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MESTRADO EM EDUCAÇÃO SÃO PAULO 2013

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

PUC-SP

Cilene Maria de Oliveira Costa

Sucesso escolar de jovens egressos da escola pública: do ensino médio para

o superior

MESTRADO EM EDUCAÇÃO

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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

PUC-SP

Cilene Maria de Oliveira Costa

Sucesso escolar de jovens egressos da escola pública: do ensino médio para o

superior

MESTRADO EM EDUCAÇÃO:

Programa de Pós-Graduação em Educação: História, Política, Sociedade

Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de MESTRE em Educação: História, Política, Sociedade, sob a orientação da Professora Doutora Leda Maria de Oliveira Rodrigues.

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Banca Examinadora

__________________________________

__________________________________

(4)

Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma colina,

Sê um arbusto no vale mas sê

O melhor arbusto à margem do regato.

Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.

Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva

E dá alegria a algum caminho.

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Aos jovens estudantes de escolas públicas periféricas, exemplos de que o improvável é possível.

Aos professores que acreditam na

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AGRADECIMENTOS

Aos meus pais, que sempre me encorajaram e me educaram baseados na justiça e na humildade fazendo com que eu também me tornasse um sucesso improvável.

Ao meu companheiro Felipe, grande incentivador e admirador compreensivo, inclusive nos momentos em que me ausentei. Presença imprescindível.

Aos meus irmãos, exemplos de honestidade e determinação, incluindo meu cunhado Rogério que tornou-se um irmão de fé e meu sobrinho Pedro Henrique que embora indagasse

“esse mestrado não termina nunca?” compreendeu a ausência da titia.

À família Tributino que me adotou como filha-irmã, sempre preocupados e interessados, especialmente à Cris pela força e palavras de aconchego.

À Néia e à Sú por acompanharem de perto e pelas leituras cuidadosas, sempre me colocando para frente.

Às minhas tias, pela presença contínua, pelo carinho e preocupação e aos meus amigos e familiares que me apoiaram desde o início da pesquisa: Vilma, Paulo, Anne, Alê, Júlio, Elaine, Débora, Renan, Juliana, Paty, Tiago, Carol e em especial o Brian por toda ajuda e conversas indispensáveis.

Ao Marcos Coutinho, pela valiosa participação no processo inicial da pesquisa. Aos meus amigos Robson e Lú pela ajuda nas transcrições e Rony pelo abstract. Ao Valmir e ao Xandão por toda ajuda, por todo incentivo e pelos ouvidos que sempre acolheram minhas angústias.

À Dri por me dar força, por me ouvir e dar sempre um jeito nos meus horários. À Angela, Borges, Vagner, Aulus e Danilo por todo carinho e aos demais colegas da escola L. que acompanharam minha trajetória com admiração.

Ao professor Écio A. Portes pela atenção e presteza incomensurável.

Aos professores do programa EHPS, José Geraldo Silveira Bueno, Alda Junqueira Marin, Leda Maria de Oliveira Rodrigues e Luciana Maria Giovanni pelas leituras propostas e contribuições acerca do meu projeto de pesquisa.

À professora Drª Marieta Gouveia de Oliveira Penna e professora Drª Luciana Maria Giovanni pelas valiosas contribuições no exame de qualificação.

Aos amigos que fiz na PUC, pois muito me ajudaram. Quero tê-los sempre em minha vida: Davi, Jussara, Karen, Neusely, Daiana, Janaina, Ive e Rodolfo.

À Betinha, mais que uma secretária. Uma pessoa de coração gigante.

À minha querida professora e orientadora Leda Maria de Oliveira Rodrigues, por me passar segurança, por sua competência e dedicação, um exemplo a ser seguido.

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COSTA, Cilene Maria de O. 2013. Sucesso escolar de jovens egressos da escola pública: do ensino médio para o superior. Dissertação de Mestrado. Educação: História, Política, Sociedade. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo.

RESUMO

Sucesso escolar em camadas populares é um tema que começou a ser pesquisado mais intensamente no Brasil a partir da década de 1990. As pesquisas que estudam casos de sucesso escolar improvável no Brasil procuram investigar as formas de ingresso e permanência de sujeitos das classes populares no ensino superior público, sobretudo, por meio das estratégias familiares e pessoais de escolarização. Partindo das contribuições desses estudos, o objetivo desta pesquisa é conhecer as características de sujeitos do ensino médio público de Francisco Morato que adentraram as universidades públicas, quanto as suas trajetórias escolares. Dessa forma, analisamos a trajetória de cinco sujeitos oriundos de uma escola pública deste município. O problema norteador desta pesquisa foi compreender quais foram as circunstâncias historicamente construídas fundamentais para o sucesso escolar desses sujeitos. Para tanto, utilizamos como referencial teórico os conceitos de Pierre Bourdieu, no que concerne ao capital econômico, cultural e social e Bernard Lahire, no que tange às singularidades. Como procedimento de pesquisa empregamos entrevistas semiestruturadas, realizadas entre maio e dezembro de 2012. Os resultados obtidos por meio dos relatos confirmaram nossa hipótese, revelando que o sucesso escolar desses sujeitos deve-se a aquisição de capital social adquirido, principalmente na rede durável de relações constituídas na escola. Além disso, suas trajetórias são marcadas pelo esforço, pela prática de leitura e pelo desejo de um destino diferente do comum nos meios populares.

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COSTA, Cilene Maria de O. 2013. Educational success of young graduates of public schools: high school to higher education. Dissertation. Education: History, Politics, Society. Pontifical Catholic University of São Paulo, São Paulo.

Abstract

Success in school is a grassroots theme that began to be studied more intensively in Brazil since the 1990s. Research studying school improbable success stories in Brazil seek to investigate ways to enter and remain characters to the popular classes in public higher education, mainly through family strategies and education personnel. Building on the contributions of these studies, the aim of this research is to know the characteristics of characters in the public school of Francisco Morato who entered public universities, as their school trajectories. Thus, we analyze the trajectory of five characters from a public school in this county. The problem guiding this research was to understand what the circumstances were historically constructed fundamental to the success of these school subjects. Therefore, we use as theoretical concepts of Pierre Bourdieu, regarding the economic, cultural and social capital and Bernard Lahire, with respect to singularities. As search procedure employ semi-structured interviews conducted between May and December 2012. The results obtained through the reports confirmed our hypothesis, revealing that the academic success of these subjects is due to acquisition of capital acquired, mainly in durable network of relationships formed at school. Moreover, their trajectories are marked by stress, practice reading and the desire for a different destination common in the popular media.

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SUMÁRIO

Introdução...13

Capítulo 1. Sucesso escolar improvável no Brasil...19

1.1. Conclusões acerca das pesquisas...29

Capítulo 2. Singularidades: relação com o capital cultural, econômico e social... 32

2.1. O capital cultural...32

2.2. O espaço social, a constituição do habitus e o capital social...35

2.3. Configurações familiares ...38

2.4. As singularidades...39

Capítulo 3. Procedimentos de Pesquisa...41

3.1. Sujeitos...41

3.2. O roteiro de entrevista...42

3.3. Entrevistas...42

3.4. A escola L...44

3.5. Procedimentos de análise...47

Capítulo 4. Trajetórias escolares bem sucedidas...49

4.1. A trajetória de G...49

4.2. A trajetória de E. ...56

4.3. A trajetória de J...63

4.4. A trajetória de JM...70

4.5. A trajetória de D...79

4.6. Singularidades e regularidades...83

Considerações Finais...90

Referências Bibliográficas...93

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LISTA DE ABREVIATURAS

CSU: Centro Social Urbano

EFAP: Escola de Formação e Aperfeiçoamento de Professores ETEC: Escola Técnica Estadual

FAHUPE: Faculdade de Humanidades Pedro II FUMP: Fundação Universitária Mendes Pimentel

FUNREI: Fundação de Ensino Superior de São João del Rei FUVEST: Fundação Universitária para o Vestibular

IBGE: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IDH-M: Índice de Desenvolvimento Humano Municipal

IDESP: Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo INCLUSP: Programa de Inclusão Social da USP

ITA: Instituto Tecnológico de Aeronáutica MASP: Museu de Arte de São Paulo

NEAF: Núcleo de Estudos Avançados em Filosofia PROUNI: Programa Universidade para Todos

PNUD: Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento PUC: Pontifícia Universidade Católica

SARESP: Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo SESI: Serviço Social da Indústria

UEMG: Universidade do Estado de Minas Gerais UERJ: Universidade do Estado do Rio de Janeiro UFAC: Universidade Federal do Acre

UFF: Universidade Federal Fluminense

UFMG: Universidade Federal de Minas Gerais UFRJ: Universidade Federal do Rio de Janeiro UFSCAR: Universidade Federal de São Carlos

UNESP: Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho UNICAMP: Universidade de Campinas

UNIFESP: Universidade Federal de São Paulo UPA: Unicamp de Portas Abertas

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LISTA DE TABELAS E GRÁFICO

Tabela 1: Índice demográfico da microrregião de Franco da Rocha

Tabela 2: Índice de Desenvolvimento Humano - Municipal, 1991 e 2000 - Microrregião de Franco da Rocha – SP

Tabela 3: Índice de pobreza, 2003 - Microrregião de Franco da Rocha - SP

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LISTA DE QUADROS

Quadro 1: Características gerais da escola L. em 2012

Quadro 2: Singularidades e regularidades dos perfis socioeconômico e educacional familiar dos sujeitos

Quadro 3: Singularidades e regularidades dos perfis escolares, das práticas culturais e de lazer

Quadro 4: Singularidades e regularidades das relações sociais e significados dados ao sucesso

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INTRODUÇÃO

O fato de ser moradora de Francisco Morato há 33 anos, ter estudado em escola pública durante o ensino fundamental e médio e trabalhar em escolas da rede pública Estadual há 14 anos me proporcionaram um grande apreço em trabalhar com jovens estudantes de camadas periféricas.

Ao longo desses anos desenvolvi também uma inquietação em relação ao destino que esses jovens teriam após concluírem o ensino médio, pois diante das observações feitas empiricamente, pude perceber que a maioria dos jovens que concluíam o ensino médio buscava se estabelecer no mercado de trabalho sem cursar o ensino superior e dentre os poucos que deram continuidade aos estudos, a maioria não procurava as universidades públicas para prestar o exame pré-vestibular.

De acordo com a Síntese de Indicadores Sociais 2007 do IBGE em relação ao ensino superior, a pesquisa aponta que,“em 2006, 76,4% dos estudantes frequentavam universidades

particulares, e apenas 23,6% estavam em estabelecimentos públicos. No entanto, mais da metade dos estudantes que frequentam o ensino superior na rede pública (54,3%) pertenciam

aos 20% mais ricos”.

Como se percebe, o ingresso de estudantes em universidades públicas além de ser menor, até mesmo porque o número de instituições privadas supera o das públicas, a maioria daqueles que ingressam faz parte da população mais abastada.

Diante desses aspectos configurou-se minha intenção de estudo: pesquisar o “Sucesso Escolar” de jovens moradores de Francisco Morato, porém com o objetivo de analisar casos de alunos do ensino médio público que ingressaram em universidades públicas entendendo tal ingresso como forma de sucesso escolar.

Os problemas relacionados à Educação como, falta de professores, precariedade de materiais pedagógicos, salas de aula superlotadas, professores mal preparados, evasão escolar, dentre outros, podem desencadear obstáculos na aprendizagem e formação do indivíduo, tornando evidentes os motivos que podem levá-los ao fracasso escolar.

De acordo com Patto (2000),

(14)

Todas essas características fizeram-me acreditar que existe a necessidade de se pesquisar a respeito de como pode acontecer casos de sucesso escolar diante dos problemas que supostamente levariam ao fracasso.

Sendo assim, a pretensão deste trabalho é de contribuir com a linha de pesquisa voltada para o sucesso escolar dos não esperados que, no final do século XX, a partir da década de 90, começou a ganhar maior visibilidade. Meu objeto de estudo será justamente os estudantes egressos do ensino médio da rede pública do município de Francisco Morato- SP (município que tem um dos menores índices de desenvolvimento humano do estado de São Paulo) que ingressaram em universidades públicas.

Problema

Francisco Morato é um dos municípios que integra a microrregião de Franco da Rocha que é uma das microrregiões da mesorregião Metropolitana do estado de São Paulo. Em 2010, a população dessa microrregião foi estimada pelo IBGE em 453.561 habitantes e está dividida em quatro municípios, Mairiporã, Caieiras, Franco da Rocha e Francisco Morato. Como se pode observar na tabela a seguir, Francisco Morato é o município mais populoso da microrregião de Franco da Rocha de acordo com os dados do IBGE.

Tabela 1

Índice demográfico da microrregião de Franco da Rocha

Fonte: IBGE, Censo Demográfico 2010.

De acordo com os censos de 1991 e de 2000 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), Francisco Morato teve o menor IDH-M entre as 39 cidades da região Metropolitana de São Paulo, com 0,738. Na lista dos 645 municípios de São Paulo, a colocação de Francisco Morato é de 586º, abaixo inclusive dos demais municípios da microrregião de Franco da Rocha.

De acordo com o Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil criado pelo PNUD em 2003 o índice varia de 0 a 1. Zero significa nenhum desenvolvimento humano e 1 significa

Microrregião de Franco da Rocha População 2010 Mairiporã 80.956

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desenvolvimento humano total. Dessa forma, municípios com IDH-M até 0,499 têm desenvolvimento humano considerado baixo; entre 0,500 e 0,799 são considerados de médio desenvolvimento humano e municípios com IDH-M maior que 0,800 têm desenvolvimento humano considerado alto.

O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M) foi criado para medir o nível de desenvolvimento humano de núcleos sociais menores. Os indicadores utilizados para medir o IDH-M são os mesmos para medir o IDH de países, isto é, educação, longevidade e

renda (PIB per capita), porém para avaliar a dimensão “educação”, o cálculo do IDH-M considera dois indicadores com pesos diferentes, isto é, às pessoas alfabetizadas com idade acima de 15 anos infere-se peso dois e à taxa bruta de frequência à escola infere-se peso um. No que se refere à renda, o PIB per capta é a renda média de cada residente apenas no município, isto é, o cálculo da renda municipal per capita.

Sendo assim, Depois de calculados os indicadores individualmente IDHM-E, para educação; IDHM-L, para longevidade e IDHM-R, para renda, somam-se os resultados e divide-se por três (IDHM-E + IDHM-L + IDHM-R / 3). Quanto melhor o desempenho do município, mais próximo o seu índice estará de 1. Na tabela 2 e no gráfico 1 a seguir podemos observar os índices de Francisco Morato.

Tabela 2

Índice de Desenvolvimento Humano - Municipal, 1991 e 2000 - Microrregião de Franco da Rocha - SP

IDH-M 1991 e 2000 Caieiras Mairiporã Franco da Rocha Francisco Morato

IDHM, 1991 0,762 0,761 0,736 0,713

IDHM, 2000 0,813 0,803 0,778 0,738

Renda, 1991 0,718 0,771 0,699 0,682

Renda, 2000 0,736 0,784 0,692 0,636

Longevidade, 1991 0,717 0,717 0,717 0,667

Longevidade, 2000 0,785 0,747 0,766 0,717

Educação, 1991 0,851 0,796 0,792 0,789

Educação, 2000 0,917 0,877 0,876 0,862

Fonte: http://www.pnud.org.br/atlas/tabelas/

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para 2000, os municípios de Caieiras e Mairiporã conseguiram sair do nível médio de desenvolvimento humano entrando para o alto. Franco da Rocha, mesmo não atingindo o alto nível, teve crescimento equivalente à Mairiporã. Já Francisco Morato, avançou muito pouco em relação aos demais municípios.

Gráfico 1

Índice de Desenvolvimento Humano - Municipal, 1991 e 2000 – Microrregião de Franco da Rocha - SP

Fonte: http://www.pnud.org.br/atlas/tabelas/

Além disso, de acordo com o Índice de Pobreza calculado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em 2003, Francisco Morato teve o maior índice dentre os outros municípios, como se pode observar na tabela 3 a seguir.

Tabela 3

Índice de pobreza, 2003 - Microrregião de Franco da Rocha - SP

Fonte: IBGE, Censo Demográfico 2000 e Pesquisa de Orçamentos Familiares - POF 2002/2003. De acordo com as definições do IBGE:

A pobreza absoluta é medida a partir de critérios definidos por especialistas que analisam a capacidade de consumo das pessoas, sendo considerada pobre aquela pessoa que não consegue ter acesso a uma cesta alimentar e de bens mínimos necessários a sua sobrevivência.

A medida subjetiva de pobreza é derivada da opinião dos entrevistados, e calculada levando-se em consideração a própria percepção das pessoas sobre suas condições de vida. Segundo especialistas, a percepção de bem-estar de um indivíduo sofre

Caieiras

Mairiporã

Franco da

Rocha Francisco Morato

0,762

0,761

0,736

0,713

0,813

0,803

0,778

0,738

IDHM, 1991 IDHM, 2000

Microrregião de Franco Da Rocha Índice de pobreza (%) 2002/2003

MAIRIPORÃ 39,74

CAIEIRAS 44,93

FRANCO DA ROCHA 53,46

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influência de acordo com sua posição em relação aos demais indivíduos de um determinado grupo de referência. Em termos teóricos, não se espera que os dois indicadores sejam coincidentes, mas a expectativa é de resultados próximos. (Brasil-IBGE, 2002/2003).

Dessa forma, pode-se afirmar que 66% da população moratense sofre privações pela ausência de elementos necessários que permitam às pessoas levarem uma vida digna em uma sociedade, isto é, a ausência de bem-estar está associada à insuficiência de renda, à nutrição, à saúde, à educação, à moradia, aos bens de consumo e aos direitos de participação na vida social e política da comunidade em que vivem.

Pode-se perceber que Francisco Morato ainda está longe do chamado alto índice de desenvolvimento humano, porém, mesmo diante das dificuldades enfrentadas pelo município existem alguns casos curiosos e carentes de investigação, de jovens que conseguem mudar as expectativas no âmbito de um município com tais características. Dessa forma, norteamos o nosso problema de pesquisa pretendendo entender: que circunstâncias historicamente construídas foram fundamentais para o sucesso escolar de alunos do ensino médio público de Francisco Morato-SP que ingressaram em universidades públicas?

Questionamos também:

Existiram interferências escolares diretas ou indiretas que contribuíram para o preparo do aluno no exame vestibular?

Houve estratégias singulares para vencer as dificuldades, preencher as lacunas de conteúdos e passar no vestibular?

Quais os motivos da escolha do curso? Por que esse e não outro?

Quais as características da escola em que esses sujeitos cursaram o ensino médio?

Hipótese

Haja vista as características do município de Francisco Morato, isto é, o baixo volume de capital econômico e cultural das famílias que vivem nesse município, a hipótese desta pesquisa é a de que, a aquisição de capital social que contribui para o sucesso escolar dos estudantes de escola pública ocorre por meio de uma rede durável de relações constituída no meio escolar.

Objetivo geral

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Objetivos específicos

Caracterizar os alunos do ensino médio público que ingressaram em universidades públicas com relação ao perfil socioeconômico;

Conhecer as expectativas do aluno em relação ao ensino superior público;

Analisar as estratégias que os levaram à busca de estudos mais direcionados para prestar o vestibular;

Verificar se houve práticas pedagógicas que puderam estimular a procura por universidades públicas;

Caracterizar a escola que os sujeitos estudaram durante o ensino médio. Este trabalho estrutura-se em quatro capítulos.

No primeiro capítulo abordaremos as pesquisas sobre sucesso escolar no Brasil bem como as conclusões apontadas em tais estudos entremeadas pelos conceitos de Pierre Bourdieu que foram fundamentais para o desenvolvimento dessa pesquisa.

No segundo capítulo apresentam-se os principais conceitos teóricos que fundamentam este trabalho, isto é, os conceitos de capital econômico, cultural e social na perspectiva de Pierre Bourdieu. Além disso, utilizaremos o conceito de singularidades empregado por Bernard Lahire.

O terceiro capítulo abordará os procedimentos da pesquisa e as principais características da escola em que os sujeitos cursaram o ensino fundamental II e o médio, ou seja, abordará todos os procedimentos realizados desde a determinação dos sujeitos até os procedimentos de análise dos dados coletados.

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CAPÍTULO 1

SUCESSO ESCOLAR IMPROVÁVEL NO BRASIL

Sucesso escolar em camadas populares é um tema que começou a ser pesquisado mais intensamente no Brasil a partir da década de 1990 e tem despertado a atenção de pesquisadores em relação à improbabilidade de tal sucesso.

Partindo de uma ordem cronológica das pesquisas realizadas no Brasil, o trabalho mais antigo e ao que tudo indica o primeiro levantamento de situações de sucesso improvável no

Brasil, foi a dissertação de Écio Antônio Portes, “Trajetórias e estratégias escolares do

universitário das camadas populares” defendida em 1993 no Programa de Pós-Graduação em Educação da UFMG.

A pesquisa de Portes (1993) investigou trinta e sete estudantes de origem popular que conseguiram chegar à UFMG, que é uma universidade de grande prestígio e bastante seletiva. Portes (1993) não selecionou cursos específicos, seu objetivo foi analisar estudantes independentemente do sexo e faixa etária, que variou entre 19 e 43 anos. O foco de seu estudo foram as estratégias educativas familiares e as dos próprios estudantes, porém teve a preocupação de separar tais perspectivas com o intuito de dar maior atenção às estratégias empreendidas pela família.

Por trabalhar como Pedagogo na Fundação Universitária Mendes Pimentel (FUMP) e ser responsável pela assistência social pedagógica aos alunos pobres da UFMG, Portes observou que os estudantes de camadas desfavorecidas solicitavam, além de assistência médica, odontológica, alimentar, etc., orientações acadêmicas e pedagógicas. Sendo assim, Portes sentiu a necessidade de investigar o passado desses estudantes oriundos de classes desfavorecidas para atendê-los a partir de uma perspectiva histórica e sociológica adequadamente.

Além de pretender contribuir com estudos sociológicos acerca do tema, Portes também

objetivou ajudar as “instituições envolvidas na questão” (Portes, 1993, p.18) a conhecer melhor o universo em que atuam e o público que delas se beneficiam, nesse caso, as camadas populares.

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melhor de escolaridade, mesmo diante da falta de capital cultural familiar dos estudantes percebida com as investigações.

Portes conclui que as trajetórias longevas se constroem durante o percurso, isto é, que o sucesso constrói o sucesso. Além disso, destaca o papel das mães que é de crucial importância no processo de escolarização dos filhos pelo fato de serem mais participativas ou de carregarem o papel de organizadoras do lar. Por outro lado, as experiências vividas pelos universitários não foram amplamente apreendidas pelo método de coleta de dados utilizado na pesquisa, dessa forma, o autor suscita a possibilidade de um estudo etnográfico como um ganho para o estudo dos casos de sucesso improvável.

Partindo da mesma problemática de Portes, em 1998, Maria José Braga Viana defendeu

sua tese, “Longevidade escolar em famílias de camadas populares: algumas condições de

possibilidade”, orientada pela professora Maria Alice Nogueira no Programa de Pós -Graduação em Educação da UFMG. Citando Viana (1998):

No contexto desse trabalho, toma-se como principal indicador de sucesso o acesso ao curso superior. Sucesso escolar é aqui entendido, então, como permanência no sistema escolar até esse grau de ensino. Buscar-se-á compreender o que tornou possível uma escolarização prolongada a indivíduos, cuja probabilidade de chegar à Universidade é estatisticamente reduzida. Pretende-se, assim, elucidar as razões e as modalidades de destinos escolares atípicos, de escolaridades excepcionais para o meio social de pertencimento. (p. 2).

O objetivo geral da autora é descrever as diferentes configurações familiares, (e, quando possível, configurações sociais mais amplas) que, segundo suas hipóteses, contribuem para explicar como alguns indivíduos cujo sucesso escolar seria improvável conseguiram sobreviver no interior do sistema de ensino até chegar ao nível superior. A autora procura resgatar a presença da família nesses percursos escolares prolongados e detectar as diferenças entre essas famílias e as outras também de camadas populares. Além disso, Viana investigou os sentidos dados pelos pais e filhos à escolarização prolongada.

Os sujeitos investigados foram 5 estudantes universitários e 2 pós-graduandos, sendo 5 mulheres e 2 homens. Os universitários eram alunos dos cursos de Medicina (UFMG), Geografia (UFMG), Economia (PUC-MG), Psicologia (FUNREI) e Filosofia (FUNREI). Dos sujeitos que eram pós-graduandos, um era aluno de curso de especialização em Psicopedagogia (UEMG) e outro era aluno de curso de Mestrado em Educação da Faculdade de Educação da UFMG.

(21)

Não ignoramos, portanto, que questões especificamente ligadas à escola e seu funcionamento, estão embutidas nas configurações de sucesso escolar que investigamos, tais como: propostas curriculares, procedimentos metodológicos, critérios de avaliação, relação professor-aluno. No entanto, não constituiu objetivo desse trabalho, investigar diretamente as formas da presença dessas dimensões nas biografias de nossos entrevistados. Nesse sentido é que nenhum profissional de escola foi abordado, nenhum registro escolar, consultado. A escola aparece em nosso trabalho de forma indireta, como figura importante de bastidores, pressupondo-se a existência da “imbricação de territórios” família-escola. (p.10).

Sendo assim, percebi uma lacuna que não foi a intenção de Viana preencher e que pode ser um dos aspectos a me aprofundar em meu trabalho, isto é, verificar se houve interferências escolares diretas ou indiretas como contribuição para o preparo do aluno para o vestibular, apoiando-me na ideia das singularidades de grupos heterogêneos.

Viana não identificou, nos casos estudados, um projeto consciente de chegar ao Ensino Superior, isto é, nem os entrevistados ou suas famílias se mostraram intencionados em dar continuidade à escolarização. Por outro lado, embora as famílias estivessem presentes no processo de escolarização dos filhos mostrando os valores culturais da escola e contribuindo para a socialização dos sujeitos, os elementos capazes de reorientar o curso escolar foram as chances/oportunidades presentes nas biografias dos investigados.

Segundo Viana,

É a configuração global de cada caso singular que explica o sucesso escolar em questão. Para pensar sobre “casos singulares”, do ponto de vista de uma análise apoiada no conceito de configuração social, o trabalho de Norbert Elias (1994) sobre a reconstrução sociológica do “indivíduo” Mozart, constitui-se uma referência preciosa. Em segundo lugar, sendo o conceito de configuração social, tal como elaborado por Norbert Elias, suficientemente aberto, ele permite trabalhar com recortes ou abrangências diferenciadas. (1998, p. 41).

Em 1999, Jailson de Souza e Silva defendeu sua tese, “Por que uns e não outros? Caminhadas de estudantes da Maré para a universidade”, orientado pela professora Zaia

Brandão na PUC-RJ, porém o acesso que tive a este trabalho foi o da versão em livro publicado em 2003 e reeditado em 2011. Sua pesquisa investigou a trajetória escolar atípica de onze universitários da Comunidade da Maré, o maior complexo de favelas da cidade do Rio de Janeiro, local de explícitas caraterísticas “proletárias” e com quase 20% de analfabetos na época da pesquisa.

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Faculdade de Humanidades Pedro II (FAHUPE), e Engenharia Civil na Faculdade Nuno Lisboa.

Buscando identificar, nas relações entre as disposições e os campos sociais, os elementos explicativos para a constituição desses percursos escolares considerados atípicos, Silva procurou explicar como esses estudantes conseguiram alcançar sucesso escolar, isto é, contrapondo a ideia de saída precoce da escola, que era muito comum na comunidade em que viviam, com o ingresso e a conclusão do curso em universidades públicas ou particulares, enquanto outros estudantes com características sociais muito semelhantes, até mesmo irmãos, fizeram outras escolhas, muitas vezes opostas, para suas vidas.

O autor procurou questionar como se deu a chegada e a permanência dessas pessoas à universidade e as estratégias escolares por eles desenvolvidas. Além disso, Silva procurou investigar a influência da família e a influência de outros grupos de referência, como a Igreja ou a vizinhança.

Para tentar explicar como se deram as trajetórias escolares dos estudantes pesquisados, Silva usou como apoio as análises sobre o sistema de disposições e a constituição do hábitus

na perspectiva de Pierre Bourdieu. Além desse referencial, Silva fundamenta-se nas revisões/atualizações do modelo teórico de Bourdieu propostas por Bernard Lahire.

Silva também se preocupou em desesteriotipar as características negativas que comumente são atribuídas ao ambiente da favela interpretando as trajetórias de sucesso oriundas de tal ambiente.

Ainda que a família dos entrevistados se mostrasse preocupada com o futuro dos filhos, associavam o sucesso muito mais com o trabalho do que com a longevidade escolar, isto é, estudar era necessário para conseguir um emprego melhor. De acordo com Silva (1999):

(...) o juízo dominante na família era de que os filhos universitários já estavam em uma fase da vida na qual lhes caberia, mais do que estar estudando, auxiliar na estrutura material da casa e mesmo na sua direção. Juízo este, aliás, afirmado pelos próprios filhos. Assim, a busca de alternativas individuais, para sustentação do curso universitário, parecia natural para todos os entrevistados. (p. 115).

Silva acredita que “compreender a dinâmica estabelecida entre as características singulares do agente e as redes sociais nas quais ele se insere” (p. 126) são fundamentais para

(23)

Silva ressalta que a “incorporação contínua de práticas adequadas aos novos campos sociais gera a constituição de um novo habitus” (p. 137), substituindo as práticas do grupo

social de origem.

Outro trabalho que contribuiu muito para minhas reflexões foi o artigo de Nadir Zago

(2000), “Quando os dados contrariam as previsões estatísticas: os casos de êxito escolar nas camadas socialmente desfavorecidas”, pois procurou mostrar a participação da família nas trajetórias escolares dos filhos, porém destacou especialmente a participação das mães.

A autora procura ressaltar o erro que se incorre ao se avaliar as práticas escolares das camadas sociais desfavorecidas por meio de padrões das camadas médias e procura mostrar a ação dos pais como agentes mobilizadores e ativos na escolarização dos filhos. De acordo com Zago (2000),

Uma das questões centrais dos estudos sobre o sucesso escolar nos meios populares, cuja produção é ainda pouco significativa, é compreender, mediante quais processos, um aluno tem bom desempenho na escola, quando todos os indicadores são desfavoráveis a sua escolarização. O objetivo é encontrar explicações sociológicas para esses casos “atípicos” que, pela sua excepcionalidade, contrariam as previsões estatísticas. (p. 71).

O artigo de Zago é um trabalho que foca aspectos da Sociologia da Educação não se remetendo de maneira aprofundada às questões de práticas pedagógicas ou mobilizadoras que podem partir da escola ou de professores para estimular os alunos de periferias a prolongar seus estudos.

O artigo de Zago nos leva a questionar sobre a postura que a escola desempenha no processo de longevidade escolar dos alunos de camadas sociais menos favorecidas, já que, de acordo com Bourdieu (1998a) a escola mesmo inconsciente ou indiretamente pode influenciar no destino das crianças.

No ano de 2001, Écio Antônio Portes defendeu sua tese no Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação da UFMG, também sob a orientação da professora Maria Alice Nogueira. Seu estudo teve como objetivo principal investigar as trajetórias escolares de estudantes pobres que conseguiram entrar, por meio do vestibular, e se manter em cursos de alta seletividade da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

(24)

dimensão histórica, a reconstrução e a análise das trajetórias investigadas e a experiência universitária dos mesmos. De acordo com Portes (2001):

Os estudos sociológicos que orientavam os trabalhos práticos e teóricos desenvolvidos por nós no interior da FUMP e da UFMG evidenciavam que, para o filho do pobre a "passagem" do mundo escolar de nível médio para o mundo universitário é complexa e afeta sobremaneira a subjetividade desses sujeitos. (p. 19)

O autor afirma que a condição econômica embora não seja determinante, pois pode ser contornada, tem um peso grande na caminhada desses jovens, para ele deve-se reconhecer que as necessidades econômicas contribuem para um menor desempenho nos estudos devido à dedicação que não é exclusiva ao curso, nesse sentido conclui que a vida desses jovens é sobremaneira difícil e sofrida.

Portes salienta que, no Brasil os estudos sobre as camadas populares em cursos superiores públicos não têm ocupado lugar privilegiado no campo acadêmico, isto é, as pesquisas voltadas ao estudante pobre na universidade em cursos de alta seletividade são recentes e necessita de mais atenção, porém ressalta que o pesquisador não deve ter um olhar voltado a questões macroestruturais, dando maior atenção às ações dos sujeitos, suas trajetórias, as dificuldades por eles vividas e as estratégias por eles utilizadas para obter sucesso escolar.

Sendo assim, o objetivo de Portes foi de “dar visibilidade ao estudante pobre no brutal e desigual jogo de acesso e permanência no ensino superior público, lá onde ele é mais difícil

de ser jogado, nos cursos muito seletivos”. (2001, p. 21)

Diante do objetivo de Portes comecei a refletir sobre outra questão. Será que os cursos menos seletivos não têm um grau de dificuldade tão grande quanto os de maior seletividade? Partindo do pressuposto que a falta de capital cultural deixa em desvantagem os estudantes de classe menos favorecidas, já que são “desprovidos de qualquer herança cultural” (Bourdieu,

1998a), independentemente do curso que fizessem teriam desvantagens em relação aos que herdaram um capital cultural maior.

Outro trabalho de grande valia é o de Wânia Maria Guimarães Lacerda (2006). Em sua tese “Famílias e filhos na construção de trajetórias escolares pouco prováveis: o caso dos

(25)

O intuito de Lacerda ao escolher o ITA como referência para sua pesquisa se deu pelo fato desta instituição ter prestígio bastante elevado e cursos de grande seletividade, dessa forma, poder-se-ia potencializar a improbabilidade de ingresso e longevidade escolares das minorias estatísticas, considerando a maioria dos que ingressam no instituto (ITA). Além disso, o ITA é uma instituição com características bastante específicas, diferente das instituições que aparecem nas demais pesquisas desenvolvidas sobre o mesmo assunto, como explica Lacerda:

O Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) é uma escola pública de ensino superior reconhecida socialmente como uma instituição de alta qualidade. O ITA se localiza na Base da Força Aérea Brasileira, em São José dos Campos, interior do estado de São Paulo. O Instituto forma engenheiros civis e militares, nas áreas de Engenharia Aeronáutica, Engenharia Eletrônica, Engenharia Mecânica Aeronáutica, Engenharia de Infraestrutura Aeronáutica e Engenharia da Computação e vincula-se ao Comando da Aeronáutica – Ministério da Defesa. (2006, p. 40).

O trabalho de Lacerda deixou visível que embora os sujeitos pesquisados fossem oriundos de camadas menos favorecidas de capital econômico, cultural e escolar, todos estudaram em escolas públicas diferenciadas durante o ensino médio, isto é, três dos sujeitos estudaram em escola pública federal, dois em escola pública estadual, porém em curso profissionalizante e um em escola militar. Além disso, o histórico escolar do ensino fundamental desses jovens é de excelência.

Lacerda ressalta que, as escolhas feitas pelos sujeitos com apoio de suas famílias foram boas e contribuíram para a entrada dos mesmos no ITA. Nos relatos apresentados por Lacerda, os sujeitos explicam como foram feitas as escolhas pelo estabelecimento de ensino que pretendiam cursar o ensino médio tendo como critério que fosse uma boa escola, bem conceituada.

Os pais dos sujeitos sempre exigiram bons resultados dos filhos, dessa forma o habitus

de estudo sempre fora uma prática dos sujeitos desde os primórdios de sua escolarização. É interessante pontuar que, a figura materna no incentivo aos estudos não foi predominante como aparece em outras pesquisas.

Percebe-se com a pesquisa de Lacerda que as práticas familiares e disposições dos iteanos tornaram pensáveis e possíveis seus destinos escolares devido à “importância das

relações Inter geracionais ou do esforço das gerações na constituição de percursos escolares

de excelência” (p. 370) e, principalmente pela importância e sentido dados à escola pelas gerações familiares.

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populares”. Este, porém, procura levantar hipóteses sobre casos de longevidade escolar. A autora salienta, assim como Viana, que são poucos os estudos que tentam explicar como algumas pessoas conseguem escapar da dura realidade de áreas urbanas que supostamente tendem a impedir a continuidade escolar após o ensino médio.

A pesquisa de Zago procura investigar não somente o que levou jovens de camadas socialmente desfavorecidas ao êxito, mas também como se deu o acesso e a permanência dos mesmos no ensino superior. Sendo assim, seu estudo está voltado para estudantes universitários originários de escolas públicas pertencentes a famílias pouco favorecidas economicamente e com capital cultural reduzido.

Os resultados da pesquisa de Zago (2006) apontam que mesmo dentro das universidades, os sujeitos das camadas desfavorecidas continuam sofrendo com as desigualdades sociais, seja pela opção do curso ou pelas variadas dimensões da vida acadêmica. Sendo assim, estudar esses casos é de grande relevância, pois em suas particularidades todos eles podem contribuir para melhores respostas sobre o que é que pode ser chamado de sucesso escolar improvável.

Ainda em 2006, Wilson Mesquita de Almeida apresentou sua dissertação ao Programa de Pós- Graduação em Sociologia, do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Seu trabalho investiga como se dá a permanência de um grupo de estudantes com desvantagens econômicas na Universidade de São Paulo.

Os alunos pesquisados compõem um grupo de dezessete jovens com desvantagens econômicas, caracterizados por Almeida como “trabalhadores-estudantes”, pois tinham que

conciliar jornada de trabalho durante o dia com jornada de estudo à noite, além disso, a maioria dos jovens pesquisados estudaram em escolas públicas.

Almeida procurou fazer uma integração entre o acesso e a permanência ao ensino superior, porém se dedicou a investigar especialmente e de maneira pormenorizada a vivência

desses jovens dentro da USP e as “diferenças na qualidade da educação recebida pelos

diversos segmentos sociais presentes na universidade pública”. (Almeida, 2006, p.6).

Os resultados apontados por Almeida colocam em questão a postura dos órgãos universitários, pois do que adianta os jovens de camadas desfavorecidas ingressarem na universidade pública se a gratuidade do curso por si só não basta para que esses jovens tenham uma boa formação?

(27)

desigual, já que o conhecimento embora seja oferecido a todos, não é apropriado satisfatoriamente por todos. Como é o caso de E., que abordaremos no quarto capítulo.

Outro aspecto de grande importância ressaltado por Almeida refere-se à postura e autodeterminação desses jovens desfavorecidos econômica e socialmente que, com muito esforço conseguiam se manter no curso.

Já na perspectiva da Psicologia Social, Débora Cristina Piotto (2007) apresentou sua tese ao Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo com o objetivo de analisar a trajetória escolar e também a experiência universitária de estudantes de cursos de alta seletividade da USP oriundos das camadas populares.

Embora haja semelhança com os trabalhos de Portes (2001) e de Almeida (2006), a pesquisa de Piotto difere, pois procura discutir, os significados que os próprios estudantes dão ao ingresso e permanência na universidade pública.

O trabalho de Piotto muito contribuiu para minha reflexão sobre o tipo de instrumento de pesquisa que ela utilizou. Percebe-se que as entrevistas não diretivas, quando feitas com o rigor e preparo necessários abrem um leque de informações que podem ser tão eficientes quanto o uso bem feito de questões fechadas.

Piotto dedicou mais de duzentas páginas de sua pesquisa a entrevistas com os estudantes. Ela afirma que suas trajetórias são singulares, fazendo-se refletir não apenas sobre o acesso e a permanência desses estudantes em universidades públicas, mas também, sobre a herança psíquica e de sentimentos.

Piotto (2007) conclui que os maiores incentivos internos dos estudantes parecem ter sido:

a grande capacidade de estudo, capacidade de se esforçar em busca de algo, capacidade de renúncia, de determinação, de disciplina, capacidade de preservar, de insistir e de resistir. Externamente, vimos que os estudantes contaram com o apoio e a ajuda da família, do grupo de jovens, da esposa, dos amigos, dos professores, dos ensinamentos da Guarda Mirim. A partir desses apoios, os estudantes entrevistados iniciaram um movimento novo. Apesar de sofrerem, eles não lamentam, buscam agir. Agir novamente, reagir. (p. 291).

Piotto, dessa forma, posicionou-se contrariamente à maioria dos estudos sobre longevidade escolar em camadas populares, destacando que embora o sofrimento esteja presente nessas trajetórias, não é o fato de maior destaque na perspectiva desses jovens, que veem em suas histórias um motivo para orgulharem-se de si próprio, pois estavam inseridos dentro de um universo que parecia ser alheio a eles.

(28)

um curso superior público, além disso, contrapondo outras pesquisas, a autora destaca o quanto a entrada nesse nível de ensino pode abrir outras possibilidades de vida, participação em movimentos estudantis, acesso a outros universos culturais, mesmo com todas as dificuldades que também foram salientadas.

A autora acredita que, dar enfoque às possibilidades de mudança de vida de jovens provenientes de camadas populares com o ingresso e permanência em universidades públicas, contribui para se pensar em possibilidades de aumento de número de vagas nessas instituições de ensino.

Outra pesquisa importante que não podemos deixar de ressaltar é a tese de Maria do

Socorro Neri Medeiros de Souza (2009) “Do seringal à universidade: o acesso das camadas

populares ao ensino superior público no Acre” da UFMG. Sua pesquisa objetivou realizar um exame da presença das camadas populares no ensino superior público do Acre nos cursos mais seletivos da Universidade Federal do Acre (UFAC). Além disso, procurou analisar como se deram as trajetórias de alguns jovens provenientes dessas camadas.

É importante salientar que, a UFAC é a única instituição de ensino público do estado do Acre e que embora 60% das vagas em 2008 tenham sido ocupadas por estudantes de camadas populares, nos cursos de maior prestígio acadêmico e social, Direito e Medicina, a presença

dessas camadas é quase inexistente. “No primeiro, apenas 20% das vagas foram ocupadas por estudantes provenientes de famílias fracas detentoras de capital cultural e escolar; e no

segundo, a presença deles é ainda menor, somente 7,5% das vagas”. (Souza, 2009, p. 16)

De acordo com Souza (2009), o contexto acreano foi um dos diferenciais de sua pesquisa, pois até então, não havia sido explorado. Souza procurou explicitar que a definição

de “camadas populares” no contexto acreano, implica um modo específico de vida cultural

típico do mundo dos seringais. De maneira geral, o objetivo da autora foi de:

contribuir para a compreensão das desigualdades relacionadas ao acesso a esse nível de ensino, problematizando as transformações nas demandas e nas práticas escolares daqueles que dependem exclusivamente do sistema público para se beneficiar do processo de escolarização e, por meio dele, aumentar suas chances de inserção qualificada na vida social e no mundo do trabalho. Além disso, ao reconstituir biografias escolares de estudantes que tiveram acesso aos cursos mais seletos da UFAC, o estudo estará contribuindo com o esforço desenvolvido pelas pesquisas atuais que buscam conhecer como se constituem trajetórias escolares longevas no seio das camadas populares. (p. 28).

Souza conseguiu apreender que a família desempenha um papel de grande importância no que concerne à longevidade escolar de estudantes das camadas populares, por outro lado, salienta a importância de se analisar as conjunturas históricas em que essas camadas estão

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que ainda não foi capaz de combater as desigualdades e promover a democratização das

oportunidades escolares” (Souza, 2009, p. 191), já que o acesso desses jovens a cursos

superiores prestigiosos não garantiu o sucesso social.

Dos trabalhos pesquisados, pareceu-me que o último realizado foi o de Felipe de Souza

Tarábola (2010) “Quando o ornitorrinco vai à universidade. Trajetórias de sucesso e

longevidade escolares pouco prováveis na USP: escolarização e formação de habitus de

estudantes universitários das camadas populares”. Em sua dissertação apresentada à

Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, Tarábola procurou reconstruir trajetórias de estudantes oriundos da rede pública que ingressaram em cursos diversificados da USP até o ano de 2005, tentando estabelecer um diálogo entre a Sociologia e a Psicologia.

O ano de 2005 foi escolhido estrategicamente, pois ainda não havia sido implantado o INCLUSP (Programa de Inclusão Social da USP), que reúne uma série de iniciativas para a inclusão e permanência de alunos de escola pública à Universidade de São Paulo.

O objetivo inicial de Tarábola era investigar e demostrar como seria possível alunos de camadas populares, oriundos de escola pública ingressarem na USP sem apropriação de qualquer tipo de benefício ou bolsa e ainda obterem resultados melhores do que os oriundos de outras camadas sociais. O pesquisador, porém, não conseguiu localizar esse tipo de aluno com disposição para participar da pesquisa. Aí é que suas estratégias tiveram que ser modificadas, fazendo-o pensar como o passado pode explicar o presente.

Tarábola não se diz decepcionado por não conseguir encontrar o que queria com sua

pesquisa, isto é, os “ornitorrincos, pessoas de um determinado perfil socioeconômico e cultural-escolar que não poderiam ter seu desempenho explicado por nenhuma característica

geralmente a eles atribuídas”. (2010, p. 391)

Assim conclui que, a Sociologia precisa dar mais importância às singularidades sociais, aos elementos mais microscópicos da vida humana, que foi o que ele fez ao analisar as entrevistas. Além disso, salienta que se deve abrir um espaço maior à perspectiva histórico-cultural, que parte do entendimento da vida como processo de transformação advindo de uma dificuldade, um desafio, para contribuir com a compreensão das trajetórias singulares em questão.

(30)

De acordo com as análises das pesquisas referenciadas pude concluir que as pesquisas de Almeida (2006), Piotto (2007) e Tarábola (2009) tiveram como campo de investigação apenas a USP, algo que não pretendo privilegiar devido à grande importância e reconhecimento de outras universidades públicas como UNICAMP, UNESP e UNIFESP, que têm ingressantes de camadas populares.

Os trabalhos de Portes (2001), Lacerda (2006), Piotto (2007) e Souza (2009) referem-se ao acesso dos alunos aos cursos de alta seletividade.

A pesquisa de Portes (2001) estabelece relação com o artigo de Zago (2006) e com a pesquisa de Almeida (2006) no que concerne questionar se há de fato sucesso na entrada de camadas populares na universidade considerando a realidade em que vivem no campus e as dificuldades que passam para se manter no curso.

Piotto (2007), porém, destaca que há mais satisfação do que sofrimento dos egressos de camadas populares em universidade pública.

De maneira geral, todas as pesquisas abordam e dão importância à família nos percursos longevos de sujeitos provenientes das camadas populares, porém Portes (1993), Viana (1998), Zago (2000) e Lacerda (2006) privilegiam esse aspecto no desenvolvimento de suas pesquisas.

Por outro lado, as pesquisas que não tiveram como foco principal as disposições familiares, deram maior atenção às disposições de habitus e às caraterísticas singulares dos sujeitos entrevistados como, Silva (1999), Portes (2001), Almeida (2006), Piotto (2007) e Tarábola (2010).

Souza (2009), além de dedicar um espaço importante para as famílias em sua pesquisa, aborda o aspecto histórico e bastante singular do mundo dos seringais para compreender as disposições de habitus nesse grupo.

É importante salientar que em todos os trabalhos foram utilizados entrevistas e diversos questionários como recurso de investigação.

Percebe-se que examinar a existência de práticas e processos que têm lugar na escola e que, de alguma forma, contribuem para os casos de longevidade escolar relatados, não constituiu objeto de nenhum desses estudos. E esse aspecto será enfatizado em minha pesquisa além de basear-se na ideia de singularidades dos sujeitos, ideia esta defendida por Bernard Lahire (2008). Sobre essa ideia ele afirma:

(31)

dos desempenhos, dos resultados, podem esconder às vezes estilos de sucesso diferentes (p. 31).

(32)

CAPÍTULO 2

SINGULARIDADES: RELAÇÃO COM O CAPITAL ECONÔMICO, CULTURAL E SOCIAL

2.1. O capital cultural

Bourdieu (1998a) afirma que são as condições objetivas relacionadas à pertença social da família que definem suas atitudes e dominam suas escolhas. Nesse sentido, as atitudes dos pais acabam influenciando as escolhas das crianças. Se os pais não acreditam que podem

“chegar mais longe” é muito provável que os filhos incorporem essa condição.

Partindo dessa premissa, comecei a pensar em algumas hipóteses que poderiam ser levantadas em minha pesquisa, como a possibilidade de mudança de habitus dos sujeitos que escolheram um destino diferente da maioria, inclusive diferente dos próprios pais.

Por outro lado, muitos pais esperam ver nos filhos o retrato daquilo que não conseguiram ser. Desejam que o filho chegue aonde não chegaram. A família que aspira obsessivamente se ver realizada no sucesso futuro do filho pode acabar ultrapassando o que deveria ser um investimento pedagógico. Muitos pais acabam desorganizando outras disposições familiares em prol de um superinvestimento na escolarização dos filhos.

De acordo com Bourdieu (1998a), o acesso ao ensino superior ocorre de maneira desigual dentre os sujeitos das diferentes classes sociais:

Um jovem da camada superior tem oitenta vezes mais chances de entrar na Universidade que o filho de um assalariado agrícola e quarenta vezes mais do que um filho de operário, e suas chances são, ainda, duas vezes superiores àquelas de um jovem de classe média. (p. 41).

Dessa forma, para entender a exclusão das crianças desfavorecidas é necessário descrever os mecanismos que justificam tal eliminação. Bourdieu (1998a) afirma que cada família tem certo capital cultural que transmite às crianças e, também, um sistema de valores que é interiorizado. Dessa forma, quando a criança inicia sua vida escolar esses traços herdados da família contribuem para que suas experiências escolares distingam-se de outras crianças cujo capital cultural é mais elevado, o que consequentemente diferenciará nos resultados de êxito.

(33)

outras, independentemente da renda ser igual, a probabilidade de êxito escolar é maior. Contudo, deve-se considerar as diferentes variáveis existentes nos grupos.

Para Bourdieu (1998a), o nível cultural da família é o fator gerador das oportunidades da criança chegar ao ensino secundário ou superior, isto é, as chances que a criança tem de ser bem sucedida dependem da herança cultural que elas carregam e isso fica mais evidente quando elas entram na quinta série, desvinculando-se da homogeneidade característica do período escolar anterior.

Para investigar a desigualdade de desempenho escolar de crianças de diferentes classes sociais, Bourdieu utilizou a noção de capital cultural e sua distribuição entre as classes e frações de classe rompendo, dessa forma, com a visão comum de que o sucesso ou o fracasso escolar se relacionam com as aptidões naturais de cada ser humano.

Dessa forma, o capital cultural pode existir sob três formas de acordo com Bourdieu (1998c), sendo:

no estado incorporado, ou seja, sob a forma de disposições duráveis do organismo; no estado objetivado, sob a forma de bens culturais - quadros, livros, dicionários, instrumentos, máquinas, que constituem indícios ou a realização de teorias ou de críticas dessas teorias, de problemáticas, etc.; e, enfim, no estado institucionalizado, forma de objetivação que é preciso colocar à parte porque, como se observa em relação ao certificado escolar, ela confere ao capital cultural - de que é, supostamente, a garantia - propriedades inteiramente originais. (p. 74).

As crianças mais abastadas não herdam apenas suporte econômico dos pais. “Elas herdam também saberes, gostos e um „bom gosto‟” (p.45) o que permite a elas uma

rentabilidade escolar maior, possível devido à acumulação inconsciente ou dissimulada de capital cultural- estado incorporado.

O capital cultural no estado incorporado apresenta um grau de dissimulação maior do que o que se apresenta no capital econômico, o que o leva a funcionar até mesmo como capital simbólico, porém, a necessidade econômica reflete o tempo de acumulação de capital cultural. Sendo assim, a família que detém certo capital cultural, mas não tem tempo para se dedicar à sua acumulação devido às necessidades econômicas, não conseguem prolongar os estudos dos filhos.

De acordo com Bourdieu&Passeron (1964a) a origem social é um fator determinante das desigualdades sociais. É dessa forma que as classes desfavorecidas sofrem um processo de eliminação durante todo o percurso escolar, pois as necessidades dos estudantes de classe baixa refletem suas escolhas e até mesmo suas expectativas em relação ao ensino superior.

(34)

devido às disposições herdadas do meio social de origem, sendo assim, o currículo desses estudantes é mais diversificado em função do capital cultural já herdado.

No estado objetivado, o capital cultural existe por meio do capital econômico, que é a garantia da aquisição de bens culturais como livros, pinturas, esculturas, etc.. Porém, é necessário que haja a incorporação do capital cultural para que ele se objetive, isto é, não basta ter um livro importante para ficar de enfeite em uma estante sem que nunca seja lido. Portanto, à apropriação de um bem cultural, por exemplo, conjuga-se a necessidade do poder econômico para a aquisição e a incorporação do capital cultural para seu uso, disposto pessoalmente ou por procuração.

É importante ressaltar que a objetivação do capital cultural apoia-se também em privilégios culturais. O privilégio cultural relaciona-se à frequência de visitas a ambientes culturais como teatros, museus, concertos, porém, os menos favorecidos têm menos tempo para dispor, pois dispendem o tempo que têm com atividades relacionadas ao seu meio social de origem, muitas delas relacionadas ao trabalho. Sendo assim, a esperança subjetiva desses sujeitos de alcançar níveis mais altos torna-se mais fraca do que a probabilidade objetiva.

De acordo com Bourdieu&Passeron (1964c), embora a escola seja a única fonte de acesso à cultura aos desfavorecidos, ela contribui grandemente com a ampliação das desigualdades frente à cultura e à aquisição de cultura. A escola desvaloriza e ignora os alunos ao propor trabalhos que não elevam o conhecimento dos menos favorecidos por serem escolares demais.

Dessa forma, os menos favorecidos que já estão em desvantagem em relação aos mais favorecidos, devido à herança cultural desigual que tiveram, são tratados como iguais apenas formalmente, pois sua origem, classe, família, marcam um conjunto de características e conhecimentos prévios próprios do seu meio de origem e que a escola acaba reforçando ao invés de ser o motor responsável pela democratização e ampliação cultural para esses grupos.

É assim que a escola serve a privilégios. Da mesma forma que reforça a condição de origem dos menos privilegiados, reforça a condição de origem dos mais privilegiados pressupondo que ambas as classes tenham a mesma predisposição de entendimento, discussão e reflexão sobre aspectos culturais. Como dizem Bourdieu&Passeron (1964a), a escola propõe

“conversas alusivas que só esclarecem pessoas já esclarecidas” (p.38).

E é por esse caminho que envereda a institucionalização do capital cultural como forma de reconhecimento legal de sua incorporação, isto é, o capital cultural se apresenta no

(35)

exames. Porém, para Bourdieu&Passeron (1964c), “a igualdade formal que assegura a competição não faz mais que transformar o privilégio em mérito, pois permite que se continue exercendo a ação de origem social, porém através de caminhos mais secretos”. (p. 104)

É essa forma dissimulada de conceber a realidade que permite a acentuação das desigualdades sob o postulado do exercício da igualdade, haja vista, uma igualdade apenas formal, pois iguala a todos justificando que as desigualdades são naturais ou de dons e não de origem social.

Dessa forma, as classes privilegiadas legitimam seus privilégios culturais, apoiadas na ideologia que os autores chamam de carismática, isto é, uma ideologia que valoriza os dons, assim mascarando um racismo de classe inculcado de forma que nunca venha a aparecer.

Essa ideologia carismática, dotada de essencialismo, redobra os determinismos sociais fazendo com que os estudantes pobres acreditem que suas ações e seus resultados são reflexos de sua condição social, portanto de sua própria natureza.

Além do concurso, outro exemplo é o exame – critério de acesso ao ensino superior –, que dissimula a seleção social sob a aparência da seleção técnica contribuindo para a legitimação da reprodução das hierarquias sociais por meio do que Bourdieu&Passeron (1975) chamam de “transmutação das hierarquias sociais em hierarquias escolares” (p.186).

A decorrência dessa transmutação é a tendência à autoeliminação, pois os alunos das classes desprivilegiadas acabam se excluindo mesmo antes do exame. Além disso, os que conseguem escapar à eliminação do exame têm maior probabilidade de entrar em estabelecimentos de ensino cujas oportunidades de ascensão ao nível superior do curso são mais fracas.

É importante ressaltar que,

a esperança subjetiva que conduz um indivíduo a se excluir depende diretamente das condições determinadas pelas oportunidades objetivas de êxito próprios à sua categoria, de modo que ela se inclui entre os mecanismos que contribuem para a realização das probabilidades objetivas. (Bourdieu;Passeron, 1975, p. 191).

2.2. O espaço social, a constituição do habitus e o capital social

Para Bourdieu (1979) todas essas questões anteriormente abordadas estão ligadas ao

“espaço social” e à maneira como o habitus se constitui dentro desse espaço.

Tendo em vista que o espaço social “é uma representação abstrata, produzida

(36)

162), podemos assim observar os estilos de vida dos agentes comuns e a divisão em classes por meio da constituição do habitus que é “o princípio gerador de práticas objetivamente classificáveis e, ao mesmo tempo, sistema de classificação (principium divisionis) de tais

práticas”.

É necessário compreender que existem dois componentes que definem o habitus, pois além de ser uma estrutura estruturada é também estruturante, isto é, além de ser gerador de práticas ou obras classificáveis é dotado de sistemas de percepção e apreciação dessas práticas (o gosto). Portanto, o habitus está relacionado a uma pertença que corrobora os sinais de distinção entre as classes sociais.

As classes dominantes se apropriam de bens culturais que as tornam distintas, dotadas de um status social superior, por outro lado, as classes dominadas aderem a bens culturais que cabem em seu bolso, muitas vezes visto como vulgar pelas classes dominantes.

Cabe ressaltar que o gosto é uma ideia burguesa, pois se relaciona com a liberdade e não com a necessidade. As classes mais baixas não têm gostos de luxo. Vestem-se, alimentam-se, divertem-se de acordo com a renda, com o volume de capital econômico que adquirem com o trabalho. Sendo assim, o espaço social é determinado “pelo volume e pela estrutura do capital”. (Bourdieu, 1979. p. 196).

Portanto, a mobilidade social das classes desprivilegiadas está profundamente relacionada ao aumento do volume de capital cultural, econômico e social, fator determinante para a ascensão social dessas classes.

De acordo com Bourdieu (1998b):

O capital social é o conjunto de recursos atuais ou potenciais que estão ligados à posse de uma rede durável de relações mais ou menos institucionalizadas de interconhecimento e de Inter-reconhecimento ou, em outros termos, à vinculação a um grupo, como conjunto de agentes que não somente são dotados de propriedades comuns (passíveis de serem percebidas pelo observador, pelos outros ou por eles mesmos), mas também são unidos por ligações permanentes e úteis. (p. 67).

Por tanto, é por meio das relações sociais e do volume do capital, seja econômico ou cultural que se configura o volume do capital social.

(37)

Por outro lado, SETTON (2005) ao se tratar da “Constituição de um novo capital

cultural” por alunos com baixa escolaridade que conseguiram ingressar em cursos de alta

seletividade da Universidade de São Paulo, lembra:

(...) Além de fatores relacionados à esfera familiar e escolar considerei a hipótese de que o estudante brasileiro investigado se socializa a partir da interdependência de sistemas híbridos construídos pelas instâncias família e escola, mas também por um sistema difuso de informações veiculado pela cultura das mídias. (p.95).

A autora salienta que existem muitas diferenças de acesso a bens culturais entre as

famílias que contribuem para o sucesso escolar e, um deles é o “capital cultural midiático” (p.

96) associado a outras estratégias pedagógicas.

Dessa forma, as desvantagens encontradas pelos menos favorecidos podem ser ao mesmo tempo, a mola propulsora de sua ascensão, isto é, pode ser uma incitação, o despertar de um desejo de superar tal condição por meio dos recursos que estão à sua volta e das relações que estabelecem em seu meio social.

De acordo com Lahire (2005),

estudar o social individualizado, ou seja, o social refractado num corpo individual que tem a particularidade de atravessar instituições, grupos, campos de forças e de lutas ou cenas diferentes, é estudar a realidade social na sua forma incorporada, interiorizada. Como é que a realidade exterior, mais ou menos heterogênea, se faz corpo? Como é que as experiências socializadoras múltiplas podem (co) habitar (n)o mesmo corpo? Como é que tais experiências se instalam de modo mais ou menos duradouro em cada corpo e como é que elas intervêm nos diferentes momentos da vida social ou da biografia de um indivíduo? (p. 14).

É importante ressaltar que o grupo ou a rede de relações à qual um sujeito pode obter algum lucro, seja material ou simbólico é resultado da construção de estratégias conscientes ou inconscientes que concretizam as relações sociais fazendo com que elas sejam duráveis e, ao mesmo tempo, permitindo que os sujeitos possam usufruir dos recursos do grupo ou da rede. Dessa forma, ao ter acesso aos recursos o sujeito também tem acesso à quantidade e à qualidade desses recursos.

Bourdieu (1998b) afirma que:

embora seja relativamente irredutível ao capital econômico e cultural possuído por um agente determinado ou mesmo pelo conjunto de agentes a quem está ligado (como bem se vê no caso do novo rico), o capital social não é jamais completamente independente deles pelo fato de que as trocas que instituem o inter-reconhecimento supõem o reconhecimento de um mínimo de homogeneidade “objetiva” e de que ele exerce um efeito multiplicador sobre o capital possuído com exclusividade. (p.67).

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