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Jornalismo Literário: a produção do livro–reportagem no
curso de comunicação social/Jornalismo da
UFAM/Parintins
Literary journalism: the production of the reporting book in the
social communication/journalism course from UFAM/Parintins
Hellen Cristina Picanço Simas
Doutora em Linguística, professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFAM e do curso de Comunicação Social/Jornalismo do ICSEZ/UFAM. Email: [email protected]
Sebastião Nascimento
Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Sociedade da Universidade De Tocantins – UFT, graduação em Comunicação Social/Jornalismo da UFAM. Email: [email protected]
Resumo
Este trabalho estuda o gênero livro-reportagem como modalidade acadêmica, com o objetivo de verificar o uso de recursos estilísticos e narrativos do jornalismo literário nos livros-reportagem produzidos pelos acadêmicos de Comunicação Social/Jornalismo do Instituto de Ciências Sociais, Educação e Zootecnia (ICSEZ) da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Na construção do embasamento teórico foram utilizados os estudos de Edvaldo Pereira Lima (2009), Pena (2006), Bulhões (2006) e outros autores que tecem sobre este gênero e acerca do jornalismo literário. Tomamos como corpus de estudo os livros: Abordo de um pesado, Além do Silêncio, Boi Campineiro, Toada: o canto do Amazonas e Juruti antes e após a Alcoa. Com a investigação foi possível identificar características do jornalismo literário nos livros- reportagem estudados como narratividade, uso de diálogos, imersão, humanização do relato e estilo próprio e voz autoral.
Palavras chave
Livro-reportagem; Jornalismo literário; Acadêmicos; Comunicação Social/ICSEZ.
Abstract
This work studies the genre book-journal as an academic modality, with the objective of verifying the use of stylistic and narrative resources of literary journalism in the books produced by the Social Communication / Journalism scholars of the Institute of Social Sciences, Education and Zootecnia (ICSEZ) of the Federal University of Amazonas (UFAM). In the construction of the theoretical basis we used the studies of Edvaldo Pereira Lima (2009), Pena (2006), Bulhões (2006) and other authors who teach about this genre and about literary journalism. We take as corpus of study the books: On board of a heavy one, Beyond the Silence, Boi Campineiro, Toada: the corner of the Amazon and Juruti before and after Alcoa. With the research, it was possible to identify characteristics of literary journalism in the reporting books studied such as narrativity, use of dialogues, immersion, humanization of the narrative and own style and authorial voice.
Keywords
Reportage book; Literary journalism; Academics; Social Communication/ICSEZ.
Introdução
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conhecido no mercado editorial no Mundo Ocidental. Este gênero teve significativo destaque na América do Norte e em países da Europa, como Inglaterra, Itália, Franca e Espanha. Na América Latina, o mercado não apresenta a mesma maturidade, porém, merecem destaque as grandes-reportagem trabalhadas em forma de livro.
No Brasil, o mercado editorial vislumbra um futuro promissor na produção e mercantilização deste gênero. Apesar de ainda ser um segmento em ascensão no país, o livro-reportagem desperta o interesse do público por tratar a informação de forma ampliada, considerando a ótica geral dos fatos, além de expor diversas situações e dialogar sobre ideias de relevância social. Em contraponto, o livro-reportagem ainda é pouco estudado por pesquisadores no âmbito dos estudos comunicacionais. Percebe-se que pesquisas que discutam sobre a modalidade com profundidade são escassas, mas se sobressai o estudo de Edvaldo Pereira Lima, sistematizado no livro Páginas Ampliadas: o livro-reportagem como
extensão do jornalismo e da literatura. Assim como no Brasil, os estudos acerca do
livro-reportagem são quase inexistentes em universidades norte-americanas. É perceptível carências de trabalhos que formem “[…] um patamar conceitual básico, sobre o qual se poderá avançar para questões específicas, particulares, desse universo” (LIMA, 2009, p. 04).
Atualmente, a imprensa contemporânea dedica quase toda sua atenção para fatos considerados relevantes e atuais, definindo a notícia como “produto” principal do jornalismo. Entretanto, da virada do século XIX até os dias atuais, alguns jornalistas passaram a escrever com maior liberdade, principalmente, sob forte influência do Novo Jornalismo no Brasil. Assim, inúmeros livros-reportagem foram produzidos no país, em que os autores buscaram unir o apuro jornalístico com a linguagem literária. Destacam-se obras publicadas com valor inegável como, por exemplo, Olga, de Fernando de Moraes, que, para muitos autores, é considerada o maior sucesso popular brasileiro. A influência deste movimento causou mudanças significativas no universo do jornalismo, influenciando até o âmbito acadêmico.
Com o intuito de diminuir a distância existente entre teoria e prática (academia e redação), os estudantes de graduação em Comunicação Social/Jornalismo têm opção em realizar Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) na categoria de Projetos Experimentais, que incluem a produção de jornais, revistas, reportagens especiais, livros-reportagem, produtos audiovisuais. Por conseguinte, a produção destes produtos jornalísticos na academia cresceu e os estudantes passaram a aplicara a teoria que adquiriram em sala de aula. Esta nova realidade permitiu aos acadêmicos de jornalismo o conhecimento prático de diversos gêneros, dos quais destaco o livro-reportagem nas universidades. Para o progresso desta pesquisa, foi levantada a seguinte questão norteadora: As características do jornalismo literário estão presentes nos livros-reportagem produzidos pelos acadêmicos do curso de Comunicação Social da UFAM campus Parintins? O interesse em estudar tal temática surgiu em meados de 2016, quando o livro- reportagem A bordo de um pesadelo – ditos e não ditos do maior naufrágio do baixo
Amazonas foi premiado em âmbito regional na categoria Livro-reportagem na Exposição de
Pesquisa Experimental em Comunicação (EXPOCOM Junior), ganhando a oportunidade de concorrer com trabalhos de todos os estados do Brasil na Expocom Nacional, despertando-me curiosidade sobre a produção desta modalidade na academia.
Sob esta perspectiva, estudou-se este gênero como modalidade acadêmica – TCC, de forma a verificar o uso de recursos estilísticos e narrativos do jornalismo literário nos livros-reportagem produzidos pelos acadêmicos de Comunicação Social do Instituto de Ciências Sociais, Educação e Zootecnia (ICSEZ) da Universidade Federal do Amazonas (UFAM/Parintins) fundamentado nos estudos de Edvaldo Pereira Lima (2009). De acordo com o autor a produção de um livro-reportagem deve ser orientada a partir dos princípios do jornalismo literário.
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apresentamos o referencial teórico que discute os aspectos históricos e conceituais do livro-reportagem e suas particularidades, bem como a definição de Jornalismo Literário. A segunda parte é dedicada aos caminhos metodológicos percorridos durante o estudo, a qual mostra o tipo e a abordagem da pesquisa e, também, o procedimento de análise utilizado para a obtenção dos resultados alcançados. A última parte destina-se as análises e interpretação dos resultados alcançados no processo de pesquisa. Assim, pretende-se contribuir para os futuros estudos sobre livro-reportagem e a para produção desse gênero na universidade e no mercado editorial.
Jornalismo Literário
Pretendemos, neste momento, apontar o conceito de jornalismo literário. Pena (2006, p. 21) define o jornalismo literário como uma linguagem musical de transformação expressiva e informacional, que ao:
[…] juntar elementos presentes em dois gêneros diferentes, transformo-os permanentemente em seus domínios específicos, além de formar um terceiro gênero, que também segue pelo inevitável caminho da infinita metamorfose. Não se trata da dicotomia ficção ou verdade, mas sim de uma verossimilhança possível.
O autor discorre que está vertente não se trata de jornalismo nem de literatura, mas sim do que ele denomina como “melodia”, pois está modalidade não se refere à oposição de informar ou entreter, mas sim de uma atitude narrativa onde ambos estão misturados.
Desta forma, entende-se que jornalismo literário não ignora o que aprendeu com o jornalismo diário e nem joga suas técnicas narrativas no lixo. Ele tem o papel de desenvolvê-las, aprimorá-desenvolvê-las, de maneira que acaba construindo novas estratégias profissionais (PENA, 2006). Todavia, os velhos e bons princípios da redação são reciclados e continuam extremamente importantes. Exemplo disso é que o jornalismo literário mantem a técnica de apuração rigorosa, a observação atenta, abordagem ética e a capacidade de se expressar claramente, entre outros recursos do jornalismo tradicional.
Lima (2009) aponta que o jornalismo literário tem esta terminologia porque ao longo de seu desenvolvimento importou técnicas narrativas da literatura de ficção, as adaptando para histórias da vida real. Com o desenvolvimento do jornalismo, em particular, com a modernização e industrialização do segmento, que ocorreu na última metade do século XIX, o jornalismo e a literatura se aproximaram, intercalaram-se. “Entre o jornalismo e a literatura havia em comum, nesses tempos pioneiros da era moderna, o ato da escrita” (LIMA, 2009, p. 173). A literatura e o jornalismo se confundiam até os primeiros anos do século XX. Assim, nos últimos anos, o aperfeiçoamento das técnicas de tratamento da mensagem foi necessário na medida que o texto jornalístico modernizou-se e apresentou,
[…] uma condição de proximidade, estabelecida pelo elo comum da escrita, é natural compreender que mesmo intuitivamente ou sem maior rigor metodológico, os jornalistas sentiam-se então, inclinados a se inspirar na arte literária para encontra os seus caminhos de narrar o real (LIMA, 2009, p. 173-174).
Para o pesquisador, de todas as formas de expressão do jornalismo e da literatura, a modalidade que “[…] melhor utiliza o potencial do livro-reportagem é o jornalismo literário.
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Os dois combinam-se, adequam-se, agregando conteúdo sólido e narrativa poderosa” (LIMA, 2009, p. 351). Diante desta combinação “saborosa” entre jornalismo e literatura no gênero livro-reportagem, surge o interesse por partes dos jornalistas e escritores em torno de temas sociais em evidência. Para um veículo periódico é um obstáculo, pois, é limitado ao caráter efêmero associado a produção jornalística dita como convencional. Nesta vertente, os temas são trabalhados com liberdade e com um maior requinte literário.
No Brasil, o jornalismo literário também é classificado de maneiras diferentes. Para alguns autores, trata-se simplesmente de um período da história do jornalismo (PENA, 2006). Para outros, se refere à crítica de obras veiculadas em jornais. Em outros países como nos Estados Unidos, o jornalismo literário é elemento tradicional na cultura estadunidense.
Assim como o livro-reportagem estende as funções do jornalismo e da literatura, […] o jornalismo literário cresce, supera o caráter perecível do texto jornalístico tradicional, transcende o tempo, chega a um público diferenciado e conquista um status cultural de maior prestígio quando se apresenta em forma de livro (LIMA, 2009, p. 353).
Ou seja, o livro-reportagem é o canal de distribuição de conhecimento que o jornalismo literário se apropria, pois este gênero não serve apenas para registrar fatos, ele discute narrativamente temas simples ou complexos. O autor enfatiza que o termo literário é oriundo da raiz histórica e a função deve estar associada a técnicas puramente narrativas, de organização e condução do texto. Porém, o conteúdo no âmbito do jornalismo literário vinculado à capacitação, observação, pesquisa e reprodução fidedigna da realidade (PENA, 2006).
Contudo, as licenças poéticas de criação e imaginação de conteúdos devem permanecer a arte ficcional. O autor de jornalismo literário caminha sobre o estreito fio da navalha em que não pode pisar em falso, podendo por tudo a perder, visto que a suspeita de veiculação de informações incorretas prejudica a credibilidade de um autor e sua obra.
O livro-reportagem é gênero textual que melhor representa o jornalismo literário. Por isso, a seguir vamos conceituar este gênero jornalístico que esoclhemos como objeto de estudo nesta pesquisa.
O livro-reportagem como veículo de comunicação
Conforme Lima (2009, p.26), o livro-reportagem pode ser compreendido como um “[…] veículo de comunicação impressa não-periódico que apresenta reportagens em grau de amplitude superior ao tratamento costumeiro nos meios de comunicação jornalística periódicos”. Este gênero atua como uma mídia pela qual são veiculadas reportagens qualificadas como uma ampliação de um fato cotidiano publicado da impressa convencional. Como se vê, cabe ao autor de livro-reportagem visualizar o potencial da reportagem como uma ampliação da notícia, que caminha para:
[…] horizontalização do relato – no sentido da abordagem extensiva em termos de detalhes – e também sua verticalização – no sentido de aprofundamento da questão em foco, em busca de suas raízes, suas implicações, seus desdobramentos possíveis (LIMA, 2009, p. 26).
O grau de amplitude superior trata-se da ênfase dada a um determinado tema “[…] quando comparado ao jornal, à revista ou os meios eletrônicos, quer no aspecto extensivo, de
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horizontalização do relato, quer no aspecto intensivo, de aprofundamento, seja quando combinados esses dois fatores” (LIMA, 2009, p. 26).
Para efeito de rigor conceitual, o termo livro é entendido por Edvaldo como explica o Dicionário de Comunicação, de Carlos Rabaça e Gustavo Barbosa, em que estes autores definem livro como:
Publicação não-periódica que consiste materialmente na reunião de folhas de papel impresso ou manuscrita, organizadas em cadernos, soltas ou presas por processo de encadernação e técnicas similares. Distingue-se do folheto por possuir maior número de páginas: segundo as normas da Unesco, considera-se livro a publicação com mais de 48 páginas (RABAÇA; BARBOSA, 1978, apud LIMA, 2009, p. 26).
Esta definição auxilia para que possamos compreender que o livro-reportagem se distingue das demais publicações classificadas como livro por três condições. Segundo Lima (2009), a primeira está relacionada:
Quanto ao conteúdo, o objeto de abordagem de que trata o livro- reportagem corresponde ao real, ou factual. A veracidade e a verossimilhança são fundamentais. Entenda-se aí o real tanto como ocorrência social já definida, […] quanto uma situação mais ou menos perene, uma questão, ou uma ideia vigente, refletindo um estado de coisas, mas que não corresponde necessariamente a um acontecimento centra (p. 27, grifo do autor).
A segunda está inteiramente ligada “ao tratamento, compreendendo a linguagem, a montagem e a edição do texto, o livro-reportagem apresenta-se eminentemente jornalístico” (LIMA, 2009, p. 27, grifo do autor).
A terceira diferença está relacionada a função do livro-reportagem que:
[...] pode servir a distintas finalidades típicas ao jornalismo, que se desdobram desde o objetivo fundamental de informar, orientar, explicar. Assim, o livro-reportagem pode trabalhar sua narrativa de uma maneira apenas extensiva – com horizontalização de dados e fatos, mas sem um salto verticalizador significativo, direcionado à apreensão qualitativamente intensiva do objeto abordado (LIMA, 2009, p. 28).
O pesquisador diferencia também o livro-reportagem dos periódicos jornalísticos baseado na caracterização teórica de Otto Groth para definir o jornalismo: periodicidade,
atualidade e universalidade.
Apesar de caracterizar pela universalidade – a temática é tão variada quanto nos jornais e nas revistas – e pela difusão coletiva – pois também circula publicamente para uma audiência heterogênea, dispensa geograficamente –, o livro-reportagem não apresenta periodicidade, tem quase sempre caráter monográfico, bem como seu conceito de atualidade deve ser compreendido sob uma ótica de maior elasticidade do que o que se aplica às publicações periódicas (LIMA, 2009, p. 30, grifo do autor). Além desta diferenciação, Edvaldo aponta dois grupos particulares de origem do livro-reportagem. O primeiro grupo se origina de uma grande-reportagem e/ou de uma série de
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reportagens publicadas na imprensa cotidiana, como “[…] o caso de Viagens à literatura
portuguesa contemporânea, de Cremilda Medina, resultante de uma série de entrevistas
publicadas, inicialmente, no jornal O Estado de S. Paulo” (LIMA, 2009 p. 35). O segundo grupo nasce na concepção de um projeto para livro, “como é o caso de The Death of Air India
Flight 182, de Salim Jiwa, sobre o atentado que estarreceu o mundo em 1985, resultando na
queda de um avião Boeing 747 sobre o Atlântico, em rota de Toronto para Nova Delhi” (LIMA, 2009 p. 35).
O pesquisador Antônio Heriberto Catalão Júnior, em sua tese de doutorado Jornalismo
Best-seller: o livro-reportagem no Brasil contemporâneo, denomina o livro-reportagem como
um “[…] gênero do discurso, um tipo estável de enunciado – cujo suporte e meio de difusão é o livro” (CATALÃO Jr, 2010, p. 12). O autor caracteriza em sua tese os livros-reportagem
best-seller produzidos no país sob a perspectiva teórica de que o livro-reportagem é como um
gênero do discurso cujos enunciados são produzidos mediante trabalho de reportagem em que “[…] as relações dialógicas são estabelecidas em um determinado campo da comunicação discursiva” (CATALÃO Jr, 2010, p. 13).
Lima (2009), por sua vez, considera o livro-reportagem como veículo de comunicação jornalística e, ao defini-lo como tal, caracteriza este gênero como um “sistema híbrido” que tem ligações fundamentais com o sistema do jornalismo e com o sistema editorial. As conexões sistêmicas com o jornalismo se devem, ao fato, do livro-reportagem incorporar procedimentos operacionais como pauta, coleta, redação e edição, que são procedimentos típicos do jornalismo, que o caracteriza como parte integrante desse universo. O autor ressalta que o livro-reportagem,
[…] cumpre um relevante papel, preenchendo vazios deixados pelo jornal, pela revista, pelas emissoras de rádio, pelos noticiários da televisão, até mesmo pela internet quando utilizada jornalisticamente nos mesmos moldes das normas vigentes na prática impressa convencional. Mais do que isso, avança para o aprofundamento do conhecimento do nosso tempo, eliminando, parcialmente que seja, o aspecto efêmero da mensagem da atualidade praticada pelos canais cotidianos da informação jornalística (LIMA, 2009, p. 04).
Como se percebe, o livro-reportagem é fruto da inquietude de jornalistas que tem algo a dizer com profundidade e não tem espaço para fazer no jornalismo diário ou na imprensa cotidiana. Mais que isso, os jornalistas buscam:
[…] realizar um trabalho que lhe permite utilizar todo o seu potencial de construtor de narrativas da realidade. O jornalismo oferece ao profissional de talento e folego para o aprofundamento numerosas possibilidades de tratamento sensível e inteligente de texto, enriquecendo-o com recurso proveniente não só do jornalismo, mas também da literatura e até do cinema, […] a satisfação pelo uso de todo o seu potencial de talento, pelo desafio da comunicação de amplitude, é um fator motivador que impulsiona alguns profissionais de imprensa a procurar, no livro-reportagem, a medida exata para exigir ao máximo suas habilidades de comunicador do real (LIMA, 2009, p. 33-34).
Além disso, Edvaldo acrescenta que estas inquietudes somam-se ao,
[…] fato de certos temas não agradarem ao veículo cotidiano de imprensa, por razões editoriais, como o eventual pequeno interesse de sua audiência
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por um tratamento em profundidade de certos temas, ou a carência de um nível de especialização, por parte do veículo, que não justifique a abordagem verticalizada (LIMA, 2009, p. 34).
Como apontado pelo pesquisador, é fácil categorizar este gênero por um lado, por outro é difícil considerar uma classificação de acordo com a incorporação das características típicas à reportagem de fatos, à reportagem de ação, à reportagem documental. É comum encontrar livros-reportagem mesclando todos estes aspectos.
Procedimentos para a seleção dos livros-reportagem
Para chegar ao objetivo aqui traçado, optou-se em utilizar a Análise de Conteúdo, por ser considerada uma das técnicas mais pertinentes em uma pesquisa que pretende analisar textos. Esta técnica ajuda a descrever e interpretar o conteúdo de toda classe de documentos e textos, de forma a reinterpretar as mensagens e a atingir uma compreensão de seus significados em um nível que vai além de uma leitura comum. A abordagem utilizada foi a qualitativa e a pesquisa se classifica como bibliográfica e descritiva.
Tomamos como universo de estudo os Trabalhos de conclusão de curso de Comunicação Social/Jornalismo do Instituto de Ciências Sociais Educação e Zootecnia (ICSEZ. A amostra foi constituída por cinco livros-reportagem produzidos, no período de 2011 a 2016, pelos acadêmicos de jornalismo, os quais constituem nosso corpus de estudo. Sendo eles: Juruti antes e após a Alcoa – Adeilson Lima da Silva – 2011; Toada: O canto do Amazonas Livro-reportagem sobre a toada de Boi- Bumbá de Parintins – Carly Anny Barros Figueiredo – 2013; Boi Campineiro: A história do Festival que não foi contada – Jonas Santos– 2013; Além do Silêncio – Mailson Costa Mateus e Wilker Maia Mourão – 2014. e A Bordo de um pesadelo: Ditos e não ditos do maior naufrágio do Baixo Amazonas – Glenda Garcia, Jakeline Soares e Naiara Guimarães – 2016.
Para que este trabalho alcançasse o êxito, primeiramente foi realizada uma pesquisa bibliográfica para selecionar autores que discutam sobre livro-reportagem e suas particularidades, além do jornalismo literário para compreender o universo que envolve as duas modalidades. Logo após, foi feito um levantamento dentro do locus de pesquisa de identificação dos TCCs que eram reportagem. Depois de identificar os cinco livros-reportagem, foi feito a leitura das cinco obras que formam o corpus de estudo e de seus respectivos relatórios técnicos para situar sobre o que as obras tratavam. E, por fim, selecionar trechos representativos que pudéssemos tecer comentários acerca das características identificadas nos textos. Resultados que passaremos a apresentar a seguir.
Características do Jornalismo Literário nos livros-reportagem do
curso de comunicação Social/Jornalismo da UFAM/Parintins
Este capítulo é dedicado à caracterização do livro-reportagem na modalidade acadêmica que corresponde aos projetos experimentais/TCC produzidos pelos acadêmicos de Comunicação Social/Jornalismo da UFAM, campus Parintins, conforme a perspectiva já delineada e assumida no primeiro momento deste estudo. Passemos a conhecer os livros em estudo.
O livro-reportagem Juruti antes e após a Alcoa foi produzido pelo acadêmico Adeilson Lima da Silva no ano de 2011. A obra conta a história de Juruti Novo, município
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localizado a oeste do Estado do Pará, no qual enfatiza a vida na cidade antes e após a chegada da empresa americana de mineração Alcoa. O livro narra as transformações ocorridas no município devido á implantação da mineradora, que acarretou o crescimento populacional, mudanças na infraestrutura, comércio, emprego, mas também constribuiu para o crescimento da violência, prostituição na cidade de Coari.
O livro-reportagem Toada: o canto do Amazonas foi produzido pela acadêmica Carly Anny Barros Figueiredo no ano de 2013. A obra conta a trajetória histórica das toadas de Boi-Bumbá, visão dos compositores, desde a composição das letras até a apresentação delas no Bumbódromo em Parintins. O livro também dá visibilidade às dificuldades que diz respeito ao reconhecimento de seus direitos autorais.
O livro-reportagem Boi Campineiro tem sete capítulos e foi produzido pelo acadêmico Jonas Santos, no ano de 2013. A obra conta a história do boi-bumbá Campineiro, discutindo a representação diversa e múltipla pautada na história de exclusão, apagamento e esgotamento do boi Campineiro do Festival Folclórico de Parintins.
O livro-reportagem Além do Silêncio foi produzido pelos acadêmicos Mailson Costa Mateus e Wilker Maia Mourão no ano de 2014. A obra expõe uma reflexão sobre os aspectos históricos da educação de surdos, as dificuldades e a experiência que a pessoa surda encontra no ambiente acadêmico. A narrativa é desenvolvida com base na história acadêmica da estudante surda Cátia Maria, personagem principal da história.
O livro-reportagem Abordo de um pesadelo foi produzido pelas acadêmicas Glenda Garcia, Jakeline Soares e Naiara Guimarães no ano de 2016. O livro conta a história do maior naufrágio envolvendo moradores da cidade de Parintins-AM, que aconteceu no dia 29 de setembro de 2005, resultante do impacto entre o Barco Motor Almirante Sergimar e duas balsas, na região próxima à comunidade São Sebastião, na cidade de Urucurituba, que levou a óbito 17 pessoas e o desaparecimento de outras 7, deixando 43 sobreviventes.
Para o estudo das características do livro-reportagem, entendemos que a produção dele deve ser orientada segundo os princípios do jornalismo literário (LIMA, 2009). O convívio harmonioso entre o livro-reportagem e o jornalismo Literário (JL) é devido aos seus objetivos servirem a um propósito inicial comum, o de comunicar coletivamente conteúdos jornalísticos de qualidade. Em que “[...] valem-se de uma rica tecnologia narrativa comprovada ao longo de mais de cem anos de tradição de ambos. Os procedimentos e técnicas – tanto de capitação quanto de escrita e edição” (LIMA, 2009, p. 354). A Narratividade; 2. Uso de diálogos; 3. Imersão do repórter; 4. Estilo próprio e voz autoral; 5. Exatidão e precisão; 6. Humanização são os princípios que regem a produção do livro-reportagem.
No livro-reportagem, “[…] a narração edifica-se, quase sempre, a partir de uma ação dada, mas privilegiando a intensidade e, menos frequentemente, o ambiente” (LIMA, 2009, p. 148), uma vez que este gênero toma um item dado como foco através do contexto que o envolve.
A narração é, portanto:
[…] a ordenação de fatos, de natureza diversa, externos ao relator (mesmo quando o narrador é parte dos fatos, isto é, participa da ação que está sendo narrada). No texto comunicativo, os acontecimentos (desde a mais simples notícia até a grande reportagem), situados no nível de uma sequência temporal, constituem uma narrativa (SODRÉ; FERRARI 1977 apud LIMA, 2009, p. 17).
Para que isso seja alcançado, a maior preocupação do autor de um livro- reportagem está em:
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[…] efetuar um corte verticalizado, mais terá de expandir a sua lente narrativa, enriquecendo-a com as realidades de um mesmo fato imanentes ao acontecimento nuclear, pois é desse modo que abarca numa dimensão superior, enquadra seu significado (LIMA, 2009, p. 148).
Desta forma, compreende-se que a narratividade não se limita a textos literários, nem a textos literalmente ficcionais. Esse recurso linguístico é utilizado também na produção de matérias jornalísticas, pois os textos de jornalismo constituem-se como uma narrativa.
Para Bulhões (2007), os textos narrativos contam uma sequência de eventos que se sucedem no tempo, que inclui tanto a vivência literária quanto a jornalística, visto que a “[…] narratividade possui conexão estreita com a temporalidade, o que significa dizer que se contam eventos reveladores da passagem de um estado para outro” (p. 40). É importante lembrar que:
[…] tanto literatura como jornalismo atuam como expedientes de conhecimentos do mundo, sendo que a experiência literária parece preferir conhecer o mundo por meio da prática imaginativa e alegórica, a qual não é necessariamente menos “verdadeira” que a alternativa jornalística (BULHÕES, 2007, p. 40).
Para o autor, o livro-reportagem avança para o relato da contemporaneidade, resgatando no tempo algo mais distante daquilo que é pautado hoje, mas isso não extingue os efeitos. Os acontecimentos passados podem causar nos fatos atuais. Para desenvolver a narrativa no livro-reportagem Abordo de um pesadelo, as jornalistas incluem pontos de vistas diferentes sobre o fato, inseridos de forma dinâmica com a história de Val, personagem principal do livro. Como podemos perceber no trecho a seguir:
Com o barco alguns metros distantes do porto, o casal Valdenei e Saúde já estavam se preparando para almoçar, quando avistaram de longe um carro de frete com cinco meninas que acenavam do cais. Logo tocou o celular do rapaz que estava próximo de Valdenei. Deilson Jacaúna, de pele negra, baixo, com porte físico atlético era o mestre de capoeira das alunas atrasadas. O rapaz atendeu o celular enquanto olhava em direção do porto (GARCIA; SOUZA; ALMEIDA, 2016, p. 18).
Esse outro trecho apresenta as cenas do naufrágio que foram construídas por meio das lembranças minuciosas dos sobreviventes e com base no que foi apresentado no inquérito policial. Neste fragmento é evidente o caráter narrativo mais detalhista e despojado:
Já embaixo d’água, Val ficava se rebatendo e sentiu um dos destroços do barco a levar para o fundo do rio. O objeto parecia ser a escotilha [tampa do porão] do Sergimar, pois a pressionou com muita força na parede do camarote do barco. Com isso, sua perna ficou presa e sentiu bastante dor, as suas costelas já estavam quebradas devido aos impactos sofridos. Val sempre foi religiosa, e mesmo em baixo d’água, durante agonia, se concentrou para fazer uma prece a Deus (GARCIA; SOUZA; ALMEIDA, 2016, p. 25).
É possível perceber a carga dramática que o trecho citado anteriormente transmite ao leitor. As jornalistas buscaram narrar em ordem cronológica detalhadamente, por meio da lembrança da personagem, como Val vivenciou o impacto da batida até a sua chegada ao
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hospital. A narração do momento em que a personagem é levada ao fundo do rio por um destroço do barco é envolvente, faz com que o leitor visualize a cena e “vivencie” junto a Valdenei o desespero que a personagem viveu.
Em outro momento no livro-reportagem, é possível perceber o uso da técnica da
linguagem cinematográfica, técnica narrativa de relatar o real a partir da construção de cena a
cena. Veja o trecho:
Os primeiros raios de sol iluminavam as ruas de Parintins na manhã de quinta-feira do dia 29 de setembro de 2005. Por volta das cinco horas, a ilha já começava a acordar. Aos poucos se viam motociclistas, tricicleiros em busca de corridas, padeiros com cestas cheias de pães no bagageiro da bicicleta, comerciantes abrindo as portas dos seus empreendimentos, e funcionários nas ruas, se deslocando para mais um dia de trabalho (GARCIA; SOUZA; ALMEIDA, 2016, p. 11).
O trecho evidencia uma narrativa mais despojada, livre e envolvente, que são características típicas de textos literários. Há uma preocupação em envolver o leitor com a história que está sendo contada. A técnica narrativa empregada na obra ora é literária ora é jornalística, prevalecendo na maioria do texto a linguagem literária. Somente no capítulo final do livro-reportagem, intitulado Controvérsias da tragédia: os não ditos, que a narrativa passa para a escrita jornalística e objetiva. O parágrafo a seguir evidencia tal perspectiva:
Vistos e examinados minuciosamente, os presentes autos do Inquérito Administrativo, instaurado pela portaria n°292, de 30 de setembro de 2005, da CFAOC, (doc.fl. 002), para apurar as causas e as responsabilidades pelo impacto entre o Barco Motor Almirante Sergimar, e o comboio formado pelo Jean Filho LII, com balsas Giovanna III e Isabele XXIII, fato ocorrido no dia 29 de setembro de 2005, por volta de 20 horas e 30 minutos, nas proximidades do município de Urucurituba-AM, do qual relata os seguintes depoimentos (GARCIA; SOUZA; ALMEIDA, 2016, p. 57).
Percebe-se que as informações foram filtradas com base no processo de apuração jornalística, visto que o capítulo faz uma leitura do inquérito policial, que possui uma linguagem técnica. É evidente que as autoras buscaram transmitir as informações de forma clara, objetiva e simples para que o público em geral pudesse entender o que dizia os autos do processo policial. Para Lima (2009, p. 160),
A narrativa jornalística é como um aparato ótico que penetra na contemporaneidade para desnudá-la, mostrá-la ao leitor, como se fosse uma extensão dos próprios olhos dele, leitor, naquela realidade que está sendo desvendada. Para cumprir tal tarefa, a narrativa tem de selecionar a perspectiva sob a qual será mostrado o que se pretende.
Diante desta perspectiva, apesar do jornalismo trabalhar com a verdade dos fatos e com a linguagem factual, percebe-se que existem nas entrelinhas de uma notícia ou reportagem narrativas que estão subentendidas. Com isso, o jornalismo, especificamente a vertente literária, utiliza a narrativa como linguagem jornalística para representar o mundo.
Nos demais livros-reportagem, é evidente uma linguagem narrativa objetiva, característica do jornalismo convencional. Os fatos são apresentados de forma clara, simples e acessível, sem usar e abusar da criatividade literária. Como podemos perceber neste trecho do
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livro-reportagem Boi Campineiro:
O atual presidente da agremiação, Eduardo Paixão de Souza, 62, afirma que o seu boi-bumbá é o mais velho de Parintins e que seu ano de criação é datado de 1890, na comunidade do Aninga. Ele diz ainda que seu pai, Emídio Souza, com 18 anos à época, iniciou o folguedo. “Foi a família Andrade, aqui da comunidade, que colocou a brincadeira (em 1890) e o meu pai fundou o boi em 1913”, diz. Na conta de Eduardo, o Campineiro completa em 2013 seus 123 anos (SANTOS, 2013, p. 26).
No livro-reportagem Juruti antes e após a Alcoa também é possível identificar tal perspectiva:
A grande reserva de bauxita está localizada na região de Juruti- Velho. Segundo dados da assessoria de Comunicação da Alcoa, Juruti possui uma reserva mineral de cerca de 700 milhões de toneladas métricas de bauxita. O município possui um dos maiores depósitos de bauxita de alta qualidade do mundo, necessários para atender a uma crescente demanda (SILVA, 2011, p. 14).
O livro-reportagem Além do Silêncio apresenta uma narrativa mais livre, porém, o livro muitos trechos da narrativa com características da linguagem mais mais objetivas e simples.
Com muitas dificuldades e, acima de tudo, força de vontade e dedicação, em 1994, Cátia concluiu o ensino fundamental na Escola Estadual “Brandão de Amorim”. Cátia lembra com alegria quando estudou no educandário, lá aperfeiçoou a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), compartilhando a mesma sala com alunos ouvintes (MATEUS; MOURÃO, 2014, p. 10).
Percebe-se que os autores tratam de um tema global, a inclusão social dos surdos na sociedade, em especial na universidade, procurando as ações e os acontecimentos que ajudem a desenvolver o tema, eventos que mostrem de forma precisa, clara e as situações vividas pela personagem causando impacto para quem ler. O estilo direto de narrar a trajetória da personagem não tira a carga dramática e emocional do livro. Os autores intercalam a narrativa com depoimentos de outros personagens que convivem com Cátia. “Quando o jornalista, no livro, está mais interessado em discutir uma questão geral, desce ao particular, para aí encontrar ações e acontecimentos que, costurados num conjunto, ajudam a discutir o tema global que propõe” (LIMA, 2009, p. 148).
Neste outro parágrafo, os autores usam o exemplo de Elenilson Ramos, jornalista formado pela UFAM-Parintins, deficiente visual, como estratégia narrativa também para chamar a atenção ao tema do livro, pois tanto Cátia como Elenilson superaram a barreira da exclusão social impostas por sua deficiência, mas que rompem com a barreira de suas limitações alcançando seus objetivos por meio da luta por seus direitos garantidos.
Podemos citar também como exemplo de pessoas que deixaram as comunidades ribeirinhas em busca de novas perspectivas, Elenilson Carvalho Ramos – Jornalista formado pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), filho da Comunidade do Paraná do Limão do Meio (Zona Rural de Parintins). Ele aos sete anos de idade foi acometido por uma doença que lhe fez perder a visão. A deficiência visual e a dificuldade financeira fizeram com que o jovem fixa-se residência em Parintins para
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se submeter-se a tratamento oftalmológico e por isso avançar nos estudos, que, assim como a nossa protagonista, ousou enfrentar todos os obstáculos que os interioranos confrontaram na luta pelos objetivos (MATEUS; MOURÃO, 2014, p. 13).
O trecho a seguir é do livro Toada: o canto do Amazonas também apresenta uma narrativa objetiva:
O primeiro festival parintinense de toada iniciou, oficialmente, por meio do decreto municipal 045/2007 de 10 de setembro de 2007. Esta lei nomeou a comissão organizadora composta pelos funcionários municipais: Karla Viana Ferreira, Carla Queiróz Garcia, Raimundo Santos de Oliveira, Mário Luiz Simões Pinheiro, Kilderson Serrão de Souza, Edwan Pinheiro de Oliveira e Gigliane Santos Andrade de Freitas (BARROS, 2013, p. 28).
Dos cinco livros em análise, apenas o livro-reportagem Abordo de um pesadelo apresenta, portanto, uma narrativa jornalístico-literária tal como propõe os princípios debatidos por Lima (2009), no que diz respeito à narratividade, que deve estar presente no livro-reportagem.
O uso do diálogo em um livro-reportagem atua como uma espécie de argumento para situar o leitor acerca da narrativa contada. Este recurso é utilizado para dar vida aos personagens da história e busca ampliar a aproximação do leitor com o acontecimento. Lima (2009) considera o diálogo como uma técnica narrativa que torna o texto próximo à realidade. O relato dialogado dá proximidade com a verdade (verossimilhança), uma vez que os diálogos são transcritos de forma direta. Nos poucos diálogos que o livro-reportagem Além do Silêncio apresenta, percebe-se uma preocupação por partes dos acadêmicos em descrever por meio de
depoimentos a história da personagem principal.
– Quais os benefícios que a Lei de Libras trouxe para o surdo?
– A Lei proporciona aos surdos direitos de obter, em sala de aula, a presença de professores com domínio em Libras(...)
– ok! E a universidade onde você estuda atende os padrões fixados na Lei de Libras? – Cátia apontou a caneta sobre a cabeça como se estivesse elaborando o raciocínio e começou escrever:
– Na verdade não. A Universidade precisa divulgar mais a Libras, realizar oficinas, sinalizar placas em Libras, professores intérpretes e de AEE. (MATEUS; MOURÃO, 2014, p. 37).
Este diálogo foi narrado em terceira pessoa, em que os jornalistas se inserem na história interagindo com Cátia. Em outro trecho do mesmo livro-reportagem, o diálogo é apresentado de forma rápida, apenas para descrever as visitas que os repórteres faziam para a personagem quase que constantemente:
Em frente à residência de Cátia, quando íamos com frequência saber um pouco mais sobre as novidades que ela tinha para nos contar, geralmente no início da noite, sempre havia três ou quatro amigos dela na maior animação, era sempre assim. Logo descíamos da moto e saudávamos... (MATEUS; MOURÃO, 2014, p.38).
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Depois de já ter entregado o relatório da prática de TV ao professor Zé Luiz Teixeira, Fred pega o elevador e encontra de novo o rapaz moreno, de cabelo black Power. Ambos ficam se olhando e de repente:
–Tu não é o filho do Chico Tamborete? - perguntou Fred. –Sou eu mesmo! – respondeu Chico Samba.
– E tu, não é filho da Dona Ciloca? – replicou Chico. – Sou! – Sorrindo, afirma Fred.
Ao descer do elevador os dois amigos de infância passaram uma semana se encontrando em bares para beber e brindar o reencontro (BARROS, 2013, p. 180).
O livro-reportagem Abordo de um pesadelo é o que mais apresenta diálogos em todo o decorrer da história.
Na noite anterior, por volta de 22 horas e 30 minutos, Antônio Carlos, amigo da família, foi pessoalmente avisar Evaldo sobre a tragédia.
Evaldo você soube do acidente? Acabou de passar no plantão da Globo agorinha. Sua esposa viajou? – Disse o homem.
Não só ela, como meu filho! – Falou surpreso.
Sabendo que o Sergimar foi o único barco a sair de Parintins o amigo de Evaldo se apavorou.
Meu Deus do céu!!! – falou alto, colocando as mãos na cabeça (GARCIA; SOUZA; ALMEIDA, 2016, p. 40).
O trecho mostra um diálogo carregado de drama e emoção. Percebe- se que os autores utilizam deste recurso para narrar os fatos mais marcantes e emocionantes da história de cada personagem. Os livros-reportagem Boi Campineiro e Juruti antes e após a Alcoa não apresentam diálogos.
“Como o propósito-motriz do jornalismo literário é a compreensão da realidade, só há uma maneira de um bom repórter aquilatá-la melhor: mergulhando na própria” (LIMA, 2009, p. 373). Segundo Edvaldo, o autor de um livro-reportagem deve partir a campo, ver, sentir, cheirar, ouvir, apalpar os ambientes que os personagens vivem. A imersão do repórter é mais uma caraterística do jornalísmo literário. O repórter deve:
[…] interagir com eles. Deve vivenciar parte da experiência de vida que eles vivem. É sua tarefa esforçar-se para vencer suas próprias barreiras e seus condicionamentos de percepção de mundo, alterando seu próprio olhar para os personagens. Como um bom ator que encarna no palco seu personagem, o autor de livro-reportagem que deseja utilizá-lo no que tem de melhor, empregando o jornalismo literário, deve impregnar-se, em princípio, de tudo aquilo essencial do seu tema, das pessoas que vivem a realidade que escolheu retratar (LIMA, 2009, p. 273).
Para o autor, primeiro mergulha-se no real, vive intensamente as experiências dos personagens, somente depois desta experiência é que o repórter se afasta, reflete sobre a vivência, deixa as emoções, as intuições e os pensamentos assentarem-se e, então, escreve. A imersão do repórter, na realidade, é um procedimento básico na tradição do jornalismo literário.
No livro- reportagem Além do Silêncio, a imersão dos escritores é um recurso bastante utilizado, vejamos:
No início de uma noite de verão de 2013, fomos falar com Cátia. Sentada sobre uma cadeira de embalo, ela se mostrou disposta a responder
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algumas de nossas indagações. Com uma caneta esferográfica de cor azul nas mãos e algumas páginas de papéis aguardava ansiosamente as perguntas. Sophia, filha única de Cátia, estava ali pronta para auxiliar a conversa (MATEUS; MOURÃO, 2014, p.36).
É possível visualizar que os repórteres “mergulharam” no universo de Cátia para descrever o comportamento da personagem, entender a origem de determinadas posturas e compreender o universo que a envolve.
Os demais livros-reportagem não apresentam de forma explicita no texto, documentada na reportagem, a imersão do repórter. Porém, podemos perceber que, no livro Juruti antes e após a Alcoa, o escritor vivenciou e se envolveu de perto com a realidade que cerca os personagens, uma vez que Juruti é a cidade natal do escritor. Já nos livros Boi
Campineiro, Toada: o canto do Amazonas e Abordo de um pesadelo, percebe-se que os
acadêmicos se envolveram com os temas abordados somente no processo de captação jornalística, não puderam vivenciar a realidade que cerca os personagens. Por exemplo, o autor de “Boi Campineiro” não pôde ver a brincadeira de boi que o Bumbá realizava. As autoras de “Abordo de um pesadelo” não puderam viver com os personagens suas angústias, tristezas e desespero no momento do naufrágio e nem após, uma vez que o livro foi produzido 11 anos depois do ocorrido.
Para Lima (2009), o autor de livro-reportagem é mais que um cronista de fatos, ele deve usar da imaginação e criatividade que giram em torno de determinado tema para reproduzir a realidade. Essa característica é chamada de estilo prórpio ou voz autoral.
O texto atrelado ao real, precisa comunicar com desenvoltura. Estilo próprio e voz autoral são qualidades indispensáveis, maturadas no árduo exercício progressivo de conquista de habilidade narrativa onde a arte está à mercê do conteúdo que a realidade disponibiliza ao autor (LIMA, 2009, p. 368 – 369).
O jornalista deve ver o mundo com um olhar diferenciado e “[…] liberto de condições limitadoras que empobrecem a visão” (LIMA, 2009, p. 369), pois a singularidade de cada autor transmite a obra caráter de exclusividade que a diferencia e a valoriza. É importante que o autor assuma seu modo particular, único, de compreender o mundo. Com isso, o leitor de um livro-reportagem não espera um discurso de “verdade absoluta”, mas sim uma leitura individual, “[…] marcada pela experiência própria do autor, seu modo de captar e expressar a realidade, sua interação com os personagens da história” (LIMA, 2009, p. 369). Para Edvaldo Lima (2009, p. 369), o escritor não é mero compilador de dados e nem um “[…] esforçado moleque de recados que transmites as versões dos fatos moldados conforme os interesses de suas fontes, nem se esconde, submisso, por trás das afirmações dos especialistas”. Para o autor,
O autor de jornalismo literário tem nome, rosto, corpo, cabeça, tronco, membros. Tem mente e coração. Pensa e sente. É um estudioso constante da realidade. Interpreta, avalia, busca unir os fios de compreensão que unem ações, pessoas, ambientes. Tem virtudes e defeitos, enxerga coisas que pessoas menos exercitadas para contar histórias não enxergam (LIMA, 2009, p. 369).
Com esta análise foi identificado que todos os livros-reportagem apresentam expressões corriqueiras do jornalismo tradicional, conforme evidenciam os trechos a seguir:
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Abordo de um pesadelo:
Rossynaldo Rossy, de 45 anos, dono da embarcação, era casado com
Daniele, de 17, que estava grávida de quatro meses do primeiro filho do casal. Por volta das 20 horas daquele dia, o marido se encaminhou para jantar, enquanto Daniele descansava no camarote da embarcação. Após conversar rapidamente com o comandante, ele caminhou pelo corredor em direção ao refeitório quando viu a manobra errada do B/M Almirante Sergimar que estava indo para mais próximo do comboio de balsas (GARCIA; SOUZA; ALMEIDA, 2016, p. 58, grifo nosso).
Boi Campineiro:
Edu Costa advoga que o boi Campineiro reunia todas as condições para continuar no festival folclórico e que a sua permanência deixaria a festa mais democrática. “Se o Campineiro tivesse permanecido teríamos uma terceira força, seria uma coisa maravilhosa. A cidade seria dividida em três partes. Haveria mais espaço para todos e o festival seria mais simpático e mais atraente. Não sei por que não levaram adiante”, comenta (SANTOS, 2013, p. 48, grifo nosso).
Além do silêncio:
Após inúmeras tentativas para marcar um horário com nossa fonte, em razão dele cursar mestrado em Ciências da Educação da Amazônia em Manaus, na Universidade do Estado Amazonas (UEA), conseguimos um horário por volta das 22h30 do dia 07 de janeiro de 2014. Nesse dia, Wenderson Cruz, além de nos presentear com um CD-ROM sobre a História da Educação da Deficiência, conversou conosco na área interna da Biblioteca Digital “Tonzinho Saunier (MATEUS; MOURÃO, 2014, p. 20, grifo nosso).
Toada: o canto do Amazonas:
Deyse Azevedo Mendes, 22, cantora de um coral de igreja Católica,
conta que resolveu criar a banda quando soube da existência do grupo manaura Dessanas - um quarteto que se apresentava cantando toadas de Boi-Bumbá, em meados de 2008 ou 2009. Para concretizar a ideia, convidou as colegas de coral Bruna Carla, Naiobe Queirós e Rose Oliveira. Assim, em 2011, “As Ycamiabas” fizeram a primeira apresentação no arraial da festa de São Benedito, no bairro parintinense de mesmo nome (BARROS, 2013, p. 62, grifo nosso)
Juruti antes e após a Alcoa:
A poeira vem provocando doenças respiratórias em crianças e o aumento no atendimento nos postos chegou a subir: “Antigamente eram realizados uma média de apenas três inalações infantis diárias, mas hoje esse número cresceu para uma média de 10 a 20 inalações diárias”, disse a
entrevistada do PACS (SILVA, 2011, p. 92, grifo nosso).
A segunda está inteiramente ligada “ao tratamento, compreendendo a linguagem, a montagem e a edição do texto, o livro-reportagem apresenta-se eminentemente jornalístico” (LIMA, 2009, p. 27, grifo do autor).
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exemplo, descrevem após o nome de determinado personagem a idade e sua a função, este modo de escrita é muito comum no gênero notícia. Também foi possível identificar o uso da citação entre aspas e após a fala da fonte o uso de termos como disse, pontuou, comenta e entre outros verbos. A voz autoral significa que o leitor aceita a diversidade que marca as diferenças entre diversos autores.
No livro-reportagem Abordo de um pesadelo, as autoras narram a história de forma livre e envolvente, ou seja, literária, como já foi apresentado neste estudo. Percebe-se uma linguagem própria, autoral na escrita do livro, o que diferencia a obra das demais, apesar de, em certos momentos, apresentar termos usados no jornalismo diário, o livro tem estilo próprio e voz autoral. Nos outros livros-reportagem, percebemos um estilo padronizado de textos. Os quatro livros têm uma linguagem direta de apresentar os fatos, os autores não ousaram narrativamente, não saíram de suas zonas de conforto, da utilização do estilo padronizado de texto ensinado nas escolas de comunicação social, que tem a função de somente informar.
Qualquer texto jornalístico para ser considerado como tal, deve informar, portando elementos da realidade que o torna verossímil, identificável pelo leitor. Para Edvaldo as informações presentes em um livro-reportagem “tratam-se de dados primários que ancoram a matéria naquilo que podemos aceitar como real e concreto” (LIMA, 2009, p. 355). A exatidão e a precisão das informações fazem parte do que Lima (2009) denomina como “ideário”, sendo mais uma carcterística do jornalismo literário presente em livros-reportagem.
No livro-reportagem Boi Campineiro a exatidão e a precisão das informações são apresentadas assim como no jornalismo diário. O trecho a seguir apresenta o que foi percebido:
Em 2012, o orçamento financeiro de cada boi alcançou o aporte de R$ 9 milhões. Da parte do Governo do Estado, o repasse aos presidentes dos bois Telo Pinto (Garantido) e Márcia Baranda (Caprichoso) foi de R$ 1,4 milhão, respectivamente. Até o ano passado, a TV Bandeirantes detinha direitos de transmissão exclusivos da festa e pagou aos bumbás R$ 2 milhões – R$ 1 milhão para cada. Os recursos da Petrobras e Eletrobras somam juntos mais R$ 2 milhões, também para cada agremiação (SANTOS, 2013, p. 67 – 68).
Como se vê, o autor coloca à disposição do leitor uma quantidade significativa de informações, porém, elas são apenas apresentadas no texto, sem envolver narrativamente o público. Como já apresentado, o livro-reportagem Abordo de um pesadelo é o único livro que detém uma narrativa literária. Porém, no último capítulo da obra as autoras foram bem objetivas, elas também somente apresentam as informações. Como é possível visualizar no trecho a seguir:
Em 07 de outubro do ano de 2005, foi iniciado o presente Inquérito Policial, no qual foram indiciados o Sr. Hélio de Nazareth Pinto, Comandante do Empurrador Jean Filho LII e do comboio de balsas, o Sr. Raimundo Marques Gonçalves, Comandante da Embarcação naufragada Almirante Sergimar, e o Sr. Augustinho Nunes da Silva, prático da embarcação Almirante Sergimar. A tragédia deixou 17 pessoas a óbito, cinco oficialmente desaparecidas, bem como, outras lesionadas, e 43 sobreviventes (GARCIA; SOUZA; ALMEIDA, 2016, 72-73).
Podemos verificar que as autoras não encararam este recurso do jornalismo literário como um desafio, não apresentaram os dados de forma criativa e despojada, como foi visualizado nos demais capítulos da obra em que elas ousaram narrativamente.
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envolver o leitor.
A toada conquistou três prêmios: 5 mil reais, como Melhor Toada, 2 mil reais pelo 1º lugar das toadas do Caprichoso e 1 mil reais dados a Intérprete Revelação, Simone Barbosa, a ousada primeira cantora de toada do Festival. Ao todo, a toada “Sabedoria de um Proeiro”, recebeu 8 mil reais em prêmios (BARROS, 2013, p. 35).
Esta forma objetiva de apresentar as informações também foi apresentada nos outros dois livros-reportagem.
Além do silêncio:
Por conta disso é primordial a execução plena da lei 10.436, regulamentada pelo decreto nº 5.626/2005, que estabelece no Art.4 que os sistemas educacionais federais, estaduais, municipais devem garantir a inclusão nos cursos de formação de educação especial, de fonoaudióloga e de magistério, em seu nível médio e superior, do ensino da língua brasileira de sinais (MATEUS; MOURÃO, 2014, p. 34).
Juruti antes e após a Alcoa:
As mudanças na cidade são visíveis. A implantação da mineração em juruti injetou nos cofres da prefeitura uma média R$ 1 milhão mensal desde Junho de 2006. A cifra corresponde a dez vezes o valor dos repasses constitucionais de que dependia a cidade antes da Alcoa, e que representam cerca de R$ 100 mil mensais, de acordo com Sandra Regina Pereira, secretária de Finanças (SILVA, 2011, p. 63-64).
Com isso, foi possível perceber que os autores dos livros-reportagem aqui analisados não ousaram no quesito precisão de dados que por sua vez, é um recurso característico do jornalismo literário.
A humanização do relato é uma marca distinta no jornalismo literário que casa muito bem com o livro-reportagem. “Toda boa narrativa do real só se justifica se nela encontramos protagonistas e personagens humanos tratados com o devido cuidado, com a extensão necessária e com a lucidez equilibrada [...]” (LIMA, 2009, p. 359), pois o público quer antes de tudo descobrir o seu semelhante em sua dimensão humana real, entendendo suas virtudes e fraquezas, grandezas e limitações. O jornalista precisa lançar um olhar de identificação e projeção humana da nossa própria condição nos nossos semelhantes, sejam celebridades ou pessoas comuns. A humanização é um recurso que coloca:
[…] as pessoas como eixo da narrativa, encontra guarida bastante apropriada no livro-reportagem. É o fator humano que me permite, enquanto autor, abordar narrativamente qualquer tema da aventura do homem na terra – também agora no espaço sideral –, mesmo que pareça a princípio árido, de difícil tratamento literário, ou de baixo interesse jornalístico (LIMA, 2009, p. 361).
O livro-reportagem vai ao encontro das necessidades do jornalista literário, dando-lhe condições adequadas para estruturar sua história como lhe aprouver, sem impedimento algum quanto à liberdade temática (LIMA, 2009). O livro Abordo de um pesadelo tem como fio condutor o casal Valdenei Santos (sobrevivente) e José Saúde (desaparecido), tendo a narrativa da história intercalada com outros 7 personagens. As autoras narram o
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acontecimento humanizando o relato.
A tarde foi passando... O relógio apontou 17 horas, no primeiro andar se encontrava dona Maria dos Anjos, uma senhora de 79 anos, morena, baixa, com traços indígenas, que estava sentada em sua rede penteando os cabelos da neta que acabara de tomar banho para jantar. Maria e seu esposo levariam a menina para Manaus em busca de tratamento médico. Juliana Rodrigues, de apenas nove anos, sofria de malária, e precisava urgentemente cuidar da saúde. A garota foi encaminhada para a capital, pois estava entre a vida e a morte (GARCIA; SOUZA; ALMEIDA, 2016, p. 20 – 21).
As autoras usam o casal como eixo principal da história, com isso tivemos o conhecimento sobre aspectos da vida dos personagens. O desenrolar do livro-reportagem é desenvolvido por meio do relato humanizado dos envolvidos com o acontecimento, que ajuda as autoras abordar narrativamente sobre o tema, o naufrágio. Onde há seres humanos existe uma história maravilhosa a ser contada, mesmo que os primeiros indícios sejam desinteressantes, visto que “o olhar e o escrutínio do autor é que fazem a diferença. Mas a descoberta do tesouro escondido na pedra bruta exige tempo, paciência, determinação” (LIMA, 2009, p. 361).
O livro-reportagem Além do silêncio traz a história de Cátia Maria Pontes, deficiente auditiva, como eixo principal da história, a partir da narração da história acadêmica da personagem diante dos desafios que enfrenta no ingressar ensino superior.
A maior dificuldade ainda na infância já se caracterizava na comunicação, pois não havia recursos nem professores preparados para ensinar uma metodologia específica para a menina. O diálogo era tão raro e difícil, que até mesmo os pais e avós não conseguiam compreende-la. Mas eram as únicas pessoas com quem Cátia contava sempre com o apoio (MATEUS; MOURÃO, 2014, p. 09).
É possível perceber que o livro-reportagem é desenvolvido com base no relato humanizado de Cátia, pois os autores usam do relato da personagem para fazer reflexões sobre os aspectos históricos da educação de surdos, dificuldades e experiências vivenciadas no ambiente acadêmico e a falta de estrutura nas instituições de ensino que atenda as especificidades e, principalmente, a demanda de surdos.
Os livros Boi Campineiro, Toada: o canto do Amazonas e Juruti antes e após a Alcoa não humanizam o relato dos entrevistados, personagens ou envolvidos com os temas das histórias, uma vez que estes livros-reportagem focalizam-se temas mais abrangentes. Os autores optaram em não humanizar o relator, focar em contar a história do Bumbá, do Festival de Toada e da cidade de Juruti e suas transformações.
Considerações finais
Nos últimos anos, o livro-reportagem atingiu um respeitável nível de excelência. Porém, essa importante ferramenta na luta contra o reducionismo do jornalismo contemporâneo, vive a mercê da “prática jornalística” que vem se transformando em um palco de futilidades, exploração do grotesco e da espetacularização. São raros os jornalistas ou empresas de comunicação que buscam fugir desta lógica.
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A profissão que deveria estar ligada a causa da coletividade, hoje, nos tempos da contemporaneidade, ainda serve aos interesses da minoria, dos grandes empresários e políticos, em que os meios de comunicação travam uma constante luta pela audiência e pelos patrocinadores. Diante desta realidade, os poucos jornalistas, aqueles interessados e comprometidos com a sociedade, tiveram o espaço reduzido e optaram em buscar por alternativas.
O jornalismo literário é uma delas, uma alternativa complexa, que a princípio fugia das amarras ou ditadura da redação, buscando por outros formatos de expressão do jornalismo como o livro-reportagem. Mas, é um desafio muito maior para jornalista que se dispõe a prática do jornalismo literário, pois este potencializa os recursos do jornalismo, ultrapassa os limites dos acontecimentos cotidianos, proporciona visões amplas da realidade, exerce a cidadania, rompe as correntes burocráticas do lead, evita os definidores primários e garante permanência e profundidade aos relatos (PENA, 2006).
Esta investigação proporcionou verificar que os livros-reportagem em análise apresentam uma padronização de linguagem pautada na escrita objetiva. Percebe-se um estilo de texto característico do jornalismo tradicional na qual as narrativas das obras, apesar de estarem incluídos em diferentes grupos de livros-reportagem, são predominantemente jornalísticas. Vale pensar que os resultados obtidos, talvez, devem-se ao ensino do jornalismo, em que no decorrer da graduação, os estudantes não têm o contato com o tipo de texto do jornalismo literário. Os acadêmicos geralmente aprendem a fazer uma matéria jornalística, notícia e reportagem, cuja linguagem deve ser clara, simples e objetiva, como percebido nos textos. A presença do jornalismo literário na academia ainda é um tabu para muitas universidades e um grande desafio para os estudantes de jornalismo.
Muitas vezes os estudantes não saem de suas zonas de confortos, o texto de lide, em princípio, por não serem estimulados pela própria universidade. Como exemplo, do curso de jornalismo da UFAM/Parintins, que segundo a grade curricular de ensino, é ofertado apenas uma disciplina nesta categoria, Jornalismo e Literatura, sendo uma disciplina optativa. Os projetos experimentais com caráter literário produzidos na UFAM/Parintins são raros. Em 10 anos de implantação do curso, com mais de 142 formandos, apenas 5 trabalhos foram produzidos na categoria livro-reportagem, isso pode ser explicado devido ao escasso contato que os acadêmicos têm com esse gênero.
Diante destes fatores apresentados, a partir das análises propostas, foi possível identificar o perfil do livro-reportagem produzido no curso de Jornalismo da UFAM/Parintins. Os livros-reportagem produzidos tem caráter jornalístico, em que estes foram produzidos mediante o trabalho de reportagem e tem a grande- reportagem como fio catalisador para desenvolver a história. Observa-se, assim, que as obras possuem caráter para ser denominadas como veículo de comunicação impressa não-periódico e caracterizam o gênero livro-reportagem em sua essência, que apresenta reportagens em grau de amplitude superior aos meios de comunicação periódicos, como conceitua Edvaldo Pereira Lima. Além disso, as obras apresentam aspectos que caracterizam o gênero livro-reportagem, como a autoria, liberdade de pauta, captação, redação e edição com que os autores trabalharam. Estes procedimentos operacionais são usados no desenvolvimento dos livros-reportagem.
Enfim, a pesquisa procurou mostrar uma alternativa ao jornalismo de lide. O jornalismo vive uma ilusória utopia de que o jornalista é ciente de sua história, de seu valor e de seu compromisso em formar cidadãos críticos e responsáveis. A partir de experiências passadas da história do jornalismo pode-se compreende melhor o presente e se projeta o futuro para essa área do conhecimento.
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BARROS, C. A. Toada: O canto do Amazonas – Livro-reportagem sobre a toada do Boi-Bumbá de Parintins. Universidade Federal do Amazonas. Projeto Experimental. Parintins, 2013.
BULHÕES, M. M. Jornalismo e literatura em convergência. São Paulo: Ática, 2007. GARCIA, G. P.; SOUZA, J. S.; ALMEIDA, N. G. Abordo de um pesadelo: ditos e não ditos do maior naufrágio do Baixo Amazonas. Universidade Federal do Amazonas. Curso de Comunicação Social. Projeto Experimental. Parintins, 2016.
LIMA, E. P. Páginas ampliadas: O livro-reportagem como extensão do jornalismo e da literatura. 4ª ed. rev. e ampl. São Paulo: Manole, 2009.
MATEUS, M. C.; MOURÃO, W. M. Além do Silêncio: Desafios e conquistas do surdo no Ensino Superior em Parintins – A história acadêmica de Cátia Maria Pontes. Universidade Federal do Amazonas. Projeto Experimental. Parintins, 2014.
PENA, F. Jornalismo literário. São Paulo: Contexto, 2006.
SANTOS, J. Boi Campineiro. Universidade Federal do Amazonas. Curso de Comunicação Social. Projeto Experimental. Parintins, 2013.
SILVA, A. L. Juruti antes e após a Alcoa. Universidade Federal do Amazonas. Curso de Comunicação Social. Projeto Experimental. Parintins, 2011.