UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA DEISE STEIN
O QUE QUER UMA MULHER EM RELAÇÃO AO AMOR? UMA DISCUSSÃO, A PARTIR DOS TEXTOS FREUDIANOS,
DAS PRINCIPAIS QUEIXAS RELATIVAS AO AMOR NA CLÍNICA PSICANALÍTICA
EM PACIENTES MULHERES
Palhoça / SC 2011
DEISE STEIN
O QUE QUER UMA MULHER EM RELAÇÃO AO AMOR? UMA DISCUSSÃO, A PARTIR DOS TEXTOS FREUDIANOS,
DAS PRINCIPAIS QUEIXAS RELATIVAS AO AMOR NA CLÍNICA PSICANALÍTICA
EM PACIENTES MULHERES
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de graduação em Psicologia da Universidade do Sul de Santa Catarina – UNISUL como pré-requisito parcial para aprovação na disciplina de TCC em Psicologia II do curso de Psicologia da Universidade do Sul de Santa Catarina.
Orientadora: Profª. Maria do Rosário Stotz, Drª.
Palhoça / SC 2011
AGRADECIMENTOS
Em primeiro lugar, agradeço à minha filha Sofia, por tudo o que ela me ensina, e por suas incansáveis demandas de amor, que enchem meu coração de alegria e me colocam no lugar de mãe.
Meu agradecimento ao meu marido, Luiz Carlos, por ser o meu parceiro perfeito, sim, com todas as suas imperfeições. Também por me proporcionar todas as condições possíveis para que eu realizasse o meu grande desejo de ser psicóloga. Aos dois eu dedico todo o meu amor.
À minha mãe, que me proporcionou o apoio necessário para execução deste trabalho, assim como aos demais familiares que meu auxiliaram de várias formas, meu muito obrigada.
Aos meus colegas de estágio do CAPS e do Serviço de Psicologia, pelo aprendizado que partilhamos. Às minhas colegas de orientação do Trabalho de Conclusão de Curso, Janu, Manu e Lene, que dividiram comigo momentos importantes, inusitados e inesquecíveis.
Aos meus amigos Pedro Augusto, Mary Anne, Vera Ferraz, Gislaine Nunes e Aline Veiga, pelo carinho, pelas reflexões, pelas trocas e pelos momentos de diversão. Também agradeço aos demais amigos da Unisul que de alguma maneira colaboraram para a realização deste trabalho.
À minha orientadora, professora Maria do Rosário Stotz, que me conduziu durante todo o percurso, obrigada por TUDO. Aos professores Paulo Sandrini e Tânia Mascarello por aceitarem o convite para fazerem parte da banca examinadora deste trabalho e também pelas colocações feitas no processo de qualificação desta pesquisa.
À minha analista, a mais doce de todas as analistas, e que, inevitavelmente, não só participou da construção do presente trabalho, como participa de toda a minha vida.
―O amor afinado a fogo, é fogo, é fogo. Cega, suga, sangra. Mexe, moe e mancha‖ (Ale Muniz)
RESUMO
Percebe-se que a pergunta O que quer uma mulher?, que permeou toda a obra de Freud, ainda não se estancou em pleno século XXI. Ainda hoje verifica-se o quanto a mulher busca o amor, e o quanto tal busca pode vir acompanhada de sofrimento. Esta pesquisa lança foco sobre o tema do amor, sob o prisma da teoria psicanalítica, perpassando novamente a inquietante pergunta de Freud, propondo-se a discutir as principais queixas relativas ao amor encontradas na clínica psicanalítica em mulheres, à luz da psicanálise freudiana. É uma pesquisa qualitativa, de delineamento bibliográfico, com caráter exploratório e descritivo. Como fontes de informação foram utilizadas três dissertações de mestrado, que retratam queixas por amor de mulheres dirigidas a clínica psicanalítica, nos últimos dez anos, sob a forma de relatos ou depoimentos. A categorização foi o método de análise de dados utilizado, sendo que as categorias tomaram forma no curso da análise, de acordo com os objetivos da pesquisa e atreladas à fundamentação teórica da mesma. A pesquisa delimita o conceito de queixa utilizado no trabalho, por considerar que o sujeito se queixa de algo que o faz sofrer, e na medida em que a queixa é falada, é que se pode vislumbrar um sintoma psicanalítico, proveniente da verdade de um sujeito falante. Na sequência, investiga-se as contribuições teóricas sobre o amor e sobre a feminilidade em textos de Freud. Depois, identifica-se as queixas relativas ao amor encontradas nos relatos constantes nas bases de dados consultadas, e segue-se a análise e discussão das mais recorrentes, à luz da psicanálise freudiana. Como conclusão, percebe-se que, na contemporaneidade, a maioria das queixas das mulheres na clínica psicanalítica se refere à insatisfação amorosa, decorrente, precipuamente, da busca por relacionamento idealizado, da baixa autoestima das mulheres, da acusação de insuficiência do parceiro, do conflito de papéis de homem e mulher, da dificuldade em se separar do parceiro, além da vivência da infidelidade. Tais insatisfações causam sofrimento, expressado por cada mulher de modo singular. Interessante se pensar que, mesmo que o amor não se constitua como desejado, ainda assim, as mulheres não desistem dele, lançando-se a um incessante movimento de demanda do amor do outro, apesar do sofrimento que poderá vir a acompanhá-lo. Tais constatações ratificam o quanto a teoria Freudiana é atual, pois, mesmo que os sintomas do amor na clínica contemporânea sejam diferentes do século XIX, a sua essência se mantém a mesma.
LISTA DE TABELAS
Tabela 1 – Categorias e Subcategorias... 75
Tabela 2 – Queixas mais frequentes... 76
Tabela 3 – Queixas mais frequentes detalhada... 101
Tabela 4 - Queixas de Pérola... 103
Tabela 5 – Queixas de Esmeralda... 103
Tabela 6 – Queixas de Safira... 104
Tabela 7 – Queixas de Turmalina... 105
Tabela 8 – Queixas de Ágata... 105
Tabela 9 – Queixas de Ametista... 106
Tabela 10 – Queixas de Rubi... 107
Tabela 11 – Queixas de Jade... 108
Tabela 12 – Queixas de Turqueza... 109
Tabela 13 – Queixas de Opala... 110
Tabela 14 – Queixas de Obsidiana... 111
Tabela 15 – Queixas de Rodocrosita... 111
Tabela 16 – Queixas de Onix... 112
Tabela 17 – Queixas de Topázio... 113
Tabela 18 – Queixas de Água-marinha... 115
LISTA DE ABREVIATURAS
BIREME - Biblioteca Regional de Medicina CAPS - Centro de Atenção Psicossocial
CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento Pessoal de Nível Superior COMUT - Programa de Comutação Bibliográfica
LILACS - Literatura Latino-Americana e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde MEDLINE - Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (Sistema Online de Busca e Análise de Literatura Médica )
SCIELO - Scientific Electronic Library Online TCC – Trabalho de Conclusão de Curso
UFRJ – Universidade Federal do Rio de Janeiro UNISUL - Universidade do Sul de Santa Catarina
SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ... 9 2 PROBLEMÁTICA E JUSTIFICATIVA... 11 3 OBJETIVOS... 21 3.1 OBJETIVO GERAL... 21 3.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS... 21 4 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA... 22
4.1 ALGUNS PONTOS TEÓRICOS RELEVANTES... 22
4.2 CONTRIBUIÇÕES TEÓRICAS SOBRE O AMOR EM TEXTOS DE FREUD 30 4.2.1 A escolha do objeto de amor nos homens... 30
4.2.2 As correntes afetiva e sensual... 36
4.2.3 A idealização... 41
4.2.4 A escolha do objeto de amor nas mulheres... 43
4.2.5 Queixas sexuais em homens e mulheres... 46
4.3 CONTRIBUIÇÕES TEÓRICAS SOBRE FEMINILIDADE EM TEXTOS DE FREUD... 57 5 MÉTODO... 69 5.1 CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA... 69 5.2 FONTES DE INFORMAÇÃO... 70 5.3 EQUIPAMENTOS E MATERIAIS... 71 5.4 SITUAÇÃO E AMBIENTE... 72 5.5 PROCEDIMENTOS... 72
5.5.1 Seleção das fontes de informação... 72
5.5.2 Coleta e registro de dados... 74
5.5.3 Organização tratamento e análise dos dados... 74
6 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS... 76
7 CONSIDERAÇÕES FINAIS... 91
REFERÊNCIAS... 93
APÊNDICES... 98
APÊNDICE A... 99
1 INTRODUÇÃO
A presente pesquisa é um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) do Curso de Psicologia da Universidade do Sul de Santa Catarina – UNISUL, vinculada ao Núcleo Orientado em Psicologia da Saúde e Estágio Específico em Psicologia da Saúde. A articulação entre pesquisa e campo de estágio cumpre uma das diretrizes do Curso de Psicologia da Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL), segundo a qual a escolha do fenômeno a ser estudado no Trabalho de Conclusão de Curso deverá resultar da experiência prática do acadêmico no campo de estágio.
O Estágio Específico em Psicologia da Saúde acontece no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS II) do Município de Palhoça/SC, por meio de uma parceria com o Projeto de Extensão Time da Mente, do Curso de Psicologia da UNISUL, atuando na atenção básica, especificamente na área de saúde mental. O projeto é formado por professores e alunos com a proposta de articular a teoria e a prática objetivando a promoção e/ou o resgate da saúde mental dos sujeitos.
O CAPS II é um serviço comunitário ambulatorial que proporciona o tratamento de sofrimento psíquico, especialmente de transtornos severos e persistentes, em sujeitos residentes no município de Palhoça. O trabalho desenvolvido nos atendimentos médico e psicológico visa o acolhimento dos pacientes, o estímulo à integração social e familiar e o apoio relativamente às suas iniciativas de busca de autonomia (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2004).
Entende-se que o sofrimento psíquico das mulheres no que compete ao amor é, também, um problema de saúde mental, visto que pode estar associado ao adoecimento, atingindo de forma direta a saúde do sujeito, tanto mental quanto física. Tal sofrimento singularizado, apresentado como queixa e/ou demanda pelo paciente, poderá transformar-se em demanda de tratamento no campo da Saúde Mental.
Como resultado de uma maior compreensão do fenômeno do sofrimento relacionado ao amor, imagina-se ser possível aprimorar as estratégias utilizadas nas intervenções visando a promoção de saúde na mulheres que vivem tal situação.
Justificativa, Objetivo Geral e Objetivos Específicos, Fundamentação Teórica, Método, Análise dos Dados e Considerações Finais.
2 PROBLEMÁTICA E JUSTIFICATIVA
De acordo com Neves (2007), muito embora o amor tenha servido de mote a inúmeros escritos em áreas como a literatura e a filosofia, até meados dos anos 70 houve uma ausência de cientificidade no seu estudo, considerando-se que ele seria demasiado misterioso e intangível para o estudo científico, até pela própria dificuldade em observá-lo de um modo rigoroso e sistemático. A sua introdução, como objeto científico, nas ciências sociais e humanas foi, por isso mesmo, relativamente tardia.
Segundo Oltramari (2009), recentemente a temática do amor tem sido alvo de discussão diversificada das ciências humanas e sociais e, principalmente, da Psicologia, devido ao reconhecimento de seu papel central nas relações de intimidade da grande maioria das pessoas. O mesmo autor complementa que, historicamente, o amor tem sido, durante séculos, um dos mais declamados, procurados ou mesmo desejados sentimentos, por muitas vezes referenciado como uma das razões de viver, ou de sofrer, responsabilizado tanto pelas felicidades humanas quanto por suas mazelas.
Nas comédias gregas, o amor é a causa das loucuras e dos excessos. Nas tragédias, é ele que faz nascer as maiores infelicidades. Muitos discursos, identificados como parte da antiga tradição da medicina da alma, afirmam que o amor não correspondido, frustrado ou impedido dói, e muito, no corpo e na alma (SILVA, 2008).
Corroborando o que foi descrito acima, Altbauer-Rudnik (2006) diz que as dores de amor, que suscitam tantas lágrimas nos divãs dos analistas, são temas recorrentes e bastante exploradas do ponto de vista literário, mas há poucas discussões científicas sobre os tormentos do amor. O mesmo autor complementa dizendo que o ideal do amor seria amar e ser amado, com a certeza desse amor nunca acabar em ódio. Mas no mundo não há essa certeza. Há dúvidas, desconfianças e receios. Sendo assim, o amor humano é fonte de dores da alma porque é da ordem da dúvida e, sobretudo, da incerteza de ser correspondido.
No início do século passado, Freud (1929 [1996]1)descreveu o impulso amoroso –
1
Nas referências às obras Freudianas, optou-se por destacar o ano de construção do texto, por se entender que a cronologia da obra é fundamental para a compreensão do pensamento do autor e, em seguida, a
ou sexual - chamado Eros, referindo-se a tudo o que pode ser sintetizado como amor, incluindo: amor a si mesmo, aos pais, aos filhos, à humanidade, ao saber e aos objetos abstratos. Segundo o autor, o amor2 tem em sua base a sexualidade, que é um conjunto de processos mentais internos que dirigem a libido do indivíduo para um objeto – que pode ser um parceiro - com objetivo de obter satisfação. De acordo com Freud (1921, p.101):
O núcleo do que queremos significar por amor consiste naturalmente (e é isso que comumente é chamado de amor e que os poetas cantam) no amor sexual, com a união sexual como objetivo. Mas não isolamos disso — que, em qualquer caso, tem sua parte no nome ‗amor‘ —, por um lado, o amor próprio, e, por outro, o amor pelos pais e pelos filhos, a amizade e o amor pela humanidade em geral, bem como a devoção a objetos concretos e a idéias abstratas. Nossa justificativa reside no fato de que a pesquisa psicanalítica nos ensinou que todas essas tendências constituem expressão dos mesmos impulsos pulsionais; nas relações entre os sexos, esses impulsos forçam seu caminho no sentido da união sexual, mas, em outras circunstâncias, são desviados desse objetivo ou impedidos de atingi-lo, embora sempre conservem o bastante de sua natureza original para manter reconhecível sua identidade.
De acordo com Aboim (2010), encontra–se na psicanálise, criada por Freud, o surgimento de uma nova especificidade de conhecimento relativo à temática dos afetos, tendo como finalidade não apenas a explicação dos problemas, mas a intervenção em prática clínica sobre a complexidade das dinâmicas afetivas, particularmente, do amor e do sofrimento (FREUD, 1910; 1914). Para Freud (1914), todos os sentimentos (de simpatia, amizade, confiança, etc) que o sujeito experimenta na vida procedem, em sua gênese, de desejos sexuais na medida em que "primitivamente não conhecemos mais que objetos sexuais" (FREUD, 1914, p.1652). Mesmo as pessoas que estimamos e respeitamos na vida cotidiana representam objetos sexuais para nosso psiquismo inconsciente, pois, como dito acima, a pulsão sexual é desviada de seu objetivo conforme as circunstâncias, ainda que conserve sua natureza sexual original.
Segundo Silva (2008), o sofrimento por amor pode gerar níveis de estresse, que data da publicação da Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud.
2
Na obra de Freud, ora o autor considera o amor como pulsão sensual, ora como pulsão afetiva, ainda que ambos os casos tenham origem na pulsão sexual. Para situar o leitor, dentro do possível, será sinalizado o sentido do amor utilizado por Freud em cada trecho abordado de sua obra.
diminuem sensivelmente a qualidade de vida e culminam em mal-estar físico generalizado e até em outras doenças. Ora, para poder amar sem adoecer é necessário suportar a dor de estar na dependência do outro e a incerteza de uma correspondência possível, além de saber lidar com as fantasias mais primitivas que se renovam a cada encontro.
O amor humano é parcial, instável, finito. O próprio Freud (1929) adverte, em "O mal-estar na cultura": "nunca nos achamos tão indefesos contra o sofrimento como quando amamos, nunca tão desamparadamente infelizes como quando perdemos o nosso objeto amado ou o seu amor" (FREUD, 1930, p. 441). Segundo Ferreira (2010), apesar do amor ser um dos caminhos comumente escolhidos pelo homem na busca pela felicidade, geralmente tal busca resulta fracassada, uma vez que, como disse Freud, justamente quando o sujeito ama é que se acha mais indefeso contra o sofrimento e, além do mais, quando perde o objeto amado ou o seu amor, se sente desesperadamente infeliz.
O amor, para Freire Costa (1998), é uma invenção que nada mais fez do que tornar os seres humanos caçadores deste suposto sentimento. A vida poderia ser mais tranquila e livre de dores se os sujeitos não amassem. Mas o que ocorre é que, em tempos contemporâneos, as pessoas se sentem fracassadas quando não encontram alguém para amar, ou ainda quando encontram, mas o amor não se constitui como o demandado; ou seja, o amor é um tipo de objetivo que o ser humano contemporâneo tende a nunca alcançar. Ainda assim é interessante pensar que esta insegurança ou "desesperança" não leva as pessoas a desistirem dele, ao contrário, faz com que cada vez mais o amor seja buscado. E os psicólogos e psicanalistas acabem sendo os destinatários da demanda de aplacar esse sofrimento do paciente nesta busca do amor, cujas formas de apresentação são tantas quanto os sujeitos que as experimentam.
De acordo com Issy (2007), mesmo com todas as singularidades, percebe-se o amor e seus sintomas na clínica contemporânea. Tratam-se de mulheres e suas queixas amorosas. O que aparece no discurso feminino é que, de um lado são mulheres bem sucedidas no âmbito social e, de outro, há a ausência de uma relação amorosa, apesar da demanda de ter um relacionamento amoroso. A maioria das queixas das mulheres na clínica da psicologia se refere ao mal do amor, à insatisfação amorosa, que causa sofrimento, vivido por cada pessoa de modo singular. As mulheres expressam de várias formas tal sofrimento, sendo comum os
sintomas físicos e também psíquicos.
Para Zalcberg (2007, p.129), "o amor e o que ele representa na subjetividade da mulher, pode dominar a cena psíquica feminina". Ou seja, o amor pode se transformar na demanda maior de uma mulher, no anseio insistente dirigido ao parceiro no sentido de ser mais e mais amada, ser a única... As diversas modalidades de fracasso do amor, seja pelo abandono, a infidelidade suposta ou descoberta ou, ainda, pelo declínio do interesse amoroso por parte do parceiro, afetam profundamente a vida das mulheres. Segundo a mesma autora, são as mulheres, em sua peculiar forma de amar, que em maior frequência enlouquecem com e por amor: "por que o amor é uma paixão do sujeito capaz de o fazer soçobrar a ponto de adoecê-lo e que a mulher, mais do que o homem, é suscetível de sofrê-la" (ZALCBERG, 2007, p.8).
Vicente (2010) esclarece que, na direção do tratamento do sujeito feminino na clínica psicanalítica, a primeira questão que se revela para ser trabalhada é a demanda de amor. Tal afirmação se confirma pela grande incidência de mulheres que demandam uma análise toda vez que temem perder o amor, reafirmando que a mulher é perseverante na busca por um parceiro permanente.
Issy (2007) defende a idéia de que existem duas forças aparentemente antagônicas que hoje incidem sobre o discurso feminino: de um lado está toda uma trajetória da mulher na conquista de seu espaço na vida social e, do outro lado, está uma outra força, que é a força da demanda de viver um relacionamento amoroso. Essas forças geram uma resultante que muitas vezes aparece na clínica como queixa, sofrimento causado pela solidão, pois muitas mulheres se dizem cada vez mais sós. Parece que esta queixa atua de forma mais incisiva sobre o discurso feminino do que sobre o masculino.
A mesma autora complementa o que foi descrito acima, relatando o que percebe em sua atuação na clínica psicanalítica:
Notamos mulheres que cada vez mais trazem em si a insígnia das conquistas econômica e jurídica, mas que clamam da solidão amorosa, da ausência de um parceiro amoroso. Mulheres que se lançam intermitentemente em um imaginário mediático que vende a imagem ideal da mulher-Toda, mas que no discurso analítico, na enunciação, reclamam da solidão. Bonitas, donas de consideráveis contas bancárias, sempre na moda, estudadas, viajadas, cheias de intervenções cirúrgicas para atingir um ideal de beleza, conhecedoras dos mais novos meios da indústria cosmetológica para postergar a pavorosa velhice. Essas são as donas dos discursos queixosos, marcados pela ausência de um relacionamento amoroso (ISSY, 2007,
p.2).
A partir de observações teóricas e do conciliamento da experiência clínica, percebe-se que a pergunta de Freud, datada do século XIX, O que quer uma mulher?, não se estancou até hoje, em pleno século XXI, pois verifica-se na atualidade o quanto a mulher está inserida na busca pelo amor. Lamentavelmente, tal busca é acompanhada por um inevitável sofrimento, tanto quando a mulher não encontra o amor, como quando o encontra de um modo que a faz sofrer. Freud (1925) diz que a mulher muito mais do que amar, ela quer ser amada. Hoje, início do século XXI, o que se pode dizer sobre, ―o que quer uma mulher, além de querer amar e ser amada?‖. Ou seja, do que a mulher se queixa na esfera do amor? (ISSY, 2007).
A demanda na clínica psicanalítica no tocante a este assunto nos mostra a atualidade de Freud, afinal:
Por mais que hoje as mulheres tenham conseguido seu espaço, mesmo sendo donas de seus quereres, mesmo na sua independência financeira, mesmo sem seu grande amor idealizado, elas não desistem da busca de um amor, de uma relação amorosa. Trata-se de desejo perscrutado no devir de uma análise, de um desejo inconsciente velado pelo imaginário que imputa o sufixo super à mulher(ISSY, 2007, p.65).
Para a psicanálise, nascida no alvorecer do século XX, o amor é efeito da estruturação do desejo, invenção humana paradoxal, além de ser, também, um tema caro à delimitação ética deste campo, o que reforça a intenção de aprofundar o tema, especialmente no que concerne ao sofrimento psíquico das mulheres nesta questão – suscitando novamente a grande questão que já intrigava Freud: O que quer uma mulher? Ou, aprimorando a pergunta de Freud, O que quer uma mulher em relação ao amor?
O sofrimento psíquico das mulheres deve ser compreendido não apenas através dos sintomas, mas sim se levando em conta o próprio sujeito, ou seja, a sua subjetividade e o contexto em que se encontra inserido. Dalmolin e Vasconcellos (2008) enfatizam a necessidade da superação da prática tradicional no campo da saúde, que, cada vez mais classifica, fragmenta e transforma o processo de sofrimento em uma experiência destituída de sentido para os que o vivenciam.
não é a ausência de doenças, mas sim o desenvolvimento integral das pessoas e da comunidade, dando ênfase ao campo da saúde mental, deslocando-se da doença à saúde e à observação de como os seres humanos vivem em seu cotidiano. Então, pode-se considerar o campo de estágio relacionado a este Trabalho de Conclusão de Curso – estágio em Saúde Mental – como uma alternativa significativa para atingir o sofredor psíquico dentro desta proposta.
Em se falando de saúde e doença, torna-se relevante retomar o conceito de saúde. Sá Junior (2004) diz que a noção subjetiva de saúde se forma de acordo com a experiência cotidiana e pessoal de cada um, não sendo, portanto, um conceito estático, mas sim algo construído por cada pessoa, o que lhe confere um caráter dinâmico. Sendo assim, a saúde é algo que se constrói cotidianamente e o sofrimento psíquico das mulheres no tocante ao amor é, também, um problema de saúde mental, pois o sofrimento psíquico pode causar adoecimento, atingindo de forma direta a saúde do sujeito, tanto a saúde mental quanto a saúde física.
Dito de outra forma, sofrimento psíquico é uma das temáticas em Saúde Mental e o sofrimento singularizado, apresentado como queixa pelo paciente, poderá transformar-se em demanda de tratamento no campo da Saúde Mental, onde são possíveis duas formas de tratamento: o psiquiátrico, que comumente preconiza a ação medicamentosa para abrandar o sofrimento do paciente, e o psicológico, que consiste em um vasto conjunto de intervenções terapêuticas, fundamentadas nas diversas abordagens psicológicas vigentes, onde está incluída a modalidade de intervenção de psicoterapia individual (BELICANTA, 2007). É desta última modalidade, da psicoterapia individual de orientação psicanalítica, que se refere ao campo de estágio vinculado ao presente trabalho.
Apesar do tema do amor ser muitíssimo abordado na comunidade científica nos dias de hoje, entende-se que ainda não há um vasto conhecimento científico sobre as principais queixas por amor na clínica psicanalítica em mulheres. Tal conhecimento poderá se somar ao corpo teórico da Saúde Mental, podendo culminar com ajustes nas intervenções terapêuticas neste campo, a partir dos novos conhecimentos produzidos.
A relevância do presente trabalho pode ser pensada a partir das palavras de Zalcberg (2007, p.146):
Tanto na clínica quanto na vida cotidiana se constata a presença de manifestações de excesso na dialética pulsional feminina e que se apresentam de modo inversamente proporcional a uma resolução simbólica. Os efeitos subjetivos de experiências de falha na inserção simbólica vão de uma leve desorientação até uma profunda angústia. As cada vez mais comuns depressões femininas, fenômenos de despersonalização, distúrbios alimentares, algumas formas de errância bem como passagens ao ato o testemunham. Assim, não é sem razão que se diz que todo amor dá felicidade, incluindo o amor infeliz, do qual o despertar é penoso.
No que diz respeito à relevância social, o presente trabalho visa fornecer subsídios aos profissionais da área da psicologia, através de um maior conhecimento acerca do sofrimento relacionado ao amor em mulheres, pois considera-se que, a partir de uma maior compreensão deste fenômeno, é possível viabilizar aos profissionais psicólogos um melhor atendimento e apoio, para que se possa estabelecer a promoção de saúde às mulheres que vivem tal situação. Este trabalho pode, inclusive, servir de referência para o desenvolvimento de novos estudos relacionados ao tema, abrindo possibilidades de novas articulações teóricas.
Diante do que foi exposto, este trabalho pode ser considerado de relevância social, pois busca através da pesquisa bibliográfica em literatura científica dos últimos dois anos, identificar o que foi publicado sobre as queixas por amor em mulheres na clínica psicanalítica e discutir tais fenômenos a partir de seu referencial teórico, visando contribuir com os profissionais psicólogos através do aprofundamento na temática, proporcionando ou aprimorando as formas de intervenção com essas mulheres.
Foi realizado um levantamento nas principais bases de dados científicos disponíveis, especificamente Scielo e Bireme, que incluem bibliotecas virtuais como Medline, Lilacs, Biblioteca Cochrane, além do Google Acadêmico, que contém as pesquisas mais relevantes do mundo acadêmico, e também o portal científico do CAPES, entre outros, durante o mês de setembro de 2010. Nesta procura em bases de dados, encontraram-se vários trabalhos permeando o tema do amor, que merecem ser comentados: Amor e conjugalidade na contemporaneidade: uma revisão de literatura (Oltramari, Leandro Castro; 2009), Um olhar sobre o amor no ocidente (Pretto, Zuleica; Maheirie, Kátia; Toneli, Maria Juracy F.; 2009), Amor patológico: um novo transtorno psiquiátrico? (Sophia, Eglacy C; Tavares, Hermano; Zilberman, Mônica L.; 2006), As mulheres e os discursos genderizados sobre o amor: a caminho do "amor confluente" ou o retorno ao mito do "amor romântico"? (Neves, Ana Sofia
Antunes; 2007), A dor de amor na medicina da alma da primeira modernidade (Silva, Paulo José Carvalho; 2008), Love and rationality. On some possible rational effects of love (Milan, Gustavo; 2007), Reflexões sobre a distinção entre amor e sexualidade na primeira tópica freudiana (Lejarraga, Anna Lila; 2002), O amor no feminino: ocultamento e/ou revelação (Araújo, Denise Ramalho Dantas; 2003), Da pluralidade dos afetos: trajetórias e orientações amorosas nas conjugalidades contemporâneas (Aboim, Sofia; 2009), Do amor e da dor: representações sociais sobre o amor e o sofrimento psíquico (Nóbrega, Sheva Maia; Fontes, Érica Palmieri Guimarães; Paula, Fabíola Maria Souza Macêdo; 2005), As práticas amorosas na contemporaneidade (Costa, Jurandir Freire; 1999), Dimensões do amor (Leite, Julia Cristina Tosto; 2005), Relação amorosa e tentativa de suicídio na adolescência : uma questão de (des)amor (Azevedo, Ana Karina Silva; 2006), Amor não correspondido: discursos de adolescentes que tentaram suicídio (Vieira, Luiza Jane Eyre de Souza; Freitas, Mary Landy Vasconcelos; Pordeus, Augediva Maria Jucá; Lira, Samira Valentim Gama; Silva, Juliana Guimarães; 2009), Com a palavras as mulheres: um estudo sobre relações amorosas e identidade feminina (Cabral, Nilvanete de Lima Alves; 2005), Relacionamento amoroso: sofrimento feminino na contemporaneidade (Issy, Rosangela Maria Ribeiro; 2007), Amor pela Metade – Incidências da impossibilidade na esfera do amor (Flanzer, Sandra Niskier; 2004), Compreensão da experiência de sofrimento em mulheres na relação amorosa (Moreira, Ana Regina de Lima; 2004), Desvelando a dor amorosa da infidelidade conjugal: discurso de homens e mulheres (Scabello, Edilaine Helena; 2006), Mal de amor e maus amores - Um estudo psicanalítico sobre o amor (Dzakula, Ivana Maria; 2001), A incandescência do amor evanescente sobre o amor na contemporaneidade (Dzakula, Ivana Maria; 2004), O irremediável da escolha amorosa (Kac, Katia; 1996), O des-encontro amoroso na contemporaneidade: uma visão psicanalítica (Kac, Katia; 2001).
Os quatro últimos trabalhos não são de domínio público e encontram-se no acervo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), cujos textos completos foram disponibilizados via sistema de Comutação Bibliográfica (COMUT), sistema que permite a obtenção de cópias de documentos técnico-científicos disponíveis nos acervos das principais bibliotecas brasileiras e em serviços de informação internacionais. Tais textos contribuíram para o presente Trabalho de Conclusão de Curso porque Ivana Maria Dzakula faz sua
dissertação de mestrado sobre o sofrimento por amor e segue em sua tese de doutorado analisando as relações amorosas na contemporaneidade, discutindo como esse sofrimento comparece no cenário clínico atual, enquanto Katia Kac analisa as queixas referentes ao amor dos pacientes atendidos por ela na clínica psicanalítica e os motivos que os levam a escolher determinado objeto amoroso e segue em sua tese de doutorado pesquisando sobre a problemática do desencontro que se apresenta na contemporaneidade em dois níveis: desencontro do sujeito consigo mesmo e desencontro entre os sexos.
Sobre os demais trabalhos, seus textos completos foram acessados. Percebeu-se que todos, de uma maneira ou de outra, abordam aspectos do presente trabalho e encerram-se enfatizando o quanto a demanda do amor permanece presente na estrutura feminina e o quanto é necessário que hajam novas reflexões sobre o sofrimento psíquico que pode permear tal sentimento. Tais reflexões podem proporcionar a implementação de novas ações por parte dos profissionais e instituições que lidam com a temática do sofrimento psíquico, mais especificamente o sofrimento amoroso, levando em conta toda a sua complexidade, o que confere relevância científica ao presente trabalho.
Entretanto, alguns desses trabalhos merecem destaque pela proximidade com o tema deste Trabalho de Conclusão de Curso. Por exemplo a tese de doutorado de Sandra Niskier Flanzer, de 2004, cujo título é Amor pela Metade – Incidências da impossibilidade na esfera do amor, que lança foco sobre o tema do amor, ressaltando a questão da incompletude revelada pela falta constitutiva do sujeito, a qual se tenta preencher – em vão – através do movimento amoroso.
Já o trabalho intitulado Compreensão da experiência de sofrimento em mulheres na relação amorosa, de Ana Regina de Lima Moreira, do ano de 2004, é uma dissertação de mestrado que visa estudar o sofrimento por amor em mulheres, sobretudo no tocante a experiência de permanecer sofrendo em uma relação amorosa.
Uma outra dissertação de mestrado que merece comentar é a de autoria de Edilaine Helena Scabello, de 2006, com o nome Desvelando a dor amorosa da infidelidade conjugal: discurso de homens e mulheres, que visa compreender que significados homens e mulheres atribuem à vivência da infidelidade amorosa e como eles re-significam suas relações amorosas após tal vivência.
Também é relevante citar a dissertação de mestrado de autoria de Rosangela Ribeiro Issy, de 2007, que aborda a compreensão da experiência do sofrimento de mulheres na relação amorosa, cujo título é Relacionamento Amoroso: Sofrimento Feminino na Contemporaneidade, que serviu de referencial bibliográfico precioso na elaboração da presente justificativa e problemática, pois se aproxima em muito com a proposta do presente Trabalho de Conclusão de Curso, pesquisando as queixas que hoje chegam à clínica psicanalítica permeando o discurso feminino. A autora é psicóloga e toma por base relatos de queixas na clínica psicanalítica, de pacientes atendidas por ela própria: de um lado tratam-se de mulheres bem sucedidas na vida social, e de outro, há a ausência de uma relação amorosa.
Voltando ao presente trabalho, é importante salientar que o mesmo se difere dos trabalhos supra citados porque é de cunho bibliográfico, e se propõe a pesquisar as queixas por amor nas mulheres, publicadas em literatura específica, discutindo-as à luz dos textos freudianos que abordam o assunto.
Ante o exposto, apresenta-se o seguinte problema de pesquisa, por meio do qual estudaremos a temática proposta: O que quer uma mulher em relação ao amor? Uma discussão, a partir dos textos freudianos, das principais queixas relativas ao amor encontradas na clínica psicanalítica em pacientes mulheres.
3 OBJETIVOS
3.1 OBJETIVO GERAL
Discutir, a partir dos textos freudianos, as principais queixas relativas ao amor encontradas na clínica psicanalítica em pacientes mulheres.
3.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS
1. Investigar as contribuições teóricas sobre o amor em textos de Freud; 2. Caracterizar o termo queixa relativa ao amor a ser utilizado nesse trabalho; 3. Delimitar as bases bibliográficas a serem consultadas na pesquisa;
4. Identificar as queixas mais recorrentes das pacientes mulheres no que se refere ao amor, descritos nas bases de dados consultadas;
4 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
4.1 ALGUNS PONTOS TEÓRICOS RELEVANTES
O intuito deste capítulo é delimitar o termo queixa por amor a ser usado para o desenvolvimento deste trabalho, como proposto nos objetivos da pesquisa. Para tal, também são abordados alguns termos relacionados ao tema, como amor, sofrimento, sintoma, demanda, desejo e amor de transferência. Além disso perpassa-se a perspectiva freudiana sobre a falta constitutiva dos seres humanos (tanto homens quanto mulheres) que impulsionaria o sujeito na incessante busca de tamponamento de tal falta, sendo amor uma das possibilidades.
De acordo com Othmer & Othmer (2003), a maioria dos pacientes que buscam atendimento em consultório psicológico são cooperativos e podem dizer espontaneamente o tipo de problema que estão enfrentando, ou então dizer a partir da pergunta do profissional sobre o motivo da consulta. Os mesmos autores ressaltam a importância do paciente expressar seus problemas com suas próprias palavras, pois, ao transformar em palavras aquilo que há de inoperante em seu sofrimento, o sujeito pode se permitir escutar os paradoxos, entraves, percalços e desvarios representados pelo seu sintoma (FLANZER, 2004).
Mackinnon, Michels & Buckley (2008) corroboram o que foi dito acima quando dizem que a queixa principal é o problema atual para o qual o paciente procura ajuda profissional (ou foi encaminhado para isso) e enfatizam a importância de ser dita com suas próprias palavras.
Tais colocações remetem à regra fundamental da psicanálise - a associação livre -, que foi ditada à Freud por sua paciente, Emmy Von N., em maio de 1889, quando, sob hipnose, ela tem seu relato interrompido por Freud para indagar-lhe sobre a origem de certos sintomas (QUINET, 2005).
Aproveitei também a oportunidade para perguntar-lhe por que sofria de dores gástricas e de onde provinham. Sua resposta, dada a contragosto, era de que não sabia. Solicitei-lhe que se lembrasse até amanhã. Disse-me, então, num claro tom de
queixa, que eu não devia continuar a perguntar de onde provinha isso ou aquilo, mas que a deixasse contar o que tinha a dizer-me (FREUD, 1905, p.107).
Segundo Othmer & Othmer (2003), o paciente que vem por vontade própria ao consultório, traz consigo um motivo, uma razão para a consulta, habitualmente um problema com o seu funcionamento, com suas relações interpessoais, com sua própria conduta ou consigo mesmo. Na fala do paciente sobre seus problemas, o profissional busca identificar o sofrimento existente por trás de suas palavras e de suas queixas.
Quinet (2005) defende a idéia de que, ao buscar um analista, já há um saber do sujeito sobre seu sintoma – ou sobre o que quer que a pessoa queira se desvencilhar. Issy (2007) complementa o autor ao dizer que cada indivíduo que chega à clínica traz consigo uma história diferente no que diz respeito às suas relações objetais, suas relações com o Outro. Cada sujeito chega se queixando de seu sintoma.
O sujeito se queixa de algo que o faz sofrer, que dói, que incomoda. A partir da queixa é que se pode ouvir o sintoma, que por sua vez contém uma verdade a ser revelada, um sentido subjetivo para o sujeito. A partir do sintoma é que se pode chegar em uma demanda de análise, que acontece quando o primeiro se torna uma questão epistêmica para o sujeito e este endereça ao analista uma demanda de desvencilhamento do sintoma, que então deixa de ser mera queixa (PISETTA, 2008).
Quinet (2005) assevera que a demanda não deve ser aceita em estado bruto, mas sim questionada. ―É preciso que essa queixa se transforme numa demanda endereçada àquele analista e que o sintoma passe de estatuto de resposta ao estatuto de questão para o sujeito, para que este seja instigado a decifrá-lo‖ (QUINET, 2005, p.16). Assim, uma queixa do tipo ―eu sofro‖ passa a ser uma questão merecedora de resposta: ―por que sofro?‖. É a retificação subjetiva de Freud, que consiste em perguntar ao sujeito ―qual é a sua participação na desordem da qual você se queixa?‖ (QUINET, 2005).
Quinet (2005) pondera, contudo, que o que realmente importa é como a demanda se particularizará em cada sujeito, que se apresenta ao analista representado por seu sintoma. Demanda, segundo Chemama (2005), é a forma de expressão de um desejo, quando se quer obter alguma coisa de alguém, sendo que, o que importa, é a resposta do outro como tal, independentemente da apropriação efetiva do objeto reivindicado, esta última consistindo em mera satisfação da necessidade.
Segundo Dazkula (2004), a demanda transcende o atendimento da necessidade, pois o que visa fundamentalmente é o amor do outro, já que o amor é o movimento pelo qual o outro é capaz de codificar e atender à necessidade do sujeito desde criança, transformando-a em demanda. O que se coloca na demanda não é a importância do objeto que se pede, não importa o que se dá, mas quem o dá (DZAKULA, 2004). Sendo assim, pode-se dizer que toda demanda se transforma em demanda de amor, demanda de reconhecimento. O mundo humano impõe ao sujeito demandar, encontrar as palavras que serão audíveis pelo outro, segundo Chemama (2005).
Face ao exposto, releva esclarecer que o presente trabalho não tem a pretensão de verificar o quanto o seu objeto de estudo - a queixa das mulheres no tocante ao amor - se transmuta em um sintoma e o quanto o sintoma adquire a dimensão de uma questão, para se tornar um sintoma analítico, implicando sujeito e desejo. O que se pretende é fazer uma análise do conteúdo do discurso das mulheres quando se queixam que algo não vai bem no amor, visando investigar o sofrimento feminino existente por trás das queixas.
Dito isto, serão feitas algumas considerações sobre o amor, sem a pretensão de se chegar a um conceito do mesmo, pois nem Freud – autor que embasa o presente trabalho - o fez, apesar de ter construído uma teoria sobre o amor. Segundo Dzakula (2004), o amor atravessa o caminho de Freud e sua perspectiva vai mudando de acordo com as respostas que dá aos problemas que se propõe a indagar.
De acordo com Chemama (2005, p.12), o amor é ―um sentimento de apego de uma pessoa por outra, com frequência profundo, até mesmo violento, mas cuja análise demonstra que pode ser marcado pela ambivalência e, sobretudo, que não exclui o narcisismo‖. Segundo o mesmo autor, quando Freud introduz a hipótese das pulsões3
de morte, em 1920, ele passa a utilizar o termos grego Eros, para designar o conjunto de pulsões de vida (que compreendem as pulsões sexuais e as de autoconservação) que a elas se opõem. A partir daí o amor passa a ser concebido como uma pulsão – pulsão de vida -, para Freud (1920). Até então Freud considerava o amor do lado oposto da pulsão.
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Esse é o primeiro momento em que surge o conceito de pulsão no presente trabalho. Freud (1915) articula que pulsão é um conceito situado na fronteira entre o mental e o somático, como representante psíquico dos estímulos originados dentro do organismo e que alcançam a mente, como uma medida de exigência feita à esta no sentido de trabalhar em conseqüência de sua ligação com o corpo. O conceito de pulsão não será aprofundado no presente trabalho.
O que releva dizer é que, se amor é pulsão de vida, ele é uma força, e como tal obriga o sujeito a dar algum destino à ela, representando-a de alguma forma, assevera Dzakula (2004). Sua expressão no psiquismo é a libido, se traduzindo em uma ―certa dose de capacidade para o amor‖ (FREUD, 1916). Assim, o amor é uma força que habita o sujeito e que o impulsiona a fazer laços com outros seres humanos, através dos quais ele próprio se constitui, ou seja, o amor é constitutivo do sujeito, alega Dzakula (2004).
O reconhecimento do amor como um dos fundamentos da civilização, leva Freud (1927) a considerar também que o amor sexual é capaz de proporcionar ao homem as mais intensas experiências de satisfação, oferecendo-lhe, assim, algum acesso ao protótipo de felicidade. No entanto, o autor também atesta que esta felicidade está fadada a ser inalcançável, e que as relações amorosas se revertem incessantemente em fonte de desprazer para o sujeito.
Em 1930, no texto Mal-estar na Civilização, Freud se refere ao medo da perda do amor, sublinhando que a pessoa que perde o amor de outra pessoa de quem é dependente, fica desprotegida de uma série de perigos e sente-se ameaçada. Acima de tudo, sente-se desamparada e fica exposta ao perigo de que essa pessoa mais forte mostre sua superioridade sob a forma de punição.
Dzakula (2004) pondera que, ao associar a pulsão de vida a Eros – Freud passa a considerar o amor como princípio de união, mas que contém disrupturas, visto que há um limite para a união que Eros pode realizar. Existe um princípio de desunião poderoso funcionando em paralelo, que é a pulsão de morte. Tal idéia se manterá até o final da obra de Freud, e enfatiza-se que a pulsão de vida só ganha relevância quando em contraponto à pulsão de morte, que age no amor provocando disrupções neste, constituindo um movimento amoroso (DAZKULA, 2004). Tal movimento incessante faz o sujeito se lançar novamente no amor ao se deparar com um novo objeto mesmo depois de vivenciar o desprazer e o desamparo que acompanham a perda do amor do objeto antigo, alerta Freud (1930).
Poderia-se supor que, para não passar por tal sofrimento, dever-se-ia evitar ter relações amorosas, mas não é assim: Há sempre uma cota de insatisfação da libido, responsável por promover um novo investimento, o que traz a idéia de que o amor, articulado que está com a pulsão de morte, é sempre uma novidade, assevera Flanzer (2004).
quanto ao conteúdo, pois não é raro se transformar em ódio. Essa ambivalência de sentimento, já citada por Chemama (2005), pode ser explicada pela alienação que pode existir no amor: para quem abdicou de toda a sua vontade própria na dependência amorosa, é possível se conceber que o ódio possa acompanhar o apego passional, o ―enamoramento‖. Freud (1915) aponta ser particularmente comum se encontrar amor e ódio dirigidos simultaneamente para o mesmo objeto, idéia que será explanada no capítulo seguinte.
Chemama (2005), no entanto, questiona se, de fato, seria no amor que se deveria encontrar a força que move o mundo – Eros -, a única capaz de se opor a Tanatos, a morte. Segundo o autor, tal raciocínio apagaria o papel determinante daquilo que é mais especificamente sexual da existência humana. O mesmo autor defende que as questões do amor e da sexualidade devem ser tratadas paralelamente, e não em separado, e alerta que se deve prestar mais atenção àquilo que distingue amor e desejo. O próprio Freud (1912) afirma que muitos homens não podem desejar a mulher que amam, nem amar aquelas que desejam. Isto porque a mulher amada – e respeitada – é de alguma forma muito próxima da mãe, e por isso está proibida. Tal idéia será aprofundada no próximo capítulo.
Então, para esclarecer a diferença entre amor e desejo, releva dizer que, no desejo, segundo Chemama (2005), existe um objeto faltante. Porém, alerta Dzakula (2004), o objeto do desejo não é um objeto no sentido de objeto do mundo, que se apresenta ao sujeito como possibilitador de realizá-lo, mas um objeto que é criado pelo próprio investimento que o sujeito tem nele – o objeto é uma imagem investida (objeto imaginário). Para Freud, a dimensão do desejo é da ordem da realidade psíquica, esclarece Almeida (1993). O desejo é irredutível à necessidade porque é fundamentalmente uma relação com a fantasia e não com um objeto real, declara Chemama (2005).
Já no amor, não há nenhum objeto faltante que seja concreto ou material, declara Chemama (2005), alegando que basta ver as crianças cujas constantes demandas não tem por finalidade obter os objetos que reclamam, exceto como um simples signo – signo do amor que a doação pode lembrar. O que as crianças – e os adultos – demandam, é amor.
É na demanda que se enlaçam desejo e amor. Não sendo o homem redutível a um ser de necessidade, sua demanda abre a porta para a insatisfação: a demanda, porque passa pela linguagem, ―anula a particularidade de tudo aquilo que possa ser atribuído à ela, transmutando-a em prova de amor‖ (CHEMAMA, 2005, p.13).
Zalcberg (2007) alega que da impossibilidade de uma satisfação completa da demanda é que se produz com o resto, o desejo. Stotz (2011) complementa tal raciocínio dizendo que se há falta, há desejo, pois só se deseja o que não se tem. O desejo se inscreve entre a demanda de amor e a necessidade.
A intrincação da demanda e do desejo é especialmente evidente na neurose. O neurótico obsessivo não tem por objeto de desejo outra coisa a não ser a demanda do Outro. Onde se poderia supor que ele pudesse desejar, ele se dedica, de fato, a obter o reconhecimento do Outro, dando-lhe, continuamente, por seu comportamento de bom aluno e de bom filho, os penhores de sua boa vontade, assevera Chemama (2005).
Passando para a perspectiva freudiana concernente à falta constitutiva dos seres humanos, releva destacar a maneira como homens e mulheres lidam com o amor: a grande diferença entre os sexos no que concerne ao amor, é que, enquanto o homem tem que lidar com uma falta, a mulher tem que lidar com duas. A falta comum tanto à homens quanto à mulheres – a chamada falta constitutiva - é abordada no texto de Freud de 1895, A Experiência de Satisfação, no qual o autor relata o estado de desamparo original do recém-nascido ao não conseguir suprir suas excitações internas sozinho. No caso da fome, segundo Stotz (2011), o infans promove uma descarga em movimentos – chora, grita e esperneia – que, contudo, não elimina a força constante do estímulo interno.
A primeira mamada é a primeira experiência de satisfação do bebê, único momento que o infans vivencia como de completa satisfação e completude, que inaugura o desejo e funda o aparelho psíquico do sujeito – é a chamada satisfação original.
Quando em outro momento houver o reaparecimento da excitação interna, reaparecendo o “estado de urgência ou de desejo”, ocorre um reinvestimento das imagens, na tentativa de encontrar a identidade de percepção, restabelecendo a situação de satisfação original. O desejo, que se constitui como uma tentativa de restabelecimento da satisfação original, via reinvestimento da imagem mnêmica, busca o objeto, agora, perdido, cuja presença é marcada pela falta (STOTZ, 2011, p.27).
A partir daí, pondera Stotz (2011), o indivíduo viverá em constante busca por esse momento de completude – e é importante destacar que o amor dá a ilusão de completude -, em busca da vivência da lembrança de satisfação, porque a experiência como tal, não mais se repetirá. Aí estaria a origem do desejo, mola propulsora do aparelho psíquico, conforme Stotz
(2011). Tal busca pela completude seria a tentativa de preenchimento da falta constitutiva do sujeito, presente tanto nos homens quanto nas mulheres.
A mulher, entretanto, tem uma segunda falta, específica dela: a falta do significante do seu sexo, significante da feminilidade. Isto porque no seu complexo de castração, a menina subjetiva uma falta, para a qual não tem um significante para recobrir, pois, na desidentificação fálica que ocorre no seu complexo de Édipo, ela se estrutura como não tendo o falo. Tal assunto será aprofundado no terceiro capítulo desta fundamentação teórica.
A partir daí, observa Zalcberg (2007), a menina nunca (mais) terá aquilo que satisfaz o Outro, não importa o que faça. Ela pode até tentar compensar sua falta sendo amorosa, dócil e obediente com sua mãe, mas terá que conviver com sua ―falta a ter‖ aquilo que satisfaria a mãe, diferentemente do menino que, mesmo depois do Édipo, acredita ter algo a oferecer, sob a forma subjetivada de um ―eu tenho‖, que é o seu significante fálico (ZALCBERG, 2007).
[...] o inconsciente só conhece um significante do sexo, o falo, e este é masculino. É com este significante que tanto homens quanto mulheres contam para lidar com a sexualidade no inconsciente e, evidentemente, de forma diferente (ZALCBERG, 2007, p.13).
Issy (2007) sintetiza o que foi dito acima quando diz que o desejo feminino aponta para uma falta dupla: aquela essencial, que constitui o núcleo do desejo, referente à experiência de satisfação já citada; e aquela referente à ausência do significante fálico, que introduz a mulher no universo da falta sem o ancoramento protetor que o falo oferece ao menino em sua constituição identitária.
A dupla falta na mulher acarreta efeitos na constituição de sua subjetividade. A falta de pênis é vivida como possibilidade de ser causa da falta de amor. A mulher demanda amor para encobrir a sua falta, é o que alega Zalcberg (2007). Ela busca no homem alguma coisa que lhe dê consistência, que lhe diga quem ela é. Ou seja, ela precisa ser amada para ser alguém.
Os homens terem de lidar com uma falta e as mulheres terem de lidar com duas é o motivo pelo qual os sintomas que apresentam e as soluções buscadas para resolvê-los se estruturam diferentemente segundo os sexos. Isto na medida em que o sintoma
do qual sofre o sujeito – sofrimento que é o mais frequente motivo de demanda de análise – é, por definição, uma forma de dar conta da falta inscrita no âmago do ser de cada um (ZALCBERG, 2007, p.34).
A mesma autora acrescenta, ainda, que a falta constitui o fundamento para qualquer elaboração a respeito da sexualidade da mulher, e salienta o papel eminente que o amor ocupa no psiquismo feminino, numa tentativa de substituir aquilo que falta. Tal aspecto marca particularmente o destino da mulher, tornando-a mais voltada para a ligação com o Outro, visto que o amor de um homem pode dar à ela uma medida de existência, como dito no parágrafo anterior. Em contrapartida, a experiência de perda do amor do parceiro pode causar na mulher uma sensação de sentir-se estranha aos seus próprios olhos, como que ameaçada de desaparecimento.
Para finalizar o presente capítulo, considera-se importante comentar sobre o conceito de amor de transferência, manifestação de amor que ocorre na clínica psicanalítica. Vale ressaltar que Quinet (2005) refere que a transferência é o amor que se dirige ao saber, sendo que a demanda de se livrar de um sintoma se torna demanda de amor, de presença. ―Ao surgimento do desejo sob a forma de questão, o analisante responde com amor; cabe ao analista fazer surgir nessa demanda a dimensão do desejo, que é também conectado ao estabelecimento do sujeito suposto saber‖ (QUINET, 2005, p.29).
O amor é a peça fundamental para se pensar a transferência, pois, no contexto clínico, é através do campo amoroso que o paciente pode discorrer acerca de seus incômodos. Freud, em seu texto Observações sobre o amor transferencial, de 1914, pondera que esse amor não deve e nem pode ser plenamente realizado, mas ao mesmo tempo não pode ser desconsiderado. ―É, portanto, tão desastroso para a análise que o anseio da paciente por amor seja satisfeito, quanto que seja suprimido‖ (FREUD, 1914, p.216).
Flanzer (2004) alega que basta que um sujeito se depare com algum mal-estar em sua vida, especialmente no terreno do amor, para que este sujeito procure um analista, deite-se no divã e ponha-se a falar e, como num passe de mágica, comece a amar o analista, pois supõe que este possa fazer alguma coisa em nome da sua amargura. E, de fato, pode: ao transformar os sofrimentos em demanda de análise, uma nova direção é despontada. Trata-se de realizar uma escuta sobre o modo como um determinado sujeito goza o amor. Este movimento é chamado de amor de transferência, e é onde tudo começa no processo analítico e cuja
importância é indiscutível, mas que não será um conceito aprofundado no presente trabalho por não ser necessário para o alcance dos objetivos da pesquisa. O mesmo se aplica aos conceitos de demanda, desejo e sintoma.
4.2 CONTRIBUIÇÕES TEÓRICAS SOBRE O AMOR EM TEXTOS DE FREUD
4.2.1 A escolha do objeto de amor nos homens
A presente articulação teórica inicia com o primeiro texto de Freud acerca das contribuições à Psicologia do amor, intitulado Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens (1910). Neste texto o autor se debruça sobre a temática do amor, abordando a problemática da escolha amorosa, quando duas premissas são salientadas: a primeira é a idéia de que o amor surge como resultado de uma repetição de protótipos parentais de acordo com a fixação da libido infantil e a segunda é a noção de substituição objetal, ou seja, o objeto final da pulsão sexual será sempre um substituto do objeto original, como explanado no capítulo I desta fundamentação teórica, no que concerne à Experiência de Satisfação.
Freud (1910) dizia que estudar cientificamente o campo do amor humano dá menos prazer e é mais tosco do que deleitar-se sobre o mesmo tema em outros campos, como por exemplo, as artes. ―A ciência é, afinal, a renúncia mais completa ao princípio do prazer de que é capaz nossa atividade mental‖. (FREUD, 1910, p.171).
Para justificar de modo amplo ―o tratamento estritamente científico dado ao campo do amor humano‖ (FREUD, 1910, p.149), o autor pontua a diferença entre um texto literário que fale de amor e as considerações que possam ser feitas a respeito do amor enquanto advindas da experiência clínica, campo fértil no qual as manifestações amorosas se evidenciam, e de onde ele retira elementos para discutir o que está em questão nas relações amorosas, asseverando a importância cabal que a questão do amor ocupa em sua teoria e confirmando sua convicção de que o tema do amor pertence ao terreno científico.
relação ao amor – tipos de escolha de objeto de amor – Freud (1910) alega que se trata de uma série de ―condições necessárias ao amor‖, cuja combinação é ininteligível e até desconcertante, ocorrendo em todo e qualquer sujeito, e que admitem explicação simples de contexto psicanalítico, como explicitado em seguida.
A primeira precondição na escolha do objeto de amor por parte dos homens – considerada a condição mais frequente e que ocorre independentemente das demais – pode ser delineada como específica: nela, deve necessariamente existir ―uma terceira pessoa, prejudicada‖, pois o homem nunca busca uma mulher sem compromisso para ser seu objeto amoroso, mas sim uma mulher sobre a qual ―outro homem possa reivindicar direitos de posse, como marido, noivo, ou amigo‖ (FREUD, 1910, p.150). A idéia é gratificar impulsos de rivalidade e hostilidade em direção ao homem de quem a mulher é arrebatada. Vale destacar que se tratam de características da escolha objetal de homens. As características da escolha objetal em mulheres serão vistas mais adiante.
A segunda precondição, que ocorre em conjunção com a primeira, refere-se à escolha objetal, quando o interesse é por mulheres que sejam, de alguma forma, ―sexualmente de má reputação, cuja fidelidade e integridade estejam expostas a alguma dúvida‖ (FREUD, 1910, p.150). A mulher casta, de conduta irrepreensível, jamais elevar-se-á à condição de objeto amoroso. É preciso que ela esteja envolta minimamente em um murmurinho de escândalo, ou até mesmo que seja francamente promíscua, para caracterizar frente ao homem as precondições necessárias para esta escolha amorosa. Freud (1910) designa este tipo de escolha como ―amor à prostituta‖. A experiência do ciúme, que é uma necessidade para amantes desse tipo, é explicada sob a perspectiva de que a paixão atinge o apogeu e a mulher adquire pleno valor somente se causar ciúmes, sendo que esse tipo de amante tende a buscar circunstâncias que lhe permitam experimentar tais emoções. O estranho é que o alvo do ciúme não é o possuidor da pessoa amada, mas sim estranhos que aparecem pela primeira vez, que levam à indução de suspeita da amada. Em casos evidentes, o amante sequer deseja posse exclusiva da mulher e sente-se à vontade na situação triangular, pois o marido legítimo não é considerado um entrave.
Ao anunciar as duas especiais características, supracitadas, presentes e necessárias, para que o homem escolha uma mulher (que seja comprometida e que seja de má reputação), Freud (1910) está defendendo a idéia de que a proibição é o elemento que impulsiona o desejo
sexual do sujeito.
Esse tipo de relacionamento exige do homem muito dispêndio de energia mental, acarretando exclusão dos demais interesses. Tais mulheres são vistas como as únicas pessoas a quem é possível amar, ou seja, o objeto é sentido como o único a quem é possível amar, numa exigência de fidelidade incessante e repetitiva, que o amante faz a si próprio, ainda que tal exigência seja transgredida. Trata-se de relacionamentos de natureza compulsiva, conforme sublinha Freud: ―Essas características de relacionamentos amorosos, que ora descrevo, revelam, muito claramente, sua natureza compulsiva, conquanto seja algo que, até certo ponto, ocorra a qualquer pessoa que se apaixone‖ (1910, p.151). A fidelidade e a intensidade desse tipo de relação permite concluir que um único relacionamento deste tipo não constituiria toda a vida erótica de uma pessoa. Ao contrário, relacionamentos apaixonados desse tipo geralmente ocorrem várias vezes na vida do sujeito e com as mesmas peculiaridades. Esse tipo de amante tem a ânsia de salvar a mulher amada. O homem se convence de que ela precisa dele para não perder o controle moral e descer a um nível lamentável.
Diante do exposto, pode-se elencar as diferentes condições4 que se impõem ao homem neste tipo de relacionamento, de acordo com Freud (1910): sua amada não deve ser desimpedida (deve já ter um ―dono‖), ela deve se assemelhar a uma prostituta, ele atribui o mais alto valor a essa mulher, há a necessidade de sentir ciúmes, ocorre exigência de fidelidade (que pode ser transgredida, conforme as circunstâncias, levando à um outro relacionamento com as mesmas características), e, por último, o homem tem a ânsia de salvar a mulher, pois esta se coloca em situações perigosas por ser volúvel e infiel, necessitando do amante para protegê-la.
A escolha de objeto, que é tão estranhamente condicionada, e esta maneira extremamente singular de se comportar no amor, tem a mesma origem psíquica que encontramos nos amores de pessoas normais. Derivam da fixação infantil de seus sentimentos de ternura pela mãe e representam uma das conseqüências desta fixação (FREUD, 1910, p.152).
Mesmo no amor das pessoas consideradas ―normais‖ podem existir algumas características que revelam o protótipo materno da escolha do objeto, como por exemplo, a escolha de mulheres maduras por homens jovens (destacamento da libido da mãe).
4 Tais condições apontam para o complexo de Édipo no menino, assunto abordado no capítulo III da
Nos tipos de relacionamentos citados acima, segundo Freud (1910), a libido permaneceu ligada à mãe por muito tempo, mesmo depois do início da puberdade – por um tempo alongado demais – de modo que as características maternas permanecem impressas nos objetos amorosos escolhidos, transformados em substitutos facilmente reconhecíveis da mãe.
Analisando, nesses casos, a decorrência da constelação psíquica relacionada à mãe no que concerne às condições para amar e no comportamento do sujeito no campo do amor, pode-se dizer que a terceira pessoa injuriada seria o próprio pai, e que a supervalorização da pessoa amada, como única e insubstituível, se refere à mãe. Dito de outra forma, os objetos amorosos deste tipo descrito são substitutos da mãe e, como substitutos, não proporcionam jamais a satisfação desejada. Eis como Freud afirma novamente o caráter da substituição:
Aprendemos pela psicanálise, que a noção de algo insubstituível, quando é ativa no inconsciente, muitas vezes surge como subdividida em uma série infindável. Infindável pelo fato de que cada substituto, não obstante, deixa de proporcionar a satisfação desejada (FREUD, 1910, p.153).
Então, é possível supor que, para Freud (1910), o preceito fundamental do que se poderia chamar de uma teoria freudiana do amor seria a idéia de que o amor é sempre a repetição da substituição de protótipos arcaicos da vida do sujeito, é sempre uma tentativa de reencontro com o mais primitivo objeto definitivamente perdido para o sujeito desde sempre, o que implica em dizer que, entre o sujeito e seu objeto de amor, há fatalmente uma irreversível separação.
Explicando um pouco melhor, vale perpassar as questões que Freud trabalha em seu texto Sobre a introdução ao conceito de narcisismo (1914), onde descreve a passagem existente entre o auto-erotismo e o amor objetal, sendo que o narcisismo é apontado como uma fase intermediária necessária para tal passagem, e desempenha um papel importante na história sexual. Stotz (2011) assevera que o narcisismo é considerado um estádio de desenvolvimento da libido.
Para Freud (1914), o primeiro modo de satisfação da libido é o auto-erotismo: prazer que o sujeito retira de seu próprio corpo, visando satisfação das pulsões parciais. Porém, cedo ou tarde, o sujeito necessitará se dirigir ao mundo externo em busca de um objeto que o satisfaça, pois os investimentos libidinais voltados para si mesmo não serão mais suficientes. Por isso Freud (1914) diz que o narcisismo se localiza na passagem do
auto-erotismo para o amor objetal. ―O narcisismo nesse sentido não seria uma perversão, mas o complemento libidinal do egoísmo da pulsão de autopreservação, que, em certa medida pode justificadamente ser atribuído a toda criatura viva‖ (FREUD, 1914, p.81). Narcisismo é um investimento libidinal tomando o ego como objeto de amor.
O que determina a passagem da libido do ego - do narcisismo - aos objetos é a transferência de um acúmulo de tensão quando a catexia libidinal excede em quantidade, necessitando um escoamento de excitação. É isso que torna absolutamente necessário para a vida mental do homem ultrapassar os limites do narcisismo e ligar a libido à objetos. Pontua Freud (1914, p. 92): ―Um egoísmo forte constitui uma proteção contra o adoecer, mas, num último recurso, devemos começar a amar a fim de não adoecermos, e estamos destinados a cair doentes se, em conseqüência da frustração, formos incapazes de amar‖.
Vale lembrar, contudo, que a libido, energia por excelência da pulsão sexual, é um componente essencial na constituição do ego e não apenas uma pulsão de autoconservação, que indicaria uma noção de ego vinculada ao organismo. A relação entre o ego e o organismo não seria unívoca, pois ―estamos destinados a supor que uma unidade comparável ao ego não pode existir no indivíduo desde o começo; o ego tem de ser desenvolvido‖ (FREUD, 1914, p. 93).
Tomando os sintomas neuróticos como ponto de partida, em suas pesquisas para descobrir a localização da libido, tudo o que Freud (1914)conseguiu foi observar emanações desta – catexias objetais, que podem ser transmitidas e retiradas novamente. Há uma antítese entre libido do ego e libido objetal: quanto mais uma é empregada, mais a outra se esvazia. A libido objetal atinge seu ponto máximo no caso de uma pessoa apaixonada, quando o indivíduo parece desistir de sua própria personalidade em favor de uma catexia objetal (FREUD, 1914).
Retornando à segunda pré-condição para amar, exposta no texto freudiano Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens (1910), quando o objeto de amor deve ser semelhante a uma prostituta, esta parece inicialmente se opor à derivação do complexo materno, pois o pensamento consciente do adulto considera a mãe como alguém de uma pureza moral inatacável. Entretanto, aquilo que no consciente são dois pólos distintos, no inconsciente podem se fundir em um único pólo. Assim, os impulsos amorosos dirigidos a uma mulher de má reputação se referem, de fato, à figura materna, na medida em que evocam