustra os mármores antigos. O gozo foi fervoroso — cevei em perdição aquela vigília. A madrugada passava já froixa nas janelas. Àquele calor de meu peito, a febre de meus lábios, a convulsão de meu amor, a donzela pálida parecia reanimar-se. Súbito abriu os olhos empanados.

TEXTO 1

SOLFIERI

(5)

TEXTO 2

O NOIVADO DO SEPULCRO

Vai alta a lua! na mansão da morte Já meia-noite com vagar soou;

Que paz tranquila; dos vaivéns da sorte Só tem descanso quem ali baixou.

Que paz tranquila!… mas eis longe, ao longe Funérea campa com fragor rangeu;

Branco fantasma semelhante a um monge, D'entre os sepulcros a cabeça ergueu. Ergueu-se, ergueu-se!… na amplidão celeste Campeia a lua com sinistra luz;

O vento geme no feral cipreste, O mocho pia na marmórea cruz. […]

[…] Nunca ouvistes falar da catalepsia? É um pesadelo horrível aquele que gira ao acordado que emparedam num sepulcro; sonho gelado em que se sentem os membros tolhidos, e as faces banha-das de lágrimas alheias sem poder revelar a vida!

AZEVEDO, Álvares de. Macário/ Noite na taverna. São Paulo: Saraiva, 2010. (Coleção Clássicos Saraiva).

1. Após ler atentamente o fragmento extraído do capítulo “Solfieri”, de Noite na taverna, responda às questões propostas a seguir: a) É possível afirmar que a descrição do espaço contribui para a configuração da atmosfera mórbida que caracteriza o relato de Solfieri? Justifique sua resposta.

b) O narrador, ao manter relações sexuais com a donzela, julgava que ela estivesse morta. O que de fato havia acontecido com a jovem para que ela houvesse sido colocada em um caixão?

c) Que elementos característicos da narrativa gótica podem ser depreendidos do fragmento analisado?

II. AS CAVEIRAS APAIXONADAS DE SOARES DE PASSOS

Chegando perto duma cruz alçada, Que entre ciprestes alvejava ao fim, Parou, sentou-se e com a voz magoada Os ecos tristes acordou assim:

“Mulher formosa, que adorei na vida, “E que na tumba não cessei d’amar, “Por que atraiçoas, desleal, mentida, “O amor eterno que te ouvi jurar?” […]

– “Oh nunca, nunca!” de saudade infinda, Responde um eco suspirando além… – “Oh nunca, nunca!” repetiu ainda Formosa virgem que em seus braços tem. […]

E ao som dos pios do cantor funéreo, E à luz da lua de sinistro alvor, Junto ao cruzeiro, sepulcral mistério Foi celebrado, d’infeliz amor. Quando risonho despontava o dia, Já desse drama nada havia então, Mais que uma tumba funeral vazia, Quebrada a lousa por ignota mão. Porém mais tarde, quando foi volvido Das sepulturas o gelado pó,

Dois esqueletos, um ao outro unido, Foram achados num sepulcro só.

In: MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa através dos textos. 29. ed. São Paulo: Cultrix, 2004. p. 285-287.

2. Após ler com atenção os trechos do poema de Soares de Passos, responda às seguintes questões:

a) Sintetize, com suas próprias palavras, a história narrada neste poema. b) Que elementos característicos da concepção romântica do amor podem ser identificados no poema?

c) Que elementos característicos da narrativa gótica estão presen-tes no poema?

(6)

d) Aponte semelhanças e diferenças existentes entre a atmosfera em que se desenvolvem a narrativa composta por Soares de Passos e o relato macabro de Solfieri.

Procure na internet a letra da canção “Romance de uma ca-veira”. Composta por Alvarenga, Ranchinho e Chiquinho Sales, em 1940, o texto é de um humor muito especial.

Sugerimos que você leia a letra em http://www.repom.ufsc. br/repom3/oliveira.htm. Se puder, ouça a versão com a dupla Alva-renga e Ranchinho ou com o cantor e contador de causos Rolando Boldrin. Depois, ouça a versão interpretada pelo grupo gaúcho de te-atro Tangos e Tragédias (www. tangosetragedias.com.br) no endere-ço http://www.youtube.com/watch?v=QxXTWksNRCA&feature= related. Para completar, assista à animação feita pela estudante de Midialogia da Unicamp Beatriz Blanco, com interpretação do Gru-po Último TiGru-po. Você vai se divertir!

III. O SUICíDIO DE UM APAIXONADO EM CAMILO CASTELO

BRANCO

NONA CARTA

“Enganou-me, e eu não lhe merecia isto. Não há liberdade na sua alma. Não me ama, nem já pode amar-me. Eu tinha acumulado desgostos sobre desgostos.

[…]

Antes de suplicar-lhe a sua estima, devia confrontar-me com quem lha mereceu. Se eu assim fizesse com despreocupação e consciência, vista a minha incapacidade, convencer-me-ia de novo que está o impossível entre nós.

Está fria, fria de morte para mim! […]

Quando me erguer deste leito, onde a febre me mortifica, irei buscar outro mais longe. Pode morrer-se aos trinta anos, saciado da existência.”

[…]

Quinze dias depois da morte da dama, cujo marido vi há dias com a sua segunda mulher, o poeta entrou à meia-noite na hospeda-ria, e escreveu poucas linhas sobre um papel, tirado da sua carteira.

TEXTO 3

A CARTEIRA DE UM SUICIDA

Presumo que se deitou depois, e tomou serenamente umas pílulas como quem se medica para dormir.

Medicina fora aquela que o fizera cair num sono donde há de acordá-lo a trombeta do juízo final. Se é certo este juízo final, espera-se que o meu amigo se levante com a sua mortalha ao lado da mulher por quem se matou. Escassamente medeia um palmo entre as duas sepulturas.

CASTELO BRANCO, Camilo. In: Cenas inocentes da comédia humana. 2. ed. Lisboa: Livraria de A. M. Pereira, 1873. p. 141-171.

3. Leia o fragmento acima, extraído de um conto de Camilo Castelo Branco, e responda às questões abaixo propostas:

a) A quem parece se dirigir a carta reproduzida acima? Com que objetivo ela foi escrita? Que sentimentos o seu conteúdo deixa transparecer?

b) O casal da história é vítima de um final trágico. O que ocorre com o homem após a morte da amada? Que esperanças o narrador tem em relação a um encontro entre o homem e sua amada, após a morte? c) Que elementos ultrarromânticos podem ser identificados no fragmento acima? De que modo eles se aproximam da atmosfera característica dos textos analisados anteriormente?

CARNE E SANgUE HUMANOS NO ROMANTISMO BRASILEIRO

Os autores românticos, no tratamento da alma humana e na descrição física de seus personagens, não contemplaram apenas aspectos sublimes e elevados. Os elementos mórbidos, grotescos, macabros, imorais e perversos comparecem em inúmeros textos do período. Esta terceira seção do Projeto apresenta dois fragmen-tos, extraídos da literatura brasileira, nos quais os autores tratam da face obscura e sombria das relações humanas.

No primeiro caso, optou-se pela seleção de um trecho do ca-pítulo intitulado “Bertram”, pertencente à obra Noite na taverna, de Álvares de Azevedo, no qual é relatada uma situação extrema que coloca em xeque a humanidade dos personagens e os valores apre-goados pela civilização ocidental: perdidos em alto-mar, o capitão de um navio, sua esposa e o amante dela (integrante da tripulação e narrador da história) se veem diante da difícil decisão de sacrificar um dos companheiros para evitar que os demais morram de fome. A prática do canibalismo, em uma situação-limite, é relatada no fragmento reproduzido nesta seção.

LEITURA 3

(7)

Agora, enchei os copos: o que vou dizer vos é negro: é uma lembrança horrível, como os pesadelos no Oceano.

[…]

Eu vos dizia que ia passar-se uma coisa horrível: não havia mais alimentos, e no homem despertava a voz do instinto, das en-tranhas que tinham fome, que pediam seu cevo como o cão do matadouro, fosse embora sangue.

A fome! a sede! tudo quanto há de mais horrível… […]

Isso tudo, senhores, para dizer-vos uma coisa muito simples… um fato velho e batido, uma prática do mar, uma lei do naufrágio — a antropofagia.

Dois dias depois de acabados os alimentos, restavam três pes-soas: eu, o comandante e ela. — Eram três figuras macilentas como o cadáver, cujos peitos nus arquejavam como a agonia, cujos olhares fundos e sombrios se injetavam de sangue como a loucura.

O uso do mar — não quero dizer a voz da natureza física, o brado do egoísmo do homem — manda a morte de um para a vida de todos. — Tiramos a sorte… o comandante teve por lei morrer.

[…]

Parece que a morte no oceano é terrível para os outros ho-mens: quando o sangue lhes salpica as faces, lhes ensopa as mãos, correm à morte como um rio ao mar, como a cascavel ao fogo. Mas assim… no deserto nas águas… eles temem-na, tremem diante des-sa caveira fria da morte!

Eu ri-me porque tinha fome. […]

A lua amarelada erguia sua face desbotada, como uma meretriz cansada de uma noite de devassidão, o céu escuro parecia zombar des-ses dois moribundos que lutavam por uma hora de agonia…

TEXTO 1

BERTRAM

Em seguida, apresentam-se trechos poéticos da autoria de Castro Alves, nos quais a paixão exacerbada é descrita de maneira voluptuosa e violenta: a posse física do ser amado pode ocorrer de forma tão impetuosa que uma mulher é capaz de sorver o sangue do eu-lírico.

Ambos os trechos escolhidos apresentam elementos maca-bros e conduzem à reflexão sobre a conduta humana impulsionada por instintos primários, em situações intensas que envolvem tanto a sobrevivência como a paixão.

I. UM EPISóDIO DE CANIBALISMO EM NOITE NA TAVERNA

O valente do combate desfalecia… caiu: pus-lhe o pé na gar-ganta, sufoquei-o e expirou…

Não cubrais o rosto com as mãos — faríeis o mesmo… Aquele cadáver foi nosso alimento dois dias…

Depois, as aves do mar já baixavam para partilhar minha pre-sa; e as minhas noites fastientas uma sombra vinha reclamar sua ração de carne humana…

Lancei os restos ao mar…

AZEVEDO, Álvares de. Macário/ Noite na taverna. São Paulo: Saraiva, 2010. (Coleção Clássicos Saraiva).

1. Após ler atentamente o fragmento extraído do capítulo “Bertram”, de Noite na taverna, responda às questões propostas a seguir: a) Descreva a situação difícil em que os personagens se encontram e a solução encontrada para resolver esse problema.

b) O relato de Bertram apresenta elementos característicos da narrati-va gótica? Justifique sua resposta com elementos extraídos do texto. c) Identifique um trecho no qual o narrador se exime das possí-veis condenações de seus ouvintes, afirmando que sua atitude em alto-mar respondeu, na verdade, a um instinto humano de luta pela sobrevivência.

II. UMA MULHER ÉBRIA DE SANgUE EM UM POEMA DE

CASTRO ALVES

Quando a insônia, qual lívido vampiro, Como o arcanjo da guarda do Sepulcro, Vela à noite por nós,

E banha-se em suor o travesseiro, E além geme nas francas do pinheiro Da brisa a longa voz…

[…]

Então… nos brancos mantos que arregaçam Da meia-noite os Anjos alvos passam Em longa procissão!

E eu murmuro ao fitá-los assombrado: São os Anjos de amor de meu passado Que desfilando vão…

TEXTO 2

OS ANJOS DA MEIA-NOITE

(8)

Almas, que um dia no meu peito ardente Derramastes dos sonhos a semente, Mulheres, que eu amei!

Anjos louros do céu! virgens serenas! Madonas, Querubins ou Madalenas! Surgi! aparecei!

Vinde, fantasmas! Eu vos amo ainda; Acorde-se a harmonia à noite infinda Ao roto bandolim…

[…]

Fabíola

Como teu riso dói… como na treva Os lêmures respondem no infinito: Tens o aspecto do pássaro maldito, Que em sânie de cadáveres se ceva! Filha da noite! A ventania leva Um soluço de amor pungente, aflito… Fabíola! É teu nome!… Escuta… é um grito, Que lacerante para os céus s’eleva!… E tu folgas, Bacante dos amores, E a orgia que a mantilha te arregaça, Enche a noite de horror, de mais horrores… É sangue, que referve-te na taça!

É sangue, que borrifa-te estas flores!

E este sangue é meu sangue… é meu… Desgraça!

ALVES, Castro. Poesias completas. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 1960. p. 150-155.

2. Após ler atentamente o fragmento poético de Castro Alves, acima reproduzido, responda às questões propostas a seguir:

a) O eu-lírico relata os delírios que o acometem quando, em noites de insônia, recorda suas antigas paixões. De que modo são apresentadas as figuras das mulheres de seu passado? A que elas são comparadas? b) Que elementos herdados da vertente ultrarromântica podem ser identificados nas primeiras estrofes da parte intitulada “Fotografia”? Em que medida esses elementos se aproximam da atmosfera macabra dos episódios narrados em Noite na taverna?

c) A primeira estrofe de “Fabíola” apresenta uma comparação entre uma mulher, da qual o poeta se recorda e a quem ele dedica seus versos, e determinado pássaro. Que traços comuns entre os dois seres permitem o estabelecimento dessa comparação? d) Que imagem o eu-lírico constrói acerca de Fabíola, na segunda e na terceira estrofes do poema? Trata-se de uma mulher suave e dócil ou de uma mulher intensa e devassa? Justifique sua resposta com elementos extraídos do texto.

e) Na última estrofe do poema, a intensidade da volúpia de Fabíola é apresentada, pelo eu-lírico, em sua máxima potência. De que modo o personagem feminino se apropria da essência do sujeito poético?

PESQUISE E POSICIONE-SE

A leitura de Macário e Noite na taverna permite desenvolver refle-xões sobre os aspectos mais obscuros e misteriosos da alma huma-na. As questões a seguir têm como objetivo aprofundar a leitura e o entendimento da obra.

• Que semelhanças podem ser identificadas entre Macário/

Noite na taverna – considerando também a tradição da prosa gótica,

à qual a obra se filia – e os romances e filmes contemporâneos que abordam as temáticas do horror e do sobrenatural?

• Em que medida os elementos macabros das narrativas de horror dos séculos XVIII e XIX estão presentes no imaginá-rio dos membros de tribos urbanas atuais – como os adeptos do movimento gótico, por exemplo? Que outras manifestações da cultura popular atual são influenciadas pelos elementos característicos da novela gótica?

• Os personagens de Álvares de Azevedo relatam episódios de suas vidas que foram marcados por momentos extremos de perversão e impulsividade. Você acredita que haja um aspecto sombrio presente em todos os seres humanos? Em que situações essa obscuridade interna pode emergir? Tais impulsos podem ser controlados de alguma forma?

• A obra de Álvares de Azevedo assinala um desejo de reno-vação no campo das artes. A poesia não mais se dedicaria apenas aos aspectos sublimes e delicados da realidade, mas também contemplaria os elementos grotescos e sombrios. Você concorda com esse desejo artístico de representar aspectos da realidade que não são necessariamente agradáveis? A arte contemporânea ainda

(9)

trata desses aspectos mais obscuros do mundo e da alma humana? Justifique sua resposta.

• Na obra de Álvares de Azevedo, o espaço de total descon-tração da taverna favorece a troca de experiências entre os perso-nagens, no ambiente de devassidão da orgia noturna. Você acre-dita que contar histórias acontecidas conosco e ouvir os relatos de outras pessoas são ações que podem nos ajudar a lidar com nossos conflitos internos?

• A partir do contato com textos pertencentes à vertente gótica da literatura romântica, identifique aspectos centrais que uma narrativa de horror deve apresentar para prender a atenção do leitor. Faça um exercício: elabore você também a sua narrativa gótica. Explore elementos como ruínas seculares abandonadas, paisagens sombrias e desoladas, personagens sinistros e atemo-rizantes, situações de mistério e suspense, cemitérios iluminados pela lua e visitados por seres tenebrosos e horripilantes. Como sugestão para ampliar seu repertório de leitura e auxiliá-lo na ela-boração de seu texto, consulte a antologia Contos de horror do século

XIX, organizada por Alberto Manguel e publicada, no Brasil, pela

Companhia das Letras.

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