A Vida
Passada a
Limpo
Ayleen P. Kalliope
Este livro é dedicado ao meu querido filho, Pedro Paulo, que ao nascer me trouxe a possibilidade de parar de lecionar Inglês e Português, em escolas públicas e privadas, por algum tempo, para ficar em casa cuidando dele e curtindo a maravilha de ser mãe. Com isso tive a oportunidade de colocar no papel a enorme quantidade de ideias que borbulhava dentro de mim.
Um agradecimento especial ao meu marido, um excelente fotógrafo, responsável pelas fotos da capa e contra capa.
Capítulo 1
Para o resto do mundo, era um lindo dia de sol, um domingo, dia para curtir e aproveitar a vida; mas, para Melissa Anderson Donelly, era apenas mais um dia, igual a todos os outros dos últimos dezoito meses.
Ela e Maggie, sua cachorra preta, da raça Labrador Retriever, estavam dando seu passeio diário pela Praia dos Anjos, na pequena cidade de Arraial do Cabo, litoral do Rio de Janeiro, quando o magnífico olfato do cão, a faz disparar assustada em direção a um cheiro que ela, assim como sua dona,
aprendera a temer... o cheiro de fumaça.
Mesmo sem saber ainda o quê estava acontecendo, Melissa corre atrás do cão e a encontra parada em frente a uma casa simples, pequena e,... em chamas. Desesperada com as lembranças que invadem sua mente, ela fica paralisada diante da cena. Maggie, geralmente muito quieta, começa a latir. E seus latidos altos e fortes chamam a atenção de um rapaz que estava correndo perto dali.
Douglas se aproxima e, ao vê-la ali parada, com o corpo inteiro tremendo, sem reagir nem mesmo com o enorme barulho que a cachorra estava fazendo, conclui que Melissa morava na casa. _Tem mais alguém lá dentro? Você já
chamou os bombeiros? – mas ela nem sequer nota a chegada do rapaz. Percebendo que ela está em choque, ele mesmo faz a ligação de seu telefone celular. Nesse momento eles começam a ouvir gritos desesperados de socorro vindos do interior da casa. Sem pensar duas vezes, Douglas pega um banco que está ao lado da casa e bate na porta até derrubá-la. Ele entra e, apesar do fogo e da fumaça, logo vê uma mulher caída no chão da cozinha, parecendo machucada.
A mulher é pequena e leve, o que faz com que ele consiga carregá-la para fora sem maiores dificuldades, a não ser é claro, evitar que fossem queimados. Já do lado de fora da casa, Douglas a deita delicadamente na
calçada. Mariah então começa a chorar e tenta recuperar o fôlego e a voz para pedir ao seu salvador que vá buscar suas filhinhas. Mas o fogo estava alastrando com uma velocidade incrível e já era impossível passar pelo vão da porta derrubada. Douglas não sabe o que fazer. E, Melissa que, ao ouvir que havia crianças dentro da casa, em perigo, saí de seu estupor e ameaça entrar, o deixa atônito. Ele a segura pelo braço tentando impedir que ela se mate no fogo. _Você está louca? Não é mais possível entrar. Não é seguro. É muito perigoso. Você quer se matar? Eu já liguei para o Corpo de Bombeiros. Vamos esperar.
Pedido rejeitado. A lembrança de uma noite no passado, de uma situação
muito parecida, quando ela também deveria ficar do lado de fora e esperar. Naquele dia ela obedeceu e esperou. E tudo o que viu foi fogo, destruição, o insuportável cheiro de fumaça e o medo... E, por fim, a tragédia, a dor, o nada. Não! Dessa vez não ficaria parada esperando, ia fazer alguma coisa, agir; mudaria esse destino, ou morreria tentando. Sem olhar para Douglas ou Mariah, Melissa puxa seu braço, se solta e sai correndo, dando a volta pelo lado da casinha até encontrar uma janela. Maggie, sempre fiel, a segue de perto. Mas quando ela consegue abrir a janela e, por ela, entrar na casa, manda a cachorra ficar. Não havia motivo para colocar mais uma vida em risco. Assim que entra, ela vê os dois bebês deitados,
juntinhos na cama que havia no canto do quarto.
A visão causa uma imensa dor. Tabatha – o seu bebezinho, a sua princesinha. Fogo. Essa força destruidora que ainda não tinha invadido aquele cômodo, mas chegaria a qualquer instante. O mesmo fogo, a mesma fumaça, os mesmos sons, a mesma destruição. E sua pequena Tabatha já não existia mais. E é essa triste lembrança que traz a motivação necessária para que Melissa supere seu pavor e crie coragem para pegar as duas lindas menininhas no colo. Ela consegue pegar um cobertor para cobri-las, pois teriam que sair pela porta e enfrentar o fogo que, a essa altura, já tinha tomado conta do resto
da casa, já que era absolutamente impraticável pular pela janela com as crianças nos braços. De repente ela tem a sensação de que aquilo tudo não parecia real, não poderia estar acontecendo com ela outra vez. Mas ela escuta os latidos de Maggie pela janela aberta e diz: “_Eu estou indo, garota.” E, só pensando que precisava salvar os bebês e voltar para cuidar de sua Maggie, ela atravessa a casa em chamas e, milagrosamente, as três chegam do lado de fora quase intactas. O que para ela parecera uma eternidade, tinha sido apenas alguns minutos e, ao se aproximar da moça deitada na calçada para lhe entregar as crianças, já era possível ouvir o som do carro de bombeiros se
aproximando. Mas Melissa só conseguia prestar atenção na voz daquela mãe que dizia: “_Você salvou minhas filhinhas. Nós devemos a vida a você, a vocês dois.” Então os bombeiros chegam e imediatamente levam Mariah e as gêmeas Pamella e Samantha para a ambulância. Um deles vai verificar como estão o casal e o cachorro, que não parava de lamber sua dona. Vendo que todos estavam abalados, mas aparentemente bem, os orienta que eles devem ir ao hospital para fazer alguns exames. Douglas lhe garante que os dois irão logo atrás deles, em seu carro.
Melissa diz que precisa deixar a cachorra em casa primeiro. Isto feito, os dois seguem para o hospital.
Chegando lá, são atendidos e logo liberados, já que a quantidade de fumaça inalada não havia lhes feito mal e, as queimaduras eram poucas e apenas superficiais. Eles então decidem ver como estão a mãe e as meninas.
E Melissa é, mais uma vez, posta à prova.
Capítulo 2
As meninas já tinham sido examinadas e estavam bem. Também já haviam sido trocadas e alimentadas e, agora estavam deitadas, abraçadas, em um bercinho, aos cuidados de uma enfermeira. Mas Mariah estava rodeada por três médicos, visivelmente mal. Ela era asmática e durante o acidente em sua casa, ela tinha primeiro aspirado cheiro de gás e, ao tentar desligar, houve o tombo que lhe havia quebrado duas costelas e, mais tarde, a pequena explosão e o fogo. E, por todo o tempo, até que Douglas a tirou de lá, ainda inalou muita fumaça. Seu estado era bastante crítico. Após ser examinada e medicada, os médicos
a colocaram na máscara de oxigênio e foram conversar com Douglas e Melissa, dizendo que as próximas 24 horas seriam cruciais, que tudo ia depender de como seu organismo responderia à medicação. Ela precisava descansar, mas sabendo da participação essencial deles no salvamento daquela família, os médicos autorizaram que eles conversassem com ela por alguns minutos.
_Que bom que você está aqui. Preciso de sua ajuda. Por favor, diga que vai cuidar delas. – apesar da dificuldade para respirar, Mariah tira a máscara e começa a falar assim que vê Melissa, fazendo um grande esforço
para não chorar e para conseguir ser ouvida.
_Calma. Fique calma. Não estou conseguindo entender o que você está dizendo.
_Minhas filhas, cuide delas. Me ajude, por favor.
_É claro que eu vou te ajudar. Você vai ficar boa logo e poderá então você mesma voltar a cuidar delas. Mas, até lá, não se preocupe, eu cuido delas sim.
_Você não está entendendo. Eu não vou mais melhorar. Sei que fizeram tudo o que era possível, mas eu estou morrendo. Não é apenas medo, ou impressão. Eu tenho certeza. Eu sinto.
_Você está enganada. Já foi medicada e vai continuar sendo tratada e, muito bem cuidada. Você vai reagir, vai...
_Me escute. Eu não vou conseguir falar por muito tempo. Eu não tenho família e sou mãe solteira. O pai delas nem soube da minha gravidez antes de morrer. Ou seja, quando eu me for, minhas meninas não terão mais ninguém no mundo. E não quero que sejam levadas para um abrigo ou coisa assim. Não posso nem pensar na possibilidade de elas serem adotadas separadamente. Elas precisam uma da outra. Elas têm que ficar juntas. Você arriscou sua vida para salvá-las. Fique com elas, não por um dia ou dois, mas como suas filhas. Por favor...