O FALAR SOBRE O TRABALHO: A CONSTRUÇÃO DE SENTIDOS PELO DIÁLOGO
TALITA DE ASSIS BARRETO (UERJ E PUC-RIO)
Introdução
Esta comunicação tem por objetivo apresentar o dispositivo metodológico elaborado em uma investigação a respeito da partici-pação do professor de ensino básico como apresentador de trabalhos em eventos acadêmicos dentro do quadro de atividades docentes1.
Seu fundamento teórico pressupõe a existência de mundos de traba-lho que compreendem os professores dentro e fora da sala de aula (Amigues, 2004; Schwartz, 2002a) e a formação para o ensino com base em determinados ingredientes da competência (Schwartz, 1998). Dessa forma, é a partir da produção de falas sobre o trabalho, especialmente daqueles que são os seus protagonistas – os trabalha-dores – que se constrói o conhecimento sobre o objeto trabalho, per-mitindo a ampliação da capacidade de agir dos sujeitos em seus dis-tintos contextos de atuação (Faïta, 1989; Clot et al, 2001).
Serão apresentadas, a seguir, quatro seções: a primeira com uma descrição do contexto da pesquisa; a segunda com seu panorama teórico; a terceira com o dispositivo metodológico e, por último,
1 Para uma leitura mais abrangente sobre o assunto, remeto a Barreto
algumas considerações finais.
1. O CONTEXTO DA PESQUISA
Quando o trabalho do professor é colocado em questão, o pri-meiro aspecto – e, lamentavelmente, muitas vezes o único – lembra-do é o da sala de aula. No entanto, a atividade lembra-docente abrange face-tas e espaços diversos que são constitutivos do seu trabalho. O obje-tivo da pesquisa em questão é, exatamente, dar visibilidade a esse aspecto do trabalho do professor que é raramente ressaltado ou, pelo menos, lembrado. Colocou-se em discussão se, ao compartilhar com seus pares, em um evento acadêmico, seus anseios e suas conquistas, o professor reforça o lugar estabelecido para e por ele.
A freqüente invisibilidade da participação de professores do ensino médio em eventos acadêmicos levou-me à reflexão sobre a importância de uma investigação sobre essa atividade. Com isso, por um lado, pode-se lançar um outro olhar sobre o campo de atuação possível para esse professor e, por outro, estimulá-lo a integrar-se às discussões suscitadas em tais momentos.
Para levá-la a cabo, optei por valer-me de um evento, promo-vido pela Associação de Professores de Espanhol do Estado do Rio de Janeiro (APEERJ), intitulado Primeiro Grupo de Trabalho:
Daher e co-orientado pela Profa. Dra. Maristela França, no Programa de Pós-graduação em Letras, área de concentração em Lingüística, UERJ
riências Bem-sucedidas2. Por meio dele, poderia colocar em questão
essa faceta que julgo ser desconsiderada pelos próprios professores e, mais ainda pelos que não têm a docência como profissão.
Para a construção do dispositivo metodológico utilizado na in-vestigação proposta baseei-me no pressuposto de que um coletivo de professores deveria ser mobilizado para participar do processo de análise de sua atividade profissional, fazendo surgir falas sobre o trabalho em um novo gênero. Portanto, engajar diferentes professores em torno de um mesmo objeto de reflexão, formando uma comuni-dade dialogica de pesquisa (França, 2002), foi o principal desafio encarado no processo deste estudo.
2. FUNDAMENTOS TEÓRICOS
Ao dedicar-se a uma pesquisa sobre “os mundos” do trabalho do professor, cabe ao lingüista lançar mão dos conceitos e procedi-mentos daquelas disciplinas que têm o trabalho como seu objeto de investigação, como a Ergonomia situada e a Ergologia.
É importante observar, como destaca o filósofo Yves Schwartz (Op. cit., p. 4), que a questão primeira é “[...] quem pode definir o que é uma situação de trabalho? Ou, melhor ainda, um ‘meio’ de
2 O “Primeiro Grupo de Trabalho: Experiências Bem-sucedidas”, em
pro-trabalho?”. Dessa maneira, todo pesquisador deve indagar-se sobre que atitude adotar, visto que é difícil, inicialmente, determinar o que é situação de trabalho ou meio de trabalho. No caso desta pesquisa, a questão é ainda mais complexa, já que a proposta é refletir se deter-minada situação pode ser considerada como fazendo parte do traba-lho docente.
Conforme afirma Schwartz (Idem, p. 4), é ainda mais comple-xa a resposta a tal indagação pois há, no campo do trabalho, “areas de interesse, imersões diferentes na realidade industriosa e histórico-social que suscitam e requerem por parte dos protagonistas ‘usos de si’ em parte comuns, em parte diferentes” (Id., ibid., p. 4).
O conceito de uso de si advém da concepção de que o trabalho não é simplesmente a execução de tarefas impostas por terceiros, conforme pressupõe o modelo de organização taylorista-fordista.
A preocupação sobre a relação entre o homem e o trabalho é antiga e vem se desenvolvendo a partir de perspectivas distintas que pretendem compreender a atividade de trabalho. No entanto, foi a partir de meados do século, com o desenvolvimento da Ergonomia situada e, nos últimos dez anos, da Ergologia, que o trabalhador passou a ser visto como aquele que faz uso de si quando realiza a atividade, e não aquele que simplesmente executa uma tarefa impos-ta.
fessores pudessem compartilhar com os demais colegas alguma experiên-cia desenvolvida em sala de aula.
A tarefa é aquilo que se prescreve ao trabalho, o que se quer que seja feito, enquanto que a atividade é a realização dessa tarefa, o real trabalho humano: entre ambas existe uma distância que é consti-tutiva. Segundo Schwartz (2002b), mesmo nas atividades de trabalho cujos procedimentos são os mais rigorosos e repetitivos, ocorre essa distância entre o prescrito – o que se espera que o indivíduo faça – e o real – o que, de fato, é realizado.
A crença no fato de que o homem se limite, no seu trabalho, aos padrões de procedimentos é, de acordo com Schwartz (2002a) uma forma de “contribuir à tentativa de bloquear a história, de blo-quear as ‘reservas de alternativa’ imanentes a toda situação humana de atividade”. O ser humano é capaz, por suas competências, de re-definir os seus modos de realizar a atividade para além das prescri-ções.
Dessa forma, a Ergonomia situada, por meio da análise do tra-balho real, apresenta o conceito de tratra-balho prescrito colocando em evidência a distância que há entre o que se orienta que seja realizado e o que, de fato, se concretiza no trabalho. Seu objetivo é analisar o trabalho, procurando descrevê-lo e realizando observações acerca dos prováveis desfuncionamentos, sugerindo uma mudança de situa-ção.
Os estudos acerca do trabalho receberam aportes preciosos dos conceitos ergonômicos de trabalho prescrito e trabalho real, possibi-litando um novo olhar sobre a atividade humana. A partir desses conceitos, considerando que é impossível imaginar a atividade como
um mero ato de cumprimento do prescrito, Schwartz (Op. cit.) pro-põe uma ampliação dessa compreensão para um espaço de debate de
normas antecedentes e renormalizações, concebendo a Ergologia. Schwartz (Op. cit.) institui a abordagem ergológica, dirigida
para a produção de saberes sobre o trabalho. Os conceitos de trabalho prescrito e real são, portanto, ampliados para os conceitos de normas antecedentes e renormalizações. Tais normas abrangem os “saberes científicos e técnicos que se constituem em instalações, procedimen-tos, normas de utilização e também codificações organizacionais, ligadas às formas sociais do trabalho, às redes de poder e autoridade” (Telles; Alvarez, 2001, p. 18).
A ergologia, “disciplina de pensamento”, tem como finalidade a construção de conceitos rigorosos, mas também “deve indicar nes-tes conceitos como e onde se situa o espaço das (re)singularizações parciais, inerentes às atividades de trabalho” (Schwartz, 2000, p. 45). A atividade está intimamente relacionada a quem a realiza; assim sendo, é inevitável que aconteçam tais (re)singularizações por parte de cada trabalhador.
As normas antecedentes ou registro 1 (R1) não especificam o que fazer diante de algo inesperado. Por tal razão, de modo geral, dificilmente se toma conhecimento do que ocorre nessas circunstân-cias. Amigues (2004) assegura que, nessas emergências do cotidiano laboral, o trabalhador pode experimentar novos modos de fazer, indo além do que estava previsto. Em muitas ocasiões, ele precisa ir con-tra as normas para conseguir enconcon-trar a solução do problema
en-frentado naquele momento. Assim, nunca se faz uma atividade de maneira idêntica: a repetição existe, mas mesmo na repetição há variação. As normas antecedentes são renormalizadas freqüentemen-te na atividade de trabalho.
Portanto, quando o trabalhador realiza individualmente sua a-tividade, fazendo uso de si, usando sua própria experiência, ocorre a renormalização ou registro 2 (R2). Singularizar a atividade, fazer os ajustes necessários para sua efetivação é fazer uso de si, empregar o saber que cada sujeito possui sobre o fazer de seu trabalho.
Para Schwartz, a abordagem ergológica implica mudança no modo de encarar o trabalho como objeto de pesquisa, reconhecendo-o nãreconhecendo-o sreconhecendo-omente “enquantreconhecendo-o atividade, mas creconhecendo-omreconhecendo-o atividade pertencente à história, o que pressupõe a aceitação de que toda mudança para ser eficaz implica uma reinvenção local a partir de um patrimônio ante-cedente” (Souza-e-Silva, 2002, p. 64)
Feitas tais considerações sobre o trabalho, a seguir, apresento o dispositivo metodológico construído para a investigação.
3. DISPOSITIVO METODOLÓGICO: O FÓRUM DE DISCUS-SÃO
Para concretizar o objetivo desta pesquisa, deslocando a dis-cussão sobre o trabalho do professor da sala de aula para outras situ-ações da atividade docente foi fundamental a criação de uma comu-nidade dialógica (França, op. cit.) com os trabalhadores. Com isso, a opção por realizar um estudo voltado para constatar que reflexões
traz o professor de ensino básico a respeito desse tipo de atividade – se de fato se vê ou não em atividade de trabalho ao apresentar-se em eventos e qual a relevância disso para ele – nasceu do diálogo.
As falas sobre o trabalho originadas no dispositivo metodoló-gico criado, um fórum de discussão, representam elos na cadeia dia-logica propria a qualquer discurso, de acordo com a concepção de língua como um enunciado concreto e dialógico do circulo de Bakh-tin (1992). Dessa forma, sua historicidade é constitutiva, mas estão situadas no espaço dialogico intencionalmente recortado por esta investigação.
Portanto, a opção metodológica desta pesquisa se sustenta na concepção teórica do enunciado dialógico, que vê em todo discurso a presença de outros discursos, tecendo, em conjunto, novos enuncia-dos.
O fórum de discussão foi construído a partir das seguintes eta-pas: (a) filmagem do evento intitulado Primeiro Grupo de Trabalho:
Experiências bem-sucedidas; (b) assistência do material filmado pelo
grupo de professoras integrantes da comunidade dialógica de pesqui-sa; (c) realização do fórum de discussão, propriamente dito.
a) A observação e filmagem do evento
Organizado pela Associação de Professores de Espanhol do Estado do Rio de Janeiro (APEERJ), o Primeiro Grupo de Trabalho:
Experiências bem-sucedidas foi realizado em novembro de 2002, na
Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Durante as sessões do grupo dedicado ao ensino básico, as a-presentações e os debates que lhes seguiram foram filmados. Tal procedimento captou as participações em detalhes, visando a uma melhor observação das etapas de apresentação de cada docente. A finalidade da filmagem era não apenas realizar a transcrição das falas dos professores, mas também analisar suas reações e seu modo de conduzir a atividade.
b) A assistência da filmagem
As docentes receberam as fitas com a gravação do evento para, em suas próprias residências, poderem ver e rever a fita como quises-sem. O objetivo desse procedimento era que pudessem resgatar na memória a circunstância vivida, as falas produzidas, o uso de si para a execução da tarefa. Isso possibilitou um primeiro momento de re-flexão a respeito da apresentação de trabalhos em eventos acadêmi-cos estabelecendo uma relação quanto à questão de ser ou não uma atividade de trabalho do professor.
c) O fórum de discussão
Considerando o dialogismo (Bakhtin, op. cit.) como inerente a toda e qualquer prática de linguagem, o objetivo do fórum de discus-são era propiciar ao coletivo de pesquisa um ambiente propício a uma abordagem dialógica sobre sua atividade. Tal dispositivo meto-dológico nos pareceu adequado para este estudo por permitir a cons-trução do sentido pelos sujeitos. Ao verbalizar seu ponto de vista, o sujeito considera o que seu co-enunciador está apreendendo do que está sendo dito e, a partir do que o outro está expondo, ele reformula o que diz antecipando as prováveis reações do outro.
Concebendo o fórum como um momento de construção do sentido sobre a atividade do professor, trabalhou-se com a hipótese de que nesse espaço as docentes colocariam em questão suas experi-ências anteriores à realização desse encontro. Por tal razão, as pro-fessoras considerariam todas os possíveis enunciados de seu co-enunciador, tendo em vista que são antecipados pelo sujeito, mesmo que não se concretizem no momento da enunciação. O fato de supor como o co-enunciador está recebendo o que está sendo dito faz com que o sujeito reformule seu discurso, dialogando com o outro, que representa um papel fundamental na enunciação. Como afirma Bakh-tin (1992: 320): “Os outros, para os quais meu pensamento se torna, pela primeira vez, um pensamento real (e, com isso, real para mim), não são ouvintes passivos, mas participantes ativos da comunicação verbal”. Portanto, de acordo com a teoria de linguagem do pensador
russo, cada docente atuaria como participante ativa da comunicação verbal.
A partir de um roteiro previamente construído para a ocasião, ressaltei, ao iniciar o fórum, a importância da participação das docen-tes no processo de construção coletiva de sentido a respeito da ativi-dade de trabalho do professor.
Em seguida, procedi à leitura de um texto sobre a APEERJ e realizei algumas perguntas que funcionariam como gatilho provoca-dor da discussão. Após algumas reflexões, solicitei-lhes que indicas-sem o fragmento da gravação do evento que deveria ser visto. Infor-mei-lhes que passaria a fita e elas deveriam escolher o trecho que lhes interessasse. Adiantei a fita e fiz várias pausas para que selecio-nassem um fragmento a ser visto. Assistimos, então, sem interrup-ção, 10 minutos de fita. É importante recordar que o evento filmado ocorreu em 2002, enquanto que o do fórum de discussão foi realiza-do em outubro de 2004. Havia, deste morealiza-do, quase realiza-dois anos de dife-rença entre os dois momentos. Rever a filmagem durante o fórum, em companhia de uma colega e a pesquisadora, significava recuperar aquele momento, passando por uma situação de confrontação com a atividade realizada em 2002. O fórum foi gravado em áudio para que, posteriormente, fosse possível proceder à transcrição das falas a serem analisadas.
Nesta comunicação não se apresenta a análise, pois o foco está direcionado para o dispositivo de criação de falas sobre o trabalho.
Na próxima seção destacam-se algumas conclusões a partir das falas produzidas no fórum de discussão.
Considerações Finais
A partir da realização de um trabalho de construção de co-nhecimento envolvendo professores de língua espanhola de ensino básico, esta pesquisa visava a discutir se o professor de ensino básico se percebe em situação de trabalho quando apresenta trabalhos em eventos acadêmicos. Para concretizá-la, recorreu-se à abordagem ergológica da atividade e encaminhou-se a pesquisa no sentido de construir um dispositivo metodológico que fizesse emergir falas so-bre o trabalho, tendo como fundamento inicial uma autoconfrontação do trabalhador com sua atividade de trabalho (Clot, 1999; Faïta, op.
cit.). Como base para a análise das falas produzidas pelo coletivo da
pesquisa, foram utilizados os princípios dialógicos de linguagem do círculo de Bakhtin (Op. cit.).
Conclui-se que a participação do professor como apresentador de trabalhos em eventos acadêmicos está situada no plano geral das normas antecedentes. Ao realizar essa atividade, o trabalhador reali-menta esse R1. Os resultados desta pesquisa assinalam a necessidade de um espaço garantido para que esse profissional coloque a sua voz, transmita sua experiência para seus pares. Seria relevante que os organizadores de eventos acadêmicos promovessem essa democrati-zação do espaço de fala, para que qualquer professor, independente
xão sobre sua atividade de trabalho e compartilhar seu saber, de mo-do que pudesse co-construir com seus colegas novos sentimo-dos para sua prática.
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