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Artigo Cidade dos mortos na cidade dos vivos

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Academic year: 2021

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1 Cidade dos mortos na cidade dos vivos: a criação do cemitério Santa Isabel em

Aracaju/SE

City of the dead of living in the city: the creation of cemetery in Santa Isabel Aracaju/SE

Rafael Santa Rosa Cerqueira

Resumo: No decorrer da segunda metade do século XIX, medidas higienistas transformaram os centros urbanos do Brasil Império. Dentre elas, destacam-se a retirada dos sepultamentos do interior das igrejas para os cemitérios. Em Sergipe, os relatórios de presidentes de província entre os anos de 1856 a 1871 abordam a preocupação das autoridades provinciais em se criar um cemitério adequado na capital. Assim, entendendo que o cemitério é uma cidade dos mortos na cidade dos vivos, acompanhou-se a criação do primeiro, seguindo o crescimento urbano da cidade.

Palavras-chave: Relatórios. Cidade. Higienizar. Cemitério.

Abstract: During the second half of the nineteenth century hygienists measures transformed the urban centers of Brazil Empire. Among these measures include the removal of burials inside the church to the cemetery. In Sergipe, the reports of provincial presidents between the years 1856 to 1871 to address concerns from the provincial authorities in creating a decent cemetery in the capital. So, understanding that the cemetery is a city of the living dead in the city, accompanied by the creation of the first, following the urban growth of the city.

Keywords: Report. City. Sanitize. Cemetery.

Introdução

Buscando compreender o costume fúnebre de sepultar os mortos no interior e ao redor das igrejas — como se fez no Brasil em larga escala até a primeira metade do século XIX —, é preciso entender que tal hábito surgiu na Idade Média e foi difundido na Europa entre os séculos XVI e XVII. Em meio aos preceitos cristãos do período elucidado, “o corpo era confiado à Igreja. Pouco importava o que faria com ele, contanto que o conservasse dentro de seus limites sagrados” (ARIÉS, 2012, p. 46).

Para o historiador francês Philippe Ariès:

O enterro na igreja ou perto dela respondia originalmente ao desejo de se beneficiar da proteção do santo, a cujo santuário era confiado o corpo. Em seguida, os clérigos, descontentes com os aspectos supersticiosos dessa

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2 devoção, decidiram interpretá-la de outro modo. Os mortos eram enterrados em um lugar ao mesmo tempo de culto e de passagem como a igreja, a fim de que os vivos se lembrassem deles em suas preces e se recordassem que, como eles, tornar-se-iam cinzas. O enterro ad sanctos era considerado como um meio pastoral de fazer com que se pensasse na morte e de interceder pelos mortos. (ARIÈS, 2012, p. 190, grifo do autor)

No entanto, é na França do século XVIII, em especial na década de 1760, que os enterramentos no interior das igrejas começam a ser questionados. Os corpos sepultados exalavam gases pútridos, causadores de miasmas. Vivos e mortos não podiam dividir o mesmo espaço físico. Os mortos não eram mera questão religiosa, e sim de saúde pública. Ariès informa que “médicos e químicos célebres publicaram na mesma época suas observações de cientistas sobre o perigo mortal dos enterros nas igrejas” (2006, p. 193). Em 1763, a Corte do Parlamento ordenou “um inquérito sobre o estado dos cemitérios parisienses e sua transferência para fora das cidades” (ARIÈS, 2012, p. 193). O historiador João José Reis traz que “em 1801 a Academia de Arquitetura Francesa promoveria um curso de projetos sobre cerimônias funerárias e organização de cemitérios” (1991, p. 78), “já em 1804, um novo decreto estabeleceria detalhadas regras de enterro, reafirmando a proibição de sepulturas dentro das igrejas” (op. cit., p. 78).

No Brasil, do século XIX, mortos e vivos dividiam diariamente o mesmo espaço físico nas igrejas, já que a maior parte dos mortos no Império era sepultada no interior desses locais. Oriundas da Europa, medidas sanitaristas sacudiram o sono dos mortos, afinal, vivos e mortos não poderiam ocupar o mesmo local, por causa dos miasmas exalados pelos cadáveres. É neste contexto de transformações no sepultar aqueles que deixaram de viver que surgem os cemitérios.

Portanto, o foco deste artigo será a criação de uma cidade dos mortos na cidade dos vivos, em fevereiro de 1862, em Aracaju, recém-elevada à categoria de cidade e elevada à capital da província através da Resolução 413 de 17 de março de 1855.

Neste âmbito, um olhar da História Cultural sugere que a cidade

não é mais considerada só como lócus, seja da realização da produção ou da ação social, mas sobretudo como um problema e um objeto de reflexão. Não se estudam apenas processos econômicos e sociais que ocorrem na cidade, mas as representações que se constroem na e sobre a cidade. Indo mais além, pode-se dizer que a História Cultural passa a trabalhar com o imaginário urbano, o que implica resgatar discursos e imagens de representação da cidade que incidem sobre espaços, atores e práticas sociais. (PESAVENTO, 2008, p. 77-78)

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3 Já Roger Chartier (2002, p. 14), em seu livro A História Cultural: entre práticas e

representações, anuncia:

[...] das práticas culturais (das atitudes face à vida às atitudes face à morte) tornou-se assim o objecto central de múltiplas investigações, conduzidas de acordo com processos de quantificação e tendo em vista da outro conteúdo à hierarquização social, sem a pôr em causa.

A cidade dos mortos está, portanto, interligada à cidade dos vivos. Será tratado neste artigo como o surgimento de uma interfere na outra. Além disso, tratar-se-á do crescimento urbano da capital sergipana, entendendo-se que o estudo da morte e da cidade evidenciam “representações” e “práticas sociais”, conforme apontam Pesavento e Chartier. Para tal estudo, serão utilizados Relatórios de Presidentes de Província entre os anos de 1856 a 1871.

Cemitérios: uma medida necessária e urgente

Com uma população de 1.484 habitantes, sendo que 1.191 eram livres e 293 escravos, a recém-criada capital possuía os seguintes profissionais: 165 agricultores, 45 náuticos, 28 carapinas, 8 pescadores, 16 negociantes, 47 empregados públicos, 2 sacerdotes, 1 médico, 2 sapateiros, 7 alfaiates, 10 pedreiros, 2 ferreiros, 2 oleiros, 1 boticário, 1 advogado, 1 proprietário de engenho, 1 purgador e 1 encadernador, de acordo com o mapa estatístico de 14 de junho de 18561.

Em 1855, uma epidemia de cólera morbos ceifou inúmeras vidas dessa população, deixando o governo provincial preocupado e atento para que o mesmo não voltasse a acontecer; haja vista a fala do Presidente Salvador Correia de Sá e Benevides:

A calamidade, que occasionou o cholera morbus deve pôr-nos de sobre-aviso para prevenir futuros males. Se em todo o tempo a rigorosa observancia das regras de hygiene publica é um dever recommendado pelas leis da conservação propria, muito mais hoje, que acabamos de passar por uma provança bem cruel. Desejára nesta occasião apresentar-vos um trabalho completo sobre recomendações e conselhos da sciencia á bem da saúde publica. 2

1 Relatório encaminhado à Assembleia Legislativa Provincial em 02 de julho de 1856, pelo presidente Salvador

Correia de Sá e Benevides, anexo número 2. 2

Relatório encaminhado à Assembleia Legislativa Provincial em 02 de julho de 1856, pelo presidente Salvador Correia de Sá e Benevides, p. 38.

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4 Procurando higienizar a cidade e concomitantemente prevenir novas epidemias, o então presidente da província ordenou que a água potável fosse examinada, removeu o abatedouro central para fora dos domínios do centro urbano e aterrou os diversos pântanos existentes. Para Salvador Correia de Sá

Uma medida que sem duvida reconhecereis necessaria e urgente é o estabelecimento de cemiterios dessiminados pela provincia, para que se não continue sob pretexto algum o funesto uso dos enterramentos nas igrejas 3. É nesse contexto de higienizar a cidade que vivos e mortos são separados do convívio diário, não compete mais dividirem espaço nas diversas celebrações ocorridas na igreja. O historiador João José Reis (1991, p. 76) defende que:

Os cadáveres humanos contavam entre as principais causas de formação de miasmas mefíticos, e afetavam com particular virulência a saúde dos vivos, porque eram depositados em igrejas e cemitérios paroquiais dos centros urbanos. Com a descoberta dos miasmas veio a descoberta do mau cheiro da decomposição cadavérica, que substituía o odorato piedoso da fase barroca. Uma queixa recorrente na época se dirigia contra o cheiro fétido que exalava das sepulturas, perturbando os narizes, repentinamente sensíveis, dos que freqüentavam as igrejas e dos que moravam próximos a cemitérios.

Enterrar os mortos no interior ou ao redor da igreja condizia com o um costume religioso, sob a justificativa de que estar sepultado em local santo garantiria ao morto a proximidade com Deus, e aos vivos que aqueles teriam um sono eterno sem perturbar os que aqui ficavam. Porém, tal mudança não ocorreu de forma pacífica em algumas cidades do Império. Na Bahia, em 1836, revoltosos destruíram o Cemitério do Campo Santo em Salvador, por não aceitarem que seus mortos fossem sepultados fora da igreja.

Em Sergipe, 22 anos após a revolta da Bahia, no governo de Avellar Brotero, notamos a preocupação em propagar pela província a criação de cemitérios, de acordo o Appenso G, em seu nono item, que solicita “o numero de Cemiterios existentes em cada Parochia”4. Com 5.969 habitantes, Aracaju era a nona cidade mais povoada, o que não lhe garantiu a existência de cemitérios decentes; diferentemente de Laranjeiras, a mais povoada5, com 9.105

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Relatório encaminhado à Assembleia Legislativa Provincial em 02 de julho de 1856, pelo presidente Salvador Correia de Sá e Benevides, p. 39.

4 Relatório encaminhado à Assembleia Legislativa Provincial em 14 de abril de 1858, pelo presidente João Dabney D’Avellar Brotero – Appenso G.

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Laranjeiras, nesse período, apresentou um grande crescimento populacional devido à significativa produção açucareira.

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5 habitantes6, a qual possuía o cemitério da Matriz e esperava a construção de outro campo santo, através de concessão feita à Irmandade do Senhor do Bomfim.

Os investimentos com construção de cemitérios não pararam; em 1859, no governo do presidente de província Manoel da Cunha Galvão, foram investidos “30:000$000 reis para a construcção de Cemiterios nesta Capital, e outros pontos da Província”7

Por fim, a morte virou assunto da administração provincial. Os defuntos deveriam ser sepultados fora das paredes das igrejas, rompendo com um costume que perdurava no Ocidente por séculos. Traços do Cristianismo foram mudados: o morto deixa de ser responsabilidade somente da Igreja, e passa a ser também do governo, que busca combater os miasmas e higienizar as cidades.

A edificação da cidade dos mortos

As diversas medidas higienistas surgidas no Brasil na segunda metade do século XIX alavancaram, na capital sergipana, a necessidade de se criar um cemitério público para sepultar os mortos. Tal demanda deveria ser suprida rapidamente, até porque não era mais tolerável enterrar os mortos no interior das igrejas, costume que deveria ser abolido.

As práticas de inumação até então vigentes foram consideradas pelos médicos como passíveis de serem extintas, uma vez que as emanações cadavéricas poluiriam o ar, o que era agravado pelo fato de serem muitas as igrejas localizadas no perímetro urbano, todas repletas de sepulturas que, quando abertas na presença dos fiéis, provocavam odores mefíticos, causadores de doenças e alimentadores das epidemias. (RODRIGUES, 1997, p. 22)

É nessa conjuntura de transformações que Aracaju implanta o seu primeiro cemitério. Não obstante, a cidade continuou cerscendo, aumentando consequentemente a demanda por um lugar ideal para transportar os enterramentos — até então realizados nas igrejas — a fim de se higienizar a cidade. É neste cenário que Aracaju, em 1859, no governo de Manuel da

6 Relatório encaminhado à Assembleia Legislativa Provincial em 14 de abril de 1858, pelo presidente João Dabney D’Avellar Brotero - Mappa estatístico da população livre e escrava da provincia de Sergipe.

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Relatório encaminhado à Assembleia Legislativa Provincial em 27 de abril de 1859, pelo presidente Doutor Manoel da Cunha Galvão, p. 12.

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6 Cunha Galvão, dá continuidade às obras do Palácio do Governo, o Palacete, a Alfândega, o Quartel de Linha e a Ponte de Aracaju8.

Até então, o cemitério existente na capital era um terreno cercado por varas, de fácil acesso, desrespeitando os mortos e constantemente vilipendiado por animais, que ultrapassavam facilmente suas barreiras, e por saqueadores, que, no calar da noite, depredavam os poucos jazigos existentes e saqueavam as cercas. Surpreso com tamanho descaso para com os mortos, o Imperador Dom Pedro II, em visita à província de Sergipe — desembarcando nestas terras em 11 de janeiro de 1859 —, declarou que seria necessário “uns Guardas todas as noites para evitar taes furtos”9.

Portanto, Manoel da Cunha Galvão, em relatório apresentado à Assembleia Provincial, em 05 de março de 1860, e provavelmente pressionado pelo Imperador, declarou:

O que fiz na Capital, foi nomear uma Comissão de pessoas entendidas para escolher o local apropriado. A Comissão já entregou o seu parecer, e eu encarreguei ao Capitão d’Engenheiros Pereira da Silva de levantar a planta de um cemitério com as condições precisas. Logo que elle conclua semelhante trabalho começará a construcção de uma obra tão urgente, e para qual a Sua Magestade o Imperador se dignou fazer donativo de 1:000$000.10 Ainda, em relatório de 15 de agosto de 1860, nomeia uma comissão mista

[...] composta dos senhores Chefe de Policia Dr. José Casado Accioli de Lima, Inspector da thesouraria Provincial Dr. Joaquim José de Oliveira, Vigario desta Capital Reverendo Conego Eliziario Vieira [ilegível] Telles, Capitão acima mencionado Bacharel Pereira da Silva, e Promotor Carlos Speridião de Mello e Mattos para tratarem de levar a effeito quanto antes o mesmo Cemiterio.

A comissão acceitou com o maior praser o seu encargo, e tem se exforçado para dar começo a obra immediatamente, começando por reunir material preciso. 11

Objetivando acelerar os trabalhos da comissão e sabendo que a quantia de um conto de réis doada pelo Imperador não seria suficiente, resolve convocar os missionários Frei Paulo e Frei David a fim de angariarem fundos para esta obra. Asssim, dez mil aracajuanos

8 Relatório encaminhado à Assembleia Legislativa Provincial em 05 de março de 1860, pelo presidente Doutor

Manoel da Cunha Galvão, p. 21.

9 Viagem Imperial a Provincia de Sergipe, ou narração dos preparativos, festejos e felicitações que tiverão logar por occasião da visita que fizerão á mesma província Suas Magestades Imperiais em janeiro de 1860. Bahia – Imp. Na Typografia do Diario – 1860, p. 31.

10 Relatório encaminhado à Assembleia Legislativa Provincial em 05 de março de 1860, pelo presidente Doutor

Manoel da Cunha Galvão, p. 13.

11 Relatório encaminhado à Assembleia Legislativa Provincial em 15 de agosto de 1860, pelo presidente Doutor Manoel da Cunha Galvão, p.12.

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7 carregaram a pedra que existia no porto para o cemitério — pois entendia-se que era uma obra urgente, necessária e que garantiria o descanso eterno em um local apropriado.12

Governo Provincial, justiça, tesouraria, Igreja e população, todos desejavam transpor as dificuldades existentes para edificação de um cemitério na capital, obra que seria responsável por colocar Aracaju dentro de um projeto urbanístico de acordo com as medidas higiênicas vigentes e já existentes em São Paulo, Salvador, Recife e no Rio de Janeiro.

Desse modo, em 12 de fevereiro de 1861, o capitão de engenheiros F. Pereira da Silva, em relatório, se pronuncia:

Esta obra que foi orçada em 43:780$000 reis, e para o qual deo S. M. o Imperador a quantia de 1:000$000 reis e contribuirão diversos com 600$000 reis acha-se á cargo de uma comissão composta do Sr. Dr. Hugulino Ayres de Freitas Albuquerque em substituição do Sr. Dr. José Casado Accioli Lima como Presidente e dos Snrs. Drs. Joaquim José de Oliveira, Carlos de Spiridião de Mello Mattos, Reverendo Vigario desta Freguezia, Negociante José Pereira de Magalhães, e de mim como membros. Forão precipitados os alicerces desta obra em Maio do anno passado na occasião em que nesta cidade pregavão os Missionarios Apostolicos Frei Paulo e Frei David, que relevantes serviços prestarao. Tem-se despendido a quantia de 1:600$000, não incluindo um dia de serviço gratis que na mesma obra trabalhou a Irmandade de S. José desta Capital em número de 40 operarios. Esta paralisada não obstante ter V. Ex. destinado e mandado pôr em a disposição da referida comissão a quantia de 5:000$000 reis, sendo causa, segundo penso, o não ter sido possível reunir-se a mesma comissão, por achar-se com parte de doente o Sr. Dr. Hugulino.13

Para as autoridades provinciais, a construção de um cemitério na capital, destinado aos despojos mortais de seus habitantes, cumprindo com as medidas higiênicas correntes naquele período, já tardava a acontecer. No entanto, o local destinado deveria ser fora da cidade, onde os miasmas não afetassem a população. No caso do cemitério em questão, já existia o local onde se praticavam algumas inumações, coube ao governo promover melhorias que evitassem o desrespeito aos mortos, o que contrariava os preceitos cristãos.

Para ser entregue, foi necessário que o presidente de província, Jacintho de Mendonça, entregasse à comissão a quantia de três contos de réis para o andamento da obra, o que não foi suficiente, sendo destinados mais dois contos de réis para o término das obras. Assim, em 23 de fevereiro de 1862, foi inaugurado o Cemitério Nossa Senhora da Conceição —

12 Relatório encaminhado à Assembleia Legislativa Provincial em 15 de agosto de 1860, pelo presidente Doutor Manoel da Cunha Galvão, p.12.

13 Relatório encaminhado à Assembleia Legislativa Provincial em 04 de março de 1861, pelo presidente Doutor

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8 posteriormente chamado de Santa Isabel, como ainda é conhecido hoje — e entregue para ser administrado pelo Hospital de Caridade, que possuía uma receita diminuta, tendo aí a oportunidade de adquirir novos recursos. Coube à comissão administrativa do hospital cumprir um regulamento com 24 artigos, dentre os quais destacamos os seguintes:

Art. 5º Ficão desde já prohibidas nesta cidade e seus arredores inhumações em qualquer outro lugar, que não no cemiterio, de que trata este Regulamento.

Art. 6º Para as despezas do cemiterio pagará o agente do enterro a quantia de 30$000 por inhumação feita em carneiro de primeira ordem; a de 25$000 pela que tiver lugar em o de segunda ordem; a de 6 mil réis quando em sepultura de primeira ordem; e de quatro quando em a de segunda, além dos gastos com os coveiros, e os que forem inherentes á abertura e fechamento da sepultura ou carneiro. Sendo para creanças atê a idade de sete annos, se pagará por carneiro de 1ª ordem 20$ - de 2ª ordem 15$ - e de 3ª 10$ réis; e por sepultura se pagará menos a 5ª parte na razão das taxas acima estabelecidas.

Art. 7º A commissão poderá conceder, mediante approvação do Governo da Provincia e autorisação Ecclesiastica, jazigos perpetuos e monumentos em espaços para tal fim designados, ficando á cargo dos respectivos donos a factura e conservação e taes jazigos e monumentos; bem como a demolição destes, quando ameaçarem ruína, guardadas neste caso as precisas cautelas sanitarias.

... Art. 13º Terão sepultura gratis no Cemiterio, e sempre as de 2ª classe: 1º Os cadaveres de pessoas indigentes, mediante attestado do Parocho, declarando ser gratuita a respectiva encommendação.

2º Os suppliciados, quando não reclamados por seus parentes e amigos, e os prezos tambem pobres, mediante attestado do Delegado de Policia.

3º Os cadaveres encontrados em qualquer lugar publico, quando não haja quem lhes queira dar sepultura, mediante attestado do Parocho ou do Delegado de Policia.

...

Art. 16º A autoridade sanitaria visitará tambem o Cemiterio ordinariamente de 3 em 3 mezes, e extraordinariamente sempre que julgar conveniente para providenciar sobre a falta de asseio, que por ventura encontre, e outras medidas de sua competência, que entenda deverem ser adoptadas.

...

Art. 18º Quaesquer construcções e escavações, que se fizerem no cemiterio, o serão por forma, que jamais prejudiquem as sepulturas, carneiros, tumulos ou outras obras feitas, e bem assim ao asseio e ordem do mesmo Cemiterio, e, dando-se o prejuízo, será este indemnisado por quem o motivar.

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9 Art. 20º Cada sepultura deverá ter 15 palmos de profundidade, tres e meio de largura, e dez de comprimento, guardando a distancia intermediaria de cinco palmos nos lados, e a de um e meio nas cabeceiras. Em cada sepultura se não poderá enterrar mais do que um cadaver, salvo o cazo de grande força de epidemia, em que seja necessario abrirem-se vallas, as quaes deverão ter a maior profundidade possivel, de modo que possão levar sobre os cadaveres nunca menos de 12 palmos de terra. Os carneiros serão fechados por uma parede de palmo espessura.

...

Art. 24º Os enterramentos dos que pertencerem aos differentes cultos tolerados pela Constituição Política do Imperio, e dos estão privados pelos Canones e Constituição Diocesana de sepultura em lugar sagrado, terão lugar em a quarta parte do terreno, que fica annexo ao Cemiterio, deste separado pela muralha que o limita posteriormente devendo para esse terreno, que tambem será fechado por muro ou cerca de madeira, visto pertencer ao mesmo Cemiterio, haver entrada differente.14

Nos seus primeiros anos de funcionamento, o Cemitério Nossa Senhora da Conceição foi responsável pela maior parte dos enterramentos na capital; nele foram enterrados homens livres, escravos e crianças de diferentes esferas sociais. No ano de 1862, foram enterrados 133 cadáveres15; em 186316, foram sepultados 178 defuntos17; em 1866, tivemos 186 enterramentos18; já em 1868, o número de inumações subiu para 26919; e em 1869, o número de sepultados elevou-se para 277, conforme apontam os diferentes relatórios de presidentes de província utilizados.

14 Relatório encaminhado à Assembleia Legislativa Provincial em 1º de março de 1862, pelo presidente Doutor Jacintho de Mendonça, p. 1-4.

15 Relatório encaminhado à Assembleia Legislativa Provincial em 04 de março de 1863, pelo presidente Doutor

Jacintho de Mendonça, p. 35.

16 O ano de 1863 foi marcado por dificuldades financeiras, conforme aponta o Presidente Alexandre Rodrigues

da Silva Chaves em relatório encaminhado à Assembleia Legislativa Provincial em 24 de fevereiro de 1864: “Este estabelecimento rege-se pelo regulamento nº 7 de 12 de Fevereiro, o qual baixou com o acto do Governo, da mesma data, que o entregou á direcção da comissão administrativa do hospital.

Com este acto o Governo teve por fim augmentar a receita do hospital. Mas suas previsões não se realisarão; porque a receita do cemiterio apenas chega para o pagamento das despesas do custeio.

Foi por este motivo, que a commissão, depois de ter montado um serviço regular de transporte de cadaveres, vio-se obrigada a acabar com elle, visto que o rendimento do cemiterio não chegava para occorrer as despesas da cocheira, e portaria.

Hoje os cadaveres são conduzidos a mão como autr’ora se praticava.

Nenhuma se fez no cemiterio durante o anno findo, por não ter orçamento provincial cotado credito para esta despesa.”

17 Relatório encaminhado à Assembleia Legislativa Provincial em 24 de fevereiro de 1864, pelo presidente Doutor Alexandre Rodrigues da Silva Chaves, p. 5.

18 Relatório encaminhado à Assembleia Legislativa Provincial em 21 de janeiro de 1867, pelo presidente Doutor José Pereira da Silva Moraes, mapa nº 14.

19 Relatório encaminhado à Assembleia Legislativa Provincial em 1º de março de 1869, pelo presidente Doutor Evaristo Pereira da Veiga, p. 15.

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10 Conclusão

Instituições como hospitais, cemitérios, prisões e hospícios, vistos como frutos do crescimento das cidades e, portanto, indispensáveis ao seu funcionamento, serviam, segundo os médicos, de focos de doenças, representando um perigo para o todo urbano. Não podiam e nem deviam ser abolidas, devendo, porém, ser expulsas do centro da cidade, já que suas localizações não obedeciam aos critérios de salubridade. Eram infectadas ao contato com os locais onde estavam instaladas, e as exalações e miasmas que geravam em seus espaços fechados, por sua vez, as infectavam, assim como a toda a cidade, constituindo-se em focos de epidemia e contágios. (RODRIGUES, 1997, p. 58)

De fato, a epidemia de cólera morbos que assolou a população sergipana em 1855 fez acelerar as medidas higienistas pela capital. A construção de um cemitério atendia aos preceitos higienistas que condenavam veemente o sepultamento no interior das igrejas, tidas como proliferadoras de miasmas. Os mortos, segundo a nova proposta de urbanização que combatia a desordem urbana, condizente com as medidas higienistas, deveriam possuir um local apropriado fora dos domínios da cidade.

É nessa perspectiva que surge o Cemitério Santa Isabel como principal campo santo de Aracaju. Nele, ricos e pobres, brancos e negros, adultos e crianças dividiam o mesmo espaço. No entanto, a cidade dos mortos reproduzia a estrutura da cidade dos vivos, ou seja, a estratificação se fazia presente naquele ambiente, conforme representa Lima Barreto, no conto

O cemitério:

Havia solicitações incompreensíveis e também repulsões e antipatias; havia túmulos arrogantes, imponentes, vaidosos e pobres e humildes; e, em todos, ressumava o esforço extraordinário para escapar ao nivelamento da morte, ao apagamento que ela traz às condições e às fortunas. (BARRETO, 2010, p. 304)

Por fim, esquecidos dentro das cidades, os cemitérios revelam grande potencial de estudo no âmbito da História Cultural, seja na sua criação, na relação dele para com a cidade, nas obras de arte funerária existente, na reprodução da estrutura social da cidade no cemitério. São novas perspectivas que aparecem e que trazem à tona a importância da morte como objeto de pesquisa da História.

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11 Sergipe (Província), Vice-Presidente Menezes Sobral, 11 de janeiro de 1845;

Sergipe (Província), Presidente Salvador Correia de Sá Benevides, 02 de julho de 1856; Sergipe (Província), Presidente Salvador Correia de Sá Benevides, 11 de abril de 1857; Sergipe (Província), Presidente Avellar Brotero, 14 de abril de 1858;

Sergipe (Província), Presidente Cunha Galvão, 27 de abril de 1859; Sergipe (Província), Presidente Cunha Galvão, 05 de março de 1860; Sergipe (Província), Presidente Cunha Galvão, 15 de agosto de 1860; Sergipe (Província), Presidente Thomaz Alves Jnior, 04 de março de 1861;

Sergipe (Província), Presidente Joaquim Jacintho de Mendonça, 01 de março de 1862; Sergipe (Província), Presidente Joaquim Jacintho de Mendonça, 04 de março de 1863;

Sergipe (Província), Presidente Alexandre Rodrigues da Silva Chaves, 24 de fevereiro de 1864;

Sergipe (Província), Vice-presidente Ângelo Francisco Ramos, 20 de janeiro de 1866; Sergipe (Província), Presidente José Pereira da Silva Moraes, 21 de janeiro de 1867; Sergipe (Província), Presidente Evaristo Pereira da Veiga, 01 de março de 1869; Sergipe (Província), Francisco José Cardoso Júnior, 03 de março de 1871;

Referências

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Referências

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