EDUARDADEAGUIARBENTO
AREVITIMIZAÇÃODAMULHEREMSITUAÇÃODEVIOLÊNCIANO ATENDIMENTOESPECIALIZADODOSJUIZADOSDEVIOLÊNCIADOMÉSTICA
EFAMILIARCONTRAAMULHER
Florianópolis 2021
EDUARDADEAGUIARBENTO
AREVITIMIZAÇÃODAMULHEREMSITUAÇÃODEVIOLÊNCIANO ATENDIMENTOESPECIALIZADODOSJUIZADOSDEVIOLÊNCIADOMÉSTICA
EFAMILIARCONTRAAMULHER
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Graduação em Direito, da Universidade do Sul de Santa Catarina, como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Direito.
Orientadora: Prof. Priscila de Azambuja Tagliari, Msc.
Florianópolis 2021
EDUARDADEAGUIARBENTO
AREVITIMIZAÇÃODAMULHEREMSITUAÇÃODEVIOLÊNCIANO ATENDIMENTOESPECIALIZADODOSJUIZADOSDEVIOLÊNCIADOMÉSTICA
EFAMILIARCONTRAAMULHER
Este Trabalho de Conclusão de Curso foi julgado adequado à obtenção do título de Bacharel em Direito e aprovado em sua forma final pelo Curso de Graduação em Direito, da Universidade do Sul de Santa Catarina.
Florianópolis, 22 de novembro de 2021.
______________________________________________________
Professora e orientadora Priscila de Azambuja Tagliari, Msc.
Universidade do Sul de Santa Catarina
______________________________________________________
Prof. Rodrigo Indalêncio Vilela Veiga, Esp.
Universidade do Sul de Santa Catarina
______________________________________________________
Prof. Solange Büchele de S. Thiago, Msc.
Universidade do Sul de Santa Catarina
TERMO DE ISENÇÃO DE RESPONSABILIDADE
AREVITIMIZAÇÃODAMULHEREMSITUAÇÃODEVIOLÊNCIANO ATENDIMENTOESPECIALIZADODOSJUIZADOSDEVIOLÊNCIADOMÉSTICA
EFAMILIARCONTRAAMULHER
Declaro, para todos os fins de direito, que assumo total responsabilidade pelo aporte ideológico e referencial conferido ao presente trabalho, isentando a Universidade do Sul de Santa Catarina, a Coordenação do Curso de Direito, a Banca Examinadora e o Orientador de todo e qualquer reflexo acerca deste Trabalho de Conclusão de Curso.
Estou ciente de que poderei responder administrativa, civil e criminalmente em caso de plágio comprovado do trabalho monográfico.
Florianópolis, 22 de novembro de 2021.
____________________________________
EDUARDADEAGUIARBENTO
Dedico este trabalho aos meus pais, as pessoas que mais amo nesse mundo, que sempre me ensinaram o valor da educação e de praticar o bem. Minha maior motivação é saber que eles têm orgulho da mulher que eu me tornei.
AGRADECIMENTOS
Este trabalho é a concretização de uma das etapas mais importantes da minha vida profissional e acadêmica, e isto não seria possível sem as pessoas incríveis que estiveram ao meu lado durante todo esse período. Deste modo, seguem meus sinceros agradecimentos:
À minha mãe, Andreza Guiomar de Aguiar, por toda a sua generosidade, amor, carinho, força e dedicação. Por ter sacrificado sua vida profissional para cuidar de mim e por sempre apoiar meus sonhos.
Ao meu pai, Valério Adolpho Bento, por me incentivar e proporcionar que eu cursasse Direito. Por ser um exemplo de integridade e acreditar no meu potencial, mesmo quando nem mesmo eu acredito.
Aos meus bichos de estimação, Lisa, Lucy, Lilith, Luna (in memorian), Simba, Yuki e Penélope, por diariamente me tornarem uma pessoa mais feliz.
Aos meus avós, Adolpho Haroldo Bento (in memorian), Odete Bernardes Bento, Agenor Manoel de Aguiar (in memorian) e Guiomar Silveira de Aguiar, por sempre me amarem incondicionalmente.
Ao meu companheiro, Juan Luy Schelbauer Machado, por me dar todo o suporte nesse período turbulento e por nunca me deixar desistir.
Aos meus queridos amigos, Camila Cristina Bruch, Fernando Henrique Klöppel Gonsalves e Rodrigo Ishizaka Ciarlini, por estarem ao meu lado nos bons e nos maus momentos da vida.
À minha terapeuta, Maria Luiza Zapelini, pois sem ela eu não teria chegado até aqui.
À professora e orientadora, Priscila de Azambuja Tagliari, meu agradecimento por aceitar o convite de me orientar e por todo o seu apoio ao longo do trabalho.
À professora Solange Büchele de S. Thiago, por todo o apoio também como coordenadora do curso de Direito da Unisul - unidade Florianópolis.
Aos professores da Unisul pela colaboração para o meu aprendizado.
Às minhas colegas de curso, Alini Hoffmann, Luciana M. Macedo da Silva e Luisa Dutra de Souza, pelas conversas, pelas lágrimas e pelos sorrisos que compartilhamos nessa jornada.
“As questões da alma feminina não podem ser tratadas tentando-se esculpi-la de uma forma mais adequada a uma cultura inconsciente, nem é possível dobrá-la até que tenha um formato intelectual mais aceitável para aqueles que alegam ser os únicos detentores do consciente.”
(Clarissa Pinkola Estés).
RESUMO
A presente pesquisa tem como objetivo identificar e analisar os fatores que incidem na revitimização da mulher em situação de violência no atendimento especializado dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher (JVDFMs). Para tanto, foi utilizado o método de procedimento monográfico, de natureza exploratória, qualitativa, com método de abordagem dedutivo, embasado predominantemente na técnica bibliográfica. Para alcançar o objetivo proposto, primeiramente é demonstrada a origem da violência de gênero e a sua permanência na cultura jurídica e popular brasileira, bem como a caracterização da violência doméstica e familiar contra a mulher e seus diversos aspectos. Em seguida, são apresentados os JVDFMs no que diz respeito à sua instituição pela Lei Maria da Penha e uma breve incursão acerca da estrutura destes e o atendimento realizado às mulheres em situação de violência. Por fim, após a definição de violência institucional contra a mulher, serão analisados os fatores que incidem na revitimização destas no atendimento especializado destes juizados, mediante pesquisas realizadas pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ). A conclusão alcançada com a presente pesquisa revela ser essencial a correção dos problemas estruturais inerentes não apenas aos JVDFMs, mas ao sistema judiciário brasileiro, bem como um eficaz combate aos problemas culturais que envolvem a desigualdade de gênero culturalmente enraizada no país, para assim então minimizar os casos de revitimização de mulheres em situação de violência doméstica e familiar nestas instituições, garantindo o atendimento especializado previsto desde sua criação.
Palavras-chave: Violência doméstica e familiar. Revitimização. Atendimento especializado dos JVDFMs.
LISTADEABREVIATURASESIGLAS
CIDH - Comissão Interamericana de Direitos Humanos CNJ - Conselho Nacional de Justiça
CRFB - Constituição da República Federativa do Brasil IMP - Instituto Maria da Penha
IPEA - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada JECrim - Juizado Especial Criminal
LMP - Lei Maria da Penha
OEA - Organização dos Estados Americanos SESC - Serviço Social do Comércio
JVDFM - Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher
SUMÁRIO
1 1111
2 AVIOLÊNCIADEGÊNEROEASUAPERMANÊNCIANACULTURA
JURÍDICAEPOPULARBRASILEIRA 13
2.1 A DESIGUALDADE DE GÊNERO NO BRASIL 13
2.1.1 O feminismo no combate à violência contra a mulher 17
2.2 VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR 21
2.2.1 Os tipos de violência doméstica e familiar contra a mulher 24 3 OSJVDFMSNOATENDIMENTOEACOLHIMENTODEMULHERESEM
SITUAÇÃODEVIOLÊNCIA 28
3.1 A ORIGEM DOS JUIZADOS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR CONTRA A MULHER 28
3.2 A ESTRUTURA DOS JVDFMS NO ATENDIMENTO ESPECIALIZADO 30
2.2.1 Equipe multidisciplinar 32
3.3 A MEDIDA PROTETIVA DE URGÊNCIA 34
4 FATORESQUEINCIDEMNAREVITIMIZAÇÃODAMULHEREMSITUAÇÃO DEVIOLÊNCIANOATENDIMENTOESPECIALIZADODOSSERVIÇOSDE
SEGURANÇAPÚBLICA 38
4.1 38 38
4.1.1 Fatores estruturais que incidem na violência institucional contra a mulher no
atendimento especializado dos JVDFMs mediante pesquisas do IPEA e do CNJ 40 4.1.2 Fatores culturais que incidem na violência institucional contra a mulher no
atendimento especializado dos JVDFMs mediante pesquisas do IPEA e do CNJ 44 4.2 POSSÍVEIS AÇÕES PARA MINIMIZAR A REVITIMIZAÇÃO DA MULHER EM SITUAÇÃO DE
VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR 48
5 CONCLUSÃO 54
REFERÊNCIAS 56
1 INTRODUÇÃO
O presente trabalho tem como objeto a revitimização da mulher em situação de violência no atendimento especializado dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher.
A importância do tema escolhido reside no fato de que a desigualdade de gênero culturalmente estabelecida no Brasil reflete nos altos índices de violência contra mulher, perpetuando até os dias de hoje em seus diversos aspectos. No que tange este tipo de violência nas relações afetivas, com base no gênero, ainda que haja a atuação especializada dos JVDFMs com a finalidade de um atendimento mais acolhedor e adequado à suas necessidades, abrangendo causas cíveis e criminais, a assistência institucional ante os casos de violência doméstica e familiar nem sempre é efetivamente capacitado, resultando na revitimização da mulher.
Sendo assim, foi decidido redigir sobre o referido tema pois as normas morais estabelecidas pelo patriarcalismo cultural brasileiro prejudicam a efetividade de instituições como os JVDFMs no combate à violência de gênero, resultando na revimitização das mulheres fragilizadas pela violência doméstica e familiar que outrora foram submetidas.
Ante o exposto, para o desenvolvimento da presente pesquisa foi formulado o seguinte questionamento: quais fatores incidem na revitimização da mulher em situação de violência no atendimento especializado dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher?
Os objetivos deste trabalho consistem em demonstrar a origem da violência de gênero e sua permanência na cultura jurídica e popular brasileira, apresentar os JVDFMs no atendimento e orientação humanizada de mulheres em situação de violência doméstica e familiar e, por fim, a analisar os fatores que incidem na sua revitimização nestas instituições.
Com a finalidade de cumprir os objetivos planejados, a pesquisa caracteriza-se pela sua natureza exploratória, uma vez que pouco foi explorado sobre os fatores incidentes da violência institucional contra a mulher no âmbito dos JVDFMs e as formas de combatê-la. A natureza do trabalho também classifica-se como qualitativa, pois através dos conceitos e dados coletados ao longo deste serão pontuadas possíveis ações para minimizar a ocorrência da revitimização das mulheres em situação de violência nos JVDFMs.
Foi utilizado o método de abordagem dedutivo, partindo da premissa geral, que é a violência contra a mulher advinda da desigualdade de gênero, passando pelo JVDFMs no atendimento especializado às mulheres em situação de violência doméstica e familiar, para assim então explicar as particularidades envolvendo a revitimização das mulheres nestas instituições. A elaboração deste trabalho foi embasada na técnica bibliográfica, utilizando-se
de fontes e materiais elaborados por autores familiares nesta área de estudo e, principalmente, de dados registrados por pesquisas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e do Conselho Nacional de Justiça de suma importância ao objeto de estudo.
O presente trabalho foi estruturado em cinco seções: introdução, três capítulos de desenvolvimento e conclusão. O segundo capítulo versa sobre a origem e a evolução histórica da desigualdade de gênero no Brasil, os movimentos feministas no combate à exteriorização da cultura do patriarcado na forma de violência contra a mulher, com enfoque na violência doméstica e familiar em todos os seus aspectos.
O terceiro capítulo enfatiza a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, desenvolvidos pela Lei Maria da Penha, bem como seu papel no combate à violência de gênero mediante atendimento especializado.
No quarto capítulo são abordadas as problemáticas referentes à violência institucional contra a mulher, juntamente aos fatores que incidem na revitimização destas no âmbito dos JVDFMs através dos fatores estruturais e culturais apontados pelas pesquisas do IPEA e do CNJ, incluindo possíveis ações para minimizá-los.
Por fim, se encerra com a Conclusão, onde são apresentadas as respostas ao questionamento proposto no presente trabalho, a visão da pesquisadora acerca da temática abordada no que diz respeito às hipóteses viáveis para a resolução dos conflitos expostos.
2 AVIOLÊNCIADEGÊNEROEASUAPERMANÊNCIANACULTURA JURÍDICAEPOPULARBRASILEIRA
Neste capítulo serão apresentados tópicos sobre a violência de gênero e a sua permanência na cultura jurídica e popular brasileira. Muitas das questões abordadas neste trabalho derivam de raízes históricas do tratamento diferenciado que homens e mulheres receberam ao longo da cronologia do país, suas divergentes funções empenhadas na sociedade, os adjetivos que lhes foram atribuídos e, por decorrência destes fatores, seus desiguais direitos constitucionais.
Esta monografia inicia visando conceituar a violência de gênero e a sua permanência na cultura jurídica e popular brasileira, abordando a diferença entre “sexo” e “gênero”. Num segundo momento, será abordado historicamente o feminismo no combate à violência contra a mulher, iniciando pelo movimento feminista, lutas, retrocessos e conquistas para a sociedade, a criação de centros de apoio especializados para auxiliar as vítimas de violência doméstica e familiar e mecanismos de enfrentamento desta. Ainda no campo deste tipo de violência, serão classificados, citados e exemplificados todos os seus arquétipos.
Em suma, estarão dispostas informações sobre os feitos e efeitos da luta do movimento feminista na busca pela igualdade de gênero, bem como a violência doméstica e familiar contra a mulher no país, para que posteriormente estes fatos sejam conectados com o capítulo subsequente.
2.1 A DESIGUALDADE DE GÊNERO NO BRASIL
Para dar início ao estudo da desigualdade de gênero, faz-se necessário compreender a diferença entre sexo e gênero. O termo “sexo” é utilizado para distinguir as características biológicas dos seres humanos e, nas palavras de Bruschini, o termo “gênero” é:
Princípio que transforma as diferenças biológicas entre os sexos em desigualdades sociais estruturando a sociedade sobre a assimetria das relações entre homens e mulheres. Usar “gênero” para todas as referências de ordem social ou cultural, e
“sexo” para aquelas de ordem biológica (BRUSCHINI, 1998, p. 89)
Ao longo da história, diversos estudiosos buscaram comprovações científicas que pudessem diferenciar a capacidade dos homens e das mulheres. No século XIX, o filósofo alemão Theodor Von Bischoff (1872) desenvolveu uma teoria de que a massa dos cérebros era fator suficientemente determinante para apresentar capacidades intelectuais mais ou menos avançadas em indivíduos. Sua pesquisa foi baseada no fato de que o cérebro feminino, por ser
mais leve que o dos homens, significava que as mulheres possuíam um intelecto inferior ao destes.
Pierre Bourdieu (1998), sociólogo francês, caracteriza a desigualdade de gênero sob o contexto histórico de que a feminilidade nos relacionamentos interpessoais deveria ser discreta, controlada e fisicamente dócil, em contraposição da masculinidade viril. Nesse sentido, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) (2015, p. 17) determina que a desigualdade de gênero se manifesta em duas etapas: “[...] a naturalização de uma construção social do gênero por meio de sua associação a caracteres biológicos e o estabelecimento de uma relação de dominação baseada nesta ideia naturalizada.”
Sob o contexto de naturalização da dominância masculina, Saffioti (2001, p. 115) pontua:
No exercício da função patriarcal, os homens detêm o poder de determinar a conduta das categorias sociais nomeadas, recebendo autorização ou, pelo menos, tolerância da sociedade para punir o que se lhes apresenta como desvio. Ainda que não haja nenhuma tentativa, por parte das vítimas potenciais, de trilhar caminhos diversos do prescrito pelas normas sociais, a execução do projeto de dominação-exploração da categoria social homens exige que sua capacidade de mando seja auxiliada pela violência (SAFFIOTI, 2001, p. 115).
Ante o exposto, nota-se que a desigualdade de gênero se encontra profundamente enraizada na cultura brasileira, de modo que condutas tipicamente arcaicas são socialmente toleradas. Ainda, salienta a autora que “[...] nada impede também que uma mulher perpetre este tipo de violência contra um homem ou contra outra mulher.”
A violência simbólica impregna corpo e alma das categorias sociais dominadas [...] É exclusivamente neste contexto que se pode falar em contribuição de mulheres para a produção da violência de gênero. Trata-se de fenômeno situado aquém da consciência, o que exclui a possibilidade de se pensar em cumplicidade feminina com homens no que tange ao recurso à violência para a realização do projeto masculino de dominação- exploração das mulheres. Como o poder masculino atravessa todas as relações sociais, transforma-se em algo objetivo, traduzindo-se em estruturas hierarquizadas, em objetos, em senso comum (SAFFIOTI, 2001, p. 118).
Violência simbólica, em acordo com a tese escrita por Bourdieu (1998, p. 204), consiste no poder exercido pelo dominador sobre o dominado de modo direto, contudo, sem a presença de coação física, ainda que, em estágios mais avançados, possa ocorrer a mesma. Este modo de violência ocorre com base em pré-requisitos estabelecidos entre dominado e dominador, como imposições sociais, culturais, econômicas ou institucionais, fazendo com que as vítimas desta violência sejam induzidas a se colocarem em espaços sociais seguindo os critérios estabelecidos pelos dominadores.
A violência simbólica impõe uma coerção que se institui por intermédio do reconhecimento extorquido que o dominado não pode deixar de conceder ao dominante na medida em que não dispõe, para o pensar e para se pensar, senão de instrumentos de conhecimento que tem em comum com ele e que não são senão a forma incorporada da relação de dominação (BOURDIEU, 1998, p. 204).
Partindo desse pressuposto, o IPEA apresenta algumas situações em que as mulheres sofrem a violência simbólica de gênero e, inconscientemente, a sustentam:
A depreciação de si, a eterna insatisfação com o próprio corpo ou ainda o auto desprezo por parte de muitas mulheres são indicativos de violência – simbólica ou não – que sofrem. Violência que reside não meramente nas experiências subjetivas de indivíduos de determinada classe econômica, grupo religioso, étnico etc. Reside nas condições sociais que levam os dominados a adotarem o ponto de vista dos dominantes. Desta forma, o local onde se confrontam os gêneros se mantém, somente, com a cumplicidade do lado feminino, diminuído, reprimido e violentado simbolicamente. Surge dessa cumplicidade, por exemplo, uma culpabilização da vítima, responsabilizando a mulher pela própria condição inferior, não levando em consideração a estrutura prática e simbólica vigente montada no poder androcêntrico (IPEA, 2015, p. 18).
Em síntese, o Instituto demonstra que a violência simbólica não pertence apenas a uma classe étnica, religiosa ou econômica, mas sim às condições sociais que levam o dominado a compartilhar da visão do dominador sobre si, surgindo desta cumplicidade outras formas de violência, como culpabilização da vítima, impondo a responsabilidade do ato sofrido à própria mulher, ignorando as estruturas que a colocam na referida situação. A violência física e a violência simbólica estão intimamente conectadas, portanto, muitas vezes, a mulher submetida à violência simbólica se vê incapaz de procurar assistências especializadas para resguardar-se da violência física.
Dessa forma, pode-se dizer que as qualidades opostas atribuídas aos homens e às mulheres pela sociedade implicavam em uma distribuição oposta de funções para com esta, o que resultou na relação disruptiva na concretização de poderes. Isto é, aos homens sempre foram conferidos os papéis de força e virilidade, retratados como os provedores do lar através do trabalho braçal, e às mulheres, por outro lado, restou a função de preservar o lar e educar seus descendentes.
Diante dos elementos abordados até então, pode-se afirmar que a desigualdade de gênero, resultado da cultura do patriarcado, teve influência no Direito brasileiro. Baratta (1999, p. 27) salienta que “[...] o caráter androcêntrico do direito deriva do fato de que o mesmo, até o momento, desenvolveu-se sob o império de conceitos masculinos, excluindo critérios de ação extraíveis dos femininos.”
No entendimento da teoria feminista sociojurídica desenvolvida por Smart, (2020) há três níveis de argumentação: “o direito é sexista”, “o direito é masculino”, e “o direito é gendrado”. O primeiro é definido com:
O argumento de que, ao fazer uma diferenciação entre homens e mulheres, o direito ativamente colocou as mulheres em desvantagem por conceder-lhes menos recursos materiais (por exemplo, no casamento e no divórcio); julgá-las de acordo com padrões desiguais e inapropriados (por exemplo, como sexualmente promíscuas); negar-lhes oportunidades iguais [...]; ou deixar de reconhecer os danos causados às mulheres porque esses mesmos danos beneficiavam os homens (como ocorre com as leis sobre prostituição e estupro, por exemplo) (SMART, 2020, p. 1422).
O Código Civil de 1916, por exemplo, estabelecia direitos e deveres desproporcionais ao marido e à mulher. Este era expressamente tido como “chefe da sociedade conjugal”, enquanto a mulher casada era considerada relativamente incapaz, sendo obrigada a herdar o
“apelido” do marido, e somente poderia exercer profissão mediante sua autorização. A referida lei perdurou até 2002, o que é contraditório, dado ao fato que a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 já havia estabelecido a igualdade de todos perante a lei, independentemente do gênero.
Em seguida, há a argumentação por Smart de que “o direito é masculino”:
O raciocínio “o direito é masculino” sugere que, quando um homem e uma mulher se colocam perante a lei, não é que o direito deixe de aplicar critérios objetivos a um sujeito feminino: aplica critérios objetivos, mas estes são, contudo, masculinos.
Ironicamente, insistir em igualdade, neutralidade e objetividade é, portanto, insistir no julgamento da mulher de acordo com os valores da masculinidade (SMART, 2020, p.
1424).
Sendo assim, mesmo que uma lei imponha certos direitos e deveres com uma redação igualitária, esta é tratada no judiciário com a imposição dos costumes do machismo estrutural.
Em casos de violência sexual, por exemplo, as vestes da vítima são julgadas com mais rigor do que o comportamento do agressor. Isto não ocorre exclusivamente pelo órgão julgador e advogados, mas também pela sociedade em sua totalidade.
Smart (2020) problematiza a divisão argumentativa baseada unicamente em gênero, uma vez que isto invalida as outras formas de diferença presentes na sociedade, como questões socioeconômicas, étnicas e religiosas. Neste sentido, Smart ainda afirma que “o direito é gendrado”.
A ideia de que o ‘direito é gendrado’ não nos exige estabelecer uma categoria fixa ou um referente empírico de Homem e de Mulher. Abre-se espaço, desse modo, à noção mais fluida de uma posição de sujeito gendrado que não se fixa com base em nenhum determinante de sexo: nem biológico, nem psicológico, nem social (SMART, 2020, p. 1427).
Sumariamente, nas palavras de Ramos e Rodrigues (2012, p. 05), “[...] o Direito em si é um espaço “gendrado”, ou seja, um lócus de produção de diferenças sexuais, de perpetuação do patriarcado moderno e da inferiorização da mulher.”
Deste modo, pode-se dizer que a origem da desigualdade de gênero está atribuída às posições historicamente impostas aos homens e às mulheres com base nos fatores distinguíveis da morfologia de seus corpos, refletindo em um sistema hierárquico gendrado que, por sua vez, ecoa no cenário jurídico e cultural brasileiro.
Se, por um lado, houve (e há ainda) estudiosos que afirmam que os indivíduos são separados de acordo com a determinação morfológica de seus corpos, segundo sejam homens ou mulheres, e que daí decorre uma divisão de características que seriam inerentes a cada um, justificando uma divisão social de papéis dicotomizada; por outro lado, os estudos feministas desenvolvidos após a metade do Século XX são contundentes em demonstrar que a noção de gênero que alicerça tal divisão de papéis é construída socialmente. (IPEA, 2015, p. 15)
Em 2013, o IPEA (2014) realizou uma pesquisa intitulada “tolerância à violência contra a mulher na sociedade brasileira”. Foi utilizado o Sistema de Indicadores de Percepção Social (SIPS) para o estudo, onde 3.809 domicílios foram entrevistados, em 212 municípios em todas as Unidades Federativas do Brasil. Dentre as afirmações, destacaram-se os seguintes excertos:
54,9% concordam, total ou parcialmente, que “tem mulher que é pra casar, tem mulher que é pra cama”; 58% dos entrevistados concordam, total ou parcialmente, que “se as mulheres soubessem se comportar haveria menos estupros”; 63% concordam, total ou parcialmente, que
“casos de violência dentro de casa devem ser discutidos somente entre os membros da família”;
65% concordam, total ou parcialmente, que “mulher que é agredida e continua com o parceiro gosta de apanhar”.
Os dados apresentados evidenciam como os costumes do ordenamento patriarcal permanecem vigentes na cultura brasileira de forma que estas afirmações soam apelativas à concordância da majoritariedade dos entrevistados, irrelevante seja sua localização geográfica.
Percebe-se, portanto, que por se tratar de algo documentadamente inerente à sociedade brasileira, a desconstrução da desigualdade de gênero requer diligências por parte do Estado e da coletividade a fim de atingir a plena igualdade de cada cidadão. A violência de gênero contra as mulheres é algo que a legislação por si só não consegue dirimir.
2.1.1 O feminismo no combate à violência contra a mulher
O feminismo é um movimento social que tem como objetivo a igualdade entre homens e mulheres. No Brasil, uma das primeiras conquistas feministas foi o direito ao voto, em 1934, durante o governo de Getúlio Vargas. Mas foi no período em que o país estava sob o regime
autoritário da Ditadura Militar (1964-1985) que o movimento feminista ganhou mais destaque.
Nas palavras de Ribeiro (2010, p. 44), este foi o “[...] movimento de mulheres que denunciavam as discriminações, interferindo nas mudanças de valores e comportamentos em relação aos preconceitos de gênero, raça, etnia e opção sexual.” Nesse sentido, Gomes et al. (2009, p. 10) mencionam:
Foi somente a partir da emergência do feminismo contemporâneo nos anos 1960 que a violência contra as mulheres, particularmente a violência doméstica e familiar, passou a ser sistematicamente problematizada e questionada, saindo do âmbito do privado para a esfera pública, tornando-se, assim, um problema de ordem social (GOMES et al., 2009, p.10).
Cabe ressaltar que as lutas feministas contra a violência de gênero não se limitavam apenas à doméstica e familiar. No entanto, esta tornou-se o foco do movimento devido ao grande número de feminicídios que ocorreram na década de 70. Ainda para Gomes et al. (2009, p. 12)
Do ponto de vista da conjuntura nacional, a participação das mulheres nas lutas contra a violência política perpetrada pelo Regime Militar contra homens e mulheres, pela anistia e por melhorias nas condições de vida das mulheres empobrecidas, criou as condições subjetivas para que mulheres de vários segmentos sociais (acadêmicas, religiosas, sindicalistas, militantes de esquerda, etc) se organizassem politicamente em torno de uma luta que, num contexto pós-ditadura militar, as unificava: a violência doméstica e familiar. (GOMES et al., 2009, p.12)
Dentre as diversas lutas feministas da época, destaca-se a campanha nacional contra a tese da legítima defesa da honra, sob o lema “quem ama não mata”. Em síntese, Pasinato (2004) explica que a motivação desta era denunciar os homens que assassinavam suas esposas/companheiras e se mantinham impunes judicialmente ao fazer uso da referida tese.
Deste modo Grossi (1994, p. 474) aponta:
Foi em outubro de 1979, no julgamento do playboy Doca Street pelo assassinato de sua companheira milionária Angela Diniz, que ocoveram pela primeira vez manifestações contra a impunidade em casos de assassinatos de mulheres por seus maridos. Na época, os argumentos utilizados pela defesa permitiram ao assassino merecer uma pena mínima de dois anos com sursis (GROSSI, 1994, p. 474)
Acontecimentos como estes eram banalizados pelo Estado, o que fomentou as manifestações feministas e incentivou a criação de organizações de apoio para mulheres, como por exemplo, a Casa da Mulher do Nordeste, em Pernambuco, e a Rede Mulher da Educação, em São Paulo. Segundo a pesquisa de Novellino (2006, p. 11) estas foram as primeiras ONGs feministas criadas no Brasil, em 1981, tendo como objetivo “[...] contribuir para o empoderamento das mulheres excluídas, a partir da perspectiva feminista, através de processos educativos de geração de renda e de intervenção nas políticas públicas, visando o
Desenvolvimento Humano Sustentável no Nordeste[...].” a mesma autora ainda menciona
“contribuir para o equilíbrio das relações sociais entre homens e mulheres, promovendo a harmonia entre os seres humanos e com a natureza, por meio da educação popular feminista[...].”, respectivamente. Paralelamente, Pasinato (2004, p. 01) expressa:
Favorecidos pelo movimento de redemocratização política que se instalava na sociedade brasileira, grupos de mulheres organizados junto à Igreja, ao movimento sindical ou a partidos políticos, passaram a buscar um diálogo com o Estado, cobrando a urgência de políticas que dessem respostas institucionais de prevenção e punição da violência praticada contra a mulher (PASINATO, 2004, p. 01).
Posteriormente, em quase duas décadas de ditadura militar, foram realizadas as primeiras eleições diretas para governadores dos estados, em 1982. Nesse contexto, a autora destaca o governo de Franco Montoro (MDB, 1982-1985), em São Paulo, que foi responsável pela origem da primeira delegacia da mulher no Brasil com o Decreto 23.769, de 6 de agosto de 1985. Pasinato e Santos salientam ainda:
A primeira delegacia da mulher atendeu, de imediato, um grande número de mulheres em situação de violência, mostrando que este problema existia, era grave e carecia de um atendimento policial especializado. Logo após esta experiência, foram criadas novas delegacias da mulher em São Paulo. Em vários outros estados, grupos feministas e de mulheres passaram a reivindicar a criação de delegacias da mulher como parte integrante e principal de uma política pública específica à questão da violência contra mulheres (PASINATO; SANTOS, 2008, p.12).
Ainda sobre, Pasinato (2004, p. 01) aponta que as delegacias da mulher “[...]
possibilitaram conhecer quem são as vítimas e seus agressores, os contextos das agressões e os crimes denunciados com maior frequência.” E, em consonância com o exposto, Gomes et al.
(2009, p. 15) complementa que após essa relevante conquista, “[...] as feministas que, até então, defendiam “serviços integrais”, passaram a focalizar a criminalização, utilizando-se de um recurso discursivo enquanto elemento educativo para inibir práticas violentas contra as mulheres.”
Outro grande marco foi a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 que, pela primeira vez, instaurou a igualdade entre homens e mulheres como direito fundamental, considerando-os iguais perante seus direitos e deveres (art. 5º, I). Nesse sentido, elucida Gomes et al. (2009) que a partir da década de 90 o Brasil marcou presença na Conferência Mundial de Direitos Humanos, em Viena; sancionou o decreto nº 1.973, de 1º de agosto de 1996, que institui a Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher;
instituiu a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra à Mulher (CEDAW); e assinou a Declaração e a Plataforma de Ação da VI Conferência Mundial sobre a Mulher, em Pequim. Similarmente, Gomes et al. mencionam:
Nessas conferências internacionais os direitos das mulheres foram finalmente reconhecidos como direitos humanos, contribuindo, assim, para que uma ampla campanha internacional fosse desencadeada com vistas à adoção, por parte dos governos nacionais, de medidas e mecanismos efetivos de erradicação da violência contra as mulheres (GOMES et al., 2009, p. 19)
Apesar de todas as conquistas, houve a criação dos Juizados Especiais Criminais com a sanção da Lei 9.099/95, que abriu margem para que crimes praticados contra mulheres em ambiente doméstico e familiar fossem considerados crimes de menor potencial ofensivo, como aponta o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) (2015):
O caráter muitas vezes patrimonial destas medidas, associado ao descompromisso com a atenção ao envolvimento afetivo e à condição de hipossuficiência social histórica, além da ausência de uma postura política coerente com a noção de violência de gênero como desrespeito a direitos humanos – por isso, incompatível com a natureza de “infrações de menor potencial ofensivo” – questionaram a aplicabilidade das normas do JECrim (IPEA, 2015, p. 24)
Somente com a constituição da Lei 11.340, de 7 de agosto de 2006 é que foi vedada a aplicação da Lei 9.099/95 nos crimes de violência doméstica e familiar contra a mulher, impossibilitando também, segundo o IPEA (2015, p. 25), “[...] a aplicação de penas pecuniárias, cesta básica e multa isolada.” Estes crimes passaram a ser julgados por juizados especializados instituídos pela referida lei que, conclui o Instituto, “[...] ordenou o acompanhamento às mulheres vítimas (artigos 27 e 28 da Lei Maria da Penha) pela Defensoria Pública ou assistência judiciária gratuita e trouxe a previsão de medidas protetivas de urgência.”
Outro mecanismo adotado pelo Estado como uma forma de enfrentar a violência de gênero, foi a implementação da Lei do Feminicídio (Lei n. 13.104/15) para qualificar os crimes de homicídio praticados contra as mulheres “em razão da condição de sexo feminino”, conforme expressado pelo Instituto (2017):
O crime de feminicídio é a expressão extrema, final e fatal das diversas violências que atingem as mulheres em sociedades marcadas pela desigualdade de poder entre os gêneros masculinos e feminino e por construções históricas, culturais, econômicas, políticas e sociais discriminatórias (INSTITUTO PATRÍCIA GALVÃO. 2017. p.10).
Consoante o exposto, nota-se que todo esse período entre a década de 70 e o início dos anos 2000 foi marcado por conquistas e retrocessos no que diz respeito às constantes lutas feministas no combate à violência de gênero, especialmente no que tange a violência doméstica e familiar contra a mulher. Entretanto, a criação destes múltiplos institutos e mecanismos para o resguardo dos direitos humanos das mulheres não foram satisfatoriamente conclusivos, uma vez que a sociedade ainda se encontra refém dos dogmas históricos do patriarcalismo.
2.2 VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR
O art. 5º da Lei nº 11.340/06 define a violência doméstica e familiar contra a mulher como “qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial”.
Nesse sentido, nota-se que a violência doméstica, por abranger um ou mais tipos de violência, torna-se ainda mais danosa, pois envolve também os sentimentos intrínsecos da vítima. A Organização Mundial da Saúde (2002, p.89) salienta que a violência física que ocorre em relacionamentos íntimos costuma vir acompanhada de violência psicológica e, entre um terço e mais da metade dos casos, resulta em violência sexual. Da mesma forma, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) (2015), salienta:
Quando dentro de uma relação com envolvimento de afetividade e carga emotiva há a ruptura do respeito com o outro – somado ao preconceito enraizado envolvendo a mulher na cultura de hierarquização das relações-, provoca-se a perpetuação do padrão passividade-feminina e agressividade-masculina, recolocando a mulher em uma posição submissa ao homem (IPEA, 2015, p.23)
Consoante entendimento do IPEA, Soares (2005) apresenta mais uma problemática deste tipo de violência:
Ainda na sua forma típica, a violência doméstica contra a mulher envolve atos repetitivos, que vão se agravando, em frequência e intensidade, como coerção, cerceamento, humilhação, desqualificação, ameaças e agressões físicas e sexuais variadas. Além do medo permanente, esse tipo de violência pode resultar em danos físicos e psicológicos duradouros (SOARES, 2005, p. 13).
Ante o exposto, fica evidente que a violência doméstica contra a mulher não é apenas um desrespeito aos direitos básicos inerentes do ser humano, mas também uma afronta à dedicação emotiva que a vítima concedeu ao seu agressor no decorrer do relacionamento.
Partindo desse pressuposto, Cerqueira et al. acrescenta:
Além do sofrimento cotidiano, a violência doméstica reproduz e alimenta um aprendizado que geralmente não fica restrito às paredes do lar. Crianças e jovens que crescem nesse meio, muitas vezes, respondem aos conflitos quotidianos e à necessidade de autoafirmação, tão típicos da juventude, usando a linguagem aprendida, da violência (CERQUEIRA et al., 2015, p. 7).
Logo, este tipo de violência causa danos à estabilidade familiar, uma vez que atinge não apenas a mulher, mas todos os que coabitam no mesmo círculo, ecoando em suas futuras relações interpessoais e conjugais. Nesse sentido, o art. 226 da CRFB/88 dispõe que “[...] a família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado[...].”, e, no parágrafo 8º deste, que
“[...] o Estado assegurará a assistência à família na pessoa de cada um dos que a integram, criando mecanismos para coibir a violência no âmbito de suas relações.”
Mesmo com todos os impactos negativos oriundos da violência doméstica, a vítima direta não era devidamente amparada pelo sistema judiciário, visto que antes da criação da popularmente conhecida Lei Maria da Penha, os casos de violência doméstica que resultavam em lesão corporal leve ou injúria, por exemplo, eram julgados pelo JECrim. Desse modo, Debert e Oliveira afirmam:
Nos JECrim, a defesa da família – tida por seus agentes como uma instituição baseada em relações de afeto e complementaridade de deveres e obrigações diferenciados de acordo com o gênero e a geração de seus membros – orienta os procedimentos conciliatórios, reproduzindo as hierarquias e os conflitos próprios desta instituição (DEBERT; OLIVEIRA, 2007, p. 308).
Em consonância com o exposto, Calazans e Cortes apontam dados alarmantes:
No balanço dos efeitos da aplicação da Lei 9.099/1995 sobre as mulheres, diversos grupos feministas e instituições que atuavam no atendimento a vítimas de violência doméstica constataram uma impunidade que favorecia os agressores. Cerca de 70%
dos casos que chegavam aos juizados especiais tinham como autoras mulheres vítimas de violência doméstica. Além disso, 90% desses casos terminavam em arquivamento nas audiências de conciliação sem que as mulheres encontrassem uma resposta efetiva do poder público à violência sofrida. Nos poucos casos em que ocorria a punição do agressor, este era geralmente condenado a entregar uma cesta básica a alguma instituição filantrópica (CALAZANS; CORTES, 2011, p. 42).
Conforme mencionado, a grande maioria dos casos que chegavam nos Juizados Especiais Criminais versavam sobre violência doméstica contra mulheres, mas apenas uma quantidade insignificante destes os réus eram condenados e, ainda, com pena desproporcional ao crime cometido, gerando uma sensação de impunidade. Nesse sentido, os autores complementam:
Com exceção do homicídio, do abuso sexual e das lesões mais graves, todas as demais formas de violência contra a mulher, obrigatoriamente, eram julgadas nos juizados especiais, onde, devido a seu peculiar ritmo de julgamento, não utilizavam o contraditório, a conversa com a vítima e não ouviam suas necessidades imediatas ou não (CALAZANS; CORTES, 2011, p. 42).
Além do desrespeito ao princípio do contraditório e da ampla defesa (art. 5º, inciso LV da CRFB/88) e ao princípio da verdade real (art. 156, 2ª parte, do Código Processual Penal), o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada enfatiza as dificuldades das vítimas em instaurar um processo, tendo em vista que os JECrims as desencorajaram.
Ao contrário do que ocorria nas Delegacias da Mulher, os JECrims muitas vezes incitavam a vítima à não-representação, levando à não instauração de um processo penal e tornando-se então um espaço de reprivatização da violência de gênero (IPEA, 2015, p.23).
Cabe ressaltar que as Delegacias Especializadas no Atendimento à Mulher, dado ao fato que se originaram por meio das constantes lutas feministas em prol da igualdade de gênero,
apresentavam um atendimento muito mais acolhedor e humanizado às mulheres em situação de violência, conforme elucidam Debert e Oliveira:
As DDM, em contrapartida, criadas para defender a mulher enquanto titular de direitos civis, são uma resposta às reivindicações dos movimentos feministas empenhados em realçar as relações de poder e dominação que permeiam a vida familiar.
Essas delegacias são uma das faces mais visíveis da politização da justiça na garantia dos direitos da mulher e representam uma forma de pressionar o sistema de justiça na criminalização de assuntos que eram tidos como questões privadas (DEBERT;
OLIVEIRA, 2007, p. 308).
O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (2015), por sua vez, salienta a importância da sanção da Lei nº 11.340/06 no combate à violência doméstica nas suas diversas formas, uma vez que esta foi responsável pela implementação dos Juizados da Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher (JVDFM), tendo em vista os artigos 27 e 28 desta lei:
Art. 27. Em todos os atos processuais, cíveis e criminais, a mulher em situação de violência doméstica e familiar deverá estar acompanhada de advogado, ressalvado o previsto no art. 19 desta Lei.
Art. 28. É garantido a toda mulher em situação de violência doméstica e familiar o acesso aos serviços de Defensoria Pública ou de Assistência Judiciária Gratuita, nos termos da lei, em sede policial e judicial, mediante atendimento específico e humanizado.
Desse modo, foram assegurados às mulheres em situação de violência doméstica o atendimento gratuito e especializado dos JVDFMs, mesmo se tratando de “crimes de menor potencial ofensivo”, bem como outras garantias brevemente citadas por Cerqueira et al.:
Esta procurou tratar de forma integral o problema da violência doméstica, e não apenas da imputação de uma maior pena ao ofensor. Com efeito, a nova legislação ofereceu um conjunto de instrumentos para possibilitar a proteção e o acolhimento emergencial à vítima, isolando-a do agressor, ao mesmo tempo que criou mecanismos para garantir a assistência social da ofendida. Além disso, a lei previu os mecanismos para preservar os direitos patrimoniais e familiares da vítima; sugeriu arranjos para o aperfeiçoamento e efetividade do atendimento jurisdicional; e previu instâncias para tratamento do agressor (CERQUEIRA et al., 2015, p. 8)
Mediante o exposto, a violência doméstica é extremamente nociva pois atinge o âmago de suas vítimas, interferindo diretamente não apenas em seus sentimentos, mas também nas relações afetivas de todos que compreendem o círculo familiar. Consequentemente, os atendimentos especializados para lidar com esse tipo de violência mostram-se fundamentais no âmbito judicial para resguardar os direitos da vítima e protegê-la, ao mesmo tempo que pune o agressor de forma proporcional ao crime cometido.
2.2.1 Os tipos de violência doméstica e familiar contra a mulher
A violência contra a mulher ocorre de diversas formas, sendo estas reforçadas constantemente pela desigualdade de gênero impregnada na cultura brasileira. Mesmo com o maior acesso à justiça e à informação, muitas mulheres se veem presas em ciclos de violência.
O Instituto Maria da Penha (c2018) explica as 3 fases desse ciclo. A primeira consiste no aumento da tensão, onde o agressor encontra-se constantemente irritado, com crises de raiva, onde muitas vezes ameaça e humilha a vítima. A segunda fase é quando toda a tensão acumulada na primeira se externaliza por meio do ato de violência, seja ela física, psicológica, patrimonial, entre outras. Na fase 3, conhecida como “lua de mel”, o agressor demonstra arrependimento e faz promessas de mudança de comportamento visando a reconciliação. E assim o ciclo da violência se repete.
As mulheres que sofrem violência não falam sobre o problema por um misto de sentimentos: vergonha, medo, constrangimento. Os agressores, por sua vez, não raro, constroem uma autoimagem de parceiros perfeitos e bons pais, dificultando a revelação da violência pela mulher (INSTITUTO MARIA DA PENHA, c2018)
A Organização Mundial de Saúde define a violência como:
O uso intencional de força física ou poder, ameaçado ou real, contra si mesmo, outra pessoa ou contra um grupo ou comunidade, que resulte ou tenha alta probabilidade de resultar em ferimentos, morte, dano psicológico, desenvolvimento deficiente ou privação (KRUG et al, 2002, p. 05).
O decreto nº 1.973/96, responsável pela promulgação da Convenção de Belém do Pará, dispõe que "entender-se-á por violência contra a mulher qualquer ato ou conduta baseada no gênero, que cause morte, dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher, tanto na esfera pública como na esfera privada.”.
São tipos de violência contra a mulher: a física, a sexual, a psicológica, a moral, a doméstica e familiar, a patrimonial, a institucional e a de gênero.
A violência física consiste no conjunto de atitudes ou ainda, condutas, que, através do uso da força física do agressor ou de armas de fogo ou armas brancas venham a, propositalmente, comprometer a integridade física da mulher (art. 7º, I da LMP). Entre outras modalidades desta violência, podemos citar: chutes, socos, mutilações, cortes ou enforcamentos. Quando as agressões físicas resultam em marcas visualmente aparentes, o Código Penal enquadra este tipo de violência pode nos crimes de lesão corporal.
A Fundação Perseu Abramo (2011), em parceria com o SESC, registrou que 5 mulheres eram espancadas a cada 2 minutos, naquele ano. Em 2017, de acordo com o website Mapa da Violência de Gênero (2017), o Sistema de Informação de Agravos de Notificação registrou
209.580 casos de violência física no país, em 67% destes as vítimas das agressões eram mulheres.
A violência sexual, por sua vez, caracteriza-se por todo ato ou conduta que venha a constranger a vítima a participar de relações sexuais, manter ou presenciar as mesmas mediante intermédio de intimidação, coação ou ainda, uso de força física (art. 7º, III da MLP).
Classificam-se dentro deste tipo de violência atos como: estupro, impedimento do uso de contraceptivos, obrigar a mulher a atos sexuais que lhe causem repulsa, desconforto ou forçar matrimônio, gravidez ou aborto por meio de chantagem, manipulação, suborno ou força física.
Com o avanço da tecnologia, os crimes contra a dignidade sexual ultrapassaram os limites físicos desta violência. Tendo como uma das finalidades combater a pornografia de vingança, em 2018 foi sancionada a Lei n 13.718/18, que tipificou como crime a “divulgação de cena de estupro ou de cena de estupro de vulnerável, de cena de sexo ou de pornografia”.
No mesmo ano, a Lei n. 13.772/18 instituiu a criminalização do “registro não autorizado de conteúdo com cena de nudez ou ato sexual ou libidinoso de caráter íntimo e privado”.
São consideradas como violência psicológica todas as ações que resultem em dano emocional e redução da autoestima da vítima ou aquelas que prejudiquem o pleno desenvolvimento da mesma e, também, que venha a controlar as ações ou decisões da vítima ou degradá-la (art. 7º, II da LMP). É possível citar ameaças, constrangimento, manipulação, chantagem ou gaslighting como formas dessa violência.
Já definida como uma das formas de violência doméstica e familiar contra a mulher na Lei Maria da Penha, a violência psicológica foi tipificada como crime no Código Penal somente em 2021, com a sanção da Lei nº 14.188. Nesse sentido, foi incluído o art. 147-B, que define:
Causar dano emocional à mulher que a prejudique e perturbe seu pleno desenvolvimento ou que vise a degradar ou a controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, chantagem, ridicularização, limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que cause prejuízo à sua saúde psicológica e autodeterminação (BRASIL, 2021).
Ocorreu, também, a tipificação do crime de stalking, incluído no Código Penal através da Lei nº 14.132/21 e, segundo Costa, Fontes e Hoffmann (2021), “consiste em forma de violência na qual o sujeito invade repetidamente a esfera da vida privada da vítima, por meio da reiteração de atos de modo a restringir a sua liberdade ou atacar a sua privacidade ou reputação”, causando danos psicológicos e emocionais às vítimas. Quanto às formas de consumação deste crime, os autores complementam:
Há o emprego de táticas de perseguição diversas, a exemplo de ligações telefônicas, envio de mensagens por SMS, aplicativo ou email, publicação de fatos ou boatos, remessa de presentes, espera da passagem da vítima pelos lugares que frequenta, dentre outras. [...] chamar-se de cyberstalking a perseguição realizada por intermédio da internet, seja por redes sociais, emails, blogs etc (COSTA; FONTES;
HOFFMANN, 2021).
Por outro lado, intimamente ligado à violência psicológica, há a violência moral, que enquadra todas as ações que configuram os crimes de calúnia, difamação ou injúria, de forma que o agressor acuse falsamente a vítima de crimes que ela não cometeu, ou imputar fatos que ofendam a dignidade ou reputação da mulher (art. 7º, V da LMP). Expor a intimidade da vítima, rebaixar a mulher por conta das roupas, circular mentiras sobre a honra da mesma são ainda alguns exemplos de como agressores perpetuam essa violência.
Já a violência patrimonial ocorre quando o agressor age de maneira a destruir parcial ou totalmente, reter ou subtrair objetos particulares, de trabalho, documentos, recursos ou valores econômicos (art. 7º, IV da LMP). Pertencem a essa categoria de violência atos como controlar o dinheiro da vítima, estelionato, o não pagamento da pensão alimentícia, entre outros.
Segundo Vieira (2020), subtrair, destruir e reter são as três condutas que sintetizam este tipo de violência, ratificando que, “por vezes a subtração ocorre com finalidade de causar dor ou dissabor à mulher, pouco importando o valor dos bens subtraídos”. Em seguida, cita alguns exemplos:
Desqualificar a contribuição da vítima na construção do patrimônio do casal com o seu trabalho, mesmo sendo o doméstico; o ex-cônjuge abandonar emprego formal ou ocultar vencimentos para não pagar alimentos aos filhos e até mesmo atrasá-los injustificadamente; aquisição de bens em nome de terceiros para manipular a legislação e garantir a propriedade exclusiva; privar os recursos para a sobrevivência da vítima (VIEIRA, 2020)
Por fim, a violência de gênero é aquela que é sofrida pelo fato de ser mulher, extinguindo quaisquer fatores de raça, credo ou classe social. Todas as violências que são cometidas contra as mulheres podem também ser consideradas como violência de gênero, uma vez que são o resultado de uma sociedade enraizada em crenças que posicionam o feminino como subordinado ao masculino, frágil e dependente do mesmo.
As diretrizes nacionais sobre crimes de feminicídio destacam as seguintes motivações baseadas em gênero: sentimento de posse sobre a mulher; controle sobre o corpo, desejo e autonomia da mulher; limitação da emancipação profissional, econômica, social ou intelectual da mulher; tratamento da mulher como objeto sexual; e manifestações de desprezo e ódio pela mulher e pela sua condição de gênero (GOVERNO…, 2016).
Tendo em vista as motivações de gênero que derivam dos crimes de feminicídio, uma atuação homogênea dos setores envolvidos faz-se necessária, baseada em respeito aos direitos da vítima, visando que as mulheres que sofrem violência de gênero são sujeitos de direito, e, dada suas condições, necessitam de acolhimento e atendimento preparado para as especificidades da natureza da violência, onde não se sentirão menosprezadas, minimizadas ou indignas, onde por fim, não desistam de seus direitos.
3 OSJVDFMSNOATENDIMENTOEACOLHIMENTODEMULHERESEM SITUAÇÃODEVIOLÊNCIA
Este capítulo terá como foco os Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a mulher. Serão apresentados a sua origem no sistema jurídico brasileiro, bem como suas atribuições no combate à violência de gênero.
No segundo momento, será comentada a estrutura dos JVDFMs, bem como os profissionais que atuam no mesmo, formando uma equipe multidisciplinar, de forma que o auxílio prestado às vítimas seja humanizado e eficaz, operando em um espaço físico abrangente e capacitado para administrar todas as demandas processuais.
Por fim, será abordada uma das maiores inovações trazidas pela Lei Maria da Penha no combate à violência doméstica e familiar contra a mulher: as medidas protetivas de urgência, um mecanismo de defesa à integridade pessoal das vítimas.
3.1 A ORIGEM DOS JUIZADOS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR CONTRA A MULHER
Os Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher (JVDFMs), são instâncias desenvolvidas pela Lei Maria da Penha com a finalidade de que as medidas de punição, proteção, assistência e prevenção deste tipo de violência sejam aplicadas de forma integral mediante atuação especializada (PASINATO, 2011).
É impensável discorrer sobre os JVDFMs sem previamente comentar a criação da Lei 11.340/2006, responsável pela criação destes. Nas palavras do Conselho Nacional de Justiça (2018), a Lei Maria da Penha “[...] modificou os paradigmas no enfrentamento da violência, incorporando a perspectiva de gênero no tratamento legal das desigualdades, assim como a ótica preventiva, integrada e multidisciplinar a respeito do tema.”
Com a implementação da Lei 9.099/95, os casos de violência doméstica e familiar contra a mulher que resultavam em crimes de menor potencial ofensivo eram julgados pelos Juizados Especiais Criminais. Como visto no capítulo antecedente, a “[...] ausência de uma postura política coerente com a noção de violência de gênero como desrespeito a direitos humanos [...]
questionaram a aplicabilidade das normas do JECrim.” (IPEA, 2015, p. 24).
Sendo assim, em razão da omissão do Estado sobre os casos concretos que tinham como objeto a violência de gênero ocorrida em ambiente doméstico e familiar, houve um evento em específico que abalou o Brasil, ultrapassando os limites territoriais: o habitualmente conhecido
como “caso Maria da Penha”. Após ser submetida a duas tentativas de feminicídio por seu marido em 1983, tornando-a paraplégica, Maria da Penha Maia Fernandes começou a sua luta por justiça (IMP, c2018).
Em síntese, o Instituto Maria da Penha (c2018) constata que o autor dos crimes, Marco Antonio, foi sujeito a dois julgamentos - um em 1991 e outro em 1996 -, foi condenado em ambos, porém não cumpriu quaisquer sentenças, gerando uma revolta dada a impunidade e a inefetividade do sistema judiciário perante a violência doméstica no Brasil. Nesse sentido, complementa-se:
O ano de 1998 foi muito importante para o caso, que ganhou uma dimensão internacional. Maria da Penha, o Centro para a Justiça e o Direito Internacional (CEJIL) e o Comitê Latino-americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher (CLADEM) denunciaram o caso para a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (CIDH/OEA) (IMP, c2018).
Somente em 2001, conclui o IMP (c2018), “[...] e após receber quatro ofícios da CIDH/OEA (1998 a 2001) [...] o Estado foi responsabilizado por negligência, omissão e tolerância em relação à violência doméstica praticada contra as mulheres brasileiras.” A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) se manifestou através da emissão do relatório n° 54/01, sumariamente versando que:
[...] os tribunais brasileiros não chegaram a proferir uma sentença definitiva depois de 17 anos, e esse atraso vem se aproximando da possível impunidade definitiva por prescrição, com a conseqüente impossibilidade de ressarcimento que, de qualquer maneira, seria tardia. A Comissão considera que as decisões judiciais internas neste caso apresentam uma ineficácia, negligência ou omissão por parte das autoridades judiciais brasileira e uma demora injustificada no julgamento de um acusado, bem como põem em risco definitivo a possibilidade de punir o acusado e indenizar a vítima, pela possível prescrição do delito. Demonstram que o Estado não foi capaz de organizar sua estrutura para garantir esses direitos. Tudo isso é uma violação independente dos artigos 8 e 25 da Convenção Americana sobre Direitos Humanos em relação com o artigo 1(1) da mesma, e dos artigos correspondentes da Declaração (COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS, 2001).
A partir desta condenação foi elaborado um projeto de lei em 2004 para instituir o chamado Grupo de Trabalho Interministerial para que este desenvolvesse mecanismos de combate e prevenção à violência doméstica contra as mulheres (Decreto 5.030, de 31 de março de 2004), posteriormente dando origem à Lei n. 11.240, de 7 de agosto de 2006, popularmente conhecida como Lei Maria da Penha, que entrou em vigor no dia 22 do mesmo mês (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2018, p. 17).
A opressão histórica ao sexo feminino e a violência de gênero sofrida por parte das mulheres no âmbito doméstico e familiar, encarnada no episódio triste desta cidadã brasileira, aportaram nos juizados especializados no atendimento, proteção e assistência às mulheres vítimas de violência doméstica e familiar, os Juizados de
Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, nos quais, segundo os artigos 17 e 41 desta mesma Lei [...] (IPEA, 2015, p.25).
Sendo assim, além de introduzir a perspectiva de gênero no âmbito legal, a Lei Maria da Penha criou novos mecanismos para combater a violência contra a mulher, como a medida protetiva, e previu “o acesso aos serviços de Defensoria Pública e de Assistência Judiciária Gratuita” para as vítimas (art. 28), bem como a inaplicabilidade da Lei 9.099/1995 aos crimes envolvendo violência doméstica e familiar contra a mulher (art. 41), e a instituição dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher para garantir um atendimento especializado (BRASIL, 2006).
Art. 14. Os Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, órgãos da Justiça Ordinária com competência cível e criminal, poderão ser criados pela União, no Distrito Federal e nos Territórios, e pelos Estados, para o processo, o julgamento e a execução das causas decorrentes da prática de violência doméstica e familiar contra a mulher (BRASIL, 2006).
Sendo assim, observa-se que compete aos JVDFMs a apreciação e julgamento dos crimes compreendidos na Lei Maria da Penha, bem como a análise de matéria cível no que diz respeito às medidas protetivas (PASINATO, 2011, p. 135).
As duas primeiras Varas Especializadas de Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher na história do Brasil foram instaladas no estado do Mato Grosso, no mesmo ano em que a Lei Maria da Penha foi criada (CUNHA, 2021). Conforme mapeamento realizado pelo Departamento de Pesquisas Judiciárias do CNJ, em 2016 havia o total de 112 JVDFMs no país, a maioria localizada nas capitais dos estados (BANDEIRA, 2016).
Conclui-se, portanto, que ao dar origem aos Juizados Especializados de Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher, substituindo o uso da Lei 9.099/95 nos casos de violência doméstica e familiar, o Estado se comprometeu à apreciação mais humanizada destes, contemplando as questões de gênero com a finalidade de garantir a punição adequada em cada caso concreto, bem como o suporte necessário para as vítimas.
3.2 A ESTRUTURA DOS JVDFMS NO ATENDIMENTO ESPECIALIZADO
Dentre as inovações instituídas pela Lei Maria da Penha no combate à violência doméstica e familiar contra a mulher, destacam-se a criação das Medidas Protetivas de Urgência e dos Juizados especializados, bem como a implementação de equipe multidisciplinar nestes (BRASIL, 2006).
Em primeiro lugar, para garantir o atendimento humanizado às mulheres em situação de violência, é indispensável que os Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher disponham de um ambiente adequado.
Conforme relatório publicado pelo CNJ e pelo IPEA (2019, p. 30), a estrutura dos Juizados geralmente é “[...] constituída, basicamente, pela sala de audiências, o cartório (secretária da vara) e o gabinete do/a magistrado/a, [...].” é comum que o espaço onde os/as atendidos/as aguardam a audiência seja o próprio corredor. No entanto, o CNJ já havia desenvolvido um Manual de Rotinas e Estruturação dos JVDFMs (2018) com a finalidade de certificar a eficácia dos Juizados com base na sua estrutura física e no seu funcionamento.
Os Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher devem conter gabinete para magistrado, bem como sala de audiências, espaço para a Secretaria (cartório), sala de espera e acolhimento humanizado, brinquedoteca, sala para atendimento individual, sala para atendimento em grupo pela Equipe Multidisciplinar, sala para depoimento especial (Lei n. 13.431/2017), entre outros (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2018, p. 29)
Além dos espaços supracitados, o CNJ (2018) aponta a importância do local ter a dimensão adequada para acomodar os funcionários e os processos físicos imputados ao Juizado.
É relevante, também, o emprego de computadores capazes de armazenar os processos eletrônicos, bem como a disposição de endereço eletrônico e linha telefônica como meios de comunicação.
Por outro lado, em razão de a competência dos JVDFMs ser híbrida, ou seja, ser capaz de processar, julgar e executar ações criminais e cíveis, são inúmeras as modalidades e realizações de audiências nos Juizados, bem como ações de concessão de medidas protetivas, inquéritos policiais, entre outros. Desta forma, para que a equipe seja capaz de suprir todas essas funções de forma eficaz, o CNJ (2018) propôs que a estrutura ideal para o funcionamento dos JVDFMs deveria contar com: Juiz, Assessor de Juiz, Secretário de Juiz, Diretor de Secretaria/Escrivão, Chefe de Cartório, Oficiais de Justiça, e Equipe Multidisciplinar, sendo o número de funcionários designado conforme a quantidade de processos físicos e eletrônicos tramitando no Juizado, nunca superior à 4.000.
Em síntese, é essencial que haja uma estrutura adequada para acomodar todos os colaboradores dos Juizados e assegurar que o atendimento às vítimas de violência doméstica e familiar ocorra de forma humanizada, conforme designado pelo Conselho Nacional de Justiça (2018) no referido manual, bem como a atuação de uma equipe multidisciplinar completa.