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SERVIÇO SOCIAL E QUESTÃO SOCIAL

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Academic year: 2022

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QUESTÃO SOCIAL

Autoria: Silvana Braz Wegrzynovski

Indaial - 2021 UNIASSELVI-PÓS

1ª Edição

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Cx. P. 191 - 89.130-000 – INDAIAL/SC Fone Fax: (47) 3281-9000/3281-9090

Copyright © UNIASSELVI 2021

Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial.

W412s

Wegrzynovski, Silvana Braz

Serviço social e questão social. / Silvana Braz Wegrzynovski – Indaial: UNIASSELVI, 2021.

124 p.; il.

ISBN 978-65-5646-297-4 ISBN Digital 978-65-5646-296-7

1. Questões sociais. - Brasil. II. Centro Universitário Leonardo da Vinci.

CDD 360

Reitor: Prof. Hermínio Kloch

Diretor UNIASSELVI-PÓS: Prof. Carlos Fabiano Fistarol Equipe Multidisciplinar da Pós-Graduação EAD:

Carlos Fabiano Fistarol

Ilana Gunilda Gerber Cavichioli Jóice Gadotti Consatti

Norberto Siegel Julia dos Santos Ariana Monique Dalri Jairo Martins

Marcio Kisner Marcelo Bucci

Revisão Gramatical: Equipe Produção de Materiais Diagramação e Capa:

Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI

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APRESENTAÇÃO ...5

CAPÍTULO 1

O Estado Como Organismo Corporativo E A Base Confessional Da Igreja Católica:

A Legitimidade Da Questão Social ... 7

CAPÍTULO 2

As Demandas Sociais E Serviço Social

No Brasil: Novos Cenários, Atores E Práticas Sociais ... 47

CAPÍTULO 3

Serviço Social Contemporâneo E Questão Social ... 95

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Analisando a atual conjuntura brasileira, as demandas referentes às ques- tões sociais estão sendo colocadas como uma nova indicação nas propostas de atuação do Serviço Social. Neste sentido, estudar e resgatar a concepção das questões sociais, como sendo uma possibilidade de refletirmos sobre suas ex- pressões se consolida em constituir um objeto de atuação profissional, sendo este o foco deste livro.

O Serviço Social como profissão é legitimada socialmente, significando que a mesma tem uma função social mediante suas ações. Se considerarmos que as profissões são criadas para suprir as necessidades dos homens, o Serviço Social tem seu objetivo mediante as demandas das questões sociais.

Com o desenvolvimento das forças produtivas, novas profissões são criadas e outras acabam sendo desnecessárias. O Serviço Social é uma profissão que res- ponde às necessidades sociais das pessoas em situação de vulnerabilidade social.

O que pode ser confirmado através do número de profissionais de Serviço Social que estão inseridos no mercado de trabalho, pois estes trabalham efetiva- mente com ações geradas pelas demandas das dimensões sociais, econômicas e políticas, porém, a profissão Serviço Social vem mantendo historicamente a espe- cificidade profissional e esta especificidade se dá pelo objeto de ação profissional, ou seja, a questão social.

Neste sentido, o objeto do Serviço Social, questão social, está vinculado à vi- são do homem com o mundo; baseado numa visão teórica que o sistema capitalista de produção de uma opção política, que se torna a teoria norteadora da ação pro- fissional vem sendo construída desde o Movimento de Reconceituação, no qual o Serviço Social tem construído uma ação voltada para a maioria da população, sen- do este um dos assuntos que será apresentado no decorrer desta disciplina.

Então chegou a hora de iniciarmos nossos estudos, vamos lá!

Profª. Msc. Silvana Braz Wegrzynovski

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C APÍTULO 1

O ESTADO COMO ORGANISMO

CORPORATIVO E A BASE CONFESSIONAL DA IGREJA CATÓLICA: A LEGITIMIDADE DA QUESTÃO SOCIAL

A partir da perspectiva do saber-fazer, são apresentados os seguintes obje- tivos de aprendizagem:

 Compreender a história da colonização do Brasil.

 Rever os motivos da colonização brasileira.

 Descrever quais foram os enfrentamentos republicanos pela questão social no país.

 Entender quais são as demandas operárias e as apreensões de Rui Barbosa.

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1 CONTEXTUALIZAÇÃO

No período de 1937 a 1999, o Serviço Social como profi ssão societária re- alizou internamente uma transformação na sua forma de pensar e fazer as suas ações nos espaços de trabalhos.

Começou através da passagem de crédito aos cidadãos, homens, a respon- sabilidade pelas situações que vivenciam, visando a uma prática doutrinária com princípios cristão, sendo considerado essa a razão para a recuperação de toda as demandas sociais da sociedade.

No ano de 1999, o Serviço Social assume uma postura profi ssional marxista e analisa que o modelo de produção social é a causa prioritária das desigualda- des sociais, considerando que os homens, num contexto desigual individual não são desiguais, e sim o modelo de produção e de apropriação do produto social é que produz e reproduz as desigualdades sociais.

Essa nova forma de agir profi ssional foi considerado um salto elogiável para o Serviço Social, que incialmente começou a adaptar os homens conforme os princípios cristãos e com respeito à autoridade cristã e atualmente tem nos ho- mens a autoridade máxima de respeito como profi ssão. Antes tinha os homens como objeto da sua ação profi ssional e hoje entende que os homens são os pró- prios sujeitos da história.

Historicamente, o objeto do Serviço Social no Brasil é delimitado diante das conjunturas políticas e socioeconômicas do país, levando sempre em considera- ção as perspectivas teóricas e ideológicas que orientam a intervenção do assis- tente social.

No início do Serviço Social no país, em 1937, o objeto da profi ssão defi nido era as pessoas em situação de extrema vulnerabilidade social, ou seja, o homem que morava em favelas, que não era alfabetizado, pobre, desempregado e outros.

Entendia-se que o homem era incapaz, por meio de sua natureza, de crescer so- cialmente. Sendo este homem o objeto de intervenção profi ssional do assistente social, que tinha como objetivo moldá-lo e integrá-lo aos valores morais e costu- mes que eram defi nidos pela fi losofi a neotomista.

Em seguida, o Serviço Social consegue ultrapassar a ideia do homem como o objeto da ação profi ssional e passa para a compreensão de que este homem em extrema situação de vulnerabilidade social é fruto não só de uma incapacidade indi- vidual, mas de um conjunto de situações que precisam de uma intervenção técnica e profi ssional. O objeto do Serviço Social se assenta, como a situação social problema:

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[...] o Serviço Social atua na base das inter-relações do binô- mio indivíduo-sociedade. [...] Como prática institucionalizada, o Serviço Social se caracteriza pela atuação junto a indivíduos com desajustamentos familiares e sociais. Tais desajustamen- tos muitas vezes decorrem de estruturas sociais inadequadas (DOCUMENTO DE ARAXÁ, 1967, p.11).

Com a mobilização popular contra a Ditadura Militar na década de 1970, o Serviço Social acabou revendo seu objeto de atuação profi ssional, defi nindo como processo de transformação social. Ainda com o objeto sendo equivocado, as trans- formações sociais não se constroem como tarefa de nenhum profi ssional; mas uma tarefa de partidos políticos. O objeto signifi ca para a profi ssão dos assistentes so- ciais a busca de um elo, um vínculo com as classes em situação de vulnerabilidade sociais, ou seja, as subalternas, que são exploradas pelo sistema capitalista.

Esta postura política tem norteado os debates do Serviço Social atualmen- te. Sendo considerado teoricamente, a profi ssão orienta-se pela análise marxista da sociedade burguesa, mas isso acabou abandonando a transformação social como objeto de ação profi ssional. Para a ABESS/CEDEPSS , o objeto passou a ser defi nido como a questão social, ou as expressões da questão social:

O assistente social convive cotidianamente com as mais am- plas expressões da questão social, matéria prima de seu traba- lho. Confronta-se com as manifestações mais dramáticas dos processos da questão social no nível dos indivíduos sociais, seja em sua vida individual ou coletiva (ABESS/CEDEPSS, 1996, p. 154-5).

Sendo prioridade, iniciamos os estudos dessa disciplina resgatando todo este contexto histórico do Serviço Social.

2 O ESTADO COMO ROGANISMO CORPORATIVO E A BASE

CONFESSIONAL DA IGREJA

CATÓLICA: A LEGITIMIDADE DA QUESTÃO SOCIAL

O primeiro capítulo livro apresenta o Serviço Social como profi ssão e os de- safi os que esta relação apresenta para a intervenção profi ssional devido à inter- venção da Igreja Católica.

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Priorizamos o estudo sobre o crescimento e o aprofundamento desse pro- cesso ao longo das duas últimas décadas do século XX; a reorganização do Esta- do diante da base conceitual da Igreja Católica e a sua consolidação no início do século XXI.

Diante disso, os tópicos deste capítulo irão ressaltar toda a trajetória do Ser- viço Social em relação ao pensamento dominante da Igreja Católica no surgimen- to da profi ssão, relacionado aos motivos da colonização brasileira e das lutas pela questão social no Brasil.

1. A ASSISTÊNCIA SOCIAL ANTES DA CONSTITUIÇÃO FEDE- RAL DE 1988

Para analisar a Política de Assistência Social, é fundamental in- vestigar a sua trajetória. A Constituição Federal é um marco funda- mental desse processo porque reconhece a assistência social como política social que, junto com as políticas de saúde e de previdência social, compõem o sistema de seguridade social brasileiro. Portanto, pensar esta área como política social é uma possibilidade recente.

Mas, há um legado de concepções, ações e práticas de assistência social que precisa ser capturado para análise do movimento de cons- trução dessa política social.

A prática da assistência ao outro é antiga na humanidade. Em diferentes sociedades, a solidariedade dirigida aos pobres, aos via- jantes, aos doentes e aos incapazes sempre esteve presente. Esta ajuda pautava-se na compreensão de que na humanidade sempre existirão os mais frágeis, que serão eternos dependentes e precisam de ajuda e apoio.

A civilização judaico-cristã transforma a ajuda em caridade e be- nemerência e, dessa forma, compreende-se que o direito à assistên- cia foi historicamente sendo substituído pelo apelo à benevolência das almas caridosas.

Com a expansão do capital e a pauperização da força de tra- balho, as práticas assistenciais de benemerência foram apropriadas pelo Estado direcionando dessa forma a solidariedade social da so- ciedade civil.

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No Brasil, até 1930, não havia uma compreensão da pobreza enquanto expressão da questão social e quando esta emergia para a sociedade, era tratada como “caso de polícia” e problematizada por intermédio de seus aparelhos repressivos. Dessa forma a pobreza era tratada como disfunção individual.

A primeira grande regulação da assistência social no país foi a instalação do Conselho Nacional de Serviço Social – CNSS - criado em 1938. Segundo Mestriner (2001, p.57-58):

O Conselho é criado como um dos órgãos de cooperação do Ministério da Educação e Saúde, passando a funcionar em uma de suas dependências, sendo formado por fi guras ilustres da sociedade cultural e fi lantrópica e substituindo o governante na decisão quanto a quais organizações auxiliar. Transita, pois, nessa decisão, o ges- to benemérito do governante por uma racionalidade nova, que não chega a ser tipicamente estatal, visto que atribui ao Conselho certa autonomia.

Dessa forma, é nesse momento que se selam as relações entre o Estado e segmentos da elite, que vão avaliar o mérito do Estado em conceder auxílios e subvenções (auxílio fi nanceiro) a organiza- ções da sociedade civil destinadas ao amparo social. O conceito de amparo social neste momento é tido como uma concepção de assis- tência social, porém identifi cado com benemerência.

Portanto, o CNSS foi a primeira forma de presença da assistência social na burocracia do Estado brasileiro, ainda que na função subsi- diária de subvenção às organizações que prestavam amparo social.

A primeira grande instituição de assistência social será a Legião Brasileira de Assistência – LBA - que tem sua gênese marcada pela presença das mulheres e pelo patriotismo. Segundo Sposati (2004, p.19):

A relação da assistência social com o sentimento patriótico foi exponenciada quando Darcy Vargas, a esposa do presidente, reú- ne as senhoras da sociedade para acarinhar pracinhas brasileiros da FEB – Força Expedicionária Brasileira – combatentes da II Guerra Mundial, com cigarros e chocolates e instala a Legião Brasileira de Assistência – LBA. A ideia de legião era a de um corpo de luta em campo, ação.

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Dessa forma compreende-se que o intuito inicial da LBA era atu- ar como uma legião, como um corpo em ação numa luta em campo.

Em Outubro de 1942 a L.B.A. se torna uma sociedade civil de fi nalidades não econômicas, voltadas para “congregar as organiza- ções de boa vontade”. Aqui a assistência social como ação social é ato de vontade e não direito de cidadania (SPOSATI, 2004, p. 20).

A L.B.A. assegura estatutariamente sua presidência às primei- ras damas da República, imprimindo dessa forma a marca do primei- ro-damismo junto à assistência social e estende sua ação às famílias da grande massa não previdenciária, atendendo na ocorrência de ca- lamidades com ações pontuais, urgentes e fragmentadas.

Segundo Sposati (2004) essa ação da LBA traz para a assistên- cia social o vínculo emergencial e assistencial, marco que predomina na trajetória da assistência social.

Após as campanhas de impacto realizadas junto aos “convoca- dos” de guerra, a Legião Brasileira de Assistência será a instituição a se fi rmar na área social, e sua ação assistencial será implementada no sentido de dar apoio político ao governo (MESTRINER, 2001, p. 145).

Para desenvolver essas novas funções, a LBA busca auxílio jun- to às escolas de serviço social especializadas. Dessa forma, há uma aproximação de interesse mútuo entre a LBA e o serviço social, pois a LBA precisava de serviço técnico, de pesquisas e trabalhos técni- cos na área social e o serviço social estava se fi rmando e precisava se legitimar enquanto profi ssão.

Em 1969, a LBA é transformada em fundação e vinculada ao Ministério do Trabalho e Previdência Social, tendo sua estrutura am- pliada e passando a contar com novos projetos e programas.

A ditadura militar cria, sob o comando de Geisel, em 1º de Maio de 1974, o Ministério da Previdência e Assistência Social – MPAS – que contém na sua estrutura uma Secretaria de Assistência Social, a qual, em caráter consultivo, vai ser o órgão-chave na formulação de política de ataque à pobreza. Segundo Mestriner (2001, p.168):

Tal política mobilizará especialistas, profi ssionais e organiza- ções da área. O Centro Brasileiro de Cooperação e Intercâmbio de Serviços Sociais – CBCISS realiza, então, seminário em Petrópolis

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(de 18 a 22 de maio de 1974), com 33 especialistas, visando subsi- diar a iniciativa governamental.

Documento resultante deste seminário destaca a valorização da assistência social pelo MPAS e enfatiza a necessidade de tratamento inovador nessa área, fugindo ao caráter assistencialista e de simples complementação da previdência.

O processo de pauperização se acirra ainda mais no fi nal desse período exigindo do Estado maior atenção em todos os níveis.

A política social direciona-se ao exército de reserva de mão-de- -obra usando essa demanda como uma justifi cativa para o cresci- mento do Estado. Há uma expansão de programas sociais como de Alfabetização pelo Mobral, casas populares – BNH, complementação alimentar – Pronam e outros.

A assistência social deixa de ser simplesmente fi lantrópica fazen- do parte cada vez mais da relação social de produção, mas: a criação de novos organismos segue a lógica do retalhamento social, criando- -se serviços, projetos e programas para cada necessidade, problema ou faixa etária, compondo uma prática setorizada, fragmentada e des- contínua, que perdura até hoje (MESTRINER, 2001, p.170).

Assim, pelo binômio repressão x assistência, o Estado mantém apoio às instituições sociais. A questão social toma maior visibilida- de com o fi m da repressão, proporcionando um campo fértil para o desenvolvimento dos movimentos sociais, que com poder de pres- são almejam legitimar suas demandas proporcionando visibilidade à assistência social ao lado das demais políticas públicas como estra- tégia privilegiada de enfrentamento da questão social, objetivando a diminuição das desigualdades sociais.

FONTE: <https://www.uel.br/revistas/ssrevista/c-v8n2_sonia.htm>. Acesso em: 9 fev. 2021.

2.1 MOTIVOS DA NOSSA COLONIZAÇÃO

O Brasil é considerado um país jovem com pouco mais de quinhentos anos de existência como nação. A história de colonização brasileira é prescrita de fatos signifi cativos que relatam a nossa formação enquanto povo fundamentado em uma base de violência e de exploração da população que aqui residia e ainda reside.

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O descobrimento das terras brasileiras aconteceu devido a um erro de rota de navegação. Os navegantes portugueses que aportaram aqui estavam com sua rota programada para os caminhos das índias, pois este daria acesso às diversas especiarias que à época eram tão valiosas e cobiçadas no mundo ocidental.

Porém, estes navegadores chegaram em uma terra completamente diferen- te, causando estranhamento pela grande extravagância e grande deslumbre pe- rante as belas paisagens da natureza fantástica e indomável e prontamente senti- ram a necessidade de explorar tais terras desconhecidas.

É considerável afi rmar que o Brasil nasceu como um país, fruto de equívoco, mas que o tornaria para sempre um grande entreposto comercial.

Na época, as primeiras populações que foram trazidas para o chamado novo mundo não vieram por livre vontade e nem de bom grado, como também não pla- nejavam fi car aqui. Essas pessoas eram na maioria rejeitados pela sociedade de onde partiram.

Para os primeiros povoadores, a busca de esposas era um dos focos, sendo escolhidas jovens mulheres órfãs, que casavam contra sua vontade.

Segundo alguns historiadores, no princípio da colonização não havia nenhu- ma preocupação consistente com o povoamento. Portugal, que só tinha olhos para o Oriente, considerou a terra um território fragmentado, que nada tinha da unidade de hoje, uma espécie de “espaço de reserva” para atividades posteriores (MELLO; SOUZA, 2013).

O início da colonização brasileira não houve unidade por parte das diversas frentes de colonizadoras que se formaram, pois acabavam sendo independentes, isoladas e comunicavam com a corte apenas entre si, ou apenas entre elas.

Inicialmente, a chamada Terra de Vera Cruz, de Terra dos Papagaios e Terra de Santa Cruz, mas prevaleceu o nome de Brasil, decorrente do pau-brasil, uma madeira que tingia os panos e dava suporte para o mercado fi nanceiro da época.

O historiador Vianna Moog (1954) faz uma comparação entre a colonização dos EUA, pois esta tem a mesma idade de descobrimento e territórios tão grande quanto o Brasil. Enquanto que nos EUA os colonizadores eram peregrinos que vinham se estabelecer com a família no novo mundo, para seguir sua fé e cultivar seu pedaço de terra, no Brasil tivemos desbravadores que se embrenhavam nas matas para capturar os nativos para trabalho escravo e conseguir riquezas como ouro e pedras preciosas para o comércio com a Europa.

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Consequentemente, com esse processo de colonização várias cidades aca- baram surgindo, sendo um dos motivos a desistência por parte dos colonizadores de prosseguirem viagem e de assentar em terras onde se encontravam.

Isso aconteceu ao acaso e sem nenhuma intencionalidade de fundar cidades.

Porém, a intenção extrativista predominou sempre. Numa visão teórica e social, o Brasil se moldava com um enorme corpo desfrutável para os seus desbravadores.

Para Contardo Calligaris (1991, p. 16-17):

[...] o colonizador foi aquele que veio impor sua língua a uma nova terra, ou seja, ao mesmo tempo demonstrar a potência paterna (a língua do pai saberá fazer gozar um outro corpo que não o corpo materno) e a vai exercer longe do pai. Pois talvez o pai interdite só o corpo da mãe pátria e aqui, longe dele, a sua potência herdada e exportada abra o acesso a um corpo que o pai não proibiu.

O autor citado considera um erro na língua portuguesa, o fato de a expressão

“explorar a terra” signifi car não só ser o primeiro a conhecê-la, mas também aque- le que arranca seus recursos.

Os povos indígenas que foram encontrados se tornaram alvo de ganância e de violência por parte dos colonizadores. O que percebemos até os dias atuais é que se dá pouca importância para essa população e do genocídio de nações inteiras de Povos indígenas.

Massacrada, população indígena representa menos de 0,5% do país

Estima-se que a população indígena no Brasil no ano de 1500, quando os primeiros colonizadores chegaram, variava entre 4 e 10 milhões de pessoas. Passados 517 anos, a população indígena foi reduzida para 816.917 pessoas, representando apenas 0,47% da po- pulação brasileira atual.

Séculos de massacres realizados pelos colonizadores e confl i- tos com fazendeiros e garimpeiros que invadiram terras indígenas contribuíram para a redução da população.

Primitivos, atrasados, selvagens e imorais: era assim que os portugueses os viam e, com o aval da Igreja Católica (que cogitou

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que eles não tinham alma), a matança começou. Posteriormente a Igreja Católica voltou atrás e resolveu “educar” a população indígena.

Mesmo assim, as mortes não pararam.

Os índios que sobreviveram foram escravizados ou catequiza- dos. As doenças trazidas pelo homem branco foram outra arma mor- tal. Sem imunidade para os vírus e bactérias que vieram junto com os colonizadores, os índios não resistiram às doenças até aquele momento desconhecidas pelos povos.

Durante a ditadura militar, mais de oito mil indígenas foram mor- tos por estarem no caminho das estradas idealizadas pelo Programa de Integração Nacional. Os Waimiri-Atroari perderam 75% de sua po- pulação em menos de quinze anos. Os Panarás perderam 84%. O número de Parakanãs no Pará caiu pela metade. Sobraram apenas 10% dos Yanomamis do rio Ajarani.

Até hoje índios são assassinados. Entre 2003 e 2015, 742 in- dígenas foram assassinados. Isso representa uma média de 57 por ano, ou um homicídio a cada seis dias.

Os dados fazem parte do mais recente levantamento sobre a violência contra indígenas no Brasil, a plataforma CACI (Cartografi a dos Ataques Contra Indígenas).

Mas, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografi a e Esta- tística), existem motivos para comemorar. Nas últimas duas décadas, a população indígena teve um aumento de 205%. Outro aumento li- gado à população indígena, porém esse não é para ser comemora- do, foi a taxa de suicídio. Entre os mais de cinco mil municípios brasi- leiros, a cidade de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, fi cou na primeira posição do ranking brasileiro de suicídios. Os novos dados do Mapa da Violência 2014 revelam que, entre 2008 e 2012, a taxa de suicídios na cidade foi de 50 casos por 100 mil habitantes, dez ve- zes maior do que a média brasileira. Entre os que se mataram, 93%

eram indígenas. A falta de demarcação de terra, a perda de espaço e de liberdade estão entre as principais causas para essas mortes.

FONTE: <https://observatorio3setor.org.br/noticias/populacao-indigena-repre-

senta-menos-de-meio-por-cento-do-pais/>. Acesso em: 9 fev. 2021.

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A luta pelos direitos dos primeiros habitantes do Brasil é uma luta histórica que atinge os dias atuais, com os pequenos avanços no que se refere aos direitos e de cidadania da população indígena brasileira.

Caro acadêmico, sugiro para aprofundar os estudos sobre ra- cismo, o link abaixo: https://www.scielo.br/pdf/rdp/v9n4/2179-8966-r- dp-9-4-2581.pdf

Outra questão que abalou o Brasil enquanto colônia, de forma coletiva, foi a substituição nos trabalhos forçados, que eram feitos pelos índios, pela mão de obra dos escravos africanos.

Se no Brasil dos dias de hoje não temos um tipo de racismo declarado, ele continua de forma dissimulada, através de um abismo na diferença econômica, social e cultural muito intransponível, o que acarreta numa explosão de violência no país com o elevado índice de mortes de jovens afrodescendentes.

Toda essa violência é vivenciada hoje através do tráfi co de drogas, que afeta de forma drásticas as áreas mais pobres do Brasil, como as favelas onde residem as populações em situações de vulnerabilidade social e econômica.

Comparando novamente a nossa história de colonização com a dos EUA, observamos que para os norte-americanos, a libertação de pessoas negras gerou uma guerra disputada, que quase causou a cisão do país entre os estados perten- centes ao Norte, que tinham uma postura mais progressista, e os estados do Sul, onde a economia era agrária e dependia da mão de obra escravizada.

Todo esse racismo declarado fez com que a população negra, após muitas lutas, defi nir e buscar um lugar mais igualitário e justo na sociedade. Mesmo que ainda exista racismo, há uma parcela da população negra que possui um status mais elevado no nível de vida, com eleição de um presidente afro-americano.

No ano de 1888 aconteceu a libertação dos escravos no Brasil, sendo este o último país do ocidente a libertar seus escravos e logo após, em 1889, aconteceu a Proclamação da República e liberação da força de trabalho dos escravos, os grandes proprietários de terra deixaram de apoiar a monarquia, sistema esse que já estava enfraquecido.

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Sem um planejamento prévio, os escravos foram abandonados sem nenhum recurso econômico com que pudessem recomeçar a vida fora, por isso foram for- çados a construir de maneira precárias suas moradias em torno das grandes cida- des, formando, assim, as favelas brasileiras.

Os regimes escravocratas em geral eram brutais, os índios e negros eram vistos como a última categoria de seres humanos e desprovidos de qualquer va- lor, inclusive de alma. O racismo com todo seu disfarce impediu a luta concreta e objetiva de cidadania dos afrodescendentes, mas que aos poucos vem ganhando visibilidade.

Por volta de 1540, aconteceu o processo de colonização do Brasil, que ocor- reu de forma solta e sem controle, mas, por necessidade econômica, a corte por- tuguesa passou a fazer um controle mais rígido, destaque para as colônias ultra- marinas.

Esse controle tinha como foco: controlar, punir e vigiar seus súditos, e exigir deles o cumprimento de novas obrigações, incluindo-se o pagamento de impostos e assim sendo criado um amplo número de aparelhos burocráticos.

Toda essa burocracia passou a fazer parte do estado e refl ete até hoje, mes- mo após tantos séculos.

Nesse período, houve destaque a política de nepotismo e de compadrio por parte dos funcionários públicos. Os que tinham cargo de desembargadores, juízes, cobradores de impostos, escrivães e administradores, burocratas em geral, estavam em uma posição consolidada o sufi ciente para instituir um poder paralelo, no qual o Estado conseguia arrebatar das mãos do rei todas as funções administrativas.

De acordo com Bueno (2013), esse funcionalismo:

[...] articulou também fórmulas legais e informais que lhes per- mitiram se transformar num grupo autoperpetuador: os cargos eram passados de pai para fi lho ou então para parentes mais próximos (BUENO, 2013, p. 254-256).

Essa situação persiste até hoje apesar de haver leis específi cas contra ne- potismo; a dinastia de políticos que se perpetuam pelo país, forçando o poder em família: para pais, fi lhos, sobrinhos, genros, noras e outros.

Outro fator que é importante destacar e que vem enraizado desde o Brasil- -colônia são as promoções de candidatos para cargos com isenção fi scal e imuni- dade jurídica, disputa essa acirrada que chega a levar a práticas de atos corruptos pelos nossos políticos.

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O que hoje é chamado de peculato, apropriação do dinheiro público para pro- veito próprio, na época não era visto como uma irregularidade, era institucionali- zado, o que foi chamado de Estado Patrimonial pelo historiador e cientista político Raimundo Faoro (2015 apud VAINFAS, 2013, p. 261), no qual as esferas pública e privada se confundem. A Coroa dava a particulares o direito de cobrar impostos, assim como de explorar produtos monopolizados pelo Estado.

Aconteceram algumas manifestações de revoltas, mesmo sendo poucas, que sofreram muitas repressões brutais por parte da Coroa portuguesa, punindo os responsáveis por meio de morte e degredo.

Só em 1808, através da perseguição de Napoleão a Portugal, gerando a fuga de Dom João VI para o Brasil, que aconteceu de forma inesperada e caótica, ti- vemos um regente entre nós. Até então, era proibido realizar, desenvolver e criar qualquer tipo de indústria, sendo que a nossa economia dependia estritamente de Portugal. Só então conseguimos articular uma economia própria.

Dom João deixou como sucessor o seu fi lho Dom Pedro I, o qual proclamou a independência do Brasil de Portugal. Dom Pedro I logo foi chamado para a Cor- te portuguesa e deixa no Brasil seu fi lho menor, Dom Pedro II, este permanece no país comum tutor e assume a regência com apenas 14 anos de idade. Seu reina- do terminou com a chegada da República.

Muitos historiadores afi rmam que o imperador institui um governo orientado pelos bons valores republicanos, por meio de cumprimento de leis, o respeito ao dinheiro público e pela liberdade de expressão.

Após garantir a sobrevivência do Estado nacional, este falhou em promover a expansão da cidadania política. A elite continuou limitada e fechada, a partici- pação do povo no sistema político só veio acontecer muitos anos depois e com vigência da república.

Os historiadores dizem que no fi nal do seu reinado, Dom Pedro II estava can- sado e, com certa idade, acabou afastando-se de seus compromissos e deveres públicos, chegando a negligenciar seu cargo.

A sucessora ao cargo, sua fi lha, a Princesa Isabel, não tinha nenhuma ambi- ção política e nem queria o ocupar a função de imperatriz (DEL PRIORE, 2013, p.

297). Foi a princesa quem assinou a abolição dos escravos e contou para sempre com a admiração deles, tendo fi cado conhecida como a Redentora.

No período da República, os vícios da monarquia continuaram sendo os mesmos, um estado moroso, nepotista e letárgico, não havia nenhuma ação pú- blica que fosse planejada.

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Dessa forma, perpetuou-se a cultura brasileira de submissão, de acomoda- ção e fatalismo, a não ser pelas revoltas eventuais e que eram logo massacradas.

Para Carvalho (2013, p. 265), “A distância entre a lei e a realidade sempre esteve presente no cotidiano da maioria da população brasileira”.

Até meado do século XX, para a população rural, que na época era a maio- ria, a lei do Estado era algo distante e obscuro, pois essa população conhecia somente a lei do proprietário. As facções dominantes nos municípios tinham total domínio sobre os poderes, inclusive nas decisões judiciais. Os termos utilizados na época eram: ‘o juiz nosso’, ‘o delegado nosso’, a transgressão da lei não se colocava para essa população.

Essa situação nas cidades maiores tinha pouco impacto. Mas como pedir ao povo que respeite a lei se ele toma conhecimento, todos os dias, de exemplos de políticos, empresários e grandes magnatas que burlam a lei? (CARVALHO, 2013, p. 267-268).

No Brasil, tivemos duas ditaduras explícitas: a da era Vargas, de 1930 a 1945, e a Ditadura Militar, de 1964 a 1985, nas quais os dissidentes políticos fo- ram presos, torturados e assassinados, e a violência à liberdade individual prati- cada de várias formas.

Sob as ditaduras, o arbítrio dos governantes foi protegido, tendo sido inter- rompida a formação de uma nova sociedade mais crítica e ética.

Desde o fi m do último período da ditadura militar, o Brasil vem buscando desenvolver uma democracia pelos governos civis, sendo essa uma tarefa nada fácil. Nossa história foi marcada por fatos traumatizantes para se ter uma demo- cracia ideal. Fatos esses como, por exemplo, o suicídio de Getúlio Vargas, que foi considerado o pai dos pobres; a renúncia mal explicada de Jânio Quadros, eleito legalmente e movido por “forças ocultas” e inexplicáveis, muito provavelmente por moções internas de seu próprio psiquismo, o que nos levou indiretamente ao gol- pe militar de 1964. Depois tivemos a morte de Tancredo Neves em um momento de retomada da democracia.

Foram vários fatos que marcaram o contexto político do Brasil e, de fatos em fatos, chegamos ao governo que foi eleito um metalúrgico, o qual era líder das clas- ses trabalhadoras, Luís Inácio Lula da Silva, como opositor a uma política elitista e tido como grande esperança para a diminuição da desigualdade social vigente.

Diante da força da repetição, esse governo pouco se diferenciou dos outros.

Na área social, pode-se considerar que aconteceram alguns avanços, mas pra-

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ticou os mesmos vícios, para desaponto de tantos que dele esperavam outros rumos. Diante do contexto civilizatório do Brasil, a população atual tem maior acesso a bens de consumo, embora de baixa qualidade e sem acesso a uma edu- cação aprimorada. Acabamos formando consumidores e não cidadãos.

Para enfrentarmos essa situação teremos que fundamentar a educação de base, teremos que melhorar a educação de base, combater a impunidade, re- formar a legislação penal, assim como as instituições, sobretudo a polícia e o funcionamento judiciário. A democracia política tem de ser usada para produzir a democracia civil, com igualdade perante a lei e menos desigualdade de renda.

É possível alcançar uma sociedade mais igualitária e humanizada, que possa prover a maioria da população com verdadeiras condições de cidadania a fi m de tornar cada cidadão, tanto quanto possível, o protagonista de sua própria história.

1 No início da colonização brasileira não houve unidade das diver- sas frentes de colonizadoras que foram se formando, pois aca- bavam sendo independentes, isoladas e comunicavam-se com a corte apenas entre si, ou apenas entre elas. Quais os refl exos desse processo até os dias atuais?

2 Com a abolição da escravidão através da Princesa Isabel, surgi- ram vários problemas sociais, entre eles, o surgimento de favelas no Brasil. Aponte outros problemas sociais que apareceram no Brasil após abolição e quais os motivos deles.

Colonização do Brasil

Descoberta e Colonização (1500-1808)

Perdido em sua busca de uma rota para as Índias Ocidentais, o explorador Português Pedro Álvares Cabral avistou terra em março de 1500. O Brasil foi ofi cialmente descoberto em 22 de abril, quando Cabral desembarcou na Bahia, perto do futuro local de Porto Seguro.

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O escrivão português Pero Vaz de Caminha relata a sua che- gada em solo brasileiro em uma de suas cartas, descrevendo o en- contro da expedição com cerca de 20 homens de pele morena clara, completamente nu, arcos e fl echas que transportam.

Muitos anos se passaram desde o tempo em que o Brasil foi descoberto até a sua colonização. As três primeiras décadas após a descoberta foram utilizados principalmente para a colheita de árvo- res pau-brasil para extrair um corante vermelho de sua madeira. Foi esta árvore que deu ao Brasil seu nome. A população indígena forne- ceu o trabalho para cortar, descascar e transportar as toras.

Os primeiros portugueses colonizadores chegaram até 1531. O rei de Portugal anunciou o acordo do Brasil com a criação de capita- nias hereditárias. A área foi dividida em 14 capitanias que foram subdi- vididas em 15 partes e 12 proprietários. O rei basicamente abriu mão de sua soberania e concedeu essas concessões de poder signifi cativa.

Cada um era responsável por estabelecer e desenvolver a terra à sua própria custa. Mas, como um resultado da tarefa árdua e falta de recursos, a maioria dos esforços falharam. Das 14 capitanias, São Vicente experimentou um breve período de prosperidade e o único a realmente prosperar era Pernambuco, no nordeste do Brasil. As ou- tras capitanias desmoronaram e alguns donatários não só perderam seus bens, mas a sua própria vida.

Após o fracasso deste empreendimento, a coroa Português re- alizou uma segunda tentativa de resolver o território em 1549. Foi criado o primeiro Governo Geral, nomeando Tomé de Souza como governador e transformou Salvador na primeira capital do Brasil.

Desde os primórdios da colonização, houve grandes disputas em curso entre os Portugueses e a população indígena e seu modo de vida. Tomé de Souza alinhou-se com a tribo Tupi e declarou guerra contra as outras tribos, escravizando aqueles que foram conquistados.

Foi uma guerra cultural e territorial.

Os pioneiros aventureiros Bandeirante que exploraram o interior do Brasil conquistaram muitos índios e tribos inteiras foram assassi- nados. Os que escaparam muitas vezes sucumbiram a doenças eu- ropeias que eram estranhos para o seu sistema imunológico. Outros foram trabalhar até à morte. Embora a missão dos jesuítas era pro-

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teger fi sicamente os índios dos Bandeirantes, o seu total desrespei- to às tradições nativas resultou na aniquilação cultural da população indígena.

Os jesuítas fundaram as chamadas missões, onde proselitismo dos índios com a religião europeia e proibiu seus próprios costumes.

Duarte da Costa foi o segundo governador-geral do Brasil, que consolidou o processo de colonização, introduzindo a produção de açúcar. Este produto foi muito cobiçado na Europa e usada para fi ns medicinais ou como ingrediente alimentar. No entanto, o crescimento das plantações de cana passou de mãos dadas com o comércio de escravos.

A maioria dos africanos escravos foram retirados das regiões ao redor de Angola, Moçambique, Sudão e Congo. Eles foram forçados a trabalhar longos dias, sem condições de vida adequadas, expostos a doenças e exploração sexual.

As relações sexuais entre senhores e escravos eram comuns, resultando em uma grande população interracial. Com o tempo, mui- tos escravos fugiram para formar quilombos (comunidades compos- tas por escravos fugitivos). Estas comunidades rapidamente come- çaram a se espalhar por toda a terra. A comunidade mais famosa foi a República de Palmares, que sobreviveram a maior parte do século 17 e no seu auge era o lar de cerca de 20.000 pessoas.

Os holandeses, franceses e britânicos também foram atraídos pelos recursos naturais do Brasil.

Em 1555, os colonos franceses colocaram os pés em uma pe- quena ilha no Rio de Janeiro, a Baía de Guanabara em uma tentativa de expandir suas posses territoriais.

Alguns anos mais tarde, Mem de Sá, terceiro governador-geral do Brasil, expulsou os franceses que ocupavam o Maranhão e Rio de Janeiro.

A União Ibérica, a anexação da coroa Português pelos espanhóis, teve consequências negativas para o Brasil a sério. Holanda, uma vez que aliado dos Portugueses, agora tornou-se um inimigo, atacando e ocupando grandes áreas do litoral brasileiro. Os holandeses tiveram seu olho em conquistar o Nordeste. Eles brevemente conquistaram

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Salvador em 1624, mas logo foram expulsos. Eles fundaram a leste empresa indiana e retomou seus ataques na região. Em 1630, eles fi nalmente conseguiram conquistar Olinda e Recife, que se tornou a capital da New Holland (Nova Holanda). Os Portugueses declararam guerra e, eventualmente, foram capazes de recuperar Recife. Em 1661 os holandeses abandonaram a colônia no Brasil.

Agora que todo o território estava, mais uma vez sob seu con- trole, Portugal fez do Brasil um vice-reino e partiu para explorar o interior.

Os Bandeirantes (pioneiros), que viajaram para o interior corren- do atrás escravos fugitivos, descobriram grandes jazidas de ouro em Minas Gerais em 1693, e os diamantes em 1721.

A descoberta de ouro teve um profundo impacto sobre o Brasil.

Estima-se que dois milhões de escravos que foram enviados para o Brasil no século 18 e foram colocados para trabalhar nas minas. Es- ses recém-chegados se juntaram a uma população de colonos, que também tinha feito o seu caminho para as minas de ouro.

No início do século 18 o Brasil se tornar o maior produtor de ouro do mundo.

Parte da riqueza fi nanciou a construção de cidades históricas como Ouro Preto, em Minas Gerais.

No entanto, a corrida do ouro não sobreviveu por muito tempo.

Em 1750 a produção das minas estava em declínio e a popula- ção começou a se mudar para as áreas costeiras. Muitos dos garim- peiros fi zeram o seu caminho para o Rio de Janeiro.

No mesmo ano, Portugal e Espanha assinaram o Tratado de Madri para resolver os “confl itos de fronteira” no mundo hispânico.

Sob as condições do tratado, a Coroa Português deu à Espanha to- das as terras na margem ocidental do Rio de la Plata e em troca re- cebeu o Amazonas, Mato Grosso, Goiás e Rio Grande do Sul.

Para reestruturar a colônia, Marques de Pombal, Secretário de Estado da Coroa Português, implementou diversas iniciativas para centralizar o poder. Ele promoveu o desenvolvimento e as fronteiri- ças patrulhas urbanas, estimulado a agricultura e, em 1762, a capital

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do Brasil foi transferida de Salvador para o Rio de Janeiro, aumen- tando o controle sobre as rotas de comércio.

No entanto, em 1785, a rainha de Portugal, Dona Maria, Pombal removeu do cargo e proibiu qualquer desenvolvimento industrial no Brasil.

Esta opressão renovada só resultou em crescente apelo para a independência do Brasil.

Em 1789, Tiradentes e 11 outros conspiradores ressentidos forma- ram a Inconfi dência Mineira (Minas Infi delidade) em uma tentativa de derrubar o governo Português. Todos os 12 conspiradores foram presos e seu líder Tiradentes foi enforcado e esquartejado no Rio de Janeiro em 1792. Sua cabeça foi exibida em Ouro Preto e sua casa foi destruí- da. Ele se tornou um símbolo nacional de resistência e, muito mais tar- de, um museu foi dedicado em sua homenagem em Ouro Preto.

FONTE: <https://www.portalsaofrancisco.com.br/historia-do-bra- sil/colonizacao-do-brasil>. Acesso em: 9 fev. 2021.

2.2 O ENFRENTAMENTO

REPUBLICANO E AS LUTAS NO BRASIL

A proposta desse tópico é discutir sobre a questão social e as suas metamor- foses ao longo do processo histórico da profi ssão. Procura-se compreender as diversas expressões da questão social durante o período que antecedeu a conso- lidação do sistema capitalista no Brasil, a colônia, o império e as repúblicas.

Será apontada nesse tópico a existência de expressões de questão social, oculta anteriormente no processo de industrialização no país. Neste sentido, vi- sa-se trabalhar diversas perspectivas da questão social na contemporaneidade, acontecendo um diálogo entre diversos autores com apontamentos para uma concepção da categoria profi ssional.

Para Silva (2008), o período monárquico foi um dos mais acentuados da polí- tica brasileira, consentindo-nos avistar as primeiras manifestações da questão so- cial, reconhecida parte pelo Estado e pela sociedade, apenas para consolidar as fraturas do regime político e salvar a economia escravista de uma crise estrutural.

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“Mas em que momento as lutas sociais não resultaram de consensos nos quais prevaleceram os interesses dominantes” (p. 57).

Silva segue afi rmando que as frações das classes populares, quando não são massacradas, acabam sendo cooptadas. A autora resgata em sua obra a

“Questão Social e Serviço Social no Brasil”, 2008, fundamentos para o que ela denomina de “raízes latentes da questão social” e, para tal refl exão, resgata os processos de lutas sociais travadas na transição do império para a república, mas especifi camente o segundo período monárquico.

A Proclamação da República aconteceu em 15 de novembro de 1889 e representou o fi m do Segundo Reinado e o início do período republicano. Desde a Guerra do Paraguai, os militares for- taleceram-se como grupo social e almejavam maior participação na política. O Clube Militar no Rio de Janeiro se tornou local para dis- cussões sobre as causas republicanas.

Dom Pedro II, utilizando o Poder Moderador, impediu a partici- pação militar na política brasileira durante o Segundo Reinado. E foi justamente um levante miliar o responsável pela deposição do se- gundo imperador brasileiro. Logo após a instalação da República, a família real foi exilada na França.

Contexto histórico da Proclamação da República

A Guerra do Paraguai, que ocorreu de 1864 a 1870, foi ven- cida pela Tríplice Aliança, formada por Brasil, Argentina e Uruguai, mas trouxe graves consequências para o governo de Dom Pedro II. Os militares que retornaram após a guerra estavam mais conscien- tes da sua importância na sociedade por causa da vitória e deseja- vam participar ativamente dos destinos do Brasil. O segundo impera- dor brasileiro estava cada vez mais ausente do país para tratamento de questões de saúde, o que enfraquecia a monarquia e fortalecia o discurso do movimento republicano de que Dom Pedro II não tinha mais condições de ser o governante do Império.

Os republicanos utilizaram a imprensa para divulgar seus discursos e atacar o imperador. Os jornais republicanos eram lidos pela elite, e os temas neles trazidos provocavam discussões no Clu- be Militar e em praça pública. O pensamento positivista estava em destaque na Europa, e o militar Benjamim Constant foi o responsável

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por trazer as ideias de Augusto Comte para as Forças Armadas. As ideias de que a ciências e o progresso poderiam desenvolver o Brasil ganharam força entre os militares adeptos ao republicanismo.

As crises que o Império atravessava só reforçavam os discursos republicanos da necessidade de se encerrar o Segundo Reinado e iniciar um novo governo no Brasil que possibilitasse o desenvolvi- mento em todas as áreas da sociedade brasileira.

Causas da Proclamação da República

As causas da Proclamação da República estão ligadas à cri- se do Segundo Reinado. O movimento republicano se apresentou como a solução para essa crise, angariando apoio da elite brasileira.

Apesar do apoio popular à pessoa do imperador, seu governo já não era mais efetivo, já não conseguia conter a crise do fi nal do século XIX. A historiografi a tem por tradição denominar as causas da procla- mação da república como questões.

A Questão Militar foi o atrito entre Dom Pedro II e os militares.

Aproveitando a força da vitória na Guerra do Paraguai, os militares qui- seram participar efetivamente da política brasileira, mas Dom Pedro II, utilizando o Poder Moderador, impediu essa participação. O Exército, em especial, mostrava-se como “salvador da pátria”, como se fosse o único detentor da solução para a crise enfrentada pelo Império.

A união entre Império e Igreja também foi motivo de atritos en- tre Dom Pedro II e religiosos católicos. Procurando seguir as normas vindas do Vaticano no fi nal do século XIX de combate à maçonaria, vários bispos proibiram a participação de maçons em qualquer or- dem religiosa. Ao mandar prender os bispos que decidiram cumprir à risca tal medida, a questão religiosa provocou o rompimento entre o imperador e o catolicismo.

Outra questão determinante para o fi m do Império e a conse- quente Proclamação da República foi o fi m da escravidão em 13 de maio de 1888. A abolição aconteceu sem nenhum pagamento de indenização. Com isso, os fazendeiros romperam com Dom Pedro II e se aproximaram do movimento republicano. Na época, esses fa- zendeiros foram chamados de “republicanos de última hora”.

O enfraquecimento de Dom Pedro II e o agravamento do seu estado de saúde deixaram o Segundo Reinado sem um comando, sem uma liderança, o que favoreceu o movimento das tropas do ma-

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rechal Deodoro da Fonseca, em 15 de novembro de 1889, a decretar o fi m do Império e instalar a república no Brasil.

Durante sua exposição, vem desenvolvendo-se a questão social em sua du- pla dimensão, tanto como o conjunto de constrições oriundas da sociedade do capital, como o processo de enfrentamento a elas.

Neste tópico, procura-se apresentar e trabalhar essas raízes da questão so- cial no Brasil e seu desenvolvimento ao longo do período de industrialização até os dias atuais.

O processo de emancipação política que aconteceu no Brasil no período da Colônia desenvolveu um conjunto de contradições, podendo destacar-se as cons- tantes insurreições e fugas que acabam desmistifi cando um suposto conformismo por parte dos escravos.

Fernandes (2005) colabora através de uma refl exão muito pertinente de que denomina de “humanos” os que participam do desemaranhado político que de- sembocaram na emancipação e “descolonização” do Brasil, apesar de não existir uma organização de forças sociais no sentido clássico.

O autor considera que uma das hipóteses a serem levadas em consideração é a vivência de uma espécie de “revolução burguesa sem burguesia” na qual a Independência foi um episódio central.

Outra refl exão do autor corresponde ao acontecimento de existir ou não uma burguesia no Brasil, os estudos historiográfi cos em um momento afi rmam e em outro negam.

A continuidade de sua refl exão, pelo autor, coloca em questão tais argumen- tações quando aponta que o senhor de engenho, sendo este brasileiro, não de- veria proceder como empresário um urbano em virtude de não participar de exce- dente econômico que proporcionou o surgimento da classe burguesa capitalista.

O Estado e a sociedade, neste período, estavam praticamente ausentes e interviam de forma iniciante através do processo de cristianização da Companhia de Jesus e pela ampliação da legislação pombalina, ou seja, as duas iniciativas possuíam a face para a questão indígena.

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Neste período, é importante destacar a relação existente da formação de uma sociedade civil estamental e fechada, em que a maioria era escrava, de ne- gros e socialmente alheia às suas raízes.

Prado Junior (1970), em sua obra “A Formação do Brasil Contemporâneo”, es- tabeleceu esse modelo social como latente e em transfi guração, dessa forma, apon- tando um norte para o que Silva (2008) chama de “raízes latentes da questão social”.

Faz-se necessário demarcar os movimentos sociais que ocorreram no Im- pério e na República, destacando a “Independência”, em 1822, como modo de emancipação política.

Sobre os boatos da inexistência de uma “consciência de classe”, deve-se considerar que a independência e os movimentos sociais conseguintes não toma- ram forma apenas e, tão somente, pelo querer e para dar resposta às carências das elites senhoriais e imperiais.

Neste período existia uma submissão da população perante as elites senho- riais, ao mesmo tempo em que havia uma soberania da metrópole em relação à colônia.

A partir de Prado Junior (1969) e Fernandes (2005), foi desmistifi cada a In- dependência do Brasil como simples ato heroico emitido a partir da vontade do imperador.

Em resumo, por tratar-se de um conjunto de ações de caráter elitista, argu- mentava-se que se constituíam em um movimento contrário à dominação social.

De acordo com Fernandes (2005), a Independência do Brasil, apesar de se conformar como uma simples revolução pacífi ca, não denotou a mera eliminação do estatuto colonial, ao passo em que, para o autor, teve um signifi cado social- mente revolucionário.

Assim, a originalidade da refl exão do autor dota de cariz de ruptura a revo- lução social da Independência, o que nos permite controverter diversos registros históricos brasileiros que ainda negam a dialética dessas transmutações. Isso é, cogitar a Independência como um processo revolucionário não elimina seu cariz contraditório e conservador pelo fato de não haver ruptura estrutural na economia baseada no escravismo.

Outra questão importante a ser discutida está ligada ao cunho liberal do movimento abolicionista. Essa demanda não elimina a sua atuação na luta pela emancipação dos negros no Brasil, o que foi delatado pelo não cumprimento de

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um conjunto de diretos que os escravos não tinham conhecimento, sendo contes- tado pela elite monarquista, conservadora e oligárquica.

A transição que ocorreu para a República em 1889, trouxe consigo um avan- ço na dimensão política e na esfera das ideias no Brasil. Ao privilegiar a moder- nização administrativa de diversos segmentos, pouquíssimas ações no que se refere às questões sociais no Brasil tiveram avanços.

Algumas ações isoladas são dignas de destaques, a exemplo de Rui Barbo- sa. Este concebeu a existência de uma questão social no Brasil, no que distanciou do liberalismo individualista, mas não se afi rmou em nenhum momento como so- cialista.

Fundamentou-se em defesa da nação, da soberania, da cidada- nia, da intervenção estatal e da democracia, mas diante dos marcos do liberalismo. O Estado tinha que intervir na 1ª República, com foco de minimizar os problemas sociais que assolavam os trabalhadores (SILVA , 2008).

Neste sentido, é importante destacar que a condição de vida e de trabalho de Rui Barbosa guiaram a sua jornada legislativa à luta pelos direitos da construção de casa operária, através de higiene e segurança no trabalho, da jornada de 8 horas, a proibição do trabalho noturno, a taxação da idade mínima e a proibição do trabalho infantil, apontando também para a defesa da licença maternidade de dois meses para as mulheres. Rui Barbosa chamava atenção para os casos de acidentes de trabalhos, que eram corriqueiros nos ambientes fabris, decorrente das extenuantes jornadas de trabalho.

Visando trabalhar com as expressões da questão social no Brasil, Rui Bar- bosa aprofundou seus estudos na legislação norte-americana e apontou algumas necessidades de modifi cação para Constituição vigente da época.

Rui Barbosa foi considerado o autor da Constituição de 1891.

Foi a partir desse processo organizativo que o Estado e a própria sociedade civil passaram a se preocupar com esses movimentos, reconhecendo a questão social, mesmo que em um primeiro momento, as respostas eram meramente punitivas.

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Até meados do século XX, especifi camente na década de 1930, as deman- das da “questão social” eram tratadas como caso de políciapor meio de práticas de repressão e violência.

Este período foi marcado por uma forte crise econômica, causando rebaixa- mento salarial. Reconhecendo-se a questão social, naquele primeiro momento, as respostas eram meramente punitivas. Tais mazelas eram consequência de crises na indústria, o que aumentava o índice de desemprego e pauperismo.

A jornada de trabalho na época nas indústrias era, no início do século, de 14 horas. No ano de 1911, foi reduzida para a média de 11 horas, e por volta de 1920, passou a ser de 10 horas. Até o início de 1920, as empresas defi niam seus horários conforme suas necessidades. Sendo que mulheres e crianças estavam sujeitas a mesma jornada e ritmos de trabalho, com trabalho a noite e salários bastante inferior. O operário contará para so- breviver apenas com a venda diária da força de trabalho, sua e de sua mulher e seus fi lhos. Não terá direito a férias, descan- so semanal remunerado, licença para tratamento de saúde ou qualquer espécie de seguro regulado por lei. Dentro da fábrica estará sujeito à autoridade absoluta – muitas vezes paterna- lista – de patrões e mestres. Não possuirá também garantia empregatícia ou contrato coletivo, pois as relações no mercado de trabalho permanecem estritamente no campo privado (IA- MAMOTO; CARVALHO, 2009, p. 129-130).

Essas condições as quais os trabalhadores fabris eram submetidos na épo- ca, após esse período, começaram a se organizar enquanto classe trabalhadora para reivindicar melhores condições de trabalho, como: higiene, melhores salários e outros conjuntos de direitos trabalhistas (IAMAMOTO; CARVALHO, 2009).

O Serviço Social, como profi ssão tornou-se produto de divergências e em- bates políticos, sociais e econômicos que se manifestaram ao longo da profi ssão.

O Serviço Social se gesta e se desenvolve como profi ssão re- conhecida na divisão social do trabalho, tendo por pano de fundo o desenvolvimento capitalista industrial e a expansão urbana, proces- sos esses aqui apreendidos sob o ângulo das novas classes sociais emergentes – a constituição e expansão do proletariado e da burgue- sia industrial – e das modifi cações verifi cadas na composição dos grupos e frações de classes que compartilham o poder de Estado em conjunturas históricas específi cas. É nesse contexto, em que se afi r- ma a hegemonia do capital industrial e fi nanceiro, que emerge sob

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novas formas a chamada “questão social”, a qual se torna a base de justifi cação desse tipo de profi ssional especializado (IAMAMOTO;

CARVALHO, 2009, p. 77).

Para ter avanço no debate relacionando à profi ssionalidade do Serviço So- cial, foi necessário resgatar o autor Netto (2011), quando este afi rma que a “ques- tão social” como gênese do Serviço Social não é o bastante para compreender- mos toda a complexidade de relações da qual a profi ssão é fruto.

Para Netto (2011), a importância de compreendermos bem o Estado no marco do capitalismo dos monopólios para captarmos de maneira mais qualitativa o desenvolvimento da profi ssão.

A apreensão da particularidade da gênese histórico-social da pro- fi ssão nem de longe se esgota na referência à “questão social” tomada abstratamente; está hipotecada ao concreto tratamento desta num mo- mento muito especifi co do processo da sociedade burguesa constituída, aquele do trânsito à idade do monopólio, isto é, as conexões genéticas do Serviço Social profi ssional não se entretecem com a “questão social”, mas com suas peculiaridades no âmbito da sociedade burguesa funda- da na organização monopólica (NETTO, 2011, p. 18).

Considerando essa perspectiva apresentada por Netto (2011), pode-se en- tender que a questão social traz especifi cidade na era monopólica do capital, do ponto de vista social e político.

Esses elementos necessitam de um olhar mais aguçado para conseguir tirar o signifi cado da profi ssão e seu lugar na divisão técnica do trabalho. As caracte- rísticas que marcaram o capitalismo dos monopólios, é o processo de agudização de todo o conjunto de contradições que são oriundos do confl ito existente entre capital x trabalho.

As reorganizações dos bancos através de seus ofícios acabaram proporcio- nando uma maior lucratividade e um poderio de controle de mercados que foram aprofundados no processo de alienação e exploração da classe trabalhadora.

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No capitalismo monopolista devido a todo aprofundamento das contradições sociais, o Estado foi chamando para intervir nas frações da questão social. Se não acontecesse essa intervenção, não haveria condições para que acontecesse re- produção da força de trabalho. Todo este processo é orquestrado detalhadamente para que se consiga garantir a sobrevivência do sistema capitalista.

A infl uência por parte do Estado não colocou em nenhum momento a ordem burguesa em xeque. “O Estado, na certeira caracterização marxiana, o represen- tante do capitalista coletivo, atuara como o cioso guardião das condições externas da produção capitalista” (NETTO, 2011, p. 24, grifos do autor).

A mediação estatal que foi executada acabou sendo estritamente funcional, pos- sibilitando a perpetuação dos monopólios. “O Estado funciona como uma espécie de

“comitê executivo da burguesia monopolista” (NETTO, 2011, p. 26). Faz-se importan- te destacar que, mesmo dentro dessas condições, o autor aponta que existem contra- dições no âmbito da esfera estatal que possibilitam, inclusive, uma disputa.

Nesse mesmo Estado, faz-se necessário legitimar perante o conjunto de classes trabalhadoras, e o termômetro deste confl ito é a correlação de forças no meio da sociedade. A partir daí que a questão social passa a ser instrumento de intervenção do Estado.

A política social tem uma função importante no âmbito da profi ssionalização do Serviço Social. As políticas sociais não se delineiam somente como espaços de enfrentamento e de expugnação de decisões, elas conformam um ardiloso processo de regulação das relações sociais, econômicas e políticas (BEHRING;

BOSCHETTI, 2011).

As pontes como espaços de enfrentamento e de expugnação de decisões e, principal foco, o controle da força de trabalho através de políticas de caráter traba- lhista e previdenciário.

Através da política social, o Estado burguês no capitalismo monopolista procura administrar as expressões da “questão social” de forma a atender às demandas da ordem monopólica conformando, pela adesão que recebe de categorias e setores cujas demandas incorpora, sistemas de consenso variáveis, mas operantes (NETTO, 2011, p. 30).

Na década de 1940, consolidou-se a década de institucionalização do Ser- viço Social na América Latina, nesse momento em que a classe trabalhadora adensou o processo de organização política e encapou as lutas visando melhores condições de vida e de trabalho. Este momento tratava-se de uma grande crise mundial com premência da Segunda Guerra Mundial.

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Naquela época, o Brasil vivenciava o Estado Novo, o qual possuía o modus operandis de repressão à luta da classe trabalhadora, pois eles eram conside- rados ameaça. Este período foi de cooptação e de consenso político, a política de assistência social possuía viés paternalista e benemerente, por meio de uma base sistemática que relacionava todo o controle social com acréscimo da pro- dutividade, incremento da taxa de lucro e da exploração da força de trabalho dos trabalhadores. Houve uma reviravolta dessa situação durante o breve período de redemocratização com a eleição de Juscelino Kubitschek (1955-1959); o país se modernizou com o desenvolvimento de uma política desenvolvimentista.

Para Netto (2011), o Serviço Social surge como produto complexo da ordem social burguesa madura e consolidada, em que sua atuação se confi gura de forma madura e consolidada, agindo de forma individualista e fragmentada, consequência da maneira de intervenção pontual dado à questão social. Não se pode considerar como matéria da intervenção profi ssional tratar a questão da consciência social, po- rém, somente dissipar o ideário de um projeto desenvolvimentista; a perspectiva de educar o cidadão para integrá-lo ao modelo de desenvolvimento econômico.

Da maneira que a questão social foi acertada nos anos de 1950 e 1960, aconteceu um certo afastamento, uma ilusão do desenvolvimento e do progres- so, agindo de forma individual e consequentemente norteando a intervenção dos profi ssionais. Segundo Netto (2011), propunha-se qualifi car a profi ssão no que concerne ao afastamento dela da ilusão causada pelo desenvolvimento.

As diversas direções do movimento acabavam expressando diferentes pro- jetos que se colocavam como alternativas para direcionar a forma do agir profi s- sional. Para muitos, movimento de reconceituação se exauriu. Mas outros profi s- sionais continuam reafi rmando a sua importância no sentido de ainda buscar um projeto alternativo para toda América Latina, incluindo o Brasil.

Metodologia e ideologia do trabalho social: crítica ao funcionalismo

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Este livro é uma das contribuições mais importantes ao movi- mento de reconceituação do Serviço Social latino-americano. A obra não fi ca no criticismo vazio, mas oferece alternativas ao trabalho ins- titucional-profi ssional de assistentes sociais, educadores, médicos, psicólogos e outros interessados nas “relações sociais” enquanto campo de intervenção.

Este movimento surgiu no Brasil no bojo da ditatura civil militar e ganha for- ça no processo de luta pela redemocratização do país. Deve-se destacar que os profi ssionais vinculados ao movimento de intenção de ruptura questionaram seve- ramente o regime. Para Netto (2011, p. 25), diante dos “anos de chumbo da so- ciedade brasileira”, a reconceituação se apresentou como uma válvula de escape.

A literatura atual que debate sobre a questão social, por meio de alguns es- tudiosos pelos quais o Serviço Social tem afi nidade em debater este tema, são os responsáveis pelas polêmicas defendidas historicamente pelo Serviço Social que tem suas bases nos princípios da Igreja Católica, e o ideário conservador a denominaram como problemas sociais e somente com o amadurecimento da ca- tegoria profi ssional, na década de 1990, passou a visualizar como fruto do confl ito existente entre capital x trabalho.

Neste sentido, a questão social tem um signifi cado nas diversas contradições oriundas da sociedade, que é dividida em classes. Para Castel (1997), há desa- gregação e fi liação. Já Rosanvallon (1998) afi rma existir uma nova questão social.

Para além das consequências econômicas e políticas do processo de exploração, há também de se considerar questões de gênero e etnia. Wanderley (1997) afi rma que é necessário ultrapassar o trato meramente econômico da questão social.

O processo de institucionalização do Serviço Social, no seu início, as ques- tões sociais já se faziam presentes no meio da luta de classes conduzidas pela classe operária, porém, a Igreja e o Estado intercediam de forma repressiva.

No que se refere à intervenção dos profi ssionais de Serviço Social, era completamente vinculada às instituições religiosas e de caridade. Nas palavras dos(as) profi ssionais, a ação e o agir destes eram dirigidas por princípios morais e cristãos numa perspectiva elitista e já se apresentara refl exões sobre os direitos trabalhistas.

O limite para a alteração das relações vigentes era o senso de justiça social.

Sendo assim, era possível inferir que as pioneiras que contribuíram para a institu-

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cionalização da profi ssão possuíam uma perspectiva completamente despolitiza- da da questão social.

Mediante este processo de transformação dos anos de 1940, de 1950 e de uma parcela da década de 1960, o Serviço Social ainda não tinha um amadureci- mento teórico no que se refere às relações sociais capitalistas.

Neste período aconteceram os encontros promovidos pelo Centro Brasileiro de Intercâmbio em Serviço Social - CBCISS, que tinham como objetivo o debate sobre o bem-estar. Este conceito não se referia às expressões da questão social, e sim da qualifi cação no aspecto teórico-metodológico, por meio do tecnicismo, em um nítido sentido de responder às demandas do modelo de desenvolvimento econômico.

Sobre a questão social, no interior do debate do Serviço Social, na década de 1990, houve muitas interpretações. Para Netto (2011), apresenta-se um sím- bolo da luta de classes que só será eliminada com a superação do confl ito capital trabalho.

Sobre a questão social, no interior do debate do Serviço Social, a da luta de classes, que só será eliminada com a superação do confl ito capital trabalho. Pro- põe-se, no lugar, o paradigma da articulação/regulação, que alicerça a atuação profi ssional via redes sociais e institucionais, numa perspectiva de consolidar os sujeitos individuais e coletivos na busca pela transformação social.

Para Pereira (2004), o destaque do debate do Serviço Social, na e da luta de classes, só será eliminada com a superação do confl ito capital trabalho. A autora questiona se a questão social, nos dias de hoje, de fato existe.

3 A década de 1940 consolidou-se como a década de instituciona- lização do Serviço Social na América Latina. Nesse momento em que a classe trabalhadora adensou o processo de organização política e encapou as lutas, visando melhores condições de vida e de trabalho. Neste momento também se tratava de uma grande crise mundial. Comente sobre o contexto social e a questão so- cial daquele momento.

4 A literatura atual que debate sobre a questão social, por meio de alguns estudiosos pelos quais o Serviço Social tem afi nidade em debater este tema, são os responsáveis pelas polêmicas defen-

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