Universidade de Brasília – UnB
Instituto de Letras – IL Departamento de Línguas Estrangeiras e Tradução – LET Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada – PPGLA Disciplina: Aquisição de Segunda Língua
Prof. Dr. Yûki Mukai
Aluna: Lígia Soares Sene
MODELO DA ACULTURAÇÃO
PAIVA, V. L. M. O. Modelo de Aculturação. In: PAIVA, V. L. M. O. (Org.). Aquisição de
segunda língua. São Paulo: Parábola Editorial, 2014. p.51-64.
Essa é uma resenha crítica referente ao capítulo Modelo da Aculturação, que integra a obra Aquisição de segunda língua (2014) de Vera Menezes de Oliveira e Paiva.
A autora desse livro é brasileira, professora titular da Faculdade de Letras da UFMG. Atua nas linhas de pesquisa em “Ensino/Aprendizagem de línguas estrangeiras” e em Linguagem e Tecnologia. Ela tem publicações diversas nos seguintes temas: aquisição de língua inglesa, pesquisa narrativa, ensino de línguas mediado por computador, gêneros digitais.
O capítulo Modelo da Aculturação discorre sobre o modelo, proposto por Shumann em 1978, da aculturação1. Conforme Paiva (2014) apresenta inicialmente, Shumann propôs esse modelo numa tentativa de investigar as causas da aquisição2 de segunda língua (ASL) em contexto natural. Dessa forma, ele partia da ideia que era possível aprender uma língua de forma natural, sem a necessidade de uma instrução formal, apenas em contato com os falantes da língua.
O texto é estruturado em seis tópicos. Nos três primeiros tópicos são descritos fatores que envolvem e definem aculturação, segundo Shumann. Nos demais (4 ao 6) são apresentadas críticas ao modelo proposto, evidências de aculturação, por meio de narrativas de aprendizes de língua e uma conclusão que entrelaça a visão de Shumann com a posição que Paiva tem sobre a complexidade que envolve o processo de ASL e sobre o termo aculturação. O texto de Paiva apresenta uma escrita fluida e bem didática.
1 SCHUMANN, J.H. The Accultration Model for Second-Language Acquisition. In: GINGRAS, R.C. (Org.) Second- Language Acquisition & Foreign Language Teaching. Washington: Center for Applied Linguistic, 1978a, p.27-50.
2 Vale ressaltar que faço a distinção entre aquisição e aprendizagem. Segundo Leffa (1988) a aquisição é o aprender informal e natural, obtido em situações reais; enquanto aprendizagem é o aprender formal e consciente do sistema gramatical de uma língua, adquirido em sala de aula.
Segundo a autora, Shumann lista vários fatores identificados por ele e outros pesquisadores, que influenciam na aquisição de segunda língua. Ele dispõe esses fatores em nove grupos, sendo eles: social, afetivo, personalidade, cognitivo, biológico, aptidão, pessoal, instrucional e insumo linguístico. No entanto, Paiva afirma que para Shumann há dois que são mais importantes: o social e o afetivo, que foram agrupados, pelo próprio Shumann, em uma única categoria denominada de aculturação.
Dessa forma, aculturação foi definida por Shumann (1978) como “a integração social e psicológica do aprendiz com o grupo da língua-alvo” (apud PAIVA, 2014, p.51). Para ele, a proximidade ou a distância social e psicológica dos falantes da língua-alvo influencia no processo de aquisição, ou seja, aquisição é fruto da aculturação.
Shumann, segundo Paiva, divide a aculturação em dois tipos. No primeiro, o aprendiz está socialmente integrado ao grupo da segunda língua, assim como aberto psicologicamente para a aprendizagem da língua. No segundo, além dos mesmos fatores do primeiro, (social e psicologicamente integrados), há o quesito “admiração”, ou seja, o aprendiz toma como referência os falantes da língua-alvo, adotando, consciente ou inconscientemente seus valores e estilo de vida. Entretanto, Paiva ressalta que na visão de Shumann a adoção dos valores e estilos não é condição imprescindível para aquisição, mas o contato social e o psicológico são necessários.
No primeiro tópico é descrito sobre como as variáveis sociais podem promover ou dificultar o contato entre dois grupos sociais de línguas diferentes, e como elas influenciam no grau de aculturação. Para melhor compreender e visualizar essas variáveis, Paiva relata que Shumann as divide em cinco fatores, no entanto, a autora em seu texto, apresenta sete fatores, a saber: padrões de dominação; estratégias de integração; fechamento; coesão e tamanho; congruência ou similaridade, atitude e tempo de residência pretendido. Esses fatores refletem diretamente em um maior ou menor grau de aquisição da segunda língua. O primeiro, padrões de dominação, diz respeito às relações de poder, ou seja, um grupo cultural ou politicamente dominante apresenta resistência em aprender a língua do grupo dominado, da mesma forma que acontece a situação inversa.
O segundo fator, estratégias de integração, compreende o processo de assimilação, preservação e adaptação. Para Shumann, assimilação se refere a absorção de valores e estilos de vida do outro. Quanto maior for o processo de assimilação, melhor será a aquisição da ASL. Preservação é quando há resistência à cultura do outro. Quanto maior for a preservação, menor será a aquisição e adaptação é quando um grupo mantém os seus valores e estilos de
vida, mas se adapta ao grupo da língua-alvo, nesse caso, Paiva relata que Shumann considera que o contato entre os grupos assim como o grau de aquisição serão variáveis.
O terceiro se destina ao fechamento que se refere ao grau de compartilhamento de atividades sociais entre os grupos. Quanto mais as atividades sociais forem compartilhadas, menor o fechamento e melhor a aquisição. O quarto fator é o da coesão e tamanho que trata do tamanho do grupo, ou seja, grupos grandes de uma língua tendem a ficar separados do grupo da língua-alvo. O quinto trata da congruência ou similaridade entre as duas culturas, quanto mais semelhanças, mais facilitada será a aquisição.
O sexto fator refere-se a atitude, ou seja, o sucesso da ASL está ligado às atitudes positivas e recíprocas dos grupos. E o sétimo direciona-se ao tempo de residência pretendida, quanto mais tempo permanecer no contexto da segunda língua, mais alta a probabilidade de um maior contato com o grupo da língua-alvo, proporcionando uma melhor aquisição.
Paiva, no segundo tópico, apresenta as variáveis afetivas que incluem o choque linguístico; o choque cultural; a motivação e a permeabilidade do ego.
O choque linguístico concerne as dificuldades e aos problemas que um adulto expõe para aprender uma segunda língua. Um adulto, por medo do “ridículo” ou vergonha, fica com medo de ousar a comunicação na língua-alvo, já uma criança não tem medo, pois vê na comunicação um divertimento. O choque cultural refere-se a situação de ansiedade e estresse que uma pessoa apresenta, quando inserida em um meio cultural diferente. Esse choque acaba por interferir negativamente na aprendizagem da língua.
Shumann, de acordo com Paiva, busca apoio em outros teóricos para discorrer sobre a motivação, que foi classificada em dois segmentos: integrativa e instrumental. A primeira aponta para o desejo de fazer parte do grupo da língua-alvo, a segunda para o desejo de ganhar reconhecimento social ou econômico dentro do grupo da língua. Para Shumann, a mais poderosa é a motivação integrativa, pois ela impulsiona o aprendiz a saber mais sobre o grupo da língua e assim até a se assemelhar aos falantes desse grupo. Por último, o fator permeabilidade do ego destina “a percepção que se tem dos limites da língua” (PAIVA, 2014, p.55). Para Shumann, a permeabilidade do ego auxilia na aculturação.
No terceiro tópico, Paiva expõe a hipótese da aculturação, apresentando logo em seguida o caso de Alberto, no qual Shumann se baseou para propor a hipótese. A hipótese de Shumann é que o grau de aculturação de um aprendiz no grupo da língua-alvo controlará o grau de aquisição da língua. Ou seja, quanto maior for o grau de aculturação, maior será a aquisição e assim o inverso também ocorre. Na defesa dessa hipótese, Shumann, juntamente com outros pesquisadores, fizeram um projeto que tinha por objetivo investigar o processo de
aquisição da negativa de seis falantes nativos de espanhol (duas crianças, dois adolescentes e dois adultos) que estavam aprendendo inglês nos Estados Unidos, sem instrução formal. O estudo durou dez meses. Dentre os participantes, um tomou a atenção de Shumann, Alberto, que ao contrário dos demais participantes, não apresentou bom desenvolvimento no processo de aquisição. O inglês de Alberto foi classificado por Shumann como pidginizado, isto é, ele apresentava uma fala simplificada, sem morfologia flexionada e sem variações gramaticais.
Shumann, na tentativa de identificar o motivo do insucesso de Alberto, apontou alguns fatores, que em sua visão, podem ter influenciado no seu processo de aquisição. Os fatores são: distância social, fechamento e coesão de grupo - Alberto pertencia a uma classe social de trabalhadores de pouco status e vivia em um bairro que tinha outros imigrantes. Poucos foram os esforços feitos por Alberto para interagir com os falantes da língua, isto é, ele não tinha muita motivação e necessidade de se relacionar e, por último, ele não frequentava as aulas oferecidas pela Universidade de Cambridge. Ao que se refere ao fato dele não frequentar as aulas, Shumann pressupôs que ele não procurou a escola, pois sua fala pidginzada era suficiente para suas necessidades.
Todos esses fatores identificados estão ligados à hipótese de aculturação. No entanto, Shumann reconhece que o seu modelo da aculturação tem problemas e que não pode ser generalizado, pois não foi aplicado a outros contextos de aquisição de língua, como por exemplo citado - elite europeia adquirindo inglês em seus próprios países. Nesse caso, Shumann propõe um outro processo, o de encurtamento, que é quando o aprendiz assimila a língua estrangeira com o objetivo de se tornar membro de um segmento de sua própria cultura, ou seja, mais por uma questão de status. Além disso, Shumann considera que outras forças motivadoras podem agir em outros contextos de ASL e por isso é mister que se faça novas pesquisas.
Shumann recebeu críticas ao seu modelo que são descritas por Paiva no quarto tópico. As críticas se referem ao fato de Shumann enfocar apenas na questão da integração social e psicológica do aprendiz com o grupo da língua-alvo, deixando de explicar a aquisição nos contextos em que a língua não é falada. Além disso, por ele ter apenas se concentrado em um informante, não poderão ser feitas generalizações, pois cada indivíduo possui sua singularidade no processo de aquisição.
Paiva apresenta a crítica que Cook (1993) fez ao modelo. Para ele, Shumann escolheu um aprendiz malsucedido, o que é insuficiente para aplicar a teoria e que ele apenas levou em conta os dados que apresentam a produção do aprendiz e não os dados sobre sua
compreensão, além disso, ele voltou o seu interesse apenas em explicar o mal desempenho de Alberto.
Apesar das falhas na teoria, Paiva afirma que a questão da aculturação proposta por Shumann é uma questão muito importante e que pode ser encontrada em narrativas de aprendizagem de aprendizes brasileiros estudando inglês no Brasil. Essas narrativas são descritas no tópico seguinte.
As narrativas apresentadas foram retiradas do projeto AMFALE3, que reúne pesquisadores interessados em investigar aspectos diversos dos processos de aquisição da segunda língua. O projeto é coordenado por Paiva e disponível online. A autora argumenta que o intuito de apresentar as narrativas é pela necessidade de tentar exemplificar ou aplicar a hipótese de aculturação proposta por Shumann.
São apresentadas quatro narrativas. A primeira é sobre o aprendiz Márcio, que desde criança sonhava em ser americano, e como narrado, esse desejo foi tão latente que o motivou a aprender inglês e até mesmo a se tornar professor de inglês. Nessa narrativa fica evidente a motivação e o interesse dele pela cultura e pela língua. A segunda narrativa se refere a aprendiz Isabel que, ao contrário de Márcio, não apresenta empatia pela cultura americana e por consequência, hesita em aprender o inglês. No entanto, por sua vontade de se tornar uma cidadã “globalizada”, decidiu fazer cursos para aprender a língua, ou melhor, como ela mesma diz “botar essa língua na minha cabeça” (PAIVA, 2014, p.60).
As duas narrativas de acordo com Paiva, representam dois extremos, a primeira remete ao modelo de aculturação no que concerne a proximidade, fascínio e abertura que o aprendiz tem pela cultura da língua-alvo, já a segunda pelo afastamento, repúdio e fechamento que a aprendiz tem pela cultura americana e pela língua inglesa.
A terceira narrativa refere-se a uma aprendiz que necessitava aprender o inglês por uma questão específica, fazer mestrado, dessa forma, ela se dedica a estudar formalmente a língua inglesa. Ela relata que além das aulas intensivas, ela procurou outros meios mais práticos, como o ICQ4 e que em quatro meses já conseguia se comunicar tranquilamente. Em sua narrativa não é percebido, em nenhum momento, alguma fala que demonstre que ela tenha proximidade ou mesmo afastamento da cultura da língua. Ela simplesmente conta que quer aprender o inglês para fazer o mestrado.
Na quarta e última narrativa, a aprendiz quer aprender uma língua estrangeira, a princípio o inglês e o espanhol, pelo motivo de querer entender as músicas tocadas nessa
3 Projeto disponível em: http://veramenezes.com/amfale.htm
língua, no entanto, por condições financeiras e de oportunidades, ela acaba estudando a língua francesa, pela qual se apaixona.
No último tópico, Paiva faz suas considerações, ponderando que o conceito de aculturação é muito forte, quando sugere que a aprendizagem de uma língua implica a perda da identidade. Ela ressalta que ASL é um processo mais complexo do que o modelo de Shumann, pois envolve outros fatores e também porque sua hipótese ainda não apresenta evidencias concretas e lineares. No entanto, Paiva conclui que o modelo de aculturação não pode ser descartado, pois ele é importante para nos alertar sobre como e em qual intensidade as variáveis sociais e psicológicas influenciam positivamente ou negativamente na aprendizagem de um idioma.
O texto de Paiva apresenta de forma bem didática e descritiva o Modelo da aculturação de Shumann, no entanto, deixa a desejar quando são apresentadas algumas críticas referentes ao modelo e as evidencias nos exemplos de narrativas de aprendizes.
Sobre as críticas, a meu ver, foram previsíveis e até mesmo já identificadas pelo próprio Shumann. A primeira crítica que Paiva apresenta é sobre o modelo não explicar a aquisição em contextos em que a língua não é falada e que por apresentar apenas um informante, no caso, Alberto, não era possível fazer generalizações. Shumann, conforme a própria Paiva expõe, já havia alertado que seu modelo possuía falhas, pois só foi feita com imigrantes e não se aplicava a outros contextos, assim, por essa afirmação, já podemos inferir que não há como fazer generalizações.
Já a crítica que Cook faz ao modelo de Shumann, a considero pertinente, pois realmente Shumann acabou por focar no aprendiz Alberto, pelo fato dele não ter apresentado bom desenvolvimento no processo de aquisição, se limitando ao primeiro estágio durante o tempo de pesquisa. Seria interessante Shumann ter dado uma visão também dos demais participantes, talvez focando naquele que melhor havia apresentado bom desenvolvimento, e com esses extremos, poderia fazer uma comparação dos casos e dos fatores que envolvem a sua hipótese da aculturação.
Ao que concerne as quatro narrativas, primeiramente, no meu ponto de vista, não contemplam o mesmo contexto que Shumann aplicou a sua hipótese- contexto em que o aprendiz está inserido no país da língua-alvo e adquire a língua em contexto natural, isto é, sem instrução formal. Em todas as narrativas, os aprendizes não estão no país da língua estudada e, salvo a narrativa de Márcio, relatam que tiveram uma instrução formal da língua, ou seja, não a adquiriram em contexto natural. Tendo em vista esses apontamentos, não há
como validar o modelo de aculturação nas narrativas, pois o contexto foge da premissa que Shumann parte, que é adquirir uma língua de forma natural, em contato com seus falantes.
Além do apontamento acima, na narrativa de Márcio, Paiva diz que podemos encontrar caraterísticas de aculturação, no entanto, ela não expõe nenhum exemplo dessas caraterísticas, mas apenas relata que ele tem uma grande admiração pela cultura americana. Quando ela aponta ter essa aculturação, acredito que deveria descrever um exemplo mais concreto, por exemplo, hábitos, valores e estilos de vida que Márcio tem e que são provenientes da cultura americana. Só é dito que ele tem uma admiração pelo outro país e que utiliza no seu dia a dia a língua inglesa, tanto por questões profissionais quanto por gosto. Dessa forma, não vejo um processo de aculturação, tanto por não estar inserido no contexto e por não descrever evidências concretas de aculturação, mas a meu ver, apenas evidências de afinidade pela cultura americana.
Não somente na primeira narrativa, mas em todas as demais, o processo que acredito que há é o que a própria Paiva apresenta, o de afiliação, isto é, o grau de interesse, afinidade e identidade que o aprendiz tem ao idioma e a cultura da língua-alvo. E esse processo de afiliação se diferencia do processo de aculturação, pois não implica necessariamente na perda da identidade e não tem especificamente por contexto a aprendizagem de forma natural e sem instrução formal. Nas narrativas não há indícios dessa perda de identidade, até porque esse processo de perda, no meu ponto de vista, não é tão simples e possível, pois implica na anulação, no apagamento do próprio individuo, e para aquisição de segunda língua, não há a necessidade desse apagamento, mas de uma afiliação, seja ela integrativa, comunicativa, instrumental, cultural ou afetiva pela língua.
Essas ramificações de afiliação feitas por Paiva são interessantes para entender o processo de aquisição das narrativas apresentadas. Na primeira narrativa há afiliação integrativa e afetiva pela língua, já na segunda evidencia uma afiliação comunicativa, na terceira uma afiliação meramente instrumental e na última narrativa uma afiliação, a meu ver, de oportunidade e em seguida afetiva. Dessa forma, acredito que Paiva deveria ter apresentado narrativas que realmente pudessem contemplar o contexto proposto pela hipótese de aculturação, para que assim pudessem ter mais credibilidade na investigação e comprovação das evidencias do modelo de aculturação.
No entanto, o texto de Paiva é interessante para entender que o processo de aquisição de segunda língua é complexo e não só envolve a questão de aculturação ou afiliação, mas vários outros fatores tão importantes e decisivos. Dessa forma, além desse texto, sugiro que
faça a leitura dos demais textos que estão no mesmo livro para então ter uma dimensão mais ampla e sólida sobre os outros fatores que influenciam na ASL.