Rio de Janeiro: uma cidade esportiva
Walmer Peres Santana1
A partir da chegada da família real portuguesa, em 1808, o Rio de Janeiro vivenciou transformações no seu cenário urbano, na economia e na política com o objetivo de adequá-la para que melhor desempenhasse a função de sede do Império Português. Nesse contexto, cresceu a dinâmica pública, tendo sido observadas as primeiras iniciativas associativas e melhor delineamento de um mercado ao redor dos entretenimentos. As diversões tornaram-se mais valorizadas e criou-se uma ambiência para as práticas esportivas.
Na segunda década do XIX, com o avanço dos movimentos independentistas e a efetivação da independência política frente à Portugal, esse processo se acentuou, articulando-se com os primeiros momentos de construção de uma ideia de nação e formação de uma identidade nacional própria. O Brasil buscava identificar-se internacionalmente como um dos países mais avançados do mundo e para isso procurou associar-se ainda mais com os padrões civilizatórios europeus, especialmente do eixo Londres e Paris.
A influência dos estrangeiros foi importante para desenvolvimento do campo esportivo do país. Os europeus trouxeram o hábito e o desejo de estruturar clubes, organizar competições esportivas e até mesmo de ensinar práticas ligadas às atividades físicas/esportes. Na década de 30 do Oitocentos, as corridas de cavalos passaram a ser cada vez mais recorrentes, com forte presença dos britânicos, cuja presença se ampliou na metrópole carioca. As provas turfísticas eram bastante valorizadas pelas elites, e gradativamente começaram a atrair um número maior de interessados, gente que buscava desfrutar das novas oportunidades de convivência em público.
Os “desafios de canoas” tornaram-se grandes atrações em uma cidade na qual progressivamente a população passava a ocupar mais as praias, a princípio por motivações médicas, posteriormente também por razões de entretenimento, um sinal dos avanços nos costumes. Um dos desafios de canoas que mais teve repercussão nas terras cariocas
1 Mestre em História Política pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Historiador do Club
ocorreu em 1846, quando as canoas “Lambe-Água” e “Cabocla” disputaram um páreo cruzando a Baía de Guanabara, saindo de Jurujuba, em Niterói, com destino final a praia de Santa Luzia, no Rio de Janeiro. A guarnição da Cabocla foi a vencedora.
Não obstante a existência de manifestações da prática esportiva no Rio de Janeiro nas três primeiras décadas do século XIX, a não organização de clubes impedia uma maior sistematização das modalidades, como o turfe, o remo e o críquete. A partir da década de 1850 ocorre avanços na estruturação do Estado brasileiro, com reformas nos mais diferentes âmbitos e adesão sistemática a discursos civilizatórios. A potencialização dos divertimentos emerge como um dos desdobramentos de um conjunto de mudanças: no âmbito da economia (diversificação dos meios de produção), na política (maior estabilidade do Império e estruturação da burocracia nacional) e na cultura (mais intensa relação com parâmetros simbólicos e materiais que vinham da Europa). Nesse contexto, começou-se a melhor estruturar o campo esportivo na sociedade da Corte, tendo como base a fundação das pioneiras agremiações esportivas do Rio de Janeiro (e provavelmente do Brasil). Nos anos de 1849 e 1851, respectivamente, foram criados o Club de Corridas, entidade dedicada ao turfe, e a Sociedade Recreio Marítimo, agremiação destinada ao remo.
Tais experiências de clubes esportivas foram breves, mas renderam frutos. No caso do Club de Corridas, lançou-se as bases para outras semelhantes, estruturadas na década de 1850, momento no qual, mesmo com dificuldades e improvisações, a modalidade viveu seu momento de popularidade, celebrado num hipódromo construído nas redondezas da região central da cidade, o Prado Fluminense. Por sua vez, a Sociedade Recreio Marítimo (já no ano seguinte a sua fundação como Sociedade Regata) organizou regatas nos anos de 1851, 1852 e 1853, atraindo bastante a atenção do público carioca. Além disso, foram organizadas outras regatas através das iniciativas de grupos não organizados.
Português, igualmente criada e constituída por elementos lusos, mas que possuía as suas peculiaridades em relação a primeira entidade.
Apesar de terem coexistido diferentes modalidades esportivas na Corte brasileira da segunda metade do século XIX tenha coexistido diferentes modalidades esportivas (o turfe, o críquete, o remo, o ciclismo, a natação, a ginástica, as touradas), o primeiro esporte a se sistematizar no Rio de Janeiro foi o turfe. O turfe se estruturou em definitivo no Rio de Janeiro no final dos anos de 1870, com papel de destaque ao Jockey Club (fundado em 1868), uma das mais importantes agremiações da modalidade. O Derby Club foi outra agremiação turfística de destaque. Fundado nos finais da década de 1880, contribuiu para uma maior popularização das corridas. Se por um lado o Jockey Club era bastante ligado ao setor agropecuário, o Derby Club estava ligado mais a um estrato urbano das elites. Em 1932, o Derby Club se uniu ao Jockey Club para formar o Jockey Club Brasileiro.
O remo foi o segundo esporte a ser sistematizado no Rio de Janeiro. Malgrado essa prática esportiva existisse desde a década de 50 do século XIX, a sua consolidação se efetivou de modo mais lento em relação ao turfe. Mesmo diante dos avanços dessa prática entre 1850 e 1970, ainda não existiam as condições organizacionais nem tampouco a aceitabilidade total, tanto por parte dos membros das elites, quanto da população em geral para que o esporte se desenvolvesse plenamente. As restrições ao remo estavam relacionadas a fatores como a estética corporal dos remadores (em uma época em que se valorizava corpos mais magros e fracos), a pouca quantidade de roupa que eles usavam (o que gerava críticas quanto ao pudor da modalidade) e a compreensão de que tratava-se de uma atividade física intensa (quando os exercícios eram muitas vezes considerados prejudiciais à saúde e de menor valor perante as atividades intelectuais).
Em 1867 foi criado o Club de Regatas, que realizou atividades na enseada de Botafogo naquele ano e em 1868. Entretanto, seria na década de 70 do século XIX que surgiria o clube que definitivamente marcou o estabelecimento do remo na urbe carioca: o Club Guanabarense (fundado em 1874). No início da década de 80 do Oitocentos, o Guanabarense organizou várias regatas, inclusive entre clubes que originalmente se destinavam a outras práticas, como a ginástica. Esse clube foi muito importante por ter sido o primeiro a conseguir popularizar o esporte com suas atividades constantes.
Nas duas últimas décadas do Oitocentos, um conjunto de mudanças melhor se delineiam na cidade e engendram novos parâmetros culturais, que contribuem para fazer declinar as restrições ao esporte náutico. A partir de então, o remo passa a se estruturar melhor e cada vez mais a ser aceito pela população, bem como encarado como um sinal dos “novos tempos”, diante do avanço dos aspectos da modernidade que a cidade vivenciava. Nesse contexto, os banhos de mar tiveram um papel importante. Desde meados do século XIX, tal prática vinha ganhando espaço na cidade. O aumento da aceitabilidade e da presença dos banhos de mar, mesmo nos primeiros momentos quando ainda possuíam um caráter exclusivamente terapêutico, forneceram condições para que se desenvolvesse uma nova sociabilidade nas praias, plantando as sementes para o desenvolvimento dos esportes náuticos da metrópole.
No último quartel do século XIX, observa-se uma maior valorização das vivências públicas. Os ventos da modernidade vindos da Europa traziam as notícias de um novo tipo de homem e novas preocupações com a estética corporal: o físico forte começaria a ser, gradativamente, valorizado. Os banhos de mar passaram a ser encarados como exercícios físicos relacionados à melhoria do padrão estético do corpo. Percebe-se o início da valorização de um novo modelo de corpo: mais exposto, mais forte, mais disposto aos exercícios físicos. A forma de se vestir também passa por mudanças. As roupas mais leves passam a cair no gosto da população. Assim, gestava-se um novo estilo de vida, sobre o qual o remo teve grande influência.
Club de Regatas Botafogo (em 01/07/1894), o Club de Regatas 15 de agosto (em 1894), a Escola Militar (em 1894), Grupo de Regatas Gragoatá (Niterói, em 05/02/1895), o Club de Regatas Icarahy (Niterói, em 11/06/1895), o Club de Regatas do Flamengo (em 17/11/1895, inicialmente, como Grupo de Regatas do Flamengo)177, o Club de Natação e Regatas (em 13/12/1896, inicialmente como Club de Natação), o Club de Regatas Boqueirão do Passeio (em 21/04/1897), o Grupo de Regatas Cajuense (em 12/10/1897) 178, o Club de Regatas Vasco da Gama (em 21/08/1898), o Club de Regatas Guanabara (05/07/1899, inicialmente como Grupo de Regatas Guanabara), o Grupo Náutico (Niterói, em 1900) e o Club Internacional de Regatas (em 16/09/1900).
Nos anos de 1890, se promoveu a relação definitiva do remo e os novos parâmetros de saúde, higiene e moralidade que se delinearam na metrópole carioca no decorrer do século XIX. Diante do contexto de conformação da prática do remo, alguns clubes procuravam criar uma entidade representativa das agremiações náuticas, que pudesse organizar as competições e fomentar essa prática na sociedade fluminense. Após o insucesso com a primeira tentativa em 1895, em 31 de julho de 1897 foi criada União de Regatas Fluminense. A partir de então, as regras tornaram-se cada vez mais organizadas e estruturadas pelos códigos e estatutos. As regatas deixaram de ser organizadas sem o aval da entidade organizadora.
Nos primeiros anos do século XIX, já se tinha realizado inúmeras competições de distintas práticas esportivas no Rio de Janeiro. O mercado de entretenimento estava cada vez mais diversificado. Nesse contexto, no qual verificava-se uma profusão da vida associativa e clubista, o futebol se inserir e consolidar-se. Apesar das primeiras experiências com esse esporte datarem do século XIX, essa prática melhor se estrutura a partir do Novecentos.
REFERÊNCIAS
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