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A medicina e a escassez de água

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Academic year: 2022

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A medicina e a escassez de água

JERSON KELMAN

A

ntibióticos são úteis no combate às in fecções. Porém, não devem continuar a ser tomados depois de vencida a do ença. Dependendo do estado de defi ciência imunológica do paciente, o médicode cidirá por quanto tempo é apropriado continu ar utilizando o medicamento para quese tenha certeza que o “exército invasor” foi efetivamen

• te debelado. Trata-se de uma decisão sob incer teza porque não existe uma regra imutável aser tomada em todos os casos. Ou seja, é preciso considerar as condições únicas de cada pacien te. Quando o paciente piora ou apresenta efei los colaterais, não ram há quem culpe omédico com base na suposição de que se a decisão ti-

• vesse sido diferente, tudo daria certo. Mas,é im possivel saber o que teria acontecido se a deci são fosse diferente.

Preços são sinais econômicos essenciaispara ajustar o equilíbrio entre oferta e demanda de bens e serviços. Por isso a Companhia deSane amento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) propôs, em plena crise hídrica, o estabeleci mento de desconto (bônus) na conta deágua para os que diminuíssem o consumo e sobre- preço (ônus) para os que aumentassem.

Assim como os antibióticos só devem ser in geridos continuamente em casos excepcionais, também no caso dos sistemas de abastecimento de água os regimes diferenciados de preços só devem ser mantidos em situações excepcionais.

É sempre preferível reforçar as «defesasinter-

nas” de cada organismo ou sistema.

Recente editorial do GLOBO (“Alívio momen tâneo não tira escassez de água da agenda”) co loca em dúvida a sensatez da suspensão, por proposta da Sabesp, do programa de bônus e ônus. O editorial afirma corretamente que o es toque de água no sistema Cantareira é atual mente superior a 65%. Mas acrescenta que «es pecialistas dizem que é preciso manter a vigi lância. Recomendam controle de vazão, reflo restamento.., e estímulo ao consumo racionar

A retirada de água da Cantareira é atualmente 30% menor do que era antes da crise, raças ao que parece

ser uma mudança permanente de comportamento da população

Pois é exatamente isso que se está fazendo.

Por exemplo, a retirada de água do sistema Can tareira é atualmente, depois da crise, 30% me nor do que era antes da crise, graças ao quepa rece ser uma mudança permanente de compor tamento da população, que passou a se preocu par em usar a água parcimoniosamente. Sem esse comportamento maduro e responsável, o grau de anormalidade causado pela piorserada história de São Paulo teria sido muito mais in tenso do que foi.

Também o reflorestamento, sugerido pelos especialistas, tem sido intensificado. Não para

«criar água” e aumentar a vazão média dosrios,

como muitos imaginam. Mas sim para melhor recarregar o lençol freático, impedindcf quis as nascentes sequem durante longas estiagens.

A decisão sobre o fim do programa de bônus e ônus não foi tomada porque a Sabesp foi acometida de um insensato otimismo no sen tido de que nunca mais uma seca como a que ocorreu em 2014-2015 se repetirá. Ao contrá rio, é preciso contar com a possibilidade de a natureza “nos presentear” com condições iguais ou piores.

Três grandes obras estruturantes, duas em andamento e uma ainda em processo de li cenciamento ambiental, são imprescindíveis para assegurar a segurança hidríca da RMSP (“defesa interna”). Trabalha-se para entregar essas obras o mais cedo possível, assim como para acelerar a implantação dos sistemas de coleta e tratamento de esgoto. Para isso são necessários recursos financeiros que, no caso da Sabesp, provêm exclusivamente das con tas de água pagas pelos consumidores. Isto é, não há subsídios lastreados em impostos pa gos pelos contribuintes. Manter indefinida mente o bônus e o ônus, apenas em respeito ao princípio de precaução, seria prejudicial à implantação da infraestrutura necessária pa ra fortalecimento da “defesa interna” do sis tema produtor de água potável. Engenheiros e médicos sensatos devem usar com precau ção o principio da precaução. •

Je,:onKelman é professor da Coppe-UFRJe presidente da Sahesp

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