Expectativas e desafios de longevos como participantes de um projeto de inclusão digital

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UNIVERSIDADE

CATÓLICA DE

BRASÍLIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO

STRICTO SENSU EM EDUCAÇÃO

Mestrado

EXPECTATIVAS E DESAFIOS DE LONGEVOS

COMO PARTICIPANTES DE UM PROJETO DE

INCLUSÃO DIGITAL

Autora: Solange Maria Lopes de Oliveira

Orientadora: Profª Drª Jacira da Silva Câmara

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SOLANGE MARIA LOPES DE OLIVEIRA

EXPECTATIVAS E DESAFIOS DE LONGEVOS COMO PARTICIPANTES DE UM PROJETO DE INCLUSÃO DIGITAL

Dissertação apresentada ao Programa de

Pós-

Graduação “Stricto Sensu” em

Educação da Universidade Católica de

Brasília, como requisito para a obtenção

do Título de Mestre em Educação.

Orientadora: Profª. Drª. Jacira da Silva Câmara

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Ficha elaborada pela Biblioteca Pós-Graduação da UCB 08/04/2010

O48e Oliveira, Solange Maria Lopes de

Expectativas e desafios de longevos como participantes de um projeto de inclusão digital. / Solange Maria Lopes de Oliveira. – 2009.

76f. 30 cm

Dissertação (mestrado) – Universidade Católica de Brasília, 2009.

Orientação: Jacira da Silva Câmara

1. Longevidade. 2. Integração social. 3. Educação Aspectos sociais. I. Câmara, Jacira da Silva, orient. II. Título.

CDU 374.7-053.9

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TERMO DE APROVAÇÃO

Dissertação de autoria de SOLANGE MARIA LOPES DE OLIVEIRA, intitulada

“Expectativas e Desafios de longevos como participantes de um Projeto de Inclusão Digital”, apresentada como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Educação da Universidade Católica de Brasília, em 27 de novembro de 2009, defendida e aprovada pela banca examinadora abaixo assinada:

__________________________________________________ Profª Drª Jacira da Silva Câmara

Orientadora

__________________________________________________ Profª. Drª Clélia de Freitas Capanema

Membro Interno

_________________________________________________ Profº Drº José Florêncio Rodrigues Júnior

Membro Externo

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Agradeço primeiramente a Deus, pela Dádiva da vida. Obrigada pela pessoa que me constituiu e transforma a cada dia segundo a Sua vontade.

Agradeço especialmente à Profª Drª Jacira da Silva Câmara, por ter aceitado a orientação desta pesquisa, missão que desempenhou com muita competência e dedicação. O processo de orientação transbordou a dimensão intelectual e acadêmica, contribuindo para o desenvolvimento pessoal.

Agradeço as preciosas observações e sugestões do Profº Drº José Florêncio Rodrigues Júnior e da Profª Drª Clélia de Freitas Capanema.

Ao Profº Florêncio minha gratidão pela convivência e aprendizado durante dois semestres de trajetória acadêmica. Parte essencial das virtudes que este trabalho eventualmente possua, vem dessa relação.

Ao programa GERAÇÃO III, na pessoa do Dr. Izalcy Lucas, e ao coordenador Profº Mário, pela oportunidade de participar do projeto de pesquisa que originaram os dados dessa pesquisa.

Agradeço com muito carinho aos participantes deste estudo que com compreensão e coragem aceitaram compartilhar comigo suas Histórias.

Aos meus avós, exemplos de vida e de conduta que me esforço em seguir.

Um agradecimento todo especial, cheio de admiração e apreço, à minha mãe e ao meu irmão Carlos, que sempre torceram pela conclusão deste trabalho.

À minha amiga Verônica, companheira nas discussões e análises sobre aprendizagem e casos clínicos, ajudando na reflexão sobre estratégias para um aprender com significados.

Aos amigos: Márcia, Cláudia, Dorizete, Milton, Joaquim, pela inesquecível convivência e aprendizagem na caminhada educativa.

À minha amiga Marilde Alves Lima que esteve presente me apoiando nesta longa etapa.

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Quando nada parece ajudar, eu vou e olho o cortador de pedras martelando sua rocha, talvez cem vezes sem que nem uma só rachadura apareça. No entanto, na centésima primeira martelada, a pedra se abre em duas e eu sei que não foi aquela a que conseguiu, mas todas as que vieram antes.

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A pesquisa busca averiguar fatores que levaram o longevo a procurar um Curso de Informática, investigando o seu nível de satisfação, bem como suas expectativas e desafios enfrentados no manuseio com o computador e sua integração com o mundo virtual. Investiga também as relações interpessoais estabelecidas em sala de aula, além de identificar mudanças observadas a partir do ingresso no referido curso. Trata-se de uma pesquisa qualitativa de natureza exploratória. Como instrumentos para a coleta de dados foram utilizadas as técnicas da entrevista semi-estruturada e da observação. Participaram da pesquisa 20 longevos, de ambos os sexos, numa faixa etária entre cinqüenta e sete(57) e setenta e oito(78) anos. Os dados coletados foram analisados com base na análise do discurso. Os resultados obtidos mostram satisfação dos longevos por participarem do curso de Informática, destacam dificuldades de aprendizagem superadas ao longo do curso. Os resultados evidenciam também benefícios relacionados aos aspectos cognitivos, além de salientarem a necessidade de serem percebidos como pessoas ativas e com capacidade de superar as dificuldades. Estas dificuldades se situam nos aspectos cognitivos, nos aspectos sociais e nos aspectos afetivos. A superação destas dificuldades contribui para a inclusão deste grupo populacional na sociedade contemporânea.

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The research seeks to investigate the factors that led longevous individuals to seek computer courses, investigating their level of satisfaction, their expectations, the challenges faced in dealing with the computer and its integration with the virtual world. It also investigates interpersonal relationships established in the classroom, and identify changes observed from the entrance in that course. This is a qualitative exploratory study in nature. As a tool for data collection it was used a semi-structured interview and observation. The participants were 20 longevous individuals of both sexes, in the age bracket of 57 and 78 years. The collected data were analyzed using discourse analysis. The results show that long-lived individuals are pleased (satisfied) in participating in the course of elderly people, highlighting overcome learning difficulties throughout the course. The results also show benefits related to cognitive aspects, and stress the need to perceive people as active and able to overcome the difficulties. These difficulties lie in the cognitive, social and affective aspects. Overcoming these difficulties will contribute to the inclusion of this population group in the contemporary society.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO………...11

JUSTIFICATIVA………... 14

ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO……….…………...16

CAPÍTULO I - A PESQUISA E SEUS ELEMENTOS 1.1 – PROBLEMA... 17

1.2 – OBJETIVOS DO ESTUDO………...19

1.3 – REFERENCIAL METODOLÓGICO 1.2.1 – Classificação da pesquisa………...19

1.2.2 – Caracterização dos entrevistados………...….……..……...20

1.2.3 – Caracterização do local………...…………...……...…...………….…...21

1.2.4 – Instrumentos ...…………..……….…………...……...…...22

1.2.5 – Procedimentos.……….………...……....…...……...23

CAPÍTULO II – REVISÃO DA LITERATURA 2.1 – LONGEVIDADE E EDUCAÇÃO - VISÃO DA VELHICE NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA………..…...25

2.2 – CONCEITO DE VELHICE - NOVOS OLHARES, MÚLTIPLAS INTERPRETAÇÕES………..………...28

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2.4 – O LONGEVO NO MUNDO TECNOLÓGICO – PROCESSO DE APRENDIZAGEM

...34

2.5 – TECNOFOBIA: MEDO OU AVERSÃO À TECNOLOGIA?...38

2.6 – AS RELAÇÕES VINCULARES ENTRE ENSINANTE E APRENDENTE – ELO PARA UMA APRENDIZAGEM SIGNIFICATIVA……….………...40

2.7 – RESUMO DO PROGRAMA GERAÇÃO III/DF PARA A TERCEIRA IDADE.…..42

CAPÍTULO III – ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS...46

3.1 – ANÁLISE DAS ENTREVISTAS………...46

3.2 – ANÁLISE DAS OBSERVAÇÕES………...55

3.3 – ANÁLISE DOS RESULTADOS………..…....57

CAPÍTULO IV – CONSIDERAÇÕES FINAIS E RECOMENDAÇÕES………....60

REFERÊNCIAS………...….…..63

APÊNDICES………...70

APÊNDICE A – CARTA ENVIADA AO COORDENADOR DO PROGRAMA GERAÇÃO III / DF.………...,...………..…...71

APÊNDICE B – ROTEIRO DE ENTREVISTA...73

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INTRODUÇÃO

O Brasil vem perdendo em ritmo acelerado a sua característica de país jovem. As estatísticas realizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística sinalizam para um aumento significativo das pessoas idosas, como também constatam uma diminuição dos índices de mortalidade e de fecundidade. Os dados comprovam um índice elevado de pessoas com mais de sessenta anos, e possibilitam prever, para os próximos quinze anos, um aumento considerável do contingente de pessoas da terceira idade, colocando-nos entre os países mais velhos do mundo.

O aumento populacional deste segmento vem sendo objeto de estudo de vários pesquisadores (VERAS, 1994; NOVAES, 1995; MONTEIRO & ALVES, 1995; entre outros), preocupados com a presença desse fenômeno na sociedade.

Percebe-se nas últimas décadas um interesse pelo destino dessa população idosa, refletido no aumento da consciência sobre os efeitos do envelhecimento populacional e na preocupação com a sua qualidade de vida. O surgimento das Universidades para a Terceira Idade é um reflexo dessa conscientização, que visa à inserção social do longevo em uma sociedade globalizada.

Envelhecer bem depende das oportunidades do indivíduo quanto a usufruir de condições adequadas de educação, urbanização, habitação, saúde, trabalho, durante todo o curso de sua vida. E, segundo Néri (1995), a promoção de uma melhor qualidade de vida através da educação favorece o seu desenvolvimento e suas adaptações sociais. Para Baltes & Baltes (1990), uma velhice bem-sucedida inclui a noção de que o requisito fundamental para a velhice é a preservação do potencial para o desenvolvimento pleno do indivíduo. Um envelhecimento satisfatório, nessa perspectiva, está relacionado a uma boa qualidade no transcurso de vida de um indivíduo, não se restringindo à velhice, mas considerando a influência histórica de fatores ontogenéticos, socioculturais e individuais.

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pela educação formal e informal, são um importante recurso para manter a funcionalidade, a flexibilidade e a possibilidade de adaptação dos idosos.

Envelhecer pode significar conviver com algumas perdas físicas ou doenças degenerativas, entretanto essa fase da vida cheia de experiências, permite também ganhos que possibilitam aos longevos usufruírem de uma vida prazerosa. Hoje, os idosos apresentam um novo perfil na sociedade, mostrando a arte de envelhecer bem, com qualidade de vida e vida produtiva. Desse modo, torna-se necessário o estabelecimento de políticas públicas dirigidas para esse segmento etário, que aumenta significativamente.

Borba (2001), ressalta que os órgãos de fomento à pesquisa e o Ministério da Educação (MEC) deveriam criar mais espaços para privilegiar a produção de conhecimentos sobre esse tema, bem como ampliar suas ações de extensão, universalizando o seu acesso. Para isso, faz-se necessária a implantação de uma política educacional que promova a inclusão dessa discussão no currículo das escolas e o desenvolvimento de pesquisas na área.

Implementar meios que viabilizem a integração desse segmento etário, como também educar as futuras gerações para verem o idoso como pessoa que traz uma gama de conhecimentos e experiências vividas ao longo da vida, torna-se tarefa imprescindível dos educadores. Mudar, adaptar e adquirir novos valores e conhecimentos são os maiores desafios de um novo projeto educativo para idosos (CÂMARA, 2006).

Diferentes instituições universitárias iniciaram o trabalho com a Universidade para a Terceira Idade (UNATI), procedimentos pedagógicos distintos, que vão além da comunicação do saber formal científico. Visa à valorização pessoal, à convivência grupal, ao fortalecimento da participação social e à formação de um cidadão consciente de suas responsabilidades e direitos, com o propósito de promover sua autonomia e qualidade de vida. Assim, os poucos projetos organizados por entidades interessadas pelos idosos são, provavelmente, os únicos instrumentos facilitadores do estabelecimento de relações positivas entre os diversos aspectos da vida desses indivíduos.

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Huang, diretora de Marketing da Empresa Infobrother, que oferece o curso em Pernambuco, desde setembro de 2008, “os idosos são pessoas que não participaram dessa revolução da Informática. Muitos têm até receio de ligar a máquina. O ritmo é mais lento, o professor precisa ser mais paciente”.

Os programas de terceira idade buscam oferecer conhecimentos atualizados, favorecendo a inclusão desse segmento na sociedade. Têm dado visibilidade aos idosos, mostrando uma imagem dessa fase de vida com possibilidade de realizações práticas. No entanto, ainda percebe-se um número significativo de idosos que sofrem um processo de exclusão social.

Para Queiroz (1999), o idoso ainda enfrenta um processo de exclusão social envolvendo as dimensões econômica, em virtude das baixas aposentadorias e pensões que recaem sobre o poder aquisitivo; política, em função de na maioria das vezes não verem os seus direitos de cidadão respeitados; social, na medida que as novas estruturas de sociabilidade desenvolvidas na sociedade contemporânea estão centradas no trabalho e na família. Secundariamente, essa exclusão afeta também as relações de vizinhança, ocasionando situações de isolamento social, além da exclusão cultural.

Cabral (2000), menciona que nas décadas de 80 e 90, os projetos elaborados para os idosos deram margem a novas experiências de vida. A autora comenta que as UNATIs possibilitaram formas de sociabilidade que atendiam às necessidades dos idosos, por propiciarem a busca por diferentes realizações pessoais. Diante desses fatos, alguns estudos foram selecionados para demonstrar os benefícios e os motivos pelos quais os idosos procuram tais projetos.

Gaio (1998, apud Fenalti, R.C.S & Schwart E.G.M, 2003), relata que as UNATIs facilitam o entendimento da importância da ocupação do tempo livre como fator estimulador para o desenvolvimento, tentando-se, dessa forma, mudar as expectativas do idoso em relação à qualidade de vida, a fim de tornar a terceira idade uma fase mais prazerosa.

Se, a longo prazo, o problema pode ser superado, por acreditar-se que haverá uma sensibilização geral por parte de órgãos competentes, como também da sociedade, a curto prazo, buscam-se alternativas capazes de possibilitar ao idoso experiências que favoreçam a integração no convívio social como aprendente ativo e que permitam a ele dar continuidade à construção da sua história.

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JUSTIFICATIVA

O aumento crescente do fenômeno da longevidade é uma realidade indiscutível que vem sendo pensada por vários autores, os quais estabelecem que o envelhecimento populacional envolve a todos e se manifesta de acordo com as particularidades de cada indivíduo. Os estudos mostram como as pessoas envelhecem diferentemente umas das outras. Algumas consideram o envelhecimento como sendo uma fase de sabedoria, enquanto, para outras pessoas, esta fase é interpretada como um processo de tristeza, angústias, perdas irrecuperáveis, doenças, solidão, isolamento do mundo e menosprezo por parte da sociedade.

O fenômeno de envelhecimento representa uma questão de interesse coletivo e pessoal. Assim, é necessário criar momentos para debates, despertar interesses e sensibilizar os educadores para a realização de pesquisas e estudos nessa área (CÂMARA, 2006). Acrescenta a autora que a longevidade populacional se insere no âmbito das forças sociais decorrentes de mudanças e inovações ocorridas na sociedade e que se transformam em pressões sociais.

O idoso tem potencial cognitivo, experiência acumulada e tempo disponível para dedicar-se à aquisição de novos conhecimentos, incluindo os tecnológicos. A tempestividade das informações e as incertezas que caracterizam o mundo globalizado são fatores que exigem atualização permanente dos indivíduos para a sua inserção na sociedade. Renovação e atualização constantes de conhecimento são, portanto, questões chaves deste milênio, como forma de inibir o desconforto da falta de preparo para contribuir efetivamente com a sociedade.

Conforme Assmann (1996), é necessário derrotar hoje três tipos de analfabetismo: o da lecto-escritura (saber ler e escrever), o sociocultural (saber em que tipo de sociedade se vive; por exemplo, saber o que são mecanismos de mercado) e o tecnológico (saber interagir com máquinas complexas). Esse autor acrescenta que toda escola incompetente em algum desses aspectos é socialmente retrógrada.

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Nesta era da informação, em que se percebem grandes mudanças de posturas e conceitos em relação aos assumidos no século passado, o ser humano de modo geral sente a necessidade de investir no conhecimento de novas tecnologias que exigem aprendizagens contínuas por parte dos usuários. Hoje, a carta é substituída pelo e-mail, as pessoas poupam tempo resolvendo serviços de banco on-line, não utilizando as filas gigantescas dos bancos, as compras de mercadorias em lojas são na maioria das vezes feitas pela busca eletrônica de informações sobre produtos. “Tudo ocorre muito rápido, em tempo preciso, mais fácil e pode-se dizer que: muito pouca coisa resta do modo antigo de viver” (SWCHWEITZER, 1999, apud ALMEIDA, 2001).

O longevo necessita vincular-se ao mercado que se apresenta neste contexto globalizado. Não pode ficar alheio às mudanças referentes à modernidade, que requerem a construção de um novo paradigma de formação contínua, bem como inovações de técnicas e aprendizagens, para a sua inserção neste novo contexto da mídia. Por meio do contato com máquinas, o longevo poderá adquirir conhecimentos que possibilitem a habilidade de manuseá-las e interagir com vários programas, desenvolvendo o raciocínio lógico, a memorização, a socialização e a atualização, enfim, permitindo ao longevo o contato com a chamada era da informação.

Portanto, torna-se urgente a implantação de políticas educacionais que permitam a inserção desse segmento na contemporaneidade, em especial na inclusão digital por meio de estratégias que atendam às suas necessidades, respeitando as características individuais.

Esta pesquisa não tem a intenção de discutir o panorama dos cursos oferecidos pelo programa GERAÇÃO III, mas, tão somente, pretende averiguar, na sua essência, quais os motivos que levam os longevos a buscar tal conhecimento e quais as expectativas e desafios a serem enfrentados na aprendizagem e nas relações com os colegas e com o professor. Há, ainda, a pretensão de analisar o nível de satisfação na realização do curso.

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ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO

O presente texto é constituído de quatro (04) capítulos. O capítulo I, intitulado “A pesquisa e seus elementos”, apresenta o problema que será pesquisado, os objetivos do estudo e o referencial metodológico onde são descritos a classificação da pesquisa, sua amostra, o local de realização e os participantes, bem como os instrumentos de coleta de dados.

O capítulo II é constituído da Revisão da Literatura, que trata sobre temas relacionados à longevidade e educação, concepção de envelhecimento, políticas de atenção ao idoso, o longevo no mundo tecnológico – medo ou aversão e as relações vinculares entre ensinante e aprendente. Como item final, o capítulo apresenta um resumo sobre o Programa Geração III.

O capítulo III consta da apresentação e discussão dos resultados, realizando uma análise dos dados sobre os resultados obtidos, onde são comentados os depoimentos e opiniões dos longevos entrevistados.

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CAPÍTULO I – A PESQUISA E SEUS ELEMENTOS

1.1O PROBLEMA

Na sociedade contemporânea, a presença da tecnologia em nosso meio é incontestável, seja em uma simples retirada de dinheiro em um caixa eletrônico, seja em uma ligação telefônica, seja em uma operação mais complexa, como a montagem de um automóvel, por exemplo.

As tecnologias de informação e de comunicação vêm delimitando novas formas de convivência socioglobal e exigem que as pessoas adquiram habilidades para se adaptarem a essas tecnologias que, cada vez mais, estão inseridas nos domínios do cotidiano. Vale ressaltar que o avanço tecnológico possibilitou o surgimento de um mercado virtual no qual redes integradoras e disseminadoras de informação permitem uma comunicação cada vez mais intensa e mais acelerada entre os indivíduos.

Os baixos custos e as facilidades de aquisição de equipamentos, inclusive com incentivos fiscais, possibilitam o acesso de grande parte da população à internet. No entanto, paradoxalmente, a dificuldade de manuseio desses equipamentos, pelos longevos, contribui para uma espécie de exclusão sociodigital.

Diante desse novo universo de relações, comunicações e trânsito de informações, há a necessidade de refletir sobre a inclusão do longevo no mundo digital e virtual.

Conforme dados do IBGE (2007), em 2025, 33,8 milhões da população brasileira será formada por pessoas idosas. Assim, nos próximos 16 anos, o país será o 6º no mundo com maior população acima de 60 anos. A longevidade torna-se, portanto, uma questão instigante neste século XXI, situando-se como um grande desafio social, educacional e político.

O índice de envelhecimento aponta para mudanças na estrutura etária da população brasileira. Em 2008, para cada grupo de 100 crianças de 0 a 14 anos existiam 24,7 idosos de 65 anos ou mais. Em 2050, o quadro muda e para cada 100 crianças de 0 a 14 anos existirão 172, 7 idosos.

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Não obstante os longevos apresentarem hoje uma postura diferente daquela evidenciada no passado, suas perspectivas na sociedade ainda são nebulosas. Por isso, é fundamental refletir sobre o longevo como sujeito cognitivamente ativo e sobre a educação como sendo um processo contínuo que se dá na interação com o outro e ao longo da vida.

Diante desse panorama, fica evidente a necessidade de promover ações educacionais voltadas para esse segmento da população. Uma educação que envolva todas as dimensões do ser humano visando à formação integral deste ser. Uma educação que possibilite o pleno desenvolvimento do ser humano na perspectiva do seu preparo para o exercício da cidadania, proporcionando o crescimento pessoal e envolvendo mudanças de postura, capacidade de ação e de reflexão, autonomia nas decisões, desenvolvimento de habilidades e a capacidade de interação com outros seres. Uma educação preocupada também com a qualificação para o trabalho, que estabeleça o equilíbrio entre o conhecimento teórico e o desenvolvimento humano.

Tendo em vista o crescimento acelerado do número de idosos em um país como o Brasil, considerado jovem (principalmente entre a década de 80 e a virada do século XX), algumas instituições já promovem estudos, novas adaptações e sociabilidades para um envelhecer ativo e com qualidade de vida. A implantação de cursos e programas, bem como de Universidades para a Terceira Idade são exemplos desse tipo de política. Daí a necessidade do estabelecimento de políticas públicas voltadas para a questão da longevidade, no intuito de sensibilizar a comunidade para o desenvolvimento de práticas preocupadas com o bem-estar e com a qualidade de vida desta população.

No Distrito Federal, o secretário de Ciência e Tecnologia do Distrito Federal, deputado Izalci Lucas, implantou o projeto “Geração III” em parceria com a FAP (Fundação de Apoio à Pesquisa do DF ) e a Gestão de Pessoas / Responsabilidade Social e Cidadania do Serpro.

O Projeto Geração III tem por objetivo proporcionar, às pessoas maiores de 60 anos de idade, que nunca tiveram contato com o computador, a oportunidade de integrar o universo digital. Eles participam de aulas que são ministrados pelos instrutores do projeto, em laboratórios de microinformática do Serpro e recebem noções de microinformática e acesso à internet.

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interpessoais estabelecidas em sala de aula entre os colegas e o professor e, sobretudo, identificar os desafios e os percalços enfrentados pelo longevo na aquisição de conhecimentos relacionados ao mundo virtual.

1.2 OBJETIVOS DO ESTUDO

Esta pesquisa objetiva detectar elementos presentes na atuação do longevo como participante do Curso de Informática oferecido pelo “Programa Geração III”, para a Terceira Idade. Os objetivos específicos são:

1 averiguar quais os fatores que levaram o longevo a buscar o Curso de Informática oferecido pelo “Geração III” do DF.

2 investigar o nível de satisfação relacionado à participação do longevo no Curso de Informática.

3 identificar as mudanças pessoais ocorridas após o ingresso no curso de informática. 4 identificar as expectativas do longevo com o mundo da informática;

5 identificar desafios enfrentados no manuseio do computador e sua integração com o mundo virtual;

6 investigar as relações interpessoais estabelecidas, em sala de aula, entre longevos/longevos e longevos/professor.

1.3 REFERENCIAL METODOLÓGICO

1.3.1 Classificação da pesquisa

“Pesquisa científica é um conjunto de procedimentos sistemáticos, baseados no raciocínio lógico, que tem por objetivo encontrar soluções para os problemas propostos

mediante o emprego de métodos científicos.” (ANDRADE, 2001).

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obtidos no contato direto do pesquisador com a situação estudada, ela enfatiza mais o processo do que o produto e se preocupa em retratar a perspectiva dos participantes.

A pesquisa qualitativa tem o ambiente natural como fonte direta de dados e o investigador como principal instrumento, o qual procurará presenciar o maior número de situações no meio de investigação, exigindo um contato direto com o problema a ser estudado.

Segundo Minayo (1996), a pesquisa qualitativa trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores, atitudes e aprofunda-se no mundo dos significados das ações e relações humanas.

Os significados que as pessoas dão às coisas e à sua vida são focos de atenção especial. O método qualitativo sob a ótica dessa concepção, busca as relações dos significados e, no momento da apresentação dos resultados, exige a característica descritiva desses dados, até mesmo quando incluídas as citações literais ilustrativas de falas de sujeitos da investigação.

A escolha de um método de pesquisa depende necessariamente dos pressupostos que norteiam o pesquisador ao interagir com o problema de pesquisa. Morgan e Smircich (1980 apud Zanelli, 2002), advogam que a pesquisa qualitativa é mais que um conjunto particular de técnicas, está implícita no modo de encarar o fenômeno social investigado.

Para Lukde e André (1986), as metodologias qualitativas permitem a obtenção de dados descritivos, enfatizam mais o processo do que o produto, além de retratarem a perspectiva dos participantes.

Trabalhar qualitativamente implica, portanto, entender as significações que uma pessoa dá aos fenômenos em foco, por meio de técnicas de observação ampla e entrevistas que permitem ao investigador conhecer e explorar o máximo sobre questões pertinentes ao objeto de estudo.

1.3.2. Caracterização dos entrevistados

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e feminino, numa faixa etária entre cinqüenta e sete(57) a setenta e oito(78) anos com tempo de permanência de um mês no curso. A maioria dos longevos possui curso superior e revelaram que possuem renda oriunda da aposentadoria, aluguéis de imóveis, de pensão, sendo que alguns ainda continuam na ativa, seja para complementação da renda familiar, seja para ocupação do tempo.

Embora o Estatuto do Idoso considere idosa a pessoa com idade igual ou superior a 60 anos de idade, esta antecipação de faixa etária decorre da flexibilidade do Programa Geração III em atender à demanda deste segmento. Todos esses participantes estavam matriculados em uma turma de nível 1 para iniciantes no referido curso. São longevos de diferentes classes sociais e econômicas.

O contato com os longevos foi muito positivo, os quais mostraram interesse e disposição para participar da entrevista. No que se refere à condição conjugal dos participantes, encontram-se, casado(a), viúvo(a) e divorciado(a).

Alguns moram sozinhos, outros com o cônjuge ou com os filhos. Os que moram sozinhos, afirmaram que estão felizes por ter liberdade de ação e de espaço. Com relação a escolaridade a maioria concluiu o nível superior.

Para efeito de sigilo de informação, os longevos foram codificados com a letra “L”, e um numeral posicionado à direita que representa a idade.

1.3.3 Caracterização do Local

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O Programa atende a população de longevos nos turnos matutino e vespertino. Os longevos participantes da pesquisa são todos do turno matutino e matriculados no nível 1 do referido curso.

1.3.4 Instrumentos

Como instrumentos da coleta de dados, foram utilizados a técnica de entrevista semi-estruturada e a observação. Ao se referir aos instrumentos de coleta de dados, Santos ( 2006), afirma que procedimentos de coleta são práticas utilizadas para reunir informações necessárias em torno de um problema. Segundo o autor, a peculiaridade de cada pesquisa define o instrumento adequado para a coleta de dados.

A entrevista é a técnica mais adequada para a revelação de informação sobre assuntos complexos ou para verificar os sentimentos subjacentes a determinada opinião apresentada. Ela também é possibilitadora de uma abertura e proximidade maior entre entrevistador e entrevistado, o que permite ao entrevistador tocar em assuntos mais complexos e delicados, ou seja, quanto menos estruturada for a entrevista, maior será o favorecimento de uma troca mais afetiva entre as duas partes.

A entrevista semi-estruturada é muito utilizada quando se deseja delimitar o volume das informações relacionadas com o tema, possibilitando o alcance dos objetivos. A principal vantagem da entrevista semi-estruturada é que quase sempre ela produz uma melhor amostra da população de interesse. Desse modo, colabora muito na investigação dos aspectos afetivo e valorativo dos informantes, determinando significados pessoais de suas atitudes e comportamentos. As respostas espontâneas dos entrevistados possibilitam obter informações sobre as circunstâncias das pessoas, suas preferências e opiniões, além de propiciarem explorar com alguma profundidade as experiências, motivações e raciocínio dos indivíduos. Tem como característica a reflexividade, porque emprega métodos e um processo de análise que refletem a natureza do objeto da pesquisa, em vez da convicção metodológica do pesquisador.

A observação também é considerada um instrumento de coleta de dados para conseguir informações sobre determinados aspectos da realidade. Ela ajuda o pesquisador a “identificar e obter provas a respeito de objetivos sobre os quais os indivíduos não têm

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também obriga o pesquisador a ter um contato mais direto com a realidade. Essa técnica é denominada observação assistemática, com a qual o pesquisador procura recolher e registrar os fatos da realidade sem a utilização de meios técnicos especiais, ou seja, sem planejamento ou controle.

Tal como afirma Medeiros (1995, p. 44), observação assistemática é “aquela realizada não obedecendo a nenhum roteiro específico ou pré-fixado, e que possibilita um contato pessoal e estreito do pesquisador com o fenômeno em estudo, permitindo que este acompanhe

in loco as experiências diárias dos sujeitos na tentativa de apreender os significados que

atribuem à realidade que os cerca”. Apesar da afirmação de Medeiros, nesta pesquisa foi elaborado um roteiro para melhor definição dos dados a serem coletados.

O processo de observação terá por objetivos a apreensão da dinâmica da escola e das salas de aulas, as relações que caracterizam os espaços formais e informais, as interações que os indivíduos e grupos estabelecem no cotidiano da escola (TURA, 2000). É evidente que a observação, como processo, pressupõe a negociação da presença de pesquisadores e a gradual instauração de relações entre estes e seus parceiros.

As observações e entrevistas são instrumentos que podem ser utilizados simultaneamente. Existe um espectro de reações que devem constar da observação, mesmo quando se desenvolve a entrevista, que compõe o que Thiollent (1980), chama de “atenção flutuante”, em que se deve buscar o significado do silêncio, da hesitação, dos ritmos verbais e não verbais, das entonações. Esses elementos ajudam a compreender todo o discurso não verbalizado (LUDKE & ANDRÉ, 1986).

1.3.5 Procedimentos

Para a realização das entrevistas, foi elaborado um roteiro composto de duas partes. Na primeira foram coletados dados pessoais dos informantes possibilitando a caracterização dos mesmos. Na segunda foram obtidas informações sobre os desafios e expectativas dos respondentes conforme estabelecido nos objetivos da pesquisa.

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Gaskell (2002), a partir dos dados brutos coletados, é possível elaborar um conjunto de procedimentos maduros e bem documentados.

As entrevistas se desenvolveram por meio da apresentação da entrevistadora; explanação dos objetivos da entrevista; da instrução sobre a dinâmica e o uso do gravador; a realização propriamente dita; agradecimentos e despedida. Apêndice B.

A observação buscou informações sobre o comportamento real do público alvo deste estudo. Conforme citado nos relatos sobre os instrumentos, trata-se de uma observação assistemática não exigindo, portanto, a utilização de um roteiro.

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CAPÍTULO II – REVISÃO DA LITERATURA

2.1 LONGEVIDADE E EDUCAÇÃO – VISÃO DA VELHICE NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA

“A velhice não é uma aproximação da morte, mas sim um gozo diferente, de todosos

pontos de vista... O que me agrada é a suavidade; é o tempo; é a intelectualidade, a imaterialidade das relações. É um hedonismo, porém é um hedonismo superior, que as pessoas chamam velhice e que, na verdade, é a mais elevada forma de vida, uma forma que é preciso recuperar por completo. Desse ponto de vista, parece-me que todos os velhos deveriam continuar a trabalhar, porque a aposentadoria é uma coisa

absurda.”

Antonio Negri, filósofo italiano.

Este capítulo será dividido em sub-itens que envolvem aspectos considerados relevantes como suporte teórico para a discussão e análise referentes aos longevos.

A sociedade brasileira está envelhecendo em ritmo acelerado. Ao analisar-se uma pirâmide populacional, percebe-se, hoje, que as pessoas idosas atingem um número crescente e significativo. Atualmente as pessoas vivem mais tempo, em virtude da qualidade de vida ligada a vários fatores, entre eles: saúde, educação e moradia, que contribuem para uma vida prolongada e possibilitam ao longevo novos interesses e novas formas de adaptação para a sua inserção ativa na contemporaneidade. De acordo com o IBGE (2002), no Brasil, em 2000, havia cerca de 15 milhões de idosos e prevê-se, para 2025, um número equivalente a 34 milhões.

Vários autores justificam o aumento da expectativa de vida dos idosos relacionando-o crelacionando-om a melhrelacionando-oria nrelacionando-o âmbitrelacionando-o da saúde em crelacionando-onseqüência drelacionando-os avançrelacionando-os científicrelacionando-os e tecnológicos. Pesquisas comprovam a queda das taxas de natalidade e de mortalidade, destacando que houve avanços de modo geral e que a sociedade melhorou. Assim, as pessoas necessitam conscientizar-se cada vez mais de que o envelhecer é um processo que se aprende desde a infância e que é preciso dar a importância da qual os idosos necessitam.

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As taxas de crescimento correspondentes às crianças de 0 a 14 anos já se encontram em níveis bem próximos de zero, ao passo que as relativas ao segmento de 65 anos ou mais, embora oscilem, são as mais significativas, podendo ultrapassar os 4% ao ano, entre 2025 e 2030, e, ao longo de todo o horizonte da projeção, com cifras superiores à média da população total e às taxas do grupo de 15 a 64 anos de idade (IBGE-2004).

Paschoal (1996, apud Kachar, 2003), faz um paralelo histórico em relação à expectativa de vida em algumas épocas. No início da Era Cristã, até o Renascimento, a expectativa de vida girava em torno de 30 anos; a partir de 1800, até o início de 1900, o tempo médio de vida aumentou para 45 anos. Através, principalmente, da Revolução Industrial, com a melhoria da qualidade de vida, saneamento básico, educação e trabalho, esta expectativa aumentou para 60 anos, em 1930, nos países desenvolvidos.

Esse aumento populacional de longevos causa importantes reflexos nos setores social e econômico, gerando um número crescente de pessoas dependentes da previdência e dos serviços públicos de saúde e de assistência social. As desigualdades sociais, culturais e econômicas tornam o envelhecer com qualidade de vida um privilégio de poucos. Uma minoria dispõe de vida com independência financeira, possibilidade de aquisição de medicamentos, atendimento médico e hospitalar e a oportunidade de usufruir de instituições de ensino e de lazer.

Para Assis (2004: p 11 apud Caldas, 1998):

o envelhecimento humano é um fato reconhecidamente heterogêneo, influenciado por aspectos socioculturais, políticos e econômicos, em interação dinâmica e permanente com a dimensão biológica e subjetiva dos indivíduos. Desta forma, a chegada da maturidade e a vivência da velhice podem significar realidades amplamente diferenciadas, da plenitude à decadência, da gratificação ao abandono, sobretudo em presença de extremas disparidades sociais e regionais como as que caracterizam o Brasil contemporâneo.

Both (2000), afirma que essa virada demográfica precisa ser entendida como oportunidade para o longevo e como conscientização para todos de que a longevidade não se constitui um peso para a sociedade.

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O envelhecer ainda não é bem aceito por muitos, ficando o estigma de ser uma fase de declínio e de perdas, em que a minoria é beneficiada, podendo desfrutar de uma velhice bem- sucedida.

Conforme Caldas et al (2003, p.309):

Libertar-se do conceito do envelhecimento como uma fase de perdas é, ao menos, um processo extremamente doloroso, quando existe uma cultura dominadora investindo numa visão de mundo na qual as pessoas idosas são incapazes e principalmente improdutivas. Reconhecer que ela é dominadora é um primeiro passo para perceber, aceitar e dialogar com uma outra visão de mundo - a da velhice bem-sucedida, que deve não se concentrar na preparação dos profissionais da gerontologia, mas estender-se para todos, inclusive para aqueles que possuem uma consciência mais apurada desta realidade - os próprios idosos.

Portanto, o conceito negativo acerca do processo de envelhecimento vem sendo transformado, permitindo que os próprios idosos se revelem e demonstrem que o envelhecer pode e deve ser uma fase da vida repleta de conquistas, alegrias, aprendizagens e realizações.

Consoante Negreiros (2003), urge reconhecer o processo de envelhecer como um

continuum do desenvolvimento humano, encarando as amplas possibilidades e as inelutáveis

limitações.

Para Ferrari (1999: p 198):

a velhice não pode ser definida pela simples cronologia e sim pelas condições físicas, funcionais, psicológicas e sociais das pessoas idosas. Há diferentes idades biológicas, subjetivas em indivíduos com a mesma idade cronológica; o que acontece é que o processo de envelhecimento é muito pessoal; ele constitui uma etapa da vida com realidade própria e diferenciada das anteriores, limitada unicamente por condições objetivas externas e subjetivas. Possui certas limitações que com o passar do tempo vão se agravando, mas tem potencialidades únicas e distintas: serenidade, experiência, maturidade e perspectiva de vida pessoal e social. Portanto, a velhice é hoje considerada uma fase de desenvolvimento humano e não mais um período de perdas e incapacidades.

Segundo Assis (1998), garantir aos idosos as condições necessárias para viver a terceira idade de forma mais plena e satisfatória, com respeito e apoio, é tarefa para todos nós. Um bom começo é poder olhar o idoso como um guardião vivo de nossa história, que tem a experiência dos anos vividos. Por outro lado, é participar na busca pela melhoria na qualidade de vida da população em geral, pois mais digno e saudável será o envelhecimento quanto mais favorável e rico em possibilidades for o próprio viver.

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2.2 CONCEITO DE VELHICE – NOVOS OLHARES, MÚLTIPLAS INTERPRETAÇÕES.

“A velhice é uma idade esplêndida!...Não é um mal em si. Amamos as pessoas de

fato pelo que elas são. Acho que afina a percepção. Vejo as coisas que não antes, percebo elegâncias às quais eu não era sensível. Agora, eu as vejo melhor, porque olho para alguém pelo que ele é, quase como se eu quisesse carregar comigo uma imagem dele, um percepto ou tirar da pessoa um percepto. Tudo isso torna a velhice

uma arte.”

Gilles Deleuze, filósofo francês.

O envelhecimento da população nesta sociedade contemporânea vem ganhando relevância em função do desenvolvimento econômico e do crescente número de pessoas com mais de 60 anos no Brasil. A imagem dos idosos vem sendo modificada devido ao avanço das tecnologias na área da saúde, proporcionando dessa forma, o aumento da expectativa de vida. O “novo idoso” está sendo influenciado por hábitos saudáveis.

Segundo PEIXOTO (1998), o aumento da faixa etária populacional constituiu-se num problema social, sobretudo em função das conseqüências econômicas, que afetou as estruturas capitalistas e, posteriormente, o Estado, com o advento das aposentadorias.

A palavra “velho” carrega um significado preconceituoso que implica a não aceitação por parte dos mais jovens, gerando a exclusão social, além de impedir a inserção no mercado produtivo. É sabido que, com o passar do tempo, as características físicas se modificam intensamente e cada pessoa tem a sua própria forma de envelhecer. A qualidade de vida de cada indivíduo depende de hábitos saudáveis adquiridos ao longo da vida, de novas experiências, novas conquistas, e atuação no mercado de trabalho. O idoso traz consigo uma experiência de vida construída ao longo dos anos a ser compartilhada com pessoas de gerações mais jovens.

Para entender as perspectivas das pessoas diante do envelhecimento é fundamental uma definição do que vem a ser velhice. O processo de envelhecimento, deve ser considerado na sua totalidade incluindo os fatores ambientais, sociais, psicológicos, culturais e econômicos. (MERCADANTE, 2002).

Acrescenta a autora (2002, p. 27):

“a velhice se analisada somente como uma questão biológica, não revela o seu lado social. Ela, além de sua especificidade biológica, localiza-se em uma história, e insere-se num sistema de relações sociais. Assim, as variáveis históricos e socioculturais, particulares de cada sociedade, são as que fundamentam e entram

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Segundo o dicionário Aurélio (1986, p. 1760), a palavra “velho” tem, entre outros, o significado de muito antigo, de época remota. O próprio dicionário traz uma conotação de ultrapassado, de antigo e, analisando a palavra “velhice” afirma que esta traz em seu bojo o significado de “idade avançada, pessoas velhas, e ainda reforça a questão da rabugice ou disparate próprio de velho”.

De acordo com Rodrigues (2000), o envelhecimento é um processo que depende de todas as vivências anteriores do indivíduo, desde sua infância até a maturidade, tanto sob o ponto de vista biológico quanto socioemocional e econômico. Essas vivências irão influir na capacidade de enfrentamento das modificações que ocorrem com o aumento da idade, traduzindo-se em diferentes modelos de velhice.

Faz-se necessário haver uma reflexão e até mesmo uma (re)definição de conceitos. A sociedade muitas vezes vê o idoso como um indivíduo incapaz de exercer suas funções com êxito. É preciso fazer uma nova leitura frente às capacidades preservadas do idoso.

As experiências adquiridas ao longo da vida devem ser valorizadas e as perdas de capacidade física não devem ser o foco de atenção do idoso, que se sente isolado diante do preconceito que o estigmatiza e o exclui, até mesmo pela própria expressão “velho”, que gera para muitos, uma interpretação ultrapassada.

A velhice, até meados do século XIX, era considerada improdutiva porque o velho era visto como pessoa que não tinha condições de se assegurar financeiramente, atribuindo como principal característica a incapacidade de produzir e de participar ativamente no mercado de trabalho. Segundo Peixoto (1998), era denominado velho (vieux) ou velhote (veillard) aquele indivíduo que não desfrutava de status social, muito embora o termo velhote também fosse utilizado para denominar o velho que tinha sua imagem definida como “bom cidadão”.

Contudo, os idosos hoje ganham um novo perfil. A imagem que as pessoas possuem sobre eles vem sendo transformada a cada dia, devido à contribuição da ciência e da tecnologia na área da saúde, lazer, educação e de programas que oferecem espaço para o convívio e para a interação. Essa interação contribui para a construção de novos modelos e paradigmas de envelhecimento.

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Segundo Lazaeta (1994:59 apud Perez, E. A. p. 59):

É certo que o organismo humano experimenta o desgaste inerente à finitude dos seres vivos, mas esta diminuição não significa necessariamente déficit, já que o organismo funciona com níveis variados de superávit ou de reserva e, o que é mais importante, existe a possibilidade de intervir para atenuar e compensar os efeitos de tal desgaste sobre a capacidade dos indivíduos de seguir desempenhando por si mesmos suas atividades cotidianas.

É claro que não se pode evitar o processo de envelhecimento. No entanto, podemos colaborar para uma mudança sobre a maneira de como envelhecer, transformando-a numa fase de bem-estar e de integração social. É fundamental rever os conceitos de velhice e entender que esta não significa necessariamente a redução de capacidade e a diminuição de atividades. Pelo contrário, pode ser uma fase de enriquecimento espiritual e vida aprazível, em que cada um pode construir a sua própria história.

Torna-se necessário a implementação de projetos que incentivem o crescimento pessoal do idoso, respeitando o processo de envelhecimento como um fator sociocultural, havendo trocas nas inter-relações, proporcionando aos velhos a execução de seus papéis de cidadão e ator social, rompendo os estereótipos de que o “velho” é um ser incapaz. Vale ressaltar que nesta sociedade contemporânea o conceito de velhice vem passando por transformações, as quais estabelecem uma nova relação da cultura com o envelhecimento.

Estudos científicos sobre o envelhecimento, de acordo com Gonçalves (2003), vêm se dedicando a demonstrar que o processo de envelhecimento não precisa ser tratado de forma pessimista com foco apenas nas doenças, solidão e tristezas.

Segundo Pelzer & Sandri (2002:119):

o idoso é um ser em transformação, podendo ainda aprender, amar, empreender, trabalhar, criar, em suma, viver. Na nossa sociedade, muitas vezes, nos esquecemos de que o mundo dos afetos construído pelo convívio social, o vínculo estabelecido entre as pessoas, não sofrem um processo de deterioração com o avançar dos anos: cada um de nós tem o desejo de amar e ser amado, ser útil e independente e sentir o significado profundo que representa a sua existência ao longo do curso de vida.

Portanto, a velhice é hoje considerada uma fase ativa de desenvolvimento humano e que o longevo, por meio das relações sociais, interage procurando desmistificar o conceito do velho associado à doença e à improdutividade. Nas culturas mais antigas, a pessoa mais velha era vista como sinônimo de sabedoria e conquistava todo o respeito dos demais. Eram pessoas consideradas como exemplos, devido às experiências adquiridas no passado, e transmitiam conhecimentos e valores às novas gerações.

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de vida que pode continuar aprendendo novos conhecimentos e vivenciar novas experiências reconhecendo-se como cidadão consciente de suas responsabilidades e direitos. É necessário rever conceitos antigos que associam à velhice a noção de decadência e fragilidade do ser humano, superar, então, a situação de exclusão dos velhos, “encarando-se a velhice não só como questão fundamental ao desenvolvimento, mas principalmente como direito humano fundamental”. (RAMOS, 2007 p. 08 ).

Pesquisas comprovam esses fatos, mostrando uma necessidade incontestável de se construir um novo conceito da velhice, e conseqüentemente, uma nova interpretação do que

seja ser idoso e estar idoso, contribuindo para uma nova leitura dos velhos paradigmas. A criação do Estatuto do Idoso normatiza regras de amparo ao idoso, reforçando a

necessidade do respeito, da dignidade e do lugar que todo cidadão deve ocupar no espaço terrestre. Políticas envolvendo temas voltados para o envelhecimento são discutidas e já se pode vislumbrar resultados refletidos na criação de Centros de Convivência, Núcleos de Estudos em pesquisas sobre o envelhecimento e sobre a qualidade de vida.

2.3 POLÍTICAS DE ATENÇÃO AO IDOSO: REVISITANTO O ESTATUTO DO IDOSO

A questão do envelhecimento vem ganhando ênfase e representatividade neste novo século. As pessoas estão vivendo por mais tempo, em decorrência das baixas taxas de mortalidade em virtude da melhoria da qualidade de vida, que garante a longevidade.

Segundo Goldstein (2008), “o segmento mais idoso da população brasileira sofreu um rápido aumento a partir dos anos 60, quando começou a crescer em ritmo bem mais acelerado do que as populações adultas e jovens. Acrescenta que, de 1970 até 1999, o peso da população idosa sobre a população total passou de 3% a 8% e essa população deve dobrar nos próximos vinte anos”.

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De acordo com Camarano et alii (1997, p. 01), “o envelhecimento populacional é, hoje, um proeminente fenômeno mundial. Isto significa um crescimento mais elevado da população idosa com relação aos demais grupos etários. No caso brasileiro, pode ser exemplificado por um aumento da participação da população maior de 60 anos no total da população nacional de 4% em 1940 para 8% em 1996. Além disso, a proporção da população “mais idosa”, ou seja, a de 80 anos e mais, também está aumentando, alterando a composição etária dentro do próprio grupo, isto é, a população considerada idosa também está envelhecendo.”

A melhoria das condições de saneamento básico, os avanços no campo da medicina preventiva, o cuidado pré-natal, a preocupação com a alimentação e desenvolvimento do infante, contribuíram significativamente para o aumento do índice de longevidade.

A longevidade deve ser considerada uma herança para as gerações futuras, porque traz consigo uma gama de experiências e de vivências que não poderão ser esquecidas. A proteção à velhice é reconhecida na Declaração Universal de Direitos Humanos, em seu artigo XXV:

“Art. 25 – I - Todo ser humano tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda de

subsistência em circunstâncias fora de seu controle”.

Não obstante o previsto na Declaração, foi necessária a implantação de leis complementares que assegurassem, na sua totalidade, direitos aos idosos, ressaltando-se que estes apresentam-se a cada dia mais dinâmicos, participativos, autônomos e saudáveis.

O Estatuto do Idoso, sancionado em 1º de outubro de 2003, é uma referência em nossa história e reforça os laços de solidariedade do Brasil, mostrando uma conquista de dignidade, uma celebração do respeito à vida. Conforme Eduardo Barbosa (2004: 12):

“Nós estamos num momento fundamental para a garantia da dignidade do

envelhecimento do povo brasileiro, já que o eixo central do Estatuto busca a autonomia e garante uma vida ativa para os idosos. Um modo de pensar que não é típico da nossa cultura. Com este Estatuto, estamos interferindo na maneira de pensar do brasileiro, mudando uma concepção e abrindo uma nova perspectiva de

autodeterminação para os idosos.”

Estando previsto na Constituição todos esses direitos, independente da classe social a que o indivíduo pertença, de seu gênero, idade, cor, credo, da posição que ocupe ou de bens que possua, é direito adquirido.

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proteção, um direito social. A vida aqui é compreendida como vida saudável e digna, com direito à saúde por meio de ações que previnam, protejam e recuperem a saúde do idoso. Mostra claramente a igualdade do idoso com relação às demais pessoas.

Após várias discussões internas entre entidades que representam os interesses de idosos e aposentados, o projeto foi ganhando aliados fortíssimos e, em 2003, com a Campanha da Fraternidade da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, o Estatuto do idoso foi aprovado por unanimidade pelo Plenário da Câmara dos Deputados, em 21 de agosto de 2003. Foram necessários vinte anos de luta para a aprovação do Estatuto do Idoso pelo Congresso Nacional.

No Art. 2, o Estatuto garante que o idoso goze de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta lei, assegurando por outros meios todas as oportunidades e facilidades, para preservação de sua saúde física e mental e seu aperfeiçoamento moral, intelectual, espiritual e social, em condições de liberdade e dignidade.

O Estatuto prevê, ainda, a inserção do idoso no mercado de trabalho, bem como o acesso à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer com propostas e programas voltados para esse segmento, além de oportunidades de participação em cursos especiais que são fundamentais para manter a saúde física e mental do idoso.

O Art. 21 determina que o Poder Público criará oportunidades de acesso do idoso à educação, adequando currículos, metodologias e material didático aos programas educacionais a ele destinado. Acrescenta, em seu inciso I, que os cursos especiais para os idosos incluirão conteúdos relativos às técnicas de comunicação, computação e demais avanços tecnológicos, para sua integração à vida moderna.

Na Quinta Conferência Internacional sobre Educação de Adultos, realizada em Hamburgo, em 1997, foi abordada a necessidade de providências urgentes quanto à criação de amplas alianças para mobilizar e compartilhar recursos, de forma a fazer da educação de adultos uma ferramenta, um direito e uma responsabilidade de todos. Este fato fortalece o previsto no artigo 21º do Estatuto do Idoso.

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O longevo é visto neste século XXI como um novo sujeito. Quanto ao direito à educação, está fortemente marcado o atual conceito de idoso como aquele que pode apostar constantemente na sua promoção social, pois tem capacidade para a interação, para a aprendizagem e para a participação ativa na sociedade, podendo ter um envelhecer com significados. O Estatuto do Idoso contempla todos, pois relembra que cada um dos idosos vivenciou todas as idades anteriores e que o envelhecer é um fenômeno universal, para além das questões de gênero ou cultura.

Quando é dado um novo significado ao conceito de idoso amplia-se o próprio conceito de homem, de sociedade e de democracia. Assim, proporcionam-se uma nova

identidade, uma conscientização, uma nova herança cultural, uma nova concepção de vida. Urge, portanto, perceber esse longevo como sujeito cognitivamente ativo e a

educação como processo contínuo, que não ocorre somente no período escolar, nos anos da infância e da juventude, mas da infância à vida adulta e à velhice.

A educação é considerada um direito e uma possibilidade em qualquer etapa da vida. Para Gonçalves (2003), o processo de aquisição do conhecimento acompanha o ser humano em toda a sua existência. Se existe o desejo de aprender, independentemente da faixa etária em que o sujeito se encontra, a aprendizagem poderá acontecer.

O Estatuto do Idoso revela na sua essência o desejo de concretizar o princípio fundamental da dignidade da pessoa humana. A população está envelhecendo e trata-se de uma realidade na qual não se pode escapar.

É preciso preparar com urgência a sociedade para este processo de envelhecimento, não somente estabelecendo políticas públicas que atendam às necessidades desse segmento como, também, (re)significando os conceitos sobre este novo perfil de longevo, esses adultos mais velhos que têm muito a oferecer ao desenvolvimento da sociedade sendo, portanto, merecedores de todo respeito e admiração desta e das gerações futuras.

2.4. O LONGEVO NO MUNDO TECNOLÓGICO – PROCESSO DE APRENDIZAGEM

“A velhice não é a conclusão necessária da existência humana, é uma fase da existência diferente da juventude e da maturidade, mas dotada de um equilíbrio

próprio e deixando aberto ao indivíduo uma gama de possibilidades”.

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Na sociedade contemporânea é comum associar-se o avanço das ciências da informação e de novas tecnologias ao público mais jovem, fruto da geração virtual nascido em plena era digital. Entretanto, com a mudança significativa na pirâmide etária da população idosa, a inclusão deste grupo etário é fundamental como um grupo capaz de assimilar novas aprendizagens.

Nesta sociedade da informação e da era tecnológica, a integração do longevo tem sido negligenciada quanto à continuidade de aquisição e produção do saber pelo longevo em função do estigma criado de que tal etapa da vida é marcada por dificuldades de adaptabilidades e limitações cognitiva, física e afetiva.

Lorda (1998), considera um erro dizer que os idosos não são criativos. Ressalta que, de acordo com pesquisas, muitos artistas, escritores e cientistas produziram grandes obras após os 70 (setenta) anos de idade. Destaca também que a idade cronológica não define, por si só, as potencialidades do longevo e que cada ciclo de vida possui suas peculiaridades e valores especiais desenvolvidos ao longo de sua existência.

O acesso da população idosa ao mundo virtual favorece a manutenção de seus papéis sociais, do exercício da cidadania, da autonomia, da melhoria da auto-estima, enfim de um caminho para a sociedade ativa e complexa, mantendo a mente produtiva em conexão com a contemporaneidade.

Como observa Bobbio (1997), a situação dos idosos no contexto em que vivemos não pode ser ignorada. Na sociedade da informação, as transformações são cada vez mais rápidas, mostrando diferenças significativas entre quem domina o conhecimento e quem não sabe. Nesse cenário, explica o autor, o velho passa a ser aquele que não sabe frente aos jovens que sabem. O autor ainda assinala que tanto a rapidez do processo técnico quanto o envelhecimento cultural que acompanha o envelhecimento biológico e social contribuem para a marginalização do velho. De acordo com as palavras desse autor, torna-se necessária a inserção desse segmento etário no mundo tecnologizado, para possibilitar-lhe acesso à linguagem da informática como forma de prevenir a exclusão do longevo.

Segundo Kachar (2003: 65), “foram observados alguns benefícios da tecnologia para este grupo etário, como melhorar as condições de interação social e estimular a atividade mental. O computador tem utilidade e pode trazer mudanças significativas para as pessoas com mais idade”.

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aprendizagem de jovens, adultos e idosos na interação com o computador chamam a atenção para um dimensionamento de estratégias de ensino, que deverão atender às necessidades individuais de cada um, respeitando as dificuldades, o ritmo e o tempo para aprender, bem como as limitações físicas (auditivas, visuais) e cognitivas (memória, atenção).

Pesquisas indicam que parte da população de idosos não apresentam motivação para se inserir no mundo informatizado, por medo, por pensarem que é um obstáculo ou às vezes, por não perceberem a importância da inclusão digital e acharem que o aprendizado do manuseio dos aparelhos eletrônicos é uma tarefa destinada aos mais jovens.

O grande avanço das novas tecnologias do mundo informatizado tem se tornado um verdadeiro desafio para todas as fases da vida. A cada dia presenciamos algumas situações de embaraços nas pessoas quanto ao manuseio no caixa eletrônico ou com o novo DVD, celular, uso da internet para pagamento de contas, compra e venda de produtos pela internet, entre outros.

O nosso dia-a-dia está marcado por situações que implicam a necessidade de interação com a informática. Cada vez mais o ser humano está dependente das máquinas eletrônicas. Daí a necessidade da criação de estratégias que viabilizem a inclusão do segmento longevo no meio tecnológico.

Segundo Pretto (1996, apud Kachar 2003, p. 52), o analfabeto do futuro será aquele que não souber ler as imagens geradas pelos meios eletrônicos de comunicação. E isso não significa apenas o aprendizado do alfabeto dessa nova linguagem.

Os jovens têm mais facilidade para lidar com os meios eletrônicos em virtude de terem nascido na geração dos ícones, imagens, botões, o que os mantém em constante intimidade com o objeto, ocorrendo numa relação de identificação e fascínio.

Mercadante (1996:76) afirma que:

A identidade de idosos se constrói pela contraposição a identidades de jovens, como conseqüências, se têm também a contraposição das qualidades: atividade, força, memória, beleza, potência e produtividade como características típicas e geralmente imputadas aos jovens e as qualidades opostas a esta última, presentes nos idosos.

O idoso é a fonte de sabedoria mais próxima de qualquer ser humano. Com sua grande experiência de vida profissional, social, emocional, psicológica, comportamental, possibilita aos mais jovens oportunidades de compartilhamento de saber com um nível considerável de qualidade da informação.

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para a conquista do pleno exercício da cidadania e de seus direitos como cidadão nesta sociedade que exige práticas inovadoras e tecnológicas.

O processo de aprendizagem contínuo é que garante ao longevo acompanhar os outros segmentos nas suas descobertas e conquistar constantemente o seu espaço junto à humanidade, de forma ética e solidária. Nessa nova fase da vida, a aprendizagem ganha um novo sentido, pois o longevo traz consigo uma gama de informações, experiências vividas e compartilhadas ao longo de sua trajetória de vida.

Existem, no entanto, alguns aspectos que se destacam em cada uma das etapas da vida. A criança, por exemplo, aprende a se socializar com outras crianças formando grupos. O adolescente se identifica com os jovens de sua faixa de idade pelas características e pelas afinidades. Assim, formam os pares, sentem-se mais seguros, até mesmo pela aceitação das idéias no grupo.

Já o adulto partilha experiências, analisa o contexto em que vive, elaborando respostas frente ao mundo. A maioria dos idosos, devido à experiência acumulada durante os anos de vida, encontra bem-estar nas relações interpessoais, que se tornam fundamentais para uma nova aquisição de conhecimentos cheios de significados nesse estágio da vida.

Segundo Paulo Freire (1987), aprendemos e envelhecemos com as mais variadas situações, quanto mais se sabe, entende-se que nada se sabe. Para ele essa riqueza faz do ser humano um ser inacabado, o que o motiva a procurar outros conhecimentos. Nessa dinâmica, fica evidente que o ser humano aprende continuamente e enquanto houver vida há possibilidade de aprender na velhice.

De acordo com a perspectiva freiriana, somos sujeitos e não objeto, somos dotados de inteligência e capazes de aprender continuamente, analisando a realidade que nos cerca.

Freire (1999:85-86) argumenta que:

É o saber da história como possibilidade e não como determinação. O mundo não é. O mundo está sendo. Como subjetividade curiosa, inteligente, interferidora na objetividade como dialeticamente me relaciono, meu papel no mundo não é só o de quem constata o que ocorre, mas também o de quem intervém como sujeito de ocorrências. Não sou apenas objeto da história, mas sou sujeito igualmente. No mundo da história, da cultura, da política, constato não para me adaptar, mas para mudar. (p. 85-86).

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É preciso, então, realizar uma nova leitura acerca desse segmento que se apresenta em números significativos, oferecendo espaços de aprendizagens virtuais. Essa iniciativa possibilitará um aprender por meio da troca de informações e discussão sobre questões voltadas para a informática, ampliando o conhecimento sobre as ferramentas e procedimentos tecnológicos de modo a inserir e re-inserir o longevo no contexto que se apresenta.

2.5. TECNOFOBIA: MEDO OU AVERSÃO À TECNOLOGIA?

A construção do conhecimento durante o processo de envelhecimento é marcada por várias questões ligadas às dificuldades e aos desafios enfrentados. No contexto da aprendizagem digital, essas dificuldades e esses desafios se configuram, seja por aversão às novas tecnologias, seja por medo do computador como ferramenta de trabalho ou de comunicação e fonte de informação.

É numerosa a quantidade de aparelhos eletrônicos e digitais a que se tem acesso na sociedade atual. São aparelhos de dvds, celulares, mp3, ipods, caixas eletrônicos, videogames, computadores, entre outros.

Logo, as transformações que esses recursos tecnológicos vêm causando no comportamento dos indivíduos provocam preocupação de alguns profissionais da área de Psicologia e Psiquiatria, pois é comum encontrar pessoas idosas (e também de outras faixas etárias) em pânico diante de aparelhos eletrônicos e digitais..Esse problema ocorre, sobretudo, pela falta de conhecimento e pelo medo do funcionamento e manuseio do equipamento o que pode, em alguns casos, gerar insegurança.

Tais implicações suscitadas de alguma maneira por ferramentas tecnológicas corroboram a concepção de Pytlik, Lauda e Johnson (1983), segundo os quais a tecnologia pode, além de facilitar a vida das pessoas, produzir tensões sociais e psicológicas prejudiciais às relações de convivência. Essas tensões, em outras palavras, constituem o que se denomina “tecnofobia”, isto é, medo ou aversão à tecnologia. Embora possua uma conotação clínica, o termo “tecnofobia” tem sido empregado, de modo geral, para designar as tensões sofridas por pessoas que apresentam resistência, de qualquer teor, a novas ferramentas tecnológicas.

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