A
LÍNGUA
QUE
SALVA
B
ABEL EL
ITERATURA EMP
RIMOL
EVIANNA BASEVI
A LÍNGUA QUE SALVA. Babel e Literatura em Primo Levi
Anna Basevi
Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa
de Pós-graduação em Letras Neolatinas da
Universidade Federal do Rio de Janeiro, como
parte dos requisitos necessários à obtenção do
título de Mestre em Letras Neolatinas (Estudos
literários Neolatinos – opção: Literatura Italiana).
Orientador: Prof. Andrea Giuseppe Lombardi
Rio de Janeiro
FICHA CATALOGRÁFICA
Basevi, Anna
A língua que salva. Babel e literatura em Primo Levi/
Anna Basevi. – Rio de Janeiro: UFRJ/ FL, 2012. 194 f.; 29,7 cm.
Orientador: Andrea Giuseppe Lombardi
Dissertação (Mestrado) – UFRJ/ Faculdade de Letras / Programa de Letras neolatinas, 2012.
Referências Bibliográficas: f. 185-192.
1. Primo Levi. 2. Se questo è un uomo 3. Narrativa
Italiana – sec. XX. 4. Auschwitz 5. Babel I. Lombardi, Andrea Giuseppe. II. Universidade Federal do Rio de
Janeiro, Letras Neolatinas. III. A língua que salva. Babel e
BASEVI, Anna. A língua que salva. Babel e literatura em Primo Levi. Rio de Janeiro: UFRJ, Faculdade de Letras, 2012. Dissertação de Mestrado em Literatura Italiana. Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas, opção Literatura Italiana.
RESUMO
Este trabalho tem como objetivo investigar a representação do campo de extermínio através da metáfora da Babel na obra É isto um homem? (1947) de Primo Levi (1919-1987) e a relação do escritor com sua língua materna, com as línguas estrangeiras e com o ato da escrita. A pesquisa desenvolve-se à luz de sua produção literária e testemunhal e em torno de alguns eixos temáticos: a impossibilidade de
representar o “indizível” e as aporias que caracterizam a condição de testemunha; Babel, exílio linguístico e Heimat; metáforas e estratégias estilísticas que o escritor utiliza para representar e superar a incomunicabilidade. Tomando O monolinguismo do outro de Jacques Derrida como ponto de apoio teórico é possível salientar as fraturas, as lacunas, as ambivalências que surgem quando a linguagem atravessa a catástrofe.
BASEVI, Anna. A língua que salva. Babel e literatura em Primo Levi. Rio de Janeiro: UFRJ, Faculdade de Letras, 2012. Dissertação de Mestrado em Literatura Italiana. Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas, opção Literatura Italiana.
RIASSUNTO
La presente tesi si pone come obiettivo l´indagine della rappresentazione del campo di sterminio attraverso la metafora di Babele, nell´opera Se questo è un uomo (1947) di Primo Levi (1919-1987) e l´approfondimento del rapporto dello scrittore com la sua lingua materna, le lingue straniere e la scrittura. La ricerca si sviluppa alla luce della produzione letteraria di testimonianza e lungo tre linee tematiche: l´impossibilità di
rappresentare l´ “indicibile” e le aporie che
caratterizzano la condizione di testimone; Babele, esilio lingustico e Heimat; metafore e strategie stilistiche che lo scrittore utilizza per rappresentare e superare l´incomunicabilità. Prendendo come riferimento teorico Il monolinguismo dell´altro di Jacques Derrida è possibile evidenziare la distanza o l´identificazione con la madrelingua, le fratture, le lacune e le ambivalenze che sorgono quando il linguaggio attraversa la catastrofe.
BASEVI, Anna. A língua que salva. Babel e literatura em Primo Levi. Rio de Janeiro: UFRJ, Faculdade de Letras, 2012. Dissertação de Mestrado em Literatura Italiana. Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas, opção Literatura Italiana.
ABSTRACT
In this thesis, I explore the representation of the extermination camp through the metaphor of Babel in Primo Levi first book "If This Is a Man" (1947). I also analyze
Levi‟s relation to his mother tongue, to
foreign languages and to writing. This research unfolded in the broader context of testimonial literature and is articulated through three themes: the impossibility of representation and the unique condition of the witness; Babel, the linguistic exile and
the Heimat; metaphor and linguistic
strategies aimed at overcoming
incommunicability. Finally, within the theoretic frame of Jacques Derrida‟s
“Monolinguism of the Other,” I will identify
and discuss the fractures, voids and ambivalences that emerge in language after a catastrophe.
AGRADECIMENTOS
Ao meu orientador, Andrea Lombardi, pelo estímulo inicial a começar o curso de Mestrado e pelo incentivo a dar sempre o melhor de si e a participar de maneira ativa, pela coerência ética e o rigor intelectual, pela constante disponibilidade e o acesso a vários livros fundamentais;
Ao CNPq, pela Bolsa que me permitiu maior dedicação e uma participação produtiva a colóquios, simpósios e congressos;
A Jacqueline Castro pela prestativa, pontual e mais do que generosa revisão do português;
A Natalia Indrimi, do Primo Levi Center de New York;
A Domenico Scarpa, pela extrema gentileza com a qual me possibilitou o acesso a seu texto;
A Susana Kampff Lages, pelos esclarecimentos de algumas traduções;
Às professoras Doutoras da Banca e externas ao departamento, Flávia Trocoli do departamento de Ciência da Literatura da UFRJ e Rosana Kohl Bines da PUC-Rio, por ter aceito o convite e pelas estimulantes aulas ministradas;
Ao Departamento de Neolatinas e às professoras Annita Gullo e Maria Lizete dos Santos pelo acolhimento; a Sonia Reis pelos tantos esclarecimentos fornecidos sobre funcionamento, prazos e normas;
A Carlinda Fragale P. Nunez por aceitar o convite no papel de suplente;
Aos professores das disciplinas que frequentei onde pude esboçar e desenvolver em parte as principais linhas deste trabalho;
A Tatiana Gandelman, doutoranda interessada em Primo Levi, por ter compartilhado informações, livros e cursos de extensão na UFRJ;
A César Casimiro pela paciente ajuda nas questões da Babel informática, principalmente na decodificação do labirinto-curriculum Sigma;
Ao Istituto Italiano de Cultura com sua biblioteca;
A minha mãe por ter-me enviado de Roma os livros que faltavam;
A Rogério Rosa pelo impecável e imprescindível suporte técnico-tecnológico;
A Edson Dangelo do serviço de Fotocópias da Faculdade de Letras;
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO...10
1. SE A LÍNGUA NÃO TEM PALAVRAS ... ...17
1.1 As aporias da testemunha...24
1.2 A voz dos submersos...31
1.3 O Velho Marinheiro... ...41
1.4 Encontrar as palavras: a literatura ...56
2. A BABEL: EXPERIÊNCIA E REPRESENTAÇÃO ...64
2.1 A Babel de Auschwitz ... ...66
2.2 Aprender, compreender ...80
2.3 Comunicar... ...95
2.4 A língua testemunha da língua ...105
3. LÍNGUA E EXÍLIO ... ...107
3.1 Por umas palavras...107
3.2 L.T.I.: a língua nazificada...111
3.3 A língua do outro: o exílio ...124
3.4 A língua-mátria de Primo Levi ...134
4. ESCREVER OBSCURO, ESCREVER CLARO ...146
4.1 Tradução e a maldição de Babel ...146
4.2 Traduzir no escuro ...148
4.3 Traduzir a língua obscura ... 154
4.4 O escrever claro ...158
OBSERVAÇÕES CONCLUSIVAS...181
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...185
INTRODUÇÃO
Primo Levi afirmou-se ao longo dos anos como o principal escritor italiano testemunha
da experiência do Lager nazista, embora sua produção se estenda para além do tema da
Shoah. 1 Ao retornar em pátria, depois de um ano transcorrido no campo de extermínio de
Auschwitz, Levi sentiu a urgência de contar a experiência e em 1947 terminou de
escrever sua primeira obra narrativa. No início a recepção não foi imediata. Mesmo num
meio antifascista, como era o caso dos responsáveis da engajada editora Einaudi o livro
foi recusado em 1947.2 Todavia, uma pequena editora o publicou em tiragem de 2500
cópias, com o título: Se questo è un uomo (É isto um homem?)3 Enquanto isso, Levi
prosseguiu em sua carreira de químico. Somente após mais de dez anos, em 1958, a
editora Einaudi adquiriu os direitos e publicou novamente o livro (e toda a obra de Levi
até hoje). Nesta edição, que é a definitiva, Levi remanejou parcialmente o texto,
principalmente com acréscimos, inserindo também um capítulo inteiro e o Prefácio. 4
A escrita de Levi se impôs a um público maior em 1963, quando sua segunda obra, A
trégua obteve o prestigioso prêmio literário Campiello que o consagrou definitivamente
1
Em 1943, quando a Itália assinou o armistício com os Anglo-americanos e foi invadida pelas tropas alemãs, Primo Levi, recém formado em química, foi combater contra o nazi-fascismo junto aos partigiani da organização Giustizia e Libertà. O grupo ao qual pertencia, porém, foi preso e ele, por ser de origem judaica, foi levado ao campo italiano de Fossoli e em seguida deportado a Auschwitz, onde permaneceu de fevereiro 1944 até a libertação pelo Exército Soviético em janeiro de 1945. Sua sobrevivência foi possível graças a várias circunstâncias encadeadas de maneira “favorável”: a deportação “tardia”; a declaração de ser um químico; o encontro, na fábrica onde trabalhava, com um operário italiano de uma categoria
“privilegiada” que lhe repassou diariamente, apesar do risco, preciosos pedaços de pão; o ingresso num laboratório de química no final de 1944, que lhe permitiu resistir num ambiente menos frio e com mais possibilidades de se alimentar; e, enfim, uma doença não fatal na hora certa, que fez com que, em pleno inverno, no momento da fuga dos alemães que levaram os prisioneiros nas famosas “marchas da morte”, ele permanecesse na enfermaria, sem mais o pavor das seleções que periodicamente condenavam os doentes, conseguindo sobreviver até a chegada dos soldados soviéticos.
2
Na editora trabalhavam ou colaboravam escritores como Cesare Pavese, Italo Calvino, Elio Vittorini, Natalia Ginzburg, entre outros.
3 LEVI, Primo. Se questo è um uomo. Torino: Einaudi, 1997. A edição brasileira é: É isto um homem? Rio de Janeiro: Rocco, 1988, tradução de Luigi Del Re. No texto, por praticidade usaremos a sigla SQU para nos referir ao corpus do nosso trabalho e, nas notas, à edição italiana.
4
O histórico da edição definitiva Einaudi é delineado pelo editor Giulio Einaudi em “Primo Levi e la casa
como escritor. Nesta época, o contexto também já havia mudado: em 1961 ocorrera o
processo contra Adolf Eichmann, o qual - graças também à obra de Hannah Arendt, A
banalidade do mal -, representou um marco e um divisor na história do testemunho
dando início a uma renovada atenção aos relatos dos sobreviventes,
Paralelamente à profissão de químico - sua ocupação principal até a aposentadoria -
Primo Levi se dedicou seja à literatura, seja ao testemunho oral em entrevistas, debates e
encontros nas escolas. Entre as obras concernentes aos campos de extermínio, além dos
títulos já citados, ele nos deixou vários contos e um importante ensaio que foi sua última
publicação, em 1986: I sommersi e i salvati (Os afogados e os sobreviventes).
A coexistência de atividade literária e a profissão de químico condensa-se na
auto-definição portadora de uma eterna duplicidade: “Sou um anfíbio, um centauro”5, escritor
“pela metade” e a imagem do homem-cavalo torna-se protagonista do conto “Quaestio
centauris”, fábula pertencente às “Histórias naturais”. A importância da metáfora mitológica foi detectada por Marco Belpoliti que vislumbrou na ruptura da união de
instinto e racionalidade também outro aspecto: a radicalização da oposição vivenciada
por todo sobrevivente. 6
O nosso ponto de partida é analisar a obra de Levi enquanto obra literária: a figura da
testemunha que pretendemos interrogar não é aquela do sobrevivente que relata, mas da
testemunha que para “dizer” encontra na literatura sua voz. Sem dúvida, “testemunho” e
“autobiografia” constituem tópicos imprescindíveis, pois caracterizam Levi enquanto testemunha. Entretanto, o foco do nosso trabalho será a relação do escritor com o
universo da língua: as línguas com as quais se depara no campo, a língua materna, a
língua escrita com a qual tenta narrar o “indizível”. Observando que o tema em Levi é relevante e não apenas esporádico, quisemos propor e aprofundar a leitura de Se questo è
un uomo através das facetas da língua e da linguagem que o texto apresenta.
5
Entrevista com Edoardo Fadini: Primo Levi si sente scrittore “dimezzato”. In BELPOLITI, Marco (org.) Conversazioni e interviste 1963-1987. Torino: Einaudi, 1997, p. 107. Levi segue dizendo: “Eu estou dividido em duas metades. Uma é a da fábrica, sou um técnico, um químico. A outra se encontra totalmente
desligada da primeira [...] São realmente duas metades do cérebro. É uma divisão paranóica”.[trad. nossa]
A pesquisa se desenvolverá a partir e ao longo de alguns eixos temáticos :
- A língua literária como tentativa de romper a impossibilidade
de “dizer” a experiência traumática do campo de extermínio;
- A Babel, isto é a confusão das línguas no Lager e as estratégias de
sobrevivência e de superação de sua maldição;
- O “escrever claro” como necessidade de diálogo com o leitor e forma de representação do caos, da contradição e dos paradoxos.
O problema da representação em literatura toma um rumo definitivo e drástico a partir do
pós-guerra, justamente no que tange aos horrores dos campos de extermínio nazistas.
Embora sua obra seja consagrada entre os maiores exemplos de uma literatura que tenta
representar a monstruosidade do campo de concentração, Levi, assim como Wiesel,
Semprún, Kertész e outras testemunhas, duvidava da transmissibilidade da experiência.
Muitos sobreviventes preferiram calar e tentar esquecer, ou resolveram testemunhar
somente bem mais tarde (como, por exemplo, Semprún). De fato, tanto no início das
perseguições quanto no pós-guerra, conseguir algum tipo de escuta e atenção revelou-se
árduo. Mesmo os sobreviventes que ainda atrás do arame farpado já vislumbravam no
testemunho futuro motivos para sobreviver, se depararam com o duplo problema de
encontrar os ouvintes e as palavras para contar. Acreditamos que a literatura teve um
grande papel na representação dos campos de extermínio e vários escritores encontraram
nela a possibilidade de narrar de maneira mais eficaz uma realidade inimaginável. A
condição paradoxal de testemunha demonstra-se central na construção da expressão
literária, motivando-a e sendo por sua vez tematizada. A ausência da testemunha integral,
é retomada por Giorgio Agamben em Quel che resta di Auschwitz (O que resta de
Auschwitz), a partir do próprio Levi, como o centro de uma reflexão que ressalta a difícil
tarefa do sobrevivente e requestiona a possibilidade de testemunhar pelos “submersos”,
personagem de Hurbinek – pertencente ao livro A trégua – cuja ánalise nos levou, ao longo do trabalho, a uma proposta interpretativa.7
Ao longo da pesquisa, em vários momentos veremos como a literatura, para Levi,
torna-se tentativa de ruptura da “irrepresentabilidade” e, atravessando as aporias e os vácuos, os traz à tona dando conta das ambivalências e do inconciliável.
O desenvolvimento central do trabalho visa focar o tema da Babel e do exílio linguístico.
No segundo capítulo aborda-se detalhadamente a Babel de Auschwitz, assim como é
descrita e representada em SQU. Através da inserção no texto de inteiras frases ou
diversas expressões nos diferentes idiomas (alemão, polonês, russo, iídische, francês,
húngaro), Levi nos desvela o universo caótico e multilinguístico, onde, contudo, era vital,
comunicar. O autor depara-se com o risco de permanecer na condição fatal de “ surdo-mudo”, e tenta aprender rapidamente o jargão necessário à compreensão mais urgente. A Babel de Auschwitz revela-se um espaço incompreensível dominado pelo “absurdo” onde a sobrevivência segue um percurso labiríntico extremamente complexo. O estranhamento
deriva, tanto da multiplicidade de idiomas desconhecidos, quanto da alteração de
significados na linguagem de um universo revirado, assim como de uma grande
quantidade de códigos, regras e estratégias a serem decifradas e aprendidas.
Entretanto, a realidade multilinguística impunha um aprendizado como etapa da salvação:
aprender as línguas, identificar palavras estrangeiras, códigos de comportamento,
substratos culturais, aguçar a inteligência, nutrir a curiosidade de conhecimento que nos
mantém humanos. No Lager, a busca pela comunicação relatada por Levi consistiu,
então, em atos concretos como contar lembranças, trocar experiências, traduzir frases,
recordar versos, transmitir sentimentos e idéias, e até mesmo o gesto proibido de
escrever uma carta. O “Canto de Ulisses” (título de um dos capítulos de SQU) constitui um centro temático particularmente interessante pelo esforço, por parte do narrador, de
traduzir os versos de Dante para o francês (para um companheiro alsaciano), que se
revela cheio de lacunas. Ao mesmo tempo, o capítulo representa uma serrada resistência
7
Embora nosso corpus seja É isto um homem?, os primeiros capítulos de A trégua representam o final da experiência concentracionária, após a chegada do Exército Soviético e antes da saída do Campo. A personagem de Hurbinek, portanto, pertence à representação de Auschwitz. Cf. Cap.1, par. 1.2 “A voz dos
ao naufrágio através da cultura e da reapropriação da própria língua na sua expressão
mais originária e poética. Retomaremos esta hipótese no quarto capítulo.
Uma vez delineado o universo babélico conforme é representado em SQU, o terceiro
capítulo detém-se na condição de exílio linguístico dos escritores sobreviventes de língua
alemã, condição peculiar devido à cesura gerada quando a própria língua vem a coincidir
com o alemão do nazismo. Esta língua “nazificada”, intoxicada, é analisada por Victor Klemperer em LTI. Notizbuch eines Philologen (LTI. A linguagem do terceiro Reich)
(1947), e ainda descrita por Levi em Os afogados e os sobreviventes. Mas como se
configura a relação entre identidade e língua na narrativa de Levi?
O idioma italiano, ao contrário, se apresenta como uma língua absolutamente minoritária
e externa à estrutura hierárquica do campo, permanecendo unicamente como a língua da
pátria, da família, dos amigos, da vida de antes, e, portanto, preservada das ambivalências
que levaram os judeus de língua alemã a vivenciar uma espécie de exílio na própria
pátria, também do ponto de vista linguístico. Porém, Auschwitz revela-se o território do
Unheimliche por excelência, tanto para os germanófonos quanto para os outros. A esta
altura, o conceito de exílio linguístico encontra em Le monolinguisme de l´autre (O
monolinguismo do outro) de Jacques Derrida um interessante suporte que aponta para
uma condição de estranhamento própria a todas as línguas e a diversas situações. A
perspectiva psicanalítica de A Babel do inconsciente, de Amati-Mehler, Argentieri e
Canestri, traz outras interrogações sobre as consequências do multilinguismo quando este
se configura como uma Babel interior.
Enfim, na nossa leitura de SQU pelo viés da língua observamos, portanto, uma oposição
entre Língua mãe/casa/cultura e Babel/ Lager/ desumanização.
Um último caminho de investigação se apresentou, formando o quarto capítulo: como
superar a maldição da Babel e como a primazia da comunicação – que foi um dos fatores de salvação do prisioneiro Levi - opera na escrita do escritor-testemunha. Veremos que a
tradução, vivenciada no Campo como um ato de interação humana (principalmente no
episódio de “O canto de Ulisses”) torna-se, ao contrário, sede de conflito em relação a O processo de Kafka. Na escrita de Levi a clareza e a precisão constituem eixos de suas
escolhas estilísticas, em oposição à língua obscura e enigmática, atribuída a autores como
reflete a necessidade de estabelecer um diálogo com o leitor, transmitir-lhe a experiência,
encontrar nele alguém que escute e compreenda.
O vínculo do autor com a língua materna se manifesta através da preferência por uma
língua culta, elegante, mas sempre comunicativa que inclui aspectos da narração oral no
que diz respeito às instâncias dialógicas determinadas pela necessidade de testemunhar.
Em torno da figura do oxímoro e de sua centralidade, ilustrada por Pier Vincenzo
Mengaldo, tentaremos aprofundar a relação entre clareza e caos, entre compreensível e
incompreensível, identificando uma das estratégias da escrita que demonstram as
potencialidades da literatura frente ao “indizível”.
Em suma, aprender línguas, interação, tradução, mas também escolhas estilísticas
constituem atos de resistência à aniquilação, à afasia, à impotência comunicativa, que se
entrelaçam na construção do testemunho como narração literária possível.
Um breve esclarecimento sobre a escolha do vocabulário relativo ao campo de extermínio
torna-se pertinente.
Preferi usar Shoah a Holocausto, seguindo a observação de muitos autores de que
Holocausto contém uma idéia de sacrifício e oferta no altar - embora pessoalmente tenha
crescido nos anos do seriado “Holocausto” e do uso deste vocábulo, sendo, portanto, esta a palavra que, para mim, carregaria o som mais espantoso e catastrófico.
Utilizei frequentemente, ao lado da palavra “Campo”, o termoLager, presente na obra de Levi (e comumente na Itália) embora seja pouco frequente no Brasil, pelo menos fora das
áreas especializadas. Embora a própria palavra alemã soe genérica - pois para campo de
extermínio onde o autor permaneceu o termo exato seria Vernichtungslager (Campos dos
Judeus) assim como está arraigada a tendência a usar indiferentemente o mais genérico
“campo de concentração” e o mais específico “ campo de extermínio” -, creio que a palavra Lager revele algo mais da especificidade do evento em questão. Da mesma
forma, Kapo ou Block levam diretamente no coração do jargão do Campo, sendo todos
Por razões similares, mas também por outra específica, prefiro manter o termo alemão
Muselmann distinto de suas traduções que pessoalmente considero carregadas de
confusões constrangedoras, 8 a não ser que sejam usadas pelos sobreviventes.
Em geral, os termos alemães (assim como em outros idiomas) contribuem para a
representação da Babel, e sua tradução numa obra narrativa diminuiria o impacto do caos
linguístico.
Outras questões mais específicas concernentes à tradução brasileira de SQU (e
eventualmente de trechos de outras obras) serão ressaltadas pontualmente em notas.
Entretanto mereceriam um discurso e um estudo à parte, mais minuciosamente dedicado
a uma nova proposta.
Enfim, estou consciente de que o nome de “Auschwitz” sintetiza e absorve muitas
realidades distintas dos vários campos de extermínio e de concentração. Contudo, quando
não se refere apenas ao lugar concreto e à obra de Levi, seguiremos uma tendência geral
cujo eventual questionamento não interfere nas reflexões deste trabalho.
8 Uma nota de Jeanne Marie Gagnebin explicita o mal-estar relativamente à palavra “muçulmano” usada
para indicar os “mortos-vivos”, os Muselmänner do Lager. “A etimologia dessa expressão “muçulmano” é obscura; da minha parte não consigo não ouvir, em todas laboriosas explicações, como que uma certa
desforra de caráter racista na boca das vítimas do antissemitismo.” (Apresentação de Jeanne Marie
1. SE A LÍNGUA NÃO TEM PALAVRAS
Contar e representar uma experiência extrema pareceu, depois dos crimes nazistas, ao
mesmo tempo imprescindível e impossível. A própria impotência da linguagem tornou-se
um topos da ensaística e da crítica literária.
De fato, testemunhas e escritores sobreviventes afirmaram com frequência a
impossibilidade de dizer ou representar a experiência dos campos de extermínio.
Na sua narração, há um momento em que Levi se depara com uma sensação de
incapacidade expressiva: “a nossa língua não tem palavras para expressar esta ofensa, a
aniquilação de um homem”. 9
As palavras de Elie Wiesel também sintetizam a experiência coletiva dos sobreviventes:
“Eu tinha coisas demais a dizer, mas não as palavras para dizê-las. Consciente da pobreza dos meus meios, eu via a linguagem transformar-se em obstáculo. Dever-se-ia inventar
outra linguagem.” 10
Levi explica como palavras corriqueiras não se referem a significados idênticos quando
se fala do Campo: “Dizemos ´fome´, dizemos ´cansaço´, ´medo´ e ´dor´, dizemos ´inverno´, mas trata-se de outras coisas. Aquelas são palavras livres, criadas, usadas por
homens livres.”11
A distância gerada pela divaricação de significados a partir de um
mesmo significante dificulta a comunicação e requestiona a eficácia da linguagem.
Jeanne Marie Gagnebin sublinha como a questão da representação se impõe em novos
termos a partir da literatura de testemunho:
Esse mal-estar diante da imagem “imediata”, que não se consegue verdadeiramente ver, retoma um dos mais frequentes motivos evocados por testemunhas da Shoah ou de outros genocídios: o da
irrepresentabilidade do mal. [...] É, pois, nessa reflexão sobre a “literatura dos campos” que irrompe o problema maior da representação do horror.12
9
LEVI, Primo. É isto um homem ? Rio de Janeiro: Rocco editora, 1988, p.24
10 Prefácio do autor a: WIESEL Elie, La nuit. Paris: Les éditions de minuit, 2007, p. 12, trad. nossa 11 LEVI, p. 125. Por praticidade, a partir de agora, quando constar apenas a página sem outra indicação, a citação refere-se à obra em questão de Primo Levi, É isto um homem? , na tradução brasileira acima citada.
A testemunha que sente a necessidade de contar o horror vivido esbarra numa aporia: a
urgência de testemunhar e a sensação de uma impossibilidade; impossibilidade
determinada pela limitação da linguagem e pelo fato dos acontecimentos serem
inacreditáveis, no sentido literal como pressentia o prisioneiro: “se falarmos, não nos
escutarão – e, se nos escutarem, não nos compreenderão.” 13
Como aprofundaremos mais adiante, a dificuldade de ser escutado é outro desdobramento
temático presente em vários testemunhos, principalmente até o Processo Eichmann
(1961), quando a reflexão sobre estes temas começou a ganhar destaque (graças também,
como já mencionamos, à conhecida análise de Hannah Arendt, A banalidade do mal).
Segundo Annette Wieviorka, pesquisadora francesa especializada na história dos Judeus
do séc. XX e da Shoah, o processo contra Adolf Eichmann marca o “advento da
testemunha”, isto é uma virada para a escuta das testemunhas sobre os crimes nazistas, reavivando a necessidade de questionar a relação entre história e justiça e entre história e
testemunho.
A obra da historiadora tornou-se referência no assunto da “testemunha”, com a relativa classificação das diferentes épocas pós-guerra caracterizadas pela reformulação da figura
da testemunha e da construção, manutenção e organização da memória. 14
A abrangência da linguagem humana, a “representabilidade” e o conceito de realidade são colocados em cheque a partir da Shoah, o evento-limite, ou o “trauma da civilização
européia”, segundo as palavras de Kertész, escritor húngaro sobrevivente de Auschwitz, e
prêmio Nobel 2002. Numa conferência de 2000 ele acrescenta que “será uma questão vital dessa civilização se ele seguirá vivendo nas sociedades européias na forma de
cultura ou neurose, de criação ou destruição.” 15
Wieviorka identifica o surgimento de uma referência paradigmática da qual nem a
história nem a narração de fatos contemporâneos podem prescindir:
13 LEVI, p.25 14
WIEVIORKA, Annette. L´era del testimone. Milano: Raffaello Cortina, 1999.
a memória da Shoah tornou-se, bem ou mal, o modelo da construção da memória, o paradigma de
referência em quase toda parte para analisar o passado ou tentar instalar as bases da futura
narração histórica no âmago de um fato histórico que acontece sob os nossos olhos [...] 16. [trad.nossa da edição italiana]
Cabe aqui especificar que muitas das reflexões das últimas décadas decorrem desta
premissa: que a Shoah é um fato pertencente à história ocidental, senão humana, e não
somente ao judaísmo, enquanto durante e depois da guerra a visão do extermínio ainda
apresentava-se limitada. Entretanto, Adorno e Horkheimer já haviam traçado o percurso
de sua Dialética do Esclarecimento, em 1944, e de sua crítica às bases culturais do
Ocidente considerando a centralidade do evento e assinalando, através do mesmo, uma
autodestruição da razão. No mesmo ano, Hannah Arendt identificou na teoria e prática
nazistas fatos que superavam a imaginação e abalavam as categorias do pensamento até
definir, dois anos mais tarde, as “fábricas de morte” como “a experiência central de nossa
época” 17
. Enzo Traverso repercorre as etapas do pensamento dos intelectuais sobre o
evento sintetizado na palavra “Auschwitz”, começando justamente pelo grupo de alemães emigrados nos Estados Unidos (Adorno, Horkheimer, Arendt etc.). Segundo Traverso,
sua condição peculiar de judeus assimilados, exilados, apólides (Heimatlos) e outsiders
lhes permite uma perspectiva distanciada e, ao mesmo tempo, antecipadora que os torna
“avistadores de incêndios”, segundo a expressão que o autor retoma de Walter Benjamin. A partir de então,
os campos de extermínio não podiam mais ser reduzidos a um acidente de percurso, mesmo grave
[...] Apareciam como um produto legítimo e autêntico da civilização ocidental, desvelando seu lado
obscuro e destrutivo, a racionalidade posta a serviço do massacre. Segundo Hannah Arendt,
Auschwitz constituía “ uma ruptura quase total [an almost complete break] no fluxo ininterrupto da história ocidental tal como os homens a conheceram durante mais de dois milênios”. Dito de outra forma, Auschwitz recolocava em questão o próprio conceito de civilização: a barbárie não era a
16
WIEVIORKA, L‟era del testimone, p. 16
antítese da civilização moderna, técnica e industrial, mas sua face oculta, seu avesso dialético.18 [tradução nossa]
A fundação de uma nova visão a partir de Auschwitz - símbolo e realidade que condensa
todas as realidades dos Campos – se expressa na reconsideração da história e da cultura humana sob a luz negra do extermínio. Os títulos de livros como Se questo è un uomo
(literalmente: “se esseé um homem”) 19, como L´éspèce humaine (A espécie humana, de Robert Antelme)20, ou Menschen in Auschwitz (Homens em Auschwitz, de Hermann
Langbein) já sugerem um repensar a categoria “homo” ou uma reclassificação histórica como também busca George Steiner na expressão “homo sapiens pós- Auschwitz”21 E mesmo que, no caso de Levi, o título tenha sido uma escolha da editora, ele é tirado da
epígrafe que sugere o questionamento:
Vocês que vivem seguros/em suas cálidas casas,/vocês que, voltando á noite, encontram comida
quente e rostos amigos,/ pensem bem se isto é um homem/que trabalha no meio do barro,/ que não
conhece paz,/ que luta por um pedaço de pão,/ que morre por um sim ou por um não./ Pensem bem
se isto é uma mulher,/ sem cabelos e sem nome,/ sem mais força para lembrar,/ vazios os olhos, frio
o ventre,/ como um sapo no inverno. [...] 22 [o grifo é nosso]
A idéia de título do escritor era, de fato, I sommersi e i salvati, que em SQU permanece
como título de um capítulo. As categorias de “afogados” ou “submersos” e de
“sobreviventes”ou “salvos”23
concernem, de igual maneira, à reconsideração das
18 Ibid., p. 37
19 Em muitas línguas européias foi mantida a hipótese do “Se”; em Portugal, foi traduzido: Se é isto um homem.
20 Giorgio Agamben não deixa de notar a concomitância conceitual e temporal dos dois títulos: “Chama a atenção que os testemunhos de Levi e Antelme, publicados no mesmo ano (1947), pareçam dialogar ironicamente entre si a partir dos títulos [...] É realmente isso que se deve ´considerar´ [...] Qual é o
sentimento último de pertença à espécie humana?” (AGAMBEN. O que resta de Auschwitz, p.65-66). Acrescentamos que sempre em 1946 David Rousset publicou seu testemunho de deportado político
“L´univers concentracionnaire”, introduzindo a expressão e o conceito de “universo concentracionário”.
21 STEINER, George. Linguaggio e silenzio. Milano: Garzanti, 2006, p. 177
22
A epígrafe completa encontra-se na p.137 deste trabalho
23 Enquanto no capítulo de É isto um homem? a tradução de “I sommersi e i salvati” é “Os submersos e os
classificações internas à espécie humana. Elas não apenas indicam uma divisão entre as
únicas duas tipologias fixas de seres humanos dentro do Campo, mas também marcam
uma etapa diferente e inquietante da humanidade.
Há um fato que nos parece notável. Resulta claro que entre os homens existem duas categorias,
particularmente bem definidas: a dos que se salvam e a dos que afundam. Outros pares de contrário
(os bons e os maus, os sábios e os tolos, os covardes e os valentes, os azarados e os afortunados) são
bem menos definidos, parecem menos congênitos e, principalmente, admitem gradações
intermediárias mais numerosas e complexas.24
O título “I sommersi e i salvati”(Os afogados e os sobreviventes) será retomado por Levi para seu ensaio de 1986. Nesta última obra, a necessidade de voltar ao tema do
Lager é alimentada pela exigência de reafirmar, frente ao revisionismo crescente, a
dimensão do extermínio nazista como um “unicum” na história da humanidade e sua posição central no século XX. Imre Kertész, por sua vez, considera “kitsch”25 a idéia segundo a qual o Holocausto (palavra que ele usa ciente de sua limitação) seria um fato
concernente apenas aos interessados, um conflito exclusivamente judaico-alemão, pois
deve ser considerado, ao contrário, uma experiência do mundo, “um acontecimento universal”.26 Esta posição é esclarecida em diversos ensaios e palestras reunidos em A língua exilada, onde o autor já considera a questão judaica como um problema de
consciência européia e conclui:
A meu ver, não diminuímos nem ofendemos a tragédia do judaísmo se hoje, passadas mais de
cinco décadas, considerarmos o Holocausto um trauma europeu. Afinal, Auschwitz não aconteceu
num vácuo, mas nos limites da cultura, da civilização ocidental, e essa civilização é sobrevivente
de Auschwitz [...].27
24 LEVI, p.89
25 KERTÉSZ, A quem pertence Auschwitz? Op.cit, p.176 26 Ibid., p.58 (Uma sombra longa, escura)
27
Giorgio Agamben fala de “lição decisiva do século”28
e Shoshana Felman de “século pós-traumático”29: o nosso tempo estaria incumbido de uma nova tarefa de redefinição que inevitavelmente atinge também a literatura e que brota da presença da aporia de
Auschwitz, como é formulada pelo próprio Agamben: “fatos tão reais, os únicos reais para o sobrevivente e ao mesmo tempo inimagináveis”.
Márcio Seligmann-Silva segue na questão da impossibilidade, reafirmando o caráter da
Shoah como paradigma da catástrofe que define o século XX e que rompe com a
concepção anterior de representação:
Com a nova definição da realidade como catástrofe, a representação vista na sua forma
tradicional, passa ela mesma, aos poucos, a ser tratada como impossível; o elemento universal da
linguagem é posto em questão tanto quanto a possibilidade de uma intuição imediata da
“realidade”. Essa condenação da representação nos seus moldes tradicionais, deu-se não sem ambiguidades: ora exigiu a passagem do discursivo para o imagético, ou seja, da palavra para a
imagem, ora seus adeptos defenderam uma descrição realista dos fatos – novamente nos moldes tradicionais . No centro da discussão localiza-se – como um poderoso buraco negro – a Shoah. Esse evento-limite, a catástrofe por excelência da Humanidade e que já se transformou no
definiens do nosso século, reorganiza toda a reflexão sobre o real e sobre a possibilidade da sua
representação. Busca-se agora uma nova concepção de representação que permita a inclusão desse
evento. 30
Se na história e na cultura ocidental contemporânea a realidade acaba coincidindo com a
catástrofe, por consequência a linguagem, a compreensão e a representação precisam se
remodelar em função de uma nova percepção.
É o que ressalta Geoffrey Hartman ao citar o comentário de Maurice Blanchot sobre a
perda por parte da linguagem de suas bases de apoio e referindo-se ao texto do pensador
francês, L´écriture du désastre. “O discurso é ameaçado em sua origem”, acrescenta
Hartman, “não devido à sua inabilidade técnica de representar o que ocorreu, ma porque
28 AGAMBEN, O que resta de Auschwitz, p.20.
29 FELMAN, Shoshana. Educação e crise ou as vicissitudes do ensinar. In NESTROVSKI, SELIGMANN-SILVA [org.]. Catástrofe e representação. São Paulo: Editora escuta, 2000, p.13
algo deixou a nossa voz, uma inocência (´a felicidade de falar´) conservada em tempos
anteriores, apesar de tudo. O próprio desejo de falar está em risco.”31
Segundo Seligmann-Silva já com Barthes e Derrida houvera uma virada dos modelos
tradicionais de representação, pois o conhecimento, para o pós-estruturalismo, se dá no
interior dos fatos linguísticos, ou seja, não há fatos extralinguísticos.32 Em outras palavras
a realidade não é mais separada de sua representação.
Todavia, a Shoah constitui um evento “superlativo”, ou o “real” por excelência, e este
surplus, este excedente escapa à representação33, assim como o evento traumático não
consegue ser assimilado, segundo uma das primeiras formulações de Freud:
uma experiência que, em curto período de tempo, aporta à mente um acréscimo de estímulo
excessivamente poderoso para ser m a n e j a d o o u e l a b o r a d o d e m a n e i r a n o r m a l
[ . . . ] Assim, a neurose poderia equivaler a uma doença traumática, e apareceria em
virtude da incapacidade de lidar com uma experiência cujo tom afetivo fosse
excessivamente intenso. Na verdade, foi esta realmente a primeira fórmula pela qual (em 1893 e
1895) Breuer e eu explicamos teoricamente nossas observações. 34
A leitura da realidade e a linguagem que a torna efetiva carecem de meios de absorção e
elaboração de um evento extremo. O testemunho, afirma Shoshana Felman, “não oferece, um discurso completo, um relato totalizador desses eventos.” Mas sendo o testemunho
“uma prática discursiva”, “um ato de fala”, possui outras potencialidades e recursos: “no
31 HARTMAN, Geoffrey. Holocausto, testemunho, arte e trauma., ibid., p.230 32 SELIGMANN-SILVA, A história como trauma, op.cit., p. 76
33 Ibid., pp.77-78 34
FREUD, Sigmund. Conferências Introdutórias sobre Psicanálise (1916-1917), parte III –
testemunho a linguagem está em processo e em julgamento, ela não possui a si mesma
como uma conclusão, constatação de um veredicto”.35
O veredicto (do latim vere-dictum, “o que diz a verdade”), que é justamente a resposta definitiva dos jurados sobre um fato a ser julgado, estaria, no nível da testemunha, por
assim dizer suspenso, enquanto a linguagem se esforçaria em medir o próprio alcance.
.
1.1 As aporias da testemunha
A impossibilidade de representar a desumanização nazista parece decorrer da
impossibilidade de imaginar e contar o evento a partir das limitações da linguagem, mas,
antes do próprio pensamento que funciona através da simbolização da linguagem, Primo
Levi sublinha a dependência direta entre linguagem e pensamento: “Se você tem a sorte
de encontrar a seu lado alguém com quem tenha uma língua comum, tanto melhor:
poderá trocar impressões, aconselhar-se, desafogar-se; se não encontra ninguém, a língua
se lhe esvai em poucos dias, e, com a língua, o pensamento.”36
Não representável, então,
por não ser imaginável, por ser impensável.
O comentário de Renato Lessa também salienta este ponto:
seria uma simplificação supor que o colapso da linguagem deve-se apenas ao caráter inédito dos
fenômenos inauditos do Campo. [...] O que se afigura na experiência do Campo é antes a
inutilidade do pensamento e, por extensão, da linguagem que o supõe. 37
Deve-se a Levi a introdução do tema de outro impasse: somente a testemunha “integral” poderia dizer de maneira completa a descida até o fundo do inferno nazista:
35
FELMAN, Educação e crise, op. cit., p.18
36 LEVI, Primo. Os afogados e os sobreviventes. S.Paulo: Paz e terra, 2004, p.81. Observe-se que em italiano a imagem final é de ressecamento: “ la lingua ti si secca in pochi giorni, e con la lingua il pensiero” (LEVI, I sommersi e i salvati. Torino: Einaudi, 2007, p. 72).
37
Não somos nós, os sobreviventes, as autênticas testemunhas.[...] Nós sobreviventes somos uma
minoria anômala além de exígua: somos aqueles que, por prevaricação, habilidade ou sorte, não
tocamos o fundo. Quem o fez, quem fitou a Górgona, não voltou para contar, ou voltou mudo; mas
são eles, os “muçulmanos”, os que submergiram – são eles as testemunhas integrais, cujo depoimento teria um significado geral. 38
O escritor parte de uma vivência concreta, expressa uma sensação de impotência e alerta
sobre uma parte de testemunho que ficará sem voz. Este silêncio gritante denuncia o
fundo negro de Auschwitz e ao mesmo tempo coloca o sobrevivente numa condição
paradoxal. O “paradoxo de Levi”, como o definiu Giorgio Agamben39
, origina-se da
dupla natureza da sobrevivência ao extermínio. Escapar à câmara de gás ou a outro tipo
de morte como único desfecho determinado pelos nazistas possibilitou o testemunho,
que, por sua vez, carece da voz daqueles que “acompanharam a descida até o fim”40
. Por
razões ainda não esclarecidas, os indivíduos que já demonstravam uma resignação fatal
eram chamados, na gíria do Lager, Muselmann, Muselmänner (literalmente “muçulmano, muçulmanos”)41. A partir do momento em que para sucumbir era suficiente “executar cada ordem recebida, comer apenas a ração, obedecer à disciplina do trabalho e do
Campo”, pois deste modo não se sobrevivia mais de três meses, os Muselmänner têm, diz Levi, um final parecido:
eles foram esmagados antes de conseguir adaptar-se; ficaram para trás, nem começaram a aprender o
alemão e a perceber alguma coisa no emaranhado infernal de leis e proibições, a não ser quando seu
corpo já desmoronara e nada mais poderia salvá-los da seleção ou da morte por esgotamento. A sua
vida é curta, mas seu número é imenso; são eles, os “muçulmanos”, os submersos, são eles a força
do Campo: a multidão anônima, continuamente renovada e sempre igual, dos não-homens que
marcham e se esforçam em silêncio; já se apagou neles a centelha divina, já estão tão vazios, que
38 LEVI, Os afogados e os sobreviventes, p. 72 39 AGAMBEN, O que resta de Auschwitz., p.151 40 LEVI, p. 91
nem podem realmente sofrer. Hesita-se em chamá-los vivos; hesita-se em chamar “morte” à sua morte, que eles já nem temem, porque estão esgotados demais para compreendê-la.42
A presença do Muselmann denuncia, em Wiesel, a ameaça constante da seleção: “E logo circulou uma palavra terrível: seleção. Sabíamos o que aquilo queria dizer. Um SS ia nos
examinar. Quando encontrasse um fraco, um “muçulmano”, como dizíamos, anotaria seu número: bom para o crematório” 43
Levi conclui sua descrição do Muselmannidentificando nestes “submersos sem história” a imagem mais eloquente da era pós-Auschwitz:
Eles povoam minha história com sua presença sem rosto, e se eu pudesse concentrar numa imagem
todo o mal do nosso tempo, escolheria essa imagem que me é familiar: um homem macilento,
cabisbaixo, de ombro curvados, em cujo rosto, em cujo olhar, não se possa ler o menor
pensamento.44
Agamben escolhe este ponto para tecer sua reflexão filosófica centrada na condição
aporética da testemunha: a ausência da testemunha integral - que coincide com o que foi
chamado “muçulmano”, que daria conta do horror, mas não sobreviveu – condena o testemunho possível a carregar uma impossibilidade, e esta dualidade, de impotência e
potência de dizer, impõe ao sujeito do testemunho uma cisão constitutiva. Portanto, a
dificuldade reside na própria “estrutura do testemunho”, pois “quem assume para si o ônus de testemunhar por eles [pelos submersos] sabe que deve testemunhar pela
impossibilidade de testemunhar”.45
Portanto, adverte Agamben, nossa tarefa será também
paradoxal: escutar o não-dito.
Todavia o filosofo italiano alerta sobre o abuso da idéia de “indizível” e esclarece que o
indizível permanece atrelado à unicidade de Auschwitz e, portanto, à aporia com a qual
se depara a testemunha entre possibilidade e impossibilidade de testemunhar. Ele se
42 Ibidem
43 WIESEL, Elie. A noite. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001, p. 99 44 LEVI, p. 91
abstém de atribuir toda a impotência à linguagem, pois isso significaria a condenação ao
silêncio e, afinal, a realização do projeto nazista:
Os que reivindicam, hoje, a impossibilidade de dizer Auschwitz, deveriam ter cautela nas
afirmações. [...] Se, conjugando “unicidade” e “indizibilidade”, fazem de Auschwitz uma
realidade absolutamente separada da linguagem, se cortam, no “muçulmano”, a relação entre
impossibilidade e possibilidade de dizer que constitui o testemunho, então eles repetem
inconscientemente o gesto dos nazistas, são secretamente solidários com o “arcanum imperii”. 46
Além disso, afirmar que Auschwitz é ´indizível´ equivaleria a “atribuir ao extermínio o
prestígio da mística”47, a “adorá
-lo em silêncio, como se faz com um deus.”48
Portanto, o que cabe à testemunha e o que resta à linguagem é a expressão desta
impossibilidade, tomar conhecimento e consciência de um limite nítido e evidente. A
existência desta fronteira ou deste abismo, barreira insuperável entre os sobreviventes e
quem não esteve no Campo, denuncia com toda força o tamanho do horror e do absurdo.
Se não posso contar é porque o que vivi constitui algo além de tudo, algo fora tanto do
humano quanto do natural conhecido, mas também de qualquer imaginação. Aqui
residiria, para Agamben, a “prova” do evento extremo, num raciocínio que talvez precisasse de uma discussão maior, mas que vale a pena incluir como apresentação dos
possíveis desdobramentos da impossibilidade e até dos recursos da linguagem:
Se o sobrevivente dá testemunho, não da câmara de gás ou de Auschwitz, mas pelo muçulmano; se
ele fala apenas a partir de uma impossibilidade de falar, então seu testemunho não pode ser negado.
Auschwitz – de que não é possível dar testemunho – fica provado de modo absoluto e irrefutável.49
A autenticidade adviria, portanto, da assunção da dualidade da testemunha (do
testemunho necessário, mas impossível) e não se inscreveria na ordem do verificável, do
46 AGAMBEN. O que resta de Auschwitz, pp.156-7 47 Ibid. p. 41
48
Ibid., p.42
verídico a ser provado como é o caso de outros fatos que a historiografia de qualquer
modo reconstruiu (Auchwitz, as câmaras de gás).
Segundo Jacques Derrida, o grau de veracidade não depende de um falso ou verdadeiro
testemunho, mas de algo que resiste ao discurso, para o qual é necessário um ato de
confiança e de fé: “Pode-se testemunhar somente o que é inacreditável [...] Esta verdade supõe a veracidade, mesmo em falso testemunho –e não o contrário.”50
Estes aspectos de não-concluso, não- representável, não- dizível permanecem atrelados
ao discurso sobre o horror, mas é a partir disso que o discurso também pode iniciar.
Elie Wiesel expressa a insolubilidade do “gap” entre a testemunha e os outros: “eu não contei algo do meu passado para que vocês o conheçam, mas para que vocês saibam que
nunca o conhecerão.”51
Para Jorge Semprún a experiência irrepresentável é aquela que
pertence à ordem do invivível 52.
Se a realidade do Campo é invivível, como seria possível atravessá-la e ainda viver
depois? Esta pergunta é colocada por Adorno: “De outro lado, não é errado levantar a questão menos cultural se após Auschwitz é possível seguir vivendo e especialmente
para os que escaparam por um acaso e em princípio seriam liquidados.” 53
A este propósito, o título do livro de Ruth Kluger - sobrevivente alemã e testemunha
recente - Weiter Leben (literalmente “Continuar vivendo”)54, sugere uma resposta à pergunta de Adorno acima citada, sublinhando tratar-se da voz de uma sobrevivente que
50
DERRIDA, Jacques. Le monolinguisme de l‟autre. Ou la prothèse d´origine. Paris: Galilée, 1996, p.40-41, tradução nossa.
51
WIESEL apud SELIGMANN- SILVA, A história como trauma, op.cit., p, 79
52
“Pourtant un doute me vient sur la possibilité de raconter. Non pas que l´expérience vécue soit indicible. Elle a été invivable, ce qui est tout autre chose [...]” (SEMPRÚN, Jorge. L‟écriture ou la vie. Paris: Gallimard, 1994, p.25)
53 ADORNO apud GNANI, Paola. Scrivere poesie dopo Auschwitz. Paul Celan e Theodor W.Adorno. Firenze: Giuntina, 2010, p. 148
seguiu vivendo. A autora ainda subverte as considerações sobre a casualidade: não a
sobrevivência, mas Auschwitz foi um acaso, “um acaso monstruoso”.55
Voltando à questão da representação, Seligmann-Silva considera ingênuo afirmar que a
Shoah não pode ser representada através de nenhuma figuração como pretenderia por
exemplo Claude Lanzmann, autor do filme-documentário “Shoah”56, o qual opta por uma ausência de reconstrução histórica e de imagens documentais, atendo-se unicamente ao
presente das falas testemunhais fragmentárias. Seligmann aceita a contradição e a falta de
solução, o que não deixa de ser uma posição precisa e clara:
Eu concordo com a afirmação de Geoffrey Hartman para quem “nós todos somos parte do dilema da segunda geração”pós-Holocausto. Esse dilema consiste, na verdade, num desdobramento daquela estrutura tensa que de um modo geral envolve a representação do Holocausto: a não
solução do conflito entre a necessidade e a impossibilidade da sua representação.57
O indizível, ainda disse George Perec – afetado pela Shoah por causa da perda dos pais –
“não se esconde na escrita, mas desencadeia o processo dela.” 58
A literatura, além de tentar descrever, contar e representar, ainda estimula a reflexão
sobre os Campos: Levi, Kertész, Semprún, Antelme, são autores que em suas narrativas
não deixaram de colocar questionamentos importantes, justamente a partir da
possibilidade de representação que neles se tornou premissa e resultado da tentativa de
contar e que envolve, sobretudo, o uso da linguagem para dizer o Lager (que seja
Auschwitz, Buchenwald, Gandersheim, Dachau etc.).
Como num círculo vicioso, o tema que volta constantemente é, de fato, o colapso da
linguagem. Ruth Kluger identifica a causa da impotência da linguagem humana na
finalidade pela qual foi inventada, finalidade evidentemente distante da realidade dos
Campos: “É surpreendente que se tenha tão pouco a dizer justamente a respeito de
55 KLUGER, Paisagens da memória , p. 126
56 SELIGMANN-SILVA, “A história como trauma”, op.cit., p.89 57
Ibid., p. 90
acontecimentos tão extremos. A linguagem humana foi inventada para outros fins.” 59
De
outro lado a autora polemiza com Adorno em relação ao “diktat” sobre não fazer poesia,
ressaltando a necessidade oposta de fazer versos sobre, durante e após Auschwitz; a
exigência de renunciar à poesia proviria, nas palavras de Kluger, “de especialistas em
assuntos de ética, literatura e realidade [...] que podem prescindir da linguagem em
versos, pois nunca a utilizaram ou dela necessitaram para manter-se com a cabeça fora
d‟água, sem afogar.”60
Primo Levi, por sua vez, nunca negou uma chance à transmissão do horror, colocando o
testemunho e a narração mais sob o signo da ambivalência do que sob o signo da
impossibilidade definitiva, mesmo quando se deu conta que “é muito difícil transformar
em palavras esta experiência.” Ele acrescenta: “Tentei fazê-lo, talvez em parte tenha conseguido, porém com a sensação de estar levando adiante uma tarefa quase
impossível.” 61 Se a expressão “em parte” deixa aos leitores o julgamento sobre os
resultados e o alcance do discurso testemunhal, o advérbio “quase” define as próprias
conclusões de Levi: que, apesar de tudo, há alguma possibilidade e esta há de ser
procurada. Em uma entrevista ainda declarou:
Em muitas ocasiões, nós, sobreviventes dos campos de concentração nazistas, percebemos como
as palavras de pouco servem para descrever nossa experiência [...]. Em todas as nossas narrações,
orais e escritas, figuram frequentemente expressões como “indescritível”, “inexpressável”, “as
palavras não bastam a ...”, “precisaríamos de uma nova linguagem para...” Assim era, de fato,
naquele lugar distante, nossa sensação de todo dia: se voltássemos para casa e se quiséssemos
contar, nos faltariam as palavras; a linguagem de todo dia é adequada para as coisas de todos os
dias, mas aqui é outro mundo, aqui seria necessária uma linguagem “do outro mundo”, uma
linguagem nascida aqui.62 [trad.nossa]
59 KLUGER, Paisagens da memória , p.169 60 Ibid., p. 115
61“Io mi rendo conto che è molto difficile rendere in parole questa esperienza. Ho cercato di farlo, forse in parte ci sono anche riuscito, però con la sensazione, a volte, di stare facendo un´opera quasi impossibile.” (LEVI, Primo. Conversazioni e interviste 1963-1987, p. 214, tradução nossa )
A idéia de uma linguagem que precisa se reconstituir a partir da experiência
concentracionária ecoa em Kertész, levando mais adiante a aporia da representação pela
linguagem: será um dia concebível uma língua própria e exclusiva do Holocausto? E “em caso afirmativo, essa língua não teria de ser tão terrível e enlutada que, no final
exterminaria os que a falassem?” 63
1.2 A voz dos submersos
A vergonha e a culpa provêm da consciência de estar vivo por “sorte” ou por “acaso”, em lugar de muitos outros que sucumbiram, entre os quais, às vezes, os “melhores”. Portanto, dar o testemunho em nome dos afogados, dos submersos, dos “sem voz” é uma exigência
ética e ao mesmo tempo uma tentativa de reconciliação com a própria “culpa”.
No capítulo “A vergonha” de Os afogados e os sobreviventes, Levi declara: “Nós, tocados pela sorte, tentamos narrar, com maior ou menor sabedoria, não só nosso destino,
mas também aquele dos outros, dos que submergiram; mas tem sido um discurso ´em
nome de terceiros ´ ”.64
Levi dá testemunho dos submersos várias vezes, mencionando o nome de pessoas que
não sobreviveram e dos quais nada mais sabemos, como se pode ler no primeiro capítulo,
“A viagem”: Renzo e Francesca que se despedem, Emilia de três anos e seu pai, o engenheiro Aldo Levi 65, são nomes de pessoas que não chegam a ter nenhuma outra
frequenti espressioni quali ´indescrivibile´, ´ inesprimibile´, ´le parole non bastano a...´, ´ci vorrebbe un nuovo linguaggio per...´. Tale era infatti, laggiù, la nostra sensazione di tutti i giorni: se tornassimo a casa, e se volessimo raccontare, ci mancherebbero le parole: il linguaggio di tutti i giorni è adatto a descrivere le cose di tutti i giorni, ma qui è un altro mondo, qui ci vorrebbe un linguaggio ´dell‟altro mondo´, un
linguaggio nato qui.” (LEVI, Primo. “Pagine sparse”. In Opere, vol 2. Torino: Einaudi, p. 1268)
63 KERTÉSZ, A língua exilada, op.cit., p.206
64
LEVI, Os afogados e os sobreviventes, p. 73
função no texto senão esta homenagem de serem nomeados, quase uma inscrição
tumular, o necrológio que suas cinzas não puderam receber.66
Há, todavia, um caso emblemático, que concentra várias questões acenadas aqui, entre as
tentativas de testemunhar no lugar dos mortos e até de restituí-los à memória e à história
através da escrita. Trata-se de Hurbinek, descrito em A trégua: criança sem nome, com
nome dado pelos prisioneiros, paralisado da cintura para baixo, que com três anos ainda
não falava, mas demonstrava uma vontade tenaz de fazê-lo até que um dia pronunciou
uma palavra não decodificada, talvez polonesa, talvez deformada, uma única palavra
enigmática, e que, apesar da presença de “ tantos falantes” da Europa, ninguém (segundo Levi) conseguiu decifrar.67
Levi insiste mais no mistério do significado do que na sua possível interpretação, mesmo
fornecendo algum detalhe sobre sua sonoridade (“mass-klo” ou “matisklo”) e sobre sua possível origem tcheca (“talvez – segundo uma de nossas hipóteses – quisesse dizer ´comer´ou ´pão´; ou talvez ´carne´em boêmio, como sustentava, com bons argumentos,
66 Em nota à edição Einaudi de 1989, e organizada em CD-Rom, Alberto Cavaglion informa que este micro-episódio foi inserido na edição de 1958, de fato a edição definitiva do livro (nota n.43 p. 30). http://www.altrestorie.net/libri/Levi-SeQuesto-Uomo.pdf, último acesso: 1/06/2012
67
Apresentamos parte do trecho: “Hurbinek era um nada, um filho da morte, um filho de Auschwitz.
Aparentava três anos aproximadamente, ninguém sabia nada a seu respeito, não sabia falar e não tinha nome: aquele curioso nome, Hurbinek, fora-lhe atribuído por nós, talvez por uma das mulheres, que interpretara com aquelas sílabas uma das vozes inarticuladas que o pequeno emitia, de quando em quando. Estava paralisado dos rins para baixo, e tinha as pernas atrofiadas, tão adelgaçadas como gravetos; ma os seus olhos, perdidos no rosto pálido e triangular, dardejavam terrivelmente vivos, cheios de busca de asserção, de vontade de libertar-se, de romper a tumba do mutismo. As palavras que lhe faltavam, que ninguém se preocupava de ensinar-lhe, a necessidade da palavra, tudo isso comprimia seu olhar com urgência explosiva: era um olhar ao mesmo tempo selvagem e humano, aliás, maduro e judicante, que ninguém podia suportar, tão carregado de força e de tormento. Ninguém, salvo Henek: era meu vizinho de cama, um robusto e vigoroso rapaz húngaro de quinze anos. [...] Henek, ao contrário, tranquilo e obstinado, sentava-se junto à pequena esfinge, imune à autoridade triste que dela emanava; levava-lhe a comida, ajustava-lhe as cobertas, limpava-o com as mãos habilidosas [...] e falava-lhe, naturalmente, em húngaro,
com voz lenta e paciente. Após uma semana Henek anunciou que Hurbinek “dizia uma palavra”. Que
palavra? Não sabia, uma palavra difícil, não húngara: alguma coisa como mass-klo, matisklo. [...] Hurbinek continuou, enquanto viveu, as suas experiências obstinadas. Nos dias seguintes, todos nós o ouvíamos em silêncio, ansiosos por entendê-lo, e havia entre nós falantes de todas as línguas da Europa: mas a palavra de Hurbinek permaneceu secreta. [...] Hurbinek que tinha três anos e que nascera talvez em Auschwitz e que não vira jamais uma árvore; Hurbinek que combatera como um homem, até o último suspiro, para conquistar a entrada no mundo dos homens, do qual uma força bestial teria impedido; Hurbinek, o que não tinha nome, cujo minúsculo antebraço fora marcado mesmo assim pela tatuagem de Auschwitz; Hurbinek morreu nos primeiros dias de março de 1945, liberto ma não redimido. Nada resta dele: seu testemunho se
um dos nossos, que conhecia essa língua”68). Mas o que interessa é a linguagem impossibilitada de Hurbinek, criatura sem pátria, sem mãe e sem língua mãe.
Segundo Agamben “Não enunciável, não arquivável é a língua na qual o autor consegue dar testemunho da sua incapacidade de falar.” Hurbinek fica “aquém da linguagem”, “a sua é uma ´não-língua´ que não encontra lugar na biblioteca do dito, nem no arquivo dos
enunciados”; sua palavra “é „a treva obscura‟ que Levi sentia crescer nas páginas de Celan como um ´ruído de fundo´ ”.69
Hurbinek faleceu pouco depois da chegada dos soldados soviéticos, “liberto, mas não
redimido” e a memória de sua breve existência se conserva apenas na página escrita:
“Nada resta dele: seu testemunho se dá por meio de minhas palavras”.
Renato Lessa sugere que existe em Levi um “proceder em fragmentos”, pois a experiência é reconstituída através de fragmentos70, referindo-se às múltiplas
micro-histórias presentes em seu texto e em tantos contos sucessivos. Hurbinek representaria
um desses fragmentos que, com sua força, consegue dar conta de um contexto maior e ao
mesmo tempo mais profundo:
A própria história de Hurbinek é um fragmento mínimo do experimento Auschwitz. Ao mesmo
tempo, encerra uma imensa capacidade metonímica: sem dar passagem à visão do todo, sugere ao
leitor, por sua força sintética, algo que pertence à essência.71
Hurbinek, a criança paralisada, semi-muda e desamparada, faminta, exilada do mundo
humano desde seu nascimento que morre sem nunca ter vivido fora do arame farpado, e
cuja breve vida é gravada apenas pelas palavras de Levi, representa, além de um caso
humano concreto e comovente, a profundidade da negação.
Relativamente ao nome Hurbinek, nos deparamos com uma intrigante ou talvez nem tão
casual correspondência com a palavra hurbn que em iídiche, significa destruição,
68 LEVI, A trégua, p.30
69 AGAMBEN, O que resta de Auschwitz, .p.161 70
LESSA, O silêncio e sua representação, op.cit., p. 96-97
catástrofe 72. Curiosamente, não encontramos em nossa pesquisa – dentro da bibliografia utilizada - nenhum comentário que se detenha sobre a correlação.73 Trata-se, entretanto,
de um elemento importante na leitura, um achado que permite ligar vários planos, um
imprevisto que estimulou um aprofundamento no interior de nosso trabalho.
O iídiche foi a língua aniquilada, exterminada, quase extinta dos judeus da Europa
oriental. Wieviorka fala das coletâneas de Yizker-bikher, os livros da recordação,
conjuntos de narrativas orais e escritas, testemunhos em iídiche dos guetos como o de
Varsóvia, ou seja, de um mundo destruído. O texto da historiadora informa que o
extermínio do séc. XX foi chamado de “drittern hurbn”74
, sendo a terceira destruição
após as destruições dos Templos de dois mil anos antes, segundo o relato bíblico.
Relativamente à língua e cultura dos judeus do leste, tratou-se de fato de uma Shoah
específica dentro da Shoah européia, complementada tristemente pelos gulag soviéticos.
Como observou Levi na resenha de um texto russo de Schalóm Alechém, Tewje o leitero:
“Tewje não existe mais: foi morto pelo gás de Auschwitz e os lager de Stalin”.75
Hurbinek, portanto, “encerra em si mesmo o Holocausto”, como disse Renato Lessa metaforicamente, mas acrescentaremos que seu nome carrega, em suas raízes linguísticas,
a destruição/Hurbn. Hurbn, Holocausto, Shoah em geral, Shoah de um mundo europeu
oriental judaico, Shoah dos esquecidos. Podemos supor que o nome não tenha sido dado
por acaso no Campo e que Levi não conhecesse esta etimologia, nem na época da edição
do livro A trégua, e talvez nem depois. Porém, a linguagem supera as noções individuais
e nutre o texto.
De fato, as indicações de Levi sobre o nome de Hurbinek foram escassas e vagas: “não sabia falar e não tinha nome: aquele curioso nome, Hurbinek, fora-lhe atribuído por nós,
72Para o significado de “hurbn” Cf. WIEVIORKA, L´era del testimone, p. 21
73 Ao procurar referências, encontramos apenas uma breve nota em pé de página de François Rastier que também sugere a etimologia do nome: “Tenho a impressão de que Hurbinek, com um sufixo pessoal eslavo, derive de hurbn, que significa destruição em iídiche. Na teologia hassídica do extermínio, a expressão dritter hurbn designa a terceira destruição, sucessiva àquela dos dois primeiros Templos.” (RASTIER, François. Ulisse ad Auschwitz. Primo Levi, il supérstite. Napoli: Liguori, 2009, p. 44, nota em pé de página, tradução nossa).
74 WIEVIORKA, L´era del testimone, p. 42