MARCOS NEPOMUCENO DUARTE
O LIVRO COMO ESPETÁCULO:
transformações do campo editorial com o advento dos e-books
Tese apresentada à Universidade Presbiteriana Mackenzie como requisito parcial à obtenção do título de Doutor em Educação, Arte e História da Cultura.
Orientadora:
Prof
a.Dr
a. Maria da Graça Nicoletti Mizukami
São Paulo
2014
D812L Duarte, Marcos Nepomuceno.
O livro como espetáculo : transformações do campo editorial com o advento dos e-books / Marcos Nepomuceno Duarte. – 2014.
253 f. : il. ; 30 cm.
Tese (Doutorado em Educação, Arte e História da Cultura) - Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2014.
Referências bibliográficas: f. 199-203.
1. E-book. 2. Livros digitais. 3. Editoras. 4. Hipermídia.
5. Sistemas de ensino. I. Título.
CDD 371.32
MARCOS NEPOMUCENO DUARTE
O LIVRO COMO ESPETÁCULO:
transformações do campo editorial com o advento dos e-books
Tese apresentada à Universidade Presbiteriana Mackenzie como requisito parcial à obtenção do título de Doutor em Educação, Arte e História da Cultura.
Aprovado em:
Banca examinadora:
>
Prof
a. Dr
a. Maria da Graça Nicoletti Mizukami Universidade Presbiteriana Mackenzie
> Prof
a. Dr
a. Sonia Maria de Macedo Allegretti Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
>
Profª. Drª. Maria de Los Dolores Jimenes Peña
>
Prof. Dr. Alexandre Huady Torres Guimarães Universidade Presbiteriana Mackenzie
>
Prof. Dr. João Batista Freitas Cardoso
Universidade Presbiteriana Mackenzie
“Você está preparado para se apaixonar por um homem?”, indagou o Paulo Celso Krusche Monteiro quando soube que eu seria pai de um menino. Ele estava certo. Júlio, meu filho (quando você for mais velho e entender o que significa o doutorado na formação de uma pessoa, que não é apenas
“aquele trabalho da sua escola que não acaba
nunca”), saiba que dedico a você esses duros anos
de doutoramento e o precário resultado alcançado.
AGRADECIMENTOS
As “dívidas” são tantas que, certamente, esquecerei de pessoas importantes e queridas que colaboraram com esta tese. À todas elas, não só minhas desculpas por não citá-las mas, antes de tudo, o meu muito obrigado.
À Simone Mello Zaidan, minha esposa, pela paciência e carinho durante todos esses quatro longos anos.
À Maria de Los Dolores Jimenes Peña cuja orientação inicial permitiu que essa pesquisa assumisse riscos e, com isso, tivesse uma mínima chance de contribuir no entendimento do mundo (um mundo cada vez mais difícil de ser entendido).
Aos colegas da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em especial os professores Marcel Mendes e Wilson do Amaral Filho, que mesmo nos momentos mais
atribulados tinham sempre uma palavra de apoio e estímulo.
Aos colegas do Centro de Comunicação e Letras, em especial os professores Osvaldo Takaoki Hattori, Fred Izumi Utsonomiya, Celso Alves da Ponte, Patrício Dugnani e Ines Manuel Minardi que conhecem e praticam, como poucos, o significado das palavras respeito e amizade.
Ao pessoal da Ouvidoria e Central de Atendimento, em especial a Jamili Paulo Kury dos Reis, que com seu trabalho árduo permitiu que eu conseguisse tempo para finalizar essa pesquisa.
Ao Luiz Guimarães Monforte que sabe, como poucos, que as linguagens são naturalmente espetaculares.
Ao Marciano Lourenço de Souza, gerente da livraria Martins Fontes e livreiro por vocação, que ao indicar livros preciosos contribuiu muito para este trabalho.
À Lígia Duarte Müller, que cuidou do Júlio quando meu tempo se consumia na leitura e escrita. Ao Marcelo Nepomuceno Duarte e Cristiane Aiax Cosentino, por também cuidarem do meu filhote.
À Solange Nepomuceno Duarte que acompanhou vários passos dessa luta.
Aos meus pais, Pedro e Luiza (in memorian), com quem “converso” todos os dias quando me questiono sobre qual caminho seguir.
Saibam todos que meu carinho por vocês é sem fim.
Chuva , Oswaldo Goeldi, xilogravura a cores, 1957.
Não há guarda-chuva contra o poema
subindo de regiões onde tudo é surpresa como uma flor mesmo num canteiro.
Não há guarda-chuva contra o amor
que mastiga e cospe como qualquer boca, que tritura como um desastre.
Não há guarda-chuva contra o tédio:
o tédio das quatro paredes, das quatro estações, dos quatro pontos cardeais.
Não há guarda-chuva contra o mundo
cada dia devorado nos jornais sob espécies de papel e tinta.
Não há guarda-chuva contra o tempo,
rio fluindo sob a casa, correnteza carregando os dias, os cabelos.
(João Cabral de Melo Neto - A Carlos Drummond de Andrade)
RESUMO
O advento do e-book coloca um desafio para todos os profissionais que atuam no campo editorial tradicional (ou seja, baseado em livros impressos), sejam autores, agentes literários, editores, livreiros, designers, gráficas ou leitores. Essa situação se agrava em países como o Brasil, onde o mercado editorial é menos representativo e avançado que em alguns países considerados desenvolvidos. De forma similar aos assuntos que envolvem temas da cibercultura, as abordagens sobre o livro digital – em especial aquelas que o confrontam ao livro impresso – dividem-se entre apocalípticos e integrados (nos apropriando da célebre formulação de Umberto Eco);
ou seja, entre os que advogam o fim do livro impresso (em códice, como todos o conhecemos) e os que defendem sua sobrevivência. Ambos os grupos partem de uma mesma premissa: aquilo que denominamos de e-book é um sucessor natural do livro impresso. Essas discussões desconsideram aspectos relacionados à sociedade contemporânea: o fato de vivermos em uma época pautada pela transitoriedade, pela inovação e pela diversidade; do capitalismo ter avançado para um estágio em que as relações sociais e econômicas são mediadas por imagens (ou, na famosa formulação de Guy Debord, a “Sociedade do Espetáculo”); de que o conceito de leitura ampliou- se de forma significativa, orientado por aquilo que podemos chamar de “pós-cinema”, quando um sem-número de pequenas telas tornaram-se parte irrevogável de nossas vidas, alimentando uma cultura de fruição audiovisual eminentemente hipermidiática (e, por isso, centrada no uso de múltiplas linguagens e signos); o fato do livro, especialmente o livro didático, tornar-se mais que um produto, se transformar em um serviço em rede, ofertado por grupos empresariais capazes de fornecer uma experiência “espetacular” de leitura. Nesta tese, investiga-se o desenvolvimento dos e-books sob a ótica das linguagens e da educação, buscando construir uma análise pautada nas especificidades de uso e fruição da linguagem hipermidiática (que exige o domínio dos códigos verbal, sonoro e visual).
Palavras-chave: e-book. Livros digitais. Editoras. Hipermídia. Sistemas de ensino.
ABSTRACT
The beginning of e-books sets a challenge to all professionals that work on the traditional editorial field (which means, the field base on printed books), whether they are author, literary agents, publishers, designers, printing companies, or readers. This situation becomes heavier in countries such as Brazil, in which the editorial field is less representative and advanced in comparison to other countries considered more developed. In a similar way to subjects that concern topics around ciberculture, the approaches over digital books – especially the ones that are face up to the printed books – are divided between apocalyptic and integrated (taking into consideration the famous invention of Umberto Eco); this can be translated into the ones that promote the end of the printed books (the codex, as we all know it) and the ones that hold its survival. Both groups have the same initial idea: the thing we call e-book is the natural successor of the printed books. These discussions do not take into account the aspects related to the contemporary society: the fact that we live in a time ruled by transience, by innovation and by diversity; to which capitalism has advanced to a stage in which social and economic relations are intervened by images (or, in the famous Guy Debord’s formulation, “the society of the spectacle”) in which the concept of reading has enlarged in a significant way, orientated by that we can call “post-cinema”, when a countless number of small screens have become an irrevocable part of our lives, feeding a culture of audiovisual fulfillment highly hypermidiatic (and, thus, centered in the use of multiple languages and signs) the fact that the book, especially the schoolbook, became more than a product, it became a network service, offered by entrepreneurs groups capable of offering an “spectacular” experience. In this thesis, the development of e-books is investigated under the vision of languages and education, in order to build an analysis based on the specificity of use and fulfillment of the hypermidiatic language (that demands the control of the verbal, sonorous and visual codes).
Keywords: e-book. Digital books. Publishers. Hypermedia. Educational systems.
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Figura 1 – O filme Arca Russa ... 19
Figura 2 – Frames do videoclipe da música A Little Less Conversation ... 28
Figura 3 – Capas da série “50 Tons de Cinza” ... 78
Figura 4 – Homepage do site The Silent History – a new kind of novel ... 91
Figura 5 – Feed de notícias do Facebook ... 98
Figura 6 – “Janela” de edição de página de perfil da rede social Facebook ... 100
Figura 7 – A construção de “álbuns” como o elemento ordenador do material imagético publicado .. 101
Figura 8 – Ensaio fotográfico da peça A Via: Passageiros ... 102
Figura 9 – Vídeo publicado no Facebook ... 103
Figura 10 – Blog Insana mente sã ... 103
Figura 11 – Páginas do poema um lance de dados jamais abolirá o acaso ... 129
Figura 12 – Capa do livro Planoplenário e páginas do miolo ... 132
Figura 13 – Representação do cortejo indicado na obra ... 134
Figura 14 – O padrão de encolunamento da página se adapta à representação do poema ... 135
Figura 15 – O tratamento gráfico indica “vozes” no texto e a diagramação cria formas ... 137
Figura 16 – Páginas de abertura ... 138
Figura 17 – Imagens do livro La Cantatrice Chauve e de A Navalha na Carne ... 140
Figura 18 – páginas iniciais do livro A Navalha na Carne ... 141
Figura 19 – A própria estrutura física do ... 142
Figura 20 – “Deslizamento” semântico entre a linguagem visual e a linguagem verbal... 143
Figura 21 – A diagramação de texto e imagens ... 143
Figura 22 – Elementos verbo-visuais valendo-se de traços da linguagem sonora ... 144
Figura 23 – A ocupação parcial da página e a presença do texto ... 144
Figura 24 – A repetição de imagens indicando a passagem do tempo ... 145
Figura 25 – O texto apresentando, em sua forma, singularidades da linguagem visual ... 146
Figura 26 – A oposição texto-imagem, e o tratamento tipográfico, transformam texto em ilustração . 147 Figura 27 – Cena final e o livro acaba em blecaute ... 148
Figura 28 – Interface do e-book Frankenstein ... 150
Figura 29 – Montagem indicando como é a metáfora visual proposta para a interface do e-book ... 151
Figura 30 – Representação gráfica dos possíveis roteiros de navegação do e-book ... 152
Figura 31 – Tela de abertura do e-book Boa Noitinha ... 153
Figura 32 – Capas de livros (impressos) infantis ... 154
Figura 33 – Menu do e-book Boa Noitinha e do aplicativo D.P.A. ... 154
Figura 34 – Sequência de imagens da animação de abertura do e-book Boa Noitinha ... 155
Figura 35 – Animais da fazenda permitem interação... 155
Figura 36 – Sequência final do e-book Boa Noitinha ... 157
Figura 37 – Livro Multimídia Escola Digital Editora Leya ... 165
Figura 38 – Transformação do modelo de negócio do grupo Pearson... 178
Figura 39 – Modelo de atuação global proposto pelo grupo Pearson ... 179
Figura 40 – Linha do tempo da aquisição de empresas para o portfólio do grupo Abril Educação .... 181
Figura 41 – Marcas do portfólio da Abril Educação ... 181
Figura 42 – Organização das marcas do portfólio do grupo Abril Educação ... 182
Figura 43 – Screenshots do app Martha Speaks ... 185
Figura 44 – Telas do aplicativo ClassBuilder ... 187
Figura 45 – Telas do aplicativo ClassBuilder ... 188
Figura 46 – Telas do aplicativo ClassBuilder ... 189
Figura 47 – Recursos de Edição de áudio e animação no software ClassBuilder ... 190
Figura 48 – Tela do modo de apresentação da aula elaborada no software ClassBuilder ... 191
LISTA DE GRÁFICOS E TABELAS
Gráfico 1 – O efeito “50 Tons de Cinza” no segmento Literatura Estrangeira ... 77
Gráfico 2 – Evolução de Vendas de Livros com o tema “Papa Francisco” ... 78
Gráfico 3 – Trabalhando franquias: O Diário de um Banana ... 79
Quadro 1 – Número estimado de editoras ibero-americanas ... 73
Quadro 2 – Número de títulos publicados na América Latina em 2009 ... 74
Quadro 3 – Dimensionamento do mercado ... 75
Quadro 4 – Divisão do mercado... 75
Quadro 5 – Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro ... 75
Quadro 6 – Número de livrarias por Estados e por Capitais ... 80
Quadro 7 – Livros mais vendidos em 2013 ... 83
Quadro 8 – Você acredita que o conteúdo digital irá ultrapassar o livro impresso no Brasil... 197
LISTA DE ABREVIATURAS, SIGLAS E SÍMBOLOS
ANL – Associação Nacional de Livrarias
APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte
BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social CBL – Câmara Brasileira do Livro
CERLALC – Centro Regional para o Fomento do Livro na América Latina e Caribe FIPE – Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas
FNDE – Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação GREPPE – Grupo de Estudo e Pesquisa em Política Educacional IAC – Instituto de Arte Contemporânea
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística INE – Instituto Nacional de Estadística (Espanha) ISBN – International Standard Book Number MASP – Museu de Arte de São Paulo MEC – Ministério da Educação
OMC – Organização Mundial do Comércio PNLD – Programa Nacional do Livro Didático
SENAI – Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial
SNEL – Sindicato Nacional de Editores de Livros
TIC – Tecnologias da Informação e Comunicação
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 12
1. Após a cultura impressa, o surgimento de uma nova infosfera ... 18
2. Novos palcos para a leitura e novas matrizes para a edição ... 62
3. Quando o livro rouba a cena: a ruptura da página impressa (ou, ainda, o livro como espetáculo) ... 117
4. Em planoplenário: quando a rede é o palco principal ... 158
CONCLUSÃO: O terceiro sinal de um espetáculo já iniciado... 192
REFERÊNCIAS ... 199
ANEXO 1 – Construção de representação gráfica para visualização da proposta das três matrizes da linguagem e pensamento ... 204
ANEXO 2 – Análise diagramática do livro Planoplenário, de Mário Chamie ... 209
ANEXO 3 – Análise diagramática do livro A Navalha na Carne, de Plínio Marcos 220 ANEXO 4 – Análise diagramática do e-book Frankenstein, de Dave Morris ... 232
ANEXO 5 – Análise diagramática do e-book Boa Noitinha, de Heidi Wittlinger ... 236
ANEXO 6 – Relação dos Sistemas de Ensino identificados ao longo da pesquisa 252
INTRODUÇÃO
O fracasso das regras existentes
é o prelúdio para uma busca de novas regras
1.
Tomo a liberdade de redigir o início da introdução desta tese em primeira pessoa. Dessa maneira, creio, será mais fácil entender a proposição desta pesquisa.
Os primeiros questionamentos que alimentaram esta tese surgiram quando da leitura do livro A Construção das Ciências, de Gerárd Fourez, que busca contextualizar historicamente o desenvolvimento científico do ser humano. No mesmo período, inquietava-me as mudanças que começaram a impactar a indústria gráfica (eu, um filho de gráfico e formado Técnico Industrial em Artes Gráficas pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial [SENAI] e, por muitos anos, professor de disciplinas ligadas à Produção Gráfica e ao Projeto Gráfico, em cursos de graduação e especialização nas áreas de Comunicação Social e Design). Os dados demonstram acentuada retração desse segmento industrial e, segundo a Associação Brasileira da Indústria Gráfica (ABIGRAF), o ano 2013 apresentou uma retração de -5,6% na produção física industrial (se comparada ao ano de 2012) e projeta-se para 2014 uma retração de -1,7% (quando comparado ao ano de 2013), sendo que os produtos gráficos editoriais (jornais, livros, revistas etc.) lideram esse movimento de queda
2.
Incomodava-me o fato de as Artes Gráficas nunca terem se firmado no Brasil como uma área de saber, sempre constando como linha auxiliar de formação em cursos de graduação, ou integrada ao campo das “Artes & Ofícios”, por meio de cursos técnicos ou de formação de aprendizes. Em parte, a história de nosso país, se não justifica ao menos aponta hipóteses para essa posição precária do ensino das Artes Gráficas. Para além da já conhecida proibição portuguesa da atividade de impressão no Brasil Colônia, Luiz Antônio Cunha esclarece que “[...] a vigência de relações escravistas de produção no Brasil, desde os tempos da Colônia, funcionou sempre como desincentivo para que a força de trabalho livre se orientasse para o artesanato e a manufatura”
3e, sendo mais específico, registra que “[...] o emprego de escravos
1
KUHN. Thomas S. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 2007. p. 95.
2
ABIGRAF. Boletim de Atividade Industrial: Produção na Indústria Gráfica Brasileira – Dados referentes ao terceiro trimestre de 2013. nov. 2013, n. 21, p. 2.
3
CUNHA, Luiz Antonio. O Ensino de ofícios nos primórdios da industrialização. 2. ed. São Paulo: Ed. Unesp;
Brasília, DF: FLACSO, 2005. p. 3.
como carpinteiros, pedreiros, ferreiros, tecelões, confeiteiros e em vários outros ofícios afugentava os homens livres”
4, que passavam a buscar “[...] marcar sua distinção da condição de escravo, o que era da maior importância diante da tendência dos senhores/empregadores de ver todo trabalhador como coisa sua”
5. Além da escravidão, o estamento português é fundamental para entender a relação da sociedade brasileira com o trabalho. O trabalho é vertido em ação degradante, o empreendedorismo e a livre iniciativa são, também, constrangidos pela origem estamental e patrimonial do Estado português, colonizador e conformador de nossa sociedade, que além de deter os direitos sobre o território é também agente econômico atuante (na figura do próprio soberano), mesclando e moldando as estruturas do Estado (políticas-administrativas e jurídicas) aos seus interesses políticos e econômicos
6.
O Estado brasileiro, ainda no período do Império, instala as primeiras iniciativas de ensino de “Artes & Ofícios” nas dependências de Asilos de Órfãos e Desvalidos, como forma de criar meios para a futura sobrevivência dos menores desamparados
7. O SENAI, surgido na década de 1940 para atender a crescente demanda por mão de obra na emergente indústria brasileira, acaba por herdar essa “vocação” de amparo social, ao ofertar formação e ingresso no mercado de trabalho, considerando (também) critérios de precariedade social para seleção de seus alunos e oferta de benefícios. Desde seu início, o SENAI ofertou formação de profissionais para a indústria gráfica (impressores, tipógrafos, encadernadores etc.), porém sempre considerando a indústria como cliente (que necessitava adquirir mão de obra), e não o aluno (que necessitava adquirir formação) como sua missão. É o SENAI, em 1971 e por uma inciativa da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), que instala a primeira escola de nível técnico para ensino de Artes Gráficas no Brasil, denominada Colégio Industrial de Artes Gráficas, hoje Escola Senai Theobaldo De Nigris, que, além do curso técnico, abriga, desde 1998, a Faculdade de Tecnologia Gráfica (primeira neste segmento na América Latina)
8. Portanto, podemos dizer que o ensino das Artes Gráficas em nosso país foi pautado pela associação da intervenção
4
Ibid., p. 03.
5
Ibid., p 03.
6
FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. 3. ed. São Paulo: Globo, 2001. p. 60.
7
CUNHA, Luiz Antonio. O Ensino de ofícios nos primórdios da industrialização. 2. ed. São Paulo: Ed. Unesp;
Brasília, DF: FLACSO, 2005.
8
SENAI de Artes Gráficas. Disponível em: <http://grafica.sp.senai.br/institucional/1370/0/historico>.
Acesso em: 01 jun. 2014.
social e do atendimento às demandas da indústria, não contendo em sua essência um projeto de geração de conhecimento e formação do ser humano. Assustava-me a possibilidade de ver desaparecer, como uma área geração e transmissão de conhecimento, um segmento tão importante para a Comunicação Social brasileira.
Com um projeto formulado sobre essa proposta de pesquisa – e que defendia acriticamente as virtudes dos meios impressos diante de todas as mudanças ocorridas no mundo depois da segunda metade do século XX – é que ingressei no Doutorado.
Porém, nos primeiros trabalhos com a, então, orientadora (Profª. Drª. Maria de Los Dolores Jimenes Peña) chegou-se a um impasse: e se, de fato, a Indústria Gráfica estiver passando por um processo de superação histórica – semelhante ao ocorrido com a indústria fonográfica, fruto da completa digitalização da música –, qual terá sido a contribuição de sua pesquisa? Colocou-se como primeira tarefa o entendimento desse processo de mudança, já estudado por autores como Pierre Lévy e Manuel Castells. Ocorre, então, “um acidente bibliográfico”, que deflagra uma total reorientação do projeto. Tomo a liberdade (e paciência do leitor) de relatá-lo: buscava, em uma das bibliotecas da Universidade, autores dedicados ao tema da “inovação”
quando avistei, na prateleira, um livro cor de laranja; tomei-o nas mãos (atraído pela estranheza da cor) e a primeira frase que li na capa causou-me repulsa (“mais de 5 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo”), típica dos pudores acadêmicos que enxergam a popularidade com desconfiança; uma rápida folheada e, diante do primeiro parágrafo do primeiro capítulo, encontro uma escrita rápida e direta, que formulava modelos curiosos e originais para explicar situações que eram de difícil compreensão e hoje podem ser mais facilmente entendidas. Tinha em mãos O Choque do Futuro, de Alvin Toffler. Descansei apenas depois de encerrar a leitura de sua trilogia sobre mudança.
Em Choque do Futuro o exemplo, para indicar como as mudanças (que, entre outras características, é marcada pela transitoriedade) impactavam o mercado editorial, era tão simples e inquestionável que joguei por terra minhas últimas resistências: o desuso das capas duras (de cartão e couro) indicando como as pessoas reduziam sua expectativa de manter a posse dos livros. Nesse simples exemplo era possível visualizar os diversos atores do mercado gráfico-editorial, suas implicações industriais, econômicas e projetuais (design). É assim que essa pesquisa adquire a configuração descrita a seguir, dividida em quatro capítulos.
No primeiro, pretende-se estabelecer um panorama das mudanças surgidas no
século XX, que estabeleceram novas formas de geração e distribuição da informação (viabilizadas pelo advento de tecnologias que promoveram a digitalização e conexão de diversas atividades da vida cotidiana das sociedades), determinando as principais características daquilo que se convencionou chamar de Sociedade do Conhecimento (ou A Terceira Onda, na formulação de Toffler). O principal autor empregado nessa análise é, como já dito, Alvin Toffler, com sua trilogia sobre as mudanças na segunda metade do século XX e início do XXI, constituídas pelos livros: O Choque do Futuro, A Terceira Onda e Powershift. Em Choque, temos a clara postulação de que o futuro (que até então despontava no horizonte e, 45 anos depois, já é nossa realidade) terá por características a transitoriedade, a diversidade e a inovação, e sob todas as três é possível considerar o livro impresso. Em A Terceira Onda, que, como indica Ladislau Dowbor, possui outras nomenclaturas e formulações semelhantes em outros autores, nos apropriamos de conceitos como infosfera, tecnosfera, sociosfera para melhor entender os arranjos e formas de geração de distribuição da informação e uso da tecnologia em nossa sociedade, assim como as relações sociais que emergem desse cenário. O conceito de prossumidor é outro do qual nos apropriamos, principalmente quando consideramos que os livros didáticos estarão em rede e como serviço.
Powershift contribui para o entendimento do conhecimento como um instrumento de exercício de poder. Porém, não há aqui uma adesão inconteste a Alvin Toffler – cuja a obra cumpre o papel de ser um “fio condutor” desse primeiro capítulo – e, por isso, foi necessário recorrer a outros autores, como Ladislau Dowbor, Pierre Lévy, Manuel Castells, Asa Briggs e Peter Burke.
Pretende-se, no segundo capítulo, entender a dinâmica do mercado editorial (tanto o brasileiro como, em algumas situações, o de outros países), assim como as mudanças originadas pelo ingresso dos e-books nesse mercado e as transformações nos hábitos de leitura. Para o entendimento do mercado editorial são empregados autores como Javier Celaya (cuja atuação, seja no meio acadêmico, órgãos governamentais ou empresas é, sem sombra de dúvida, uma das mais relevantes para o entendimento das mudanças ocorridas no mercado editorial espanhol e internacional, seja por meio de livros publicados ou estudos divulgados por seu portal
9), John Thompson (especialista em mercados editoriais de língua inglesa), dados de organizações como CERLALC (Centro Regional para o Fomento do Livro
9
Para mais informações, acesse: www.dosdoce.com.
na América Latina e Caribe), CBL (Câmara Brasileira do Livro), SNEL (Sindicato Nacional de Editores de Livros), ANL (Associação Nacional de Livrarias), entre outros.
Para o entendimento das relações sociais emergentes do uso de novos meios (como as redes sociais), e que impactam a atividade das editoras, empregamos o pensador francês Guy Debord – e sua formulação de uma sociedade mediada pelo “espetáculo”
– e o brasileiro Arlindo Machado, que formula a noção de “pós-cinema” para explicar uma nova relação de fruição dos fenômenos audiovisuais. Para o entendimento das novas demandas de linguagem postuladas pela hipermídia, trabalhamos com o conceito de predominância de um dado signo em cada uma das linguagens (verbal, visual e sonora), formulado por Lúcia Santaella no livro Matrizes da Linguagem e Pensamento e que, junto ao conceito de Tradução Intersemiótica (de Júlio Plaza), será materializado em um modelo de análise diagramático no terceiro capítulo.
No terceiro capítulo, baseado em autores que estudam o design e sua relação com os signos e a semiótica – como Gui Bonsiepe, Júlio Plaza e Lúcia Santaella –, propõe-se a investigação, considerando o desenvolvimento de modelos diagramáticos, das interfaces de livros impressos e de e-books. Trata-se de uma tentativa de investigar, por meio da análise dos próprios produtos editoriais (impressos e digitais), suas configurações projetuais (portanto, estamos falando de design) no tocante ao emprego das três matrizes de linguagem, já tratadas no segundo capítulo.
A proceder dessa maneira, em que se retrocede ao manejo dos signos que acabam por constituir cada linguagem, que em hibridização forma a linguagem hipermidiática, estamos investigando a capacidade desses mesmos produtos (sejam impressos ou digitais) de se inserirem em uma nova infosfera e, por sua vez, em uma nova sociosfera. Para isso foram escolhidos dois livros impressos que, em seus aspectos gráficos, buscavam interações inter-códigos e dois e-books.
Considerando que os principais investimentos para implantação de livros
digitais estão sendo feitos por editoras que atuam no segmento de livros didáticos,
busca-se entender, no último capítulo, o reordenamento do mercado editorial proposto
por esses grupos empresariais, com ênfase nos sistemas estruturados de ensino
(apostilados) que inserem os alunos em uma rede em que o livro se transforma em
serviço (e não mais em produto). São usados como fontes, nesse último capítulo, os
documentos dessas próprias organizações empresariais, como Relatórios Anuais,
Documentos aos Acionistas, entre outros. Encerram o último capitulo algumas
considerações sobre um serviço prestado para escolas e professores que, em nosso
entendimento, nos ajuda a ter uma visão mais clara de vários dos pontos discutidos nesta tese.
Por último, é sempre bom pedir desculpas antecipadas aos leitores deste trabalho – que o leem por obrigação profissional – se em algum ponto (ou em vários) o rigor necessário foi perdido, especialmente na clareza do problema de pesquisa ou na forma como se construiu o texto, é que as práticas interdisciplinares acabam, muitas vezes, nos conduzindo por caminhos incertos, vagos, com certo desapego às regras (por vezes questionáveis). Se a frase de Thomas Kuhn, retirada de seu célebre livro A Estrutura das Revoluções Científicas e com que abrimos essa introdução, nos conforta no risco assumido (não em razão de minha capacidade de romper algum paradigma realmente relevante, mas da incerteza que todos temos de estar diante de um fato científico relevante), muito mais estimula a frase atribuída ao poeta Mallarmé:
“Definir é matar, sugerir é criar”
10.
10
DUAILIBI, Roberto; PECHLIVANIS, Marina (orgs.). Duailibi Essencial: minidicionário com mais de 4.500 frases
essenciais por Roberto Duailibi e Marina Pechlivanis. Rio de Janeiro: Elsevier, 2006. p. 82.
1. Após a cultura impressa, o surgimento de uma nova infosfera
MACBETH:
Ela deveria ter morrido mais tarde;
Haveria um tempo para uma tal palavra.
Amanhã, e amanhã, e amanhã
Arrastam-se nesse passo miúdo dia após dia Para a última sílaba do tempo narrado;
A nós tolos, todos esses ontens iluminaram
O caminho para o pó da morte. Apaga, apaga, lume passageiro, A vida não é mais que uma sombra errante, um mau ator Que se pavoneia e se aflige no seu momento sobre o palco E então nada mais se ouve. É uma história
Contada por um idiota, cheia de som e fúria, Significando nada
(Macbeth, William Shakespeare, Ato V, Cena V)
11A fala do personagem Macbeth, que inspirou William Faulkner em O Som e A Fúria, e se tornou uma das citações mais conhecidas de William Shakespeare, é também inspiradora para Edgar Morin, quando ele fala de “ordem, desordem e complexidade”
12aplicadas às ciências e seus diversos campos. Especificamente sobre a história (ou, ao menos, o período de mudanças acentuadas iniciado na segunda metade do século passado – ponto de partida dessa tese) afirma o filósofo
Mas é impossível, tanto no domínio do conhecimento do mundo natural como no conhecimento do mundo histórico ou social, reduzir nossa visão quer à desordem, quer à ordem. Historicamente, a concepção do tolo shakespeariano (quer dizer: life is a tale, told by an idiot, full of sound and fury signifying nothing) não é tola – revela uma verdade da história. Em contrapartida, a visão de uma história inteligente, isto é, de uma história que obedece a leis racionais, essa, sim, torna-se tola. Temos, portanto, tanto na história quanto na vida, de conceber as errâncias, os desvios, os desperdícios, as perdas, os aniquilamentos, e não apenas as riquezas, como também não só de vida, mas de saber, de saber fazer, de talentos, de sabedoria
13(grifo do autor).
O livro, como objeto de pesquisa e estudo, é, certamente, um objeto complexo (como concebe Morin) e suas reflexões históricas não podem desconsiderar esse fato.
Em nossa abordagem, a história nos interessa como fluxo em que nos lançamos, quem sabe, ao encontro da “última sílaba do tempo narrado”, como um “[...] rio fluindo sob a casa, correnteza carregando os dias, os cabelos” e sabendo que “[...] não há guarda-chuva contra o tempo”
14.
11
RAFFAELLI, Rafael. Macbeth. Cadernos de Pesquisa Interdisciplinar em Ciências Humanas, Santa Catarina, RS, v. 9, n. 94, p. 109-110, jul. 2008. Disponível em:
<https://periodicos.ufsc.br/index.php/cadernosdepesquisa/article/view/5245/5718>. Acesso em: 06 jun. 2014.
12
MORIN, Edgar. Ciência com consciência. 11. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008. p. 195.
13
Ibid., p. 196.
14
MELO NETO, João Cabral de. Antologia Poética. 8. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1991. p. 200.
Figura 1 – O filme Arca Russa, de Aleksandr Sukorov, cuja realização em um único plano-sequência com mais de 90 minutos, que só se tornou possível pelo emprego das técnicas de cinema digital, traduzem de forma sensível e significativa essa ideia
de uma história como fluxo.
Fonte: www.adorocinema.com.
E, sem medo das errâncias e dos desvios, é preciso também aceitar a validade contida na afirmação de Giulio Carlo Argan (que, mesmo se referindo a arte, faz uma consideração importante e válida sobre a história em qualquer campo da atividade humana), que tenta registrar na arte uma coerência maior, como “[...] uma das linhas mestras de desenvolvimento da civilização”, quando diz que “[...] pode-se em sã consciência afirmar que ela deve ser estudada historicamente e que, portanto, a história da arte é a única ciência possível da arte”
15. Da mesma forma, e parafraseando Argan, podemos dizer que a história é a única ciência do livro.
Argan situa-se, também, numa linha de questionamento entre história versus ciência e tecnologia (que, ainda, Gerard Fourez, por meio de uma investigação epistemológica das ciências, acaba por formular
16), sendo aplicável aos estudos referentes ao livro, pois como observa Elizabeth Eisenstein
17– cuja obra delimita fortemente uma determinada abordagem sobre o desenvolvimento da cultura impressa
[...] uma coisa é descrever como os métodos de produção de livros foram se modificando a partir da segunda metade do século XV, ou avaliar taxas de crescimento da produção. Outra coisa é decidir como o acesso a uma maior quantidade (ou variedade) de registros escritos afetou as maneiras de aprender, de pensar e perceber das elites letradas.
Portanto, uma construção histórica oscilará entre ordem e desordem.
15
ARGAN, Giulio Carlo. História da arte como história da cidade. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998. p.16.
16
FOUREZ, Gérard. A Construção das Ciências: introdução à filosofia e à ética das ciências. São Paulo: Editora Unesp, 1995.
17
EINSENSTEIN, Elizabeth. A Revolução da cultura impressa os primórdios da Europa moderna. São Paulo:
Editora Ática, 1998. p.19.
Eisenstein, considerando Steinberg que, ao se referir "[...] ao impacto da imprensa sobre todos os campos da atividade humana – político, econômico, filosófico, e assim por diante", estabelece o que Morin intitula de “conhecimento multidimensional”
18. O livro é um objeto multidimensional e a história do livro é uma história do objeto em sua materialidade e técnica e de suas intercorrências, de suas inflexões e ressonâncias.
O livro, considerado de forma ampla – em suas muitas dimensões: cultural, estética, histórica, tecnológica, econômica, material, entre outras – está sujeito a mesma diversidade de tratamentos intelectuais que o objeto artístico (entendido, nesse momento, como “obra de arte”). É o livro um objeto que, depurado ao longo do trajeto em que a escrita tornou-se o principal suporte da memória de nossa civilização e da propagação de novos conceitos e postulados, fundiu-se com a própria ideia de conhecimento, abrindo-se para incontáveis abordagens (quase tantas quantas as ramificações das ciências humanas e das artes).
A história do livro já tem sido muito bem cuidada, seja por historiadores (como Chartier ou Darnton) ou por especialistas no mercado editorial (como John Thompson), e reflete-se em bons trabalhos acadêmicos (como a dissertação de mestrado de Elisângela Aparecida Alves, intitulada A convergência Digital e o Futuro do Livro, defendida na PUC-Rio, em 2010). Queremos, ao final deste capítulo, retirar qualquer dúvida do leitor sobre o fato de o livro impresso ter sido um objeto característico da sociedade forjada durante a Revolução Industrial – sendo o primeiro objeto a se beneficiar da reprodução seriada – e nela perfeitamente inserido, mas em desarmonia com o presente em que vivemos. Portanto, não buscamos uma revisão histórica, mas, sim, o delineamento de um fluxo histórico, no qual possamos nos inserir (ora valendo da ordem, ora da desordem, em uma abordagem ora sincrônica, ora diacrônica) para melhor entender o advento do e-book e seus impactos no mercado editorial brasileiro. Nosso objetivo é demonstrar essa nova infosfera – termo cunhado por Alvin Toffler – na qual todos estamos imersos. E para isso tomamos uma aposta, na redação desse capítulo, não apenas ao nos apropriarmos do termo infosfera, mas de muitas das formulações contidas nas três obras mais famosas de Toffler: O Choque do Futuro, Terceira Onda e Powershift. Não se trata de uma adesão incondicional ao autor – apesar de sua impressionante capacidade de antever, com três décadas de antecedência, situações contemporâneas –, mas de uma estratégia de construção
18
MORIN, Edgar. Ciência com consciência. 11. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008.
argumentativa que recupera um autor hoje menos empregado, na ambição de que encontremos um pouco mais de comburente para os debates. Na trilogia toffleriana todas as obras acabam por discutir a “mudança”, “[...] o motivo central dos três é a mudança – o que acontece às pessoas quando toda a sociedade se transforma, de repente, em algo novo e inesperado”
19.
Para melhor entender a obra de Toffler é preciso considerar que em sua juventude ele se definia como marxista, corrente teórica da qual alega ter rompido por não oferecer respostas efetivas para o futuro que seus estudos vislumbravam (“O socialismo colidiu com o futuro”
20) mas, que, foi determinante no estabelecimento de algumas de suas premissas de análise. Porém, mesmo diante das críticas sobre a incapacidade dos projetos de implantação de sociedades socialistas vivenciados, e superados, ao longo do século XX, o autor preserva os aspectos válidos da concepção socioeconômica marxista, mesmo quando alerta que “Todo Estado que confina o conhecimento congela seus cidadãos num passado de pesadelo”
21.
Portanto, seu modelo analítico tem uma forte presença dos fatores econômicos e das atividades produtivas. Seus estudos privilegiam o entendimento da forma como as atividades econômicas estão organizadas, chegando mesmo a afirmar que é possível (ou mesmo desejado) conhecer uma sociedade por meio de seus ambientes profissionais (visitando fábricas e outras empresas). Mas um outro traço relevante, além da influência marxista, é o pragmatismo, característico de diversos autores norte- americanos. Na própria formulação de John Dewey, um dos pensadores mais engajados na defesa dessa corrente filosófica, podemos identificar duas características da obra toffleriana: uma atenção ao futuro e a possibilidade do ser humano de intervir na construção desse futuro. “E essa consideração com respeito ao futuro nos faz considerar uma concepção de universo cuja evolução não está acabada, de um universo que ainda está, nas palavras de James, ‘se fazendo’, ‘em processo de tornar-se’, de um universo até certo ponto ainda plástico”.
22Quando Toffler diz na introdução de um de seus livros que “Este livro pretende mais, no entanto, do que apresentar uma teoria. Ele também visa a demonstrar um método”, ou, ainda no mesmo texto afirma “Inverti o espelho do tempo, convencido de
19
TOFFLER, Alvin. Powershift: as mudanças do poder. Rio de Janeiro: Record, [1990?]. p. 17.
20
Ibid., p. 433.
21
Ibid., p. 442.
22
DEWEY, John. Notas introdutórias ao pragmatismo clássico. Scientiæ Studia, São Paulo, v. 5, n. 2, p. 227-243,
abr./jun. 2007. p. 236.
que uma imagem coerente do futuro também pode nos fornecer uma infinidade de enfoques valiosos do presente”
23, essas são manifestações bastante claras de um pragmatismo comprometido com a transformação da “conduta humana”
24.
Ordenaremos o tempo dessa nossa história em fluxo adotando o conceito de Ondas, que se tornou célebre após o sucesso mundial do livro Terceira Onda, que foi publicado inicialmente em 1980 e que apenas no Brasil já alcançou 31 edições. Sua periodização é deliberadamente simplificadora, pois busca uma visão ampla e generalizada do processo de desenvolvimento da humanidade, ao dividir “[...] a civilização em apenas três partes – uma fase agrícola, a Primeira Onda; uma fase industrial, a Segunda Onda; e a fase que agora começa, a Terceira Onda”
25.
Porém, essa estratégia não elimina toda a complexidade dos milhares de anos transcorridos entre a fase em que as sociedades se encontravam alicerçadas exclusivamente na atividade agrária até os dias de hoje. Consciente de que a história permite inúmeras segmentações, considera Toffler que “[...] para nossos fins, as distinções mais simples são mais úteis, embora mais toscas”
26. Nos valeremos dessa mesma estratégia simplificadora, pois objetivamos entender melhor lato sensu o processo histórico dessas mudanças que acabaram por atingir a edição de livros.
Apesar de adotar a periodização proposta em Terceira Onda, iniciaremos pelos conceitos que estruturam O Choque do Futuro, pois são caminho para entender algumas das características dessa nova e emergente sociedade. E sabemos, como muito bem destaca o professor Ladislau Dowbor
27, que esses ambientes de transformação são objetos de estudo de diversos autores
[...] vale a pena atentarmos para o universo de mudanças que se descortina:
são os trabalhos de Lawrence Lessig sobre o futuro das ideias, de James Boyle sobre a nova articulação dos direitos, de Joseph Stiglitz sobre a fragilidade do sistema de patentes, de André Gorz sobre a economia do ima- terial, de Jeremy Rifkin sobre a economia da cultura, de Eric Raymond sobre a cultura da conectividade, de Castells sobre a sociedade em rede, de Toffler sobre a terceira onda, de Pierre Lévy sobre a inteligência coletiva, de Hazel Henderson sobre os processos colaborativos e tantos outros inovadores.
Nestas propostas, veremos que as mudanças não estão esperando que se desenhem utopias e que um outro mundo está se tornando viável
28.
23
TOFFLER, Alvin. O choque do futuro. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1970. p.15.
24
DEWEY, John. Notas introdutórias ao pragmatismo clássico. Scientiæ Studia, São Paulo, v. 5, n. 2, p. 227-243, abr./jun. 2007. p.229.
25
TOFFLER, Alvin. A terceira onda. 30. ed. Rio de Janeiro: Record, 2010, p. 18.
26
Ibid., p. 18.
27
DOWBOR, Ladislau. Da propriedade intelectual à economia do conhecimento. 2010. Disponível, em regime de copyleft, em http://dowbor.org.
28
Ibid., p. 9.
Choque foi publicado nos Estados Unidos em 1970 e, como o próprio título informa, professa uma visão da mudança como algo aflitivo e até epidêmico. Lévy questionará essa metáfora do “impacto”, em que a “Tecnologia seria algo comparável a um projétil (pedra, obus, míssil?) e a cultura ou sociedade um alvo vivo [...]”
29, por seu risco de dissociar a tecnologia da sociedade como um corpo estranho, atribuindo ao ente tecnológico um poder determinista. Toffler dá a tecnologia papel central e poderia, em uma primeira leitura, ser tachado de determinista. Porém, como demonstraremos ainda nesse capítulo, o princípio das esferas (infosfera, sociosfera e tecnosfera) adotados pelo autor acaba por preservar o que Lévy denomina de relação
“condicionante” entre tecnologia e sociedade
30.
Para Toffler “[...] o choque do futuro é um fenômeno temporal, um produto do ritmo acelerado das mudanças na sociedade”, ele equivale “[...] a um choque cultural dentro da própria sociedade”
31. Para ilustrar essa aceleração, ele criou o exemplo intitulado “800 gerações”, em que analisa os últimos 50 mil anos da existência humana divididos em períodos de 62 anos, que corresponderiam cada um a uma geração.
Nele, as primeiras “650 foram passadas nas cavernas”. Somente para “[...] as últimas 70 gerações foi possível haver uma comunicação efetiva de uma geração para outra”
em virtude do surgimento da escrita. A palavra impressa atingiu apenas as seis últimas gerações. Somente as duas últimas gerações, contadas no tempo em que o livro foi publicado, fizeram “uso do motor elétrico”
32. Encerra com a afirmação “E a esmagadora maioria de todos os bens materiais que usamos na vida diária de hoje foram desenvolvidos dentro da atual geração, a 800
ageração”
33. Lévy, no entanto, verá a mudança na relação com o tempo dentro do contexto da virtualização, e uma possível aceleração, como “[...] a invenção de novas velocidades é o primeiro grau de virtualização”
34. Entretanto, essa aceleração do tempo não é linear, como sugere o exemplo das “800 gerações”, ela é qualitativa para cada situação: “Ela inventa, no gasto e no risco, velocidades qualitativamente novas, espaços-tempos mutantes”
35. Para Alvin Toffler é a tecnologia que impulsiona essa aceleração do desenvolvimento humano e, mesmo considerando o poder de intervenção de outros fatores (como
29
LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999. p. 21.
30
Ibid., p. 25.
31
TOFFLER, Alvin. O choque do futuro. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1970. p. 23.
32
Ibid., p. 25.
33
Ibid., p. 25.
34
LÉVY, Pierre. O que é virtual?. São Paulo: Editora 34, 1996. p. 23.
35
Ibid., 24.
sociais e climáticos), atribui
Por trás de acontecimentos econômicos tão prodigiosos, se encontra o grande motor da mudança – a tecnologia. Isto não quer dizer que a tecnologia seja única fonte de mudanças na sociedade. Irrupções sociais podem ser provocadas por uma mudança na composição química da atmosfera, por alterações climáticas, por mudanças na fertilidade e diversos outros fatores:
mesmo assim, a tecnologia é indiscutivelmente uma força preponderante por trás do impulso de aceleração
36.
Manuel Castells diverge em relação ao papel desempenhado pela tecnologia nessa “[...] nova economia, sociedade e cultura em formação”
37, afirmando haver uma
“[...] interação dialética entre a sociedade e a tecnologia”
38, porém evitando sugerir
“[...] que novas formas e processos sociais surgem em consequência de transformação tecnológica”. Para ele “[...] o determinismo tecnológico é, provavelmente, um problema infundado, dado que a tecnologia é a sociedade, e a sociedade não pode ser entendida ou representada sem suas ferramentas tecnológicas”
39. Para Toffler, a razão que leva a tecnologia a ser o elemento propulsor dessa aceleração é
[...] que tecnologia se alimenta de si mesma. Tecnologia torna possível mais tecnologia, como podemos ver se observarmos por um momento o processo de inovação. A inovação tecnológica consiste de três estágios, ligados num ciclo de auto-revitalização. Primeiro existe uma idéia criativa, factível.
Segundo, sua aplicação prática. Terceiro, sua difusão através da sociedade
40.
E, ao fechar esse ciclo, Toffler nos indica como a difusão da nova tecnologia
“ajuda a gerar novas ideias criativas”. Portanto, não seria demasiadamente simplista afirmar que tecnologia gera, por si, mais tecnologia. Exemplifica
Cada nova máquina ou técnica, num certo sentido, muda todas as máquinas e técnicas existentes, ao nos permitir utilizá-las em novas combinações. O número de combinações possíveis cresce exponencialmente a medida que o número de novas máquinas ou técnicas cresce aritmeticamente
41.
Esse ciclo está constante e diretamente relacionado com a sociedade e o meio ambiente onde, também, interagimos. Pierre Lévy dá outra possibilidade de entendimento para essa relação, quando afirma
36
TOFFLER, Alvin. O choque do futuro. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1970. p. 33-34.
37
CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede – a era da informação: economia, sociedade e cultura. 6. ed. v. 1.
São Paulo: Paz e Terra, 1999. p. 43.
38
Ibid., p. 62.
39
Ibid., p. 43.
40
TOFFLER, Alvin.O choque do futuro. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1970. p. 35.
41
Ibid., p.36.
Mesmo supondo que realmente existam três entidades – técnica, cultura e sociedade –, em vez de enfatizar o impacto das tecnologias, poderíamos igualmente pensar que as tecnologias são produtos de uma sociedade e de uma cultura. Mas a distinção traçada entre cultura (a dinâmica das representações), a sociedade (as pessoas, seus laços, suas trocas, suas relações de força) e a técnica (artefatos eficazes) só pode ser conceitual. Não há nenhum ator, nenhuma “causa” realmente independente que corresponda a ela [...]
42.
Entre as muitas imagens ilustrativas construídas ao longo de seu texto, Toffler afirma que se a tecnologia é a “máquina” que acelera tudo e todos, o “combustível”
dessa máquina é o conhecimento. E para o autor, assim como tantos outros teóricos e pesquisadores, é a invenção de Gutenberg que permite um grande salto.
É muito difícil atestar o fato de que cada livro é um lucro líquido no avanço do conhecimento. Não obstante, descobrimos que a curva de aceleração na publicação de livros, de fato, representa aproximadamente um paralelo para a taxa com que o homem vem descobrindo novos conhecimentos. Por exemplo, antes de Gutenberg, apenas 11 elementos químicos eram conhecidos. O antimônio, o décimo segundo, foi descoberto mais ou menos na época em que ele trabalhava em sua invenção. Fazia 200 anos que o décimo primeiro, o arsênio, fora descoberto. Se a mesma taxa de descoberta continuasse, nós teríamos hoje acrescentado apenas dois ou três novos elementos à tabela, desde Gutenberg. Em vez disso, nos 450 anos que se passaram, cerca de 70 elementos adicionais foram descobertos. E, desde 1900, estamos isolando os elementos remanescentes a uma taxa não de um a cada dois séculos, mas de um a cada três anos
43.
Portanto, temos o processo de aceleração – que tem sua face mais sensível e inteligível na “expectativa de duração” dos fenômenos, que se apresenta ao indivíduo de forma bastante alterada – como um processo que emerge das relações sociais, porém com impacto direto e imediato com as instâncias interiores do sujeito (aspectos psicológicos). A ligação entre essas duas instâncias (o interno e o externo do indivíduo ou, sob a mesma ótica, o psicológico e o social) se dá, para Toffler, por meio da
“transitoriedade” manifesta, por sua vez, por uma “[...] sensação de impermanência”
44. E a transitoriedade opera em diversas frentes, nos relacionamentos que “formulam o tecido da experiência social”, a saber: relacionamento com coisas, lugares, pessoas, organizações e ideias. A transitoriedade, por analogia, pode ser pensada “[...] como a taxa de reposição dos diferentes tipos de relacionamentos na vida de um indivíduo”
45. Lévy também registra essa “velocidade de transformação”, para ele, “[...] a aceleração é tão forte e tão generalizada que até mesmo os mais ‘ligados’ encontram-se, em
42
LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999. p. 22.
43
TOFFLER, Alvin.O choque do futuro. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1970. p. 38.
44
Ibid., p. 48.
45
Ibid., p. 48.
graus diversos, ultrapassados pela mudança [...]”
46.
E essa percepção de transitoriedade se estende às “coisas”, inclusive a paisagem urbana, rompendo com o ideal de permanência cultuado no passado, que poderia ser percebido por meio da “[...] maximização da durabilidade do produto”
47. Estabelece-se, assim, a “cultura do descartável”, na qual a economia da permanência é “[...] substituída pela economia da transitoriedade”
48. Precisamos pensar a posse do objeto livro neste cenário, pois os atributos exigidos agora da indústria editorial são outros, como a mobilidade (que pode, também, ser entendida como transitoriedade).
Um bom exemplo para pensarmos a transitoriedade do livro, por seu contraste com a ideia de permanência, é o BookCrossing, que é definido como o incentivo às “[...]
pessoas a abandonar livros em locais públicos para outras pessoas encontrarem”
49. O projeto nasceu com um website em que o internauta é incentivado a “ler, libertar e seguir”, ou seja: o internauta lê um livro, entra no site (no Brasil operando com o domínio www.bookcrossing.com.br), cadastra a obra (recebendo um número de controle), gera etiquetas de orientação (para a capa e contracapa) e depois deixa o livro em um local público para que outro leitor possa encontrá-lo. A esse novo leitor pede-se o compromisso de entrar no site (agora sendo direcionado para o domínio norte-americano, www.bookcrossing.com) a fim de informar o código do livro. Dessa forma, os livros vão sendo rastreados e seu “caminho” compartilhado entre seus diversos leitores, que são informados e podem interagir comentando a obra. Os livros fisicamente “libertos” são o “gancho” para a formação de uma rede social que o acaso, ou melhor, a “libertação ao acaso” (como o próprio site nomeia) proporciona. Porém, uma breve avaliação dos números dos bookcrossers pode ser muito instigante e reveladora. Em um ranking formulado no próprio site, o livro “mais viajado” passou por 602 leitores (obra alemã cujo o título é Der seltsame Bücherfreund), tendo sido
“libertado” em 23 de agosto de 2003, portanto precisou de mais de 10 anos para
“conectar” 600 pessoas. Dessa forma conseguimos ter uma ordem de grandeza (e de dificuldade) do deslocamento da informação por meio do livro impresso. É quase inevitável lembrar do relato feito por Robert Darnton sobre as relações comerciais (de pirataria e contrabando) entre a Societé Typographique de Neuchâtel, localizada no
46
LEVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999. p. 28.
47
TOFFLER, Alvin.O choque do futuro. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1970. p. 57.
48
Ibid., p. 58.
49
ALVES, Rogério Eduardo. Site incentiva abandono de livros em lugares públicos. Folha de São Paulo, São
Paulo, 05 set. 2003. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u36486.shtml>. Acesso
em: 06 jun. 2014.
principado suíço de mesmo nome, e do livreiro francês de Montpellier (França) chamado Isaac-Pierre Rigaud, onde o envio de remessas ilegais de livros chegava a consumir trinta dias para seguir de uma localidade a outra, burlando autoridades e fiscalizações, no final do século XVIII
50. Sem tentar comparar desiguais com equidade, uma consulta à rede social Facebook, na página que abriga o perfil do jovem comunicador Eduardo Cabral (reconhecido por suas postagens críticas, engajadas e multimidiáticas), podemos constatar (em 14/11/2013) 15.352 seguidores – e algumas de suas postagens (às vezes em vídeo) mobilizam centenas de internautas. Do outro lado, e ainda avaliando os números do Bookcrossing.com, apenas sete livros alcançaram mais de 100 leitores em uma “viagem” pelo mundo. O site informa existir
“mais de 900 mil bookcrossers ativos”, só no Brasil o site indica 10.080 membros cadastrados; na Alemanha são 69.573; na Espanha, 41.078; na Inglaterra, 86.632 e nos Estados Unidos, 336.407. Existe, ainda se valendo de informações disponibilizadas no site, “quase oito milhões de livros” registrados. O livro que mais foi registrado pelos bookcrossers foi Life of Pi, de Yann Martel, chegando (em 14/11/2013) a 50.403 registros (ou seja, 50.000 exemplares foram “libertados” no mundo). Ironicamente, trata-se do livro que, em 2012, foi adaptado para as telas de cinema, tornando-se um grande sucesso de bilheteria (tendo, só no Brasil, alcançado mais de 2,2 milhões de espectadores) o que, certamente, aumentou o interesse pela obra. A soma dos vinte livros “mais libertos” chega a 832.305 exemplares. Portanto, temos uma “rede social” com quase um milhão de usuários, na qual quase oito milhões de documentos estão relacionados e o documento mais acessado atingiu 600 pessoas em 10 anos. Na conclusão desta tese, ao refletirmos sobre a questão de “bens não rivais”, entenderemos melhor os limites de acesso ao livro.
A transitoriedade encontrou forma na obsolescência que a indústria aplica (de maneira programada) nos produtos e objetos, e expressa na publicidade, com seu esforço quase incontrolável em comunicar a necessidade de substituição dos bens de consumo. O filósofo marxista norte-americano Marshall Berman ao analisar o que intitula de “autodestruição inovadora” da burguesia na sociedade capitalista do século XIX vê esse traço de “[...] audácia e energia revolucionária”
51, e sob a perspectiva do pensamento de Karl Marx
50
DARNTON, Robert. A questão dos livros: passado, presente e futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
p. 196.
51
BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. São Paulo: Companhia
das Letras, 1986. p. 97.
Tudo que é sólido – das roupas sobre nossos corpos aos teares que as tecem, aos homens e mulheres que operam as máquinas, às casas e aos bairros onde vivem os trabalhadores, às firmas e corporações que os exploram, às vilas e cidades, regiões inteiras e até mesmo nações que as envolvem – tudo isso é feito para ser desfeito amanhã, despedaçado ou esfarrapado, pulverizado ou dissolvido, a fim de que possa ser reciclado ou substituído na semana seguinte e todo o processo possa seguir adiante, sempre adiante, talvez para sempre, sob formas cada vez mais lucrativas
52.
E essa é a grande crítica que os defensores do livro impresso fazem aos suportes de leitura digitais (tablets, e-readers etc.): sua rápida obsolescência
53.
Alvin Toffler cria uma imagem interessante para expressar a resposta para a brevidade que se instaura nos relacionamentos: é o “Homem Modular”. “O que isto significa é que nós formamos relacionamentos de envolvimento limitado com a maior parte das pessoas a nossa volta”
54. E, sem dúvida, há nessa estratégia uma redução da alteridade, “[...] conscientemente ou não, definimos nossos relacionamentos com a maioria das pessoas em termos funcionais”
55. É o princípio da modularização – cujo o reordenamento eficiente é um dos objetivos – aplicado às pessoas: “Na verdade, nós aplicamos o princípio modular às relações humanas. Criamos a pessoa descartável: o Homem Modular”
56. O videoclipe da música A Little Less Conversation, de Elvis Presley, e remixada por JXL, representa bem essa ideia de um contato menor entre pessoas com facetas bem diferentes, surpreendentes e até desconhecidas, assim como a própria letra da música, que diz “A little less conversation, a little more action please / all this aggravation ain’t satisfactioning me”
57.
Figura 2 – Frames do videoclipe da música A Little Less Conversation, de Elvis Presley e remixada por JXL.
Fonte: YouTube
52
Ibid., p. 97.
53
MARTINS FILHO, P. O futuro do livro impresso e as editoras. Livro – revista do Núcleo de Estudos do Livro e da Edição, v. 1, p. 167-170, 2011.
54
TOFFLER, Alvin.O choque do futuro. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1970. p. 88.
55
Ibid., p. 88.
56
Ibid., p. 88.
57
PRESLEY, Elvis. A little less conversation. Disponível em: <http://musica.com.br/artistas/elvis-presley/m/a-little-
less-conversation/traducao.html.>. Acesso em: 05 maio, 2014.
Nas redes sociais são os grupos de interesse, aos quais o internauta se vincula, um mecanismo de visibilidade para os diversos “módulos” que integram a personalidade de uma pessoa e que a convivência funcional e limitada nunca nos faculta conhecer, senão pelas próprias redes sociais.
No mundo empresarial, a permanência, traço reconhecível da burocracia, encontra-se comprometida. Constata-se que “[...] os laços do homem com a geografia invisível da empresa se modificam cada vez mais rapidamente”
58e, como já largamente exposto no texto de Choque, “[...] exatamente como seu relacionamento com as coisas, os lugares e os seres humanos que povoam estas estruturas organizacionais em constante mutação”
59, e finaliza “[...] o homem cada vez mais emigra de uma estrutura empresarial para outra”
60, acabando por reforçar uma Ad- Hocracia, em uma organização em equipes provisórias orientadas por projetos.
A informação, assim como o conhecimento, ocupa lugar de destaque na obra de Toffler. Além disso, há uma atenção especial à informação constituída por imagens em movimento. Porém, imagem cinética aqui deve ser entendida não apenas como uma imagem em movimento, mas, também, como uma imagem transitória e uma imagem mental. Neste ponto da obra temos convergências possíveis com a obra de Guy Debord, que mais adiante empregaremos (Sociedade do Espetáculo). Toffler faz menção às imagens que compartilhamos das personalidades,
Gente de verdade, com a imagem ampliada e projetada pelos meios de comunicação de massa, eles são guardados como imagens nas mentes de milhões de pessoas que nunca os encontram, nunca falaram com eles, nunca os viram ‘em pessoa’
61e esse, como indicará Guy Debord, não é um fenômeno de simulação apenas.
É, sim, um novo conjunto de relações sociais mediadas por imagens. “Eles assumem uma realidade quase tão (e às vezes até mais) intensa do que a de muitas pessoas com quem nos relacionamos ‘em pessoa’”
62. Estamos tratando do mesmo processo de mediação de relações sociais a que se refere Guy Debord, porém sob a chave da aceleração e transitoriedade a que tanto se dedica Toffler quando registra “[...] os eventos, num movimento mais rápido, estão constantemente lançando novas personalidades no círculo charmoso das celebridades”, o que faz com que “[...] as
58
Ibid., p. 118.
59
Ibid., p. 118.
60
Ibid., p. 118.
61
Ibid., p. 131.
62
Ibid., p. 131.
velhas imagens que tínhamos na mente cedam lugar as imagens novas”
63. Toda essa sucessão veloz de “líderes simbólicos”, fomentado pelos meios de comunicação, é também um “[...] rodízio mais rápido de imagens e das estruturas imagísticas em nossos cérebros”
64. Toffler acredita em uma mudança profunda na forma de gerar e compartilhar conhecimento, conceito que em Pierre Lévy encontra a redação: “[...]
qualquer reflexão sobre o futuro dos sistemas de educação e de formação na cibercultura deve ser fundada em uma análise prévia da mutação contemporânea da relação com o saber”
65. Portanto, há o entendimento do surgimento de novos princípios cognitivos e do emprego de códigos e linguagens frutos dessa aceleração.
E essas imagens sucessivas acompanham a também sucessiva transformação do conhecimento, que se transforma em taxas furiosas e aceleradas igualmente. Mas o próprio livro, como objeto, é apontado por Toffler como índice sutil da impermanência.
“Um exemplo dramático isolado é o impacto da explosão do conhecimento nesse clássico repositório de conhecimento que é o livro”
66. E, entre os inúmeros fenômenos estudados e anotados pelo autor, a própria materialidade do livro é percebida sob o impacto da transitoriedade.
À medida que o conhecimento se tornou mais pleno e menos permanente, pudemos testemunhar o virtual desaparecimento da velha, sólida e durável encadernação de couro, substituída a princípio por tecido e mais tarde por capas de papel. O próprio livro, como a maior parte da informação que ele contém, se tornou mais transitório
67.
E em sua análise o autor estabelece um pensamento quantitativo que acaba por denotar um fenômeno que todos aqueles que, de alguma forma, trabalham utilizando livros em pesquisa têm vivenciado: “[...] a incrível expansão do conhecimento implica que cada livro que se publica (incluindo este, infelizmente) contém uma fração progressivamente menor de tudo que se sabe”
68. E o fenômeno das brochuras, que surgiu no mercado editorial norte-americano
69e se expandiu por muito países, acaba por acentuar ainda mais esse processo de transformação, gerando o que Toffler denomina de “uma enxurrada de best-sellers”. O que significa que os livros que lideram as listas dos “mais vendidos” têm conseguido integrar as
63
Ibid., p. 132.
64
Ibid., p. 133.
65
LEVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999, p. 159.
66
TOFFLER, Alvin. O choque do futuro. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1970. p. 137.
67
Ibid., 134.
68
Ibid., p. 138.
69