I
Universidade Estadual de Campinas
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas
Departamento de História
IMAGENS DA MULHER GREGA: HERÓDOTO E AS
PINTURAS EM CONTRASTE
Nathalia Monseff Junqueira
Campinas
Março – 2011
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FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELA BIBLIOTECA DO IFCH - UNICAMP
Bibliotecária: Sandra Aparecida Pereira CRB nº 7432
Título em inglês: Images of Greek women: contrasting Herodotus and vase paintings Palavras chave em inglês (keywords):
Área de Concentração: História Cultural Titulação: Doutor em História
Banca examinadora: Pedro Paulo Abreu Funari, Renata Senna Garraffoni, Marina Regis Cavicchioli, Lourdes Madalena Gazarini
Conde Feitosa, Aline Vieira de Carvalho
Data da defesa: 14-03-2011
Programa de Pós-Graduação: História
Greek - Ancient history Gender
Herodotus Greek pottery
Junqueira, Nathalia Monseff
J968i Imagens da mulher grega: Heródoto e as pinturas em contraste / Nathalia Monseff Junqueira. - - Campinas, SP : [s. n.], 2011
Orientador: Pedro Paulo Abreu Funari
Tese (doutorado) - Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.
1. Grécia - História antiga. 2. Gênero. 3. Heródoto. 4. Cerâmica grega. I. Funari, Pedro Paulo Abreu. II. Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. III. Título.
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Dedico esta tese aos meus pais, Silvana e Gilmar, e à minha irmã Nadia pela amizade, carinho e apoio em todos os momentos da minha vida. À minha querida madrinha Sandra (in memoriam), pelo amor, carinho, o abraço e a risada que marcaram a minha vida durante os anos que esteve conosco.
VII “O passado já passou, e a história é o que os historiadores fazem
com ele quando põem a mão à obra.” (Keith Jenkins. A História repensada).
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AGRADECIMENTOS
Ao iniciar os agradecimentos às pessoas que de alguma forma proporcionaram a realização desse trabalho, muitas imagens logo destoaram na minha mente. Os meus agradecimentos iniciais são para o meu orientador Prof. Dr. Pedro Paulo Funari, que me auxiliou, desde a graduação, a trilhar o caminho no estudo da Antiguidade Clássica, além das valiosas indicações, críticas, sugestões e conselhos que possibilitaram a escrita desta tese de Doutorado.
Agradeço também à Profa. Dra. Margarida Maria de Carvalho, a co-orientadora ‘não oficial’ deste trabalho. Devo a ela as importantes sugestões e críticas, além da paciência, que contribuíram com a produção deste trabalho. Além de agradecê-la por aceitar o meu convite para a banca de Qualificação.
Agradeço também a Profa. Renata Senna Garraffoni pelas indicações bibliográficas e comentários tecidos na Qualificação e que me auxiliaram na elaboração final da tese. Também gostaria de agradecer aos professores Lourdes Conde Feitosa, Marina Regis Caviccioli, Aline Vieira de Carvalho, Claudio Umpierre Carlan, Raquel dos Santos Funari e José Geraldo Grillo por aceitarem o meu convite para serem membros e suplentes da banca. Agradeço à Capes pela concessão da bolsa de Doutorado de 2008 a 2011 e, além disso, da bolsa PDEE - Programa de Doutorado no País com Estágio no Exterior – realizado entre dezembro de 2008 a novembro de 2009 em Barcelona, que foi de vital importância para a ampliação das leituras e a das imagens presentes nessa pesquisa.
Agradeço ao Prof. José Remesal Rodríguez, professor catedrático de História Antiga da Universidade de Barcelona por aceitar me orientar durante a minha estadia na Europa e pela possibilidade de contar com o apoio técnico do CEIPAC (Centro para el Estudio de la Interdependencia Provincial en la Antigüedad Clasica). Além das sugestões e comentários feitos a respeito da minha pesquisa, agradeço-lhe pela indicação para a Profa. Mireille Corbieu, responsável pelo meu acesso a pesquisa na Biblioteca da Sorbonne – Universidade Paris IV.
Também quero ressaltar o meu agradecimento aos Profs. Drs. Antonio Aguilera e Victor Revilla e Piero Milet e Antoni Puig Palerm aos pesquisadores Ruth Ayllón Martín,
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Sergi Calzada Baños, Patricia Ruiz del Pozo, Javier Soria Rincón e Juan Manuel Bermúdez Lorenzo, membros do CEIPAC, pelo auxílio com os equipamentos, as conversas e sugestões ao meu trabalho.
Ainda na Espanha, agradeço a Rosina Soler, Renata Mengue, Mogar Costa e Glaucia Loebmann, pela amizade e o apoio em todos os momentos da minha estadia em Barcelona.
Em Paris, devo um agradecimento especial a Deivid Valério Gaia e Jean-Philipe pela por me receberem tão gentilmente em sua casa, e ao Prof. Dr. Jean-Michel Carrié, diretor de estudos na École des Hautes Études en Sciences Sociales – Paris, pela oportunidade de assistir as sua aulas, e pelo acesso a pesquisa na biblioteca da EHESS.
Agradeço aos meus amigos da minha turma de História de 2000, Marcela Marrafon, Thaís Rezende e Viviane Cattozzi, além de Alessandra Prando, Roberta Alexandrina, Tharsila de Medeiros e Verônica Borges pela amizade de tantos anos.
Aos colegas de Doutorado Renato Pinto, Karla Fredel e Andres Alarcón pelas conversas e discussões durante o Doutorado. Ao Renato gostaria de agradecer a amizade, as sugestões à minha pesquisa, pela companhia durante a minha estadia na Europa, além de me receber em seu apartamento em Campinas.
Ao revisor desta Tese, Sergio Drummond M. Carvalho, que já havia aceitado o desafio da correção da Dissertação, pelas importantes sugestões à escrita do meu texto, meu muito obrigado.
À Maria Cecília Figueiredo, minha professora de inglês, gostaria de agradecer a ajuda com a leitura dos textos, pela tradução do resumo da tese, pelo café antes da aula e pela amizade.
Às minhas amigas desde o tempo da escola, Elis Akabochi, Renata Gomes e Talita Sartori, gostaria de agradecer pela amizade sincera e verdadeira, além da paciência com as minha ausência em alguns momentos.
Às minhas avós, tios e primos por fazerem parte da minha família, pelas conversas, pelo incentivo, pelas risadas, por compartilharem a sua vida comigo.
O meu reconhecido agradecimento vai para o meu pai Gilmar, à minha mãe Silvana e à minha irmã Nadia, pelo amor incondicional desde o primeiro momento da minha vida.
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Agradeço também por me estimularem e nunca me deixarem desistir das minhas escolhas. Por apoiarem as minhas decisões, mesmo que elas acarretassem uma separação por algum período de tempo. O amor que eu sinto por vocês também é incondicional. É para vocês que eu dedico esta tese.
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Resumo:
Com o objetivo de apresentar novas possibilidades de se estudar as mulheres na Antiguidade Clássica, englobando as discussões da História Cultural, estudos de gênero, identidade e subjetividade dos sujeitos históricos, escolhemos como fonte dessa pesquisa a obra do historiador grego Heródoto de Halicarnasso, que escreveu Histórias no V a.C. Nossa intenção é a de analisar as passagens que selecionamos em que as mulheres são relatadas em diversas situações, procurando evidências de que esse historiador compartilharia de um ideal de mulher, a melissa, que poderia fazer parte do imaginário de uma parcela da população masculino ateniense. Ademais, contrastamos essas passagens com a representação imagética encontrada na cerâmica ática do VI e V a.C. na qual as mulheres aparecem desempenhando atividades tanto na esfera pública quanto na privada, pois essas imagens apontam para uma a vivência cotidiana das mulheres diversa desse padrão desejado. Assim, demonstramos a maneira como esse padrão de comportamento feminino aparece na nossa fonte de pesquisa e como outras práticas sociais femininas poderiam habitar o mesmo mundo imaginado para a melissa.
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Abstract:
Aiming at the presentation of new possibilities in studying the women in the Classical Antiquity involving the discussions of the Cultural History, gender studies, identity and subjectivity of the historical subjects, we have chosen as a source of such research the work of Herodotus from Halicarnassus, the Greek historian, who wrote “Histories” in the fifth century B.C. Our intention is to analyze the selected passages in which the women are presented in several situations, searching for evidences that this historian would support an ideal of a woman “the melissa” which could be part of the imaginary of a great deal of the Greek male population. Furthermore, we contrast such passages to the imagery representation found in the Greek pottery from sixth and fifth century B.C. In the latter, women are depicted performing activities – either in the public sphere or the private one – which differ from the expected pattern. Thus, we intend to demonstrate the way female behavior is represented in our research source and how varied feminist social practices could be present in the same imagined would for the “melissa”. Key words: Greek – Ancient history, gender, Herodotus, Greek pottery.
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SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ______________________________________________________________ 01 CAPÍTULO I – O TRATAMENTO DA FONTE ESCRITA: HERÓDOTO E O USO DA
SEMÂNTICA EM HISTÓRIAS _________________________________________________ 11
1.1 Considerações iniciais __________________________________________________ 11
1.2 A tradição manuscrita _________________________________________________ 12
1.2.1 Informações a respeito do historiador Heródoto _______________________ 12
1.2.2 Características da narrativa de Heródoto _____________________________ 15
1.3 Análise do conteúdo das passagens de Heródoto ____________________________ 26
1.3.1 Análise das passagens___________________________________________ 29 CAPÍTULO II – MULHERES NA CERÂMICA ÁTICA: AS FONTES IMAGÉTICAS __ 45 2.1 Técnicas de pintura encontradas nos vasos ________________________________ 46
2.2 Principais pintores das cerâmicas áticas __________________________________ 49
2.3 Tipos de Vasos _______________________________________________________ 51
2.4 A imagem como discurso _______________________________________________ 53
2.5 Descrição dos vasos ___________________________________________________ 56
a) Fontes ___________________________________________________________ 57 b) Tecelagem ________________________________________________________ 60 c) Colheita__________________________________________________________ 62 d) Preparativos da noiva e a procissão matrimonial __________________________ 63
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e) Outras atividades no interior do oikos __________________________________ 66 f) O ritual funerário __________________________________________________ 68 g) O comércio _______________________________________________________ 69
CAPÍTULO III - A MELISSA COMO PADRÃO NO UNIVERSO MASCULINO GREGO 71 3.1 Os logoi etnográficos de Heródoto _______________________________________ 71 3.2 Contexto social das mulheres atenienses __________________________________ 75
a) As mulheres atenienses e seu estatuto civil____________________________ 77
b) Infância_________________________________________________________ 81
c) A educação de meninos e meninas___________________________________ 82
d) Um novo mundo: o casamento_____________________________________ 82
e) O dote, a herança e a aquisição de propriedade_________________________ 84
f) O adultério no mundo grego clássico_________________________________ 88
g) O divórcio em Atenas______________________________________________ 90 h) Segregação sexual _________________________________________________ 91 i) Oikos___________________________________________________________ 93 j) Mulheres na casa _________________________________________________ 96
k) Mulheres atenienses fora do oikos_____________________________________ 99 l) Religião_________________________________________________________ 101
m) Estrangeiras residentes____________________________________________ 103
n) Escravos_________________________________________________________ 104 o) Damas de companhia______________________________________________ 105
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CAPÍTULO IV – O DIÁLOGO ENTRE O DISCURSO HERODOTIANO E AS
REPRESENTAÇÕES FEMININAS NA CERÂMICA ÁTICA_______________________ 109
4.1 Considerações Iniciais_________________________________________________ 109
4.2 O contraste entre fonte escrita e imagética________________________________ 111
5. CONCLUSÃO _____________________________________________________________ 131 BIBLIOGRAFIA______________________________________________________________ 137 ABREVIAÇÕES______________________________________________________________ 151 LISTA DE ILUSTRAÇÕES____________________________________________________ 153 CATÁLOGO_________________________________________________________________ 157
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INTRODUÇÃO
Volto-me ao Egito, sobre o qual alongo meu discurso, porque, em relação aos demais países, possui as coisas mais maravilhosas e oferece obras que superam a possibilidade descritiva; por isso, esse país será objeto de considerações mais detidas. Os Egípcios, ao mesmo tempo que possuem um céu particular e um rio que apresenta natureza diferente de todos os demais, têm, em relação a quase todas as coisas, costumes e leis contrárias aos dos outros homens (Hdt II, 35 in Morais 1999: 140).
Durante muito tempo essa passagem ficou presente em minha memória nos meus anos de faculdade. Mas foi somente no fim do meu Mestrado em História que a obra de Heródoto passou a ser o meu tema de estudo. Estudando o diário de bordo do literato Gustave Flaubert, que viajou pelo Egito e Síria no século XIX, decidi que seria interessante trabalhar com outro viajante no Doutorado, mas desta vez da Antiguidade: Heródoto, que conheceu vários povos no V a.C.. Todavia, o que estudar no autor grego, já que sua obra,
Histórias, serviu de fonte para diferentes autores, em diferentes períodos históricos, com a
abordagem dos mais diversos temas, principalmente nos campos político e militar, ou sobre as incoerências dos acontecimentos por ele relatados?
As conversas com meus orientadores no ano de 2006, Prof. Dr. Pedro Paulo Funari e Profa. Margarida Maria de Carvalho1 auxiliaram-me a concretizar a idéia que será demonstrada nesta tese que foi desenvolvida na Linha Gênero, Identidades e Cultura
Material do Programa de Pós-Graduação em História na Unicamp, sob a supervisão do
Prof. Dr. Pedro Paulo Funari: o estudo da atuação das diversas mulheres relatadas por Heródoto, contrapondo-as com os vasos áticos do VI e V a.C., nos quais as mulheres são representadas, que nos auxiliarão a trabalhar com a hipótese de que Heródoto partilharia de um modelo ideal de mulher que uma parcela da população masculina helena buscava, a
melissa, lendo as mulheres de diferentes sociedades que ele relata a partir desse modelo.
1 A Profa. Margaria Maria de Carvalho, docente do curso de História da Unesp/Franca, gentilmente aceitou o
nosso convite, do Prof. Pedro Paulo Funari e meu, para ser a coorientadora dessa pesquisa de Doutorado desde 2007.
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Tentaremos, dessa forma, demonstrar que esse ideal está presente em sua narrativa e que esse modelo é um ideal, já que a documentação iconográfica nos aponta para outras práticas sociais distintas daquela que a melissa deveria seguir.
Para nos auxiliar na interpretação das fontes selecionadas para essa pesquisa, dialogaremos com a questão de gênero. Entretanto, devemos, nesse momento, dissertar a respeito da História das Mulheres, uma linha de pesquisa importante na ampliação do estudo dos sujeitos históricos a partir do século XIX. A década de 1960 é marcada pela reivindicação de diversos grupos sociais pela expansão dos direitos civis e de igualdade e por políticas públicas que abarcassem as necessidades desses grupos.
Temas como a mulher, a família, classes populares ganharam um impulso entre os estudos históricos, principalmente no mundo ocidental, devido a maior participação desses grupos na sociedade, atuando nas esferas política, social e econômica, como afirmam os autores Pedro Paulo Funari, Glaydson José da Silva e Lourdes Conde Feitosa na introdução do livro Amor, desejo e poder na Antigüidade (2003). As campanhas feministas proporcionaram a emergência da História das Mulheres nos estudos acadêmicos, permitindo a abrangência de outros sujeitos históricos, em outras palavras, de novas temáticas no estudo do passado. Os trabalhos acadêmicos buscavam temáticas que privilegiassem as mulheres, uma história que estabelecesse heroínas2, uma conexão com a política e a intelectualidade, de acordo com Joan Scott (1992: 64).
Na segunda metade da década de 1970 é que os pesquisadores das ciências humanas passaram a se interessar pelos estudos da vida das mulheres no passado – agora como mais um sujeito histórico, e não como o sujeito principal – mas mantendo certo distanciamento da luta política, característico dos anos anteriores. Segundo Mary Del Priore (1998: 220), a história da mulher ganhou mais visibilidade a partir do momento em que estabeleceu uma ligação com a antropologia e a história das mentalidades, assim como sua aproximação com a história social.
2 Um estudo distinto do dos anos anteriores, preocupado com os estudos focados nas ações dos homens na
esfera política, econômica ou militar. Todavia, essa abordagem da História das Mulheres foi acusada de se basearam na visão das mulheres a respeito da História, repetindo a abordagem anterior dos estudos históricos, que privilegiavam somente a visão masculina dos acontecimentos do passado, que foi muito criticada pelas estudiosas feministas, de acordo com Andréa Lisly Gonçalves (2006: 65).
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Para Sarah Pomeroy (1991: 263), a publicação do periódico Arethusa 6 em 1973 foi o marco inicial da série de estudos da mulher na Antiguidade em nosso tempo. Essa mesma autora edita o seu livro Goddesses, Whores, Wives, and Slaves: Women in Classical
Antiquity3, em 1975, analisando as diferentes categorias de mulheres na Antiguidade Clássica. Entretanto, havia duas falhas no estudo das mulheres antigas, de acordo com a autora supracitada (1991: 265-6): a primeira, o emprego da teoria da crítica literária por estudiosos que não distinguiam o estudo das ideias dos homens e imagens das mulheres do estudo das mulheres históricas e, segundo, que os historiadores que fazem a distinção entre o estudo das vidas das mulheres do estudo das ideias dos homens sobre mulheres eram treinados em literatura mais que em metodologia histórica. Eles se autodenominavam como ‘historiadores sociais’, supondo a história social ser menos rigorosa que a história política ou econômica.
É no contexto do final da década de 1970 e início da de 1980, quando “a ‘diferença’
passou a ser analisada” (SCOTT, 1992: 85), que algumas das obras que utilizamos na
nossa pesquisa de doutorado se inserem: La Femme dans la Grèce antique, escrito por Mossé e lançado em 1983, e L' ambiguo malanno. Condizione e immagine della donna nell'
antichità greca e romana, Roma4, obra também editada em 1983, redigida por Eva
Cantarella.
Em meados dos anos 1980, o rompimento com a política seria o mote dos estudos das mulheres, e o emprego do termo ‘gênero’, que foi inicialmente usado para a questão da diferença sexual. A questão de gênero foi inicialmente empregada para abordar as diferenças entre os sexos, e se estendeu para as diferenças dentro de cada grupo. A ideia nesse momento era quebrar com a “hegemonia heterossexual” (SCOTT, 1992: 87), para que houvesse a evidência das outras mulheres presentes na sociedade, como as negras, judias, trabalhadoras, pobres, entre outras.
Entretato, Scott (1992: 65) critica essa explicação do movimento do estudo das mulheres desde a sua maior inserção na política, na década de 1960 e meados de 1970, até
3 Consultamos a obra traduzida para o espanhol que consta na bibliografia. 4 Nesse caso, também consultamos a obra traduzida para o espanhol.
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se tornar uma metodologia para a análise histórica, década de 1980, essa interpretação tende a gerar uma visão linear de um processo complexo ligado às posições ocupadas pelas mulheres na história, os movimentos feministas e a disciplina da história, além de uma despolitização no estudo das mulheres. Para essa autora, as temáticas estudadas pela história das mulheres na atualidade, mesmo que utilize as prerrogativas de gênero, está inserida nas políticas que visam a uma melhoria das condições femininas em diversos países.
No Brasil, as novas abordagens no estudo da História influenciaram na escolha dos temas de pesquisa. Pensando no estudo das mulheres na Antiguidade, podemos citar o trabalho dos historiadores André Leonardo Chevitarese, Margarida Maria de Carvalho5, Maria Regina Candido e Maria Beatriz Borba Florenzano, que estudaram as mulheres atenienses na década de 1990. Em que pese o trabalho desses autores, eles foram influenciados pela História das Mulheres, que ampliou a possibilidade da inserção de novos sujeitos históricos, nesse caso, as mulheres gregas. Esses estudos pioneiros na História Antiga auxiliaram na expansão de outras temáticas envolvendo a História das Mulheres ou a questão de gênero. No início do século XXI, temos as obras de Fábio de Souza Lessa e Marta Mega de Andrade, que inserem a análise da iconografia da cerâmica grega para demonstrar o papel da melissa na sociedade ateniense. Pensando em trabalhos mais recentes, podemos citar os de Lourdes Conde Feitosa e Marina Regis Cavicchioli, acerca da sexualidade na cultura material pompeiana.
A teoria de gênero, importante nesta pesquisa, tem por finalidade estudar as relações entre homens e mulheres, pois como afirma Scott, “a informação sobre mulheres é
necessariamente a informação sobre homens, uma vez que um implica no estudo do outro”
(SCOTT 1986: 1056). Micelle Perrot (2007: 16) reafirma que a interpretação da história pelo viés do gênero “insiste nas relações entre os sexos e integra a masculinidade. Alargou
suas perspectivas espaciais, religiosas, culturais”.
Mas, em nosso trabalho, também atentaremos para o fato de como essas categorias,
5 Atualmente, a historiadora trabalha com outros contextos históricos, mas a assinalamos aqui para
demonstrar como a História das Mulheres influenciou os estudos brasileiros na Antiguidade na década de 1990 e nos anos posteriores.
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homem e mulher, foram construídas dentro de valores culturais específicos de cada contexto histórico, e como as relações sociais e de poder entre os sexos se desenvolveram em determinadas sociedades, focalizando a sociedade ateniense do século V a.C.. Para Feitosa:
(...) os comportamentos que os (sc. homens e mulheres) distinguem são influenciados pelas relações culturais articuladas entre eles. Por essa razão, os variados grupos sociais, baseados em seus valores, conceitos e visões de mundo, formulam diferentes vínculos ou interpretações para o que seja característico a cada um deles. (2003: 22)
Além da questão de gênero, outra linha de pesquisa com a qual o trabalho aqui proposto dialoga é a História Cultural. Suas categorias explicativas focam na análise da cultura da sociedade estudada, sendo influenciada pelos estudos realizados pela Antropologia entre as décadas de 1960 e 1990 (BURKE, 2005: 44). Para Roger Chartier (1990: 16-7), a história cultural teria por principal objetivo determinar de que maneira uma determinada realidade social é construída, levando em consideração os diferentes lugares e momentos históricos. No tocante ao estudo das representações, importantes na nossa pesquisa, o autor supracitado ressalta que devemos perceber as lutas de poder e dominação que permeiam a maneira como se constrói o discurso a respeito da identidade de um determinado grupo dentro de uma sociedade.
Sendo discurso oficial uma formação histórica, não podemos separá-la de sua época, pois, como afirma Jorge Lozano (1994: 11), cada época estabelece critérios dominantes na constituição do seu discurso histórico. Para Michel Foucault (2001: 09), no livro A ordem
do discurso¸ o discurso não é reflexo da realidade; ele não é reflexo de alguma coisa, mas,
sim, produto da sociedade, sua produção é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que têm por função conjurar os seus poderes e perigos, dominar o seu acontecimento aleatório, esquivar a sua pesada e temível materialidade.
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representações. E é exatamente essa a temática da História Cultural, pensar como a realidade social de uma determinada localidade é criada através de interesses do grupo dominante. A representação de espaço, de acordo com Gregory (1995: 30) está interligado ao poder, como a construção de uma mulher ideal grega habitando o gineceu, cuidando da economia da casa ou dos filhos, desempenhando o seu papel somente na esfera privada da sociedade ateniense, e que serve de modelo de comparação para Heródoto representar as mulheres estrangeiras.
Consideramos as fontes iconográficas, que podem representar as práticas cotidianas, outra forma de discurso, sendo uma alternativa para o estudo das mulheres, que muitas vezes acaba ficando restrito aos textos escritos antigos, sejam esses oficiais ou literários. Um diferencial percebido na iconografia antiga encontrada nas cerâmicas áticas é que não somente os homens e os mitos são os temas escolhidos para a decoração do vaso, mas as mulheres, escravos e crianças, em suas diferentes atuações dentro da polis, personagens que fazem parte desse universo imagético e muitas vezes não são contemplados pela documentação escrita.
Entretanto, Peter Burke (2005: 84) alerta o leitor a respeito do poder que tem a representação em modificar a realidade que parece refletir. Chartier (1990: 23) atribui à representação três modalidades: a busca pela classificação; as aplicações em se reconhecer uma identidade social e as maneiras institucionalizadas que acentuam a existência do grupo, classe ou comunidade. As práticas políticas, sociais e discursivas se preocupam não somente em classificar as sociedades que criam, mas também excluir alguns aspectos que seriam representados. Outro ponto destacado por Chartier (1990: 19) é a chamada representação coletiva, que se preocupa em conciliar as imagens mentais claras com os esquemas interiorizados, as categorias incorporadas, que as geram e estruturam, uma forma de constituir uma única representação que será compartilhada por uma sociedade, como o caso das imagens da cerâmica ática nas quais as mulheres são representadas.
A questão da alteridade também será considerada para esse trabalho de Doutorado. A obra Histórias, principalmente o relato sobre os citas, foi o objeto de estudo de François Hartog, no livro O Espelho de Heródoto. Para esse autor, os relatos de viagens são
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perpassados pela alteridade (1999: 229), apresentando como objetivo fundamental salientar a diferença entre o eu e o outro, colocando-o à distância, designando-o como um mythos, precisamente para distinguir-se dele e fazer-se assim mais crível (HARTOG 1999: 316). Para Andrade (2001: 12-13), o modelo da democracia ateniense se utiliza dessa relação com o outro; nesse caso, o feminino da mulher faz dela um 'outro' que habita dentro da polis, como a diferença instaurada no seio da cidade. A ação dessas mesmas mulheres ao participarem das festas cívicas e a geração de filhos legítimos são imprescindíveis para a duração da cidade-estado, para a renovação do ciclo ao fim do qual Atenas emerge em sua força, sua hegemonia.
Supondo, entretanto, que será admitida a imagem política do feminino apenas em seu caráter de um ideal, este seria um paradoxo: o cidadão, nascido de pai e mãe atenienses, deveria negar ao feminino não a sua cidadania, mas ainda a relação mais íntima, sem mediação do sexo masculino, com a polis. Em outras palavras, cidade e feminino seriam, por definição, figuras incompatíveis. Apesar disso, feminino e a cidade-estado, encontram-se interligados em diversos momentos da vida da cidade (ANDRADE, 2001: 29).
De acordo com Keith Jenkins (2005: 23), os discursos, e consideramos tanto os discursos escritos quanto os imagéticos, não criam o mundo, mas eles se “apropriam do
mundo e lhe dão todos os significados que têm”. Partindo dessa premissa, buscaremos, a
partir das metodologias antes enunciadas, interpretar as fontes utilizadas na pesquisa de Doutorado: a obra Histórias, de Heródoto, e nos vasos áticos produzidos no VI e V a.C., pois, nesses dois documentos, podemos observar como a categoria do feminino foi construída em cada caso, através da interação cultural, social e de poder que permeava a sociedade ateniense.
Dessa forma, para examinar a nossa hipótese de trabalho, de que Heródoto compartilharia com uma parcela da população masculina ateniense um modelo de comportamento que a mulher deveria seguir, decidimos dividir a tese em quatro capítulos. O primeiro capítulo constitui-se de um panorama de algumas informações a respeito da vida de Heródoto, e as dificuldades em determinar alguns acontecimentos da sua trajetória, por exemplo, onde ele teria vivido após sair de Halicarnasso ou em que momento escreveu
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a sua obra. Abordaremos, em seguida, a própria obra, as discussões ao redor da maneira como ela teria sido pensada pelo seu autor, como está constituída atualmente e os principais temas que são evidenciados em sua narrativa.
Na segunda parte desse capítulo, iremos tratar de algumas passagens mais significativas da obra de Heródoto em que as diferentes mulheres são relatadas, realizando a nossa tradução dessas passagens consultando o original em grego. A nossa seleção dessas passagens baseou-se, em grande parte, na possibilidade de confrontá-las com as pinturas presentes nos vasos atenienses em que as mulheres aparecem realizando diferentes atividades no interior e exterior do oikos. Após essa etapa de tradução, analisaremos algumas palavras que possam nos auxiliar na nossa hipótese de que Heródoto partilharia de um ideal de mulher e que a sua escolha por determinados vocábulos não seria uma ação aleatória.
Será no segundo capítulo que as fontes imagéticas serão analisadas. Selecionamos, para essa pesquisa, os vasos atribuídos ao VI e V a.C., constituindo um corpus imagético em que as mulheres são representadas realizando diferentes tarefas: cuidado com os filhos, tecelagem, busca por água nas fontes, comércio, cerimônias matrimoniais, reuniões femininas dentro da casa, oferendas funerárias e cenas de rituais liderados por mulheres. Iniciaremos o capítulo explicando as diferentes técnicas de pintura encontrada nos vasos áticos, inclusive nos que selecionamos, comentando sobre os pintores da época, principalmente sobre aquele em que há um vaso atribuído a ele em nosso catálogo, e qual a função pensada para cada cerâmica produzida na região ática. Um estágio posterior será a descrição dos grupos de vasos, agora divididos pela representação que carregam, e as principais características dessas imagens.
A partir das informações recolhidas de nossas fontes, optamos, nesse capítulo seguindo em salientar alguns estudos referentes às passagens que selecionamos e discutimos no primeiro capítulo, evidenciando os estudos acerca dos relatos etnográficos herodotianos em que as mulheres aparecem, trazendo dados importantes sobre a narrativa do autor. Dedicamo-nos, na segunda parte desse capítulo, a desenvolver os diversos papéis que ela poderia desempenhar na sociedade ateniense, sua situação social e jurídica, além
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das atividades que participava dentro e fora do oikos, como a maternidade, a tecelagem, a busca por água na fonte, a colheita de frutas ou o comércio. Dessa forma, acreditamos que podemos perceber qual seria o modelo de comportamento feminino, chamado de melissa, e como outros comportamentos conviviam cotidianamente com os homens na esfera pública da pólis ateniense.
Essas diferentes atuações da mulher ateniense serão retomadas no quarto capítulo, no qual contrastaremos o relato de Heródoto e os seus vocábulos com a cerâmica ática escolhida para a composição do nosso corpus imagético. Assim, tentaremos justificar a nossa hipótese de trabalho, apontando para uma construção cultural de um papel feminino tanto por Heródoto, que seria o da melissa, quanto nas representações encontradas na cerâmica, em que há um padrão na forma como elas são desenhadas, uma vez que ambos os discursos são relatos subjetivos, mediados pelas lutas de poder e dominação que permeiam a construção da identidade das mulheres dentro da sociedade ateniense. Nossa intenção não é fazer um contraste que visaria determinar qual dos discursos seria mais coerente com a realidade ateniense, mas sim em apontar como Heródoto percebe as outras mulheres partindo de um ideal feminino e como as imagens apontam as mulheres em diferentes contextos sociais.
Por fim, o intuito aqui é o de buscar uma nova interpretação para o olhar de Heródoto a respeito das mulheres atenienses, focando nas passagens em que as diferentes mulheres aparecem, contrastando, quando necessário, com a iconografia produzida na ática no VI e V a.C., mostrando como é possível analisar a Histórias pelo viés do gênero e como a cultura material traz à tona novos objetos para o estudo da História Antiga.
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CAPÍTULO I
O TRATAMENTO DA FONTE ESCRITA: HERÓDOTO E O USO DA SEMÂNTICA EM HISTÓRIAS
Considerações iniciais
O nosso intuito neste primeiro capítulo é fazer uma apresentação do autor da fonte documental da nossa pesquisa de Doutorado, Heródoto, buscando traçar um panorama de sua vida, repleto de incertezas devido à falta de informação nos textos antigos, e do contexto político ao qual a sua obra Histórias se refere, as Guerras Pérsicas6. Também discutiremos nesta primeira parte a maneira como a obra foi composta, os principais assuntos abordados nela e as mudanças que foram imputadas na fonte na Antiguidade. Essa divisão na apresentação do autor e da obra é necessária para que possamos recolher informações importantes que irão nos auxiliar na análise da hipótese – a qual consta na Introdução – de que Heródoto descreve as mulheres de uma forma pejorativa, impulsiva, portando atributos masculinos, porque ele pertenceria a uma parcela da população que acreditava que as mulheres gregas deveriam aceitar e sujeitar-se a regras de comportamento e condutas referentes àquelas da ‘bem-nascida’.
Na segunda parte do capítulo, tem-se como objetivo apresentar as passagens que selecionamos em Histórias nas quais Heródoto faz menção a mulheres nas diferentes sociedades descritas em sua obra. Buscaremos, a partir desse primeiro mapeamento, apontar as palavras que acreditamos ser importantes para traçarmos a maneira como ele às descreve e, dessa forma, perceber como, por meio desse vocabulário exagerado, o historiador grego poderia nos dar pistas de seu padrão de mulher ideal, da ‘bem-nascida’. Porém, essa relação de um contraste não manifesto entre o grego e o bárbaro, pois somente uma das partes é enunciada, segundo Hartog (1999: 229), corresponde a um discurso da alteridade, que atua como um espelho invertido, já que através da representação de lado da
6 Optamos pela designação de Guerras Pérsicas, mas há autores que usam a denominação de Guerras
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comparação, podemos construir de forma oposta o outro.
O primeiro passo será a realização da tradução das passagens, consultando-se a obra no original, recorrendo, para isso, às obras7 de Anatole Bailly (Dictionaire Grec Français), George Lidell e Robert Scott (A Greek-English Lexicon) e Daisi Malhadas et al (Dicionário
Grego-Português). Na discussão dos termos, usaremos, além desses autores, W. W. How, J.
Wells, David Asheri e Pierre Chantraine, obras que nos auxiliarão no entendimento do uso e função das palavras gregas no interior da composição de Heródoto, além do mapeamento dos usos dos termos selecionados por outros autores gregos, ampliando as informações que possuímos e o campo em que um determinado termo poderia ser empregado no período Clássico grego.
Em relação à discussão dos vocábulos, Funari (1987: 51) ressalta que devemos considerar, na análise dos termos, não somente a sua tradução, mas também as suas particularidades e sua área de atuação. O autor também afirma que os vocábulos, na Antiguidade poderiam apresentar mais de um conceito, pois havia uma frequente substituição de uma palavra mais específica, às vezes inexistente, por um termo mais geral (1987: 57). Assim sendo, partiremos dessas premissas na análise dos vocábulos utilizados por Heródoto, inseridas nas descrições que ele faz das mulheres nos diversos contextos sociais presentes na Historias, pois acreditamos que a utilização da semântica em nosso trabalho de pesquisa justifica a minha hipótese de trabalho, a existência de um modelo de mulher ideal por parte de uma parcela de cidadãos helenos no V a.C..
A tradição manuscrita
Informações a respeito do historiador Heródoto
Uma tarefa muito difícil a ser realizada é a reconstrução da biografia do historiador grego Heródoto, uma vez que temos poucas referências a serem consultadas. Em sua única obra que foi preservada, Heródoto não faz menção a assuntos particulares de sua vida.
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Segundo Asheri (ASHERI et al., 2007: 01), sabemos apenas o seu nome e sua cidade de origem através das primeiras palavras escritas no prólogo de sua obra:
Eis a exposição das investigações de Heródoto de Halicarnasso para que os feitos dos homens não se percam no tempo, e para que não fiquem sem renome as grandes e admiráveis empresas, tanto dos bárbaros quanto dos gregos; e, sobretudo, a razão por que guerrearam uns contra os outros. (MORAES, 1999: 12).
O primeiro dado que gera discordância entre os historiadores através da leitura que realizamos é o que se refere à data de nascimento de Heródoto, que segundo K. H. Waters (1996: 10), A. D. Godley (1990: vii), John Hart (1982: 158) e John L. Myres (1999: 03), teria sido em 484 a.C.. Por outro lado, há estudiosos que aceitam outras datas: Cynthia Morais (2004: 15) e François Hartog (1999: 32) optaram pela data de 480 a.C., e Claude Orrieux e Pauline Pantel a de 485 a.C. (2004: 221). Para Waters (1996: 10), a data de 484 a.C. teria sido escolhida porque o período auge aproximado da vida do historiador grego, convencionalmente a idade de 40 anos, esteja ligada a data de fundação de Turio8 (um
evento datado de 444/3 a.C.) e, dessa forma, se calculou a data de seu nascimento. Já Asheri (2007: 05) nos informa de outro cálculo para a datação do nascimento de Heródoto: segundo autores antigos, Heródoto teria 53 anos quando a Guerra do Peloponeso estourou no ano de 431 a.C., ou seja, somando-se as duas datas, teremos o ano de 484 a.C.. Essa discussão a respeito do ano de nascimento de Heródoto tem como objetivo apontar para a dificuldade em estabelecer essa informação. Acreditamos que ele tenha nascido entre os anos 485-480 a.C., mas optamos por não afirmar uma data em especial.
Uma das fontes utilizadas pelos historiadores a respeito da bibliografia de Heródoto é o léxico chamado Suda, ou Suida, que foi compilado no século X d.C. por eruditos bizantinos. De acordo com Asheri (2007: 02), esse léxico se baseia em fontes externas ao texto Histórias, pois não menciona, por exemplo, as viagens feitas por Heródoto ao Oriente. Para o autor, deveria haver duas variantes do manuscrito antigo desse léxico, e o
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compilador tentou agregá-las em um único discurso. Segundo o Suda, Heródoto nasceu em Halicarnasso, capital da Cária, na Ásia Menor. Seu pai teria sido Lixes, sua mãe, Drio e teria tido um irmão, Teodoro (WATERS, 1996: 10). Outro parente que conhecemos seria o seu tio ou primo Paniasis, poeta em Halicarnasso, que teria sido morto pelo tirano Ligdamis.
Sua família teria origem, em parte, no grego, apesar de o nome do pai e do tio ser de origem caria, já o nome do irmão era de origem grega. A cidade onde viviam seus familiares, Halicarnasso, foi originalmente uma cidade caria e dórica. Uma colônia de Trécen, ela pertencia ao grupo das cidades e ilhas dóricas do sudoeste da Ásia Menor e formava, junto com as cidades de Cnidos, Cos, Lindos, Ialisos e Camiros, um aglomerado de seis polis dóricas unidas pelo festival religioso comum em honra a Apolo. A cidade tinha uma vida comercial própria, pois tinha um porto onde os gregos comercializavam seus produtos (HART, 1982: 159).
Devemos, nesse momento, atentar par ao fato de Heródoto ter escrito Historias em jônico, e não na língua cária ou dórica. Ele estaria familiarizado com esse dialeto, que era usado em documentos oficiais da época, e reconhecido como uma língua literária desde Homero (WATERS, 1996: 26; ASHERI, 2007: 03). Halicarnasso era uma cidade cosmopolita e por isso pode ter sofrido uma influência linguística e cultural de comunidades jônicas do norte. Entretanto, como salienta Godley (1990: XVI), Heródoto também fez uso de muitas palavras e formas que são associadas com a literatura da Ática. Para o autor, talvez a estada de Heródoto em Atenas tenha influenciado a redação de seu texto. Por outro lado, o uso das palavras escritas em jônico e ático antigo se torna, em alguns momentos, tão parecido que fica difícil perceber claramente a linha divisória entre elas.
Heródoto viveu entre os principais conflitos gregos do V a.C.: primeiro, as Guerras Pérsicas (499-479 a.C.), contra os persas, e a Guerra do Peloponeso (431-404 a.C.), contra Esparta. Não há muitas informações sobre os primeiros anos de sua vida. Como afirma a tradição, ele foi exilado de sua terra natal por ter se unido em oposição a Ligdamis, buscando refúgio em Samos, uma cidade que era membro autônomo da Liga de Delos
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desde 478 a.C.. Ele regressou a Halicarnasso depois do golpe que teria expulsado Ligdamis do poder, que parece ter ocorrido no ano de 454 a.C., quando Halicarnasso aparece na lista de tributos atenienses sem o nome do governante (WATERS, 1996: 10; ASHERI 2007: 03). Depois desse período, Heródoto teria viajado por diversas regiões próximas ao Mar Mediterrâneo e ao Mar Vermelho; estaria em Atenas em 445/4, partiu para Túrio, onde se tornou cidadão, e teria falecido aproximadamente na década de 420 a.C.9, nessa mesma cidade, ou no sul da Itália, ou em Atenas, ou em Péla, na Macedônia.
Característica da narrativa de Heródoto
Asheri (ASHERI et al., 2007: 01) afirma que a forma de abordagem utilizada por Heródoto, em que há a ausência de dados biográficos do autor, remete-se a influência da épica arcaica na sua obra, pois somente seriam abordados aspectos referentes ao autor se algum tópico de sua narrativa requeresse isso. De acordo com Momigliano (2004: 55), não somente a épica o influenciou, mas autores anteriores, como Homero, cujo conto serviu na constituição da narrativa histórica, Hecateu, único autor em prosa contemporâneo que Heródoto faz referência e Ésquilo, poeta consultado pelo historiador grego (2004: 64-65).
Entretanto, apesar de sabermos pouco a respeito de sua personalidade e com quem ele dialoga em sua obra, Heródoto se faz presente em seu relato quando se utiliza de sentenças como “eu vi”, opsis, “eu ouvi”, akoê, ou quando ele deixa explícitas as suas dúvidas, as suas intenções ao relatar algum mito ou acontecimento, opiniões e pensamentos, recorrentes em todo o texto. Dessa forma, quando lemos em sua obra “eu ouvi” podemos nos remeter às fontes orais consultadas por Heródoto, e quando ele utiliza a expressão “eu vi”, infere-se, no âmbito de nosso objeto de estudo, que ele tenha tido contato com as mulheres pertencentes às diversas regiões que ele cita.
Apesar da escassez de obras consultadas por Heródoto, ele baseia a sua narrativa nas evidências orais (MOMIGLIANO, 2004: 65). Um dos motivos seria o pouco acesso ao
9 Orrieux e Pantel afirmam em seu livro que “Não se conhece a data exata da sua morte” (2004: 221). Nesse
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número reduzido de fontes escritas no mundo grego, inclusive as referentes aos acontecimentos próximos ao nascimento do historiador; já as de anos mais remotos, são praticamente inexistentes, como salienta Waters (1996: 75). Sabemos que ele não teria memórias pessoais dos acontecimentos de 480/79 a.C., uma vez que era uma criança, mas relatou os depoimentos das testemunhas que ainda estavam vivas (ASHERI et al., 2007: 05), ele também não seria um conhecedor do egípcio ou de outro idioma que tenha visto ou ouvido em suas viagens, sendo necessária a consulta a tradutores locais para que pudesse entender os acontecimentos a sua volta.
A sua obra também nos ajuda a mapear por onde pode ter viajado na investigação de alguma região ou na busca por informação acerca das razões para bárbaros e gregos guerrearem. Mas a viagem, no início, não teria o objetivo específico de uma pesquisa histórica, de acordo com Asheri (ASHERI et al., 2007: 07), e não sabemos quando concebeu a idéia de compor sua Histórias ou de fato a idéia de alguma composição literária, como afirma Hart (1982: 162). Waters (1996:30), nesse aspecto, expõe duas teorias para a redação da obra: a primeira, mais evidente, porém muito simplista, de que ele teria começado a redação pelo primeiro livro e teria escrito sem interrupção até o nono.
Outra, mais atrativa e geralmente combatida, seria a de que Heródoto escreveu primeiro os livros VII ao IX, que compreendem o relato bastante coerente e direto da operação de guerra empreendida por Xérxes e, depois, já um historiador mais experiente, teria escrito os outros seis livros para que o leitor pudesse ter uma compreensão histórica apropriada da narração. Todavia, Momigliano (2004: 60) versa que a teoria de que Heródoto começou como um geógrafo para depois desenvolver a história das Guerras Pérsicas parece bastante plausível, pois ressalta o fato de que as raízes da guerra deveriam ser descobertas por ele, e o relato geográfico ajudaria nessa tarefa. O mais curioso é que dentro desse quadro, percebemos que Heródoto, a nosso ver, faz uma narrativa exagerada sobre as mulheres das diversas regiões por ele visitada.
Sua família deve ter sido abastada, pois teve a oportunidade de viajar pelo Egito, Líbia, Fenícia e Babilônia, Grécia e a região localizada no sul da Itália, chamada de Magna Grécia. O historiador grego dá indícios em sua obra que esteve no Egito, Tiro, Arábia,
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Esparta, Delfos, Beócia, mas não faz menção a Túrio. As tentativas para datar as viagens de Heródoto acabam se tornando hipotéticas ou fantasiosas. Para alguns historiadores, ele teria estado no Egito após o ano de 460 a.C. (GODLEY, viii) e teria viajado pelo Oriente antes de se estabelecer em Atenas (ASHERI et al., 2007: 07).
Os acontecimentos narrados em sua obra também podem nos ajudar a estabelecer as datas de início e fim do processo de escrita pelo qual o historiador passou, e que terminaria nos eventos descritos referentes aos primeiros dois anos da Guerra do Peloponeso (431/30 a.C.), o que nos leva a crer que ele tenha deixado de escrever logo após esses acontecimentos. Segundo a tradição, Heródoto certamente esteve em Atenas para a leitura pública de sua obra, que era a forma de publicação das obras naquela época, em 445/4 a.C., recebendo por isso a soma exorbitante de 10 talentos (MOMIGLIANO, 2004: 66; MORAIS, 2004: 15; ASHERI et al., 2007: 04).
Myres (1999: 12) salienta que talvez a obra não estivesse completa quando ocorreu a leitura para a Bulé ateniense. Como já mencionamos, Heródoto deve ter escrito o corpo principal da sua obra por volta dos anos 440-430 a.C.10 – de acordo com Momigliano (2004: 67) isso pode ter acontecido em Atenas – um período considerável para a inserção de outros logoi que Heródoto acreditava serem importantes para alcançar o intuito de sua composição. Nesse ponto, devemos ressaltar que a audiência da obra deveria ser o público heleno, e esse fato poderia influenciar na maneira como a obra foi pensada e composta, e a maneira como ele descreveria certas sociedades, costumes, leis e também as mulheres, sendo as últimas o foco de nossa pesquisa.
A obra Histórias teria sido redigida em dialeto jônico, como já descrito, em um estilo simples e direto (WATERS, 1996: 28). A região onde Halicarnasso estava localizada permitiu um encontro da cultura grega e a oriental e esse contato permitiu que o pensamento racional e inquisitivo aflorasse, tornando possível que os filósofos procurassem uma compreensão diversa da do mito para as manifestações da natureza (MORAIS, 2004: 20). A primeira aplicação do pensamento racional teria sido feita por Tales de Mileto, no ano de 585 a.C., na predição de um eclipse.
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Waters (1996: 23) afirma que essa predição foi possível porque Tales tinha conhecimento das observações astronômicas realizadas pelos babilônios, que foram a base de seu estudo. Essa região jônica também produziu resultados em outros campos além da filosofia. Através do conhecimento de geometria dos egípcios, Anaximandro produziu, em 499 a.C., o primeiro mapa do mundo. Podemos perceber, dessa forma, como a influência oriental serviu de base para o desenvolvimento das ciências no mundo grego. Essa influência da racionalidade está presente em Heródoto, uma vez que, como ressalta Momigliano (2004: 60), o historiador grego optou por registrar costumes e acontecimentos que ainda não haviam sido escritos, mas fazendo exame crítico desse registro no momento que ele acreditava ser oportuno. Essa racionalidade está presente, por exemplo, na passagem de sua viagem ao Egito, quando decide medir, com a ajuda dos guias, a pirâmide de Quefren (Hdt. II,127).
De acordo com as palavras de Asheri (ASHERI et al., 2007:11), foi na tradição manuscrita medieval que a obra fora dividida em nove livros, recebendo, cada um, um nome de uma musa, seguindo a ordem canônica fundada em Hesíodo: Clio, Euterpe, Tália, Melpômene, Terpsícore, Érato, Polímnia, Urânia e Calíope. A divisão é atestada para o primeiro século a.C. e teria sido atribuída aos bibliotecários alexandrinos do III e II a.C. Para Hartog (1999: 33), o nome das Musas não é atestado como título dos livros de Heródoto antes do segundo século d.C., e aquele segue afirmando que essa inclusão das Musas demonstra como o texto do historiador grego era recebido: “está ao lado... da
poesia, do prazer e da ficção”.
Em seus logoi, Heródoto, ao narrar tudo o que via e ouvia, não deixou explícito em quais passagens ele acreditava serem verídicas e por causa desse posicionamento ele recebeu muitas críticas em relação ao seu trabalho – seguindo-se o raciocínio de Momigliano (2004: 67) – e tal falta de posicionamento ocorreu desde a Antiguidade, apesar de o autor ser considerado por Cícero o “pai da Historia”:
Naturalmente pois enquanto uma (a história) se reporta à verdade, a outra (a poesia), na maior parte das vezes, tende ao efeito artístico, ainda mais que encontramos um sem número de fábulas em Heródoto, o Pai da História, e em Teopompo (De Legibus I, 1.5).
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Para Cícero, há duas categorias distintas de escrita, aquela que visaria à verdade e outra, que recorreria às fábulas, encontradas em Heródoto. De forma controversa, Heródoto é considerado por esse autor latino o pai da história, que reporta à verdade. Na nossa visão, o ponto fundamental é a subjetividade de Heródoto, que se propõe a narrar os eventos humanos juntamente com as fábulas que ele acredita serem importantes na composição da sua obra Devemos salientar que essa abordagem da subjetividade não era empregada pelos autores na Antiguidade, e o uso das fábulas anexou um caráter fantasioso a Heródoto, e seus “leitores não podiam acreditar que ele estava falando a verdade” (MOMIGLIANO, 2004: 67).
Outro crítico seria Tucídides, que escreveu a obra Histórias da Guerra do
Peloponeso. Para esse autor, Heródoto seria um logográphos (contador de histórias) devido
à quantidade de relatos duvidosos e fantasiosos em sua obra e a busca pelo aplauso momentâneo (MORAES, 1999: 08). Mas em nenhum momento de sua obra Heródoto afirma que sua intenção era escrever um relato historiográfico; sua abordagem se assemelha a do aedo, que imortaliza os feitos dos heróis; Heródoto imortalizaria os feitos dos homens, como descrito no prólogo. Waters (1996: 18), ao tentar entender o estilo seguido por Heródoto, acaba descrevendo-o da seguinte forma: “a Historia de Heródoto se situa em
alguma parte entre a ficção narrativa (ou lenda) dos poemas homéricos e as produções totalmente não poéticas de certos sucessores seus”. Ou seja, a sua escolha por digressões
ao longo do texto, que narram, em alguns casos, historias fantasiosas11, concede ao texto esse caráter de ficção, mas que é contrabalançado pelas descrições coerentes realizadas em outros logoi ao longo da obra.
Heródoto, preocupado com o caráter efêmero das ações humanas, decidiu registrar os acontecimentos de forma cronológica em sua obra. E como todo registro é uma seleção (MOMIGLIANO, 2004: 54), ele decidiu abordar os assuntos decorrentes das realizações
11Heródoto, II ,46. 4 “E em meus dias teve lugar em esse nomo a seguinte aberração: um bode se acasalando
a luz pública com uma mulher; este fato chegou a ser objeto de exibição geral” (2005: 334) e IV, 105: “...cada nêurida transforma-se, uma vez por ano e durante alguns dias, em lobo, voltando depois a forma humana”. Apesar do caráter fantasioso das narrativas, isso não suprime o tom exagerado ao se referir as mulheres.
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dos homens, e não dos deuses, o que aponta para um traço de racionalidade na sua maneira de apresentar ao público e ao leitor as suas informações coletadas em suas viagens. Waters (1996: 17) ressalta que o propósito de Heródoto em escrever esses contos e anedotas, que poderiam ser fantasiosos em alguns casos, teria o intuito de entreter o seu público, e não podemos esquecer que o seu primeiro público ouviu a sua narrativa, não a leu.
Faz-se necessário nesse momento salientar que a existência desses contos fantásticos descritos na obra não a classifica como literatura, podendo ser utilizada como uma fonte histórica que possibilita ao historiador abarcar várias problemáticas em Heródoto. Concordando em parte com as palavras de Luiz Costa e Lima, tem-se que o
“ contrário do que sucede no discurso ficcional... a historiografia tem um trajeto peculiar: desde Heródoto e, sobretudo Tucídides, a escrita da história tem por aporia a verdade do que houve. Se se lhe retira essa prerrogativa, ela perde a sua função” (2006: 21).
Acreditamos que Heródoto, ao retratar o passado, o faz de uma maneira crítica, pois tenta mostrar que os feitos narrados são decorrentes das ações humanas, sem a intervenção divina. Outra prerrogativa de sua obra é o fato de que ele, muitas vezes, divulga duas versões da mesma história, alertando para aquilo que foi visto ou ouvido; em alguns casos ele deixa clara a sua opinião, já em outros, caberá ao leitor decidir a versão mais verossímil. O importante aqui é tornar visível a nossa opinião de que a obra Histórias é a exposição da investigação (ιστορία12) feita por Heródoto de Halicarnasso a respeito das obras realizadas por gregos e bárbaros, deve ser analisada dentro do seu contexto histórico, o que nos auxilia no entendimento das influências recebidas e a maneira como ela foi escrita. E essa análise sugere que Heródoto tenta elaborar sua obra de uma maneira diversa dos outros poetas antigos, como já mencionamos anteriormente, o que concede à Histórias um caráter distinto da ficção, de uma obra de literatura, para uma narrativa com um viés histórico justificando, dessa forma, a escolha dessa obra como fonte documental na nossa pesquisa de Doutorado.
12 A palavra ιστορία somente passou a significar o estudo dos acontecimentos do passado após o IV a.C.
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Depois de apresentarmos algumas características que permeiam a obra, a partir desse ponto apresentaremos da maneira como ela está composta, e explicitaremos alguns dados do contexto histórico descrito por Heródoto. A obra inicia-se com o proêmio. Em sua obra Herodotus, Asheri et. al. (2007:01) inicia a sua introdução ressaltando que o epílogo poderia ter sido escrito por outro autor, entretanto, essas palavras iniciais declaram o intuito de Heródoto: o de narrar as suas investigações das empresas realizadas por bárbaros e gregos, para que elas não caiam no esquecimento e é essa temática que vai permear toda a
Histórias.
Em sua obra, Heródoto aborda diferentes assuntos – não somente políticos, mas também no que tange às construções e costumes de outros povos – que, em determinados momentos, acabam fazendo o leitor se perguntar qual o objetivo do texto. Em alguns momentos, temos a impressão de que Heródoto escreveu logoi separados e que posteriormente foram agrupados, muitas vezes apresentando cortes abruptos entre um livro e outro. E como já informamos, ainda se debate a ordem na qual os logoi foram escritos. Nesta tese, vamos seguir a ordem na qual a narrativa herodotiana se encontra atualmente, descrevendo brevemente cada livro, tentando inserir dados históricos para a compreensão de cada logos.
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Mapa do território grego entre 500-323 a.C.
Os primeiros quatro livros descrevem os povos não-gregos, chamados de bárbaros pelo historiador grego: lídios, egípcios, babilônios, persas, citas, entre outros, relatando a geografia, história, antropologia, costumes sexuais, matrimônio, crenças religiosas, cultos fúnebres e a cultura das regiões envolvidas nessa guerra. No primeiro livro, descreve o início do VI a.C. marcado por eventos políticos de grande relevância. Nele, encontramos a descrição das conquistas do persa Ciro (559-530 a.C.), criador do império Aquemênida e que, em duas décadas (555-530) liderando os seus exércitos, conquistou os seguintes reinados: o Medo em 555, liderado por Astiages; a história do reino de Sardes e de seu último rei, Creso, que foi vencido por Ciro em 546/40, constitui uma parte importante desse primeiro Livro. Em 539, o rei persa vence Nabonido e torna-se rei da Babilônia (DRIOTON, 1981 509; ORRIEUX 2004; 180), que se tornou um dos logos que compõe esse primeiro livro, e no qual encontramos uma interessante passagem (I, 199) que analisaremos na segunda parte deste capítulo.
Com a morte de Ciro, quem passa a liderar os persas é Cambises (530-522), que se apodera de várias terras férteis de muitos países do Próximo Oriente, principalmente do Egito. Esse é a temática do Segundo Livro, o logos egípcio, o mais extenso de sua obra. Heródoto narra não somente a história do Egito, mas também a geografia, costumes, leis, e as supostas atrocidades cometidas por Cambises. De acordo com Momigliano (2004: 58), é nesse livro que observamos a influência de Hecateu na obra de Heródoto. Pela quantidade de informação que nos transmite, o historiador grego deve ter passado muito tempo nessa região, o que nos sugere que teve contato com as mulheres egípcias, descritas nesse Livro. Outro dado importante a ser ressaltado aqui é que esse discurso a respeito dos egípcios termina somente no capítulo 38 do Livro III, o que reafirma a idéia de que esses logoi foram escritos separados e reunidos posteriormente em livros que não respeitavam a divisão pensada inicialmente. Segundo E. Cruz-Uribe (2003: 57), a invasão do Egito seria uma importante conquista para a expansão do império persa e o controle das significativas rotas comerciais no leste do Mediterrâneo.
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Os Livros III ao VII retomam as conquistas do Império Persa, reorganizado por Dario I (522-486 a.C.), focando nas campanhas militares: a reconquista de Samos, a repressão da revolta babilônica; no Livro IV, a descrição do território Cita e sua ocupação, a campanha contra a Líbia, além da descrição das Amazonas. No livro V, além da continuação da história de Dario, temos a descrição de Atenas, com um contexto também marcado por mudanças políticas importantes. Com o fim da tirania, ocorre a volta da aristocracia ao poder. As principais famílias que se enfrentaram foram a Alcmeônida, liderada por Clístenes, e a Eupátridas, de Iságoras. No ano de 508-7, Clístenes, um membro da família dos Alcmeônida, adotou pela assembléia uma série de medidas de cunho democrático, chamada reforma de Clístenes, que vão dar às instituições gregas um quadro geral que permanecerá o mesmo durante a época clássica, séculos V e IV a.C. (MOSSÉ 1982: 25; ORRIEUX, 2004: 157). A reforma de Clístenes coloca dois tipos de problemas: os modelos que Clístenes poderia seguir e o exato alcance dessas medidas na elaboração de um regime democrático, ou seja, ele não criou a democracia ateniense. Desse ponto de vista, a reforma de Clístenes entra na tradição dos legisladores que ensaiaram de diferentes maneiras dar uma resposta às crises sociais e políticas das cidades arcaicas (ORRIEUX; PANTEL, 2004: 161).
No Livro VI, as conquistas persas de Dario chegam próximas do território ateniense, e a batalha de Maratona é descrita por Heródoto. Nessa época, a cidade de Mileto era dominada pelo tirano Aristágoras que vem a renunciar a tirania depois do fracasso ao cerco a Naxos. Ele fugiu para a Grécia em busca de apoio, mas antes teria instigado (Hdt. VI, 3) um levante contra a autoridade persa representada pelos sátrapa no início do V a.C.. As cidades da Grécia continental, cujo apoio é solicitado, recuam o comprometimento, como Esparta, ou enviam poucos reforços, como os vinte barcos atenienses e cinco provenientes de Erétria (ORRIEUX; PANTEL, 2004: 183).
No início, os gregos lograram algum sucesso em 498, pois as cidades da Ásia Menor, reagrupadas em uma espécie de liga, avançaram até Sardes, incendiaram a vila e retornaram a Mileto. Mas logo Dario tomava a ofensiva, apoderando-se de Chipre e, após um longo cerco, da cidade de Mileto. Dessa forma, em 494 a.C., a revolta da Jônia finalizava-se de uma forma desastrosa, com cidades incendiadas e habitantes vendidos
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como escravos (MOSSÉ, 1982: 25). O rei Dario impôs tratados às cidades: sua autonomia interna subsistiria, mas elas deveriam pagar tributo. Esse regime é, portanto, mais favorável que o precedente. Em Atenas a novidades da tomada de Mileto é um choque. Sem dúvida, toma-se então consciência do poderio persa e do perigo que ele representava (BRIANT, 2002: 146).
Para Heródoto, a descrição dessa revolta, realizada nos Livros V e VI, é intimamente ligada a um maior objetivo historiográfico: explicar as origens das guerras entre os persas e os gregos. A queima de Sardis (Hdt. V, 102) ofereceu aos persas um pretexto para lançar uma guerra de represálias contra Erétria e Atenas. (MOSSÉ, 1982: 25; BRIANT, 2002: 149). O problema é que Heródoto claramente não responde às questões para as quais os historiadores buscam respostas. Muitas incertezas permanecem, incluindo aquelas de natureza cronológica dos acontecimentos narrados nesses Livros.
Os persas continuaram a instalar-se na zona dos estreitos entre os mares Egeu e Negro, no Helesponto, e na Trácia, estabelecendo os regimes políticos e tributários que lhes eram favoráveis. De Eubéia, as tropas persas atravessaram o braço do mar que os separava do continente e chegaram ao norte da Ática, na planície de Maratona. Hípias, o último tirano grego, filho de Pisístrato, que se refugia na corte persa, tenta suscitar um grupo favorável aos persas na ecclesia, para que os gregos não combatam. Entretanto, a opinião de Milcíades, que acabou sendo a escolhida, era a de que os helenos resistissem e combatessem. (BRIANT, 2002: 184; BRUN, 2003: 14). Temístocles propõe a construção de uma frota de guerra. A assembléia aceita e constituiu uma frota de 200 trirremes. É um evento capital, não somente para a condução da guerra, mas também pela integração dos exércitos de cidadãos mais pobres para ser hoplitas, que serão os remadores. O exército de Maratona é estimulado em 10000 hoplitas.
Então, em 490 a.C., estourou a batalha de Maratona. Uma passagem de Heródoto permite seguir com precisão os acontecimentos (VI, 102-119). O exército persa desembarca na planície de Maratona, e os atenienses acamparam nessa mesma região, esperando o exército espartano. Porém, os helenos foram obrigados a combater somente com a ajuda do exército local. Milcíades é o estrategista responsável pela tática vitoriosa, os hoplitas se saem melhores, havendo poucas mortes gregas, mas ocorrem pesadas perdas para os persas,